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Xerox

Meu pai recebe uma correspondência pra entregar no Ministério da Cultura. Como de praxe, o cliente, sendo cliente, portanto uma besta, não manda as cópias necessárias para que seja feito o controle da entrega dos documentos. Sobra pra mim, ao lado da multifuncional da HP, tirar as cópias. Após entregar os papéis, o velho nota que no envelope ainda sobrou uma folha. É uma cópia enviada pelo cara.

- Ih, o cara enviou uma cópia!
- Bom, então agora você tem duas cópias, além do original.
- Mas a dele não vale nada, tá uma merda.

Estende a folha para mim. Eu pego e olho.

- Porra, pai, isso é cópia tirada em fax!
- Tirada em fax. Humpf. Tirada no cu da mãe Donguinha.

Seu Murilo é fino, muito fino.

Perguntas freqüentes, respostas padrão:

Pergunta freqüente 1:
- Você não bebe? Nada?

Resposta padrão:
- Nada. Viver tanto tempo em um lugar com umidade batendo nos 10% me deixou imune a essa necessidade de líquidos. Sou diferente de um ser humano normal: meu corpo é feito 75% de geléia de mocotó.

Pergunta freqüente:
- Por que você não bebe?

Resposta padrão:
- Sou adventista do sétimo dia.

Pergunta freqüente:
- Você não bebe, não fuma, não usa drogas… você trepa?

Resposta padrão:
- Pergunta pra sua mãe.

Pergunta freqüente:
- Você não come carne de porco por quê?

Resposta padrão:
- Sou judeu.

Pergunta freqüente:
- Por que você nunca responde nada com seriedade?

Resposta padrão:
- Porque eu ia perder meu tempo explicando a mesma coisa dezenas de vezes pra idiotas que fazem perguntas que não deveriam fazer.

Ignorância orgulhosa

- Aí a gente fomos…
- Nós fomos.
- Não, você não tava junto.
- Tománoseucu! Quero dizer que o certo é NÓS FOMOS, e não “a gente fomos”. Retardado.
- Sifudê. Então nós foi lá e cheguemo…
- CHEGAMOS!
- …e cheguemo tarde. Ela não quis ir com nós…
- CONOSCO!
- Pára de interromper, viado! Ela não quis ir com nós porque tava meia cansada…
- Da cintura pra cima ou da cintura pra baixo? Lado esquerdo ou lado direito?
- Que merda, não dá pra te contar nada.
- Dá, se você não falar feito um imbecil analfabeto. Sério, cara, você estudou nos mesmos colégios que eu. Seus pais pagaram uma nota pra sua educação e você me usa um “nós cheguemo”? “Ir com nós”? “Meia cansada”? Porra, é de cair o cu da bunda!
- Você e suas regrinhas de português.
- Não é questão de “regrinhas de português”, é questão de fazer valer o investimento dos seus velhos.
- Não ligo pra isso, eles pagaram porque quiseram. E, seje como for…
- SEJA!
- …seje como for, nunca fui bom em português, tão pouco…
- TAMPOUCO, CARALHO!
- …tão pouco tô ligando pra estética das minhas mensagens.
- Olha só. “Estética”. Daqui a pouco vai até saber o que é um polissílabo.
- Cara, eu não sou burro. Só não sou chegado nesse teu purismo lingüistico.
- Não sou purista.
- É, sim.
- Não sou.
- É, sim.
- Não sou.
- É, sim. E se você tivesse menas preocupaç…

[Sangue e vísceras]

