A situação toda começou de modo tão sutil que seria impossível prever que terminaria daquela maneira. Senhoras caminhando preferiam atravessar a rua a cruzar com ele, mães acompanhadas dos filhos cobriam os olhos das crianças para que não pudessem vê-lo, o porteiro do prédio deixou de cumprimentá-lo, a empregada não mais arrumava seu quarto, alguns rapazes, geralmente em grupo, faziam provocações e riam. Os solitários se limitavam a lançar olhares de desaprovação.
Ele a tudo ignorava, convicto, ciente de seus direitos de cidadão.
Mas a coisa foi ficando mais séria. Na segunda semana seu chefe, alegando uma suposta falta de comprometimento, acabou por despedi-lo. Sua namorada deixou de ligar e atender suas ligações. Seu (agora ex) sogro não o deixava entrar em casa para falar com ela. Seus amigos fingiam não conhecê-lo, alguns até o hostilizavam quando forçava contato. Padres faziam o pelo sinal ao vê-lo e pastores erguiam suas bíblias, enquanto conclamavam fiéis a se juntarem numa oração fervorosa em prol daquele rapaz tomado pelo Inimigo.
Certo dia, voltando cabisbaixo da padaria (onde o padeiro se recusara veementemente a atendê-lo), notou um movimento atrás de si e, antes que se virasse, tomou um golpe nas costas que o jogou no chão com violência. Três garotos de 15 ou 16 anos riam, enquanto um quarto desferia chutes e proferia impropérios contra ele. Levantou-se e correu. Ao virar a esquina pensou estar a salvo, mas um grupo de velhinhos que jogava dominó chegou à conclusão que alvejá-lo com as pedras seria passatempo muito mais interessante, e assim o fez. Atravessou a rua esbaforido, e quase foi atropelado por um motoqueiro que cruzara o sinal vermelho com a intenção de passar por cima dele. Um menino colocou a cabeça para fora da janela de um carro e cuspiu em seu rosto. Enquanto limpava a saliva grossa dos olhos com as costas da mão, uma senhora o atacou com um guarda-chuva.
Disparou novamente em desabalada carreira e no caminho cruzou um parquinho. Ao vê-lo, as crianças principiaram a chorar praticamente em uníssono. Mães indignadas partiram para cima dele armadas de bolsas, tamancos, paus e pedras. Um garoto mais intrépido, ao notar a chegada iminente do auxílio materno, jogou terra em seus olhos e correu. Sem enxergar, assustado com a gritaria das mães cada vez mais próxima, seguiu seu caminho como pôde, tropeçando aqui e ali, parando a cada cinco passos, sem saber se fugia ou limpava os olhos.
Quando voltou a enxergar, olhou para trás imaginando estar livre de suas perseguidoras, mas as mulheres, num misto de indignação e nojo, continuavam a segui-lo. Não apenas elas, como também os adolescentes que encetaram a série de agressões e alguns idosos arremessadores de dominó. E a cada momento mais e mais transeuntes se juntavam a esses e partiam em seu encalço. Começou a nascer um coro pedindo linchamento. Cada vez mais amedrontado, percebeu que era hora de ir para casa. Tentou cortar caminho por um shopping, mas os seguranças impediram sua entrada e escorraçaram-no aos pescotapas. Um deles até chegou a dizer, dentes cerrados de ódio:
- Sorte sua a gente não andar armado!
Temeu por sua vida e partiu para casa correndo o mais rápido que podia. A turba que o perseguia, agora já uma pequena multidão, seguia atrás, implacável, os gritos de “lincha! lincha!” intercalados com ofensas do mais baixo calão. Conseguiu chegar ao seu prédio antes de ser alcançado, mas o porteiro divertiu-se ao velo em apuros e fingiu não ouvir seus apelos para abrir a portaria. Pulou o portão. Tentou pegar o elevador, mas duas garotas lá dentro desferiram tantos pontapés em sua direção que subiu os sete andares de escada mesmo.
Ao entrar em casa, mal conseguia respirar. O coração batia de forma tão precipitada que temeu enfartar, apesar dos vinte e poucos anos. Tentou recobrar a calma, mas sua família, à mesa de jantar, começou a arremessar talheres em sua direção. Trancou-se no quarto.
Ouviu o povo lá embaixo gritar furiosamente. Acabou se rendendo: tirou a camiseta que continha, em letras garrafais, a mensagem “EU ACREDITO NA VEJA!”, pegou seus buttons do PFL, as matérias e até mesmo o livro do Diogo Mainardi e jogou pela janela. Lá embaixo a multidão aplaudiu efusivamente, antes de seguir para a praça, disposta a queimar tais abominações.
E restabeleceu-se a paz na comunidade.

Ficou muito bem escrito e muito bem bolado ;) apesar de eu não acreditar na VEJA(a revista de cárater mais sensacionalista do Brasil) e detestar o PFL(o partido mais conservador, direitista e vendido aos interesses financeiros do país). Acredito que o texto ficaria mais coerente se, ao final, o cara estivesse com uma camisa escrita EU ACREDITO EM LULA e bottons do PT e de José Dirceu.
Eu não acredito no Lula, tampouco no Zé Dirceu. Mas também não acredito nessa lenga-lenga cretina dos reacionários, que ficam dizendo o tempo inteiro que o PT jogou o país na corrupção como se, durante o governo deles, a nação não fosse um antro de imoralidade.
É horrível saber que uma situação tão promissora descambou pra isso que é hoje, que determinados indivíduos do PT se renderam ao joguinho escroto que é a política brasileira.
Mas uma coisa é certa: não foram eles os criadores e também não são os mantenedores do jogo. E eu prefiro ignorar os sintomas e atacar a doença.
E agradeço os elogios. =)
A doença cresce, nós somos só placebo.
a coisa é séria deste modo: nem EU acredito na veja.