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Desvio

E lá vai o Enrique dizer o que eu deveria ter dito. O que eu queria ter dito, mas não tenho tanta capacidade, nem a elegância, nem a paciência. O começo do post, o título, parece comigo: traz um palavrão, começa mandando um foda-se. Até aí eu chegaria, mas iria além. Nos palavrões, digo. O Enrique só solta o palavrão para estabelecer a toada, a partir daí segue, como de costume, com bom-senso e tranquilidade. Sem sarcasmo, cara, sem cinismo. Que inveja tenho de gente sem cinismo! Sinto uma inveja orgulhosa desse filho da puta!

Vai ler o texto do Enrique, porque ele está certo.

Das escolhas profícuas

Não quero ser acusado de não reconhecer ou valorizar as coisas boas que acontecem, então permitam-me dizer que tive sorte ao adotar meu gato, o Boris.

Passei anos reproduzindo o discurso padrão dos anti-felinos: que são animais ariscos, pouco confiáveis, sem qualquer princípio de companheirismo, que não dão valor aos donos, etc. E o Boris faz questão de comprovar estarem erradas todas essas afirmações.

Tá certo que ele tem lá seus surtos de maluquice, se mete a fazer zona, fica elétrico e atacado com bastante regularidade, é meio desobediente e muito, muito catarrento, mas eu não poderia querer um animal melhor. O bicho é extremamente bonzinho, é carinhoso comigo e com a Fernanda – da forma meio doida dele, de subir no meu colo e morder meu nariz ou abocanhar nossas canelas quando passamos pelo corredor, mas é -, aceita as reuniões sociais em casa com a maior tranqüilidade do mundo. Não se isola, não foge das visitas, não recusa carinho nem destrata ninguém, e olha que ele tinha tudo para ser desconfiado: a falta de um pedaço do rabo deixa claro que o infeliz já passou por maus bocados na vida. Mas ele não liga para nada disso!

estressado com o novo apartamento, primeiro dia

É um animal dócil e de ótima índole, e mesmo quando me irrita e eu o escrotizo, imobilizando-o e escovando-o longamente (coisa que ele ODEIA), é incapaz de me atacar. Reclama, mia, debate-se, até morde, mas nunca para arrancar sangue. As poucas vezes em que me machucou de verdade, de deixar cortes e arranhões nas minhas mãos, dedos e/ou braços, nós estávamos brincando e ele se empolgou. E até aí um labrador também já me machucou algumas vezes, então isso não é exclusividade dessa ou daquela espécie!

Ele já se adaptou à gente e já é parte da casa, já é um membro da família e nossas decisões já o levam em consideração. Parte do orçamento é para a ração do Boris, parte do tempo é para dar atenção ao Boris e viagens só são possíveis se houver como levá-lo com a gente ou providenciar para que cuidem dele. A vantagem é que ele não é um animal territorialista ou anti-social, então largá-lo em uma casa com outros gatos só é problema para os outros gatos. Para ele, não há tempo ruim. Vivo lendo textos de pessoas falando sobre como desestressar um gato após uma mudança, após uma faxina, após levá-lo ao veterinário… e nada disso é necessário com o Boris. Também nunca precisei educá-lo para não mexer na minha comida – ele respeita isso naturalmente -, ou ensiná-lo a identificar onde está a caixa de areia – ele a encontra, mesmo quando somos obrigados a mudá-la de lugar.

Ainda estressado, um mês depois

Escolhemos esse gato do jeito errado. A Fernanda viu uma foto do bicho, achou lindo e resolveu que era o que ela queria. Mas, por sorte, acabamos encontrando o animal certo. A pessoa que se desfez dele, largando-o no canteiro de uma via expressa, não faz idéia do bom companheiro que perdeu, mas foi esse ato impensado, desumano e cruel que acabou fazendo com que ele fosse parar na minha casa. Então obrigado, seu trouxa.

Uma pitada de otimismo

Primeiro eu acreditei na família. Que eram meus protetores, que estavam ali pra me apoiar e que se importavam com a minha felicidade. Que trabalhavam e trabalhariam sempre em prol do que era o melhor pra mim. E mantive essa idéia por algum tempo, mas por bem pouco. Todo esse ideal digno da TFP, todo esse pensamento de que a FAMÍLIA é uma coisa bonita e grandiosa foi sendo diluído e desconstruído, tijolo por tijolo, antes que pudesse sequer ter fundamentos na minha cabeça. A família é uma ilusão, é uma conversa idiota da igreja católica e dos reacionários. Não existe “A FAMÍLIA”, essa entidade superior e infalível. Existe gente perturbada e fodida, que erra e massacra os filhos sem saber, que causa cicatrizes e ferimentos eternos, e gera novas pessoas perturbadas e fodidas, que reproduzem o ciclo em cima das novas gerações. Quem dera construíssemos o caráter dos pequenos; nem pra isso nossas cagadas servem.

