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Dos protocolos

Existem certos protocolos a serem seguidos, se você espera fazer parte de determinado grupo (ou ser CONSIDERADO parte do grupo, o que parece ser mais importante, afinal). Descumpra muitos deles e veja sua inestimável reputação escoar pelo ralo.

Um dos eternos grupos dos quais as pessoas querem participar - e se esforçam para isso - é o das pessoas legais. As pessoas legais não são exatamente aquelas que te tratam bem, seguram a porta do elevador para que você possa entrar/sair, dão passagem quando você quer atravessar a rua ou cedem o lugar no ônibus lotado. Essas pessoas são legais, claro. Mas não são AS pessoas legais.

Há alguns anos, quando comecei nessa vida de blogueiragem, logo ficou claro pra mim que as pessoas legais liam Bukowski, curtiam O Apanhador no Campo de Centeio, usavam termos como hype e indie e manjavam de bandas semi-desconhecidas, tipo Franz Ferdinand, Muse, Strokes e tal. Iam ao cinema ver filmes de arte, comentavam a respeito da última do David Lynch e eram grandes fãs de Amélie Poulain. Invariavelmente, usavam all star.

Hoje em dia você pode até não usar um all star, mas tem que gostar de óculos Wayfarer. Strokes e Franz é caído e curtir essas bandas pode até te tornar uma pessoa chata, em vez de alguém legal. Legal é se divertir com Lady Gaga, por ser tosqueira, e se amarrar em She & Him. Tem que ter lido os livros e visto os filmes do Harry Potter, tem que se lembrar com saudade de Pokémon, porque quem determina o que é legal agora é a geração que cresceu curtindo esse tipo de porcaria. Achar que Amélie Poulain é foda dá +REP e pode te tornar benquisto, mas não é crucial. Crucial MESMO é gostar da Zooey Deschanel e se vestir como os adolescentes de Juno.

A Zooey Deschanel é a famosa mais superestimada do momento, sucedendo Audrey Tatou, Angelina Jolie e Scarlett Johansson no posto. Ao menos a Jolie e a Johansson são gostosas, a Deschanel e a Tatou nem isso têm de mérito. O que as torna tão interessantes é que não ter graça nenhuma tá em voga. Quanto mais sem-graça você for, mais longe você vai. Estão aí os caras do CQC, que não me deixam mentir. Pokémon passa na TV até hoje e Freakazoid só teve uma temporada. Cada vez mais a tv dá espaço a Naruto e assemelhados, e onde foi parar o [adult swim]? Ser nerd tá na moda, amigo. Ser nerd é ser legal, ok? Se existe sinal maior de que ser derrotado e irrelevante é bonito, por gentileza, apontem, pois me escapa.

A meu ver, a única diferença entre a Zooey Deschanel e a Hilary Duff é que apenas uma delas vive de acordo com sua época e aceita sua postura de liferuleira, enquanto a outra adota ares de quem acaba de chegar dos anos 50, vestindo-se e usando o cabelo de uma fã dos beatles recém-desperta de sua câmara criogênica, direto do início dos anos 60. De resto, ambas alternam demonstrações de falta de talento quando atuam e quando cantam, e fazem questão - deve estar em todo contrato que assinam - de cantar em todos os filmes nos quais trabalham. Azar o nosso, que temos que aturar atuações canhestras alternadas com capacidade musical nula.

Mas da Hilary Duff você pode falar mal, ok? Pode criticar os cabelos, as roupas, os filmes. Pode ridicularizar, pode dizer que é atriz pra adolescentezinha acerebrada… da Deschanel, não. A Deschanel se veste como sua avó, oras. E se vestir como sua avó é a moda agora. Como você ousa dizer que os sapatos que ela usa são ridículos? Que aquela franja é medonha? Que aquelas roupas são cafonas e que aquela aparência não caiu em desuso por acaso?

