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De cinema, futuros alterados, respeito tecnológico e outras viagens…

Em 1990, eu era um guri de 9 anos, sobrinho de uma moça que trabalhava na cabine de projeção de um cinema. Na época - que nem vai tão longe assim, convenhamos, são “só” 20 anos -, existiam cinemas na rua: salas que não ficavam dentro de shoppings, mas “soltas” no meio da cidade, entre outros comércios. As pessoas saíam pra ir ao cinema, não pra ir ao shopping ver um filme. Não que fosse melhor ou pior, só era uma experiência diferente, que não se tem mais (ao menos em Brasília), porque igrejas evangélicas - a Universal, em particular -, como se arrancassem jerusalém das mãos dos sarracenos, empreenderam uma cruzada pra comprar todas essas salas e transformá-las em centros de gritaria.

(O que esses crentes não entendem é que não adianta berrar, chorar, arrancar os cabelos, dar chilique e fazer escândalo: se deus existe, é suficientemente sábio para nos ignorar e parece levar tal política bem a sério. Não posso culpá-lo. Eu também não ia querer conversa com a galera que trucidou meu filho.)

Dentre as várias vantagens de ter uma tia que trabalhava num cinema, a maior delas era que eu podia ver o filme quantas vezes quisesse. Se você acha que seu filho, sobrinho, irmão ou primo pode passar dias diante de um DVD, imagine se esse pivete tivesse à disposição uma sala de cinema inteira, com pipoca, doces e o diabo a quatro na bomboniere; com o som do projetor; com as poltronas confortáveis; com a tela que é maior do que o mundo; com o som que te faz mergulhar no filme; com tudo, tudo mesmo, até lanterninha, essa raça em extinção. Eu tinha. E, se deixassem, moraria lá dentro.

Aliás, a censura não era levada a sério na época. Não existia isso de vetarem a entrada de crianças por causa de uma besteira como “classificação indicativa”. Se ocorria, de algum modo sempre passei incólume pela regra, desde antes de ser sobrinho da moça da sala de projeção. Sendo o tal sobrinho, nem preciso mencionar.

Então, numa certa tarde de 1990, depois do colégio, minha mãe precisou comparecer a algum compromisso e me deixou com a tia Yone, que me recebeu na porta do cinema e me levou até a sala, já escura, recomendando que me comportasse. Quando relaxei no encosto da cadeira e olhei para a telona, a cena que se desenrolava prendeu minha atenção de imediato. O que começou com uma velha atravessando a rua tornou-se um assalto, seguido por um assalto ao assaltante, passando, daí, para a cena de um bando de sujeitos roubando uma loja de armas e metralhando impiedosamente um carro da polícia que se aproximou para impedir.

Era Robocop 2.

Devo ter assistido o filme de ponta a ponta umas três vezes. E diversas vezes mais nos dias seguintes. E, vendo Robocop 2 hoje, é curioso como tudo aquilo fazia sentido na época, mas fica fora de contexto atualmente. Todo o clima cyberpunk, com a cidade dividida entre os criminosos - querendo ver o oco -, a grande corporação - topando ver o oco, desde que possa lucrar com isso - e a população no meio, tendo que conviver com as putas, os motoqueiros, os bêbados, mendigos e baderneiros, procurando ajuda do governo, que se omite porque é corrupto, decadente e vendido a preço baixo para os executivos da OCP. Havia toda uma sinceridade nos filmes futuristas da década de oitenta que não existe mais hoje.

Entendam o que chamo de sinceridade como essa projeção pessimista do futuro, com a criminalidade atingindo níveis impensáveis e tornando um inferno a vida do cidadão comum, enquanto alguns poucos, abençoados com as graças da corporação, levam uma vida de luxo e tranqüilidade. Não se vê mais essa abordagem. O conceito futurista que temos, hoje, é das pessoas se tornando mais e mais inúteis em um mundo controlado por máquinas, e só.

