Archive for the 'antiguidades' Category

De tigres e ciborgues

É curioso como a gente mantém uns hábitos desde a infância, sem se dar conta. Quando comecei a jogar videogames, em… sei lá… 1987, acho, ao ganhar meu primeiro Atari (na verdade um sucedâneo do Atari, uma plataforma 8bits de uma tal APPLE, mas que rodava os mesmos cartuchos), meu conhecimento de inglês inexistia. Logo, os jogos que não tinham títulos traduzidos eram lidos de forma literal, tipo RIVERRAIDE (depois, com uma correção de um dos meus primos, virou Riverreide, como falo até hoje). Frostbite não era “frostbáite”, mas “frostibite” mesmo, e por aí vai.

Com o tempo é claro que algumas coisas se resolveram. The Lucky Dime Keeper, por exemplo, um dos - poucos - jogos que tive pro Game Gear, eu chamava de “Deluqui dimiquépe”. Não perguntem de onde saiu isso. E, como muitos outros guris da minha idade na época, chamava os golpes de Street Fighter por nomes bizarros, tipo TÁIGUER-ROBOCOP, RALEQUIFUL e TRATRATRUGUEN, no lugar de Tiger Uppercut, Sonic Boom (se bem que eu não consigo ouvir o Guile falando Sonic Boom até hoje) e… bom, e tratratrugen. Os nomes dos personagens dos jogos também levavam seus petardos. Street Fighter, pra permanecer no exemplo, está cheio deles: Guile (em vez de “Gáiou”), Zanguiéfe (em vez de “Zanguif”), “Mister Bison”, e por aí vai.

O negócio é que mantenho alguns desses hábitos. Não existe o que me faça chamar usar a pronúncia correta com Mortal Kombat, R-Type ou Phantasy Star. Earthworm Jim, Resident Evil, Fallout e outros jogos que conheci depois de mais velho, com um nível de inglês significativamente mais avançado, chamo pelo nome correto, com a pronúncia adequada, mas Pitfall nunca vai ser chamado com um inglês remotamente parecido com o nativo, tampouco consigo pensar em Donkey Kong ou Sonic ou nos personagens de MK usando a pronúncia correta. Já foi difícil me acostumar a chamar Altered Beast corretamente! E fico imaginando se acontece só comigo, até ver meus amigos se referindo a California Games como “Jogos de Verão” ainda hoje. Tenho quase certeza, aliás, que a maioria dos jogadores que vêm dessa época pescotapearia amigos que chamassem F-Zero de “F-Zírou” ou acertassem a pronúncia do Fury de Fatal Fury.

É uma questão de hombridade, até. Podemos admitir que Tiger Uppercut mude de nome, mas Keystone Keapers será, eternamente, “Polícia e Ladrão do Atari”, e chamar o Guile pela pronúncia certa será sempre viadagem.

De cinema, futuros alterados, respeito tecnológico e outras viagens…

Em 1990, eu era um guri de 9 anos, sobrinho de uma moça que trabalhava na cabine de projeção de um cinema. Na época - que nem vai tão longe assim, convenhamos, são “só” 20 anos -, existiam cinemas na rua: salas que não ficavam dentro de shoppings, mas “soltas” no meio da cidade, entre outros comércios. As pessoas saíam pra ir ao cinema, não pra ir ao shopping ver um filme. Não que fosse melhor ou pior, só era uma experiência diferente, que não se tem mais (ao menos em Brasília), porque igrejas evangélicas - a Universal, em particular -, como se arrancassem jerusalém das mãos dos sarracenos, empreenderam uma cruzada pra comprar todas essas salas e transformá-las em centros de gritaria.

(O que esses crentes não entendem é que não adianta berrar, chorar, arrancar os cabelos, dar chilique e fazer escândalo: se deus existe, é suficientemente sábio para nos ignorar e parece levar tal política bem a sério. Não posso culpá-lo. Eu também não ia querer conversa com a galera que trucidou meu filho.)

