O problema em ser homem é que existe essa demanda para que você esteja com o pau na mão o tempo inteiro. Surgiu a oportunidade, a piroca deve entrar em ação. Não existe isso de “não quero”! Você não pode não querer! Abriram o chamado? Pau na máquina.
(duplo sentido acidental)
Se você é homem e cai no erro de ser seletivo, se nem toda guria que te aponta o glorioso e úmido vale após o gramado da felicidade (ou, em alguns casos, a floresta da perdição) recebe de você o golpe vigoroso do vingador paudurescente, camarada… há algo errado contigo. Ou ao menos é o que dirão. E na verdade não há.
O que me levou a pensar nisso foi a responsável por um supermercado que atendia, até algum tempo atrás. Certo dia lá fui resolver algo simples. Compareci munido de todo o bom-humor que me é peculiar e da afabilidade que me faz notório, e a moça me aborda com uma chamada na xinxa suave, porém perceptível. E se eu, bundão declarado e convicto que sou, notei a forçada de barra, qualquer um notaria.
Fiquei na minha e sorri, ignorando e dando continuidade ao meu trabalho. Alguns minutos depois, fui pegar informações com ela, e a mulher retorna à carga com ímpeto redobrado. Ri, deixei passar batido. Na terceira ela foi de all-in, faltando só puxar meu colarinho e apertar minha bunda. Dessa vez gargalhei alto e respondi com evasivas.
Aparentemente, foi demais para o orgulho da pobre senhora. Você deduziria que uma mulher em seus 40 e - muitos - algos, cuja aparência já não é mais grande coisa (e pode até ter sido um dia, mas duvido bastante), teria algum fair play e saberia receber um [NÃO INTERESSADO] em letras garrafais com certa elegância. Infelizmente não é como funciona a vida, amigo. Talvez com a idade venha uma certa queda na auto-estima e, com isso, aproxime-se do nosso pescoço o bafo quente do desespero, nos impelindo a atitudes antes impensáveis. Talvez ela tenha achado que eu, tendo aparência que tenho, sendo a pessoa que sou, não cometeria o erro de recusar suas gracinhas. Quem mais daria pra mim, afinal? Qualquer que tenha sido a lógica interna que alimentou o aborrecimento subseqüente, a verdade é que a mulher - que até então imaginei estar brincando - tomou um ar sinceramente ofendido e me fez exatamente estas perguntas:
- Você não gosta de mulher, não? Você é viado?
Uma questão dessas, colocada dessa forma, nesse contexto, abre tantas possibilidades de resposta que algumas são até covardia. É como um bêbado que tenta trocar uns sopapos com um pugilista profissional no auge de sua forma: o pobre alcoolizado não tem a menor noção de como armar a guarda e se oferece para levar um direto no meio da cara. Para o adversário, esse golpe parece a melhor escolha, mas é moralmente questionável. A voz da consciência avisa que tal manobra, apesar de merecida, equivale a chutar cachorro caído; o bom-senso berra seu nome e te dá um tapão nas costas, mostrando que não admite ser ignorado nessa questão. E apesar de seu cérebro enfileirar duzentas e doze ótimas respostas que tornariam a história épica, a ser contada em todas as mesas de bares às quais você se sentasse, esses dois, consciência e bom-senso, berram “COMPORTE-SE, ANIMAL! VOCÊ VAI PERDER SEU EMPREGO!”. Cara, como eles gritam alto!
Então, diante daquela maravilhosa pergunta da gerente do mercado, praticamente um “Ei! Ei! Chute meu pâncreas, ele serve pra isso!”, fui contido e civilizado. Poderia ter dito “De mulher? Gosto muito, mas só das que têm 46 cromossomos”. Ou “Claro que gosto, mas é um nicho biológico do qual a senhora não faz parte”. Talvez pudesse responder “Olha, eu gosto bastante, mas sinto dizer que sua carteirinha de sócia dessa categoria foi revogada duas eras glaciais atrás”.
Em vez disso, o que eu disse? O quê? Com a cara mais séria, o olhar vítreo, sem demonstrar emoção, respondi apenas:
- Sim, eu sou viado.
E tive paz pelo resto do dia.

