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Do amor repentino

Engole isso: “declarações” só funcionam na ficção. Não existe tal coisa nesse mundo, de duas pessoas conviverem e nutrirem um enorme amor mútuo, e um dia, debaixo da chuva, uma delas - geralmente o homem - aparecer de repente, jogando pedrinhas na janela e se declarando, só pra ouvir “Eu te amo” de volta e abraçar sua amada sob a torrente, entre beijos e lágrimas e uma enorme dose de insulina pra ninguém morrer de diabetes com toda essa viadagem.

Isso só acontece em filmes ruins, livros estúpidos e na cabeça de gente idiota. Romantismo é um conceito babaca que deveria ter morrido com todos aqueles tuberculosos, mas infelizmente há quem insista em manter acesa essa idéia cretina e contraproducente. Pior: há quem ache que isso é importante, e que “mantêm acesa a chama” dos relacionamentos. Eu gostaria de poder dizer que sim, que relacionamentos duram sem isso e que precisam de outras coisas, e enumerá-las, esfregando na cara de todos esses débeis mentais, na sua cara, o quanto essas idéias são pueris e como sequer são válidas como roteiro de Malhação, mas o fato é que não interessa o que faz com que relacionamentos perdurem. A própria idéia de que um relacionamento é essa entidade, esse ser vivo que precisa ser alimentado freqüentemente, já é um conceito idiota e romântico. “Idiota e romântico” é pleonasmo, diga-se de passagem.

(A idéia era maior que isso, mas não tô mais a fim de desenvolver. Conclua disso o que quiser, ou não conclua nada, foda-se.)

Das coisas que se ensaia dizer…

…mas não se diz.

Fico sem saber o que é pior: ter sobre o que escrever, sem ter ânimo, ou sentir uma arrebatadora vontade de escrever sem ter assunto para tanto. Considero que, neste momento, estou exatamente na união destes dois casos: não tenho sobre o que escrever e não tenho ânimo. Escrevo assim mesmo, entretanto, porque, como já disse aqui antes (disse? Não tenho certeza, mas devo ter dito, digo sempre as mesmas coisas, e geralmente do mesmo jeito, sou terrivelmente repetitivo e até, vou além, bastante pleonástico. Mas não quero falar disso, este parêntese está ficando gigantesco, vou fechá-lo agora e acabar com esta putaria, repare) enfim, como dizia que disse aqui antes, digo: eu me odeio e gosto de me contrariar.

Acho que tem bem uns cinco dois pontos no parágrafo acima, mas quem está contando?

Mudei-me, e desta vez foi de com força: saí de Brasília. Vivo agora no Rio de Janeiro, uma cidade habitada por um povo que, fosse comprado por quanto vale e vendido pelo valor que pensa ter, renderia lucro inenarrável. Gostaria de afirmar, sem quaisquer dúvidas, que são as pessoas mais ufanisticamente bairristas da nação, mas, oras, não vamos desprezar o ufanismo e o bairrismo dos gaúchos, pernambucanos, mineiros e paulistas, dos paranaenses, brasilienses, goianos e baianos, dentre outros. Ofender-se-iam, certamente, ao não serem devidamente ofendidos com a ofensa que lhes cabe com justiça.

Enfiei uma mesóclise e uma frase sem sentido (acredito que a primeira de muitas) neste texto. Onde é que vamos parar?

Senti falta de digitar neste notebook. Na verdade, senti falta de digitar em outra coisa que não fosse um netbook. Netbooks são muito práticos e muito bonitinhos, mas uma hora você se cansa das teclas todas juntinhas e de configurações 1024×768 em telas que não vão além de uma dezena de polegadas. De todo modo, apesar de seu teclado farto e de suas dezena e meia de polegares, não consigo confiar nesta máquina em que escrevo, porque técnicos de informática são as criaturas menos confiáveis do mundo (afirmo isso fazendo parte da categoria, de modo que tenho perfeito conhecimento de causa e, como de costume, não estou errado) e, assim sendo, informei o miserável do que ocorria e avisei que a mera formatação não era solução. O pústula formatou e considerou o serviço feito. Logo, tenho sobre meu colo um computador prestes a sofrer novo ataque de apoplexia.