“Matrix”, “Eu, Robô”, “Surrogates”… todos esses filmes retratam a mesma idéia, cada um a seu modo: as pessoas serão dominadas no futuro de maneira a não pensar por si mesmas, apenas reproduzir o que lhes é imposto, seguir sem questionar. Essa ameaça à liberdade individual é tão subjetiva que não há um levante criminoso, ou seja, não existe “o submundo”. Há - e sempre deve haver, ou não teríamos filme - algum(s) membro(s) da sociedade que se opõe(m) à ordem estabelecida. Mas é ridicularizado, via de regra, ainda que tenha (e sempre tem) razão. Assim, a divisão social torna-se clara, perde-se a área cinzenta. De um lado as pessoas normais, em seu comportamento de rebanho. De outro, excluído, uma pessoa ou grupo de pessoas. Some aquele grupo meio marginal, meio mainstream, aquele povo levando a vida no limite entre as contravenções e a ordem, sendo tolerado pela polícia apenas porque a situação é tão caótica que não vale a pena perder tempo com eles.

É curioso pensar que não é o estágio tecnológico que conduz as previsões desse tipo, mas o momento social e político. Por isso é difícil apontar outra possibilidade de futuro sem ser considerado pessimista ou utópico, da mesma maneira que, acredito, era complicado para os teóricos dos anos 80 desenvolver uma possibilidade que não envolvesse altos índices de criminalidade, ou para alguém da década de 50 pensar no futuro sem imaginar desastres atômicos e mutações causadas pela radiação decorrente.

Ainda assim, a tecnologia tem sua parcela de “culpa” nessas idéias. Se não estivéssemos tão sujeitos às máquinas como estamos agora, seria mais fácil conceber uma realidade na qual travássemos uma guerra furiosa com elas - como em Exterminador do Futuro - do que uma na qual elas nos dominam sem dificuldade, como em Matrix. O fato é que cientistas já identificaram positivamente que, à medida em que nos acostumamos às novas tecnologias, nossas capacidades vão diminuindo. Uma pessoa que tem todos os telefones que precisa anotados em seu aparelho celular tem menor capacidade de memorização do que alguém que não dispunha de tal recurso, há 20 ou 30 anos atrás. À medida em que as novas gerações têm maior facilidade para operar e entender novos equipamentos, terão maior dificuldade para operar e entender maquinário obsoleto.

O que quero dizer é que aquele teu primo molecote pode ser capaz de compreender e utilizar o telefone celular mais avançado da atualidade com uma mão nas costas, mas bota esse pequeno pústula pra operar o tracking de um vídeo-cassete e vamos ver se ele se sai tão bem.

Mexer em um sistema operacional com interface gráfica é mole. Quantas linhas esse inseto consegue avançar em um MS-DOS, se precisar operar um prompt de comando?

Até meu pai consegue jogar Wii. Pede pro seu irmão de 12 anos descobrir qual é o objetivo no ET ou Superman do Atari.

(note que essa previsão de um futuro limpinho e organizado funciona se considerarmos que os roteiros dos filmes são escritos e pensados em países limpinhos e organizados, ok? um roteiro futurista que se passasse no Brasil, por exemplo, escrito por um brasileiro, seria completamente cyberpunk oitentista, dada a situação que vivemos por aqui)

Textos Motivacionais I

Você que está aí, meu amigo, minha amiga, preocupado com as vicissitudes da vida; considerando, consternado, as injustiças que essa existência vagabunda e piranhete joga em cima de você; tentando entender por que as coisas são assim e imaginando o que fazer para que elas fossem diferentes; ansioso atrás das soluções para os problemas que lhe inquietam qual pregos n’alma, ouça minhas palavras:

Abra seu coração para Jesus, irmão. Abrace a mais falsa, fácil e cômoda explicação para todos os males. Adote o caminho hipócrita dos pseudo-cristãos que caminham entre nós. Seja mais um abilolado, fechando os olhos para as causas reais das coisas, acusando demônios e outras entidades indefinidas da mitologia moderna como os responsáveis pelas falhas humanas. Seu bolso será mais leve, sua consciência será aplacada de todos os pesos, sua vida tornar-se-á simples: seja escroto com as pessoas à vontade, peça perdão nos cultos e pronto. Aí está o seu salvo-conduto. O Nazareno te ama, mesmo você sendo um saco de merda.

