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Das certezas que não deveríamos ter

Flagro-me envolto com determinismos. Com a certeza inabalável de que existe apenas uma maneira de se dizer as coisas. Munido desta convicção, passo a elaborar mentalmente um texto para colocar aqui.

Grande coisa! A elaboração metódica e mental de contos, histórias, comentários, observações, críticas, analogias, dissertações, ensaios e até - veja só! - poemas é um vício que tenho há quase dez anos, desde que escrever tornou-se uma rotina (considerando a baixíssima freqüência com que toda essa produção pseudo-literária de fato escoa para esta inamistosa tela em branco, o termo “rotina” aqui é utilizado com certa licença poética). O problema não foi dar-me conta do processo criativo em ebulição no meu cérebro em plena três e meia da madrugada, mas, conforme já disse, sentenciar que a exposição de idéias só pode ser realizada corretamente de uma maneira.

Porque, note, não me refiro apenas à língua portuguesa. Essa teoria, que lapidei descuidadamente enquanto folheava livros do Sabino, abrange todos os idiomas e dialetos, falados e escritos. Tanto os mortos quanto os vivos. Os já extintos, e os que ainda não fizeram vibrar cordas vocais, tampouco chegaram a ouvidos de gente. Não bastasse o determinismo ser um dos piores venenos que pode vitimar a mente de quem se propõe a escrever qualquer coisa que fuja do rigor científico, surge com este conceito: um martelo que, batido, simplifica e reduz, a uma fórmula praticamente matemática, toda a gama de possibilidades que faz com que lingüistas e poetas percam o sono.

É um erro. E não pode ser qualquer outra coisa.

Uma teoria desta natureza demonstra tanta falta de noção do ridículo, tamanha arrogância que, fosse eu dado a tais crises de consciência, sentiria vergonha. Não sinto. E talvez seja essa uma falha que torna minha tirania ainda mais grave: a certeza de que, emboras as gramáticas, os trovadores, os romances, as poesias, Shakespeare e Camões, Fernando Pessoa e Homero, todos atestem de forma inquestionável para o fato de que estou errado… ainda assim tenho a sensação de estar certo.

E quem sabe esteja.
(Sei que não, isso me ajuda a dormir mais tranqüilo.)

Das doenças como política e da política quanto às doenças

Sai notícia de que o Lula está com câncer na laringe e vai fazer tratamento em São Paulo. Não demora muito tempo, começam os banners no facebook, em tom de “brincadeirinha”, sugerindo ao ex-presidente que vá fazer tratamento no SUS. Pouco depois - como já era de se esperar -, a galera do politicamente correto responde raivosamente, dizendo que com câncer não se brinca, que doença é coisa séria, e todos aqueles lugares-comuns da mentalidade moralmente certinha e pão-com-ovo que infesta a sociedade moderna.

Resta a dúvida: quem, nessa questão, está errado?
Ambos, eu respondo.

Os primeiros, os humoristas que se valem da enfermidade de uma figura pública para partir para uma crítica de teor político-social espertinho, lançam mão não de um senso de humor afiado, mas de uma falta de humanidade (falha menor, explico logo adiante) e de uma falta de coerência que - esta, sim - considero muito séria!

Falta de humanidade não pelo Lula em si, já que desejar que alguém se trate - seja no SUS ou no Sírio-Libanês - é, de certa forma, um desejo de melhora. A falha que menciono vem da constatação de que indicar o SUS como a alternativa que o ex-presidente deve utilizar em seu tratamento deixa implícita uma total descrença no sistema de saúde pública do país.

Longe de mim achar que devemos nos ufanar e arrotar uma superioridade que não temos, mas alguém, antes de publicar uma crítica dessa natureza, perdeu trinta segundos considerando o impacto que algo assim pode ter na crença de cura de um paciente que esteja, de fato, se tratando pelo SUS? Ao bradar “Ei, Lula, trate-se no SUS”, querendo dizer “…para ver a ineficiência do sistema público de saúde brasileiro, antes de sofrer e morrer, que será seu destino inevitável se depender dos cuidados do governo” - como se isso não fosse suficientemente baixo -, vocês estão dizendo a mesma coisa para todas as pessoas que estão prestes a utilizar o SUS por uma questão de necessidade. É um belo golpe na autoconfiança de quem já tem problemas suficientes sem sua ajuda.

