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Das semelhanças (e diferenças) genéticas

Minha sobrinha de 5 anos, tentando escovar os dentes, não foi capaz de colocar pasta na escova, porque aqui na casa da minha mãe as pessoas apertam o tubo pelo meio, e não pelo final, como seria lógico. Remediei o estrago como possível e, enquanto isso, fui explicando pra pequenininha as vantagens de se apertar o tubo de pasta do final pro começo, enquanto classificava a doutrina dos apertadores de meio de tubo com termos como “idiotice”, “burrice” e etc.

Ao fim da explicação, minha mãe me chamou.

- Meu filho, apertar o tubo pelo meio não é exatamente burrice.
- Claro que é. É óbvio que pressionar pelo final é muito mais prático a médio/longo prazo. Quem aperta no meio claramente é imediatista e não tem um pingo de visão.
- Mas não é necessariamente burrice. Burrice é uma deficiência. Às vezes a pessoa é inteligente, mas nunca pensou nisso por preguiça mental.
- O que é igual a burrice.
- Não é!
- Claro que é, mãe! Pensa comigo: eu te dou um pedaço de madeira com um parafuso bem preso nele, uma chave de fenda e um alicate. Daí digo “Tire este parafuso pra mim”. Você pega o alicate e começa a puxar o parafuso, ignorando a chave de fenda. O que é isso?
- Burrice.
- Exato. Então chegamos à conclusão de que burrice equivale a ter uma ferramenta e não utilizar. Certo?
- Certo.
- Então se você tem um cérebro inteligente E não usa, isso é…?
- …
- …
- Teu cu.

Mamãe é tão fina.

Das passagens rápidas

Sei que não escrevo aqui há algum tempo e também não vim escrever nada hoje. Faculdade e trabalho me exaurindo. Mas achei justo deixar aqui esse trecho de um post do Branco Leone, que é foda (o trecho, no caso, mas o Branco também é) e se adequa a muita gente imbecil que andou dizendo muita imbecilidade por aqui recentemente:

(…) os comentários dos Defensores de Alguma Coisa (*), animais que hoje, graças à Internet, proliferam-se como ratos e tem por principal característica a incapacidade de identificar uma piada. Não seria preciso que a entendessem; bastaria que pudessem identificá-la. Mas isso, como se sabe, é algo que só acontece na estratosfera do pensamento humano, isto é, em altitudes superiores a QI 30.

Para as meninas que jogam:

(e pra qualquer um que se ofenda com facilidade)

Levar este blog a sério é uma besteira difícil de explicar. Não pra mim, mas pra quem te conhece. Não é preciso ter muitos neurônios pra sacar que pouco (ou quase nada) por aqui é suficientemente relevante pra ser considerado ao pé da letra. Eu adoro videogame e costumava considerar moças que também gostam desse passatempo mais “iluminadas” do que a maior parte da população feminina, que não dá a menor bola pra jogos eletrônicos (qualquer um que afirme o contrário é um idiota, porque a maioria das mulheres não colocaria um videogame em um Top 5 Minhas Melhores Opções de Entretenimento. Provavelmente nem em um top 10). Imaginei que essas mesmas gurias iriam rir ao perceber o tamanho do desatino que foi escrito.

Agora mudei de idéia. Mulheres que jogam podem ser tão melindradas quanto as que não jogam. É só fazer uma piada simplificando o que é complexo e pronto: acendem-se as tochas, armam-se as hordas, fervem os caldeirões de molho barbecue e vamos tostar o machista. Pelo amor de deus, larguem esse complexo de inferioridade. Vocês são uma casta rara, respeitem-se!

Mas enfim. A ironia é a roupa do rei. E só lamento pra quem é incapaz de vê-la e tem que ficar observando o saco do velhote. Há de ser feio pra caralho…

(será que terei que aturar comentários emputecidos por ter criticado os escrotos do monarca? Serei persona non grata nos bailes dos enxutos e nas ante-salas dos geriatras?)