Dentre as várias vantagens de ter uma tia que trabalhava num cinema, a maior delas era que eu podia ver o filme quantas vezes quisesse. Se você acha que seu filho, sobrinho, irmão ou primo pode passar dias diante de um DVD, imagine se esse pivete tivesse à disposição uma sala de cinema inteira, com pipoca, doces e o diabo a quatro na bomboniere; com o som do projetor; com as poltronas confortáveis; com a tela que é maior do que o mundo; com o som que te faz mergulhar no filme; com tudo, tudo mesmo, até lanterninha, essa raça em extinção. Eu tinha. E, se deixassem, moraria lá dentro.

Aliás, a censura não era levada a sério na época. Não existia isso de vetarem a entrada de crianças por causa de uma besteira como “classificação indicativa”. Se ocorria, de algum modo sempre passei incólume pela regra, desde antes de ser sobrinho da moça da sala de projeção. Sendo o tal sobrinho, nem preciso mencionar.

Então, numa certa tarde de 1990, depois do colégio, minha mãe precisou comparecer a algum compromisso e me deixou com a tia Yone, que me recebeu na porta do cinema e me levou até a sala, já escura, recomendando que me comportasse. Quando relaxei no encosto da cadeira e olhei para a telona, a cena que se desenrolava prendeu minha atenção de imediato. O que começou com uma velha atravessando a rua tornou-se um assalto, seguido por um assalto ao assaltante, passando, daí, para a cena de um bando de sujeitos roubando uma loja de armas e metralhando impiedosamente um carro da polícia que se aproximou para impedir.

Era Robocop 2.

Devo ter assistido o filme de ponta a ponta umas três vezes. E diversas vezes mais nos dias seguintes. E, vendo Robocop 2 hoje, é curioso como tudo aquilo fazia sentido na época, mas fica fora de contexto atualmente. Todo o clima cyberpunk, com a cidade dividida entre os criminosos - querendo ver o oco -, a grande corporação - topando ver o oco, desde que possa lucrar com isso - e a população no meio, tendo que conviver com as putas, os motoqueiros, os bêbados, mendigos e baderneiros, procurando ajuda do governo, que se omite porque é corrupto, decadente e vendido a preço baixo para os executivos da OCP. Havia toda uma sinceridade nos filmes futuristas da década de oitenta que não existe mais hoje.

Entendam o que chamo de sinceridade como essa projeção pessimista do futuro, com a criminalidade atingindo níveis impensáveis e tornando um inferno a vida do cidadão comum, enquanto alguns poucos, abençoados com as graças da corporação, levam uma vida de luxo e tranqüilidade. Não se vê mais essa abordagem. O conceito futurista que temos, hoje, é das pessoas se tornando mais e mais inúteis em um mundo controlado por máquinas, e só.

“Matrix”, “Eu, Robô”, “Surrogates”… todos esses filmes retratam a mesma idéia, cada um a seu modo: as pessoas serão dominadas no futuro de maneira a não pensar por si mesmas, apenas reproduzir o que lhes é imposto, seguir sem questionar. Essa ameaça à liberdade individual é tão subjetiva que não há um levante criminoso, ou seja, não existe “o submundo”. Há - e sempre deve haver, ou não teríamos filme - algum(s) membro(s) da sociedade que se opõe(m) à ordem estabelecida. Mas é ridicularizado, via de regra, ainda que tenha (e sempre tem) razão. Assim, a divisão social torna-se clara, perde-se a área cinzenta. De um lado as pessoas normais, em seu comportamento de rebanho. De outro, excluído, uma pessoa ou grupo de pessoas. Some aquele grupo meio marginal, meio mainstream, aquele povo levando a vida no limite entre as contravenções e a ordem, sendo tolerado pela polícia apenas porque a situação é tão caótica que não vale a pena perder tempo com eles.

É curioso pensar que não é o estágio tecnológico que conduz as previsões desse tipo, mas o momento social e político. Por isso é difícil apontar outra possibilidade de futuro sem ser considerado pessimista ou utópico, da mesma maneira que, acredito, era complicado para os teóricos dos anos 80 desenvolver uma possibilidade que não envolvesse altos índices de criminalidade, ou para alguém da década de 50 pensar no futuro sem imaginar desastres atômicos e mutações causadas pela radiação decorrente.

