Archive for the 'curtos' Category

Mas livrai-nos do mal…

Chego em casa da faculdade. Sento diante do computador, abro a apostila da matéria que terei prova amanhã, o Freemind, e começo a fazer meu resumo, na esperança de não esquecer tudo nas próximas 24 horas e me foder bonitamente.

Cinco minutos depois, ouço meu irmão, atrás da porta da sala, perguntando ao meu pai se eu estou aqui dentro. Eu respondo, dizendo que sim. Ele abre a porta e me estende um caixotão, dizendo:

- Ó, chegou meu videogame, mas meu jogo ainda vai levar uns dias. Ele veio com um joguinho de guerra aí, mas tu sabe que eu não curto essas porras, então liga lá na tv do seu quarto pra se divertir até o meu jogo chegar.

O videogame é um PS3.
O “joguinho de guerra aí” é Metal Gear Solid 4.

O sonho de qualquer nerd.

Eu recusei.

Amém.

Sacaneando, eu?

- Ah, então você resolveu aparecer?
- Já tava com esperança de não me ver hoje, né? Acha que eu ia me oferecer pra tomar uma bronca igual à de ontem? Nem morta, santa.
- Mas como você me aparece com quase uma hora de atraso? Sorte que não tem aula nesse primeiro horário, por causa da palestra.
- Sério que não tem aula agora? Pô, se eu soubesse disso, tava em casa tomando um banho e descansando um pouco. Só vim hoje pra você não ficar chorando aí, desconsolada com a minha ausência. Aliás, ontem eu não entendi como você se lembrou que eu faltei à última aula. Depois, pensando a respeito, notei que você só marcou meu nome e rosto porque fiquei te devendo uma pipoca!
- Que, aliás, com os juros, já são três pipocas. Aliás, você já tá me devendo um pipoqueiro completo, com carrinho e tudo.
- Ué, sendo assim fica mais fácil: tem um lá na frente do prédio. É seu. Pode levar pra casa.
- Engraçadinho. Vamos lá assistir à palestra?
- É sobre o quê mesmo, esse troço?
- Automação comercial.
- Ah, não. Qual é? Eu trabalho com isso o dia todo, chego aqui ainda tenho que ver apresentação sobre um negócio que eu já tô careca de saber? Não venho pra faculdade pra ficar vendo essas baboseiras, venho pra cá em busca de emoção, de alguma coisa mais interessante, mais ameaçadora. Tipo… tipo… lógica de programação.
- Eu notei um certo tom de sacanagem com a minha matéria nessa sua fala aí.
- Quê? Adriana, como é que você sugere uma coisa absurda dessas? Eu seria incapaz de usar ironias! Onde já se viu. Um homem sério como eu, com esse tipo de piadinhas? Inaceitável.

***

- Adriana.
- Diga.
- Tenho sono.
- Como?
- Tenho sono. Tenho muito, muito sono.
- Ah, é?
- Sim. Por favor, seja breve com essa próxima aula.
- Mas que cara-de-pau!
- É a sonolência que anestesia meus pudores e meu bom-senso.

Alguma coisa na faculdade tem que ser divertida, afinal de contas.

Articulações

Cotovelo
Um cotovelo.

Das coisas que começo (e não termino nunca) - I

Simone tinha olhos castanhos, de um castanho claro amarelado, uma cor que lembrava âmbar e parecia refletir a luz de forma ímpar, diferente de qualquer outra coisa que você já tivesse visto. Sentava-se meio de lado, cruzava as pernas e jogava por sobre os ombros, para seus interlocutores, aquele olhar capaz de corar até mesmo o mais desavergonhado cafajeste. Não fazia toda essa pose ritahayworthiana por querer, era algo involuntário. Tinha um charme que entornava em cada gesto. Não conseguiria contê-lo nem se quisesse.

Simone me fazia entender como era possível um homem se apaixonar por uma mulher de burka.

(Pra onde caralhos vai um texto que começa assim? Se não virar um romance - no sentido amoroso da coisa, não editorial -, torna-se uma tragédia. No meu caso, sempre tende para o segundo tipo de história.)