Colonialismo

- Escuta, não é hoje o aniversário daquela mina lá, não?
- Existem muitas “minas”, meu ambíguo camarada. A qual te referes?
- Àquela que você disse que tava “namorando”.
- Falas da esfuziante Cristina, obscuro amigo?
- Essa aí!
- Deixe-me esclarecer que sua tentativa de implicar que minhas informações sobre o namoro eram meramente devaneios são grosseiras, para dizer o mínimo! Estamos namorando de fato!
- Não estamos nada!
- Dizia de mim e dela, caro galhofeiro!
- Tá, tanto faz. Não é hoje o aniversário da guria?
- Sua informação é verdadeira, ó, bem-informado colega.
- E você tá aqui, nesse boteco, comigo, fazendo o quê?
- Ora! Degustando esta deliciosa bebida produzida a partir da fermentação de cereais maltados, obtuso comparsa.
- Você entendeu! Aniversário da sua menina e você aqui, comigo, em vez de estar com ela?
- Não entendo sua estupefação, meu pasmo parceiro.
- Não entende? Você compreende que uma das diretrizes mais básicas do implícito contrato de mutualidade conhecido como “namoro” diz que os aniversários devem ser passados JUNTOS?
- Você me decepciona, meu tacanho amigo!
- Imagino o quanto.
- Permita-me ilustrar melhor a situação para seu simplório conhecimento, atônito rapaz. Estudaste história?
- É claro que sim.
- Pense, então, em termos de colonialismo europeu. Nós, homens, somos as pequenas metrópoles européias: desenvolvidas, civilizadas, refinadas, porém limitadas.
- Sei.
- As mulheres, por outro lado, são os continentes desconhecidos. Vastos, belos, de abundantes riquezas, as mais variadas e sedutoras possíveis. São, entretanto, incivilizadas, indômitas e, por vezes, assustadoras.
- Tô entendendo.
- Agora imagine nossas tentativas de aproximação como as antigas naus espanholas e portuguesas dos séculos XVI e XVII tentando cruzar o oceano infinito à procura de bens necessários. Nossa conversa sendo a embarcação. É preciso deixá-la ágil, embora bem suprida. Deixá-la forte, mas com alguma fragilidade. Assim ela parte, segura diante do olho destreinado, mas claramente instável para os entendidos do assunto. Lançamo-las ao mar na esperança de chegar em terra e, na maior parte das vezes, naufragamos. Temos sucesso de vez em quando, porquanto somos exaustivamente insistentes.
- “Porquanto” é foda, haja prolixidade!
- Deixe-me com meu belo vocabulário! Como dizia, conquistamos, então, a tão sonhada colônia. Nossa primeira atitude é livrá-la de seus habitantes incivilizados e de hábitos pouco cristãos, por isso proibimos nossas namoradas de usar roupas curtas, freqüentar eventos onde reina a devassidão e a promiscuidade, coisas assim.
- Certo.
- A partir daí, atraímos a confiança da população restante com badulaques e bugigangas de pouco valor, porém chamativas. Espelhinhos, colares e outras manufaturas de baixo custo. Distraímos sua atenção enquanto são evangelizados e submetidos à nossa vasta cultura.
- Verdade.
- Por fim, afastamos os possíveis invasores e declaramos nossa hegemonia sobre o território.
- Saquei.
- Até esse ponto, já sondamos todo o terreno, logicamente. Conhecemos suas reentrâncias, falhas geológicas e clima bem o suficiente para podermos trafegar por ali com relativa segurança.
- Fato.
- Começamos a explorar suas matérias-primas…
- Tá falando das filhas das tias delas?
- Não, meu confuso camarada. Falo de seus favores únicos, das coisas as quais, apesar de todo nosso avanço, não temos como nos auto-suprir, compreende?
- Ah, sim. Os chupiscos, as trepadas e tal.
- Sua falta de tato me constrange, caro troglodita, mas folgo em notar que entendes sutilezas.
- Certo. E depois?
- Depois apresentamos nosso novo território para as metrópoles aliadas. Damos aos dois a liberdade de estabelecer comércio apenas por nosso intermédio. O acesso irrestrito é nosso e somente nosso.
- Justo. E então?
- Bom, nesse ponto somos os senhores do castelo. Nossos soldados estão por ali, cuidando do território e prevenindo insurreições. Tudo o que temos a fazer é, como os monarcas que somos, deixar claro que, apesar da distância, estamos cientes de tudo o que se passa, ainda que não estejamos de fato.
- Só pra não fugir desse teu paralelo maluco, ficar com a sua namorada no aniversário dela não seria uma maneira de deixar claro que o imperador e as legiões estão bem, quero dizer, que a metrópole está atenta ao que se passa na colônia?
- Você se adianta, meu célere ouvinte. Quando nossa supremacia está finalmente estabelecida, temos que partir para novas terras. Ampliar o território. É possível tentar anexar áreas próximas, indo atrás de parentes e amigas delas, mas sabe-se que conflitos entre habitantes locais tornam quase impossível o sucesso em tal empreitada. O ideal é lançar ao mar as caravelas e aportar em novos costados.
- Ok. E em que ponto você está?
- Exatamente neste. No momento espero que minha nova colônia apareça. Meus navios já têm as velas enfunadas e as âncoras recolhidas. Só me falta estabelecer a rota.
- Hm.
- Estou considerando tomar posse dos territórios claudianos.
- Hein?
- Meu desmemoriado aprendiz, lembra-se da Claudinha, aquela mui simpática senhorita que trabalha na videolocadora perto da minha casa? Então. Soube que ela costuma freqüentar este pândego ambiente onde, agora, nos encontramos.
- Ah, sei. Mas acho que não é só ela, não.
- Como assim?
- Olha ali a Cristina chegando com um sujeito.
- Mas hein?!
- Pois é.
- Porra, o que esse cretino tá fazendo com a minha namorada?
- A mim faz parecer, estimado, atraiçoado, acornalhado camarada, que sua colônia encontrou um líder rebelde capaz de livrá-la do cruel jugo monárquico. Devo informá-lo que seus súditos, esta noite, estabelecerão comércio com outros mercados. Hurra! A Revolução triunfou! Bebamos a isso! Garçom, traz mais uma!
- Bah.
- E você fica muito chato quando bebe, diga-se de passagem.