Ainda assim, a tecnologia tem sua parcela de “culpa” nessas idéias. Se não estivéssemos tão sujeitos às máquinas como estamos agora, seria mais fácil conceber uma realidade na qual travássemos uma guerra furiosa com elas - como em Exterminador do Futuro - do que uma na qual elas nos dominam sem dificuldade, como em Matrix. O fato é que cientistas já identificaram positivamente que, à medida em que nos acostumamos às novas tecnologias, nossas capacidades vão diminuindo. Uma pessoa que tem todos os telefones que precisa anotados em seu aparelho celular tem menor capacidade de memorização do que alguém que não dispunha de tal recurso, há 20 ou 30 anos atrás. À medida em que as novas gerações têm maior facilidade para operar e entender novos equipamentos, terão maior dificuldade para operar e entender maquinário obsoleto.

O que quero dizer é que aquele teu primo molecote pode ser capaz de compreender e utilizar o telefone celular mais avançado da atualidade com uma mão nas costas, mas bota esse pequeno pústula pra operar o tracking de um vídeo-cassete e vamos ver se ele se sai tão bem.

Mexer em um sistema operacional com interface gráfica é mole. Quantas linhas esse inseto consegue avançar em um MS-DOS, se precisar operar um prompt de comando?

Até meu pai consegue jogar Wii. Pede pro seu irmão de 12 anos descobrir qual é o objetivo no ET ou Superman do Atari.

(note que essa previsão de um futuro limpinho e organizado funciona se considerarmos que os roteiros dos filmes são escritos e pensados em países limpinhos e organizados, ok? um roteiro futurista que se passasse no Brasil, por exemplo, escrito por um brasileiro, seria completamente cyberpunk oitentista, dada a situação que vivemos por aqui)

Brigas de rua

No começo dos anos 90, pipocavam joguinhos estilo Beat’em Up. Esses em que você tem que ir caminhando e metendo porrada numa horda interminável de inimigos. Em diversos deles, o cenário era uma cidade infestada de membros de gangues, punks, prostitutas chicoteadoras e outras figuras bizarras (como ex-lutadores de telecatch, agora no mundo do crime) sob o comando de algum mafioso. Streets of Rage, Final Fight, Double Dragon, só pra citar os mais famosos.

Guardadas as devidas proporções, essa era a realidade dos Estados Unidos então. Os índices de criminalidade subiram vertiginosamente durante os anos 80 e só pelo meio da década de 90 novas políticas implementadas alguns anos antes começaram de fato a fazer efeito. Os jogos, a grosso modo, só tentavam reproduzir as experiências da época.

A questão que me ocorre é a seguinte: caso um beat’em up fosse desenvolvido atualmente, seguindo aquela linha de sentar o braço em figuras que infestam as ruas, quem teríamos que arrebentar? Emos? Neo-Nerds? Indies?

Eu satisfatoriamente desceria o sarrafo em pessoas usando óculos Wayfarer. Imagino não estar sozinho nessa. Então, Sony, tá esperando o quê?

Top 5 Louis Armstrong

Sou um octogenário em relação a diversas coisas, como já deve ter ficado óbvio para qualquer um que freqüente este blog com certa assiduidade. Minha velhice precoce se manifesta mais intensamente, entretanto, em relação a música. Apesar de apreciar certas mudernidades - como The Killers e suas afetações neo-oitentistas, por exemplo -, nada me dá mais satisfação do que sentar para ouvir algo antigo. Algo REALMENTE antigo! Se houver chiados característicos de gravações da época do gramofone, meu ouvido é imediatamente fisgado. Pensando agora, foi assim que The Strokes ganhou minha atenção! A primeira vez que escutei Last Nite, de madrugada na Transamérica FM (acredite se puder!), imaginei se tratar de alguma banda antiga, contemporânea de Creedence Clearwater Revival, e tomei gosto imediato. Só depois fui saber que era apenas um bando de moleques mal-penteados de Nova Iorque, mas aí já era tarde e Is This It já havia se tornado meu CD favorito da época.

