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Dos agradecimentos

Cabeças, escrevo esse post em agradecimento a todo mundo que se ofereceu pra ajudar de qualquer maneira, seja doando sangue, repassando o texto ou fazendo orações. Não acredito em rezas e deuses e intervenções misteriosas vindas da consciência cósmica universal, portanto não tenho o mais remoto ímpeto de fazer solicitações a javé em situações de crise, mas sei que na cabeça de quem acredita nessas coisas - e digo isso sem querer fazer julgamentos ou estabelecer juízo de valor - uma oração vale muita coisa.

A todos os que mandaram e-mails repassando minha mensagem original, arriscando incomodar conhecidos; aos que linkaram este blog, queimando a própria reputação ao dizer “Ei, vejam, eu leio esta merda!”; aos que abriram mão de parte das seus leucócitos, globulinas, hemoglobinas e plaquetas por alguém que nem conhecem; aos que só deram uma força nos comentários, mesmo que não tenhamos nenhum contato: obrigado, de verdade. Sou neurastênico, mas não ingrato. Meu sangue está à disposição de quem precisar, assim que puder doá-lo de novo. Também tenho um rim em bom estado, medula funcional e um fígado tinindo, intocado pelos malefícios do álcool. O cérebro eu também não tenho usado, sabem, mas esse não ofereço: tem valor sentimental.

Minha irmã está muito, muito bem. Cortou o cabelo bem curtinho, tá uma graça (mas não teve TUTANO pra raspar a cabeça - RÁ!), a quimio nem começou e o câncer já entrou em remissão, e o sangue da transfusão que ela recebeu no primeiro dia está se mantendo firme e forte até agora. Mais de uma semana sem precisar de novas doses de hematócitos alheios é muita coisa pra alguém nessas condições. Nos vemos todo dia e espero que isso faça tão bem a ela quanto faz a mim.

Enfim, finalmente boas notícias, ainda que sejam fruto de uma situação tão desagradável. Mas se há algum traço de fé em mim - e talvez haja, embora eu duvide - é aí que ele se manifesta: na crença de que a vida é feita de merda atrás de merda, então quando de uma delas sai alguma coisa boa, agradeçamos por isso. Já é melhor do que nada, afinal.

E ainda devo ir a Floripa ver a peça. Muito foda, vai dizer?

Do excesso de carga

No meu mundo perfeito, o sofrimento seria uma coisa mensurável por uma razão bem simples: seria físico, visível, palpável. O seu sofrimento seria um fardo real, que você carregaria nas costas. Uma pessoa jamais poderia mascarar ou exagerar o próprio sentimento, todos poderiam ver se aquela reação era real ou não, pelo tamanho do saco de pedras preso às costas de quem se queixasse.

Com o tempo, essas pedras iriam diminuindo de tamanho até sumir e sua musculatura iria se acostumando ao peso, de modo que toda carga de sofrimento que você recebesse seria mais e mais tolerável. Simultaneamente, cada acontecimento desagradável faria surgir uma nova pedra, de tamanho e peso que iria variar de acordo com a intensidade do trauma.

Seu relacionamento acabou? Tome aqui uns dez quilos. Arranjou uma infecção urinária? Tome quarenta quilos. Alguém que você ama muito morreu inesperadamente em um acidente estúpido? Tome duzentos quilos. Quinhentos. Uma tonelada.

No meu mundo perfeito, eu poderia tirar esse fardo das suas costas e carregá-lo. E juro que faria todo o esforço do mundo pra te poupar disso, mesmo que só por algumas horas, mesmo que tivesse que passar um pedaço dele pra todo mundo que eu conheço e que sei que aceitaria ajudar. Porque é um fardo grande demais pra qualquer um.

Mas tudo o que eu posso fazer é te ouvir e falar com você, Gabi.
E torcer pra ser suficiente.

Tô aqui, não esquece.

Amigo é pra essas coisas!