Critérios

- É sério isso! Pra saber se vale mesmo a pena comer determinada mulher, olha bem pra cara dela e imagina como ela deve ficar quando acorda. Se essa simples idéia te causar horror, não vale a pena. Parte pra outra.
- Ou imagina ela cagando.
- Nah. Com algumas mulheres essa regra não funciona.
- Qual regra?
- Imaginar a mulher cagando.
- Com algumas mulheres não funciona.
- É. Eu, por exemplo, não consigo imaginar a Maria Fernanda Cândido. Não dá!

(segundos de contemplação)

- É, não dá.
- Não dá mesmo.

(mais alguns segundos de contemplação)

- É, não dá mesmo, cara.
- Não mesmo. A Maria Fernanda Cândido não tem jeito.
- Mas a Ana Paula Arósio eu consigo! Ela caga nuvenzinhas. Garanto!
- E elas vêm com o logo da Embratel. Faça um 21.

Por essas e outras ir ao Extra de madrugada tomar uma coca-cola é sempre tão divertido.

Reminiscências

- Ei!

Olhei bem pra cara do cidadão.

- Aí, a gente não estudou junto?

Sim, e eu já tinha percebido. Achei que o fato de não me manifestar a respeito fosse deixar a situação bem clara.

- É. No JK. Segundo ano. Em noventa e oito.
- É, eu tô lembrado de você. Pedro, né?
- Eu também lembro de você. Na lista de sujeitos mais babacas que eu conheci, acho que ficaria em segundo ou terceiro lugar.
- HAHAHAHA Você continua revoltado.
- E você continua um merda.
- …
- …

Percebendo que eu não sorri nem por um segundo e notando que eu não estava brincando, ele preferiu se afastar. Ótima idéia.

Pedro Nunes.
Fazendo amigos e influenciando pessoas.