A falha mais grave, entretanto, sequer é essa. É a falta de coerência. Outras personalidades públicas passaram e passam por tumores, e com relação a esses não são feitos comentários depreciativos, sequer engraçadinhos. Gianecchini dá uma entrevista no Fantástico que pode conduzir centenas de doentes a adotar métodos “alternativos” de cura, colocando em xeque a vida de outras pessoas, mas sobre isso não se comenta.

- Mas, Pedrones, o Gianecchini não é político, não podemos acusá-lo pelas falhas do governo!

Ok. Aceito o argumento. Mas ninguém fez comentários semelhantes quando o então vice-presidente José Alencar estava hospitalizado (no Sírio-Libanês, só para lembrar). Ninguém gracejou quando Antônio Carlos Magalhães estava hospitalizado. Ninguém ousou tecer piadinhas quando a mulher do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso estava hospitalizada. Nem com o tratamento da Dilma fizeram chacota! É apenas com o Lula que fazemos brincadeiras? Vamos demonizar UM homem por falhas de um sistema de saúde anterior a ele?

Vocês deveriam se envergonhar é por isso: por se deixarem pegar pela mão, por uma mídia revanchista, a um ponto tal que se mostrem capazes de canalizar em apenas um homem toda a frustração política de um grupo social em nome desse mesmo grupo social, que não toma a responsabilidade por nada. Não é que vocês tenham péssimo senso de humor e um timing terrível, a falha é outra: vocês são burros e manipuláveis!

Quanto ao pessoal do “com câncer não se brinca”, calem a boca também! A vida, por si, já pressupõe a inevitabilidade da tristeza. Todos nós vamos, em algum momento futuro, contrair ou desenvolver algum mal que dará cabo de nossa existência após um período de sofrimento, que pode ser breve ou prolongado - em termos absolutos, porque, para quem está sofrendo, só existe longo e infinito.

Se não for assim, será o acesso súbito de algum mal repentino que nos levará imediatamente do convívio de nossos pares, qual a foice da indesejável. Isso para não mencionar a possibilidade de algum acidente ou ato de violência urbana que nos transformem em mártires do barbarismo social.

Qualquer que seja o formato, a verdade é que há um mal definitivo agendado para cada pessoa. E contra isso temos apenas duas alternativas: a primeira é o suicídio, nada além de uma tentativa de tirar do acaso o mérito por nossa morte, tomando-a nas próprias mãos. A outra é o humor. É rir dos males do próximo, sabendo que o próximo próximo pode ser você. E, quando sua hora chegar, saber rir dela também. O humor é nossa única opção para tornar esta existência menos miserável, então abandonemos o suposto ar de seriedade. Tal gravidade fingida apenas depõe contra a inteligência de vocês.

Das comidas bizarras e bizarrices comestíveis

Então.

Vamos começar isso aqui falando do que é importante, do que importa e do que, acima de tudo, tem importância: um dos mais proeminentes irmãos caminhoneiros deste (suposto) terceiro pedaço de rocha a orbitar nossa carismática estrela anã, Guto Senra, junto com 3 amigos que também são da turma da boléia, heroicamente deu a garfada inicial em uma série de “webisódios” (odeio esse termo, mas existe alternativa? Aceito indicações!) sugestivamente intitulada Ogrostronomia. Pra você que quer aprender a fazer comida simples, palatável e pra homem - vai que seu namorado curte, mano? -, dá um like na página dos caras no facebook e/ou assina o canal deles no youtube. A primeira aula da autêntica culinária dos filhos, netos e bisnetos de camponeses foi sobre como fazer churrasco. E os filhos da puta não só não me chamaram pra provar o resultado, como o Jimmy ainda linkou a página do Utopia em uma foto constrangedora no facebook.

(Quando abrir a garrafa de Blue Label não vou chamar ninguém pra beber, em retaliação!)

Ainda falando de comida, e sem dúvida descendo vários degraus em direção ao anárquico reino da bizarrice (é anarquia ou monarquia, cazzo?), se você não foi bombardeado com links e referências, há algumas semanas, do vídeo nada eufemisticamente intitulado “Sanduíche de Buceta”, então parabéns. Não sei em que recôndito esquecido deste plano de realidade o senhor foi se enfurnar, mas sugiro que, agora que está de volta à convivência com os bons, não vá atrás da pérola. Acredite: não vale a pena nem por seu caráter nonsense.