Dizer isso é quebrar o protocolo das pessoas legais. Pessoas legais acham a Deschanel legal e ouvem She & Him. Se tu acha a Deschanel passável e acha que o M. Ward é foda sozinho e ridículo em dupla; se tu ri de quem curte wayfarer, porque te dá a sensação de que os anos 70 estão prestes a ligar e pedir os óculos de volta; se tu acha que ukelele é só um cavaquinho metido a besta… você não é uma pessoa legal. Vai ser acusado de troll!

Vai ser comparado comigo.

Diga: sua reputação pode agüentar um baque desses? Não é para os fracos, gafanhoto!

Advogando pelo diabo

Podia até existir alguma tolerância, da parte do altíssimo, em relação à humanidade. Até podia, ok? Não acho que esse seja um argumento que eu possa refutar desde sua criação, em sabe-se lá quando antes do JC nascer, crescer, virar hippie, surfar sem prancha e empacotar. Acredito que, até um certo ponto da nossa evolução, se deus existe, e se ele presta alguma atenção ao que fazemos - duas afirmações questionáveis, cada uma a seu modo, e por razões diferentes, mas aceitemos a hipótese de serem reais -, ele podia ter um certo carinho pelos homens.

“Sabe, são uns filhos da puta do caralho, traiçoeiros como poucas criaturas, mas olhe só que bonitinhos eles são, navegando nos fiordes.”
Deus, uma mulherzinha jogando SimCity.

O problema é que nós, seres humanos - e você, aí, que despreza a humanidade, TAMBÉM está incluído -, não sabemos quando parar. Criar a igreja e associar o pobre criador àquela atrocidade não foi o suficiente. Inventamos o café descafeinado, o leite sem lactose. Ofendemos o todo-poderoso uma vez atrás da outra. E ignoramos o alerta, quando Krakatoa foi pro vinagre. O sujeito explodir uma ilha inteira, como retaliação por qualquer merda, não nos desmotivou. Claro que não.

Insistindo em nosso comportamento suicida, em afrontar Javé, tínhamos que fazer o impensável, tínhamos que criar o Ades de Manga com Laranja.

A Face da Besta

Ok, aí está você, meneando a cabeça e resmungando “Você está exagerando, Pedrones” (pra não mencionar todas as ofensas à minha mãe, alusões pouco educadas ao meu brioco e idéias semelhantes). Mas na verdade não estou. Pensa aqui comigo: cê sabe QUANTAS frutas existem? TROCENTAS! Você tem idéia da dificuldade que deve ter sido criar cada uma delas? Você acha que teria sido capaz de pensar na jaca? Na sirigüela? No kiwi? Na fruta do conde? No caqui? Pensa na trabalheira do caralho que foi o processo de criação.

Aí uma criatura um dia acorda e diz “Foda-se isso tudo”. E, cagando pro trabalho de deus, pega a soja - SOJA!-, mói e faz um caldo. Joga ali algum produto químico escroto pra simular um gosto que não seja o gosto da soja - que, se fosse boa MESMO, não era comida de VACA - e chama de suco.

(O demônio, que nesse momento ocupava-se de alguma maldade menor, como a fome na África ou a guerra no Oriente Médio, sentiu um abalo na força, ouviu o berro da indignação divina estraçalhando as vidraças nos limites do universo, observou atentamente a última criação da humanidade e pensou “Caralho, como eu sou n00b!”. Entre lágrimas, escreveu sua carta de demissão, botou o tridente numa sacola e o rabo entre as pernas e mudou-se pra uma comunidade de hippies isolados em algum lugar na califórnia, onde espera pelo juízo final. True story!)

O Ades, por si só, é, como a cirurgia de redução de peitos, um desavergonhado tapa na cara de deus. E uma entidade que tem “O Senhor dos Exércitos” entre suas alcunhas claramente não é grande fã do perdão.

Essa nojeira feita de soja foi a pá de cal nas relações entre nós, pobres seres derivados de carbono, e o gerente desta birosca. Pense aí em todas as misérias que poderiam ter sido evitadas, fôssemos menos cretinos e, para fazer SUCO, espremêssemos FRUTAS em vez de moer grãos, seguindo o plano divino.

