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Olimpiadas

(A falta do acento no título cria um trocadilho muito besta. Repare.)

Desde que o socialismo deixou de ser um contrapeso decente, uma “ameaça” real ao capitalismo, a situação só degringolou. Você veja, por exemplo, o evento atual na China, que já não é socialista, mas também não parece ter deixado de ser: Os caras têm uma puta trabalheira durante anos e anos pra montar trocentas quadras de todos os esportes com e sem bola, cubo-d’água, pista de atletismo, pista pra hipismo, a puta que pariu. As olimpíadas estréiam e o que a Rússia e a Geórgia fazem?

Começam uma guerra.

Esses (ex)socialistas andam meio desunidos, é foda. Baita desrespeito com todo o trabalho que os amarelos tiveram pra organizar os jogos olímpicos e silenciar todos os manifestantes querendo erguer placas, cartazes e vozes em prol dos nepaleses. Nossa sorte é essa nossa imprensa, tão séria e competente, tão boa em priorizar o que é prioridade e deixar de lado o que não tem muita importância. Graças a ela não temos que ficar vendo imagens de civis desesperados ao terem seus lares e familiares espalhados por quilômetros a fio, tampouco temos que ouvir declarações desses humanistas idiotas - o que essas pessoas sabem, afinal? -, querendo fazer longos e tediosos discursos a respeito do pega-pra-capar na Europa, dizendo que a guerra é a forma mais inaceitável de se conseguir alguma coisa e que a violência, longe de ser um argumento, é justamente a resposta usada na falta deles.

Nah, não temos que ver nada disso, ouvir nada disso, pensar em qualquer baboseira dessas. Que se danem os milhares de refugiados, assassinados, esquartejados, aniquilados, bombardeados, ensangüentados, injustiçados e arrasados moradores da Geórgia. Vão bombardeando eles aí, Russos, que existem coisas mais importantes na televisão. Temos que ver se a seleção de vôlei vai ou não ser campeã, ou se o Michael Phelps vai - surpresa das surpresas - bater mais um dos inúmeros recordes mundiais que detêm, se um sujeito em um barquinho a vela vai conseguir pegar mais vento que outro sujeito em situação semelhante, se uma mulher magricela com ombros mais largos que as nadadoras com peitão musculoso de homem vai ser capaz de, munida de uma vara, saltar sobre uma outra vareta, lá em cima, bem na casa do caralho.

Isso, sim, é bacana. Isso, sim, é entretenimento.

Olimpíada é uma vez a cada quatro anos. Guerra tem todo dia, pô. Não temos aqui a preocupante situação do Rio de Janeiro pra preocupar nossas preocupadas cabeças nesse preocupador sentido? Então.

O importante primeiro, pois. Dois minutos de guerra nos telejornais, quinze de sétimo lugar na natação feminina. Duas notinhas sobre os mortos e feridos nos jornais, um caderno e meio sobre badminton.

Acabando as Olimpíadas, se a situação na Geórgia persistir, poderemos reclamar da falta de bom-senso dessas pessoas que preferem despedaçar umas às outras a ficar na frente da TV, vendo esportes dos quais nunca ouvimos falar e esportistas que são as celebridades de hoje, os filhos preferidos da nação, os símbolos vivos do que o país representa. E os zés-ninguém de amanhã.

One More Shit Day

AVISO: Este texto contém spoilers (que podem te fazer poupar dinheiro, caso seja um leitor das histórias do Homem-Aranha e um comprador assíduo das revistas do herói, então leia assim mesmo).

Indo contra todas as recomendações do bom-senso, baixei - e li, porque se é pra ser idiota, deve-se ao menos fazer um esforço para atingir um nível mais elevado - a próxima “grande saga” do Homem-Aranha, a ser lançada aqui no Brasil talvez no fim desse ano, começo do ano que vem: One More Day.

Para os que não lêem os quadrinhos e ainda assim estão lendo esse texto - duvido que sejam muitos, se é que há alguém que faça isso -, o que ocorre é que após os eventos da Guerra Civil, Tia May acabou sendo baleada por um assassino contratado pelo Rei do Crime para matar Peter Parker (que levou sua identidade secreta - que já não era TÃO secreta assim, convenhamos - a público). Foragido da justiça por ir contra a lei de registro após notar que o Homem de Ferro na verdade é um escroto, sem ter a quem recorrer e vendo sua tia morrer, o Homem-Aranha, desesperado, foi providencial e inesperadamente auxiliado pelo Mefisto - que é, na Marvel, algo como uma versão (menos poderosa, pra poder levar porrada do Thor quando necessário) do canho, do demo, da cascavel das sete ventas.

