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Amigo é pra essas coisas!

- Você parece bem.
- Obrigado. Eu estou.
- Sem aquele copo de bebida na mão, olha só… outra pessoa.
- Aquilo não me ajudava em nada.
- Não mesmo. A bebida, em certos casos, só atrapalha.
- Pois é.
- Fecha os olhos pro que a gente não quer ver.
- Exato.
- Nubla os pensamentos, nos faz esquecer os problemas por algumas horas.
- É por aí mesmo.
- E aí você não conseguia mais enxergar o que aquela miserável fez com você.
- E ela fez estrago!
- Põe estrago nisso, você ficou na merda.
- Até o pescoço!
- Até o queixo, e só não foi até a boca porque conseguiu levantar o nariz no último segundo!
- Não foi pra tanto!
- Ah, foi, sim. Você parecia um trapo.
- …
- Um farrapo humano.
- ……
- Um verme, um nada, um…
- Já entendi!
- Mas você está melhor agora!
- Ah, sim, bem melhor!
- Conseguiu um novo emprego!
- Uma maravilha, rapaz, meio período, ambiente desafiador…
- Lógico que não é nada como aquela gerência que você tinha naquela outra empresa…
- Mas depois de tanto tempo parado, também…
- Sim, tem isso. E, além do mais, contratar alguém com sabidos problemas de alcoolismo…
- Eu não sou alcóolatra, foi um momento de fraqueza!
- Eu sei, eu sei, mas eu sou teu amigo, afinal, te conheço há anos! Eles não sabem. Pra eles, você era só um bebum!
- Bom, de certa forma, sim, mas meu currículo…
- Ah, nem é lá isso tudo, vamos combinar.
- Não?
- Mas não ligue pra isso, rapaz. Voltou a receber seu salário, está quitando as dívidas, refazendo sua vida…
- Tô pensando até em remobiliar o meu apartamento!
- O que eu duvido é que alguma loja vá te abrir um crediário. Seu nome tá nos serviços de proteção ao crédito, né?
- É…
- É uma merda pra tirar, essas coisas não vencem mais dentro de cinco anos…
- Não?
- Não. Pra eles, você será eternamente inadimplente!
- Mas que merda!
- Tudo isso porque aquela vagabunda levou tudo o que você tinha!
- TUDO!
- Não te deixou nada!
- NADA!
- E você, que fazia tudo por ela!
- TUDO! Garçom, me traz um uísque!
- Tirou-a da miséria, deu do bom e do melhor…
- Apenas do melhor!
- E ela te largou por aquele moleque, todo saradão, marombado. Um zé-ninguém!
- Mulher não sabe de nada, mesmo.
- Tudo bem que ele tem aquela BMW e é concursado da câmara, mas isso não o torna melhor do que você!
- De jeito nenhum!
- Só porque, com metade da idade, tem o dobro do dinheiro e o triplo do patrimônio? Oras!
- É a vida…
- Sim, e é uma merda.
- Garçom, mais um! Duplo e sem gelo!
- Calma aí, rapaz. Teu trabalho amanhã…
- Ah, empreguinho…
- Não é tão ruim, vamos lá. Tá certo que você é praticamente um estafeta…
- Mas é melhor do que nada!
- …o dia inteiro levando e trazendo documentos praquele bando de moleques engomadinhos…
- Paga as contas!
- É, em duzentas parcelas com juros abusivos.
- Garçom! Caipiroska, por favor! Pouco açúcar, menos limão, muita vodka!
- E teu carro não tá valendo muita coisa.
- Tá andando, é o que importa.
- Sim, mas como patrimônio.. a pintura descascando, os pneus meio carecas…
- O motor tá bem.
- Por enquanto. Tem quantos anos. Seis? Sete? É quando começa a dar problema!
- Será?
- Vai dizer que de vez em quando ele não ensaia umas engasgadas? Naquelas manhãs mais frias?
- Hm… até que sim, ultimamente preciso girar a chave quatro ou cinco vezes na ignição pra dar a partida.
- Não dou três meses pro bicho arriar.
- Mas que desgraça! Ô campeão, desce uma cachacinha, por favor!
- Mas a vida é assim mesmo…
- E assim mesmo é a vida…
- E as mul… rapaz, essa cachaça é forte! Você virando desse jeito, vai com calma!
- Nada que eu não agüente, já tive piores.
- Mas como eu dizia, e as mulheres, nada?
- Nada!
- Tsc. Elas andam mais exigentes.
- Rá! Nem me fale!
- E você tá meio barrigudo, esses cabelos rareando…
- Será que é isso?
- Os dentes amarelados por causa do cigarro…
- Mas eu parei!
- Mas leva dez anos pros efeitos sumirem mesmo.
- Dez anos?
- Dez anos, foi o que eu li. Será que viveremos isso tudo?
- Nunca se sabe.
- Eu acho que ainda chego lá, mas você…
- Eu o quê?
- Anda meio pálido, né? Os olhos meio avermelhados…
- É a bebida!
- Ou pode ser alguma coisa. Um câncer…
- Deus me livre!
- Dizem que as pessoas da nossa idade têm maior chance de desenvolver diabetes.
- Diabetes é foda.
- Ô! Pense só: anos e anos vivendo com agulhadas.
- Um sofrimento, ainda mais com meu medo de agulhas.
- Sua mãe teve diabetes, não?
- Teve. (Ô distinto, outra dessa branquinha!)
- As chances aí são ainda maiores.
- É mesmo?
- Isso é tudo genético, rapaz. Eu iria ao médico, se fosse você.
- É… vou pensar nisso…
- Bom, eu tenho que ir pra casa.
- Ué, mas já? É cedo ainda, você não bebeu nada.
- Nah, eu só vim molhar o bico, ver como você tava.
- Ah…
- Mas o que é isso, bicho? Se anima! Quando eu cheguei você tava tão pra cima, feliz, empolgado. Que foi que te deu?
- Sei lá…
- Vamos que vamos, velhinho, que é pra frente que as malas batem!
- É…
- Bom, vou lá que a patroa e os moleques estão me esperando. Ó, vê se pára de beber tanto, que qualquer dia desses eu te chamo pra jantar lá em casa, hein. Dá cá um abraço!
- Tá, tá…
- E você, ô garçom! Vê se pega leve com ele, hein? O cara é meu amigão!
- Do peito!
- Do peito! Me preocupo com ele pra caralho!
- Como um irmão!
- Isso! Um irmão!
- Amigo mesmo é você, viu, cara?
- A gente faz o que pode.
- Você… e o garçom. Ô, chefia! Dá um daquele andarilho tarja preta aí!

