Há alguns meses, já quase um ano, resolvi que ia deixar crescer a cabeleira. Não sei exatamente qual foi a motivação que tive pra isso, simplesmente acordei um dia e resolvi que seria interessante trabalhar o desapego pela minha aparência (metrosexual é a puta que pariu!), e que a melhor maneira de fazer isso seria ignorando as duas coisas, na minha aparência, que mais me causam raiva e gastura: meu cabelo e minha barba. Não iria cortar nenhum dos dois por um ano. Queria ficar igual Tom Hanks em Náufrago, naquela segunda parte em que ele parece um merovíngeo.
A barba durou pouco. Três meses após a decisão, acabei raspando a parada. Comer em público estava se tornando profundamente constrangedor.
Já o cabelo… esse, quando era curto, me enchia o saco por ser indômito. Não importava quantas vezes eu penteasse, esfregasse, puxasse, xingasse, gritasse ou balançasse a cabeça: ao acordar, a única maneira de fazê-lo assentar era tomando um banho. Nada além de uma sessão de encharcamento era capaz de colocar o miserável na linha e torná-lo mais cooperativo. O bicho simplesmente era como aqueles informantes da máfia: pra dançar conforme a música, precisava ser constantemente ameaçado com a possibilidade de ficar debaixo d’água permanentemente. Coisa que, se você não for o Michael Phelps, não soa muito agradável.
Pela manhã eu SEMPRE acordava com o penteado do Goku, e isso me tirava do sério, porque sempre gostei mais dos quadrinhos americanos, onde os personagens têm cabelos irrepreensíveis, do que dos japoneses, com seus penteados pós-modernos.
- Mas… peraí, cara! Se o teu problema eram os cabelos descontrolados, o ideal não seria RASPAR o troço? De onde vem a idéia estúpida de que deixar crescer vai tornar sua agonia menor?
Pois é. Não tem lógica. Mas, como eu disse, o objetivo não era resolver o problema do cabelo, mas aprender a não dar a menor pelota pra ele. Quer ficar zoado? Fique. Quer criar periscópios? Crie. Torne-se um criadouro de novas espécies de fungos e piolhos, qual as madeixas de Bob Marley. Não tenho nada a ver com isso.
(continuei - e continuo - lavando tudo diariamente, entretanto)
Em março, falei sobre isso aqui. Deixá-lo crescer não foi simples. Descobri que madeixas, como as pessoas, têm três fases de existência: a infância, quando são hiperativas e descontroladas, necessitando de muito, muito jeito e paciência para entrar na linha; a adolescência, que é um estágio intermediário, no qual são desengonçadas, idiotas e ridículas; e, por fim, após crescer o suficiente, tornam-se adultas e passam, ao menos até certo ponto, a entender o funcionamento da vida, a saber se portar em público, a ter um pouco mais de bom-senso.
Ao menos as minhas são assim. Existem cabelos por aí que, a exemplo de certos seres humanos, não têm solução alguma, estão irremediavelmente estragados e é preciso aceitá-los como são, com todos os seus inúmeros, insuportáveis e inaceitáveis defeitos, e a vida seguirá seu rumo.
Enfim. Oito meses após minha decisão de deixar barbeiros morrerem de fome, no começo de junho, minha namorada me informa que a qualquer momento os anos 80 vão me telefonar pedindo o penteado de volta. E, veja só, eu até aceitaria desenvolver os fungos e piolhos, mas mullets? Não! Isso, não! Isso não ficava bem nem no MacGyver!
Tomado pelo desespero, mas sem querer cortá-los curtos novamente, em vez de ir me consultar com uma especialista em soluções para esses casos (uma mulher), simplesmente fiz o que sempre fazia quando até um macaco bem-treinado seria capaz de fazer o meu corte: fui a um macaco bem-treinado, um barbeiro.
Não preciso dizer que ele fez merda, mas digo do mesmo jeito: ele fez merda. Deu-me um cabelo capaz de me fazer consultar preços de chapelarias pela internet e de pensar em cancelar uma viagem de trabalho. Quem respeitaria um técnico com um corte daqueles? Eu não respeitaria.
Então entendi que praticar meu desapego era JUSTAMENTE passar por aquela fase desgraçada sem me desesperar. Cabelo é cabelo, caralho. Não é como se alguém fodesse meus dentes da frente, seria só esperar e aquela porra cresceria de novo. E cresceu, e está crescendo. Meu plano era o de cortá-lo como era em outubro ou novembro, completado, então, um ano a partir da data do foda-se inicial. Estou repensando a idéia, entretanto.
Não sei se quero ter uma daquelas cabeleiras típicas de metaleiros, mas sei que é muito agradável acordar de manhã e, com uma mera, ridícula e inofensiva passada de mãos, colocar todos os fios no lugar em que deveriam ficar. Com exceção das ventanias que jogam diante dos meus olhos uma revoada de fios, me impedindo de ver qualquer coisa além de uma massa castanha disforme e meio borrada pela proximidade, e de levar mais de 5 minutos SÓ pra lavar essa munha durante o banho, e outros 5 para secá-la, a juba não causa qualquer incômodo.
Além do mais, cobre a parte de cima do meu rosto, os olhos e o nariz. Quando minha barba cresce, cobrindo a parte de baixo, queixo e boca, ninguém mais é capaz de enxergar através da pelagem e ver minhas feições, de fato. O que me torna, veja só, um homem mais interessante. No escuro e em silêncio talvez eu até me torne um cara bonito!
Os cabelos compridos ficarão, pois. O que não sei é COMO fazer, na verdade, com QUEM falar pra mantê-los sempre numa extensão aceitável, com um corte sem firulas. Terei que cometer uma leve contravenção prevista no código dos irmãos caminhoneiros e arranjar uma cabeleireira. Mas isso é perdoável, desde que esse leve lampejo de viadagem seja compensada por um aumento ou pela inclusão de novas atitudes grosseiras.
Sem problema: começo a coçar o saco ou a palitar os dentes em público e fica tudo certo.

Meu cabelo quando acordo fica DBZ style, também, porém possuo bem menos que o senhor. Jesus.
Sinto informá-lo, mas cabelereiro bom é sempre veado.
Vais ter que abraçar o metrossexualismo…
Você já tentou o contrário, quer dizer, o supercurtinho ? O corte “máquina 4″ é ótimo. É fresquinho, não embaraça, não amassa e é uma delícia de passar a mão. E o melhor é que pode ser feito em casa, sem marcar hora e sem pagar nada (além da máquina, claro). Desapego total !
;o)
Pedro! Você só tem que ir em alguém que seja capaz de cortar de maneira que não tire no comprimento, mas que mantenha o corte. Tô deixando o meu crescer e veja só, não tá sendo fácil! Mas a mulher que tá cortando o meu sabe controlar a cabeleira, nem uso mais chapinha pra controlar tudo de tão boa a mulher é ¬¬
AH! Essa fase “to crescendo” do cabelo passa….