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Das Cruzadas

[Originalmente publicado em abril de 2003]

– Pedro, me dá uma ajuda?
– Claro. No quê?
– Ignorante. Com seis letras.
– Hein?
– Nas palavras cruzadas, pô. Ignorante, com seis letras.
– Pode ser néscio, beócio, obtuso ou bronco.
– Começa com b.
– Deixa eu ver.
– …
– É beócio.
– Como você sabe?
– Porque o paraíso da bíblia é o Éden, e bronco não tem e.
– Ah. É verdade.
– …
– Como é mesmo a palavra?
– Beócio.
– Como se escreve isso?
– Ai, meu ovo.
– Com s ou com c?
– Com c, néscio.

***
– Pedro…
– O que foi dessa vez?
– Me ajuda aqui.
– Escuta, quer que eu faça as palavras cruzadas pra você?
– Ah, deixa de sacanagem. Só mais essa vez.
– Fala.
– Auto-biografia famosa, com 9 letras.
– Eu me odeio, por Pedro Nunes.
– Bah. Babaca.
– …
– Mas ia vender um bocado.
– Só pelo título.
– Você tem tino comercial.
– Obrigado. Mamãe diz a mesma coisa desde o dia em que troquei suas córneas no mercado negro por uma moto Honda, uma torradeira elétrica e um cão para cegos.
– Você vai citar meu nome no livro?
– Provavelmente.
– Quero 20% dos lucros pelo Best-Seller.
– Vou declarar que você não consegue fazer palavras cruzadas nível Moleza sem pedir ajuda.
– Então quero 40%.

Vizinhança barulhenta

Então eu moro ao lado desse mercado (cujo nome não vou dizer pra não fazer merchandising de graça, porque sou um blogueiro com grande influência na meritocracia informal da internet, capaz de levar uma empresa de fundo de quintal a um lucro astronômico ou conduzir a Coca-Cola e o Mcdonalds à bancarrota. Megalomania, a gente vê por aqui.). Ao lado MESMO, não é liberdade poética, igual à utilizada pelo pessoal do Formule 1 da São João, alegando que o hotel fica “ao lado do metrô república”. Vai caminhar da estação até o hotel (ao lado, logo ali) carregando uma mala de 12 quilos, simpatia.

Ao lado fica o meu ovo esquerdo do ovo direito, isso, sim.

Mas então. Ao lado, como dizia, também fica o mercado. Desço do prédio, atravesso a pista, tô lá. Como se não bastasse, o troço funciona 24 horas. O que significa que se, às 4h18m da manhã, eu sentir vontade de comer um pacote de passatempo recheado tomando toddynho, cato aqui quaisquer cinco realidades, visto uma roupa - porque sou adepto do nudismo domiciliar, embora não possa praticá-lo tão livremente quanto gostaria -, vou lá e adquiro minha dose diária de alimentos de alta caloria e pouco valor nutricional.

Isso engorda e certamente fode minha saúde de alguma forma, mas quem precisa ser magro e viver pra sempre nos dias de hoje? Dois mil e doze tá aí e, apesar de no creer en brujas, vamos pela lógica de que si, las hay. Se não houver, dou um jeito depois. Ou morro, o que certamente vai acontecer um dia. Antes morrer cedo a me privar dessas pequenas satisfações. Imagine se um mundo cão desses merece de você, amigo, o sacrifício de largar seu passatempozinho com achocolatado, alimento padrão das madrugadas? Não merece, convenhamos.

Mas nem só de biscoito recheado e toddynho vive o homem. Ainda existem os miojos, os iogurtes, os isoporitos, as pizzas congeladas, os chocolates (e se você nunca comeu um lindt sozinho, de madrugada, assistindo corujão, repense essa vida cretina que vem levando), etc, etc, etc. De vez em quando passo até pela seção de hortifruti e, raridade das raridades, compro umas frutas. Existe vida fora dos industrializados, afinal.

É claro que nem tudo são flores e é claro que eu iria começar a reclamar em algum momento (e este momento é agora). Morar ao lado desse mercado tem seus reveses, como parece evidente. O maior deles, e que considerei bastante inusitado quando me dei conta de sua existência, é que na parte de trás do prédio onde o mercado se localiza há um galpão, ou coisa parecida, onde acontece o abastecimento da loja. Até aí tudo ok. O problema é que aos sábados sempre vem uma gritaria desse lugar que não tem explicação lógica. Aparentemente a empresa promove alguma atividade em grupo ali, e não sei ainda se é um torneio de queimada, vôlei, dominó, purrinha, truco ou um clube da luta.