Como o sulfuroso nunca trabalha de graça, ofereceu um acordo: Tia May seria salva em troca do amor de Peter Parker e Mary Jane. Lógico que a coisa não caminharia como no mundo real, onde o amor entre pessoas casadas de fato acaba, mas elas continuam vivendo juntas, ainda assim, transformando suas vidas - e a de todos os outros ao seu redor - no mais completo e irremediável inferno. Os termos, no caso de Peter e MJ, foram outros: uma ligeira mudança no plano da realidade, nada muito drástico, e eles nunca foram casados. Nunca. Ele não se lembra de ser casado com ela, nem ela de ter sido casada com ele. Ninguém lembra deles como um casal, porque eles nunca foram um.

One More Day

Você não está sozinho: “Minha nossa, que solução de merda!” é um pensamento que também me passou pela cabeça ao saber da história. E muitas vezes mais, enquanto lia a história.

O problema da identidade do Homem-Aranha ser conhecida também foi resolvido, assim como outras mudanças que a Marvel fez no herói de alguns anos para cá, que causaram nos leitores aquela sensação de “No que diabos eles estavam pensando?”: os disparadores de teia voltaram, Harry Osborn está vivo, Tia May não faz idéia que o sobrinho dela é o escalador de paredes.

Tudo bem que foram mudanças que também não me agradaram, na época em que foram feitas (nem muito tempo depois, mas relevaremos esse aspecto), e é lógico que seria ótimo dar um jeito de voltar atrás, mas teria que ser um jeito um pouco menos picareta, canalhão e safardana. Nunca esse… esse… esse cop out escroto de “trato com o demo/mudança na realidade como a conhecemos”. Porra, isso foi um chute no saco aplicado por um cobrador de faltas da seleção brasileira, ex-jogador de rúgby na Austrália, usando uma bota com bico fino de ferro, pelo amor de deus!

Agora o que me aborrece mais, o que me aborrece mais do que todas essas picaretagens descritas nos parágrafos anteriores, é que as histórias da saga do Homem-Aranha pós-One More Day, Brand New Day, estão boas pra caralho. Mostram um fôlego que eu só vi nas histórias do personagem quando Ultimate Spider-Man começou a sair! Eu queria MUITO, vocês não sabem o quanto, poder vir aqui e dizer “Foi uma solução horrível que conduziu a uma fase horrorosa”, coisa que diria facilmente na época da Saga do Clone, por exemplo, quando todas as soluções conduziam a situações piores do que a anterior, mas não é o caso. E eu não posso me permitir uma injustiça dessas. Não queria que tivesse acontecido e me envergonho profundamente disso, mas gostei das histórias.

Brand New Day

Entretanto, é lógico que há um problema. Algum problema teria que existir. E o problema é esse: Peter Parker está irreconhecível.

Porque, veja, Joe Quesada, o editor da Marvel, resolveu dar essa… hm… eu não quero dizer “cagada”, então vou usar “reviravolta”, mas pode ler “cagada”, se você preferir… então. Joe Quesada resolveu dar essa reviravolta na vida do Aranha porque ele gosta MESMO do Peter Parker do final da década de 70, começo da década de 80, vivendo sozinho, quebrado, desempregado e sem saber o que fazer da vida, tendo seu alter-ego heróico como a causa de toda sua satisfação e desgraça, simultaneamente. Com uma vida amorosa deprimente ou inexistente, uma tia decrépita com a saúde oscilando entre “ruim” e “ainda pior”, crente que ele é um pobre e frágil rapazote, levantando grana apenas o suficiente pra pagar - com atraso - o aluguel de um cafofo asqueroso no bairro mais pobre de Manhattan.

Ok, eu também gosto desse Peter Parker. Gosto tanto que, de tempos em tempos, releio minhas revistas dessa época. Gosto dele porque ele era divertido e, apesar de ter tudo pra ser o sujeito mais carrancudo e rancoroso do mundo, preferia o humor à depressão. Esse Peter era um sujeito bacana, esforçado, azarado pra caralho, mas boa-gente. Livre pra ir lutar, sem muitas preocupações, numa batalha do outro lado do universo, arquitetada por um semideus que sentiu vontade de testar os bons e os maus elementos desse planeta, colocando-os uns conta os outros num mundo montado às pressas com pedaços de outros corpos celestes.

