Archive for the 'burrice' Category

Das Cruzadas

[Originalmente publicado em abril de 2003]

– Pedro, me dá uma ajuda?
– Claro. No quê?
– Ignorante. Com seis letras.
– Hein?
– Nas palavras cruzadas, pô. Ignorante, com seis letras.
– Pode ser néscio, beócio, obtuso ou bronco.
– Começa com b.
– Deixa eu ver.
– …
– É beócio.
– Como você sabe?
– Porque o paraíso da bíblia é o Éden, e bronco não tem e.
– Ah. É verdade.
– …
– Como é mesmo a palavra?
– Beócio.
– Como se escreve isso?
– Ai, meu ovo.
– Com s ou com c?
– Com c, néscio.

***
– Pedro…
– O que foi dessa vez?
– Me ajuda aqui.
– Escuta, quer que eu faça as palavras cruzadas pra você?
– Ah, deixa de sacanagem. Só mais essa vez.
– Fala.
– Auto-biografia famosa, com 9 letras.
– Eu me odeio, por Pedro Nunes.
– Bah. Babaca.
– …
– Mas ia vender um bocado.
– Só pelo título.
– Você tem tino comercial.
– Obrigado. Mamãe diz a mesma coisa desde o dia em que troquei suas córneas no mercado negro por uma moto Honda, uma torradeira elétrica e um cão para cegos.
– Você vai citar meu nome no livro?
– Provavelmente.
– Quero 20% dos lucros pelo Best-Seller.
– Vou declarar que você não consegue fazer palavras cruzadas nível Moleza sem pedir ajuda.
– Então quero 40%.

Entomologia Aplicada I

Toda madrugada, entre 5h e 5h15, o mesmo fenômeno ocorre. E chamo de fenômeno porque, pra mim, é um acontecimento novo, imprevisível e que foge completamente à minha compreensão das coisas. Enfim, toda madrugada, entre 5h e 5h15m da manhã, uma abelha - uma, apenas - entra no meu apartamento e começa a voar enlouquecidamente ao redor da lâmpada da sala.

O que, para mim, caracteriza isso como fenômeno é o fato de que nunca vi uma abelha alucinar por causa de uma lâmpada. Pra mim esse comportamento - particularmente idiota - era natural de insetos reconhecidamente imbecis, como as lepidópteras (em especial as mariposas) e alguns coleópteros. Apesar de minha aversão a elas, e de achar o produto de seu esforço fedorento e desagradável - sim, me refiro a mel, própolis e todas essas porcarias que as abelhas produzem -, considerava as abelhas insetos superiores. Assim como as formigas, achava que eram um pouco mais inteligentes e organizadas, e que, apesar de demonstrar certa demência diante de comida, morrendo facilmente por alguns grãos de açúcar ou gotas de refrigerante, ao menos matavam-se por algo prático, útil.

Admito que me decepcionei com as abelhas.

Porque uma abelha que invade minha sala para voar contra a lâmpada, com seus movimentos erráticos e seu zumbido irritante, está cometendo suicídio desnecessariamente. Não está morrendo porque ferroou alguma ameaça a sua colméia ou porque, em sua busca por pólen, fez um movimento despropositado e terminou pisoteada por uma criança ou esmagada contra o pára-brisa de um carro. Está morrendo porque entrou no meu apartamento, onde não existe nada - NADA - que lhe possa ser útil!

Então repete-se esse procedimento: toda madrugada, por volta de cinco horas da manhã, uma abelha invade minha casa. Toda madrugada, por volta de cinco horas da manhã, minha atenção é desviada do filme que estou vendo ou do livro que estou lendo pelo ruído intolerável de asas membranosas batendo enlouquecidamente. Toda madrugada estico a mão até a lata de inseticida, por volta de cinco da manhã. E então assisto - com certa satisfação, inclusive - enquanto um inseto se contorce no chão da sala, experimentando sabe-se lá que grau de sofrimento e que espécie de sintomas, em uma agonia que me diverte bastante, durante dois ou três minutos que, para a abelha, devem ser intermináveis. Para mim são muito agradáveis.

Daí volto para meu divertimento saudável, enquanto me pergunto o que diabos há de errado com essas malditas criaturas.

Saibam, hymenópteras: esperava mais de vocês.

Das pseudoliteraturas

Ano passado, graças a um professor bastante obtuso - em matéria de leitura - da faculdade, tive que ler O Monge e o Executivo. Foi das experiências “literárias” mais desagradáveis que tive. E começou antes que eu começasse a ler.