Lancei mão de “apoplexia” num texto, ainda que de forma meio prosopopéica: dou-me +20 pontos.

Curioso o que o twitter faz com a cabeça das pessoas. Se bem que são tantos os distúrbios, tamanhas as afetações, tão violentas as mudanças - embora perfeitamente previsíveis, e apenas reflexos de fatos anteriores, já confirmados por outras ferramentas de “mídias sociais” - que é melhor ser mais específico, então especificarei: freqüentemente escrevo algo por lá, naqueles míseros 140 caracteres, e considero que a idéia é mais densa e pode ser mais bem explorada do que aquilo, que é possível ramificar, explicar melhor, argumentar de forma mais embasada. Que aquele arroto redativo, restrito àquele número ridículo de toques, pode vir para cá e ser estendido em um local de letras, acentos, pontuação e espaços infinitos.

Mas aí já falei por lá, então deixo morrer como está.

Todo esse não-desenvolvimento dos meus textos, sejam eles os que “rascunho” na página do passarinho ou os que mantenho fermentando dentro da minha cabeça, deve-se a uma coisa, e a uma coisa apenas: procrastinação. Diversas vezes afirmo ser por preguiça ou falta de tempo, mas esses são apenas os motivadores do defeito, tão grave. Ou as desculpas que uso a fim de mascará-lo, talvez. Enfim, sou tão procrastinador que comecei o texto pensando em falar disso, seria o primeiro assunto, mas fui deixando para depois e só mencionei agora. E tenho mais coisas a dizer a respeito…

…mas ficarão para outra hora.

Porque agora, pensando aqui com meus botões - na verdade pensando sozinho, porque não tem botão algum nas roupas que estou vestindo durante esta narrativa sem nexo, coerência, embasamento ou razão aparente -, me ocorreu que a total ignorância (voluntária ou inerente) de ateus e cristãos (e talvez muçulmanos, judeus, espíritas, macumbeiros, maometanos, xintoístas, cientologistas, hindus e macfags) em relação aos agnósticos, que os faz argumentar contra estes de forma sempre muito pouco inteligente e nada fundamentada, renderia um post bem interessante, que talvez até rendesse uns comentários inteligentes, que poderiam vir a gerar uma discussão interessante, que em algum momento descambaria para a troca gratuita de ofensas e então me motivaria a fazer outro texto, dessa vez bem raivoso.

E é nos textos raivosos que me saio melhor.

Estive considerando o porquê disso, recentemente. Disso, no caso, é a razão dos meus textos raivosos fazerem mais “sucesso”, se é que o termo se aplica, do que os que escrevo tranqüilo. Acho que é porque raiva é o sentimento que mais tenho facilidade para acessar, de todos. Me lembrar de momentos felizes não me deixa feliz (freqüentemente me torna melancólico, inclusive), trazer à tona lembranças tristes não necessariamente me deixaria triste, mas rememorar coisas que me aborreceram certamente vai tornar a me irritar. E irritado eu faço o que qualquer escritor minimamente competente sabe fazer de cabeça fria: não penso antes de escrever e, ao fim do texto, não dou a mínima se ele fez algum sentido. Apenas boto aquela porcaria pra fora e enfio na cara dos outros.

Duplo sentido: trabalhamos.