De todo modo, das velharias que curto, provavelmente Louis Armstrong figura no topo dos instrumentistas. Acho uma obscenidade o que aquele sujeito fazia com o trompete. Que mundo é esse em que alguém sopra um instrumento usado para impelir soldados à guerra e arranca de algo tão inamistoso um som tão espantosamente suave? Inaceitável! Ultrajante! Maravilhoso!

Faço, então, meu Top 5 músicas preferidas do Louis Armstrong, com direito a vídeos do Youtube para ilustrar. Dessa maneira, quem não conhecia antes, se tiver interesse, fica conhecendo agora. Se não tiver… bom, gosto não se discute, se lamenta.

5. What a Wonderful World

Clichezão total, eu sei. Mas é espetacular, tem uma das letras mais bonitas já escritas, que casa perfeitamente com o vozeirão roufenho do Satchmo, e foi uma forma muito dura e muito sutil, ao mesmo tempo, de protestar contra toda a situação esdrúxula racial que se desenrolava nos Estados Unidos na década de 60. Não mostra muito do velho Armstrong como trompetista, mas vai assim mesmo. E de brinde em um vídeo com cenas de Good Morning, Vietnam!

Pra quem gosta, claro!

4. Blue Yodel #9 (Standing In The Corner)

“Pára, véio! Essa nem é do Armstrong, é do Jimmie Rodgers!”. Certo, a gravação mais conhecida dessa música é do Rodgers. Mas quem você acha que tocava aquele trompete que transformou essa beleza de uma antepassada da música country em uma antepassada do jazz? Louis Armstrong estava lá, mas não foi creditado. Uma injustiça sem tamanho. Como retaliação, em vez da versão original (que tem os chiados gramofônicos que eu tanto gosto), coloco aqui uma muito, muito melhor, tocada por Johnny Cash - que merecia um top 5 só dele - junto com o Satchmo, em outubro de 1970. Diz aí se não dá vontade de ripar e transformar em mp3?

3. A Kiss To Build A Dream On

A Kiss To Build A Dream On tem a letra apaixonada mais apaixonante que conheço - figura entre minhas preferidas de todos os tempos desde 2002, quando tive contato com ela pela primeira vez graças a Fallout 2 - e essa, sim, chuta o balde em matéria de trompetagem cabulosa, com direito a um solo notável no meio da canção. Foi a primeira do Louis Armstrong que ouvi depois de What a Wonderful World, e agradeço imensamente ao gênio da Black Isle que teve a idéia de usar essa música na abertura do jogo. Não gosto das versões ao vivo, então coloco uma em estúdio mesmo, com uma imagem de Fallout 2 ao fundo, de bônus.

2. La Vie En Rose

Edith Piaf que me perdoe, mas não tenho saco pra música em francês, o que me faz considerar a do Louis Armstrong a versão definitiva pra essa canção. Manifesta-se, em relação a essa música, meu lado reacionário: deixo de lado tudo o que veio antes, não me interessa o que veio depois. Toca em Wall-E, aliás, atestando o ótimo gosto dos caras da Pixar pra trilhas sonoras. É sempre bom lembrar que coisas como “When you press me to your heart I’m in a world apart, a world where roses bloom” derretem qualquer guria, meu caro. Mantenha isso em mente!

1. Mack The Knife

Mack The Knife é uma música bastante conhecida nos EUA. Já foi executada por Frank Sinatra, Bobby Darin, The Doors e mais uma porrada de gente. Só fui conhecer a versão do Satchmo em 2007, após comprar um conjunto de 3 CDs dele com a Ella Fitzgerald (que também já gravou essa canção).

Ao contrário das outras nesse top 5, essa não tem nada de bonitinho, já que fala de um facínora, um assassino chamado MacHeath, vulgo Mack “The Knife”. Mas é divertidíssima! É como uma versão em jazz sobre um bandido americano de um samba do Cartola sobre um bandido carioca: ações absurdas são narradas como se não fossem nada.