Ainda sobre as olimpiadas

Ainda falando desses eventos cheios de esportes que ninguém sabe de onde vêm, pra onde vão e por que existem, ano passado, durante os jogos Panamericanos, respondi, nos comentários de um blog que não vem ao caso, a uma pergunta interessante: como alguém descobre ter talento para salto com vara?

Ciente de que boa parte das pessoas não sabe como tal vocação é descoberta, deixo aqui a indicação, para aqueles que quiserem se aventurar a fazer o teste. A esses, desejo muito boa sorte.

O teste de talento para salto com vara é aplicado junto com o teste de talento para badminton, o teste de talento para esgrima e o teste de talento para ingrediente da bonguy.

Você solta uma criança, munida de um cabo de vassoura, em um quadrado com cerca de 2 metros de altura, na companhia de um rottweiler raivoso.

Se a criança utilizar o cabo de vassoura para pular a cerca, vai treinar salto com vara. Se esperar o ataque do cachorro e, brandindo o pedaço de pau, jogá-lo para o outro extremo do quadrado, nasceu para o badminton. Se estocar o cachorro e conseguir afastá-lo, é um esgrimista nato.

Se for dilacerado pelo bicho, nasceu mesmo pra ser parte integrante de ração canina. Os restos são recolhidos e enviados para uma fábrica nas proximidades, onde serão devidamente processados.

Mais alguma dúvida?

O inquisitivo Doda também demonstrou uma dúvida, em seu blog, relativa às aplicações práticas e às regras da luta greco-romana. Explico, pois, como se dá tal modalidade do esporte: como vocês puderam notar - aqueles que perderam tempo assistindo a esse evento específico, logicamente -, os rounds na luta greco-romana começam de forma… hm… peculiar: um dos homens de colante prostra-se em decúbito ventral, ou assume uma postura acocorada, enquanto o outro, igualmente de colante, acochambra o primeiro carinhosamente. Quando o juiz apita, ambos começam a se debater. Vence, ao fim, o que for enrabado o menor número de vezes. Como tira-teima, a Organização Mundial de Luta Grego-Romana sugere que seja feito o teste da farinha.

A exemplo do que ocorre no jiu-jitsu, essa “luta” nada mais é do que o ritual de acasalamento dos homens sem-camisa. Os dois lutadores, atracados em posição de cópula, procuram decidir quem fará o papel de fêmea. A luta greco-romana, entretanto, leva certa vantagem, visto que os contendores alternam as posições, executando o tal troca-troca, tão rotineiro nas relações homossexuais.

Mas não falo por experiência.

Depois das cracas…

Fez-se necessário dar cabo dos que esburacavam meu prazer e minha motivação pra escrever. Não consegui acabar com todos, ainda, é lógico, mas boa parte já é história. O resto vai sendo removido do casco do navio à medida que for se mostrando necessário. Ou então retornamos esta embarcação pro cais novamente, caso outros naufrágios mostrem-se prováveis.

Agradeço aos que eu gosto e que, direta ou indiretamente, apontaram a minha estupidez ao fechar este blog. Sejam tolerantes: essas crises vêm e vão, mas de forma muito mais esparsa do que faziam antigamente. Façam a gentileza de vestir seus coletes salva-vidas, sim? Esse botezinho restaqüera torna a lançar-se.

Que venham as ventanias e as vagas. São elas que nos impelem, afinal de contas.

Ah, a lista de links foi sensivelmente reduzida. Os portos onde eu eventualmente atracava tornaram-se mais limitados, porque as pessoas, aparentemente, estão se tornando muito limitadas. Ou talvez o problema seja eu, mas quem é que sabe? O fato é que minhas recomendações mudaram, assim como muitas das minhas amizades, no decorrer desses 4 meses de ausência.

Minha vida, entretanto, não sofreu qualquer mudança significativa. Ao menos não por causa disso. Logo, essas pessoas se mostraram tão inúteis e dispensáveis quanto eu imaginava que elas fossem. Celebremos isso: a descartabilidade dos outros seres humanos nessa era de estímulos tão facilmente substituíveis!