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Das comidas bizarras e bizarrices comestíveis

Então.

Vamos começar isso aqui falando do que é importante, do que importa e do que, acima de tudo, tem importância: um dos mais proeminentes irmãos caminhoneiros deste (suposto) terceiro pedaço de rocha a orbitar nossa carismática estrela anã, Guto Senra, junto com 3 amigos que também são da turma da boléia, heroicamente deu a garfada inicial em uma série de “webisódios” (odeio esse termo, mas existe alternativa? Aceito indicações!) sugestivamente intitulada Ogrostronomia. Pra você que quer aprender a fazer comida simples, palatável e pra homem – vai que seu namorado curte, mano? -, dá um like na página dos caras no facebook e/ou assina o canal deles no youtube. A primeira aula da autêntica culinária dos filhos, netos e bisnetos de camponeses foi sobre como fazer churrasco. E os filhos da puta não só não me chamaram pra provar o resultado, como o Jimmy ainda linkou a página do Utopia em uma foto constrangedora no facebook.

(Quando abrir a garrafa de Blue Label não vou chamar ninguém pra beber, em retaliação!)

Ainda falando de comida, e sem dúvida descendo vários degraus em direção ao anárquico reino da bizarrice (é anarquia ou monarquia, cazzo?), se você não foi bombardeado com links e referências, há algumas semanas, do vídeo nada eufemisticamente intitulado “Sanduíche de Buceta”, então parabéns. Não sei em que recôndito esquecido deste plano de realidade o senhor foi se enfurnar, mas sugiro que, agora que está de volta à convivência com os bons, não vá atrás da pérola. Acredite: não vale a pena nem por seu caráter nonsense.

Trata-se de um vídeo amador de uma moça – que nem maior de idade me pareceu, a bem da verdade – que besunta suas já mencionadas partes com condimentos (a saber: maionese, MUITA maionese), esfrega em outros ingredientes, tais como pães, presunto e queijo, e, imagino eu, come tudo ao fim do processo. Digo “imagino eu” porque não tive disposição para assistir a peça até o final. Espera-se, de um vídeo com tal mistura de absurdo, culinária e putaria, que seja excitante, desperte a fome ou faça rir. E não obtive nenhuma das três reações. Mas, ao contrário da maioria das pessoas que assistiram ao vídeo e cujas reações tive o (des)prazer de presenciar, também não fui tomado por horror ou nojo, seja pela “falta de higiene” da menina, seja por sua exposição voluntária.

Em primeiro lugar, não vejo problemas de higiene na questão. Não existe NADA naquele vídeo que as pessoas não coloquem na boca com regularidade: pães, maionese, presunto, queijo ou órgãos genitais de moças libidinosas. Ok, admito que a mistura de tudo isso é inesperada. Nem por isso vejo por que causar asco, se não por algum tipo de moralismo cristão que sobrevive em nossa mente e associa sexo a sujeira. O que nos leva ao segundo ponto: minha surpresa em ver o despudor da moça sendo tratado de forma tão furiosa. Sério, ainda há quem se surpreenda diante do fato de que mulheres – sejam elas moças, mulheres, coroas ou velhas – também curtem uma sacanagem? Quantas mulheres mais precisarão dar entrevistas “bombásticas” informando que, sim, aceitam a idéia de sentir “prazer anal” (Sandy, não estou falando de você, estou falando de outra mulher que deu uma entrevista afirmando a mesma coisa, claro), quantas mulheres precisarão ser “flagradas” em atitudes lascivas, quantas mulheres terão que aderir à indústria pornográfica ou mostrar satisfação com práticas sexuais “pouco ortodoxas”, até que aceitemos o fato de que, vejam só, essas criaturas também sentem prazer e desejo sexual?