Os libertários das letras, esses que acham que tudo vale a pena ser lido, quando a alma não é pequena, pois em tudo há algo a ser aprendido, começam agora, timidamente, a entoar seu coro de “Preconceituoso!”, “Elitista!”, “Fedorento!”, “Cretino!”, “Perneta!” e etc. Ignoremo-los enquanto é tempo e vamos adiante. Pois bem, a tortura começou antes da leitura. Se você nunca ouviu falar d’O Monge e o Executivo (e eu o saúdo de volta do seu coma de uma década), é um desses livros que os gerentes de RH da tua empresa adoram e são ditos “motivacionais”, que é outro termo pra “literatura rasteira de auto-ajuda pra gente sem critérios ou sinapses suficientes pra compreender/superar os próprios problemas sem mantras e moralismos fáceis sugeridos por espertalhões que descobriram um jeito de encher o rabo de grana explorando a fraqueza intelectual alheia”… ok, é bem mais curto chamar de motivacional mesmo. Não fosse o fato de ser auto-ajuda da braba - embora haja quem negue este viés fervorosamente -, ainda é daqueles livros que ficam meses a fio na lista dos mais vendidos do New York Times (por conseguinte, da Veja, que acha que é a versão semanal e brasileira do NY Times).

Sinceramente, nenhum dos livros que perduram nessas listas de “mais vendidos” vale muita coisa. Seja O Monge e o Executivo, O Caçador de Pipas, A Menina que Roubava Livros, Onze Minutos, Harry Potter, Crepúsculo… é tudo lixo. É, eu disse isso mesmo: é lixo, é subliteratura. É tipo esse blog aqui: vale porra nenhuma em matéria de conteúdo. Até um macaco pode “entender” todos os livros já citados na lista dos mais vendidos da veja, por uma razão simples: não há o que ser apreendido em nada daquilo. Todas as mensagens - quando há alguma - já vêm mastigadinhas, prontas para absorção e repetição. Não há a proposição de um pensamento que leve a alguma conclusão, apenas conclusões já prontas e embaladas pra consumo imediato. É o fast food dos livros. É o mais baixo da escala literária.

(O coro dos libertários das letras engrossa agora. Diante de tal platéia, até o fim do texto eu seria linchado)

O Monge e o Executivo não foge dessa linha. Trata de um sujeito que recebe um telegrama da consciência cósmica universal mandando que ele se enfie num mosteiro e passe uma semana assistindo aula de motivação ou coisa semelhante de um ex-grande-executivo, agora monge, que se enfiou lá permanentemente há alguns anos.

Tá, não é BEM assim que as coisas acontecem. Existe todo um papo “místico” que “explica” uma série de “coincidências” que conduzem a essa situação, mas é balela, como tudo mais que há no livro. Porque, veja, o autor do livro não teve a moral de escrever um tratado a respeito de normas da administração e gestão de equipes. É preciso ter bagos pra fazer isso e se meter a contrariar ou complementar idéias de caras que são referenciais quando se fala de gestão de empresas. Como você, ilustre desconhecido, chega e diz que pode melhorar as idéias de Henry Ford, Frederick Taylor ou Peter Drucker, por exemplo? Ou, pior, derrubá-las? Quem te daria crédito? Sua mãe, talvez um dos seus irmãos. E só.

Ciente disso, o autor do livro, James Hunter, parte pra essa ficçãozinha babaca a respeito de um curso motivacional de sete dias em um mosteiro. Enfia seis ou sete personagens, explica suas idéias de modo repetitivo na forma de diálogos pouco inteligentes e, o pior de tudo, não poupa o leitor de referências religiosas, que é a estratégia mais batida para se vender uma idéia, já que o homem ocidental comum, cristão, não questiona nada que tenha religião envolvida. A partir do momento que você menciona Jesus como justificativa ou exemplo de algo, se saca uma passagem da Bíblia para corroborar sua idéia, se mete algum nível de “misticismo” no negócio, cria um dogma. Para a maioria das pessoas, aquilo passa a ser indiscutível. Esperto, hein? E se você acha que estou inventando isso agora, que é uma viagem retirada da minha cabeça, repare na quantidade de livros de auto-ajuda que envolvem religião/misticismo. A Cabana (SIM, aquilo É auto-ajuda, ainda que neguem!); Comer, Rezar, Amar; Jesus - O Maior Psicólogo Que Já Existiu… vá à livraria mais próxima e confirme.