Mas me acostumei com o outro Peter, mais responsável, mais sério e com outros compromissos além de si mesmo. Preocupado em não chegar tão tarde em casa pra patroa não arrancar os cabelos, sofrendo com a interferência de assuntos externos na sua vida conjugal, tentando não surtar porque não tinha grana e, caso fosse despejado, seriam ele e a mulher no meio da rua. Acompanhei ESSE Peter por mais tempo do que acompanhei o outro e, mesmo que me identifique mais com o outro, era ESSE que eu tinha me acostumado a ver.

Então vê-lo de volta ao que era é tão… irreal. É como se você voltasse pro colégio! Imagine-se de volta ao colégio, depois de tantos anos de faculdade/trabalho. O colégio era legal, mas não é mais pra você. Então esse novo Homem-Aranha é divertido, mas é divertido de uma forma amarga. É como um momento de saudosismo que te joga de volta ao passado: você se lembra com carinho daquele lugar, mas não é mais SEU lugar. Seu lugar é aqui e agora. Lá você fica deslocado, soa bobo, infantil e até meio babaca.

Nessa nova fase, o Homem-Aranha está bom como não vinha sendo há muito.
Peter Parker, por outro lado, tá soando meio babaca. Dá vontade de dar um pescotapa no sujeito e dizer “Mermão! Tu ainda tá nessa? Vai tocar essa vida adiante, caralho!”.

Agora que a Marvel descobriu essa saída espertona pra todas as cagadas que faz, vai ficar fácil encontrar solução pra outras idiotices cometidas pela Casa das Idéias. Por exemplo:

1) Sharon Carter faz um trato com Mefisto. Ela e Steve Rogers esquecem um do outro. Em troca, o Capitão América volta à vida.

2) Tony Stark faz um trato com Mefisto. Ele perde toda a sua fortuna e vira um sem-teto numa armadura multimilionária (o poderoso Homendigo). Em troca, deixa de ser um babaca.

3) SpeedBall faz um trato com Mefisto. Ele fica na puberdade por mais uns trinta anos, em troca os Novos Guerreiros voltam a existir e a Guerra Civil nunca aconteceu.

Mas o que eu queria MESMO era fazer um trato com Mefisto: ele leva toda a minha coleção de revistas e, em troca, eu esqueço que dei tanto dinheiro pra Marvel, ajudando a contratar essa cambada de idiotas incompetentes incapazes de escrever uma história que preste.

P.S.: Rola um boato que o Straczynski pediu pra retirarem o nome dele dos créditos da história, ao saber qual seria o fim da saga One More Day. Não sei se é verdade ou mentira, mas o fato é que o nome dele está lá, ao lado do de Joe Quesada. Culpo ambos, portanto.

Do incompreensível

Por que alguém diz que leu ou lê algo que não leu e não lê?

Exposta assim, a pergunta é muito ampla, então vamos simplificar. Eu compreendo por que alguém diria que leu um livro que nunca leu, por exemplo. Ainda mais quando é uma coisa dessas que todo mundo parece ter lido. Indo a um modelo de explicação meramente ilustrativo, mas que deve ser mais comum do que se imagina, entendo por que uma pessoa que gosta de ler, mas nunca leu James Joyce - porque James Joyce é um saco e tem nome de mulher - diria, numa roda de amigos que já leram James Joyce, que também leu. Ficam todas aquelas pessoas ali, arrotando conhecimento, falando que leram James Joyce como quem aponta uma gostosa e diz “Já comi”, logo o cara se sente meio assustado quando percebe que, em matéria de James Joyce, ele é o único cabaço. Então entra no wikiquote, procura trechos legais de qualquer merda escrita pela nossa querida Joice, e cita vários nas conversas com seus amigos. Isso lhe dá algum status no meio do grupo.

Também entendo o que faz alguém que nunca leu jornais dizer que lê jornais. A gente vê em todo lugar, o tempo todo, várias pessoas “importantes” dizendo como é “importante” ser “bem-informado”. Daí queremos ser “bem-informados”. Ser “bem-informado” é cool. Alguém de repente te pergunta as horas e você, como criatura “bem-informada” que é, faz logo uma preleção a respeito do atual estado político da Namíbia e do que está acontecendo com o grupo separatista Basco. Conclui dizendo que a hora não importa mais, pois já é muito tarde para os ativistas nepalenses contra a dominação chinesa, donde segue-se outro discurso inflamado a respeito da postura do Dalai Lama e dos planos da ONU diante desse quadro. A pessoa sai sem perceber que não foi respondida, boquiaberta com sua sapiência e achando que você é maluco. Veja só como é legal ser “bem-informado”.

