- Pra onde você tá indo?
- Tô saindo.
- Pra onde?
- Vá se foder.
- Pra onde, porra?
- Adeus.
- Volta aq…
A porta batendo calou a voz dela. Segui rápido pelo hall e desci correndo os degraus que me separavam da portaria, e da rua, por conseqüência. Ainda consegui ouvir aquela megera abrindo a porta para me procurar, mas eu já havia sumido escada abaixo.
Não sei onde estava com a cabeça quando aceitei viver com aquela mulher. A gente comete uns erros na vida, sabe? Decisões que não deveríamos tomar, mas o calor do momento toma por nós. Somos substituídos - nossa mente, consciência, raciocínio e princípios - por nossos hormônios, nosso tesão e nossos arroubos juvenis de contradizer tudo o que nossos pais nos ensinaram só pelo prazer da rebeldia e pelo gosto de contestar. A vida sem emoção não tem graça. Pois no cu a emoção. No cu de quem disse isso. No cu. A vida com emoção realmente é muito engraçada: te transforma num palhaço, e todo mundo pode rir de você depois.
Saí e resolvi andar pela cidade. Acendi um cigarro e fui caminhando. Crepúsculo. Qualquer um diria que eram 17:30, mas os relógios marcavam quase 19:00. Odeio horário de verão. Odeio.
A cidade fedia. Fedia e fede. A óleo diesel queimado e concreto quente. Porque concreto quente fede pra caralho. Os outros não acreditam quando eu digo, falam que é maluquice minha, que é impressão, eu falo Vai tomar no cu, porra. Fede e fede muito!. Pois fede e fede muito. Não dá pra sentir, a maioria não sente, porque vive aqui, enfurnada nessa porra urbana e totalmente cimentada. Pra esse povo a grama é a exceção, a grama é o espaço raro. O que impera mesmo é o asfalto e o concreto, os dois fedorentos. Eu também vivi aqui, na cidade, a vida inteira, no meio do asfalto e do cimento. Não devia saber que concreto fede, mas eu sei. Acordei um dia sentindo um cheiro estranho. Mãe, que cheiro é esse? Que cheiro, menino? Não tem cheiro nenhum, Tem sim, eu tô sentindo, Cê tá louco! Senta e toma seu café. Tomei o café todo, e o cheiro me dando náuseas. Fui pro colégio, com o cheiro me dando náuseas. Meu colégio, eu ainda lembro perfeitamente, tinha um enorme pátio cimentado, onde os moleques sempre destruiam seus joelhos em acidentes sem nenhuma importância. O cheiro que vinha do pátio era insuportável. E ninguém sentia.
Vomitei várias vezes esse dia. Vomitei muito por muito tempo, até me acostumar com o cheiro. E vomito até hoje, de vez em quando. Acho que vou vomitar hoje. O cheiro está muito forte mesmo. E os carros passando no asfalto e levantando mais fedor… odeio carros. Odeio essa cidade. Vou pra algum lugar sem isso tudo, algum dia.
Calçada. As pessoas na calçada parecem não ver os outros, passam esbarrando, empurrando. Eu empurro e esbarro também. Quase derrubo um guri, ele pede desculpas e continua seu caminho. Desculpas. Desculpa é o caralho, moleque, pensei em dizer, mas não disse. Quando eu era moleque pedia desculpas também. Desculpa é o caralho. Passa uma loira por mim, com grandes peitos e um belo decote. Não dá pra não dizer nada. Gostosa, e dou um sorriso safado. Vai te foder!, Já fodi com tua mãe, vagabunda!. Puta metida a difícil. Pior raça que tem. Se não quisesse levar pica não vestiria uma roupa daquelas, um cara comenta do meu lado, na faixa de pedestres. É!, falo, seco, querendo matar a conversa. Odeio gente que não conheço puxando conversa comigo.
Passo por mais dois quarteirões e chego a uma pracinha. Os cachorros e as crianças se multiplicam pelo local, eu me sento num banco e começo a olhar em volta. Só tem velha nessa porra, não dá pra puxar conversa com ninguém. Nem quero conversar também. Apago o cigarro mas torno a colocá-lo na boca. Fico tragando o filtro, pensando em nada. Até que sinto um calor na batata da perna. Uma porra de um desses cachorros de madame mijou em mim! Mijou em mim! A mulher vem chegando, gritando o nome do animal dela. Duque, ou alguma coisa assim, Não faz xixi no moço, Duque!. O cachorro fica me cheirando e eu ali, de pé, levantei sem me dar conta. Olho pra mulher, pro cachorro dela, pra ela de novo. Ela falando com o cachorro, brigando com ele, como se fosse uma criança, diz pra mim que ele é muito levado, assim mesmo, Ele é muito levado, moço!. A mulher deve ter uns sessenta anos. Velha escrota, deve morar sozinha com esse cachorro, colocá-lo pra lamber a boceta dela. Escrota desgraçada. Mas a situação é ridícula. A mulher fala comigo, e fala com o cachorro. Não dá pra não rir, e eu começo a gargalhar. Uma gargalhada incontrolável, nervosa. Ela também ri, deve pensar que eu estou achando graça. Estou com ódio. Tanto ódio que não dá pra pensar em mais nada além do quanto somos patéticos. Quando o cachorro dela se aproxima eu aplico um chute certeiro, na cara do animal. Ele gira no ar e cai alguns metros adiante, imóvel, e eu espero que esteja morto, enquanto a velha grita o nome dele, histérica, e me olha, atônita. Páro de rir, acendo outro cigarro e vou caminhando.
- Duque! Duque! Ei, você, seu filho da puta! Onde você vai?
- Vou embora.
- Onde você vai?
- Vá se foder!
- Volta aqui!
- Adeus.
Dejà vu.
***
Gosto desse texto. Foi escrito numa tarde de trabalho em que me encontrava profundamente entediado e irritadiço. Embora eu não fume (nem sinta cheiro de concreto e asfalto), o personagem principal é a transcrição mais fiel que já fiz de mim e da maneira como meu cérebro processa informações.
Não é a primeira vez que republico esse texto e duvido que seja a última. Ele me lembra de uma época em que meus textos, ainda que de forma fortuita, me traziam alguma satisfação. Em algum ponto de lá pra cá essa sensação foi embora e não reapareceu.
De todo modo, acho que devo um aviso aos leitores que conheceram esse blog na época em que ele valia alguma coisa e não estão no meu MSN: acabei criando um daqueles “msn spaces” para publicar velharias, pra não dizerem que eu só coloco texto antigo aqui e vivo de passado. O endereço é esse (qualquer dia coloco o link ali na barra lateral).