Ou abrace o que você é (um saco de merda!), aceite que determinadas pessoas - quando não todas - nada mais merecem, senão as batatas, e tome para si o cargo de arauto da vontade universal. E daí se você não tem o livro da verdade? Ninguém poderá provar! Até que surja um volume encadernado na gráfica celeste, assinado pelo altíssimo em pessoa, com direito a dedicatória ao apóstolo Paulo, não haverá o que temer.

Ser escroto é saudável, meu rapaz. Pode não apaziguar a sua consciência, mas chutar no diafragma alguém que espera tudo de você, menos maus-tratos, é das sensações mais divertidas que existem. Não há maior demonstração de grandeza de espírito do que engrossar inesperadamente com as pessoas e passar o resto da vida agindo como se tivesse razão, mesmo não tendo. Retratação? É para os fracos. Amigos? Ter um milhão deles só vale a pena se cada um te der um real. Ou dez reais, pra quê pensar pequeno? Do contrário, pura perda de tempo. Corra atrás de dinheiro, é mais importante. Dinheiro há de te trazer todos os amigos que você precisar, todos eles bajuladores baratos, lambedores de ego, masturbadores da sua auto-estima. Do que mais uma pessoa precisa? Sinceridade? Oras. Sinceridade é contraproducente!

Minta! Minta descaradamente. Minta até mesmo sobre as coisas mais simples, mais triviais. Comprou um tênis preto? Diga que adquiriu um branco. Ou nenhum, que na verdade pagou mesmo foi por um par de mocassins. Vai sair e voltar cedo? Afirme que voltará tarde, diga para não te esperarem de pé. Brigue, ao retornar, porque todos estão acordados. Não interessa se são sete horas da noite, não aceite desculpas baratas! Minta, seja escroto, insista que tem razão.

Os cretinos contumazes são as pessoas mais admiradas, o mundo está cheio de exemplos disso. Aqueles que adotam o pesado fardo da justiça, da bondade, da generosidade, da humildade, aqueles que resolvem trabalhar suas qualidades e suprimir seus defeitos, a esses resta apenas o escárnio, o pouco-caso do homem comum, que, incapaz de escalar tais paredões, prefere apedrejar os que se aventuram a subi-lo a ser alvo de acenos de criaturas inatingíveis.

Ao ver, do alto da sua muralha de desumanidade, as pessoas comuns levando suas vidinhas comuns, faça o que qualquer criatura de bom-senso faria: cuspa. Isso servirá de incentivo para que todos sigam seu caminho, nem que seja para te alcançar e cobrir de porrada. Veja, então, como são amplas as possibilidades da vida e surpreendentes seus meandros: ao diminuir um suposto semelhante, é possível motivá-lo. O trauma constrói o caráter.

Os que não agüentarem, os que, alvejados por sua metralhadora de imprecações, vergarem como capim sob o vento, se deixarem abater, se tornarem deprimidos, tentarem se matar, não deixe que te façam sentir culpado. Pense em si mesmo como a entidade humana encarregada de aplicar o teste de seleção natural. Quem sobreviver é apto. Quem não sobreviver, não o é, e merece o destino que tiver, não interessa quão desagradável seja.

Entomologia Aplicada I

Toda madrugada, entre 5h e 5h15, o mesmo fenômeno ocorre. E chamo de fenômeno porque, pra mim, é um acontecimento novo, imprevisível e que foge completamente à minha compreensão das coisas. Enfim, toda madrugada, entre 5h e 5h15m da manhã, uma abelha - uma, apenas - entra no meu apartamento e começa a voar enlouquecidamente ao redor da lâmpada da sala.

O que, para mim, caracteriza isso como fenômeno é o fato de que nunca vi uma abelha alucinar por causa de uma lâmpada. Pra mim esse comportamento - particularmente idiota - era natural de insetos reconhecidamente imbecis, como as lepidópteras (em especial as mariposas) e alguns coleópteros. Apesar de minha aversão a elas, e de achar o produto de seu esforço fedorento e desagradável - sim, me refiro a mel, própolis e todas essas porcarias que as abelhas produzem -, considerava as abelhas insetos superiores. Assim como as formigas, achava que eram um pouco mais inteligentes e organizadas, e que, apesar de demonstrar certa demência diante de comida, morrendo facilmente por alguns grãos de açúcar ou gotas de refrigerante, ao menos matavam-se por algo prático, útil.