Mas o que faz alguém dizer que lê um blog que não lê? Não pro dono do blog, pois isso poderia ser, sei lá, uma forma de gentileza. É como dizer “Gostei do seu chapéu”, quando tudo o que você quer é dizer “Teu chapéu é ridículo”: uma daquelas fronteiras sociais que poucos têm coragem de atravessar, porque conduz a caminhos muito, muito solitários (e, dependendo do tamanho do dono do chapéu, muito doloridos, também). Mas no caso do dono NUNCA ter perguntado se você lê, nunca ter PEDIDO pra você ler. O blog simplesmente está lá e você não lê. Pra quê colocar um link? Pra fazer “parceria” eu entenderia - seria desprezível, mas eu entenderia -, mas e quando não é o caso?

É possível argumentarem que eu não sei se a pessoa em questão lê o blog ou não, ao que eu contra-argumento que sei, sim. Porque analisemos o caso do utopia: mudou pra este endereço há quase um ano. No antigo reduto em que permaneceu por tanto tempo, e que agora é uma url abandonada, há apenas uma mensagem direcionando os que lá chegarem para cá. E ainda assim há quem coloque links pra lá. E você vem me dizer que uma pessoa dessas LEU o que está escrito? Não leu, não há o que discutir. Por uma razão qualquer incompreensível, algumas pessoas não abandonam URLs mortas. Ainda colocam links pra elas. Continuam visitando, mesmo que elas não existam mais.

E é ISSO que eu não entendo.

Porque, pense comigo, essa pessoa não lê o blog, e está tudo bem em não ler um blog como este. Este é um blog pequeno, um beco escondido e intencionalmente sujo e mal-iluminado na gigantesca palhaçada que é a blogosfera. E é assim porque eu quero assim, porque eu gosto assim, porque quero os palhaços fora daqui, quero que seja sombrio e desagradável. Quero que as pessoas tenham receio, nojo, desprezo por este gueto imundo e malcheiroso. Enquanto os outros lutam, mordem, latem e babam pra levar seus escritos à luz, pra ter seus textos disseminados, espalhados por intermináveis correntes de e-mail, quiçá rodando a web em arquivos .pps, eu quero os meus aqui, esquecidos. Aqui, e em nenhum outro lugar.

Então este não é um blog que você diz que não lê e outros blogueiros te olham com uma pontada de desprezo, muito pelo contrário: você diz “eu leio” e periga rirem da sua cara. É como, numa mesa em que se discute Dostoiévsky, você perguntar se alguém leu “O Segredo”. Eu não sou um Polzonoff, um Soares Silva, um Pedro Dória, e deus me livre e guarde disso. No dia em que perder meu bom-senso a esse ponto, peço encarecidamente pra que alguém tenha a decência de me dar um tiro no meio da cara, assim poderei levar para o túmulo o que me resta de dignidade.

Ou seja, não sendo esse um blog “importante”, um blog “grande”, um blog “informativo”, um blog de “credibilidade”, ou qualquer porra dessas, retorno então à questão que abre este texto: por que alguém diria que lê isso aqui, sem ler? Não é como se eu fizesse questão. Aliás, dependendo de quem for, eu até faço questão que não leia.

Infelizmente, minha compreensão das motivações alheias não atinge abismos tão profundos. São por demais bizarros e fora de lógica para que eu possa alcançá-los.

Divagar

A vida não é justa e o mundo é cheio de gente burra. Hoje acordei com tendência a dizer o óbvio e estão aí as duas afirmativas mais verdadeiras que alguém pode fazer. Repito para os idealistas de plantão: justiça é conversa fiada pra boi dormir, gente inteligente é um negócio raro de encontrar. Nesse blog aqui, por exemplo, duvido que você ache uma. Começando pelo autor. Mas existem piores, então pode ficar, se o grau mediano de limitação intelectual emanado aqui não te aborrece.

Não, você não está enganado(a), esse parágrafo é um dos que começa textos que não têm qualquer assunto em particular, que caminham por tópicos completamente diferentes de forma totalmente aleatória. Bem-vindo(a) ao meu processo ilógico de pensamentos, no geral reclamações. Sua estada aqui será curta e prometo limitar os palavrões o máximo possível, mas quando leio que a Alizée é casada e tem um filho, o que é que me ocorre? CARALHO! É isso que me ocorre. Que tipo de imbecil faz um filho numa mulher daquelas? Um imbecil de sorte, foi o que Eduardo Stigger me disse, e o problema é que o miserável tem razão.

