Archive for the 'dialogos' Category

Das semelhanças (e diferenças) genéticas

Minha sobrinha de 5 anos, tentando escovar os dentes, não foi capaz de colocar pasta na escova, porque aqui na casa da minha mãe as pessoas apertam o tubo pelo meio, e não pelo final, como seria lógico. Remediei o estrago como possível e, enquanto isso, fui explicando pra pequenininha as vantagens de se apertar o tubo de pasta do final pro começo, enquanto classificava a doutrina dos apertadores de meio de tubo com termos como “idiotice”, “burrice” e etc.

Ao fim da explicação, minha mãe me chamou.

- Meu filho, apertar o tubo pelo meio não é exatamente burrice.
- Claro que é. É óbvio que pressionar pelo final é muito mais prático a médio/longo prazo. Quem aperta no meio claramente é imediatista e não tem um pingo de visão.
- Mas não é necessariamente burrice. Burrice é uma deficiência. Às vezes a pessoa é inteligente, mas nunca pensou nisso por preguiça mental.
- O que é igual a burrice.
- Não é!
- Claro que é, mãe! Pensa comigo: eu te dou um pedaço de madeira com um parafuso bem preso nele, uma chave de fenda e um alicate. Daí digo “Tire este parafuso pra mim”. Você pega o alicate e começa a puxar o parafuso, ignorando a chave de fenda. O que é isso?
- Burrice.
- Exato. Então chegamos à conclusão de que burrice equivale a ter uma ferramenta e não utilizar. Certo?
- Certo.
- Então se você tem um cérebro inteligente E não usa, isso é…?
- …
- …
- Teu cu.

Mamãe é tão fina.

Dos aborrecimentos ininterruptos

- Tô de saco cheio, não agüento mais isso!
- Isso o quê?
- Isso tudo.
- Você podia tentar ser mais específico.
- Eu especifiquei. “Isso tudo” quer dizer “tudo isso”. Tudo! Você está familiarizado com o conceito de “tudo”?
- Então por “tudo” você se refere, parafraseando Douglas Adams, à vida, ao universo e a tudo mais?
- Com ênfase no “tudo mais”.
- O que é que há?
- O que há é que eu tô de saco cheio.
- Sim, isso você já disse. Mas isso é um resultado. Eu estou perguntando pela causa que te conduziu a tal resultado.
- Se eu disse que tô de saco cheio de tudo, pode-se imediatamente inferir que TUDO me conduziu a isso. Logo, tudo é a causa.
- Escuta, eu tô tentando sondar o que aconteceu pra você chegar nesse estado de supremo emputecimento, de modo a te ajudar a buscar uma solução, mas você precisa parar de rodeios e ser mais específico. Diga de uma vez por todas o que foi que houve, cacete!
- Não é algo em particular, algo pontual. Um acontecimento apenas não leva alguém a esse estágio de desânimo e cansaço no qual me encontro agora. É tudo! É a vida transcorrendo numa seqüência ininterrupta de erros e problemas que vêm minando minha paciência e me levaram à conclusão que iniciou esse nosso diálogo.
- Não pode ser possível que tudo esteja dando errado.
- Ah, pode, sim.
- Muito mais coisas podem dar errado, você é que não está considerando todas as possibilidades.
- Ok, muitas coisas que AINDA não deram errado podem dar errado, isso é fato. E muitas das que deram errado poderiam ter dado errado de forma ainda mais severa, causando mais danos do que os que foram causados. Mas o fato das coisas terem como piorar não significa que estejam boas.
- Isso lá é verdade.
- Que bom que você concorda, seria uma merda ter que ouvir o argumento da conformação segundo a merda alheia.
- O quê?
- O argumento de conformação segundo a merda alheia é aquela idéia, da qual muitas pessoas fazem uso, de que, por pior que você esteja, ainda existe quem esteja pior do que você. Logo, você deveria se alegrar.
- Ah, compreendo.
- O que eu, diga-se de passagem, considero muito pouco cristão. Uma verdadeiro cristão deveria se sentir ainda mais miserável por saber que existem semelhantes em situação pior do que a dele. Eu não sou cristão, mas saber que tem gente por aí mais fodida do que eu não faz com que eu me sinta melhor.
- Eu ainda acho que você exagera. Talvez seu problema seja apenas o foco…
- Já me disseram isso. Que é um problema de foco. Que eu sou pessimista e, portanto, só dou atenção ao que dá errado, armazenando tais informações para depois utilizá-las como base para meus argumentos pessimistas.
- Era mais ou menos o que eu ia dizer.
- Pois saiba que não é verdade. Fiz um experimento a respeito: diante de cada situação com chance de dar certo ou errado, eu sacava do bolso um bloquinho e, com uma caneta preta, anotava a situação, qualquer que fosse. No fim do dia marcava com um X azul as que deram certo e com um X vermelho as que deram errado.
- E aí?
- E aí que foi a primeira vez que vi a tinta de uma caneta bic vermelha acabar.
- Então você está de saco cheio.
- Totalmente. O problema é que a única solução viável pra me livrar desse inferno que é a minha vida é a morte, mas não tenho coragem de me matar.
- Eu também não teria, me parece tão antinatural…
- Não é por isso que não tenho coragem. Se tudo dá errado o tempo todo, tentar algo assim é dar muita chance pro azar. Corro o risco de terminar pior do que antes!
- Sei. É o paradoxo do suicídio.
- Esse eu não conheço.
- O suicídio é a única situação de vida ou morte na qual, quando TUDO dá errado, você sai ileso.
- Interessante, nunca tinha pensado nisso.
- Viu? Você aprendeu algo novo. Isso é bom. Nem tudo dá errado o tempo todo.
- Tanto dá que essa pequena informação que você me passou agora só torna mais difícil pra mim tomar a única decisão que poderia acabar com essa encheção de saco de uma vez por todas. Parabéns!