- Você parece bem.
- Obrigado. Eu estou.
- Sem aquele copo de bebida na mão, olha só… outra pessoa.
- Aquilo não me ajudava em nada.
- Não mesmo. A bebida, em certos casos, só atrapalha.
- Pois é.
- Fecha os olhos pro que a gente não quer ver.
- Exato.
- Nubla os pensamentos, nos faz esquecer os problemas por algumas horas.
- É por aí mesmo.
- E aí você não conseguia mais enxergar o que aquela miserável fez com você.
- E ela fez estrago!
- Põe estrago nisso, você ficou na merda.
- Até o pescoço!
- Até o queixo, e só não foi até a boca porque conseguiu levantar o nariz no último segundo!
- Não foi pra tanto!
- Ah, foi, sim. Você parecia um trapo.
- …
- Um farrapo humano.
- ……
- Um verme, um nada, um…
- Já entendi!
- Mas você está melhor agora!
- Ah, sim, bem melhor!
- Conseguiu um novo emprego!
- Uma maravilha, rapaz, meio período, ambiente desafiador…
- Lógico que não é nada como aquela gerência que você tinha naquela outra empresa…
- Mas depois de tanto tempo parado, também…
- Sim, tem isso. E, além do mais, contratar alguém com sabidos problemas de alcoolismo…
- Eu não sou alcóolatra, foi um momento de fraqueza!
- Eu sei, eu sei, mas eu sou teu amigo, afinal, te conheço há anos! Eles não sabem. Pra eles, você era só um bebum!
- Bom, de certa forma, sim, mas meu currículo…
- Ah, nem é lá isso tudo, vamos combinar.
- Não?
- Mas não ligue pra isso, rapaz. Voltou a receber seu salário, está quitando as dívidas, refazendo sua vida…
- Tô pensando até em remobiliar o meu apartamento!
- O que eu duvido é que alguma loja vá te abrir um crediário. Seu nome tá nos serviços de proteção ao crédito, né?
- É…
- É uma merda pra tirar, essas coisas não vencem mais dentro de cinco anos…
- Não?
- Não. Pra eles, você será eternamente inadimplente!
- Mas que merda!
- Tudo isso porque aquela vagabunda levou tudo o que você tinha!
- TUDO!
- Não te deixou nada!
- NADA!
- E você, que fazia tudo por ela!
- TUDO! Garçom, me traz um uísque!
- Tirou-a da miséria, deu do bom e do melhor…
- Apenas do melhor!
- E ela te largou por aquele moleque, todo saradão, marombado. Um zé-ninguém!
- Mulher não sabe de nada, mesmo.
- Tudo bem que ele tem aquela BMW e é concursado da câmara, mas isso não o torna melhor do que você!
- De jeito nenhum!
- Só porque, com metade da idade, tem o dobro do dinheiro e o triplo do patrimônio? Oras!
- É a vida…
- Sim, e é uma merda.
- Garçom, mais um! Duplo e sem gelo!
- Calma aí, rapaz. Teu trabalho amanhã…
- Ah, empreguinho…
- Não é tão ruim, vamos lá. Tá certo que você é praticamente um estafeta…
- Mas é melhor do que nada!
- …o dia inteiro levando e trazendo documentos praquele bando de moleques engomadinhos…
- Paga as contas!
- É, em duzentas parcelas com juros abusivos.
- Garçom! Caipiroska, por favor! Pouco açúcar, menos limão, muita vodka!
- E teu carro não tá valendo muita coisa.
- Tá andando, é o que importa.
- Sim, mas como patrimônio.. a pintura descascando, os pneus meio carecas…
- O motor tá bem.
- Por enquanto. Tem quantos anos. Seis? Sete? É quando começa a dar problema!
- Será?
- Vai dizer que de vez em quando ele não ensaia umas engasgadas? Naquelas manhãs mais frias?
- Hm… até que sim, ultimamente preciso girar a chave quatro ou cinco vezes na ignição pra dar a partida.
- Não dou três meses pro bicho arriar.
- Mas que desgraça! Ô campeão, desce uma cachacinha, por favor!
- Mas a vida é assim mesmo…
- E assim mesmo é a vida…
- E as mul… rapaz, essa cachaça é forte! Você virando desse jeito, vai com calma!
- Nada que eu não agüente, já tive piores.
- Mas como eu dizia, e as mulheres, nada?
- Nada!
- Tsc. Elas andam mais exigentes.
- Rá! Nem me fale!
- E você tá meio barrigudo, esses cabelos rareando…
- Será que é isso?
- Os dentes amarelados por causa do cigarro…
- Mas eu parei!
- Mas leva dez anos pros efeitos sumirem mesmo.
- Dez anos?
- Dez anos, foi o que eu li. Será que viveremos isso tudo?
- Nunca se sabe.
- Eu acho que ainda chego lá, mas você…
- Eu o quê?
- Anda meio pálido, né? Os olhos meio avermelhados…
- É a bebida!
- Ou pode ser alguma coisa. Um câncer…
- Deus me livre!
- Dizem que as pessoas da nossa idade têm maior chance de desenvolver diabetes.
- Diabetes é foda.
- Ô! Pense só: anos e anos vivendo com agulhadas.
- Um sofrimento, ainda mais com meu medo de agulhas.
- Sua mãe teve diabetes, não?
- Teve. (Ô distinto, outra dessa branquinha!)
- As chances aí são ainda maiores.
- É mesmo?
- Isso é tudo genético, rapaz. Eu iria ao médico, se fosse você.
- É… vou pensar nisso…
- Bom, eu tenho que ir pra casa.
- Ué, mas já? É cedo ainda, você não bebeu nada.
- Nah, eu só vim molhar o bico, ver como você tava.
- Ah…
- Mas o que é isso, bicho? Se anima! Quando eu cheguei você tava tão pra cima, feliz, empolgado. Que foi que te deu?
- Sei lá…
- Vamos que vamos, velhinho, que é pra frente que as malas batem!
- É…
- Bom, vou lá que a patroa e os moleques estão me esperando. Ó, vê se pára de beber tanto, que qualquer dia desses eu te chamo pra jantar lá em casa, hein. Dá cá um abraço!
- Tá, tá…
- E você, ô garçom! Vê se pega leve com ele, hein? O cara é meu amigão!
- Do peito!
- Do peito! Me preocupo com ele pra caralho!
- Como um irmão!
- Isso! Um irmão!
- Amigo mesmo é você, viu, cara?
- A gente faz o que pode.
- Você… e o garçom. Ô, chefia! Dá um daquele andarilho tarja preta aí!