Rebolation, terremoto no Haiti, morte da Dercy Gonçalves… deus está pegando mais e mais pesado a cada dia que passa. Como o Joselito Original que é, YHWH não sabe brincar. E agora que provocamos o cara, quem terá piedade de nossas almas? Estamos fodidos.

Espero que, ao beber essa coisa asquerosa da próxima vez, você consiga pensar “Esta merda vale o sacrifício deste plano de realidade!”.

Das respostas possíveis (e impraticáveis)

O problema de ser homem é que existe essa demanda para que você esteja com o pau na mão o tempo inteiro. Surgiu a oportunidade, a piroca deve entrar em ação. Não existe isso de “não quero”! Você não pode não querer! Abriram o chamado? Pau na máquina.

(duplo sentido acidental)

Se você é homem e cai no erro de ser seletivo, se nem toda guria que te aponta o glorioso e úmido vale após o gramado da felicidade (ou, em alguns casos, a floresta da perdição) recebe de você o golpe vigoroso do vingador paudurescente, camarada… há algo errado contigo. Ou ao menos é o que dirão. E na verdade não há.

O que me levou a pensar nisso foi a responsável por um supermercado que eu atendia, até algum tempo atrás. Certo dia lá fui resolver algo simples. Compareci munido de todo o bom-humor que me é peculiar e da afabilidade que me faz notório, e a moça me aborda com uma chamada na xinxa suave, porém perceptível. E se eu, bundão declarado e convicto que sou, notei a forçada de barra, qualquer um notaria.

Fiquei na minha e sorri, ignorando e dando continuidade ao meu trabalho. Alguns minutos depois, fui pegar informações com ela, e a mulher retorna à carga com ímpeto redobrado. Ri, deixei passar batido. Na terceira ela foi de all-in, faltando só puxar meu colarinho e apertar minha bunda. Dessa vez gargalhei alto e respondi com evasivas.

Aparentemente, foi demais para o orgulho da pobre senhora. Você deduziria que uma mulher em seus 40 e - muitos - algos, cuja aparência já não é mais grande coisa (e pode até ter sido um dia, mas duvido bastante), teria algum fair play e saberia receber um [NÃO INTERESSADO] em letras garrafais com certa elegância. Infelizmente não é como funciona a vida, amigo. Talvez com a idade venha uma certa queda na auto-estima e, com isso, aproxime-se do nosso pescoço o bafo quente do desespero, nos impelindo a atitudes antes impensáveis. Talvez ela tenha achado que eu, tendo aparência que tenho, sendo a pessoa que sou, não cometeria o erro de recusar suas gracinhas. Quem mais daria pra mim, afinal? Qualquer que tenha sido a lógica interna que alimentou o aborrecimento subseqüente, a verdade é que a mulher - que até então imaginei estar brincando - tomou um ar sinceramente ofendido e me fez exatamente estas perguntas:

- Você não gosta de mulher, não? Você é viado?

Uma questão dessas, colocada dessa forma, nesse contexto, abre tantas possibilidades de resposta que algumas são até covardia. É como um bêbado que tenta trocar uns sopapos com um pugilista profissional no auge de sua forma: o pobre alcoolizado não tem a menor noção de como armar a guarda e se oferece para levar um direto no meio da cara. Para o adversário, esse golpe parece a melhor escolha, mas é moralmente questionável. A voz da consciência avisa que tal manobra, apesar de merecida, equivale a chutar cachorro caído; o bom-senso berra seu nome e te dá um tapão nas costas, mostrando que não admite ser ignorado nessa questão. E apesar de seu cérebro enfileirar duzentas e doze ótimas respostas que tornariam a história épica, a ser contada em todas as mesas de bares às quais você se sentasse, esses dois, consciência e bom-senso, berram “COMPORTE-SE, ANIMAL! VOCÊ VAI PERDER SEU EMPREGO!”. Cara, como eles gritam alto!