Já pensei em perguntar aos funcionários, numa dessas madrugadas. Sutilmente, claro. Algo na linha de “Ei, que porra é aquela gritaria do caralho que ouço do meu apartamento todo sábado à tarde e, às vezes, até durante a semana, à noite, vinda do galpão de vocês?”. Mas se for um clube da luta acho que não vão me contar o que acontece, porque você não fala sobre o clube da luta e tal, a menos que queira o Tyler Durden nos seus calcanhares (e você não quer o Tyler Durden nos seus calcanhares, vai por mim).

Numa dessas madrugadas, por volta de uma da manhã, estive lá pra comprar pão, presunto e queijo, porque me bateu uma necessidade gestântica de comer um bom sanduíche. Peguei os protéicos na parte de frios e fui atrás do carboidrático na padaria. Chegando lá, pães de todos os tamanhos e tipos e marcas. Pão integral, pão com centeio, integral light, aveia light, sete grãos, multigrãos, pão de leite, pão de milho, pão de manteiga… pão com o caralho a quatro. Estavam todos lá, era praticamente a PãoCon 2010. Mas não havia pão de forma, daquele normal. Abordei o repositor da seção.

- Ô amigo, com licença. Tô procurando um negócio, mas não tô encontrando.
- Pois não, senhor?
- Não tem mais pão pra homem aqui?
- Pra homem?
- É. Pão de forma sem viadagem. Pra homem.
- O senhor quer dizer pão de forma puro?
- Isso. Pão pra homem, pô.

Ele observou as prateleiras por alguns instantes - coisa que eu já tinha feito e poderia fazer novamente, sem ajuda - e concluiu que não havia pão pra homem ali.

- Mas será que nem lá no seu estoque tem?
- Não, senhor. Os pães vêm direto pra cá.
- Mas que droga. Meu namorado só gosta desse.

Tive que voltar pra casa sem meu pão pra homem.

(E troquei o presunto e o queijo por um pacote de doritos)

Ah, e o mercado é um Pão de Açúcar. Já posso mencionar o nome, pois Tio Abílio acaba de me ligar informando que fez um depósito na minha conta pela menção. Chupa, Cardoso.

Das semelhanças (e diferenças) genéticas

Minha sobrinha de 5 anos, tentando escovar os dentes, não foi capaz de colocar pasta na escova, porque aqui na casa da minha mãe as pessoas apertam o tubo pelo meio, e não pelo final, como seria lógico. Remediei o estrago como possível e, enquanto isso, fui explicando pra pequenininha as vantagens de se apertar o tubo de pasta do final pro começo, enquanto classificava a doutrina dos apertadores de meio de tubo com termos como “idiotice”, “burrice” e etc.

Ao fim da explicação, minha mãe me chamou.

- Meu filho, apertar o tubo pelo meio não é exatamente burrice.
- Claro que é. É óbvio que pressionar pelo final é muito mais prático a médio/longo prazo. Quem aperta no meio claramente é imediatista e não tem um pingo de visão.
- Mas não é necessariamente burrice. Burrice é uma deficiência. Às vezes a pessoa é inteligente, mas nunca pensou nisso por preguiça mental.
- O que é igual a burrice.
- Não é!
- Claro que é, mãe! Pensa comigo: eu te dou um pedaço de madeira com um parafuso bem preso nele, uma chave de fenda e um alicate. Daí digo “Tire este parafuso pra mim”. Você pega o alicate e começa a puxar o parafuso, ignorando a chave de fenda. O que é isso?
- Burrice.
- Exato. Então chegamos à conclusão de que burrice equivale a ter uma ferramenta e não utilizar. Certo?
- Certo.
- Então se você tem um cérebro inteligente E não usa, isso é…?
- …
- …
- Teu cu.

Mamãe é tão fina.

