Archive for the 'divagacoes' Category

Em púbico

(Ah, nada como trocadilhar no título… e se “trocadilhar” não existia enquanto a nível de verbo, passa a existir agora. Ficam revogadas todas as disposições em contrário.)

Qual o grande medo das pessoas? Qual o MAIOR medo das pessoas? Não é morrer. Estatisticamente, o que as pesosas mais temem é falar em público.

Sério, é provado. Sabe aquelas pesquisas ridículas que os ingleses adoram fazer? Tipo “os dentes dos donos de cachorros têm 0,85% mais cáries do que os dentes das pessoas que criam gatos” e tal? Então. Provaram que as pessoas têm mais medo de falar em público do que de morrer. Pelo menos as pessoas que eles entrevistaram, mas vamos acreditar que esse grupo selecionado para amostragem represente de fato o padrão.

Mas por que as pessoas têm medo de falar em público? Por quê? Porque não querem ser mal-recebidas. Têm medo dos outros rirem delas, ou de não rirem, caso a intenção seja essa. Têm medo de ser ridicularizadas. Até aí eu entendo, parcialmente, claro. O que eu não entendo é quem diz que tem medo das vaias.

O que tem de errado na vaia? Qual o problema com uma renca de gente fazendo “UUUUUUUUUUU” pra você? O que tem de errado com “UUUUUUUUUUU”? Não há nada de errado com “UUUUUUUUUUUUU”. Se você pensar bem, palma é um troço bem mais agressivo. Ninguém vai te machucar fazendo “UUUUUUUUUUUUUUUU”, mas tem umas pessoas que batem palmas com tanta vontade que se uma mãozada daquelas pega na sua cara, já era.

Daí você vai pra estatística que diz que quem fala em publico leva porrada sete vezes e meia mais forte do que quem fica quieto no seu canto.

Mas enfim. Como é que você faz pra se proteger desse lance de ser mal-recebido pelo público, de chegar numa boa e, apesar de todas as suas boas intenções, ser destratado? Simples.

Você NÃO chega numa boa.
Já sobe no púlpito, palanque, palco ou seja o que for assim, ó:

- Vão tomar no cu. Cambada de filhos da puta.

Qualquer merda que o público fizer com você depois disso vai ser plenamente justificável e compreensível. Você vai saber exatamente do que eles não gostaram. Depois é só não fazer de novo.

Cabeleira

Há alguns meses, já quase um ano, resolvi que ia deixar crescer a cabeleira. Não sei exatamente qual foi a motivação que tive pra isso, simplesmente acordei um dia e resolvi que seria interessante trabalhar o desapego pela minha aparência (metrosexual é a puta que pariu!), e que a melhor maneira de fazer isso seria ignorando as duas coisas, na minha aparência, que mais me causam raiva e gastura: meu cabelo e minha barba. Não iria cortar nenhum dos dois por um ano. Queria ficar igual Tom Hanks em Náufrago, naquela segunda parte em que ele parece um merovíngeo.

A barba durou pouco. Três meses após a decisão, acabei raspando a parada. Comer em público estava se tornando profundamente constrangedor.

Já o cabelo… esse, quando era curto, me enchia o saco por ser indômito. Não importava quantas vezes eu penteasse, esfregasse, puxasse, xingasse, gritasse ou balançasse a cabeça: ao acordar, a única maneira de fazê-lo assentar era tomando um banho. Nada além de uma sessão de encharcamento era capaz de colocar o miserável na linha e torná-lo mais cooperativo. O bicho simplesmente era como aqueles informantes da máfia: pra dançar conforme a música, precisava ser constantemente ameaçado com a possibilidade de ficar debaixo d’água permanentemente. Coisa que, se você não for o Michael Phelps, não soa muito agradável.

Pela manhã eu SEMPRE acordava com o penteado do Goku, e isso me tirava do sério, porque sempre gostei mais dos quadrinhos americanos, onde os personagens têm cabelos irrepreensíveis, do que dos japoneses, com seus penteados pós-modernos.

Kamehameha

- Mas… peraí, cara! Se o teu problema eram os cabelos descontrolados, o ideal não seria RASPAR o troço? De onde vem a idéia estúpida de que deixar crescer vai tornar sua agonia menor?

Pois é. Não tem lógica. Mas, como eu disse, o objetivo não era resolver o problema do cabelo, mas aprender a não dar a menor pelota pra ele. Quer ficar zoado? Fique. Quer criar periscópios? Crie. Torne-se um criadouro de novas espécies de fungos e piolhos, qual as madeixas de Bob Marley. Não tenho nada a ver com isso.