A moça é nova, a moça é linda, a moça é gostosa pra caralho. Por que não comê-la desesperadamente até que a gravidade, os shows, os vícios e o tempo, esse inoxidável (?), façam seu trabalho? Quando começar a rolar a época da decadência, dá-lhe um bucho em pé de guerra, um fedorentinho, e pronto, ela sai de uma função cultural (ser gostosa) pra outra (ser procriadora). Por que as pessoas procriam? Não faço idéia. Não sei nem porque é que se CASAM, pra começo de conversa. Que idéia mais idiota, trocarem anéis e morarem juntos.

Ok, morar junto às vezes nem é uma idéia tão besta assim. Às vezes pode se tornar inviável duas contas de luz, duas contas de água, duas contas de telefone, duas de internet, duas de tv a cabo, dois aluguéis/boletos de cobrança de parcelamento de pagamento de imóvel, enfim. Às vezes é mais barato mesmo juntar os panos de bunda, alugar um apê maior e irem pra essa vida conjunta, que promete torná-los inimigos pro resto da vida. As pessoas têm o direito de se apaixonar umas pelas outras e de odiar umas às outras, também, não se deve impedi-las de levar a vida como acharem melhor.

Mas deve ser aquele troço de desejo mútuo. O pior que pode acontecer é alguém de fora começar a pressionar, um dos dois entrar na onda e o outro resolver aceitar, indo pra essa época complicada da vida só pra alegrar familiares (geralmente os do outro). Porque as pessoas não têm a menor noção e se metem no que não deveriam se meter, fazendo comentários teoricamente engraçadinhos, quando o ideal seria que calassem a boca e cuidassem da própria vida. Eu namoro há quase cinco anos - sim, com a mesma guria - e tô sempre ouvindo idiotices como “E aí, vão se casar?” ou “Tá enrolando a menina?” e coisas assim. Daí, se eu mando tomar no cu, quem é o mal-educado? Eu, logicamente.

Porque se meter na vida dos outros é desagradável, mas não é falta de educação. Sugerir a alguém que inverta o vetor do duto de saída fecal, ah, isso é de uma falta de elegância que beira a barbárie.

O foda é que existe quem se deixe levar por essa pressão. Os pais dela, ou os pais dele, resolvem que estão juntos há tempos demais e que deveriam juntar logo esses trapos, arranjar um buraco qualquer, entrar com a papelada, essas coisas. Devo dizer que geralmente é a mulher que vem com essa conversa mole, principalmente quando a mulher tem um monte de irmãs. Porque mulher em grupo só fala dessas merdas. Quando não conversam sobre as próprias roupas, cabelos, unhas, métodos depilatórios e ph do corrimento vaginal, entram nesse tópico desagradabilíssimo que é a vida conjugal. Pra uma mulher, conseguir colocar uma argola dourada no dedo de um idiota e convencê-lo a morar com ela (ou a deixá-la morar com ele) é como, para um homem, conseguir comer uma gostosa de propaganda de cerveja, com direito a fotos pra mostrar pros amigos. Ou como tirar um Ford Fusion da concessionária sem ajuda dos pais: um sinal de status, uma demonstração de superioridade, uma prova que você é capaz de ser bem-sucedido nessa vida.

Lógico que nem todas as mulheres são assim, nem todos os homens também. Mas que a maioria é, ah, isso é.

Colhões mesmo tem aquele marido da Jennifer Garner em Juno, que resolve mandar pro caralho o surto familiar-psicótico da mulher que cismou que “nasceu pra ser mãe” e vai viver sozinho num loft, com seus quadrinhos, sua guitarra fodona, seus filmes sangrentos de horror e sua tara por adolescentes barrigudinhas. Tá aí um cara que eu respeito. Logicamente, ele é colocado de forma muito depreciativa no filme, porque o roteiro, oras, foi escrito por uma mulher. Fosse um filme do Nick Hornby e a história giraria em torno dele, e ele seria um cara legal pra caralho, tipo o Hugh Grant em Um Grande Garoto. É tudo uma questão de ponto de vista.

Falando em retomar as nerdices, voltei a jogar RPG e, alguns dias depois, morre o Gary Gygax. Veja só se não é o universo dando um berro e dizendo que eu fazia muito melhor ficando afastado desse hobby maldito, dessa coisa demoníaca, desse criadouro de assassinos satanistas que é o RPG. RPG é coisa do diabo, todo mundo sabe. Sempre rolam uns rituais macabros envolvendo sangue de bode, cabeças de galinhas pretas, farofa de macumba e pedaços de cérebros de eleitores do PSDB (esse último item é mais difícil de achar). Tudo isso pra tirar um 20 em um D20, numa jogada com dificuldade 27, onde seu modificador é JUSTAMENTE +7 e que pode definir o curso da missão.