Curioso é saber que a música é, na verdade, a tradução da abertura de um musical alemão e a letra original é do Bertolt Brecht. Em um dos trechos, aliás, a letra segue pelos nomes das vítimas do assassino, e uma das moças citadas pelo Louis Armstrong chama-se Lotte Lenya, que foi a estrela da produção original alemã, em 1928. Ele na verdade colocou o nome dela na música durante a gravação, como uma homenagem surpresa ao vê-la no estúdio.

É lógico que uma infinidade de grandes músicas ficou de fora da lista. “Hello, Dolly”, “Cheek to Cheek”, “Saint Louis Blues”, “On The Sunny Side Of The Street”, “When The Saints Go Marching In”… Ao escolher apenas 5 músicas de alguém com um currículo musical tão genial e extenso quanto o Satchmo, não dá pra evitar a grosseria de deixar de fora alguma outra canção genial. Por outro lado, sobra material pra outro top 5 dele qualquer hora dessas, se bater uma indignação diante de qualquer injustiça.

Das ignorâncias preferíveis

Eu tinha uns 15 anos e esse livro enorme do colégio, que era do ano passado, daqueles consumíveis, ou seja: escrevíamos no próprio livro. Então não havia chance dele passar pra um aluno que viesse atrás de mim. Sendo assim, seria jogado no lixo pela minha mãe tão logo a velha tivesse outro surto de desapego material.

O problema é que o livro, de português/literatura, tinha um conteúdo excepcionalmente bom. Por ele tive contato pela primeira vez com Calvin & Haroldo, o viés político da Mafalda, Fernando Pessoa e heterônimos, o discurso final d’O Grande Ditador, etc, etc.

Diante da possibilidade de ver tudo aquilo sumir no lixo qualquer manhã daquelas, graças à minha mãe e seus periódicos ímpetos de arrumação, recortei várias folhas do livro para manter o que me interessasse. Era uma tarde quente em Maceió e eu me sentei no chão do meu quarto com uma tesoura, o livro, música e tempo livre. Ainda vestia a calça jeans que usara no colégio, pela manhã, um par de meias e só. A camisa do uniforme estava amarfanhada sobre minha cama, com ela meu prato sujo do almoço e um copo vazio. Tinha às minhas costas minha poltrona-cama - onde a Jana dormiu quando foi passar o carnaval com a gente - em cuja base me recostava, porque a parte onde deveria colocar minha bunda estava tomada por tralhas. Havia levado a Bárbara ao colégio um pouco antes e minha mãe não ia chegar antes das 18. A empregada estava ocupada com assuntos dela e não iria me interromper, também (a Madá nunca incomodava). Eu tinha uma bicicleta chamada Clementina, um aparelho de som e uma coleção modesta de quadrinhos, outra de chaveiros. A vida era simples e boa. Eu fazia teatro e gostava, tinha pouquíssimos mas fiéis amigos, nadava pelo menos meia hora, diariamente, na piscina do condomínio, sem que ninguém me importunasse e morava a 30 metros da orla, onde saía para pedalar ao cair da tarde. Meus irmãos estavam todos soltos e vivos. E longe, em sua maioria, mas isso nem me incomodava.

Enfim. Recortei diversos pedaços do livro e tinha uma pilha respeitável de textos e imagens e tirinhas ao fim dessa atividade. Catei um caderno velho e, para preservar tudo, fui colando em suas páginas todos aqueles pedaços de idéias que de certa forma me transmitiam qualquer coisa.

Muitos dos meus poetas e poesias preferidos até hoje me foram apresentados naquele livro. Do Bilac eu nem gosto muito, mas havia esse poema dele que acabei guardando, Nel Mezzo Del Camin… . Segue abaixo:

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha…

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo… Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

Na época tinha a impressão de que a poesia tratava de separação. E é óbvio que trata, mas achava que era essa separação romântica, entre dois amantes que seguem caminhos distintos em determinado momento da vida, qualquer que seja a razão. E era triste, e só.