Então, diante daquela maravilhosa pergunta da gerente do mercado, praticamente um “Ei! Ei! Chute meu pâncreas, ele serve pra isso!”, fui contido e civilizado. Poderia ter dito “De mulher? Gosto muito, mas só das que têm 46 cromossomos”. Ou “Claro que gosto, mas é um nicho biológico do qual a senhora não faz parte”. Talvez pudesse responder “Olha, eu gosto bastante, mas sinto dizer que sua carteirinha de sócia dessa categoria foi revogada duas eras glaciais atrás”.

Em vez disso, o que eu disse? O quê? Com a cara mais séria, o olhar vítreo, sem demonstrar emoção, respondi apenas:

- Sim, eu sou viado.

E tive paz pelo resto do dia.

Das sagas intermináveis

Aviso antecipado pros molequinhos criados com vó, que soltavam pipa no ventilador e jogavam bola de gude no carpete: Esse é um post grande. Se não agüenta, não desce pro play, filhote.

Em outubro do ano passado, meu celular, um Sony Ericsson W380, sofreu uma queda com o flip aberto e ficou ligeiramente desconjuntado. Posterguei o conserto em virtude da viagem que fiz e o resultado foi que o infeliz, ao cabo de algumas semanas, começou a se desfazer a olhos vistos. Liguei para a Vivo, minha operadora, até então, e solicitei a retirada de um novo aparelho de celular. Disseram-me “Vá a uma loja, senhor”. A uma loja, senhor, eu fui.

Aliás, fui a mais de uma. Em todas elas não consegui encontrar UM aparelho da Nokia que fosse ligeiramente avançado. Não me refiro a um maldito N95, sabe, mas a um simples Nokia 5310. Era o que me bastava, juro. Porque, veja, eu uso celular para três atividades primordiais:
1) fazer e atender ligações, 95% delas relacionadas a trabalho, no período compreendido entre 9h e 18h.
2) Enviar sms pra jogar conversa fora (uso INTENSO desse recurso).
3) Ouvir música via fones de ouvido - sempre, pois não sou escroto a ponto de enfiar meu gosto musical refinado goela abaixo de ninguém - e, assim, ignorar as pessoas com maior facilidade.

Não se faz necessário ter um aparelho muito cabuloso, portanto. Eu me manteria com os Sony-Ericsson, de verdade, mas existe essa conjunção astronômica que coloca Vênus na casa de Urano enquanto Júpiter dá um rolé pelas quebradas plutônicas - agora bastante decaídas -, ignorando a sacanagem que se arma às suas costas, arquitetada por seu primo Marte e seus sidekicks Phobo e Deimos, e toda essa putaria astrológica, enfim, faz com que o signo do sinal da Vivo e dos celulares da Sony não se batam.

Mas, como dizia, não encontrei o aparelho da Nokia que eu queria. A Tim, por outro lado, tinha o aparelho à mão. Pra entrega IMEDIATA. E exigia tão pouca documentação, e meu pai, minha mãe, minha vó, minha sobrinha, meu cunhado e diversos amigos meus têm celular da Tim. E eu nunca vi essas pessoas terem problemas. E eu portei meu número para outra empresa.

E eu estava errado.

E chega de frase com e.

A Vivo até tentou me demover da idéia. Como uma ex-namorada recém-abandonada, que percebe que perde um bom homem para uma vagabunda rampeira, ela me ligou, mandou mensagem, fez propostas, implorou. Fui um idiota e ignorei. Levei meu projeto a cabo. E agora me fodo, porque quem é burro que peça a deus que o mate e ao diabo que o carregue.

Eu devia ter previsto. Vejam só isso: meu plano da Vivo era de 350 minutos + algumas bonificações (sms’s extras, dados pra navegação, coisa do gênero). A Tim tem o Tim Infinity 300, que é quase a mesma merda, e foi o que eu escolhi. Mas foi negado!

- Hein? Como assim, negado?

NEGADO, amigo. Quer dizer que pod’naum, já diria o porteiro do meu ex-colégio. De acordo com o vendedor, a Tim trabalha com um sistema de pontuação e blá blá blá, e pra poder fazer o plano de 300 minutos eu precisaria ter X pontos e etc. Ou, em outras palavras, a Tim exige um período de avaliação ANTES de te prestar um serviço. Ela não considera que o cliente é confiável de imediato.