Dos aborrecimentos ininterruptos

- Tô de saco cheio, não agüento mais isso!
- Isso o quê?
- Isso tudo.
- Você podia tentar ser mais específico.
- Eu especifiquei. “Isso tudo” quer dizer “tudo isso”. Tudo! Você está familiarizado com o conceito de “tudo”?
- Então por “tudo” você se refere, parafraseando Douglas Adams, à vida, ao universo e a tudo mais?
- Com ênfase no “tudo mais”.
- O que é que há?
- O que há é que eu tô de saco cheio.
- Sim, isso você já disse. Mas isso é um resultado. Eu estou perguntando pela causa que te conduziu a tal resultado.
- Se eu disse que tô de saco cheio de tudo, pode-se imediatamente inferir que TUDO me conduziu a isso. Logo, tudo é a causa.
- Escuta, eu tô tentando sondar o que aconteceu pra você chegar nesse estado de supremo emputecimento, de modo a te ajudar a buscar uma solução, mas você precisa parar de rodeios e ser mais específico. Diga de uma vez por todas o que foi que houve, cacete!
- Não é algo em particular, algo pontual. Um acontecimento apenas não leva alguém a esse estágio de desânimo e cansaço no qual me encontro agora. É tudo! É a vida transcorrendo numa seqüência ininterrupta de erros e problemas que vêm minando minha paciência e me levaram à conclusão que iniciou esse nosso diálogo.
- Não pode ser possível que tudo esteja dando errado.
- Ah, pode, sim.
- Muito mais coisas podem dar errado, você é que não está considerando todas as possibilidades.
- Ok, muitas coisas que AINDA não deram errado podem dar errado, isso é fato. E muitas das que deram errado poderiam ter dado errado de forma ainda mais severa, causando mais danos do que os que foram causados. Mas o fato das coisas terem como piorar não significa que estejam boas.
- Isso lá é verdade.
- Que bom que você concorda, seria uma merda ter que ouvir o argumento da conformação segundo a merda alheia.
- O quê?
- O argumento de conformação segundo a merda alheia é aquela idéia, da qual muitas pessoas fazem uso, de que, por pior que você esteja, ainda existe quem esteja pior do que você. Logo, você deveria se alegrar.
- Ah, compreendo.
- O que eu, diga-se de passagem, considero muito pouco cristão. Uma verdadeiro cristão deveria se sentir ainda mais miserável por saber que existem semelhantes em situação pior do que a dele. Eu não sou cristão, mas saber que tem gente por aí mais fodida do que eu não faz com que eu me sinta melhor.
- Eu ainda acho que você exagera. Talvez seu problema seja apenas o foco…
- Já me disseram isso. Que é um problema de foco. Que eu sou pessimista e, portanto, só dou atenção ao que dá errado, armazenando tais informações para depois utilizá-las como base para meus argumentos pessimistas.
- Era mais ou menos o que eu ia dizer.
- Pois saiba que não é verdade. Fiz um experimento a respeito: diante de cada situação com chance de dar certo ou errado, eu sacava do bolso um bloquinho e, com uma caneta preta, anotava a situação, qualquer que fosse. No fim do dia marcava com um X azul as que deram certo e com um X vermelho as que deram errado.
- E aí?
- E aí que foi a primeira vez que vi a tinta de uma caneta bic vermelha acabar.
- Então você está de saco cheio.
- Totalmente. O problema é que a única solução viável pra me livrar desse inferno que é a minha vida é a morte, mas não tenho coragem de me matar.
- Eu também não teria, me parece tão antinatural…
- Não é por isso que não tenho coragem. Se tudo dá errado o tempo todo, tentar algo assim é dar muita chance pro azar. Corro o risco de terminar pior do que antes!
- Sei. É o paradoxo do suicídio.
- Esse eu não conheço.
- O suicídio é a única situação de vida ou morte na qual, quando TUDO dá errado, você sai ileso.
- Interessante, nunca tinha pensado nisso.
- Viu? Você aprendeu algo novo. Isso é bom. Nem tudo dá errado o tempo todo.
- Tanto dá que essa pequena informação que você me passou agora só torna mais difícil pra mim tomar a única decisão que poderia acabar com essa encheção de saco de uma vez por todas. Parabéns!

Das discussões com meu velho

- Babaquice, isso tudo.
- O quê, filhote?
- Essa porra toda de reforma ortográfica, essa cisma psicótica da imprensa e dos que se propõem a ser imprensa com essa merda, sendo que só vai ser regulamentada mesmo, do tipo “obedeça ou morra”, a partir de 2012! Até lá as idéias ainda podem ter acentos e você usa hífen quando achar melhor, caralho.
- E você pode continuar usando depois, também.
- É, eu sei. Obedeça ou morra foi força de expressão, mas o foda é que já tem neguinho por aí corrigindo quem não se adequou a essa palhaçada. Não suporto gente me corrigindo quando eu sei que não cometi nenhuma atrocidade lingüistica. Ainda que eu cometa, aliás, foda-se, idioma nenhum foi feito pra ser respeitado, por isso neologismos são tão legais.
- Mas ninguém vai te corrigir, meu filho.
- Já corrigiram, vira e mexe corrigem, e lá vou eu ter que mandar os outros pra puta que pariu, porque, oras, eu sou um bárbaro iletrado porque ainda quero diferenciar pára de para. Sabe, tomarnocu esse povo, isso me irrita.
- Você não precisa se irritar.
- Eu sei, mas me irrito do mesmo jeito.
- Porque você é um idiota.
- Obrigado, pai. Você faz eu me sentir melhor.
- Eu diria que é um imbecil, mas seria injusto. Imbecil você não é!
- Claro, porque são coisas muitíssimos diferentes, um imbecil e um idiota. Ô!
- São, sim!
- E qual é a grande diferença, ó, arauto da sabedoria?
- Um imbecil é imbecil porque é. É natural, intrínseco. Ele não tem como ser de outra maneira. Um idiota é idiota por opção. Ele tem todas as ferramentas pra não ser um idiota, mas não as usa e permanece na idiotia.
- Entendi. O imbecil não tem como fugir da sua situação.
- Exato.
- É da natureza dele, pura e simplesmente.
- Isso.
- Vem escrito ali pelo décimo terceiro cromossomo: IMBECIL. E tudo em maiúsculas, porque é um gene dominante. É um aspecto genético.
- Genético, isso mesmo.
- Então eu acho que sou um imbecil.
- Se fosse, não seria capaz de pensar num chiste dessa categoria.