Depois disso veio o amor. Essa coisa bonita, esse poder supremo, pairando sobre nossas cabeças e conduzindo cada um, individualmente, a seu destino inexorável. Se deus é o amor, o amor é deus. E, como deus, trabalha por meios tortuosos e inexplicáveis. Confiei no amor e o amor, amigo, não existe. Existe a atração física, existe a boa companhia. Não existe esse poder supremo que te faz fechar os olhos às outras oportunidades, esse choque nas sinapses que clareia sua mente e mostra a realidade permeada de corações, com o nome da sua mulher/homem pipocando em todos os lados. Existe o querer ficar junto, mas é um sentimento tão volátil e impermanente quanto qualquer outro. Hoje está aqui, surge sabe-se lá de onde. Amanhã foi embora, mudou seu foco, partiu pra outro alvo. Ou apenas sumiu, sem qualquer outro alvo, em absoluto. O amor é uma construção social. Você não ama ninguém, ninguém te ama. São apenas hormônios na sua corrente sangüínea, substituídos pelo conformismo e pela rotina. Fiar-se nisso como algo sólido, confiável e eterno é o cúmulo da estupidez. Cometi esse erro, não cometo mais. Tornei-me um cínico.

Mas ainda existia a amizade. A amizade era o que o amor não é, nunca foi, jamais será: era o companheirismo incondicional; a companhia que estende a mão nas piores horas; a lealdade acima de tudo. O amigo é quem nunca fará a seu respeito um julgamento precipitado, o amigo é quem sempre te dará o benefício da dúvida. O amigo te defende, ainda que te veja errado; te critica apenas para você, buscando sua melhora. O seu amigo te respeita e te faz justiça. E amores vêm e amores vão, mas os amigos permanecem. Seu amigo é o irmão que você pôde escolher, é quem te liga nas horas difíceis e festeja a sua felicidade. A amizade, ah, a amizade…

A amizade não existe. Quando você pensar que as coisas não podem piorar, essas pessoas vão te deixar sozinho. Serão você e seus problemas, você e seus pensamentos.

Não existem amigos, não existe família e não existe amor. Existe você, aí, fodido e sozinho. E o mundo lá fora, que ainda não se deu por satisfeito, não te ferrou ou isolou o suficiente. Existe a vida, esse processo miserável, árduo e gradualmente desagradável. Dante estava errado. Não é na porta do inferno que se lê a placa “Deixai toda a esperança, vós que entrais”. É na saída pra cá.

(e este será o prefácio do meu próximo livro de auto-ajuda)

Dos agradecimentos

Cabeças, escrevo esse post em agradecimento a todo mundo que se ofereceu pra ajudar de qualquer maneira, seja doando sangue, repassando o texto ou fazendo orações. Não acredito em rezas e deuses e intervenções misteriosas vindas da consciência cósmica universal, portanto não tenho o mais remoto ímpeto de fazer solicitações a javé em situações de crise, mas sei que na cabeça de quem acredita nessas coisas – e digo isso sem querer fazer julgamentos ou estabelecer juízo de valor – uma oração vale muita coisa.

A todos os que mandaram e-mails repassando minha mensagem original, arriscando incomodar conhecidos; aos que linkaram este blog, queimando a própria reputação ao dizer “Ei, vejam, eu leio esta merda!”; aos que abriram mão de parte das seus leucócitos, globulinas, hemoglobinas e plaquetas por alguém que nem conhecem; aos que só deram uma força nos comentários, mesmo que não tenhamos nenhum contato: obrigado, de verdade. Sou neurastênico, mas não ingrato. Meu sangue está à disposição de quem precisar, assim que puder doá-lo de novo. Também tenho um rim em bom estado, medula funcional e um fígado tinindo, intocado pelos malefícios do álcool. O cérebro eu também não tenho usado, sabem, mas esse não ofereço: tem valor sentimental.