Das discussões com meu velho

- Babaquice, isso tudo.
- O quê, filhote?
- Essa porra toda de reforma ortográfica, essa cisma psicótica da imprensa e dos que se propõem a ser imprensa com essa merda, sendo que só vai ser regulamentada mesmo, do tipo “obedeça ou morra”, a partir de 2012! Até lá as idéias ainda podem ter acentos e você usa hífen quando achar melhor, caralho.
- E você pode continuar usando depois, também.
- É, eu sei. Obedeça ou morra foi força de expressão, mas o foda é que já tem neguinho por aí corrigindo quem não se adequou a essa palhaçada. Não suporto gente me corrigindo quando eu sei que não cometi nenhuma atrocidade lingüistica. Ainda que eu cometa, aliás, foda-se, idioma nenhum foi feito pra ser respeitado, por isso neologismos são tão legais.
- Mas ninguém vai te corrigir, meu filho.
- Já corrigiram, vira e mexe corrigem, e lá vou eu ter que mandar os outros pra puta que pariu, porque, oras, eu sou um bárbaro iletrado porque ainda quero diferenciar pára de para. Sabe, tomarnocu esse povo, isso me irrita.
- Você não precisa se irritar.
- Eu sei, mas me irrito do mesmo jeito.
- Porque você é um idiota.
- Obrigado, pai. Você faz eu me sentir melhor.
- Eu diria que é um imbecil, mas seria injusto. Imbecil você não é!
- Claro, porque são coisas muitíssimos diferentes, um imbecil e um idiota. Ô!
- São, sim!
- E qual é a grande diferença, ó, arauto da sabedoria?
- Um imbecil é imbecil porque é. É natural, intrínseco. Ele não tem como ser de outra maneira. Um idiota é idiota por opção. Ele tem todas as ferramentas pra não ser um idiota, mas não as usa e permanece na idiotia.
- Entendi. O imbecil não tem como fugir da sua situação.
- Exato.
- É da natureza dele, pura e simplesmente.
- Isso.
- Vem escrito ali pelo décimo terceiro cromossomo: IMBECIL. E tudo em maiúsculas, porque é um gene dominante. É um aspecto genético.
- Genético, isso mesmo.
- Então eu acho que sou um imbecil.
- Se fosse, não seria capaz de pensar num chiste dessa categoria.