Devo admitir que o mestre come nosso rabo, mas dá beijinho na nuca depois, então fica tudo bem.

Utilizando essa última frase pra sair da nerdice e partir pra viadagem, resolvi deixar o cabelo crescer. Resolvi há seis meses e tá crescendo há seis meses. Atualmente estamos nos dando bem, mas há algum tempo ele teve um período de adolescência que foi realmente difícil de tolerar. Era um tamanho maior do que o costumeiro, mas menor do que o de um cabelo “grande”. Eu não podia mais tratá-lo como se fosse pequeno, também não podia tratá-lo como se fosse grande. Ele se revoltava por pouca coisa e convencê-lo a obedecer, a ser minimamente lógico, era bastante difícil. Foi uma época complicada, mas estamos nos dando bem melhor agora. Acho que nunca mais volto a cortá-lo tão curto. Do tamanho que está, ele não cria esculturas medonhas sempre que tiro um cochilo. É só penteá-lo pra trás e pronto, chega de dor-de-cabeça.

Melhor que isso, só raspando com gilete.

Mas não tenho coragem pra tanto. Já basta fazer isso na minha cara e descobrir (mesmo já conhecendo, mas relembrar é sempre difícil) o que há por baixo. Não quero descobrir que tenho calombos esquisitos no crânio ou marcas medonhas espalhadas pelo couro cabeludo.

Felizmente o gene da carequice não caminha por essas bandas…

Esse texto é muito longo! Bota umas figuras!

Sou um cético com tendência ao ateísmo, um agnóstico dado a heresias, um piadista que prefere irritar a fazer rir, um leitor que enriquece seu vocabulário a cada livro, mas prefere usar palavrões por acreditar que ser chulo é mais legal do que ser prolixo, um cínico que elogia pra não xingar e xinga elogiando, um grosseiro bem-educado que é ríspido por opção, um sujeito amigável que não quer fazer amigos, um cara cheio de amigos que raramente vê, porque gosta mais deles assim. Apesar de tantas contradições, há um aspecto em tudo isso que é bastante coerente: eu não faço o que se convencionou chamar de “engenharia social”. Não me relaciono com ninguém por qualquer outra razão que não seja o fato de querer ver a pessoa, ir com a cara dela, gostar de suas idéias ou da maneira como ela as desenvolve. É tudo muito simples, de verdade: se te elogio de forma direta, brutal, rude, é porque de fato gosto de você. Se te elogiar com um belo vocabulário, com afetação, me certificando de elevar à enésima potência todos os seus atributos - inclusive os que você não tem - estou sendo irônico.

Sou contra essa brincadeirinha atual, essa regra não declarada, de ser simpático, gentil, polido, educado e politicamente correto. Muito, muito contra. Não admito quem seja simpático com todos, quem é amigo de todos, quem convive bem com todos, simplesmente porque uma coisa dessas não é humanamente possível. Não admito quem dobra a verdade, a distorce ou fecha os olhos em face dela para manter a “boa convivência”. Não acredito que seja certo sair por aí com suas verdades, esfregando-as na cara dos outros, colando-as nas costas dos outros como se fossem etiquetas, também, mas daí a ignorá-las para evitar o atrito? Oras, é preciso ter critérios. Preconceitos são uma falha horrorosa, mas não ter conceito algum não é menos medonho.

Saber fazer ouvidos moucos às suas verdades, aos fatos desagradáveis sobre as pessoas que você conhece; saber ignorar o que te desagrada e demonstrar falsa simpatia; se aproximar sorrindo para conseguir simpatia; ser gentil e cordial, solícito e prestadio, porque assim te parece mais vantajoso. Isso não é “ser bom” e está longe de ser “ser justo”.

Isso é ser político.

Vai daí que uma das minhas aversões à política - nos dois sentidos - que se instaurou entre os blogs atuais seja justamente em relação a esse ponto. As “parcerias”, como gostam de chamar. Me aborrece saber que o autor de um blog que eu leio me recomenda, em sua lista de links, com direito a posto privilegiado para dar mais visibilidade, o site de alguém apenas porque o determinado site prometeu mais visitas, o que significa mais pageviews, o que significa mais dinheiro vindo do google adsense. Não há um critério que justifique aquela indicação além desse: quantas ovelhas você pode mandar para o meu rebanho, quantas posso mandar para o seu? É o toma-lá-dá-cá.