Isso não tem nada a ver com a criação, com o caráter, com algum tipo de carência afetiva ou coisa que o valha. Pensamentos dessa natureza são fruto desse nosso ranço machista. “Mas o que o pai dela vai pensar?”, ou “E se fosse sua irmã?” são questões que só passam pela cabeça de quem ainda vê mulheres como propriedade, ainda que de forma bastante vaga. Esse raciocínio nos leva a concluir que não interessa se ELA está à vontade com isso, mas se o pai, o irmão ou o marido dela sabem tolerar esse comportamento. Logo, ela é uma demente, incapaz de pensar por si mesma, e precisa que um homem – essa criatura inteligente e racional – use seu teleencéfalo altamente desenvolvido para guiar a ensandecida criatura pelo caminho da moral e dos bons costumes!

Se você diz que não namoraria ou contrataria uma mulher dessas para a sua empresa, a falha não é dela, tampouco é dela a postura repreensível: ambas são suas. Só não vou dizer a você para assumir sua hipocrisia porque isso seria um contrasenso. A hipocrisia, tal e qual a humildade, é daquelas características que pressupõem uma atitude pouco reflexiva, portanto só duram até o momento em que são percebidas.

A verdade é que mulheres criadas em famílias equilibradas (existe isso?), em ambientes “normais” (defina “normal”), com papai e mamãe e colégio particular e telefone celular e roupinhas da moda e irmãozinhos e avós e Temperatura Máxima aos domingos com a família ao redor de uma bela macarronada TAMBÉM vão querer trepar – e vão curtir, e vão querer mais – em algum momento da vida. Algumas vão se satisfazer com um papai-e-mamãe bem comportado à meia luz. Outras vão querer ser besuntadas em azeite e lambidas por cinco homens, ou passar condimentos nas partes, ou tentar orifícios ditos “pecaminosos” em suas práticas sexuais. Deixemos todas elas em paz e vamos nos preocupar com coisas mais importantes: quando será que o Discovery Channel vai descobrir a genialidade dos caras do cracked.com e dar a eles uma série no canal?

A maravilhosa cozinha de Ofél… Utopia! (2)

Amigos e Irmãos.
Namastê.
Paz e Luz.

Você sabe o que é um Gigapudding? Se não sabe, então vamos começar pelo começo: destruir sua alma e acabar com sua paz de espírito. Assista esta atrocidade:


“AAAARGH! DEUS! A FELICIDADE! É DEMAIS PARA O MEU CÉREBRO!”

A partir de agora, tudo em que você vai conseguir pensar é nessa aberração pudinesca, porque o seu cérebro – que, sejamos francos, nunca foi lá de grande serventia, ou você não estaria chafurdando neste blog mequetrefe – acaba de virar um pudim gigante (devo informar que, no seu caso, isso é um upgrade). Dessa maneira, seu destino é ser perseguido por essa idéia fixa, que, como um novo tipo de obsessão não prevista pela psicologia, há de transformar sua vida em um inferno. Suas lombrigas tomarão posse de suas faculdades e você será para sempre infeliz, a menos que consiga meter uma colherada em um pudim de 20 cm de altura com uma charmosa cobertura de flan de chocolate.

Pois não tema. É para conduzi-lo a esse eldorado da culinária de baixo nível que estou aqui. Ensinarei, com direito a fotos, a fazer uma porcaria dessas. E não fique se sentindo incapaz apenas porque sua perícia culinária não basta sequer para preparar ovo cozido! Um gigapudding não requer prática, tampouco habilidade. Você só vai precisar de 4 pacotes de flan em pó de baunilha, 1 pacote de flan em pó de chocolate (ou o contrário, quem manda na tua gororoba é você) e 2,5 litros de leite.


Nenhum colaborador deste numeroso blog recebeu um centavo de qualquer uma das marcas apresentadas ou mencionadas neste texto. Lamentável!

“Mas só, Pedrones? Mais nada?”, você pergunta, contorcendo-se de ansiedade. “Sim, amigo”, eu respondo, com um sorriso irônico, “beba os 3 litros de leite e mastigue o flan em pó como um retirante que se esbalda em meio quilo de farinha de mandioca, então aguarde cinco horas e você cagará um enorme gigapudding. Trabalho concluído!”. Claro que não é só isso, anormal. Agora que levantamos os materiais necessários para a sua edificação, temos que providenciar as ferramentas. Pois se quiser fazer um gigapudding decente, nenhuma daquelas fôrmas capengas que tua mãe usa pra fazer bolos que mais parecem cimento vai servir. Você vai precisar de algo com mais… pujança. Tipo um balde de pipoca.