Dos princípios quânticos aplicados

- Oi.
- Oi.
- Poxa, tava lembrando agora daquela nossa conversa de ontem.
- Lembrando do quê?
- Da conversa. Foi ótima.
- Ué, foi igual às que tivemos nos outros dias.
- É, foi, mas foi… sei lá, foi diferente.
- Não pode ter sido igual e diferente.
- Ah, ontem foi tão legal!
- Então nos outros dias foi um saco?
- Não, é que ontem… ontem foi diferente, pô.
- Desenvolva.
- Eu não sei explicar.
- Você sabe. Não quer. Mas sabe. Eu desenvolvo, então.
- Então desenvolve.
- Você achou que ontem foi tão legal porque está irresistivelmente atraída por mim.
- …
- Não é?
- Quem disse isso?
- Eu disse, agorinha mesmo. Acabei de dizer.
- E de onde você tirou essa idéia?
- Não era uma idéia.
- Não?
- Não.
- O que era?
- Uma sugestão.
- Não tô entendendo.
- É o princípio da incerteza.
- Entendi menos ainda.
- Você conhece o princípio da incerteza?
- Hm… não.
- É uma teoria da física quântica que diz - e essa é uma explicação a grosso modo - que, ao determinar a posição de um elétron, por exemplo, o instrumento de medida usado para definir essa posição irá alterar a posição ou velocidade do elétron.
- Você… você tem idéia do quanto isso não faz sentido aqui?
- Faz, sim. É que você não tá pensando de forma análoga.
- Eu ainda nem entendi o que você quer dizer!
- O que eu quero dizer é que quanto mais precisa for a medida de um fato, maior a chance de você obter não um resultado exato e atual, mas um resultado exato de como as coisas eram ANTES da sua intervenção para descobrir como as coisas eram. A partir do momento em que você intervém, você sabe como elas eram, mas não como elas são. E você precisa se lembrar que somos constituídos de partículas subatômicas, o que significa que, em algum grau, o princípio da incerteza também se aplica a nós.
- E onde entra sua sugestão, nisso tudo?
- Bom, isso já foi algum trabalho de dedução da minha parte. Você nunca disse que NÃO queria ficar comigo ou que NÃO estava atraída, e eu presumi, ao te ver me tratando dessa forma tão desembaraçada, que: 1) você nunca parou pra considerar a idéia de me ver interpretando o que você sente por mim como atração e reagindo positivamente a respeito, ou 2) você já considerou e era exatamente sua intenção. Como não te acho uma criatura dissimulada, do contrário nem perderia meu tempo falando com você, vou descartar a segunda hipótese. Tá acompanhando?
- Tô. E isso até que faz sentido.
- Então, se você nunca parou pra pensar em como reagiria caso eu achasse que você está dando em cima de mim, você ainda não tinha estabelecido, dentro da sua cabeça, que a idéia de ficar comigo é repulsiva. Do contrário, agiria de maneira mais contida, de forma a não nos conduzir a uma situação desagradável. A menos, claro, que você seja totalmente inconseqüente, o que significa ser bastante estúpida, coisa que eu sei que você não é. Matamos aí essa possibilidade, portanto.
- Sei.
- Ou seja: você pode nunca ter pensado “É, eu quero ficar com ele”, mas também nunca pensou “Eu NÃO QUERO ficar com ele”. É aí que entra o princípio da incerteza.
- Como assim?
- Ao sugerir que você estava atraída por mim, tudo o que eu fiz foi sondar com absoluta precisão a sua posição em relação a esse assunto. Tinha uma idéia de onde você estava, mas nada cientificamente comprovado. Agora confirmei. Entretanto, graças a isso você está fatalmente se movendo pra outra posição, porque meu instrumento de análise interferiu significativamente com a situação.
- Nossa, agora até que faz sentido todo esse monte de absurdos científicos que você disse.
- E, como você ainda não disse que NÃO, se não estava atraída por mim ANTES, está ficando AGORA.
- Você é descomunalmente nerd!
- E você não resiste a isso.

Pequenas igrejas…

- Nossa, você não bebe?
- Não.
- Por quê?
- Sou abstêmio.
- É o quê?
- Abstêmio.
- O que é isso?
- É a minha religião.
- Nunca ouvi falar.
- Porque você é beócio.
- O que é isso?
- É como os da minha religião chamam os não-iniciados.

Esforço recompensado

- Uma bicicleta!
- …
- É sua?
- …
- …?
- É.
- Você comprou?
- NÃO! ROUBEI DE UM MOLEQUE ALI NA ESQUINA AGORINHA MESMO! (eu penso, mas não digo. Respondo com um simples “Foi”.)
- Pra pedalar?
- Não, não. Pra lamber o quadro dela, morder o selim, acariciar os pedais, chupar a catraca. Bicicleta é um troço que me deixa num tesão de touro maluco, só de pensar numa magrela e meu pau levanta que não quer mais abaixar. Um negócio furioso.

Tolerância a pergunta idiota tem limite, afinal.




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