Trata-se de um vídeo amador de uma moça - que nem maior de idade me pareceu, a bem da verdade - que besunta suas já mencionadas partes com condimentos (a saber: maionese, MUITA maionese), esfrega em outros ingredientes, tais como pães, presunto e queijo, e, imagino eu, come tudo ao fim do processo. Digo “imagino eu” porque não tive disposição para assistir a peça até o final. Espera-se, de um vídeo com tal mistura de absurdo, culinária e putaria, que seja excitante, desperte a fome ou faça rir. E não obtive nenhuma das três reações. Mas, ao contrário da maioria das pessoas que assistiram ao vídeo e cujas reações tive o (des)prazer de presenciar, também não fui tomado por horror ou nojo, seja pela “falta de higiene” da menina, seja por sua exposição voluntária.

Em primeiro lugar, não vejo problemas de higiene na questão. Não existe NADA naquele vídeo que as pessoas não coloquem na boca com regularidade: pães, maionese, presunto, queijo ou órgãos genitais de moças libidinosas. Ok, admito que a mistura de tudo isso é inesperada. Nem por isso vejo por que causar asco, se não por algum tipo de moralismo cristão que sobrevive em nossa mente e associa sexo a sujeira. O que nos leva ao segundo ponto: minha surpresa em ver o despudor da moça sendo tratado de forma tão furiosa. Sério, ainda há quem se surpreenda diante do fato de que mulheres - sejam elas moças, mulheres, coroas ou velhas - também curtem uma sacanagem? Quantas mulheres mais precisarão dar entrevistas “bombásticas” informando que, sim, aceitam a idéia de sentir “prazer anal” (Sandy, não estou falando de você, estou falando de outra mulher que deu uma entrevista afirmando a mesma coisa, claro), quantas mulheres precisarão ser “flagradas” em atitudes lascivas, quantas mulheres terão que aderir à indústria pornográfica ou mostrar satisfação com práticas sexuais “pouco ortodoxas”, até que aceitemos o fato de que, vejam só, essas criaturas também sentem prazer e desejo sexual?

Isso não tem nada a ver com a criação, com o caráter, com algum tipo de carência afetiva ou coisa que o valha. Pensamentos dessa natureza são fruto desse nosso ranço machista. “Mas o que o pai dela vai pensar?”, ou “E se fosse sua irmã?” são questões que só passam pela cabeça de quem ainda vê mulheres como propriedade, ainda que de forma bastante vaga. Esse raciocínio nos leva a concluir que não interessa se ELA está à vontade com isso, mas se o pai, o irmão ou o marido dela sabem tolerar esse comportamento. Logo, ela é uma demente, incapaz de pensar por si mesma, e precisa que um homem - essa criatura inteligente e racional - use seu teleencéfalo altamente desenvolvido para guiar a ensandecida criatura pelo caminho da moral e dos bons costumes!

Se você diz que não namoraria ou contrataria uma mulher dessas para a sua empresa, a falha não é dela, tampouco é dela a postura repreensível: ambas são suas. Só não vou dizer a você para assumir sua hipocrisia porque isso seria um contrasenso. A hipocrisia, tal e qual a humildade, é daquelas características que pressupõem uma atitude pouco reflexiva, portanto só duram até o momento em que são percebidas.

A verdade é que mulheres criadas em famílias equilibradas (existe isso?), em ambientes “normais” (defina “normal”), com papai e mamãe e colégio particular e telefone celular e roupinhas da moda e irmãozinhos e avós e Temperatura Máxima aos domingos com a família ao redor de uma bela macarronada TAMBÉM vão querer trepar - e vão curtir, e vão querer mais - em algum momento da vida. Algumas vão se satisfazer com um papai-e-mamãe bem comportado à meia luz. Outras vão querer ser besuntadas em azeite e lambidas por cinco homens, ou passar condimentos nas partes, ou tentar orifícios ditos “pecaminosos” em suas práticas sexuais. Deixemos todas elas em paz e vamos nos preocupar com coisas mais importantes: quando será que o Discovery Channel vai descobrir a genialidade dos caras do cracked.com e dar a eles uma série no canal?