Eu poderia sugerir que o balde de pipoca deve estar SEM pipoca, mas não vou, por duas razões bem simples:

1) A comida é tua, tu faz a mistureba que quiser, ninguém tem nada a ver com isso. Azar das suas tripas.
2) Se eu realmente preciso avisar isso, tá explicada sua inabilidade em fritar ovo, mencionada anteriormente.

Além desse item inesperado, é uma boa ter à mão uma panela de bom tamanho (são dois litros e meio de leite, então este “de bom tamanho” não é figura de linguagem). Tudo em ordem, vamos à preparação da bagaça. Corte as orelhas do primeiro litro de leite (sim, as duas orelhas, se você for uma pessoa inteligente)…

…e pegue 500 ml desse suco de vaca.

Misture o pó do flan de chocolate.

Agora mexa esse grude até ele ferver.

Sério, essa merda tá escrita no verso da embalagem! Se você pode ler as MINHAS instruções, pode ler as da Royal, deixa de ser inútil!

Desculpe. Eu esqueço que ser inútil é da natureza dos leitores de um blog, assim como fazer comentários cretinos e não entender ironias. Continuemos.

Quando a parada levantar fervura, enquanto você mexe a cadeira sem parar, vai ter mais ou menos essa cara:

É nessa hora que vem o macete. Você vai jogar METADE dessa porra no teu balde de pipoca, NO MÁXIMO. Não mais do que metade, sério. A outra metade tu pode jogar num outro potinho e comer depois. É o que eu faço, me amarro nesse grude, porque eu tenho cinco anos e tal.

Enfim, pegue o teu balde de pipoca, com uma quantidade MÍNIMA (um dedo, se tanto) de flan de chocolate serenamente repousando no fundo…

…e enfia no cu coloque na geladeira. Deixe ele lá, resfriando, durante algum tempo, antes de preparar a parte cavalesca (acho que acabei de inventar essa palavra, azar de quem presume que não tenho autoridade para tanto) do negócio. DEPOIS que o flan de chocolate endurecer, pegue os outros dois litros de leite…

…coloque no teu panelão…

…jogue os flans de baunilha lá dentro, COM EMBALAGEM E TUDO…


O lance da embalagem é mentira, anormal!

…e aí mexe. De novo, até ferver. Vai demorar pra caralho, então pegue um livro e leia enquanto mexe a cadeira. Sim, existe o risco de você tocar fogo na cozinha acidentalmente, com a proximidade do papel, mas e daí? Desperte o piromaníaco em você!

Quando essa merda finalmente ferver, depois de uns 20 minutos que mais parecem 20 anos, apague o fogo e deixa esfriar um pouco. UM POUCO, só. Uns 5 a 10 minutos, não mais que isso. Daí resgate o teu combo balde de pipoca + flan de chocolate da geladeira. Já deve ter endurecido.

E derrama o flan de baunilha aí dentro, em cima do de chocolate. Vai ficar assim:

Agora você vai pegar essa quantidade medonha de leite, corante e sabe-se lá que outras espécies de aditivos cancerígenos bizarros e colocar pra repousar serenamente na sua geladeira. Pode esperar esfriar um pouco, antes, se você for um desses ecochatos mimimi que querem “poupar o planeta” e meu pau de óculos em Londres. Depois de um período que eu não sei determinar qual é – da primeira vez deixei resfriando por 5 horas, da última deixei por 2h30m, no máximo -, seu gigapudding estará QUASE pronto pra comer.

Sim, porque não dá pra comer assim, no balde de pipoca. Não tem graça. Você precisa ver a monstruosidade gelatinosa que seu esforço gerou, oras. É sua recompensa visual! Então pegue uma superfície AMPLA, que tenha ABAS, tipo um… péra que eu esqueci o nome daquela parada de mulher, calmaí que vou ao google.