Agora, por que diabos VOCÊS gostam disso, o que os motiva a encher um texto como esse aí embaixo, sobre minha irritação com o Itaú, de likes no Google Reader, de RTs no Twitter, de sei lá mais que diabos vocês usam pra favoritar essas merdas… ah, isso me escapa completamente. Pelo que vejo, existem algumas várias razões para isso. Uma delas é que, de alguma maneira, há quem sinta prazer em me ver nervoso. O que é uma atitude bem escrota e cretina, se você parar pra pensar, porque é como se torcessem para que eu tivesse uma úlcera. Outra, ainda - e essa eu considero menos provável - é que vocês apenas lêem um desses rompantes de fúria e ficam felizes por alguém ter tido tamanha falta de bom-senso, amor-próprio e sentimento de auto-preservação a ponto de dizer todos os disparates, os absurdos e as estultices que os senhores já pensaram, mas foram muito bem-educados e pouco corajosos o suficiente para ignorar.

No fim das contas, não tenho opinião formada sobre isso.

E o texto não terminou ainda, mas acho que termina agora com um anúncio que não vos interessa, mas interessa a mim, e talvez, sei lá, interesse a vocês também (este sou eu me contradizendo numa mesma sentença. Não é para os fracos!): farei uns cursos de esgrima escrita. Eu sei, eu sei, é inútil e jogarei dinheiro fora. É um fato que quem não tem o jeito para a coisa, não importa o empenho ou o esforço, nunca vai chegar perto de quem, por qualquer tipo conjunção cósmica desconhecida, tem este ou aquele traquejo nato. Mas, oras, às vezes dá algum resultado. O que me interessa não é superar gente do naipe do Antônio Prata, por exemplo (o pai dele, nem menciono), apenas sair da minha linha de mediocridade já me deixaria satisfeito. Além do mais, sou um maníaco por controle, gosto de métodos. A idéia de que escrever pode se tornar um processo metódico (e, assim, mais organizado e mais “fácil”) me interessa.

Sei que prometo isso há oito anos, mas vai que dessa vez, finalmente, consigo escrever algo que preste? De todo modo, não apostem muitas fichas. Eu não apostaria.

Das Cruzadas

[Originalmente publicado em abril de 2003]

– Pedro, me dá uma ajuda?
– Claro. No quê?
– Ignorante. Com seis letras.
– Hein?
– Nas palavras cruzadas, pô. Ignorante, com seis letras.
– Pode ser néscio, beócio, obtuso ou bronco.
– Começa com b.
– Deixa eu ver.
– …
– É beócio.
– Como você sabe?
– Porque o paraíso da bíblia é o Éden, e bronco não tem e.
– Ah. É verdade.
– …
– Como é mesmo a palavra?
– Beócio.
– Como se escreve isso?
– Ai, meu ovo.
– Com s ou com c?
– Com c, néscio.

***
– Pedro…
– O que foi dessa vez?
– Me ajuda aqui.
– Escuta, quer que eu faça as palavras cruzadas pra você?
– Ah, deixa de sacanagem. Só mais essa vez.
– Fala.
– Auto-biografia famosa, com 9 letras.
– Eu me odeio, por Pedro Nunes.
– Bah. Babaca.
– …
– Mas ia vender um bocado.
– Só pelo título.
– Você tem tino comercial.
– Obrigado. Mamãe diz a mesma coisa desde o dia em que troquei suas córneas no mercado negro por uma moto Honda, uma torradeira elétrica e um cão para cegos.
– Você vai citar meu nome no livro?
– Provavelmente.
– Quero 20% dos lucros pelo Best-Seller.
– Vou declarar que você não consegue fazer palavras cruzadas nível Moleza sem pedir ajuda.
– Então quero 40%.

Entomologia Aplicada I

Toda madrugada, entre 5h e 5h15, o mesmo fenômeno ocorre. E chamo de fenômeno porque, pra mim, é um acontecimento novo, imprevisível e que foge completamente à minha compreensão das coisas. Enfim, toda madrugada, entre 5h e 5h15m da manhã, uma abelha - uma, apenas - entra no meu apartamento e começa a voar enlouquecidamente ao redor da lâmpada da sala.