O negócio é que sou um herege maldito. E se um idiota me diz que Jesus Cristo foi um belo exemplo de líder, imediatamente ressalto o ponto do hippie-pai-de-si-mesmo ter liderado apenas 12 sujeitos. Dentre esses 12, um fazia questão de levantar dúvidas sobre tudo o que o JC falava; o segundo, teoricamente seu seguidor mais próximo e confiável, teve a pachorra de negá-lo não uma, não duas, mas TRÊS vezes, ao levar uma dura dos home; o terceiro foi ainda mais longe: vendeu o chefe por trinta dinheiros!

Uau, isso que é um líder bem-sucedido! Isso que é inspirar lealdade! Se o maior líder da história da humanidade teve VINTE E CINCO POR CENTO de rejeição de seus seguidores diretos, imagino quão triste foi a trajetória do pior deles. Acho que até o general romano Crasso, responsável por combater os escravos rebeldes liderados por Spartacus, foi mais feliz em sua carreira. Sinceramente, Hitler teria sido uma citação mais feliz.

Outra estratégia simplória usada pelo autor - e que funciona, caso você tenha se afogado durante a infância e perdido parte das funções cerebrais por prolongada falta de oxigenação - é enfiar um personagem contrário aos ensinamentos do tal monge. Então temos uma turma de cinco alunos (ou seis, agora não me lembro direito), sendo que quatro (ou cinco) concordam, repetem e exemplificam tudo o que é dito, enquanto o quinto (ou sexto) contradiz, contraria e escarnece o tempo inteiro. “Divertido!”, você pensa, “Eu vou gostar desse cara!”. Não vai, corrijo eu: esse cara consegue ser mais idiota do que os outros. Freqüentemente minha vontade era concordar com o tal “Simeão”, pois estar do mesmo “lado” que alguém tão imbecil abalava sinceramente meu amor-próprio.

Considere que alguém diz uma asneira qualquer, levanta uma falácia dessas bem ridículas e infantis, fáceis de derrubar sem qualquer esforço argumentativo. Imagine que, diante da tal besteira dita, existam 10 respostas diferentes, sendo nove delas capazes de desarmar o responsável pela baboseira e a décima sendo uma baboseira ainda maior, apesar de contrária. É esta a opção adotada pelo amigo contrário aos ensinamentos. E é compreensível, afinal. O autor não inseriria, em sua suposta “tese” a respeito da gestão de pessoas e administração de equipes, argumentos realmente consistentes contra seus ensinamentos. A menos, claro, que fosse capaz de elaborar boas respostas, capazes de superar as réplicas levantadas. Duvido que o cidadão tenha essa capacidade. Requer um puta embasamento e muita inteligência.

É disso que o livro se trata, afinal: de uma obra em formato de ficção - por falta de coragem -, cheia de argumentos vazios - por falta de competência - e que finge se contrariar, mas falha - por falta de inteligência. É um livro onde falta tudo, mas que está sempre nas listas de mais vendidos. Porque nas livrarias, atualmente, o que não falta é trouxa.

E eu deveria ter escrito ISSO no review que entreguei pro professor - até porque acabei trancando a faculdade semanas depois -, mas achei que seria mais prudente exercitar a política da boa vizinhança. Deixei passar uma grande oportunidade. Pena.

Mas outras virão. Gente ignorante sugerindo livros ruins tá sobrando…

Passa gelol que passa!

Olá. Olá, você, que lê este blog sabendo com o que vai se deparar, sabendo que uma opinião que contrarie a tua te espera no próximo texto. Olá.

Senta aí um minuto, deixa eu te explicar um negócio. Tendo tempo suficiente aqui, você já leu isso algumas várias vezes e eu poderia apenas linkar ou republicar um desses textos que dizem o mesmo que será dito agora, mas por que perder a chance de exercitar minha verve, repetir o óbvio, “redizer” - e se o termo não existia, acabo de assinar seu decreto de criação - o que já foi exaustivamente dito? Vamos, deixa eu falar. Sentou aí? Tá confortável? Tá felizinho? Tá? Bicha!