……um REFRATÁRIO! Isso! Tipo um refratário. Coloque-o em cima do seu balde de pipoca e dê um jeito de virar essa gororoba. COM SORTE você não vai fazer merda (por via das dúvidas, realize a ação descrita aqui em cima da pia. Ser precavido nunca matou ninguém) .


Note que eu usei um prato. Faça o que eu digo, não faça o que eu faço.

Se for preciso, dê umas porradas no balde de pipoca, pra ver se o gigapudding solta.

Pronto. Agora prepare-se pra passar uma semana comendo esse grude:

Será que eu devia avisar aos diabéticos pra não comer esse negócio? Nah. Se você tiver diabetes E se meter a ingerir essa quantidade medonha de produtos químicos misteriosos, ou vai virar um mutante, ou vai morrer. Em qualquer um dos casos, é uma besta e merece tal destino.

E se você acha que eu sou muito escroto por escrever com esse tom, saiba que podia ser pior: eu podia ter colocado no post a foto em que apareço só de cuecas, mexendo o flan de chocolate. Trauma pra vida, acredite!

Vizinhança barulhenta

Então eu moro ao lado desse mercado (cujo nome não vou dizer pra não fazer merchandising de graça, porque sou um blogueiro com grande influência na meritocracia informal da internet, capaz de levar uma empresa de fundo de quintal a um lucro astronômico ou conduzir a Coca-Cola e o Mcdonalds à bancarrota. Megalomania, a gente vê por aqui.). Ao lado MESMO, não é liberdade poética, igual à utilizada pelo pessoal do Formule 1 da São João, alegando que o hotel fica “ao lado do metrô república”. Vai caminhar da estação até o hotel (ao lado, logo ali) carregando uma mala de 12 quilos, simpatia.

Ao lado fica o meu ovo esquerdo do ovo direito, isso, sim.

Mas então. Ao lado, como dizia, também fica o mercado. Desço do prédio, atravesso a pista, tô lá. Como se não bastasse, o troço funciona 24 horas. O que significa que se, às 4h18m da manhã, eu sentir vontade de comer um pacote de passatempo recheado tomando toddynho, cato aqui quaisquer cinco realidades, visto uma roupa – porque sou adepto do nudismo domiciliar, embora não possa praticá-lo tão livremente quanto gostaria -, vou lá e adquiro minha dose diária de alimentos de alta caloria e pouco valor nutricional.

Isso engorda e certamente fode minha saúde de alguma forma, mas quem precisa ser magro e viver pra sempre nos dias de hoje? Dois mil e doze tá aí e, apesar de no creer en brujas, vamos pela lógica de que si, las hay. Se não houver, dou um jeito depois. Ou morro, o que certamente vai acontecer um dia. Antes morrer cedo a me privar dessas pequenas satisfações. Imagine se um mundo cão desses merece de você, amigo, o sacrifício de largar seu passatempozinho com achocolatado, alimento padrão das madrugadas? Não merece, convenhamos.

Mas nem só de biscoito recheado e toddynho vive o homem. Ainda existem os miojos, os iogurtes, os isoporitos, as pizzas congeladas, os chocolates (e se você nunca comeu um lindt sozinho, de madrugada, assistindo corujão, repense essa vida cretina que vem levando), etc, etc, etc. De vez em quando passo até pela seção de hortifruti e, raridade das raridades, compro umas frutas. Existe vida fora dos industrializados, afinal.

É claro que nem tudo são flores e é claro que eu iria começar a reclamar em algum momento (e este momento é agora). Morar ao lado desse mercado tem seus reveses, como parece evidente. O maior deles, e que considerei bastante inusitado quando me dei conta de sua existência, é que na parte de trás do prédio onde o mercado se localiza há um galpão, ou coisa parecida, onde acontece o abastecimento da loja. Até aí tudo ok. O problema é que aos sábados sempre vem uma gritaria desse lugar que não tem explicação lógica. Aparentemente a empresa promove alguma atividade em grupo ali, e não sei ainda se é um torneio de queimada, vôlei, dominó, purrinha, truco ou um clube da luta.