O negócio é que esbarrei com esse caderno hoje, mexendo em algumas coisas no meu quarto. E Nel Mezzo Del Camin… estava lá, e reli. E agora é sobre separação, ainda, mas isso da minha irmã ter morrido contextualiza de forma completamente diferente. Depois disso, não é mais sobre perder uma mulher, é sobre perder um pedaço, raízes, um trecho da sua história, da sua vida. É sobre olhar pra trás e ver, lá longe, lá atrás, na extrema curva do caminho extremo, alguém que largou sua mão e ficou, enquanto você segue (porque não existe outra opção).

Era um bom poema.

Agora é um dos melhores.

Contexto é tudo.

Debut

No cada dia mais distante ano de 1993, naquela era pré-internet já esquecida pelo tempo, eu cursava então a quinta série no colégio Marista. Porque eu estudei em colégio católico, e nada melhor do que esse fato para explicar minha falta de fé e aversão à religião. O assunto, entretanto, não é esse. Sigamos, pois.

Estudei quatro anos no marista, de 1990 a 1993, da segunda à quinta série. A existência era mais simples. Após uma vida de estudos vespertinos, tive que mudar para o horário matutino, e estava aí minha única preocupação: como fazer para conseguir acordar cedo? Tal aborrecimento ainda me persegue, sendo eu um homem de madrugadas, e não de manhãs, mas quem dera fosse o único.

Ia todo dia para o colégio em uma condução, junto com minha irmã mais velha, que fazia a oitava série, e foi um ano de dificuldades com o sexo oposto. Começavam os primeiros contatos mais complexos com essas criaturas de dois cromossomos X e tudo o que elas diziam ou faziam estava cheio de significados a serem decifrados. Dos moleques da minha idade, alguns começavam a demonstrar maior facilidade para trafegar nesse torrencial de informações cifradas, outros mostravam pouquíssima aptidão. Alguns ainda não davam a menor bola - e desconfio que, desses, há os não ligam para isso até hoje.

Marista, Quinta Série, 1993
O jovem Pedro Nunes e seus colegas de 5ª Série, esperando o bonde da puberdade.

Eu era dos que mantinham um pé atrás. Interesse havia, mas coragem? Aí já seria querer demais! Da minha turma, posso dizer que 75% dos alunos estavam na minha sala desde a segunda série. Apesar disso, com a maioria das gurias eu nunca tinha trocado palavra. Timidez crônica tem dessas coisas. Além do mais, eu morava com uma adolescente, oras, sabia exatamente que tipo de crueldade poderia brotar daquelas viperidae. Me contentava em observar de longe, e acreditava que meus objetos de apreciação não dedicavam, a mim, sequer um segundo de seus pensamentos pré púberes. Isso não me aborrecia. Que fosse platônico, e já era perfeitamente aceitável. Até porque o colégio não admitia pegação entre a pirralhada da quinta série (os da sexta já eram tratados com maior tolerância).

Então um dia alguém me mandou um bilhetinho.

Era uma dobradura bem arrumadinha e bastante complexa. Tive dificuldades para desfazer aquilo tudo sem rasgar. Cheguei da educação física e estava ali, dentro do meu caderno, aquela carta misteriosa. A princípio pensei que fosse algum moleque me sacaneando, mas menino nenhum, ainda mais com aquela idade, seria capaz de escrever com uma letrinha tão arrumada e fazer tão caprichosa dobradura. Ainda que algum dos outros pivetes fosse capaz daquilo, duvido que qualquer deles ousasse carregar consigo, mesmo que para sacanear um colega, uma folha de papel de carta com florzinhas e ursinhos. Era suicídio, caso alguém da sala descobrisse.