Minha irmã está muito, muito bem. Cortou o cabelo bem curtinho, tá uma graça (mas não teve TUTANO pra raspar a cabeça – RÁ!), a quimio nem começou e o câncer já entrou em remissão, e o sangue da transfusão que ela recebeu no primeiro dia está se mantendo firme e forte até agora. Mais de uma semana sem precisar de novas doses de hematócitos alheios é muita coisa pra alguém nessas condições. Nos vemos todo dia e espero que isso faça tão bem a ela quanto faz a mim.

Enfim, finalmente boas notícias, ainda que sejam fruto de uma situação tão desagradável. Mas se há algum traço de fé em mim – e talvez haja, embora eu duvide – é aí que ele se manifesta: na crença de que a vida é feita de merda atrás de merda, então quando de uma delas sai alguma coisa boa, agradeçamos por isso. Já é melhor do que nada, afinal.

E ainda devo ir a Floripa ver a peça. Muito foda, vai dizer?

Do excesso de carga

No meu mundo perfeito, o sofrimento seria uma coisa mensurável por uma razão bem simples: seria físico, visível, palpável. O seu sofrimento seria um fardo real, que você carregaria nas costas. Uma pessoa jamais poderia mascarar ou exagerar o próprio sentimento, todos poderiam ver se aquela reação era real ou não, pelo tamanho do saco de pedras preso às costas de quem se queixasse.

Com o tempo, essas pedras iriam diminuindo de tamanho até sumir e sua musculatura iria se acostumando ao peso, de modo que toda carga de sofrimento que você recebesse seria mais e mais tolerável. Simultaneamente, cada acontecimento desagradável faria surgir uma nova pedra, de tamanho e peso que iria variar de acordo com a intensidade do trauma.

Seu relacionamento acabou? Tome aqui uns dez quilos. Arranjou uma infecção urinária? Tome quarenta quilos. Alguém que você ama muito morreu inesperadamente em um acidente estúpido? Tome duzentos quilos. Quinhentos. Uma tonelada.

No meu mundo perfeito, eu poderia tirar esse fardo das suas costas e carregá-lo. E juro que faria todo o esforço do mundo pra te poupar disso, mesmo que só por algumas horas, mesmo que tivesse que passar um pedaço dele pra todo mundo que eu conheço e que sei que aceitaria ajudar. Porque é um fardo grande demais pra qualquer um.

Mas tudo o que eu posso fazer é te ouvir e falar com você, Gabi.
E torcer pra ser suficiente.

Tô aqui, não esquece.

Amigo é pra essas coisas!