Já pensei em perguntar aos funcionários, numa dessas madrugadas. Sutilmente, claro. Algo na linha de “Ei, que porra é aquela gritaria do caralho que ouço do meu apartamento todo sábado à tarde e, às vezes, até durante a semana, à noite, vinda do galpão de vocês?”. Mas se for um clube da luta acho que não vão me contar o que acontece, porque você não fala sobre o clube da luta e tal, a menos que queira o Tyler Durden nos seus calcanhares (e você não quer o Tyler Durden nos seus calcanhares, vai por mim).

Numa dessas madrugadas, por volta de uma da manhã, estive lá pra comprar pão, presunto e queijo, porque me bateu uma necessidade gestântica de comer um bom sanduíche. Peguei os protéicos na parte de frios e fui atrás do carboidrático na padaria. Chegando lá, pães de todos os tamanhos e tipos e marcas. Pão integral, pão com centeio, integral light, aveia light, sete grãos, multigrãos, pão de leite, pão de milho, pão de manteiga… pão com o caralho a quatro. Estavam todos lá, era praticamente a PãoCon 2010. Mas não havia pão de forma, daquele normal. Abordei o repositor da seção.

- Ô amigo, com licença. Tô procurando um negócio, mas não tô encontrando.
- Pois não, senhor?
- Não tem mais pão pra homem aqui?
- Pra homem?
- É. Pão de forma sem viadagem. Pra homem.
- O senhor quer dizer pão de forma puro?
- Isso. Pão pra homem, pô.

Ele observou as prateleiras por alguns instantes – coisa que eu já tinha feito e poderia fazer novamente, sem ajuda – e concluiu que não havia pão pra homem ali.

- Mas será que nem lá no seu estoque tem?
- Não, senhor. Os pães vêm direto pra cá.
- Mas que droga. Meu namorado só gosta desse.

Tive que voltar pra casa sem meu pão pra homem.

(E troquei o presunto e o queijo por um pacote de doritos)

Ah, e o mercado é um Pão de Açúcar. Já posso mencionar o nome, pois Tio Abílio acaba de me ligar informando que fez um depósito na minha conta pela menção. Chupa, Cardoso.

Advogando pelo diabo

Podia até existir alguma tolerância, da parte do altíssimo, em relação à humanidade. Até podia, ok? Não acho que esse seja um argumento que eu possa refutar desde sua criação, em sabe-se lá quando antes do JC nascer, crescer, virar hippie, surfar sem prancha e empacotar. Acredito que, até um certo ponto da nossa evolução, se deus existe, e se ele presta alguma atenção ao que fazemos – duas afirmações questionáveis, cada uma a seu modo, e por razões diferentes, mas aceitemos a hipótese de serem reais -, ele podia ter um certo carinho pelos homens.

“Sabe, são uns filhos da puta do caralho, traiçoeiros como poucas criaturas, mas olhe só que bonitinhos eles são, navegando nos fiordes.”
Deus, uma mulherzinha jogando SimCity.

O problema é que nós, seres humanos – e você, aí, que despreza a humanidade, TAMBÉM está incluído -, não sabemos quando parar. Criar a igreja e associar o pobre criador àquela atrocidade não foi o suficiente. Inventamos o café descafeinado, o leite sem lactose. Ofendemos o todo-poderoso uma vez atrás da outra. E ignoramos o alerta, quando Krakatoa foi pro vinagre. O sujeito explodir uma ilha inteira, como retaliação por qualquer merda, não nos desmotivou. Claro que não.

Insistindo em nosso comportamento suicida, em afrontar Javé, tínhamos que fazer o impensável, tínhamos que criar o Ades de Manga com Laranja.

A Face da Besta

Ok, aí está você, meneando a cabeça e resmungando “Você está exagerando, Pedrones” (pra não mencionar todas as ofensas à minha mãe, alusões pouco educadas ao meu brioco e idéias semelhantes). Mas na verdade não estou. Pensa aqui comigo: cê sabe QUANTAS frutas existem? TROCENTAS! Você tem idéia da dificuldade que deve ter sido criar cada uma delas? Você acha que teria sido capaz de pensar na jaca? Na sirigüela? No kiwi? Na fruta do conde? No caqui? Pensa na trabalheira do caralho que foi o processo de criação.