O que, para mim, caracteriza isso como fenômeno é o fato de que nunca vi uma abelha alucinar por causa de uma lâmpada. Pra mim esse comportamento - particularmente idiota - era natural de insetos reconhecidamente imbecis, como as lepidópteras (em especial as mariposas) e alguns coleópteros. Apesar de minha aversão a elas, e de achar o produto de seu esforço fedorento e desagradável - sim, me refiro a mel, própolis e todas essas porcarias que as abelhas produzem -, considerava as abelhas insetos superiores. Assim como as formigas, achava que eram um pouco mais inteligentes e organizadas, e que, apesar de demonstrar certa demência diante de comida, morrendo facilmente por alguns grãos de açúcar ou gotas de refrigerante, ao menos matavam-se por algo prático, útil.

Admito que me decepcionei com as abelhas.

Porque uma abelha que invade minha sala para voar contra a lâmpada, com seus movimentos erráticos e seu zumbido irritante, está cometendo suicídio desnecessariamente. Não está morrendo porque ferroou alguma ameaça a sua colméia ou porque, em sua busca por pólen, fez um movimento despropositado e terminou pisoteada por uma criança ou esmagada contra o pára-brisa de um carro. Está morrendo porque entrou no meu apartamento, onde não existe nada - NADA - que lhe possa ser útil!

Então repete-se esse procedimento: toda madrugada, por volta de cinco horas da manhã, uma abelha invade minha casa. Toda madrugada, por volta de cinco horas da manhã, minha atenção é desviada do filme que estou vendo ou do livro que estou lendo pelo ruído intolerável de asas membranosas batendo enlouquecidamente. Toda madrugada estico a mão até a lata de inseticida, por volta de cinco da manhã. E então assisto - com certa satisfação, inclusive - enquanto um inseto se contorce no chão da sala, experimentando sabe-se lá que grau de sofrimento e que espécie de sintomas, em uma agonia que me diverte bastante, durante dois ou três minutos que, para a abelha, devem ser intermináveis. Para mim são muito agradáveis.

Daí volto para meu divertimento saudável, enquanto me pergunto o que diabos há de errado com essas malditas criaturas.

Saibam, hymenópteras: esperava mais de vocês.

Das pseudoliteraturas

Ano passado, graças a um professor bastante obtuso - em matéria de leitura - da faculdade, tive que ler O Monge e o Executivo. Foi das experiências “literárias” mais desagradáveis que tive. E começou antes que eu começasse a ler.

Os libertários das letras, esses que acham que tudo vale a pena ser lido, quando a alma não é pequena, pois em tudo há algo a ser aprendido, começam agora, timidamente, a entoar seu coro de “Preconceituoso!”, “Elitista!”, “Fedorento!”, “Cretino!”, “Perneta!” e etc. Ignoremo-los enquanto é tempo e vamos adiante. Pois bem, a tortura começou antes da leitura. Se você nunca ouviu falar d’O Monge e o Executivo (e eu o saúdo de volta do seu coma de uma década), é um desses livros que os gerentes de RH da tua empresa adoram e são ditos “motivacionais”, que é outro termo pra “literatura rasteira de auto-ajuda pra gente sem critérios ou sinapses suficientes pra compreender/superar os próprios problemas sem mantras e moralismos fáceis sugeridos por espertalhões que descobriram um jeito de encher o rabo de grana explorando a fraqueza intelectual alheia”… ok, é bem mais curto chamar de motivacional mesmo. Não fosse o fato de ser auto-ajuda da braba - embora haja quem negue este viés fervorosamente -, ainda é daqueles livros que ficam meses a fio na lista dos mais vendidos do New York Times (por conseguinte, da Veja, que acha que é a versão semanal e brasileira do NY Times).

Sinceramente, nenhum dos livros que perduram nessas listas de “mais vendidos” vale muita coisa. Seja O Monge e o Executivo, O Caçador de Pipas, A Menina que Roubava Livros, Onze Minutos, Harry Potter, Crepúsculo… é tudo lixo. É, eu disse isso mesmo: é lixo, é subliteratura. É tipo esse blog aqui: vale porra nenhuma em matéria de conteúdo. Até um macaco pode “entender” todos os livros já citados na lista dos mais vendidos da veja, por uma razão simples: não há o que ser apreendido em nada daquilo. Todas as mensagens - quando há alguma - já vêm mastigadinhas, prontas para absorção e repetição. Não há a proposição de um pensamento que leve a alguma conclusão, apenas conclusões já prontas e embaladas pra consumo imediato. É o fast food dos livros. É o mais baixo da escala literária.

