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Historieta Curtita XII

Depois de três horas de bate-papo ininterrupto pela internet, incluindo aí mais de meia-hora de sacanagens, a curiosidade falou mais alto e marcaram de se encontrar. Ele ia com uma jaqueta preta com o símbolo da Cyclone nas costas, ela com uma calça jeans azul clara e uma blusa rosa de alcinhas com a hello kitty no peito. Eram feitos um para o outro.

Ele tomava uma soda com gelo e limão na praça de alimentação do shopping quando ela chegou. O coitado acabou engasgando com o refrigerante, seus olhos esbugalharam, a boca se abriu de espanto. O coração disparou e a respiração mudou de ritmo.

Por alguns momentos que pareceram horas, ficou estático, pensando em alguma coisa bacana pra dizer. Por fim, sem conseguir se conter, acabou expressando seus sentimentos da maneira mais sincera possível, tal e qual iam pelo seu coração, sem medir as conseqüências:

- CACETE! VOCÊ É FEIA COMO O DIABO!

Não foi lá um relacionamento muito longo, mas foi intenso.

Nota final tardia

Engraçado que o ponto final foi colocado por desistência. Desistência da minha parte, claro, já que você - embora não tenha sido honesta o suficiente pra mandar a real e dizer tudo claramente - já tinha desistido há muito tempo. Mas você tinha razão em fingir que nada acontecera, já que aquilo sequer deveria ter começado.

Vou te dizer o que me deixa puto, hoje em dia, quando penso no fato: suas mentiras.

Você mentiu pra caralho. Nada daquelas mentiras comuns, do tipo “não, não tenho saído com ninguém”. Não ligo pra esse tipo de bobagem, nunca liguei. Suas mentiras eram piores. Muito mais torpes, muito, muito mais baixas. Ficavam na linha do “ainda gosto de você”.

Manja aqueles iô-iôs de silicone que viraram febre um tempo atrás? Que você puxa pra si com violência, dá um tapa pra repelir, puxa violentamente de volta, repele mais uma vez, e assim sucessivamente? Foi o que você fez comigo.

Claro que eu não enxerguei dessa maneira na época, ou teria - perdão pela grosseria, mas me conheço e seria bem assim mesmo - te mandado tomar no cu. Sem meias-palavras, porque eu sempre fui a parte sincera da dupla. Você só mentia.

Você ainda lembra das suas desculpas pra não me ver? Dizia que não queria sofrer e blá, blá, blá. Era estranho você dizer que gostava de mim e em seguida emendar com um “mas não quero te ver pra não sofrer”. Isso me faz levantar duas hipóteses:

1) Eu tenho um quê de torturador que te fazia sentir ímpetos de me pedir pra derramar cêra quente nas suas costas, enfiar agulhas sob suas unhas e te deixar imobilizada por 24 horas sob uma goteira; ou

2) Você gostava tanto, mas tanto de se fazer de vítima, era tão apegada à sua mania de bancar a sofredora que se permitir alguns momentos de diversão comigo ia contra essa sua postura choramingas.

Mas não era nada disso. O que você nunca teve foi coragem pra falar sério comigo e dizer, numa boa, que eu não era o que você pensava ou qualquer coisa assim. Isso eu teria entendido e superado bem rápido.

Porra, que tipo de trouxa eu era pra não enxergar, nessa desculpinha mais furada que peneira de garimpeiro, o “não quero nada contigo” que estava implícito? Que tipo de idiota eu fui?

O pior tipo: o trouxa apaixonado. Puta palavra piegas, mas é verdade. Fazer o quê?

Mas acho que eu tive sorte, de todo modo. A cada vez que você me atraía com aquele seu jeito irresistivelmente adorável e depois me repelia com um draminha ridículo - do qual eu deveria rir, mas que me deixava muito preocupado - eu ficava com uma guria qualquer, numa tentativa vã de esquecer sua existência ou substituir o sentimento que tinha por você.

Placebos, placebos.

Há algum tempo eu me arrependia de ter dado atenção a boa parte delas, mas hoje em dia isso passou, em parte: elas não queriam porra nenhuma comigo, assim como você também não. Me acostumar à rejeição imediata delas me ajudou a conviver com sua rejeição lenta.

Mas respeito mais elas do que você, já que elas foram sinceras. Você me fez de palhaço. Óbvio que a culpa não é só sua. Em boa parte é minha. Se eu não tivesse deixado, se tivesse te dado logo uma dura e dito pra você parar de viadagem, se tivesse te mandado cagar ou desocupar a moita, o processo teria sido bem mais ágil.

Não tive peito pra tanto, na época. Uma pena. Assim meu sentimento por você não teria passado por todas as etapas que passou até evaporar completamente. Depois de um tempo meus pensamentos sobre você eram repletos de mágoa. Mas isso passou.

Depois eram raivosos. Mas isso também já foi embora.

Hoje em dia, ao pensar em você, só me ocorre uma coisa: não somos conhecidos, colegas, amigos… não somos nada. Eu ignoro sua existência.