Aí uma criatura um dia acorda e diz “Foda-se isso tudo”. E, cagando pro trabalho de deus, pega a soja – SOJA!-, mói e faz um caldo. Joga ali algum produto químico escroto pra simular um gosto que não seja o gosto da soja – que, se fosse boa MESMO, não era comida de VACA – e chama de suco.

(O demônio, que nesse momento ocupava-se de alguma maldade menor, como a fome na África ou a guerra no Oriente Médio, sentiu um abalo na força, ouviu o berro da indignação divina estraçalhando as vidraças nos limites do universo, observou atentamente a última criação da humanidade e pensou “Caralho, como eu sou n00b!”. Entre lágrimas, escreveu sua carta de demissão, botou o tridente numa sacola e o rabo entre as pernas e mudou-se pra uma comunidade de hippies isolados em algum lugar na califórnia, onde espera pelo juízo final. True story!)

O Ades, por si só, é, como a cirurgia de redução de peitos, um desavergonhado tapa na cara de deus. E uma entidade que tem “O Senhor dos Exércitos” entre suas alcunhas claramente não é grande fã do perdão.

Essa nojeira feita de soja foi a pá de cal nas relações entre nós, pobres seres derivados de carbono, e o gerente desta birosca. Pense aí em todas as misérias que poderiam ter sido evitadas, fôssemos menos cretinos e, para fazer SUCO, espremêssemos FRUTAS em vez de moer grãos, seguindo o plano divino.

Rebolation, terremoto no Haiti, morte da Dercy Gonçalves… deus está pegando mais e mais pesado a cada dia que passa. Como o Joselito Original que é, YHWH não sabe brincar. E agora que provocamos o cara, quem terá piedade de nossas almas? Estamos fodidos.

Espero que, ao beber essa coisa asquerosa da próxima vez, você consiga pensar “Esta merda vale o sacrifício deste plano de realidade!”.

Contos Triviais I

Organizava sua salada com a dedicação e o esmero de um amante cuidadoso durante as preliminares de uma foda solene.

Sua técnica para montar o antepasto era, na pior das hipóteses, impecável. Uma sólida base de folhas de sabores, cores e texturas diferentes alternadas com maestria; rodelas rigorosamente selecionadas de tomate, pepino e cebola; pedaços desfiados de palmito e champignons picados com primor; espalhava com cuidado um pouco de cenoura e beterraba raladas e coroava a obra com uma ou outra azeitona, pedaços de tomate seco, tiras finas de frios leves e então, só então, partia para os temperos.

Conhecedor que era de azeites, sabia a dose exata necessária para, de acordo com a constituição de seu prato, realçar o sabor de cada alimento ali presente. A maneira como os dispunha tornava possível que até mesmo a menor quantidade do líquido derramado escorresse igualmente entre as camadas. Salpicava uma estudada porção de orégano e, com aparente displicência, algumas pitadas de sal. Umas gotas de aceto balsâmico e voilá: estava pronta sua obra de engenharia gastronômica.

O resultado de sua imersão – pois seria impossível classificar de outra maneira – nos bufês de verduras e legumes era desejosamente observado mesmo por quem não nutria especial predileção por saladas. Lembrava-se, divertido, do episódio no qual a gerente de um restaurante eximiu-o de pagar a conta caso cedesse seu prato para um fotógrafo de alimentos que se encontrava no local: queria aquela imagem na capa do novo menu. Diante de tão interessante proposta, não pensou duas vezes antes de aceitar e, estimulado pela possibilidade de comer de graça, preparou nova obra, magnífica, que superava com folga a anterior.