Muitos desses sites não têm um texto mais elaborado escrito pelo autor (perdão por usar o termo levianamente). As idéias do “autor” não estão ali. Provavelmente nem existem. São apenas amontoados de notícias, comentadas superficialmente. São a mesma coisa que você leria se entrasse em qualquer site de notícias, mas geralmente focadas em esquisitices ou curiosidades. Porque linkar notícias políticas e comentá-las com propriedade exige muito mais raciocínio e bom-senso do que falar de um novo tipo de camiseta, de cortes de cabelo ou de mortes, casamentos, gravidezes (??) de famosos. Porque ser racional (mas nem precisa ser muito), lógico (ainda que de forma esquisita) e articulado (sem ser prolixo) é muito difícil. Contar as coisas, em vez de comentá-las, analisar as coisas, no lugar de mostrá-las, examinar as coisas, e não apenas apontá-las, puxa, tudo isso dá um trabalho miserável.

É uma era maldita. Computadores eram essencialmente baseados em leitura. A web era essencialmente leitura! Não tinha muito a se fazer na internet além de ler e escrever. Páginas eram puro texto, só html e imagens. À medida que a tal “inclusão digital” foi se expandindo, o formato da mídia também foi. Por que ler, se você pode ver um vídeo? Por que ler, se você pode ver figuras? “Esse texto é muito longo. Cadê os vídeos engraçadinhos?”. “Esse blog tem muitas letras. Distribui umas imagens para fazê-lo mais didático”. “Você escreve demais. Coloca aí uma figura com uma piada”. Daí o sucesso indiscutível de kibe loco e assemelhados, daí o fato de todos - eu não digo alguns, digo TODOS - os blogs que se proclamam “veículos de informação” serem apenas montes de links para notícias com comentários superficiais. Nenhuma opinião que saia do padrão, nenhuma piada que aquele seu tio que pergunta se “É pavê ou pacomê?” não pudesse fazer melhor.

Por que ler um blog, afinal, se você pode apenas VER um blog?

Tudo isso vai lentamente me empurrando porta afora desse tipo de coisa. Porque, quando o assunto é blog, sou um reacionário. Eu gosto de pensar, eu gosto de ler coisas novas. Gosto de me deparar com textos de caras que sabem pra caralho, mas que não são prolixos e não arrotam conhecimento - como os jornalistas que escrevem por aí - e pensar “Mas veja você, eu nunca tinha visto as coisas por esse ângulo!”. Os - poucos - blogs que me conduzem a isso, que me fazem pensar “Não sei por que ainda escrevo, esse cara fala tudo com muito mais categoria do que eu” estão lentamente sendo sugados para a propaganda desesperada e a “busca por parcerias”, porque o autor resolveu que quer viver disso e está trabalhando em seu projeto de engenharia social.

Odeio ser um conservador, mas é como me sinto. Como um desses sujeitos que resistem ao que se conhece como “modernização”. Sou desapegado, “pouco profissional” com essa ferramenta, teimoso, pouco sociável. E por quê? Porque não quero ganhar dinheiro, porque quando alguém paga suas contas, restringe sua liberdade de opinião. Porque não quero me encher de leitores, porque não quero milhares de comentários e milhares de opiniões dispensáveis espalhadas aos pés dos meus textos, que, embora não sejam grande coisa, são bons demais para coisas do tipo “ahuehauehaueh mt rox”. É como se eu tivesse um filho: ainda que não quisesse superprotegê-lo, também não seria certo deixar que se tornasse um escravo, um submisso ou um retardado.

Resumindo, para quem tem preguiça de ler, Saramago diz mais ou menos o mesmo que eu, embora com outro foco (e com muito mais categoria):


(E se você teve preguiça de ler, não sei por que continua vindo aqui…)

Eu também cansei

Eu não penso em mim como um sujeito de esquerda ou de direita. O conceito que faço de mim mesmo não é tão limitado. Se for questionado a respeito das minhas convicções políticas, também não sei o que responder. Mas convenhamos, que tipo de pergunta é essa, afinal?

Se tiver que escolher um lado, entretanto, se não houver opção, se for preciso definir “o que” eu sou, acho que diria que sou de esquerda. O que eu não diria, nunca, é que sou de direita. Primeiro porque não vejo como seria possível ser de direita em um país de terceiro mundo. Acredito que quem se diz de direita, no Brasil, simplesmente não faz idéia do que está dizendo. Isso é como afirmar que acha que tudo por aqui está muito certo e caminhando muito bem; que devemos ter gente nas ruas pedindo dinheiro e cidadãos morrendo de fome; que é justo que nossa economia seja explorada e é certo nos sacrificarmos pra manter a riqueza dos outros. É o mesmo que dizer “Sim, eu gosto de ser feito de capacho!”.