Pois o caso é o seguinte: existem duas maneiras de ofender alguém: uma delas é você ofender a pessoa. A outra é a pessoa se ofender com você. E são coisas diferentes. Explico:

Você está usando um óculos wayfarer. Eu te abordo e digo “Ei! Ei! Por que tu usa isso, hein? É feio pra caralho, sério. Já se viu no espelho com essa porra? Já? Mesmo? E achou bonito? Certeza que não era daqueles espelhos que distorcem as coisas? Porque, cara… cara, olha só isso. Isso é feio pra caralho, cara. Tu acha mesmo isso bonito? De verdade? E merda, você come?”. Eu estou te ofendendo.

Eu, quieto no meu canto, ou ao ter minha opinião solicitada, digo que acho óculos wayfarer feio pra caralho. Que os anos 70 vão ligar e pedir o apetrecho de volta pra quem tá usando. Você se ofende. Você está se ofendendo.

No primeiro caso, qualquer aborrecimento é natural e justificável. Eu inclusive mereço levar um murro na cara por bancar a Annoying Orange. No segundo você está sendo uma bicha fresca do caralho e chilicando porque não acho bonita essa merda que vossa senhoria insiste em colocar na cara. Está alegando que emitir um juízo negativo sobre o que você usa é, sob algum aspecto absurdo e deturpado, uma maneira de te tolher, te impedir de ser feliz do seu jeito. Pois saiba: eu APÓIO o seu mau gosto. SEJA FELIZ sendo ridículo, se é o que te apraz. Ninguém, nem mesmo eu, tem o direito de te impedir de usar o que você quiser usar, vestir o que quiser vestir, andar com quem quiser andar. É seu direito e juro que sairia na porrada por ele, se necessário fosse.

Da mesma maneira, não há no mundo quem diga que não posso me manifestar negativamente a respeito das coisas. Uma crítica não é uma proibição, uma afronta ou uma ofensa, e é uma pena que qualquer um se sinta assim, porque esse é um sintoma de um defeito intolerável, grave, particularmente brasileiro: o melindre. Gente melindrada é aquela com quem você precisa pisar em ovos, ou eles pisam nos seus. É gente que tá sempre em carne viva, se deixa ferir por qualquer fagulha e não agüenta ser contrariada. Gente sem auto-estima, incapaz de fincar o pé no que acredita e dizer, ao ouvir tuas opiniões ruins: FODA-SE. Saber tocar um foda-se direito é essencial. Saber ignorar a opinião dos outros sobre o que você pensa, porra, isso é uma arte.

Eu ouço trocentas bandas criticadas duramente por 99% das pessoas que conheço. E ouço mesmo, e canto as músicas e tudo. Estão no meu last.fm e mando tomar no cu sempre que alguém vem encher meu saco por gostar daquilo. Mas não vou xingar quem, sem me dirigir a palavra, fala mal da parada. Sério, NO QUE isso afeta a minha vida? POR QUE DIABOS eu consideraria isso uma afronta? Qual a diferença, no plano geral das coisas? Que grande alteração na minha existência tem a opinião, a respeito do que escuto, de um camarada que mora na esquina da puta que pariu com a casa do caralho? MEU VIZINHO pode não gostar do que ouço e isso não muda em nada o fato de eu ouvir ou não.

Pra mim, minha opinião é superior. Meu gosto é superior. Você, se discorda, é um imbecil e tem mau-gosto. Não sabe de nada e eu sou o dono da razão. POR FAVOR, sinta-se da mesma maneira a meu respeito! Considere-me um imbecil e ESQUEÇA o que eu disse, se o que eu disse te contraria. Não vai me ofender ou me incomodar, juro. Isso não impede nossa convivência pacífica, isso não inviabiliza um diálogo amigável, ainda que cheio de provocações e piadas!

Mas não me venha cobrar satisfações, demonstrar magoazinhas ou querer mudar minhas idéias. Não tente. Gente melhor já falhou nessa empreitada. Você é um bosta e não vai conseguir. Me deixe em paz e prometo que não vou importuná-lo. Não esfrego opiniões na cara de ninguém, sequer ofereço. Solicita quem quer. E freqüentemente nego, inclusive.

Então, se tua opinião tá apoiada em palitos, se teus gostos são um castelinho de cartas e qualquer soprada mais forte joga tudo ao chão, se você precisa reafirmar suas razões de ouvir o que ouve, ler o que lê, assistir o que assiste, gostar de quem gosta, e etc, etc, etc, fica longe de mim. É mais saudável pra sua cabecinha. Vai se cercar dos seus amiguinhos que vão te aplaudir, invariavelmente. Se tranca na sua bolha e seja feliz.