(continuei - e continuo - lavando tudo diariamente, entretanto)

Em março, falei sobre isso aqui. Deixá-lo crescer não foi simples. Descobri que madeixas, como as pessoas, têm três fases de existência: a infância, quando são hiperativas e descontroladas, necessitando de muito, muito jeito e paciência para entrar na linha; a adolescência, que é um estágio intermediário, no qual são desengonçadas, idiotas e ridículas; e, por fim, após crescer o suficiente, tornam-se adultas e passam, ao menos até certo ponto, a entender o funcionamento da vida, a saber se portar em público, a ter um pouco mais de bom-senso.

Ao menos as minhas são assim. Existem cabelos por aí que, a exemplo de certos seres humanos, não têm solução alguma, estão irremediavelmente estragados e é preciso aceitá-los como são, com todos os seus inúmeros, insuportáveis e inaceitáveis defeitos, e a vida seguirá seu rumo.

Enfim. Oito meses após minha decisão de deixar barbeiros morrerem de fome, no começo de junho, minha namorada me informa que a qualquer momento os anos 80 vão me telefonar pedindo o penteado de volta. E, veja só, eu até aceitaria desenvolver os fungos e piolhos, mas mullets? Não! Isso, não! Isso não ficava bem nem no MacGyver!

Tomado pelo desespero, mas sem querer cortá-los curtos novamente, em vez de ir me consultar com uma especialista em soluções para esses casos (uma mulher), simplesmente fiz o que sempre fazia quando até um macaco bem-treinado seria capaz de fazer o meu corte: fui a um macaco bem-treinado, um barbeiro.

Não preciso dizer que ele fez merda, mas digo do mesmo jeito: ele fez merda. Deu-me um cabelo capaz de me fazer consultar preços de chapelarias pela internet e de pensar em cancelar uma viagem de trabalho. Quem respeitaria um técnico com um corte daqueles? Eu não respeitaria.

Então entendi que praticar meu desapego era JUSTAMENTE passar por aquela fase desgraçada sem me desesperar. Cabelo é cabelo, caralho. Não é como se alguém fodesse meus dentes da frente, seria só esperar e aquela porra cresceria de novo. E cresceu, e está crescendo. Meu plano era o de cortá-lo como era em outubro ou novembro, completado, então, um ano a partir da data do foda-se inicial. Estou repensando a idéia, entretanto.

Não sei se quero ter uma daquelas cabeleiras típicas de metaleiros, mas sei que é muito agradável acordar de manhã e, com uma mera, ridícula e inofensiva passada de mãos, colocar todos os fios no lugar em que deveriam ficar. Com exceção das ventanias que jogam diante dos meus olhos uma revoada de fios, me impedindo de ver qualquer coisa além de uma massa castanha disforme e meio borrada pela proximidade, e de levar mais de 5 minutos SÓ pra lavar essa munha durante o banho, e outros 5 para secá-la, a juba não causa qualquer incômodo.

Além do mais, cobre a parte de cima do meu rosto, os olhos e o nariz. Quando minha barba cresce, cobrindo a parte de baixo, queixo e boca, ninguém mais é capaz de enxergar através da pelagem e ver minhas feições, de fato. O que me torna, veja só, um homem mais interessante. No escuro e em silêncio talvez eu até me torne um cara bonito!

Os cabelos compridos ficarão, pois. O que não sei é COMO fazer, na verdade, com QUEM falar pra mantê-los sempre numa extensão aceitável, com um corte sem firulas. Terei que cometer uma leve contravenção prevista no código dos irmãos caminhoneiros e arranjar uma cabeleireira. Mas isso é perdoável, desde que esse leve lampejo de viadagem seja compensada por um aumento ou pela inclusão de novas atitudes grosseiras.

Sem problema: começo a coçar o saco ou a palitar os dentes em público e fica tudo certo.

Captei a mensagem!

Tem umas lições que eu deveria aprender da PRIMEIRA vez que elas me são passadas, mas eu não aprendo. Daí, como o universo funciona em ciclos - não é papo místico, não, é a base da minha teoria da fundação do universo, já devidamente publicada na Scientific American e adotada, sem contra-argumentos, por toda a comunidade científica mundial -, eu sou apresentado e reapresentado e rereapresentado e rerere… enfim, deu pra entender, já tá virando risada, essa porra.