Das discussões com meu velho

- Babaquice, isso tudo.
- O quê, filhote?
- Essa porra toda de reforma ortográfica, essa cisma psicótica da imprensa e dos que se propõem a ser imprensa com essa merda, sendo que só vai ser regulamentada mesmo, do tipo “obedeça ou morra”, a partir de 2012! Até lá as idéias ainda podem ter acentos e você usa hífen quando achar melhor, caralho.
- E você pode continuar usando depois, também.
- É, eu sei. Obedeça ou morra foi força de expressão, mas o foda é que já tem neguinho por aí corrigindo quem não se adequou a essa palhaçada. Não suporto gente me corrigindo quando eu sei que não cometi nenhuma atrocidade lingüistica. Ainda que eu cometa, aliás, foda-se, idioma nenhum foi feito pra ser respeitado, por isso neologismos são tão legais.
- Mas ninguém vai te corrigir, meu filho.
- Já corrigiram, vira e mexe corrigem, e lá vou eu ter que mandar os outros pra puta que pariu, porque, oras, eu sou um bárbaro iletrado porque ainda quero diferenciar pára de para. Sabe, tomarnocu esse povo, isso me irrita.
- Você não precisa se irritar.
- Eu sei, mas me irrito do mesmo jeito.
- Porque você é um idiota.
- Obrigado, pai. Você faz eu me sentir melhor.
- Eu diria que é um imbecil, mas seria injusto. Imbecil você não é!
- Claro, porque são coisas muitíssimos diferentes, um imbecil e um idiota. Ô!
- São, sim!
- E qual é a grande diferença, ó, arauto da sabedoria?
- Um imbecil é imbecil porque é. É natural, intrínseco. Ele não tem como ser de outra maneira. Um idiota é idiota por opção. Ele tem todas as ferramentas pra não ser um idiota, mas não as usa e permanece na idiotia.
- Entendi. O imbecil não tem como fugir da sua situação.
- Exato.
- É da natureza dele, pura e simplesmente.
- Isso.
- Vem escrito ali pelo décimo terceiro cromossomo: IMBECIL. E tudo em maiúsculas, porque é um gene dominante. É um aspecto genético.
- Genético, isso mesmo.
- Então eu acho que sou um imbecil.
- Se fosse, não seria capaz de pensar num chiste dessa categoria.

Dos aspectos louváveis

Dentre todas as características notáveis que uma pessoa pode ter, de todas as coisas capazes de tornar alguém extraordinário, impressionante, digno da mais alta consideração, enfim, de todos os aspectos possíveis do gênero humano que eu gostaria de ter, ultimamente não há outro que eu cobice mais do que a precisão. A capacidade de avaliar tudo de acordo com os critérios corretos. Não é só ter senso de oportunidade ou saber reconhecer as chances. É saber reconhecê-las e ter sensatez para diferenciar as que valem a pena das que devem passar.

Existem pessoas assim. Que parecem estar no lugar certo e na hora certa, sempre. Que não dão ponto sem nó. Que não queimam cartuchos. Gente que sabe o que dizer, quando, como, onde e para quem. Que não se exaspera e, quando o faz, consegue, com isso, resultados satisfatórios. Que demonstra o grau necessário de serenidade, ou de atenção, ou de impaciência, ou de distração. Que lembra do que é preciso lembrar e esquece o que é para se esquecer. Que nunca menciona nada que não vale à pena ser mencionado. Que não julga apressadamente, ainda que julgue de imediato.

Gente que sempre, sempre sabe o que fazer. E o que não fazer.

Nesse momento, mais do que a sabedoria, a paciência, a disciplina e a objetividade, essa é a característica que mais me impressiona, a que eu considero mais necessária: saber o que fazer. E, mais importante do que isso: saber o que NÃO fazer.

Da culpabilidade dos atos

Pacientemente, o homem observa o banco. Analisa esquemas de segurança. Anota horários de entrada e saída de funcionários, datas de envio e recebimento de malotes. As empresas procuram alternar, mas ele identifica o padrão. Mais alguns meses de observação e suas teorias se comprovam. Seus cálculos estão certos. É possível prever quando o dinheiro estará no cofre.

O tempo passa. Sondando bibliotecas públicas, surgem as plantas baixas do edifício, publicadas em livros de arquitetura graças a seu tombamento histórico. Mais observação e é possível descobrir a empresa responsável pela segurança eletrônica. Pesquisas na internet resolvem o resto. O sistema é bom, mas, como qualquer outro, não é infalível. Ele tem o método. Ele tem os meios. Ele tem o plano.

Fazendo uso de todos os recursos possíveis, ele entra no prédio. É noite, apenas um segurança está no local. Ele se esconde nas sombras e aguarda. Aguarda. Aguarda. Aguarda por horas por algo que não vem. Então toma a iniciativa e vai atrás do que queria. Presume não haver segurança. Imagina que o homem dorme, cansado graças a sua rotina de muito trabalho para pouco pagamento.

Ele chega ao cofre. Desmantela alarmes, câmeras e sensores pelo caminho. Suas noções de eletrônica e sua pesquisa sobre o sistema de segurança tornam aquela invasão - para muitos, impossível - um passeio no parque. Ele desarma o cofre… encontra um ferrolho. Um ferrolho simples, com um cadeado. Que ele não sabe como abrir, não tem ferramentas para arrombar. Irrita-se, sente-se frustrado. Vai embora, deixando tudo como estava. A invasão é detectada, assim como também é possível notar que nada sumiu.

Mesmo assim, o homem é preso.

A acusação alega que tentar roubar já te torna um ladrão. Sair com o produto do seu roubo em mãos só te confere, como diferencial, a competência.

A incompetência não te inocenta.
Te faz duas vezes culpado.