Mas se tu güenta o tranco, se suas opiniões estão apoiadas em pilares e não se abalam com qualquer pancadinha, se você sabe que o que eu penso a respeito do que você curte é irrelevante, chega mais. É desse tipo de gente que eu gosto: de quem não toma as coisas pra si e entende que democracia não é eu não poder falar mal do que você acha bonito, mas o contrário. É você ter o direito de gostar do que eu não gosto e vice-versa.

Dos protocolos

Existem certos protocolos a serem seguidos, se você espera fazer parte de determinado grupo (ou ser CONSIDERADO parte do grupo, o que parece ser mais importante, afinal). Descumpra muitos deles e veja sua inestimável reputação escoar pelo ralo.

Um dos eternos grupos dos quais as pessoas querem participar - e se esforçam para isso - é o das pessoas legais. As pessoas legais não são exatamente aquelas que te tratam bem, seguram a porta do elevador para que você possa entrar/sair, dão passagem quando você quer atravessar a rua ou cedem o lugar no ônibus lotado. Essas pessoas são legais, claro. Mas não são AS pessoas legais.

Há alguns anos, quando comecei nessa vida de blogueiragem, logo ficou claro pra mim que as pessoas legais liam Bukowski, curtiam O Apanhador no Campo de Centeio, usavam termos como hype e indie e manjavam de bandas semi-desconhecidas, tipo Franz Ferdinand, Muse, Strokes e tal. Iam ao cinema ver filmes de arte, comentavam a respeito da última do David Lynch e eram grandes fãs de Amélie Poulain. Invariavelmente, usavam all star.

Hoje em dia você pode até não usar um all star, mas tem que gostar de óculos Wayfarer. Strokes e Franz é caído e curtir essas bandas pode até te tornar uma pessoa chata, em vez de alguém legal. Legal é se divertir com Lady Gaga, por ser tosqueira, e se amarrar em She & Him. Tem que ter lido os livros e visto os filmes do Harry Potter, tem que se lembrar com saudade de Pokémon, porque quem determina o que é legal agora é a geração que cresceu curtindo esse tipo de porcaria. Achar que Amélie Poulain é foda dá +REP e pode te tornar benquisto, mas não é crucial. Crucial MESMO é gostar da Zooey Deschanel e se vestir como os adolescentes de Juno.

A Zooey Deschanel é a famosa mais superestimada do momento, sucedendo Audrey Tatou, Angelina Jolie e Scarlett Johansson no posto. Ao menos a Jolie e a Johansson são gostosas, a Deschanel e a Tatou nem isso têm de mérito. O que as torna tão interessantes é que não ter graça nenhuma tá em voga. Quanto mais sem-graça você for, mais longe você vai. Estão aí os caras do CQC, que não me deixam mentir. Pokémon passa na TV até hoje e Freakazoid só teve uma temporada. Cada vez mais a tv dá espaço a Naruto e assemelhados, e onde foi parar o [adult swim]? Ser nerd tá na moda, amigo. Ser nerd é ser legal, ok? Se existe sinal maior de que ser derrotado e irrelevante é bonito, por gentileza, apontem, pois me escapa.

A meu ver, a única diferença entre a Zooey Deschanel e a Hilary Duff é que apenas uma delas vive de acordo com sua época e aceita sua postura de liferuleira, enquanto a outra adota ares de quem acaba de chegar dos anos 50, vestindo-se e usando o cabelo de uma fã dos beatles recém-desperta de sua câmara criogênica, direto do início dos anos 60. De resto, ambas alternam demonstrações de falta de talento quando atuam e quando cantam, e fazem questão - deve estar em todo contrato que assinam - de cantar em todos os filmes nos quais trabalham. Azar o nosso, que temos que aturar atuações canhestras alternadas com capacidade musical nula.

Mas da Hilary Duff você pode falar mal, ok? Pode criticar os cabelos, as roupas, os filmes. Pode ridicularizar, pode dizer que é atriz pra adolescentezinha acerebrada… da Deschanel, não. A Deschanel se veste como sua avó, oras. E se vestir como sua avó é a moda agora. Como você ousa dizer que os sapatos que ela usa são ridículos? Que aquela franja é medonha? Que aquelas roupas são cafonas e que aquela aparência não caiu em desuso por acaso?