Mas enfim. Sou reapresentado aos fatos até compreender que são FATOS, que são verdades irrevogáveis do cosmo, e parar de lutar contra o invencível poder, a insuperável determinação, a inquestionável presença, a insuficientemente adjetivada obstinação da Consciência Cósmica Universal.

Deixe-me dizer qual foi a última lição que aprendi com o universo (ou não deixem, foda-se, tô cagando, vou dizer do mesmo jeito):
Sempre que uma guria chamada Paula com um sobrenome fora do comum surgir na sua vida, FUJA.

SEMPRE dá merda. SEMPRE. Nunca dá certo. Mulheres com esse prenome e sobrenomes peculiares vão, INVARIAVELMENTE, mostrar uma faceta surtada e psicótica após um breve período de convivência. É sério. Das 6 ou 7 paulas que conheci com sobrenomes estranhos, TODAS alucinaram em algum ponto da convivência.

A única Paula que surgiu pela internet e mostrou compostura, sabedoria, coerência e - mais importante - sanidade* foi a patroa. E por quê? Porque tem um sobrenome comum, cotidiano, trivial, usual.
As outras todas… bom, sedativos estão aí para serem usados, afinal de contas.

Ok, nem tanta sabedoria, coerência e sanidade assim. A mulher namora comigo há 5 anos, afinal de contas. Mas ninguém é perfeito, até às mentes mais aguçadas devemos permitir um deslize ou outro, convenhamos!

Ainda sobre as olimpiadas

Ainda falando desses eventos cheios de esportes que ninguém sabe de onde vêm, pra onde vão e por que existem, ano passado, durante os jogos Panamericanos, respondi, nos comentários de um blog que não vem ao caso, a uma pergunta interessante: como alguém descobre ter talento para salto com vara?

Ciente de que boa parte das pessoas não sabe como tal vocação é descoberta, deixo aqui a indicação, para aqueles que quiserem se aventurar a fazer o teste. A esses, desejo muito boa sorte.

O teste de talento para salto com vara é aplicado junto com o teste de talento para badminton, o teste de talento para esgrima e o teste de talento para ingrediente da bonguy.

Você solta uma criança, munida de um cabo de vassoura, em um quadrado com cerca de 2 metros de altura, na companhia de um rottweiler raivoso.

Se a criança utilizar o cabo de vassoura para pular a cerca, vai treinar salto com vara. Se esperar o ataque do cachorro e, brandindo o pedaço de pau, jogá-lo para o outro extremo do quadrado, nasceu para o badminton. Se estocar o cachorro e conseguir afastá-lo, é um esgrimista nato.

Se for dilacerado pelo bicho, nasceu mesmo pra ser parte integrante de ração canina. Os restos são recolhidos e enviados para uma fábrica nas proximidades, onde serão devidamente processados.

Mais alguma dúvida?

O inquisitivo Doda também demonstrou uma dúvida, em seu blog, relativa às aplicações práticas e às regras da luta greco-romana. Explico, pois, como se dá tal modalidade do esporte: como vocês puderam notar - aqueles que perderam tempo assistindo a esse evento específico, logicamente -, os rounds na luta greco-romana começam de forma… hm… peculiar: um dos homens de colante prostra-se em decúbito ventral, ou assume uma postura acocorada, enquanto o outro, igualmente de colante, acochambra o primeiro carinhosamente. Quando o juiz apita, ambos começam a se debater. Vence, ao fim, o que for enrabado o menor número de vezes. Como tira-teima, a Organização Mundial de Luta Grego-Romana sugere que seja feito o teste da farinha.

A exemplo do que ocorre no jiu-jitsu, essa “luta” nada mais é do que o ritual de acasalamento dos homens sem-camisa. Os dois lutadores, atracados em posição de cópula, procuram decidir quem fará o papel de fêmea. A luta greco-romana, entretanto, leva certa vantagem, visto que os contendores alternam as posições, executando o tal troca-troca, tão rotineiro nas relações homossexuais.

Mas não falo por experiência.

Olimpiadas

(A falta do acento no título cria um trocadilho muito besta. Repare.)

Desde que o socialismo deixou de ser um contrapeso decente, uma “ameaça” real ao capitalismo, a situação só degringolou. Você veja, por exemplo, o evento atual na China, que já não é socialista, mas também não parece ter deixado de ser: Os caras têm uma puta trabalheira durante anos e anos pra montar trocentas quadras de todos os esportes com e sem bola, cubo-d’água, pista de atletismo, pista pra hipismo, a puta que pariu. As olimpíadas estréiam e o que a Rússia e a Geórgia fazem?