Sendo assim, tive que me contentar com um plano de 80 minutos. “Vou extrapolar essa porra”, disse eu ao vendedor, “pois meu uso de celular no trabalho é intenso e eu gasto PELO MENOS 160 minutos por mês, em um mês fraco”. Eu trabalho prestando suporte em supermercados. Era dezembro. Para supermercados, dezembro não é um mês fraco. Para mim, portanto, dezembro é o inferno na terra. Não é mês da vinda do salvador, mas o mês em que a Cascavel das Sete Ventas caminha entre os mundanos.

E eu sabia que ia passar da cota, mas ok. O que fosse além, eu bancava. No mês seguinte mudava meu plano e estava tudo resolvido. Ah, que simples! Que bonitinho!

Mas estava ERRADO!

Leis BÁSICAS de Murphy, gafanhotos: NADA é tão fácil quanto parece; TUDO leva mais tempo do que se pensa; TODA solução cria novos problemas. Mantenham isso em mente pelo decorrer deste texto, será importante.

No final do mês de dezembro (no final MESMO, na manhã do dia 31) fui fazer uma ligação. Foi redirecionada para o SAC da Tim. O diálogo foi mais ou menos nessa linha:

- Central de Relacionamentos Tim, bom dia, em que posso ajudar?
- Não sei. Você pode me dizer por que diabos eu fiz uma ligação e ela foi direcionada pra você. Esse seria um bom começo.
- Senhor, confirme alguns dados, por segurança.
- Eu calço 42 e tenho olhos castanhos.
- Ok, senhor. Consta no nosso sistema um excesso de uso do telefone, senhor.
- Excesso de uso? Se eu conheço o suficiente da língua portuguesa, e acho que sou até razoável nessa área, cê tá me dizendo que vocês cortaram meu telefone porque eu uso demais?
- Precisamente, senhor.
- A Tim agora é minha mãe, é isso? Quantos anos eu tenho? Oito?
- Como, senhor?
- Vocês me deram um celular pra eu usar com parcimônia e agora estão tomando porque eu não fui responsável o suficiente? Tô me sentindo uma criança que abusou de um privilégio. Só que eu não sou criança e esse não é um privilégio. Eu pago por esta porra, cacete!
- Não, senhor, mas está previsto em contrato que um consumo [yadda yadda yadda, baboseiras técnicas de atendente de telemarketing], senhor.
- Ou, em outras palavras, se eu usar o celular mais do que vocês acham que devo, minha linha é cortada, pra eu aprender a me comportar. Que bonito! Muito didático da sua parte, mas preciso do meu celular funcionando, e não é capricho de quem quer marcar churras com a galera da facul, ok? Eu uso essa porcaria pra trabalhar. Quem eu tenho que matar pra ele voltar a operar?
- Vai ser preciso pagar um adiantamento da conta.
- Péra. Você quer que eu pague um pedaço da minha conta que vai vencer em 25 de janeiro?
- Isso, senhor. Quer que eu envie o código de barras por SMS?
- Sério, o que acontece aí? Vocês estão precisando de dinheiro desesperadamente pra comprar um peru pro reveillon hoje? Eu tenho um no meu freezer e garanto que não vou precisar, pode mandar alguém vir aqui buscar. Agora. Libera. A. Porra. Do. Meu. Telefone!
- O senhor precisa primeiro pagar o adiantamento, senhor.
- Então vocês estão me coagindo a ampliar meu plano, em outras palavras. Ou pago a mais, ou vocês cortam minha linha todo mês. Muito bonito!
- Não é isso, senhor, está prev…
- Estar previsto em contrato não torna menor o gesto de coerção. Qual o próximo passo? Me fazer uma proposta que eu não poderei recusar? Os Corleone ligaram e eles querem a famiglia de volta.
- …
- Manda esse código de barras logo.
- Ok, senhor.