Fico meio triste quando noto o que tudo virou, porque é chato que um sentimento tão bacana quanto o que eu tinha por você acabe se tornando um vácuo. Mas não sou a primeira nem a última pessoa no planeta a carregar o arrependimento por ter dado atenção demais a quem não merecia.

E posso viver com isso numa boa.

Há (quase) um ano

Se você pensar bem, acaba concluindo que é um negócio muito, muito danoso.***
Todo mundo sabe que é perigoso. Canta-se a respeito dos riscos envolvidos, escrevem-se livros e mais livros tratando do assunto, temos acesso a depoimentos reais de quem já experimentou. Mas não damos ouvidos. Um dos maiores males da juventude é esse: achamos que sabemos tudo e que somos invulneráveis. Então topamos experimentar, crendo em nossa invencibilidade.

No começo somos cautelosos, até porque o primeiro contato causa certa estranheza. Com o passar do tempo vamos nos acostumando, ficando ousados, procurando novas formas de consumo. Nos agrada a sensação, é reconfortante, acolhedora. Esquecemos as mazelas da vida e o mundo, de repente, até parece ser um bom lugar. Ficamos eufóricos, ilimitadamente corajosos, incontrolavelmente alegres, rindo à toa. Perdemos a noção do tempo e do espaço e mudamos tudo: nossos planos, nossa rotina, nossa vida e nossa forma de pensar. Ao mesmo tempo, vamos sentindo cada vez mais necessidade do que obstrui tão convenientemente nossa visão e procurando por doses maiores e maiores. E, quando nos damos conta, toda nossa existência está baseada no vício. Com o tempo tornamo-nos distraídos, aéreos. É quando a situação começa a ficar feia. Só então entendemos o porquê de todos os avisos: a dependência muito grande, sentimos como se não pudéssemos viver sem. E realmente passa a ser impossível a partir de então.

Daí tentamos nos lembrar de como era quando não tínhamos aquilo. Sem sucesso: tudo o que encontramos são memórias obscuras de uma existência fria e solitária, algo que não desejamos, que nos assusta e do qual queremos fugir. Então procuramos com maior intensidade pelo que nos dá a sensação de acolhimento. A dependência aumenta exponencialmente.

Até o dia em que falta.

Ah, quando falta, que sensação horrível! A dor - aguda, lancinante, insuportável - chega a ser física. Queremos morrer, sumir, desejamos que o mundo exploda, que a terra nos engula. Choramos, entramos em depressão, ficamos um lixo, com raiva da gente, com ódio do mundo. Juramos, aos prantos, dentes cerrados, que nunca mais vamos querer uma migalha que seja daquilo. Amaldiçoamos o dia em que nos ofereceram e aceitamos. E sofremos por um longo e tenebroso período de tempo, até ficarmos desintoxicados.

Então nossa auto-estima volta, retomamos o ritmo e tudo parece em ordem. Como a Fênix, saímos mais fortes de dentro das cinzas. Um tanto envergonhados do nosso passado, é verdade, mas procurando não pensar a respeito e tocar a vida adiante. Mas dentro da gente, em algum lugar além do nosso alcance, uma vozinha ainda grita a plenos pulmões, clamando por mais uma dose, uma bem pequenininha, só pra matar a saudade. Tanto ela insiste que acabamos cedendo. “Dessa vez vai ser diferente”, pensamos, “agora eu sei com o que estou lidando, não vou tão longe. Eu páro quando quiser”. Qual! Pura balela! Logo depois estamos lá, como antes, afundados até o pescoço, sem conseguir pensar direito, rindo à toa e achando graça na vida. Viciados, dependentes e adorando cada minuto.

Tanta gente já morreu disso. Alguns simplesmente não se contentam com pouco e vão tomando doses cada vez maiores, abusando da sorte, até pagarem o preço por sua ousadia. Outros são extremamente dependentes e, diante da inevitabilidade de ficarem sem, preferem tirar a própria vida ou a de outrem. Muitas histórias tratando do assunto são célebres. Via de regra, trágicas.

E se você pensa que eu estou falando de drogas, errou feio.

Eu falo de amor.

Um sentimento tão semelhante a substâncias entorpecentes não pode ser boa coisa, convenhamos.

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Dizem que só depois de se ocultar - seja sob uma máscara, seja atrás de uma arma, seja sobre o poder - o ser humano mostra sua verdadeira face. E gosto de pensar que é verdade, embora atualmente tenha dúvidas a respeito. Meu alter-ego, por exemplo: é um romântico incurável. Nos 8 meses que passei sendo o Dr, acabei por escrever cerca de 4 textos sobre amor. Assunto que nunca me ocorreu tratar a respeito no Utopia.

Terei dentro de mim um latin lover latente?

Acima está um desses textos, como novidade para quem ainda não sabe por onde eu andei nos meses em que o utopia esteve parado e como lembrança para aqueles que freqüentavam o Laboratório Secreto.