Começam uma guerra.

Esses (ex)socialistas andam meio desunidos, é foda. Baita desrespeito com todo o trabalho que os amarelos tiveram pra organizar os jogos olímpicos e silenciar todos os manifestantes querendo erguer placas, cartazes e vozes em prol dos nepaleses. Nossa sorte é essa nossa imprensa, tão séria e competente, tão boa em priorizar o que é prioridade e deixar de lado o que não tem muita importância. Graças a ela não temos que ficar vendo imagens de civis desesperados ao terem seus lares e familiares espalhados por quilômetros a fio, tampouco temos que ouvir declarações desses humanistas idiotas - o que essas pessoas sabem, afinal? -, querendo fazer longos e tediosos discursos a respeito do pega-pra-capar na Europa, dizendo que a guerra é a forma mais inaceitável de se conseguir alguma coisa e que a violência, longe de ser um argumento, é justamente a resposta usada na falta deles.

Nah, não temos que ver nada disso, ouvir nada disso, pensar em qualquer baboseira dessas. Que se danem os milhares de refugiados, assassinados, esquartejados, aniquilados, bombardeados, ensangüentados, injustiçados e arrasados moradores da Geórgia. Vão bombardeando eles aí, Russos, que existem coisas mais importantes na televisão. Temos que ver se a seleção de vôlei vai ou não ser campeã, ou se o Michael Phelps vai - surpresa das surpresas - bater mais um dos inúmeros recordes mundiais que detêm, se um sujeito em um barquinho a vela vai conseguir pegar mais vento que outro sujeito em situação semelhante, se uma mulher magricela com ombros mais largos que as nadadoras com peitão musculoso de homem vai ser capaz de, munida de uma vara, saltar sobre uma outra vareta, lá em cima, bem na casa do caralho.

Isso, sim, é bacana. Isso, sim, é entretenimento.

Olimpíada é uma vez a cada quatro anos. Guerra tem todo dia, pô. Não temos aqui a preocupante situação do Rio de Janeiro pra preocupar nossas preocupadas cabeças nesse preocupador sentido? Então.

O importante primeiro, pois. Dois minutos de guerra nos telejornais, quinze de sétimo lugar na natação feminina. Duas notinhas sobre os mortos e feridos nos jornais, um caderno e meio sobre badminton.

Acabando as Olimpíadas, se a situação na Geórgia persistir, poderemos reclamar da falta de bom-senso dessas pessoas que preferem despedaçar umas às outras a ficar na frente da TV, vendo esportes dos quais nunca ouvimos falar e esportistas que são as celebridades de hoje, os filhos preferidos da nação, os símbolos vivos do que o país representa. E os zés-ninguém de amanhã.

Depois das cracas…

Fez-se necessário dar cabo dos que esburacavam meu prazer e minha motivação pra escrever. Não consegui acabar com todos, ainda, é lógico, mas boa parte já é história. O resto vai sendo removido do casco do navio à medida que for se mostrando necessário. Ou então retornamos esta embarcação pro cais novamente, caso outros naufrágios mostrem-se prováveis.

Agradeço aos que eu gosto e que, direta ou indiretamente, apontaram a minha estupidez ao fechar este blog. Sejam tolerantes: essas crises vêm e vão, mas de forma muito mais esparsa do que faziam antigamente. Façam a gentileza de vestir seus coletes salva-vidas, sim? Esse botezinho restaqüera torna a lançar-se.

Que venham as ventanias e as vagas. São elas que nos impelem, afinal de contas.

Ah, a lista de links foi sensivelmente reduzida. Os portos onde eu eventualmente atracava tornaram-se mais limitados, porque as pessoas, aparentemente, estão se tornando muito limitadas. Ou talvez o problema seja eu, mas quem é que sabe? O fato é que minhas recomendações mudaram, assim como muitas das minhas amizades, no decorrer desses 4 meses de ausência.

Minha vida, entretanto, não sofreu qualquer mudança significativa. Ao menos não por causa disso. Logo, essas pessoas se mostraram tão inúteis e dispensáveis quanto eu imaginava que elas fossem. Celebremos isso: a descartabilidade dos outros seres humanos nessa era de estímulos tão facilmente substituíveis!