(O coro dos libertários das letras engrossa agora. Diante de tal platéia, até o fim do texto eu seria linchado)

O Monge e o Executivo não foge dessa linha. Trata de um sujeito que recebe um telegrama da consciência cósmica universal mandando que ele se enfie num mosteiro e passe uma semana assistindo aula de motivação ou coisa semelhante de um ex-grande-executivo, agora monge, que se enfiou lá permanentemente há alguns anos.

Tá, não é BEM assim que as coisas acontecem. Existe todo um papo “místico” que “explica” uma série de “coincidências” que conduzem a essa situação, mas é balela, como tudo mais que há no livro. Porque, veja, o autor do livro não teve a moral de escrever um tratado a respeito de normas da administração e gestão de equipes. É preciso ter bagos pra fazer isso e se meter a contrariar ou complementar idéias de caras que são referenciais quando se fala de gestão de empresas. Como você, ilustre desconhecido, chega e diz que pode melhorar as idéias de Henry Ford, Frederick Taylor ou Peter Drucker, por exemplo? Ou, pior, derrubá-las? Quem te daria crédito? Sua mãe, talvez um dos seus irmãos. E só.

Ciente disso, o autor do livro, James Hunter, parte pra essa ficçãozinha babaca a respeito de um curso motivacional de sete dias em um mosteiro. Enfia seis ou sete personagens, explica suas idéias de modo repetitivo na forma de diálogos pouco inteligentes e, o pior de tudo, não poupa o leitor de referências religiosas, que é a estratégia mais batida para se vender uma idéia, já que o homem ocidental comum, cristão, não questiona nada que tenha religião envolvida. A partir do momento que você menciona Jesus como justificativa ou exemplo de algo, se saca uma passagem da Bíblia para corroborar sua idéia, se mete algum nível de “misticismo” no negócio, cria um dogma. Para a maioria das pessoas, aquilo passa a ser indiscutível. Esperto, hein? E se você acha que estou inventando isso agora, que é uma viagem retirada da minha cabeça, repare na quantidade de livros de auto-ajuda que envolvem religião/misticismo. A Cabana (SIM, aquilo É auto-ajuda, ainda que neguem!); Comer, Rezar, Amar; Jesus - O Maior Psicólogo Que Já Existiu… vá à livraria mais próxima e confirme.

O negócio é que sou um herege maldito. E se um idiota me diz que Jesus Cristo foi um belo exemplo de líder, imediatamente ressalto o ponto do hippie-pai-de-si-mesmo ter liderado apenas 12 sujeitos. Dentre esses 12, um fazia questão de levantar dúvidas sobre tudo o que o JC falava; o segundo, teoricamente seu seguidor mais próximo e confiável, teve a pachorra de negá-lo não uma, não duas, mas TRÊS vezes, ao levar uma dura dos home; o terceiro foi ainda mais longe: vendeu o chefe por trinta dinheiros!

Uau, isso que é um líder bem-sucedido! Isso que é inspirar lealdade! Se o maior líder da história da humanidade teve VINTE E CINCO POR CENTO de rejeição de seus seguidores diretos, imagino quão triste foi a trajetória do pior deles. Acho que até o general romano Crasso, responsável por combater os escravos rebeldes liderados por Spartacus, foi mais feliz em sua carreira. Sinceramente, Hitler teria sido uma citação mais feliz.