Certo dia, em casa, sentado diante do alimento e prestes a consumi-lo, ouviu, na tevê, reportagem sobre como portar-se à mesa. A especialista em etiqueta dizia que folhas de alface não deveriam ser cortadas, mas, com o auxílio de garfo e faca, enroladas como uma trouxinha e, só então, levadas à boca. Tal convenção social lhe pareceu disparatada.

Picotou tudo o que havia em seu prato e devorou às garfadas.

Sessão gastronomia. Ou gastroenteria, depende de quem come.

Sou assumidamente fresco com comida. Fresco mesmo, abicholado, viadinho, chato, sabe como é? Menino criado com vó, aí já viu. Não sou muito chegado em carne, por exemplo. Frango, só empanado. Em coxinhas e empadinhas também encaro. Vaca? Só os melhores pedaços. Sim, me refiro aos mais caros. E só se estiver assado. Gosto de churrasco, mas não como qualquer coisa. Carne de porco? Calabresa, salaminho e presunto. E olhe lá. Peixes e frutos do mar? São amigos, não comida. Abro uma exceção: gosto de patê de atum. Se dependesse de mim, só haveria pesca esportiva.

Também não sou chegado em salada. Folhas, em particular, me aborrecem. Agrião, rúcula, essas porcarias, pra mim é tudo comida de cavalo. Nabo, pepino e outros vegetais de duplo sentido também dispenso. Meu negócio é carboidrato e alimentos de qualidade (e valor nutritivo) questionável. Junk food, como gostam de chamar aqueles babacas que intercalam idiomas só pra mostrar que são letrados. Hambúrguer (sim, é carne, mas eu gosto… vai entender), salgadinhos, biscoitos, sucrilhos, iogurte, queijo, leite… aliás, leite e derivados de leite também chamam minha atenção. Falando sério: não sei como sou magro, comendo as coisas que como.

Sendo brasileiro, entretanto, não dispenso um bom prato de arroz, feijão, bife e batata frita. O bife sendo de filé, lógico.

Provavelmente você está pensando que isso me desabona pra sugerir bons lugares para comer. Eu gosto de pensar de forma diferente: como sou muito criterioso (chato!), exigente (chato!!) e seletivo (chato pra caralho!!!), os restaurantes/lanchonetes/quiosques/pé-sujo precisam se esforçar para passar pelo meu crivo e ganhar minha lealdade “enquanto a nível de” cliente.

Resumindo: se você quer comer porcarias deliciosas, vai em frente e segue meu roteiro. Se o seu negócio é nutrição, entretanto, vai caçar um restaurante natureba qualquer – coisa fácil de achar nesse detestável acampamento hippie urbano que é Brasília – e divirta-se comendo suas comidas “macrô” sem gosto.

***

Quando você não sabe pra onde ir, vai ao Giraffa’s. Essa rede de lanchonetes é uma sumidade por aqui. Qualquer beco de Brasília tem uma loja. É sério, são mais de 40 unidades no Distrito Federal, sendo umas 23 só no Plano Piloto. Pra você ter noção, conto 4 Giraffas num raio de menos de um quilômetro da minha casa.O grande problema é que nem todas as lojas estão em consenso. Meu prato preferido é o parmeggiana de frango com fritas e eu deveria fotografar as porções servidas por diferentes lojas da cidade para depois mandar as imagens para a central nacional da lanchonete. Algumas são extremamente generosas (como a da 209 norte), enquanto outras são de uma avareza judaica (a do Pátio Brasil é o melhor exemplo). A melhor em todos os quesitos, na minha opinião, é a da 302/303 norte. Podem perguntar ao Daniel: no horário de almoço, quando o movimento é mais intenso, você termina de pagar e eles servem seu prato antes que você tenha chance de se afastar do caixa. E sem murrinhagem, o que é melhor.