Porque é isso que latino-americano de direita é: o peixe pequeno que aplaude o tubarão que o devora.

A direita gosta de sugerir que ser de esquerda é ser ditador, genocida, ter mau-hálito e coisa e tal. Eu não vou negar, dizendo que nunca houve um regime de esquerda ditatorial nesse planeta porque seria uma mentira deslavada, mas a verdade é que, por mais que regimes de esquerda tenham matado pessoas e mantido genocidas tirânicos no poder, o que dizer das ditaduras de direita? Some aí todas as mortes causadas por Hitler e pelas ditaduras militares na América Latina, em Portugal e na Espanha e volte a dizer que os governos de esquerda mataram mais pessoas. Volte a dizer que a esquerda é desumana e cruel, enquanto a direita é a manifestação política do desejo divino. Não que um erro maior torne um erro menor um acerto, é claro, mas usar os dedos sujos para apontar a sujeira dos outros é uma idéia pouco recomendável. Sem contar que Bush é um presidente de direita. Entre ele e sua política externa e Fidel e sua política interna, fico com o segundo de bom grado.

Além do mais, que publicação é o expoente maior da direita nacional, atualmente? A revista Veja. E a Veja é uma piada! Não digo isso por “ser de esquerda”. É, aliás, para não ser interpretado dessa forma que não digo que sou de esquerda: vestir um rótulo traz determinadas interpretações por parte dos que vestem rótulos diferentes que torna impossível uma discussão honesta, pacífica e com tendência ao consenso.

A Veja já era uma piada quando eu me dizia apolítico. A Veja manipula, mente, fabrica informações. E isso não é implicância, mas mera questão de raciocínio lógico! Apenas compare a quantidade de “denúncias” feitas por eles durante o governo FHC, por exemplo, e a quantidade feita durante o governo Lula. Note a enorme diferença na quantidade, na postura, nos argumentos. Não é questão de ser “Lulista” ou “PeTralha” - como eles gostam de definir, em sua fúria maniqueísta fascistóide de “comigo ou contra mim”, todos os que criticam a revista -, é questão de ser justo. Acho certo que se noticie a picaretagem, que se aponte os canalhas, que se execre publicamente os corruptos, que sejamos firmes e inabaláveis na pregação da moralidade, mas não podemos fazer isso apenas com aqueles que estão do lado oposto ao nosso.

É muito fácil dizer, com base em todas as denúncias atuais contra o governo Lula, o que a direita tanto gosta de bradar: “Nunca se roubou tanto na história desse país”. É fácil, mas não sei se é certo. Ninguém sabe se é certo, por uma simples razão: porque quando quem estava no poder eram aqueles apoiados pela maioria esmagadora dos veículos de comunicação, não havia denúncia. Não havia investigação. Não havia Mainardi e seus livros de títulos engraçadinhos. Onde estava todo esse faro jornalístico do Diogo Mainardi para as fraudes e os roubos quando da privatização das teles? Nessa época - e eu falo com propriedade a respeito, pois assinávamos a revista aqui em casa - esse grande Paladino da Moral, esse Cruzado da Ética, o Vingador da Boa-Fé e Campeão da Boa-Índole falava de quê? Discutia se devia ou não haver uma orquestra sinfônica em São Paulo, divagava a respeito de palavras que existem apenas na língua portuguesa, argumentava sobre o erro que é a existência das instituições de caridade.

Não sou “Lulista”, não sou “PeTralha” e não sou “de esquerda”. Se tenho que me dar um título, que seja este: sou justo. Se vamos apedrejar, apedrejaremos todos. Se vamos passar a mão na cabeça, passaremos na cabeça de todos. Nada de ladrar para adversários e balançar o rabo para os seus. Não existe moralidade relativa, não existe honestidade relativa, não existe justiça relativa.

É isso que me leva a não gostar da Veja e de seu séquito. Não é o fato de serem “de direita”, entreguistas, neoliberais, desumanos. São posturas detestáveis, é verdade, mas ser desagradável é um direito inalienável de cada ser humano. Tenho minha cota de posturas insuportáveis, não estou em posição de desmerecer ninguém por isso. O que eu não admito, não aceito, não permito e não tolero é canalhice.

Aí já é demais. Cansei, tô cansadinho.