Outra estratégia simplória usada pelo autor - e que funciona, caso você tenha se afogado durante a infância e perdido parte das funções cerebrais por prolongada falta de oxigenação - é enfiar um personagem contrário aos ensinamentos do tal monge. Então temos uma turma de cinco alunos (ou seis, agora não me lembro direito), sendo que quatro (ou cinco) concordam, repetem e exemplificam tudo o que é dito, enquanto o quinto (ou sexto) contradiz, contraria e escarnece o tempo inteiro. “Divertido!”, você pensa, “Eu vou gostar desse cara!”. Não vai, corrijo eu: esse cara consegue ser mais idiota do que os outros. Freqüentemente minha vontade era concordar com o tal “Simeão”, pois estar do mesmo “lado” que alguém tão imbecil abalava sinceramente meu amor-próprio.

Considere que alguém diz uma asneira qualquer, levanta uma falácia dessas bem ridículas e infantis, fáceis de derrubar sem qualquer esforço argumentativo. Imagine que, diante da tal besteira dita, existam 10 respostas diferentes, sendo nove delas capazes de desarmar o responsável pela baboseira e a décima sendo uma baboseira ainda maior, apesar de contrária. É esta a opção adotada pelo amigo contrário aos ensinamentos. E é compreensível, afinal. O autor não inseriria, em sua suposta “tese” a respeito da gestão de pessoas e administração de equipes, argumentos realmente consistentes contra seus ensinamentos. A menos, claro, que fosse capaz de elaborar boas respostas, capazes de superar as réplicas levantadas. Duvido que o cidadão tenha essa capacidade. Requer um puta embasamento e muita inteligência.

É disso que o livro se trata, afinal: de uma obra em formato de ficção - por falta de coragem -, cheia de argumentos vazios - por falta de competência - e que finge se contrariar, mas falha - por falta de inteligência. É um livro onde falta tudo, mas que está sempre nas listas de mais vendidos. Porque nas livrarias, atualmente, o que não falta é trouxa.

E eu deveria ter escrito ISSO no review que entreguei pro professor - até porque acabei trancando a faculdade semanas depois -, mas achei que seria mais prudente exercitar a política da boa vizinhança. Deixei passar uma grande oportunidade. Pena.

Mas outras virão. Gente ignorante sugerindo livros ruins tá sobrando…

Passa gelol que passa!

Olá. Olá, você, que lê este blog sabendo com o que vai se deparar, sabendo que uma opinião que contrarie a tua te espera no próximo texto. Olá.

Senta aí um minuto, deixa eu te explicar um negócio. Tendo tempo suficiente aqui, você já leu isso algumas várias vezes e eu poderia apenas linkar ou republicar um desses textos que dizem o mesmo que será dito agora, mas por que perder a chance de exercitar minha verve, repetir o óbvio, “redizer” - e se o termo não existia, acabo de assinar seu decreto de criação - o que já foi exaustivamente dito? Vamos, deixa eu falar. Sentou aí? Tá confortável? Tá felizinho? Tá? Bicha!

Pois o caso é o seguinte: existem duas maneiras de ofender alguém: uma delas é você ofender a pessoa. A outra é a pessoa se ofender com você. E são coisas diferentes. Explico:

Você está usando um óculos wayfarer. Eu te abordo e digo “Ei! Ei! Por que tu usa isso, hein? É feio pra caralho, sério. Já se viu no espelho com essa porra? Já? Mesmo? E achou bonito? Certeza que não era daqueles espelhos que distorcem as coisas? Porque, cara… cara, olha só isso. Isso é feio pra caralho, cara. Tu acha mesmo isso bonito? De verdade? E merda, você come?”. Eu estou te ofendendo.

Eu, quieto no meu canto, ou ao ter minha opinião solicitada, digo que acho óculos wayfarer feio pra caralho. Que os anos 70 vão ligar e pedir o apetrecho de volta pra quem tá usando. Você se ofende. Você está se ofendendo.