Como nem tudo é perfeito, a loja não funciona de madrugada. Mas se você quer encarar um sandubão depois de meia-noite, existem duas outras opções bem melhores que qualquer rede de lanchonete terminada em ‘s:

O Marcão. Esse quiosque já é um clássico. Nas madrugadas, na entrada da 409 norte, eles servem os sandubas mais BRUTAIS da cidade. Não é à toa que batizaram suas criações com nomes sugestivos como “monstro”, “hulk”, “guloso”, “mal-educado”… O Hulk, minha opção-padrão no lugar, custa 5 reais e é maior que qualquer hamburguer do McDonald’s, Burger King ou Bob’s. QUALQUER UM! As pastas deles merecem menção honrosa. Mas se você tem estômago fraco e/ou não gosta de maionese, passe longe: a mistureba pode ser considerada pouco católica pelo seu sistema digestivo.

Se você mora na Asa Sul, nem tudo está perdido. Vá à barraquinha de cachorro-quente na entrada da 214 sul. Os preços não são os melhores, mas a pasta de alho dos caras é sensacional. Não recomendo, porém, comer um desses antes de cair na noitada se você tiver planos pra falar de perto com alguém.

Para os que preferem gastar com gasolina e poupar com comida, no Guará, perto do Pão de Açúcar – não sei o endereço exato, desculpe – tem uma lanchonete que vende um sanduíche homônimo sugestivamente chamado “A bomba”: um X-Tudo com refrigerante que sai pela bagatela de R$ 4,00. É possível encontrar semelhantes mais baratos na rodoviária do Plano Piloto, mas eu não recomendo. Ainda não entendi como a vigilância sanitária não fechou as barracas de lá.

Se o seu negócio é comer algo de dia e um pouco mais natureba, vá à Zimbrus, na 305 sul. Até eu gosto da salada de lá. Por R$ 10,90 é possível montar uma salada grande que alimenta duas pessoas normais. Se você é igual a mim e come com voracidade, como se estivesse amarrado há três semanas, coma sua folhagem sozinho. São 8 itens, mais 3 frios mais um molho. Eu geralmente peço alface, milho, ervilha, palmito, cenoura, beterraba, batata palha e croutons com mozarela de búfala, peito de peru e presunto. Como molho minha escolha é mostarda com mel.

Eu poderia viver só disso. Disse o cara que não é chegado em saladas.

Se você preferir alguma coisa não tão natureba, a Zimbrus também tem várias opções de sanduíches, massas, grelhados, sucos, vitaminas, etc, etc, etc. Eu gosto do açaí cremoso que fazem lá.

Mas se é pra tomar um açaí bom e barato, vá – às quartas-feiras – às lanchonetes que ficam na comercial da 706/707 norte, em frente ao McDonalds. Eles fazem promoção de açaí 500 ml a R$ 2,50. Compre para a semana inteira e mantenha na geladeira, se for muito viciado nesse tipo de coisa.

Pra poupar mais dinheiro ainda, ao pedir pizza ligue para a Pizzaria Genérica: 3347-0207. Pizza grande com boa diversidade de sabores a R$ 9,90 + taxa de entrega (acaba saindo por uns R$ 11,90, se você mora na Asa Norte).

Mas se você não tá tão na pindaíba assim e pode pagar uns R$ 25,00 numa pizza com molho de tomate (o que é surpreendente para os padrões de Brasília), vá à Baco da 409 sul. O sabor da sua pizza é o de menos, mas lembre-se de pedir a massa fina! Ao fim, coma a sobremesa deles chamada “Morangos Bêbados”.

Se não quiser cruzar o eixo monumental e ainda está a fim de curtir uma pizza decente, vá à Felicitá (306 norte) e peça uma de palmito, só para se surpreender ao ver que eles não economizam nos ingredientes. Aliás, se quiser levar sua namorada pra um jantar bacana E barato, lembre-se desse restaurante. Eles têm ótimas saladas (a Capricciosa em especial) e pratos muito, muito bons (eu recomendo o frango à parmegiana com talharim ao molho de alecrim).

Depois de comer tanto, se estiver a fim de um expresso, um capuccino, um café irlandês ou qualquer coisa relacionada a café, vá ao cyber café do posto da torre. E peça um pedaço da torta de chocolate deles, que merece mérito quádruplo: pelo sabor, pela quantidade de recheio, pelo tamanho da fatia e pelo preço.

Compre muitos engovs e bom apetite.