Dia 6 de janeiro paguei a tal taxa. Até lá, meu celular foi apenas um mp3 player mais bonitinho. E com Zombie Infection. Passei pra moça os dados da transferência bancária e ela disse que estava liberando minha linha “em caráter de confiança”, vejam que gracinha. É como me chamar de safado, sem-vergonha e inadimplente, mas me dando um voto de confiança. Putos.

Infelizmente a confiança não durou. Dia 11 meu telefone foi cortado novamente. Liguei lá e a atendente informou - inclusive com bastante agressividade, que devolvi na mesma moeda (ela não sabia que tava entrando na minha quebrada quando resolveu falar grosso) - que a liberação havia sido feita confiando no meu pagamento e que, como o pagamento não tinha sido identificado, foi revogada.

E foi mais ou menos nessa hora que eles abriram a brecha pro processo que levarão no lombo, mas desse eu falo depois.

Das ironias da justiça

Durante um certo período da minha vida, fui um ateu fervoroso cuja grande diversão, ao conversar com teístas, era apontar erros em suas certezas (de preferência fazendo com que parecessem idiotas por ter fé naquilo e coisa e tal). Com o tempo e uma boa dose de sabedoria - que FELIZMENTE veio com o tempo, e é das únicas coisas boas que ele traz, junto com a velhice, as doenças, a degradação física e moral e um realismo cínico -, acabei percebendo que o ateísmo que eu praticava de forma tão religiosa era exatamente isso: uma religião. E envolvia muita fé na minha crença - tão carente de embasamento quanto a de qualquer teísta - de que deus não existe, e que não passamos de poeira galáctica com delírios de autoimportância.

Vem daí que atualmente sou um agnóstico. Não existe arcabouço lógico que permita a qualquer um negar OU afirmar a existência de um gerente nesta birosca. Sem dúvida é perfeitamente possível discutir com cristãos, por exemplo, e questionar suas afirmações disparatadas a respeito da “vontade divina”, dos meios adotados pelo criador para atingir seus objetivos. É possível inclusive questionar a idéia de que deus, se existe, tem qualquer objetivo. Você pode dizer que eles estão errados, por exemplo, ao afirmar peremptoriamente que o velho Javé não gosta de brincadeiras. Existe um forte argumento contra isso, chamado ORNITORRINCO. Também pode rir quando eles dizem que o todo-poderoso é um cara bacana. Existe outro forte argumento contra isso, e chama-se JAQUEIRA. Um cara sem senso de humor não cria um bicho escroto como o ornitorrinco, um cara legal não colocaria uma fruta de 5 kg no topo de uma árvore de 10 metros, enquanto morangos nascem ao rés-do-chão.

Ou seja, EXISTEM argumentos contra as afirmações dos teístas em relação aos desígnios divinos. Até mesmo em relação à natureza de deus. Porra, deus sabe (opa!) que existem argumentos até mesmo em relação ao modus operandi deles ao lidar com o criador.

Mas não existe um argumento consistente a respeito da inexistência divina. Ou da existência, também. É tudo uma grande interrogação. Uma pergunta daquelas para as quais nós não temos resposta. Nosso conhecimento não atingiu tal magnitude ainda, e cientistas que se aprofundam em suas áreas de conhecimento chegam a um beco sem saída. Alguns, nesse ponto, partem para o estudo e a criação de novas teorias. Outros, apesar de continuarem estudando, fazem referência a algo como “uma força maior”.

Um cientista sem muito talento para a ciência - que é, essencialmente, a curiosidade humana se manifestando com método - bate naquele ponto, resolve que não existe explicação lógica e vai cuidar de outro assunto.

Mas enfim. Voltando aqui aos ateus, é triste que não percebam, do alto de sua fúria “racional”, de seu apego raivoso a uma certeza que não podem provar - porque não se pode provar a inexistência de algo, como parece evidente -, o quanto são ridículos e fundamentalistas. Mais do que muitos dos cristãos proselitistas, que tanto os irritam. Mas em relação a um ponto, preciso dar razão a eles: não existe grupo mais desrespeitado do que o das pessoas que não acreditam em deus.