Rotas paralelas

Tenho essa idéia a respeito de certas pessoas que eu não conheço e que fazem coisas que, de acordo com meu entendimento, não deveriam estar fazendo. Fico olhando pra essas pessoas, pensando nelas por horas a fio (de verdade, faço mesmo isso!) e imaginando que talvez o que faltou na vida delas foi um amigo de verdade, pra olhar nos olhos e dizer, com toda a sinceridade: essa não é a sua praia, você não tem esse talento.

Porque só um bom amigo faz algo assim. Diz que você foi um escroto quando agiu escrotamente, que você foi injusto ao agir injustamente, que foi prepotente, intolerante, ignorante, estúpido ou que está fazendo uma coisa para a qual não foi talhado. É lógico que inimigos dizem isso com muito mais freqüência, mas eles dirão sempre, não importa o que você faça. De um amigo, deduz-se que uma informação dessas seja a voz da verdade. Teoricamente, o último desejo de um amigo é ferir seus sentimentos, ainda mais de forma deliberada. Te criticar pelo prazer de criticar não é o que ele pretende, mas te ajudar a ver seus erros e a corrigi-los.

Teoricamente.

Eu imaginava que essa era uma tarefa fácil, também. Crítico que sou, pensava que, conhecendo aquelas pessoas que cantavam sem saber cantar, escreviam sem saber escrever, desenhavam sem saber desenhar, seria só torcer o nariz e dizer “Cara, isso aqui tá muito ruim, sequer tem potencial pra melhorar. Larga esse lance, não é pra você, vá fazer outra coisa!”. Faço isso comigo mesmo o tempo todo, me recriminando pelas escolhas que faço, me esculhambando pelas pisadas na bola que cometo, por me meter a dizer sem saber o que digo, a fazer sem saber o que faço. O que me impediria de fazer com os outros?