- Você parece bem.
- Obrigado. Eu estou.
- Sem aquele copo de bebida na mão, olha só… outra pessoa.
- Aquilo não me ajudava em nada.
- Não mesmo. A bebida, em certos casos, só atrapalha.
- Pois é.
- Fecha os olhos pro que a gente não quer ver.
- Exato.
- Nubla os pensamentos, nos faz esquecer os problemas por algumas horas.
- É por aí mesmo.
- E aí você não conseguia mais enxergar o que aquela miserável fez com você.
- E ela fez estrago!
- Põe estrago nisso, você ficou na merda.
- Até o pescoço!
- Até o queixo, e só não foi até a boca porque conseguiu levantar o nariz no último segundo!
- Não foi pra tanto!
- Ah, foi, sim. Você parecia um trapo.
- …
- Um farrapo humano.
- ……
- Um verme, um nada, um…
- Já entendi!
- Mas você está melhor agora!
- Ah, sim, bem melhor!
- Conseguiu um novo emprego!
- Uma maravilha, rapaz, meio período, ambiente desafiador…
- Lógico que não é nada como aquela gerência que você tinha naquela outra empresa…
- Mas depois de tanto tempo parado, também…
- Sim, tem isso. E, além do mais, contratar alguém com sabidos problemas de alcoolismo…
- Eu não sou alcóolatra, foi um momento de fraqueza!
- Eu sei, eu sei, mas eu sou teu amigo, afinal, te conheço há anos! Eles não sabem. Pra eles, você era só um bebum!
- Bom, de certa forma, sim, mas meu currículo…
- Ah, nem é lá isso tudo, vamos combinar.
- Não?
- Mas não ligue pra isso, rapaz. Voltou a receber seu salário, está quitando as dívidas, refazendo sua vida…
- Tô pensando até em remobiliar o meu apartamento!
- O que eu duvido é que alguma loja vá te abrir um crediário. Seu nome tá nos serviços de proteção ao crédito, né?
- É…
- É uma merda pra tirar, essas coisas não vencem mais dentro de cinco anos…
- Não?
- Não. Pra eles, você será eternamente inadimplente!
- Mas que merda!
- Tudo isso porque aquela vagabunda levou tudo o que você tinha!
- TUDO!
- Não te deixou nada!
- NADA!
- E você, que fazia tudo por ela!
- TUDO! Garçom, me traz um uísque!
- Tirou-a da miséria, deu do bom e do melhor…
- Apenas do melhor!
- E ela te largou por aquele moleque, todo saradão, marombado. Um zé-ninguém!
- Mulher não sabe de nada, mesmo.
- Tudo bem que ele tem aquela BMW e é concursado da câmara, mas isso não o torna melhor do que você!
- De jeito nenhum!
- Só porque, com metade da idade, tem o dobro do dinheiro e o triplo do patrimônio? Oras!
- É a vida…
- Sim, e é uma merda.
- Garçom, mais um! Duplo e sem gelo!
- Calma aí, rapaz. Teu trabalho amanhã…
- Ah, empreguinho…
- Não é tão ruim, vamos lá. Tá certo que você é praticamente um estafeta…
- Mas é melhor do que nada!
- …o dia inteiro levando e trazendo documentos praquele bando de moleques engomadinhos…
- Paga as contas!
- É, em duzentas parcelas com juros abusivos.
- Garçom! Caipiroska, por favor! Pouco açúcar, menos limão, muita vodka!
- E teu carro não tá valendo muita coisa.
- Tá andando, é o que importa.
- Sim, mas como patrimônio.. a pintura descascando, os pneus meio carecas…
- O motor tá bem.
- Por enquanto. Tem quantos anos. Seis? Sete? É quando começa a dar problema!
- Será?
- Vai dizer que de vez em quando ele não ensaia umas engasgadas? Naquelas manhãs mais frias?
- Hm… até que sim, ultimamente preciso girar a chave quatro ou cinco vezes na ignição pra dar a partida.
- Não dou três meses pro bicho arriar.
- Mas que desgraça! Ô campeão, desce uma cachacinha, por favor!
- Mas a vida é assim mesmo…
- E assim mesmo é a vida…
- E as mul… rapaz, essa cachaça é forte! Você virando desse jeito, vai com calma!
- Nada que eu não agüente, já tive piores.
- Mas como eu dizia, e as mulheres, nada?
- Nada!
- Tsc. Elas andam mais exigentes.
- Rá! Nem me fale!
- E você tá meio barrigudo, esses cabelos rareando…
- Será que é isso?
- Os dentes amarelados por causa do cigarro…
- Mas eu parei!
- Mas leva dez anos pros efeitos sumirem mesmo.
- Dez anos?
- Dez anos, foi o que eu li. Será que viveremos isso tudo?
- Nunca se sabe.
- Eu acho que ainda chego lá, mas você…
- Eu o quê?
- Anda meio pálido, né? Os olhos meio avermelhados…
- É a bebida!
- Ou pode ser alguma coisa. Um câncer…
- Deus me livre!
- Dizem que as pessoas da nossa idade têm maior chance de desenvolver diabetes.
- Diabetes é foda.
- Ô! Pense só: anos e anos vivendo com agulhadas.
- Um sofrimento, ainda mais com meu medo de agulhas.
- Sua mãe teve diabetes, não?
- Teve. (Ô distinto, outra dessa branquinha!)
- As chances aí são ainda maiores.
- É mesmo?
- Isso é tudo genético, rapaz. Eu iria ao médico, se fosse você.
- É… vou pensar nisso…
- Bom, eu tenho que ir pra casa.
- Ué, mas já? É cedo ainda, você não bebeu nada.
- Nah, eu só vim molhar o bico, ver como você tava.
- Ah…
- Mas o que é isso, bicho? Se anima! Quando eu cheguei você tava tão pra cima, feliz, empolgado. Que foi que te deu?
- Sei lá…
- Vamos que vamos, velhinho, que é pra frente que as malas batem!
- É…
- Bom, vou lá que a patroa e os moleques estão me esperando. Ó, vê se pára de beber tanto, que qualquer dia desses eu te chamo pra jantar lá em casa, hein. Dá cá um abraço!
- Tá, tá…
- E você, ô garçom! Vê se pega leve com ele, hein? O cara é meu amigão!
- Do peito!
- Do peito! Me preocupo com ele pra caralho!
- Como um irmão!
- Isso! Um irmão!
- Amigo mesmo é você, viu, cara?
- A gente faz o que pode.
- Você… e o garçom. Ô, chefia! Dá um daquele andarilho tarja preta aí!