Pedagogia paterna

Meu telefone toca por volta das 11 horas. De domingo.
Eu não acordo feliz.

Olho pro display, na esperança de ver um número que minimize minha irritação. Não há número, chamada confidencial. A irritação é elevada à segunda potência. Atendo, ainda assim. Não há razão para perder a oportunidade de ser grosseiro com quem me incomoda, afinal de contas.

Chamada a cobrar. A irritação, agora mais corretamente classificada como fúria, eleva-se à enésima potência, mas me controlo como dá. Espero a musiquinha terminar. Uma voz desconhecida, que bem poderia ser de mulher, mas também poderia ser de criança, diz alô. Eu respondo, com a sutileza de um Cruzado atacando um soldado de Saladino diante das muralhas de Jerusalém:

- Quem é?
- Pai…

Diante do fato de que não tenho filhos, noto que isso há de ser um engano ou um golpe, com maior probabilidade para a segunda hipótese. Qualquer pessoa sensata desligaria o telefone imediatamente.

Não é o que faço. Dou corda, mudando a entonação, deixando a voz o mais melíflua possível:

- Ô, filhote! É você?
- Me ajuda, pai!
- Não, não! Se fode aí, guri. É bom pra você, vai construir seu caráter!

Desligo e volto a dormir, agora mais tranqüilo.

Sacaneando, eu?