Quanto aos outros

O problema não é só a maioria das pessoas pautarem suas ações baseando-se num pressuposto do que vai ser o julgamento dos outros, até porque, de acordo com muitos, fugir dessa regra é impossível. Caímos naquela questão do homem ser uma criatura social e, assim sendo, não conseguir nunca se isolar 100% de seus pares. O desejo de isolamento excessivo, inclusive, conforme o idealizado (e realizado) por Christopher McCandless - para citar apenas um, dentre vários exemplos - é freqüentemente tratado não como a busca da solidão e da própria companhia, mas como uma reação aos outros. Falando de forma mais clara, se alguém busca uma vida de isolamento, é menos pelo desejo de estar sozinho do que pela vontade de sair de perto das outras pessoas. Simplificando ainda mais: no fim das contas, as outras pessoas sempre vão achar que suas ações dizem respeito a elas, e não a você.

Repare. Perceba. Nada do que você faz, de acordo com os outros, é legitimamente um desejo seu, relacionado apenas com suas idéias e seus conceitos e os princípios que pautam sua vida. É sempre, de alguma maneira subliminar, uma reação ou uma ofensa ou um elogio ou uma referência ou uma resposta de alguma natureza aos outros. São sempre os outros, nunca é você. Você faz X por querer causar em Y uma reação Z. Não, você nunca faz X porque X é bacana para você e fim. Isso não é motivação o suficiente. Que espécie de pessoa faz as coisas para si e caga para as reações alheias? Quem é este pária? Essa pessoa não existe. E dizem mais: se você não assume que, na verdade, todas as suas ações são fruto do desejo de causar em outrem qualquer tipo de sentimento, ou de responder ao sentimento que alguém te causou, enfim, se insiste que faz as coisas apenas por si, está mascarando algo, baseado no medo do que os outros vão pensar. Novamente, os outros. Sempre os outros.

É difícil explicar para essas pessoas que os outros, na verdade, têm pouca ou nenhuma influência no que você faz da sua vida, e que ignorá-los não é uma tentativa de arrancar deles qualquer tipo de reação, ou causar neles qualquer tipo de sentimento, é apenas o desejo de que os outros, com suas outras coisas, fiquem lá, em seus outros lugares, enquanto você, com as suas coisas - que independem dos outros -, não deseja nada além de distância dos outros, paz, quietude, tranqüilidade e silêncio. E é difícil explicar porque elas são incapazes de entender. É como tentar explicar para um cego de nascença o conceito de cor: não faz parte do universo dele, ele nunca vai compreender. E se esse cego for particularmente obtuso - como são, vulgarmente, as pessoas - vai chegar à conclusão lógica a que chegam os outros, em sua maioria, afrontados com o argumento de que não, sua postura, suas idéias, suas recusas e suas ações não têm relação alguma com eles, apenas com você: “Eu não entendo isso, logo, isso não existe”. Esta sentença pode - e freqüentemente vai - terminar em um ad hominem que diminua sua capacidade intelectual. Apenas te classificando como um louco ou uma besta eles podem dormir tranqüilos. “Se um homem inteligente tem uma postura que é diferente da minha”, pensarão os outros, “talvez o burro seja eu”. É sobre eles, lembre-se. Nunca sobre você.

E isso não é tudo o que tenho a dizer sobre isso, mas é só o que quero dizer agora.

Dos mecenas

O twitter é um lugar curioso. Poderíamos considerar que uma “ferramenta” de microblog, onde você recebe informações constantemente, vindas de outros membros da mesma rede social, fosse ajudar as pessoas a aprender algo novo, a receber novas informações, a sair dali falando menos merda, pra ser bem objetivo.

Logicamente, é o contrário que ocorre. É muito mais fácil propagar uma asneira do que desmenti-la. A ignorância corre pelo twitter feito fogo de palha. Chega a ser impressionante como as pessoas, preocupadas em falar, falar e falar - via de regra, sobre o que não conhecem - esquecem completamente que, se tu não domina o assunto, às vezes é interessante OUVIR o que alguém que domina tem a dizer. Nem que seja só pra gerar, na sua cabeça, uma nova série de argumentos contra aquele conhecimento que te foi apresentado, ouvir pode ser um exercício interessante.

A enxurrada de estultices da vez ocorreu hoje. O assunto era o fato de um projeto da Maria Bethânia ter recebido, do Ministério da Cultura, o aval para captar R$ 1,3 milhão.