E não falo dos que NEGAM deus. Falo dos que negam e dos que, como eu, não perdem tempo tentando criar argumentos - fracos, via de regra - a respeito desse assunto.

Uma pesquisa recente mostrou que só os usuários de drogas recebem tanta repulsa/ódio da população em geral quanto os ateus. Acha que eu tô exagerando? Confere aí:

pesquisa
Clica aí pra ver maior, filho.

- Mas você não é um ateu, Pedrones, vem negando isso desde o começo do texto.

Tô ciente, gafanhoto. Mas pra maioria do populacho teísta, infelizmente profundamente ignorante sobre a natureza da fé e das religiões, só existem duas vertentes: ateus e GENTE BOA. Agnósticos definitivamente não estão no segundo grupo. O que significa que, em matéria de opróbrio, é necessário juntar um aidético, um traveco e um ex-presidiário pra competir comigo.

Esse desrespeito pelo não-teísmo, qualquer que seja a forma que tome, é muito claro e começa com aquela piadinha que associa ateu a à-toa, mas não pára aí. Sempre que alguém questiona seus valores morais, ou demonstra pena diante de sua descrença; sempre que dizem “um dia você vai enxergar deus” ou dão a entender que essa é apenas uma “fase de rebeldia”; sempre que sua postura religiosa é colocada em xeque, enfim, não com argumentos e tentativas de entender sua compreensão do maquinário que move esse plano de realidade, mas com demonstrações de superioridade e/ou troça: essa é uma forma de desrespeito. É você sendo tratado como o que é: um pária.

Agora vem o X da questão, que me conduziu a todo esse raciocínio: ateus nessa situação encontram-se numa sinuca de bico. Porque, veja só, amigo ateu que se sente desrespeitado em sua descrença: a lei lhe ampara! Você pode processar aquele que te constranger, baseado no art. 208 do Código Penal.

MAS - e aqui está o pulo do gato - para isso é preciso alegar que sua CRENÇA RELIGIOSA foi menosprezada. Que aquilo em que você ACREDITA, aquilo no que CRÊ, a idéia na qual deposita sua FÉ foi vilipendiada.

Basicamente, precisará alegar que, sendo ateu, tem uma crença. Que não acreditar em deus é sua religião. Vai ser preciso admitir que o escárnio foi direcionado não aos seus argumentos, mas à sua fé.

Em suma, ateuzinho raivoso, a lei te ajuda, mas você precisa se contradizer. Diz aí: cê tem bagos pra tanto?

Duvido.

Das semelhanças (e diferenças) genéticas

Minha sobrinha de 5 anos, tentando escovar os dentes, não foi capaz de colocar pasta na escova, porque aqui na casa da minha mãe as pessoas apertam o tubo pelo meio, e não pelo final, como seria lógico. Remediei o estrago como possível e, enquanto isso, fui explicando pra pequenininha as vantagens de se apertar o tubo de pasta do final pro começo, enquanto classificava a doutrina dos apertadores de meio de tubo com termos como “idiotice”, “burrice” e etc.

Ao fim da explicação, minha mãe me chamou.

- Meu filho, apertar o tubo pelo meio não é exatamente burrice.
- Claro que é. É óbvio que pressionar pelo final é muito mais prático a médio/longo prazo. Quem aperta no meio claramente é imediatista e não tem um pingo de visão.
- Mas não é necessariamente burrice. Burrice é uma deficiência. Às vezes a pessoa é inteligente, mas nunca pensou nisso por preguiça mental.
- O que é igual a burrice.
- Não é!
- Claro que é, mãe! Pensa comigo: eu te dou um pedaço de madeira com um parafuso bem preso nele, uma chave de fenda e um alicate. Daí digo “Tire este parafuso pra mim”. Você pega o alicate e começa a puxar o parafuso, ignorando a chave de fenda. O que é isso?
- Burrice.
- Exato. Então chegamos à conclusão de que burrice equivale a ter uma ferramenta e não utilizar. Certo?
- Certo.
- Então se você tem um cérebro inteligente E não usa, isso é…?
- …
- …
- Teu cu.

Mamãe é tão fina.