Admito que me decepcionei com as abelhas.

Porque uma abelha que invade minha sala para voar contra a lâmpada, com seus movimentos erráticos e seu zumbido irritante, está cometendo suicídio desnecessariamente. Não está morrendo porque ferroou alguma ameaça a sua colméia ou porque, em sua busca por pólen, fez um movimento despropositado e terminou pisoteada por uma criança ou esmagada contra o pára-brisa de um carro. Está morrendo porque entrou no meu apartamento, onde não existe nada - NADA - que lhe possa ser útil!

Então repete-se esse procedimento: toda madrugada, por volta de cinco horas da manhã, uma abelha invade minha casa. Toda madrugada, por volta de cinco horas da manhã, minha atenção é desviada do filme que estou vendo ou do livro que estou lendo pelo ruído intolerável de asas membranosas batendo enlouquecidamente. Toda madrugada estico a mão até a lata de inseticida, por volta de cinco da manhã. E então assisto - com certa satisfação, inclusive - enquanto um inseto se contorce no chão da sala, experimentando sabe-se lá que grau de sofrimento e que espécie de sintomas, em uma agonia que me diverte bastante, durante dois ou três minutos que, para a abelha, devem ser intermináveis. Para mim são muito agradáveis.

Daí volto para meu divertimento saudável, enquanto me pergunto o que diabos há de errado com essas malditas criaturas.

Saibam, hymenópteras: esperava mais de vocês.

Dos mercados

Cristo, mas via-lhe as ruas?/
Também apenas as ruas, havia milhares delas, como fazem para escolher uma/
Para escolher uma mulher/
Uma casa, uma terra que seja sua, uma paisagem para olhar, um modo de morrer?

Se você lê esse blog há algum tempo, já deve estar familiarizado com o trecho acima, do livro Novecentos - Um Monólogo, porque já foi publicado aqui antes. Publiquei antes, e publico de novo, porque considero ser a verdade. A “minha” verdade, como está na moda dizer agora. O que a torna, para mim, a verdade absoluta. Se a “sua” verdade é diferente, para mim não é verdade. Logo, não sendo verdade, é mentira. Logo, foda-se, não me importo com ela.

Larguei meu emprego. Um emprego que odiava e no qual passei 2 anos. Dois anos da minha vida fazendo algo que detestava, dois anos que não voltam mais e que infelizmente não passaram rápido o suficiente. Dois anos fazendo algo intolerável, mas que tolerei por dois anos. E agora faço apenas a faculdade. E também odeio, e ainda falta PELO MENOS um ano para terminar. Mais um ano empenhado em algo que desprezo. Essa é minha vida.

Faço uma faculdade que odeio, como trabalhei em um emprego que odiava, pela razão mais cretina do mundo: porque “preciso fazer alguma coisa”. Todo mundo “precisa fazer alguma coisa”, porque é o que você faz que te define. Não QUEM você é, mas O QUE você é. E O QUE você é é imediatamente definido como sendo “O que você faz?”. Quem você é é subjetivo, intangível, indeterminado. Varia de acordo com o julgamento de quem observa, as circunstâncias, o momento. Isso não serve para quem precisa dizer quanto você vale. De acordo com esse critério, um estivador pode valer mais do que um engenheiro. Daí utilizamos o outro critério: O que você é? O que você faz? Isso é determinável, imediato, documentado. Existe comprovação, daí render méritos.

Tome como exemplo o seriado House. Quem você é - um homem escroto, intratável, sarcástico e mal-resolvido - empalidece, em termos de valor, em vista do que você é - um médico competente, com conhecimentos impressionantes dentro da sua área de atuação. Não interessa se a pessoa que você é destrata gente que precisa de atenção e cuidado porque está com dor, com medo e diante da possibilidade real de morrer a qualquer instante. Desde que o que você faz seja o suficiente para mantê-las vivas, qualquer mau-trato é relevado. Essa é a mensagem que House passa: sendo bom no que você FAZ, é aceitável ser ruim em quem você É.