Por fim abri o bilhete e li - admito que com certo enfado, pois tinha certeza que havia alguma coisa errada. Mas não havia. Meu nome estava ali, escrito claramente naquela caligrafia impecável, com caneta lilás, e a mensagem era breve. “Quero conversar com você”, seguida de intimação de comparecimento à porta traseira do ginásio. Conversar comigo? Por que diabos alguem quereria conversar comigo? Nunca ninguém quisera conversar comigo. Só meu pai e minha mãe e minha vó, mas esses três não contavam. O que eles queriam era me dar um esporro, quando diziam que queriam conversar comigo. “Quero conversar com você”, quando se tem 11 pra 12 anos, nunca é um bom presságio…

Passei a aula seguinte, que me separava do momento de revelação, cabreiro pra cacete, observando disfarçadamente cada uma das pessoas na sala, esperando que alguém se denunciasse. Um olhar matreiro, uma risada fora de hora, qualquer coisa seria suficiente para deixar claro que me pregavam uma peça. Não notei nada fora do comum e tomei uma bronca da professora de história por não dar atenção ao que ela dizia. Minha observação disfarçada não era tão disfarçada, afinal.

No intervalo, agi o mais tranqüilamente quanto pude. Não planejava me atrasar pra fazer charme, nem foi para bancar o difícil que demorei tanto a comparecer ao local do encontro às escuras. Estava amedrontado mesmo, dividido entre ignorar a mensagem, para não fazer papel de bobo, ou ir até lá e descobrir quem tinha me mandado o tal bilhete. Acabei indo, depois de considerar seriamente - tão seriamente quanto pode considerar um guri de 11 anos - o que fazer.

Cheguei lá e levei um susto. A um canto, reuniam-se quase todas as meninas da minha sala. Olhavam fixamente para mim enquanto chegava. Entre elas via um ou outro dos moleques de procedência duvidosa que sempre andavam com as meninas. Eram alcoviteiros, era isso que eram, mas não foi o que pensei na hora, até porque não conhecia esse termo. O que pensei na hora foi em sair correndo, mas tinha um nome a zelar. Segui em frente. Parei diante do grupelho. Olhei ao redor com jeito de quem desafia alguém a sair dali, cruzar a linha, pisar no cuspe e sair no braço.

Adiantou-se a Aline.

Aline era uma menininha pequenininha desde sempre, daquelas que sentam na primeira carteira da coluna de mesas, colada na mesa do professor; que ficam sempre na ponta da fila organizada pelos professores no pátio; das que ajudam a hastear a bandeira no mastro central da escola nos eventos cívicos; daquelas, enfim, protegidas pelos professores e adoradas pela direção, papel oposto ao que eu representava, sendo o pária desorganizado e boca-suja que era, sempre recriminado por ser respondão e topetudo. Tirava notas boas - falo de mim, a Aline não sei, nunca fui de me preocupar com o boletim alheio -, mas era incapaz de parar quieto, e imagino que professores e coordenadores de ensino fundamental e médio preferem um aluno vegetativo repetente a um amotinado com boas notas.

A Aline, como eu disse, se adiantou. Olhei para ela de cima - coisa rara para mim, na época (e agora, também, mas deixemos isso de lado) - e perguntei, muito sério, se era ela que queria falar comigo. Aline olhou para trás, para aquela horda de meninas, que começavam com suas risadinhas insuportáveis de meninas, aquele tipo de risadinha que faz qualquer menino se sentir ridículo e insignificante, então virou-se para mim e respondeu afirmativamente. Arrematou, olhando nos meus olhos:

- Eu te amo!

Quinze segundos de silêncio que pareceram dez anos. As risadinhas explodiam lá atrás, Aline enrubescia diante dos meus olhos. De repente silêncio, todos esperavam pela minha resposta, querendo ver minha reação. Eu, na crença inabalável que estava sendo sacaneado, segurei uma das mãos da menina na minha frente e respondi com toda a verve que tinha aos 11 anos - e aos 11 anos eu já era muito vivaz:

- Ah, vá se foder!

Virei as costas e retornei para a sala. Tocava o alarme.

Tenho, desde então, meu nome escrito em letras garrafais no mural dos escrotos (e pena da Aline, acho que ela falava sério…).




Bad Behavior has blocked 485 access attempts in the last 7 days.