Pois é difícil. Muito, muito difícil. Não consigo, não sei como fazer, como indicar o caminho que alguém está seguindo e gritar “EI! VOCÊ PEGOU O RUMO ERRADO! FICOU IDIOTA DE REPENTE?”. Vejo amigos enveredando mais e mais para a idiotia final, para aquele ponto sem retorno em que você pode apontar e dizer “Eis aí um belo exemplar de beócio!”, como um assistente de zoológico mostrando os animais enjaulados numa visita guiada. E vejo impassível, sem nada fazer para evitar.

Imagino se sou eu que espero demais das pessoas, que presumo que pelo fato de considerar alguém inteligente, essa pessoa há de tocar a própria vida de forma inteligente, sem cagar tudo pelo caminho de maneira tal que pareça irremediável. Talvez seja. Ou talvez haja alguma outra explicação que me faça entender por que razão tantos dos meus conhecidos vêm se mostrando cretinos contumazes, ultimamente. Eles pioraram? Eu melhorei? Eu piorei e eles melhoraram? Pioramos ambos? Melhoramos ambos, um para cada lado? Não sei dizer.

O que eu sei é que aí estão alguns dos meus amigos, correndo em direção ao prêmio de maior idiota do mundo, e eu não faço nada. Apenas sento e observo, impotente. Me faz lembrar uma tirinha em quadrinhos que vi um tempo atrás, em que um sujeito dizia a outro: “Se você não fosse tão idiota, eu poderia te dizer quão idiota você é!”.

Uma pessoa dessas, que deixa de ouvir a voz do próprio bom-senso, vai ouvir a minha? Duvido.

Só resta me afastar, caminhar em direção a outras convivências. Com a esperança de que essas tenham mais visão e noção das coisas do que as outras, com as quais perdi tanto tempo. Ou então - opção que venho seguindo atualmente - simplesmente abraçar a solidão e seguir com ela, como num daqueles filmes bregas, rumo ao pôr do sol. A solidão é o que é, não é inteligente ou burra, boa ou ruim. Como ela se parece, como se pinta, como se apresenta… tudo isso fica nos olhos de quem vê.

A idiotia também, alguns podem dizer, argumentando que há, da minha parte, certo grau de intolerância. Sim, há da minha parte um BELO grau de intolerância, um grau e tanto, impressionante até para mim. Mas a idiotice grita sua presença aos meus ouvidos com tal força que me desconcerta. A solidão é silenciosa.

Então fico com ela.

Ele era pesquisador de música. Sua especialidade era o início do século 20, o teatro de revista, a era do rádio, as marchinhas de carnaval. Conhecia a fundo nomes que vão gradativamente sumindo do conhecimento popular, principalmente Lamartine Babo. Cantarolava as coisas mais inusitadas, que te faziam imaginar que eram composições dele, retiradas ali, no momento, daquela cabeça de pensamentos vagos, aéreos, insondáveis. Não eram. Eram boas músicas antigas que caíram no esquecimento.

Ela trabalhava com música. Tinha um projeto grande de ensino de música a crianças de comunidades carentes. Formou uma orquestra só de meninos e meninas de famílias de baixa renda que aprenderam, a duras penas, a tocar instrumentos de sopro. Carregava-os pra cima e pra baixo, se apresentaram em vários lugares do país e fora dele. Falava dos meninos dela com a paixão de quem vê em ajudar as pessoas o objetivo mais agradável, divertido e nobre que existe.

Formavam o casal mais legal que já conheci, mas ele foi embora em 2006. Ela - saudades, talvez? - foi agora, em 2008.

A vida é uma coisa tão besta…

Minha irmã fala sobre a Tina com muito mais propriedade do que eu, até porque eram mais próximas.

…esta puta.

A vida tem um jeito esquisito de ensinar determinadas lições. Esquisitos, não por isso menos eficazes.

Vira e mexe ela berra nos meus ouvidos com toda a força - e ela pode berrar bem alto - que eu não preciso de amigos, e não deveria tê-los.

Apesar de estar errada na forma, ela está certa no mérito.
Captada a mensagem, resta apenas agir de acordo.




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