O que eu faço é informática. É o que estudo, é com o que trabalho. E é a área mais cretina e inútil de todas as áreas de trabalho. Em termos de ilha deserta - dia desses explico o conceito aqui -, tenho menos utilidade que uma galinha. Mas não tenho outro refúgio. Faço o que tenho que fazer porque tenho que fazer algo. Estou próximo ao fim dos meus 20 anos, é a hora (passou da hora, na verdade) de decidir O QUE eu quero ser, já que QUEM você quer ser infelizmente não é uma questão voluntária.

Deveria ter decidido isso aos 18, 19 anos, como tanta gente faz, todos os dias. E eu acharia incrível que essas pessoas tenham essa capacidade, mas atribuo tamanha impulsividade à falta de maturidade e visão de futuro que são peculiares aos adolescentes. É tanta coisa para se fazer, mas TANTA. COMO alguém consegue decidir isso? Como alguém acorda e pensa “É isso que quero fazer, daqui pro resto da minha vida”? “É aqui que eu quero viver”? “É com ela/ele que quero ficar”? Existem TANTAS opções, putaquepariu. O que é preciso pra tomar uma decisão dessas? Determinação ou pequenez de espírito? O que quer que seja, me falta.

O problema é essa raiva que sinto em saber que faço algo que não gosto. Em TER QUE FAZER algo que não gosto, porque PRECISO fazer alguma coisa. Não interessa se serei infeliz, desde que tenha o rabo cheio de dinheiro. Se me sinto inseguro e sem qualquer aptidão para a coisa, já que dizem que nasci pra isso. Quem diz que nasci pra isso não sabe do que isso trata, o que isso requer e certamente não faz idéia para o que eu nasci. Mas quanto à última parte não posso criticar, pois também não sei. Sei para o que NÃO nasci, e é só. Não nasci pra ser jornalista ou publicitário, músico, engenheiro ou arquiteto, médico ou advogado, professor ou pesquisador. Entendo e concordo que citar Legião Urbana é caído, mas farei uso desta vez, e desta vez apenas: não há verdade maior sobre mim do que a frase “Acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto”. Infelizmente não vou faturar um centavo enumerando as coisas das quais não gosto, ou ficaria milionário, certamente. É triste, mas o “mercado”, essa entidade superior e intocável, nos força a isso. A fazer coisas que não queremos para conseguir dinheiro e comprar coisas de que não precisamos.

Tyler Durden, nessa tamos juntos, amigo.

Das pseudoliteraturas

Ano passado, graças a um professor bastante obtuso - em matéria de leitura - da faculdade, tive que ler O Monge e o Executivo. Foi das experiências “literárias” mais desagradáveis que tive. E começou antes que eu começasse a ler.

Os libertários das letras, esses que acham que tudo vale a pena ser lido, quando a alma não é pequena, pois em tudo há algo a ser aprendido, começam agora, timidamente, a entoar seu coro de “Preconceituoso!”, “Elitista!”, “Fedorento!”, “Cretino!”, “Perneta!” e etc. Ignoremo-los enquanto é tempo e vamos adiante. Pois bem, a tortura começou antes da leitura. Se você nunca ouviu falar d’O Monge e o Executivo (e eu o saúdo de volta do seu coma de uma década), é um desses livros que os gerentes de RH da tua empresa adoram e são ditos “motivacionais”, que é outro termo pra “literatura rasteira de auto-ajuda pra gente sem critérios ou sinapses suficientes pra compreender/superar os próprios problemas sem mantras e moralismos fáceis sugeridos por espertalhões que descobriram um jeito de encher o rabo de grana explorando a fraqueza intelectual alheia”… ok, é bem mais curto chamar de motivacional mesmo. Não fosse o fato de ser auto-ajuda da braba - embora haja quem negue este viés fervorosamente -, ainda é daqueles livros que ficam meses a fio na lista dos mais vendidos do New York Times (por conseguinte, da Veja, que acha que é a versão semanal e brasileira do NY Times).