Eu não costumo abordar assuntos “sérios” por aqui e sempre deixo claro que este não é um blog “informativo” ou coisa que o valha. Que tudo o que será encontrado nesta página é rabugice e divagação da minha parte, geralmente sem base alguma além do meu julgamento. São opiniões e - é um pleonasmo, mas direi assim mesmo - são pessoais. Este texto não se enquadra nessa categoria. Não são opiniões, são fatos. Não é algo retirado da minha cabeça, são dados de como funciona a lei do Mecenato, a grosso modo. Trabalhei com isso durante algum tempo, ajudando meu pai, que é um profundo conhecedor do assunto. Quando a Lei foi implementada, o Ministério da Cultura distribuiu uma cartilha elaborada pelo velho que explicava seu funcionamento. Então eu não sou o dono do assunto, mas digamos que sou filho do dono.

Pois bem. Antes que você comece a espumar e esbravejar contra o governo, saiba: o fato do MinC ter aprovado o projeto da Maria Bethânia não significa que entregaram para ela um cheque ao portador, no valor de um milhão e trezentos mil reais, com um tapinha na cabeça e um “Vê se não gasta tudo em bala!”. Ao aprovar um projeto, tudo o que o Ministério da Cultura faz é declarar que qualquer pessoa física ou jurídica que patrocinar o projeto terá renúncia fiscal no valor concedido.

Veja: o Ministério não entrega UM MÍSERO REAL para o proponente! Ele apenas diz que quem INVESTIR no projeto terá uma redução no IR.

Supunhetamos que, de repentelho, eu receba uma bolada da megasena e me torne um homem bonito, rico e joiado, a exemplo do nobre Falcão. Se eu pegasse um milhão e trezentos mil reais desse meu dinheiro e entregasse para o proponente do projeto da Maria Bethânia, poderia deduzir o valor do meu imposto de renda. Como trata-se de um projeto de audiovisual, a renúncia fiscal é de 100%. Cada centavo repassado será um centavo que eu não pagarei ao Leão. Esse patrocínio pode vir de apenas uma empresa, de apenas uma pessoa física, ou de várias empresas e várias pessoas físicas. Isso quer dizer que se a Maria Bethânia tiver 1.300.000,00 na conta dela, de bobeira, pode usar esse dinheiro para financiar um projeto cultural, em vez de entregá-lo pro governo.

- Logo, ela está pegando dinheiro do governo!

Calma lá. Esse é um salto lógico pouco inteligente. Em primeiro lugar, isto NÃO equivale a dizer que ela, ou qualquer outro patrocinador, pode investir em projetos culturais TODO o valor devido ao IR. Apenas uma porcentagem do quanto terá que pagar de Imposto de Renda pode ser investida, e é uma quantidade mínima, coisa de 5%, se tanto. Em segundo lugar, ela não está “pegando” o dinheiro. Está deixando de entregar de forma direta para o governo.

- Mas como assim, de forma direta?

Bom, ela não vai QUEIMAR esse dinheiro. Ela não vai fazer uma enorme fogueira com um milhão e trezentos mil reais, atear fogo, beber rum e cantar “COME ON BABY, LIGHT MY FIRE”. Ela vai usar esse dinheiro para comprar os itens e contratar os profissionais necessários para o projeto. E, ao fim, terá que fazer uma prestação de contas para o MinC, informando onde foi gasto CADA MÍSERO CENTAVO dessa grana. Logo, o governo vai saber de onde o dinheiro SAIU e para onde ele FOI. E poderá cobrar imposto de renda dos que tiverem recebido os pedaços desse caraminguá.

Além do mais, ao fim do projeto, é previsto na lei que parte do material produzido deve ser distribuído para escolas e bibliotecas públicas. Então você, que tá aí batendo no peito e falando da “educação”, que esse dinheiro deveria ir para a “educação”, saiba: O PRODUTO DO DINHEIRO VAI PARA A EDUCAÇÃO!

- Mas UM MILHÃO E TREZENTOS PARA UM BLOG? Tem mutreta aí!