No primeiro caso, qualquer aborrecimento é natural e justificável. Eu inclusive mereço levar um murro na cara por bancar a Annoying Orange. No segundo você está sendo uma bicha fresca do caralho e chilicando porque não acho bonita essa merda que vossa senhoria insiste em colocar na cara. Está alegando que emitir um juízo negativo sobre o que você usa é, sob algum aspecto absurdo e deturpado, uma maneira de te tolher, te impedir de ser feliz do seu jeito. Pois saiba: eu APÓIO o seu mau gosto. SEJA FELIZ sendo ridículo, se é o que te apraz. Ninguém, nem mesmo eu, tem o direito de te impedir de usar o que você quiser usar, vestir o que quiser vestir, andar com quem quiser andar. É seu direito e juro que sairia na porrada por ele, se necessário fosse.

Da mesma maneira, não há no mundo quem diga que não posso me manifestar negativamente a respeito das coisas. Uma crítica não é uma proibição, uma afronta ou uma ofensa, e é uma pena que qualquer um se sinta assim, porque esse é um sintoma de um defeito intolerável, grave, particularmente brasileiro: o melindre. Gente melindrada é aquela com quem você precisa pisar em ovos, ou eles pisam nos seus. É gente que tá sempre em carne viva, se deixa ferir por qualquer fagulha e não agüenta ser contrariada. Gente sem auto-estima, incapaz de fincar o pé no que acredita e dizer, ao ouvir tuas opiniões ruins: FODA-SE. Saber tocar um foda-se direito é essencial. Saber ignorar a opinião dos outros sobre o que você pensa, porra, isso é uma arte.

Eu ouço trocentas bandas criticadas duramente por 99% das pessoas que conheço. E ouço mesmo, e canto as músicas e tudo. Estão no meu last.fm e mando tomar no cu sempre que alguém vem encher meu saco por gostar daquilo. Mas não vou xingar quem, sem me dirigir a palavra, fala mal da parada. Sério, NO QUE isso afeta a minha vida? POR QUE DIABOS eu consideraria isso uma afronta? Qual a diferença, no plano geral das coisas? Que grande alteração na minha existência tem a opinião, a respeito do que escuto, de um camarada que mora na esquina da puta que pariu com a casa do caralho? MEU VIZINHO pode não gostar do que ouço e isso não muda em nada o fato de eu ouvir ou não.

Pra mim, minha opinião é superior. Meu gosto é superior. Você, se discorda, é um imbecil e tem mau-gosto. Não sabe de nada e eu sou o dono da razão. POR FAVOR, sinta-se da mesma maneira a meu respeito! Considere-me um imbecil e ESQUEÇA o que eu disse, se o que eu disse te contraria. Não vai me ofender ou me incomodar, juro. Isso não impede nossa convivência pacífica, isso não inviabiliza um diálogo amigável, ainda que cheio de provocações e piadas!

Mas não me venha cobrar satisfações, demonstrar magoazinhas ou querer mudar minhas idéias. Não tente. Gente melhor já falhou nessa empreitada. Você é um bosta e não vai conseguir. Me deixe em paz e prometo que não vou importuná-lo. Não esfrego opiniões na cara de ninguém, sequer ofereço. Solicita quem quer. E freqüentemente nego, inclusive.

Então, se tua opinião tá apoiada em palitos, se teus gostos são um castelinho de cartas e qualquer soprada mais forte joga tudo ao chão, se você precisa reafirmar suas razões de ouvir o que ouve, ler o que lê, assistir o que assiste, gostar de quem gosta, e etc, etc, etc, fica longe de mim. É mais saudável pra sua cabecinha. Vai se cercar dos seus amiguinhos que vão te aplaudir, invariavelmente. Se tranca na sua bolha e seja feliz.

Mas se tu güenta o tranco, se suas opiniões estão apoiadas em pilares e não se abalam com qualquer pancadinha, se você sabe que o que eu penso a respeito do que você curte é irrelevante, chega mais. É desse tipo de gente que eu gosto: de quem não toma as coisas pra si e entende que democracia não é eu não poder falar mal do que você acha bonito, mas o contrário. É você ter o direito de gostar do que eu não gosto e vice-versa.