Sinceramente, nenhum dos livros que perduram nessas listas de “mais vendidos” vale muita coisa. Seja O Monge e o Executivo, O Caçador de Pipas, A Menina que Roubava Livros, Onze Minutos, Harry Potter, Crepúsculo… é tudo lixo. É, eu disse isso mesmo: é lixo, é subliteratura. É tipo esse blog aqui: vale porra nenhuma em matéria de conteúdo. Até um macaco pode “entender” todos os livros já citados na lista dos mais vendidos da veja, por uma razão simples: não há o que ser apreendido em nada daquilo. Todas as mensagens - quando há alguma - já vêm mastigadinhas, prontas para absorção e repetição. Não há a proposição de um pensamento que leve a alguma conclusão, apenas conclusões já prontas e embaladas pra consumo imediato. É o fast food dos livros. É o mais baixo da escala literária.

(O coro dos libertários das letras engrossa agora. Diante de tal platéia, até o fim do texto eu seria linchado)

O Monge e o Executivo não foge dessa linha. Trata de um sujeito que recebe um telegrama da consciência cósmica universal mandando que ele se enfie num mosteiro e passe uma semana assistindo aula de motivação ou coisa semelhante de um ex-grande-executivo, agora monge, que se enfiou lá permanentemente há alguns anos.

Tá, não é BEM assim que as coisas acontecem. Existe todo um papo “místico” que “explica” uma série de “coincidências” que conduzem a essa situação, mas é balela, como tudo mais que há no livro. Porque, veja, o autor do livro não teve a moral de escrever um tratado a respeito de normas da administração e gestão de equipes. É preciso ter bagos pra fazer isso e se meter a contrariar ou complementar idéias de caras que são referenciais quando se fala de gestão de empresas. Como você, ilustre desconhecido, chega e diz que pode melhorar as idéias de Henry Ford, Frederick Taylor ou Peter Drucker, por exemplo? Ou, pior, derrubá-las? Quem te daria crédito? Sua mãe, talvez um dos seus irmãos. E só.

Ciente disso, o autor do livro, James Hunter, parte pra essa ficçãozinha babaca a respeito de um curso motivacional de sete dias em um mosteiro. Enfia seis ou sete personagens, explica suas idéias de modo repetitivo na forma de diálogos pouco inteligentes e, o pior de tudo, não poupa o leitor de referências religiosas, que é a estratégia mais batida para se vender uma idéia, já que o homem ocidental comum, cristão, não questiona nada que tenha religião envolvida. A partir do momento que você menciona Jesus como justificativa ou exemplo de algo, se saca uma passagem da Bíblia para corroborar sua idéia, se mete algum nível de “misticismo” no negócio, cria um dogma. Para a maioria das pessoas, aquilo passa a ser indiscutível. Esperto, hein? E se você acha que estou inventando isso agora, que é uma viagem retirada da minha cabeça, repare na quantidade de livros de auto-ajuda que envolvem religião/misticismo. A Cabana (SIM, aquilo É auto-ajuda, ainda que neguem!); Comer, Rezar, Amar; Jesus - O Maior Psicólogo Que Já Existiu… vá à livraria mais próxima e confirme.

O negócio é que sou um herege maldito. E se um idiota me diz que Jesus Cristo foi um belo exemplo de líder, imediatamente ressalto o ponto do hippie-pai-de-si-mesmo ter liderado apenas 12 sujeitos. Dentre esses 12, um fazia questão de levantar dúvidas sobre tudo o que o JC falava; o segundo, teoricamente seu seguidor mais próximo e confiável, teve a pachorra de negá-lo não uma, não duas, mas TRÊS vezes, ao levar uma dura dos home; o terceiro foi ainda mais longe: vendeu o chefe por trinta dinheiros!

Uau, isso que é um líder bem-sucedido! Isso que é inspirar lealdade! Se o maior líder da história da humanidade teve VINTE E CINCO POR CENTO de rejeição de seus seguidores diretos, imagino quão triste foi a trajetória do pior deles. Acho que até o general romano Crasso, responsável por combater os escravos rebeldes liderados por Spartacus, foi mais feliz em sua carreira. Sinceramente, Hitler teria sido uma citação mais feliz.