Eu não sei se tem mutreta. O que eu sei é o seguinte: existem formulários de preenchimento obrigatório, caso você queira dar entrada num projeto no MinC. Um deles tem um trecho chamado Estratégias de Ação, onde você deve descrever etapa por etapa do que será executado. Então você diz quantos webdesigners serão contratados, e a que custo; que aparelhos serão utilizados para as filmagens dos vídeos, se serão comprados ou alugados, e por quanto vai sair cada um; qual o cachê dos participantes; qual o salário do gerente do projeto; quanto será gasto com publicidade; quanto dinheiro o captador vai levar, etc. Então, se o valor TOTAL do projeto é de R$ 1.300.000,00, é porque a somatória de TODOS os itens, incluindo impostos relativos a transações bancárias, pagamento de INSS de funcionários contratados, contas de telefone, etc, deu R$ 1.300.000,00. Não significa que ela vai pagar tudo isso num puta servidor e fim de conversa.

E você não leu errado: é permitido incluir, no seu projeto cultural, a parcela do captador. Ele é o sujeito que permite que sua ação cultural - seja ela uma exposição, um livro, um cd, uma revista, etc - vá adiante. É ele que vai negociar com empresas e pessoas físicas a respeito do seu patrocínio. Ele não é nada além de um vendedor: precisa convencer alguém que colocar dinheiro na sua idéia é uma boa idéia!

- E por que seria uma boa idéia?

Por uma razão muito simples: se a coca-cola, por exemplo, retira cinco milhões de reais do imposto de renda e investe isso em projetos do MinC, são 5.000.000,00 que invariavelmente seriam gastos, indo para PUBLICIDADE, em vez de serem “desperdiçados” com o governo. Ou seja, ela apóia algum evento - muitas vezes gratuito -, tem seu nome atrelado àquilo e isso gera publicidade positiva para a marca.

Querendo ou não, o fato é que os impostos que nós pagamos no Brasil raramente têm retorno visível. Se você pudesse optar entre dar o dinheiro do seu imposto de renda para um projeto cultural, e ao fim receber uma prestação de contas informando o que foi feito com sua grana, ou entregar para um governo que faz o dinheiro desaparecer misteriosamente e reaparecer em malas, cuecas e bolsas de governantes réprobos, o que você escolheria?

Pois é. Eu também.

Então você pode contratar alguém para captar os recursos, e esse sujeito vai receber 10% do valor do projeto, ou R$100.000,00, o que for mais baixo.

Não vou entrar no mérito do projeto e alegar aqui se é ou não é bacana que o Andrucha Waddington dirija os vídeos da Bethânia declamando poesias online, se isso é cultura ou se isso vale R$ 1,3 milhão. Não estou em posição de determinar o que é e o que não é cultura. Nem você. Nem os pareceristas do MinC estão. A Lei inclusive PROÍBE esse tipo de especulação. Se você quiser fazer um show da Pitty de graça, ou um do Fábio Jr., ou do Restart ou dos Móveis Coloniais de Acaju, pode fazer. Para a lei, TODOS eles são manifestantes da cultura, não interessa o que você pense.

O grande argumento “contra” o projeto da Bethânia é que ela, sendo consagrada, não precisa desse dinheiro. E eu repito: ela não vai EMBOLSAR a grana. É lógico que o cachê dela está previsto no custo, assim como está o pagamento de todos os profissionais envolvidos. E a Lei Rouanet está disponível para TODOS os brasileiros. Desde que você atenda as solicitações previstas, pode dar entrada nos seus projetos culturais, também. E, se tiver contatos que te permitam isso, pode captar recursos, também. A Bethânia tem muito mais facilidade para conseguir patrocínio pelo simples fato de ser uma figura pública. Por causa disso devemos impedi-la de manifestar o que é direito dela, como cidadã? Que espécie de recalque é esse?

Além do mais, o proponente do projeto, ANTES de ter sua solicitação avaliada por um parecerista, precisa levantar uma série de documentos que comprovem que ele tem conhecimento do assunto sobre o qual planeja tratar e que tem o nome limpo, logo, age de boa-fé. Trocando em miúdos, o proponente prova que é HONESTO.

Se existe alguma injustiça mercadológica nessa questão - e existe, como acusa esta matéria no site de economia do IG -, não é privando a Maria Bethânia de dar entrada em um projeto e levá-lo a cabo, após ser aprovado pelos pareceristas do MinC, que vamos resolver a questão. Não se resolve uma injustiça com outra.

Existem muito mais coisas para se falar sobre o assunto, mas o texto já está muito extenso. Deixo aqui, para quem se interessar, um link para o site do Ministério da Cultura, para um texto no blog do Fábio Yabu, que trata da mesma questão, e para este “twit” da @letrapreta, que foi das poucas a demonstrar algum bom-senso quanto a este assunto.