Dos princípios quânticos aplicados

- Oi.
- Oi.
- Poxa, tava lembrando agora daquela nossa conversa de ontem.
- Lembrando do quê?
- Da conversa. Foi ótima.
- Ué, foi igual às que tivemos nos outros dias.
- É, foi, mas foi… sei lá, foi diferente.
- Não pode ter sido igual e diferente.
- Ah, ontem foi tão legal!
- Então nos outros dias foi um saco?
- Não, é que ontem… ontem foi diferente, pô.
- Desenvolva.
- Eu não sei explicar.
- Você sabe. Não quer. Mas sabe. Eu desenvolvo, então.
- Então desenvolve.
- Você achou que ontem foi tão legal porque está irresistivelmente atraída por mim.
- …
- Não é?
- Quem disse isso?
- Eu disse, agorinha mesmo. Acabei de dizer.
- E de onde você tirou essa idéia?
- Não era uma idéia.
- Não?
- Não.
- O que era?
- Uma sugestão.
- Não tô entendendo.
- É o princípio da incerteza.
- Entendi menos ainda.
- Você conhece o princípio da incerteza?
- Hm… não.
- É uma teoria da física quântica que diz - e essa é uma explicação a grosso modo - que, ao determinar a posição de um elétron, por exemplo, o instrumento de medida usado para definir essa posição irá alterar a posição ou velocidade do elétron.
- Você… você tem idéia do quanto isso não faz sentido aqui?
- Faz, sim. É que você não tá pensando de forma análoga.
- Eu ainda nem entendi o que você quer dizer!
- O que eu quero dizer é que quanto mais precisa for a medida de um fato, maior a chance de você obter não um resultado exato e atual, mas um resultado exato de como as coisas eram ANTES da sua intervenção para descobrir como as coisas eram. A partir do momento em que você intervém, você sabe como elas eram, mas não como elas são. E você precisa se lembrar que somos constituídos de partículas subatômicas, o que significa que, em algum grau, o princípio da incerteza também se aplica a nós.
- E onde entra sua sugestão, nisso tudo?
- Bom, isso já foi algum trabalho de dedução da minha parte. Você nunca disse que NÃO queria ficar comigo ou que NÃO estava atraída, e eu presumi, ao te ver me tratando dessa forma tão desembaraçada, que: 1) você nunca parou pra considerar a idéia de me ver interpretando o que você sente por mim como atração e reagindo positivamente a respeito, ou 2) você já considerou e era exatamente sua intenção. Como não te acho uma criatura dissimulada, do contrário nem perderia meu tempo falando com você, vou descartar a segunda hipótese. Tá acompanhando?
- Tô. E isso até que faz sentido.
- Então, se você nunca parou pra pensar em como reagiria caso eu achasse que você está dando em cima de mim, você ainda não tinha estabelecido, dentro da sua cabeça, que a idéia de ficar comigo é repulsiva. Do contrário, agiria de maneira mais contida, de forma a não nos conduzir a uma situação desagradável. A menos, claro, que você seja totalmente inconseqüente, o que significa ser bastante estúpida, coisa que eu sei que você não é. Matamos aí essa possibilidade, portanto.
- Sei.
- Ou seja: você pode nunca ter pensado “É, eu quero ficar com ele”, mas também nunca pensou “Eu NÃO QUERO ficar com ele”. É aí que entra o princípio da incerteza.
- Como assim?
- Ao sugerir que você estava atraída por mim, tudo o que eu fiz foi sondar com absoluta precisão a sua posição em relação a esse assunto. Tinha uma idéia de onde você estava, mas nada cientificamente comprovado. Agora confirmei. Entretanto, graças a isso você está fatalmente se movendo pra outra posição, porque meu instrumento de análise interferiu significativamente com a situação.
- Nossa, agora até que faz sentido todo esse monte de absurdos científicos que você disse.
- E, como você ainda não disse que NÃO, se não estava atraída por mim ANTES, está ficando AGORA.
- Você é descomunalmente nerd!
- E você não resiste a isso.