Outra estratégia simplória usada pelo autor - e que funciona, caso você tenha se afogado durante a infância e perdido parte das funções cerebrais por prolongada falta de oxigenação - é enfiar um personagem contrário aos ensinamentos do tal monge. Então temos uma turma de cinco alunos (ou seis, agora não me lembro direito), sendo que quatro (ou cinco) concordam, repetem e exemplificam tudo o que é dito, enquanto o quinto (ou sexto) contradiz, contraria e escarnece o tempo inteiro. “Divertido!”, você pensa, “Eu vou gostar desse cara!”. Não vai, corrijo eu: esse cara consegue ser mais idiota do que os outros. Freqüentemente minha vontade era concordar com o tal “Simeão”, pois estar do mesmo “lado” que alguém tão imbecil abalava sinceramente meu amor-próprio.

Considere que alguém diz uma asneira qualquer, levanta uma falácia dessas bem ridículas e infantis, fáceis de derrubar sem qualquer esforço argumentativo. Imagine que, diante da tal besteira dita, existam 10 respostas diferentes, sendo nove delas capazes de desarmar o responsável pela baboseira e a décima sendo uma baboseira ainda maior, apesar de contrária. É esta a opção adotada pelo amigo contrário aos ensinamentos. E é compreensível, afinal. O autor não inseriria, em sua suposta “tese” a respeito da gestão de pessoas e administração de equipes, argumentos realmente consistentes contra seus ensinamentos. A menos, claro, que fosse capaz de elaborar boas respostas, capazes de superar as réplicas levantadas. Duvido que o cidadão tenha essa capacidade. Requer um puta embasamento e muita inteligência.

É disso que o livro se trata, afinal: de uma obra em formato de ficção - por falta de coragem -, cheia de argumentos vazios - por falta de competência - e que finge se contrariar, mas falha - por falta de inteligência. É um livro onde falta tudo, mas que está sempre nas listas de mais vendidos. Porque nas livrarias, atualmente, o que não falta é trouxa.

E eu deveria ter escrito ISSO no review que entreguei pro professor - até porque acabei trancando a faculdade semanas depois -, mas achei que seria mais prudente exercitar a política da boa vizinhança. Deixei passar uma grande oportunidade. Pena.

Mas outras virão. Gente ignorante sugerindo livros ruins tá sobrando…

Passa gelol que passa!

Olá. Olá, você, que lê este blog sabendo com o que vai se deparar, sabendo que uma opinião que contrarie a tua te espera no próximo texto. Olá.

Senta aí um minuto, deixa eu te explicar um negócio. Tendo tempo suficiente aqui, você já leu isso algumas várias vezes e eu poderia apenas linkar ou republicar um desses textos que dizem o mesmo que será dito agora, mas por que perder a chance de exercitar minha verve, repetir o óbvio, “redizer” - e se o termo não existia, acabo de assinar seu decreto de criação - o que já foi exaustivamente dito? Vamos, deixa eu falar. Sentou aí? Tá confortável? Tá felizinho? Tá? Bicha!

Pois o caso é o seguinte: existem duas maneiras de ofender alguém: uma delas é você ofender a pessoa. A outra é a pessoa se ofender com você. E são coisas diferentes. Explico:

Você está usando um óculos wayfarer. Eu te abordo e digo “Ei! Ei! Por que tu usa isso, hein? É feio pra caralho, sério. Já se viu no espelho com essa porra? Já? Mesmo? E achou bonito? Certeza que não era daqueles espelhos que distorcem as coisas? Porque, cara… cara, olha só isso. Isso é feio pra caralho, cara. Tu acha mesmo isso bonito? De verdade? E merda, você come?”. Eu estou te ofendendo.

Eu, quieto no meu canto, ou ao ter minha opinião solicitada, digo que acho óculos wayfarer feio pra caralho. Que os anos 70 vão ligar e pedir o apetrecho de volta pra quem tá usando. Você se ofende. Você está se ofendendo.