[ATUALIZAÇÃO] A moça da @letrapreta, Renata Corrêa, fez um texto sobre o assunto que também merece ser lido.

Dos miseráveis travestidos

O pior elogio que alguém pode fazer ao meu blog ou ao que eu escrevo é sugerir que eu deveria trabalhar com isso, ou dar um jeito de ganhar dinheiro com essas coisas. Felizmente não é uma sugestão que ouço muito, por razões óbvias, mas ainda assim me surge, eventualmente. E embora compreenda que quem me diz isso tem em mente a melhor das intenções e o mais alto dos elogios, é difícil responder com qualquer outra coisa além de um menear de cabeça e um olhar de reprovação. Pode ser uma forma de elogio, pode ser de coração, respeito isso tudo. Mesmo assim é uma lisonja muito mal-pensada.

Eu tenho um sério problema com dinheiro: não dou a isso a menor importância. É claro que gosto de comprar coisas caras, como videogames, computadores, um bom par de tênis, um mp3 player de qualidade, um presente pra mulher, uma passagem pra qualquer lugar que me dê vontade de ver. Pra me suprir dessas necessidades existe a informática. Existem meus bicos de tradução. Existe qualquer outra coisa que eu faça, fora escrever. Escrever não serve pra isso. Escrever é algo que levo a sério, diferentemente da informática, das traduções, de qualquer outra merda que me renda uns caraminguás pra ter o que jogar no corpo, um teto sobre a cabeça e um lugar pra cair quando estiver cansado.

Escrever vai além do dinheiro, escrever é minha maneira de buscar a verdade - estou sendo bastante piegas, mas porra, reservo-me o direito. Vender a caneta, jamais. Não tenho a pretensão de estar fazendo literatura, mas talvez esteja. E talvez não esteja, que se foda isso. Dizer se é literatura ou não é só outra maneira de mensurar economicamente, o que é uma forma de diminuir tudo para caber num padrão, numa linha de pensamento que é simplista, utilitária, que não é onde eu trabalho. Mas que diabos que numa era em que todo mundo tenta enfiar uma ideologia em tudo, ainda tentam arrancar o cunho ideológico de qualquer coisa e trocar por cifras, puta que pariu três vezes de cócoras!

Sou um anacrônico em relação a isso, tenho total consciência. A internet é feita de gente que “escreve” - uso o termo com bastante liberdade aqui - alucinadamente com um objetivo muito simples: transformar isso num ganha-pão. Não é uma busca por qualquer outra coisa que não seja viver diante do computador, escrevendo sob demanda. E esta demanda pode ir desde a produção de um post até a veiculação de idéias (todas sem acento). Pagando bem, que mal tem?

É o mal do século. Um dos, sei lá quantos outros já enumerei aqui. Não existem princípios ou coesão, só existe o “quem paga mais?”. Consigo listar, de cabeça, pelo menos dez blogs de gente assim, que bate no peito para falar que tem credibilidade, quando na verdade tem apenas uma caneta de aluguel, pronta a distribuir pelo papel os mais profundos elogios, se estiver sendo bem-paga. Pesquisando internet afora, certamente conseguiria bem mais de cem. E iria por terra o que resta da minha crença na humanidade, então não cairei nesse erro. A verdade é: desses dez blogs que eu apontaria, pelo menos CINCO você costuma ler, seu idiota. Isso se não fizer parte de algum, o que é ainda pior.

Não bato no peito pra apregoar credibilidade, não garanto serem verdades as coisas que publico aqui, não peço nem quero confiança alguma de ninguém. Escrevo por compulsão, quando ela bate - e bate cada vez menos - e por prazer, que também anda muito sumido por estas paragens, então seria mais justo dizer que é por mera teimosia. Mas escrevo com sinceridade, e ainda que minta, não minto em benefício de ninguém. No máximo, pelo meu entretenimento, mas alguém tem que se divertir nesta merda. Ninguém perguntou - e ninguém perguntará jamais, porque sinceridade é contraproducente -, mas eu não estou à venda, tampouco estão minhas palavras. Se dinheiro é tudo o que você tem a oferecer nesse mundo, como elogio às coisas que gosta, se é assim que avalia sucesso, se essa é sua idéia de reconhecimento… então tenho muita, muita pena de você.

Você é pobre pra caralho.