Dizer isso é quebrar o protocolo das pessoas legais. Pessoas legais acham a Deschanel legal e ouvem She & Him. Se tu acha a Deschanel passável e acha que o M. Ward é foda sozinho e ridículo em dupla; se tu ri de quem curte wayfarer, porque te dá a sensação de que os anos 70 estão prestes a ligar e pedir os óculos de volta; se tu acha que ukelele é só um cavaquinho metido a besta… você não é uma pessoa legal. Vai ser acusado de troll!

Vai ser comparado comigo.

Diga: sua reputação pode agüentar um baque desses? Não é para os fracos, gafanhoto!

Advogando pelo diabo

Podia até existir alguma tolerância, da parte do altíssimo, em relação à humanidade. Até podia, ok? Não acho que esse seja um argumento que eu possa refutar desde sua criação, em sabe-se lá quando antes do JC nascer, crescer, virar hippie, surfar sem prancha e empacotar. Acredito que, até um certo ponto da nossa evolução, se deus existe, e se ele presta alguma atenção ao que fazemos - duas afirmações questionáveis, cada uma a seu modo, e por razões diferentes, mas aceitemos a hipótese de serem reais -, ele podia ter um certo carinho pelos homens.

“Sabe, são uns filhos da puta do caralho, traiçoeiros como poucas criaturas, mas olhe só que bonitinhos eles são, navegando nos fiordes.”
Deus, uma mulherzinha jogando SimCity.

O problema é que nós, seres humanos - e você, aí, que despreza a humanidade, TAMBÉM está incluído -, não sabemos quando parar. Criar a igreja e associar o pobre criador àquela atrocidade não foi o suficiente. Inventamos o café descafeinado, o leite sem lactose. Ofendemos o todo-poderoso uma vez atrás da outra. E ignoramos o alerta, quando Krakatoa foi pro vinagre. O sujeito explodir uma ilha inteira, como retaliação por qualquer merda, não nos desmotivou. Claro que não.

Insistindo em nosso comportamento suicida, em afrontar Javé, tínhamos que fazer o impensável, tínhamos que criar o Ades de Manga com Laranja.

A Face da Besta

Ok, aí está você, meneando a cabeça e resmungando “Você está exagerando, Pedrones” (pra não mencionar todas as ofensas à minha mãe, alusões pouco educadas ao meu brioco e idéias semelhantes). Mas na verdade não estou. Pensa aqui comigo: cê sabe QUANTAS frutas existem? TROCENTAS! Você tem idéia da dificuldade que deve ter sido criar cada uma delas? Você acha que teria sido capaz de pensar na jaca? Na sirigüela? No kiwi? Na fruta do conde? No caqui? Pensa na trabalheira do caralho que foi o processo de criação.

Aí uma criatura um dia acorda e diz “Foda-se isso tudo”. E, cagando pro trabalho de deus, pega a soja - SOJA!-, mói e faz um caldo. Joga ali algum produto químico escroto pra simular um gosto que não seja o gosto da soja - que, se fosse boa MESMO, não era comida de VACA - e chama de suco.

(O demônio, que nesse momento ocupava-se de alguma maldade menor, como a fome na África ou a guerra no Oriente Médio, sentiu um abalo na força, ouviu o berro da indignação divina estraçalhando as vidraças nos limites do universo, observou atentamente a última criação da humanidade e pensou “Caralho, como eu sou n00b!”. Entre lágrimas, escreveu sua carta de demissão, botou o tridente numa sacola e o rabo entre as pernas e mudou-se pra uma comunidade de hippies isolados em algum lugar na califórnia, onde espera pelo juízo final. True story!)

O Ades, por si só, é, como a cirurgia de redução de peitos, um desavergonhado tapa na cara de deus. E uma entidade que tem “O Senhor dos Exércitos” entre suas alcunhas claramente não é grande fã do perdão.

Essa nojeira feita de soja foi a pá de cal nas relações entre nós, pobres seres derivados de carbono, e o gerente desta birosca. Pense aí em todas as misérias que poderiam ter sido evitadas, fôssemos menos cretinos e, para fazer SUCO, espremêssemos FRUTAS em vez de moer grãos, seguindo o plano divino.

Rebolation, terremoto no Haiti, morte da Dercy Gonçalves… deus está pegando mais e mais pesado a cada dia que passa. Como o Joselito Original que é, YHWH não sabe brincar. E agora que provocamos o cara, quem terá piedade de nossas almas? Estamos fodidos.

Espero que, ao beber essa coisa asquerosa da próxima vez, você consiga pensar “Esta merda vale o sacrifício deste plano de realidade!”.




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