No primeiro caso, qualquer aborrecimento é natural e justificável. Eu inclusive mereço levar um murro na cara por bancar a Annoying Orange. No segundo você está sendo uma bicha fresca do caralho e chilicando porque não acho bonita essa merda que vossa senhoria insiste em colocar na cara. Está alegando que emitir um juízo negativo sobre o que você usa é, sob algum aspecto absurdo e deturpado, uma maneira de te tolher, te impedir de ser feliz do seu jeito. Pois saiba: eu APÓIO o seu mau gosto. SEJA FELIZ sendo ridículo, se é o que te apraz. Ninguém, nem mesmo eu, tem o direito de te impedir de usar o que você quiser usar, vestir o que quiser vestir, andar com quem quiser andar. É seu direito e juro que sairia na porrada por ele, se necessário fosse.

Da mesma maneira, não há no mundo quem diga que não posso me manifestar negativamente a respeito das coisas. Uma crítica não é uma proibição, uma afronta ou uma ofensa, e é uma pena que qualquer um se sinta assim, porque esse é um sintoma de um defeito intolerável, grave, particularmente brasileiro: o melindre. Gente melindrada é aquela com quem você precisa pisar em ovos, ou eles pisam nos seus. É gente que tá sempre em carne viva, se deixa ferir por qualquer fagulha e não agüenta ser contrariada. Gente sem auto-estima, incapaz de fincar o pé no que acredita e dizer, ao ouvir tuas opiniões ruins: FODA-SE. Saber tocar um foda-se direito é essencial. Saber ignorar a opinião dos outros sobre o que você pensa, porra, isso é uma arte.

Eu ouço trocentas bandas criticadas duramente por 99% das pessoas que conheço. E ouço mesmo, e canto as músicas e tudo. Estão no meu last.fm e mando tomar no cu sempre que alguém vem encher meu saco por gostar daquilo. Mas não vou xingar quem, sem me dirigir a palavra, fala mal da parada. Sério, NO QUE isso afeta a minha vida? POR QUE DIABOS eu consideraria isso uma afronta? Qual a diferença, no plano geral das coisas? Que grande alteração na minha existência tem a opinião, a respeito do que escuto, de um camarada que mora na esquina da puta que pariu com a casa do caralho? MEU VIZINHO pode não gostar do que ouço e isso não muda em nada o fato de eu ouvir ou não.

Pra mim, minha opinião é superior. Meu gosto é superior. Você, se discorda, é um imbecil e tem mau-gosto. Não sabe de nada e eu sou o dono da razão. POR FAVOR, sinta-se da mesma maneira a meu respeito! Considere-me um imbecil e ESQUEÇA o que eu disse, se o que eu disse te contraria. Não vai me ofender ou me incomodar, juro. Isso não impede nossa convivência pacífica, isso não inviabiliza um diálogo amigável, ainda que cheio de provocações e piadas!

Mas não me venha cobrar satisfações, demonstrar magoazinhas ou querer mudar minhas idéias. Não tente. Gente melhor já falhou nessa empreitada. Você é um bosta e não vai conseguir. Me deixe em paz e prometo que não vou importuná-lo. Não esfrego opiniões na cara de ninguém, sequer ofereço. Solicita quem quer. E freqüentemente nego, inclusive.

Então, se tua opinião tá apoiada em palitos, se teus gostos são um castelinho de cartas e qualquer soprada mais forte joga tudo ao chão, se você precisa reafirmar suas razões de ouvir o que ouve, ler o que lê, assistir o que assiste, gostar de quem gosta, e etc, etc, etc, fica longe de mim. É mais saudável pra sua cabecinha. Vai se cercar dos seus amiguinhos que vão te aplaudir, invariavelmente. Se tranca na sua bolha e seja feliz.

Mas se tu güenta o tranco, se suas opiniões estão apoiadas em pilares e não se abalam com qualquer pancadinha, se você sabe que o que eu penso a respeito do que você curte é irrelevante, chega mais. É desse tipo de gente que eu gosto: de quem não toma as coisas pra si e entende que democracia não é eu não poder falar mal do que você acha bonito, mas o contrário. É você ter o direito de gostar do que eu não gosto e vice-versa.




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