- Ah, então você resolveu aparecer?
- Já tava com esperança de não me ver hoje, né? Acha que eu ia me oferecer pra tomar uma bronca igual à de ontem? Nem morta, santa.
- Mas como você me aparece com quase uma hora de atraso? Sorte que não tem aula nesse primeiro horário, por causa da palestra.
- Sério que não tem aula agora? Pô, se eu soubesse disso, tava em casa tomando um banho e descansando um pouco. Só vim hoje pra você não ficar chorando aí, desconsolada com a minha ausência. Aliás, ontem eu não entendi como você se lembrou que eu faltei à última aula. Depois, pensando a respeito, notei que você só marcou meu nome e rosto porque fiquei te devendo uma pipoca!
- Que, aliás, com os juros, já são três pipocas. Aliás, você já tá me devendo um pipoqueiro completo, com carrinho e tudo.
- Ué, sendo assim fica mais fácil: tem um lá na frente do prédio. É seu. Pode levar pra casa.
- Engraçadinho. Vamos lá assistir à palestra?
- É sobre o quê mesmo, esse troço?
- Automação comercial.
- Ah, não. Qual é? Eu trabalho com isso o dia todo, chego aqui ainda tenho que ver apresentação sobre um negócio que eu já tô careca de saber? Não venho pra faculdade pra ficar vendo essas baboseiras, venho pra cá em busca de emoção, de alguma coisa mais interessante, mais ameaçadora. Tipo… tipo… lógica de programação.
- Eu notei um certo tom de sacanagem com a minha matéria nessa sua fala aí.
- Quê? Adriana, como é que você sugere uma coisa absurda dessas? Eu seria incapaz de usar ironias! Onde já se viu. Um homem sério como eu, com esse tipo de piadinhas? Inaceitável.

***

- Adriana.
- Diga.
- Tenho sono.
- Como?
- Tenho sono. Tenho muito, muito sono.
- Ah, é?
- Sim. Por favor, seja breve com essa próxima aula.
- Mas que cara-de-pau!
- É a sonolência que anestesia meus pudores e meu bom-senso.

Alguma coisa na faculdade tem que ser divertida, afinal de contas.

Via crucis

Nuno diz:
hey jesus

Pedro diz:
Diga, meu filho.

Nuno diz:
jesus, como tao as coisas?

Pedro diz:
Ah, eu tô meio pregado.

Nuno diz:
normal

Nuno diz:
tava putao outro dia ae

Pedro diz:
Pois é, tem um camarada meu que é meio judas.

Nuno diz:
bora juntar galera

Nuno diz:
e esquartejá-lo

Pedro diz:
Nada. Deixa quieto que o cara vai se enforcar com a própria corda.

Nuno diz:
q q rolou ae?

Pedro diz:
Ah, uns caras me pegaram pra cristo e foram fazer minha caveira pra um pica-grossa daqui. Eu, crente que o sujeito ia me ajudar, ele foi e lavou as mãos.

Jesus, o maior psicólogo gerador de exemplos dispensáveis que já existiu

- Eu também cometo erros. A única pessoa que nunca errou foi Jesus!
- Opa. Não, não! Jesus deu suas pisadas fora da linha, também!
- Ah, é?
- Claro. Um cara que podia andar sobre as águas perder a chance de sair correndo por cima da lagoa mais próxima ao ser perseguido por centuriões romanos? Se isso não é um erro grave, eu não sei como classificar. Deve ter ficado bem mais difícil andar depois, com os pés furados.
- Você não devia fazer piada com essas coisas.
- Ué. Por que não? Tô falando de algo sagrado, por acaso?

Por mais que eu deteste isso, tenho que estabelecer um objetivo para dois mil e oito: tirar do sério meu chefe babacão, que - aposto um dedo qualquer da mão direita, à escolha do freguês - é fã incondicional de livros como “O Monge e o Executivo”.

Xerox

Meu pai recebe uma correspondência pra entregar no Ministério da Cultura. Como de praxe, o cliente, sendo cliente, portanto uma besta, não manda as cópias necessárias para que seja feito o controle da entrega dos documentos. Sobra pra mim, ao lado da multifuncional da HP, tirar as cópias. Após entregar os papéis, o velho nota que no envelope ainda sobrou uma folha. É uma cópia enviada pelo cara.

- Ih, o cara enviou uma cópia!
- Bom, então agora você tem duas cópias, além do original.
- Mas a dele não vale nada, tá uma merda.

Estende a folha para mim. Eu pego e olho.

- Porra, pai, isso é cópia tirada em fax!
- Tirada em fax. Humpf. Tirada no cu da mãe Donguinha.

Seu Murilo é fino, muito fino.