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Dos meandros insondáveis

É o seguinte: se você estiver lendo este post, só há uma conclusão a tirar. A saber: você não é analfabeto.

Não, espera. Não era isso que eu ia dizer. Claro que “você não é analfabeto” é uma conclusão lógica, pois, se fosse, não estaria lendo este post. Mas aí entramos no campo das minúcias, daqueles detalhes aparentemente irrelevantes, mas que são cruciais para levar você, leitor, a ler este blog, este post, estas palavras, esta pessoa que escreve agora. São muitos detalhes, e se você resolver parar pra pensar em todos, pode ir à loucura. De verdade. As coisas acontecem sempre de forma tão encadeada, e a gente ignora de tal maneira esta seqüência (com trema, olha que simpático!) de acontecimentos, que, quando enumerados, quando dispostos em fila, quando mencionados, quando damos por eles, enfim, são tantos e tantos que chega a ser curioso que possamos ignorá-los com tamanha displicência.

Eu disse, por exemplo, que você só está lendo este post porque não é analfabeto. Ok, essa é fácil. Mas existe um segundo fator: você só está lendo ESTE post porque EU não sou analfabeto. E você também só o lê porque, além de ser alfabetizado, o foi em português, este tão vilipendiado e pouco falado idioma, a última flor do lácio, inculta e bela e agora cheia de idéias sem acentos. Camões remoer-se-ia no túmulo. Fica esta mesóclise em sua homenagem, meu (em breve) compatriota.

Mas voltando ao raciocínio anterior - se é que havia algum -, fomos ambos alfabetizados na língua portuguesa, cada um a seu tempo (o momento em que fomos alfabetizados, e isso lá é verdade, não faz diferença alguma, não é um daqueles detalhes cruciais mencionados nos parágrafos anteriores), e falarmos o mesmo idioma é o que permite que eu, munido da habilidade, do desejo e da falta de bom-senso que me move a fazer solilóquios dessa natureza, me comunique, ainda que de maneira capenga, com o senhor, ou a senhora, ou a senhorita, ou tu mesmo, sua bicha, que homem jovem a gente trata é assim, sem pompa nem circunstância.

Da mesma maneira, o que leva este texto a chegar até você vai ainda mais longe. Em primeiro lugar, você tem uma conexão com a internet. O que, se pararmos pra pensar, é uma coisa muito bacana. A gente trata a internet como algo garantido, como se sempre fosse estar aqui, ou como se sempre estivesse estado (estivesse estado é escroto, eu tentei pensar em outra estrutura pra essa sentença, mas admito, derrotado, que me escapou, oh, a incompetência redativa!). E, na realidade, todo esse universo peculiar feito de computadores interligados, que, por sua vez, interligam e separam pessoas com muito mais facilidade do que seria imaginável, é coisa até bem recente. De quinze anos pra cá, e olhe lá. O google tem apenas dez anos, e já nos perguntamos como diabo a vida era possível sem essa porcaria, antes.

Mas agora todo mundo tem internet. Todo mundo acessa o google, pesquisa a vida dos outros, entra no orkut, joga colheita feliz, faz perfil no facebook, dá like quando um desafeto toma um pé na bunda, entra na wikipedia, descobre que a capital da Austrália na verdade é Camberra, entra no IMDB, paga de cinéfilo conhecedor da carreira de todos os atores, enfim… hoje em dia tudo é muito mole, a vida é jogada no easy. E tudo isso por causa de 13 servidores principais que mantêm a internet rodando. Sim, você leu direitinho: existem 13 computadores principais, os responsáveis por manter esta conexão que permite que você, desocupado, perca seu tempo com esses 6 enormes parágrafos de baboseiras irrelevantes.

Mas não bastava só isso. Não bastava apenas você e eu sermos alfabetizados em português, você e eu termos conexão com a internet. Eu e você temos computadores, apetrechos de engenharia intrincada, cheios de circuitos miniaturizados, com processadores capazes de pensar mais rápido do que qualquer pessoa, que conseguem até mesmo ganhar de um russo no xadrez, que transformam zeros e uns em pornografia à sua disposição, a qualquer hora.

E ainda assim isso não é o mais importante! Existem milhões de pessoas, no mundo, que têm computadores. Bilhões, talvez. Destas, milhões - novamente: bilhões? - acessam a internet. Dentro desses milhões, alguns outros milhões são de pessoas alfabetizadas - praticantes ou não - em português. E ainda assim não são esses milhões que estão aqui. Não são milhares de pessoas lendo este blog. São, quando muito, cinqüenta pessoas (não acredito nos números fornecidos pelo facebook e pelo google reader). Estas cinqüenta pessoas chegaram aqui de alguma maneira. E esse é um grande mistério. Porque eu sei, e elas sabem, que elas têm um computador. Também compartilhamos o conhecimento de como entrar na internet e digitar a url desta página no navegador. Também lemos e escrevemos em português, isto é ponto pacífico.

Mas a verdade é que essas pessoas, essas cinqüenta pessoas, chegaram até aqui pelo google - e se não houvesse o google? -, pela indicação de um amigo - e se o amigo nunca tivesse nascido? -, via twitter - e se eu não tivesse mudado minha postura em relação àquilo? - ou sabe-se lá como. E, se bobear, nem se lembram como me alcançaram aqui, eu e meus resmungos inúteis, todas as minhas palavras irrelevantes, neste recôndito obscuro da internet.

Mas me alcançaram. E aqui estamos nós: eu escrevendo e você lendo. O que me leva a uma simples pergunta:

Tu não tem nada melhor pra fazer, não?

Dos informes

Em certas épocas, tudo o que escrevo, o que escrevi e mesmo a idéia de escrever se mostra, para mim, terrivelmente enfadonha. Não é bloqueio de escritor, pois escritor eu não sou. É mais um surto de autocrítica exasperada. É como um abrir de olhos abrupto, um cair em si repentino. Subitamente começo a achar que tudo o que já rabisquei neste blog - publicado ou não - é horroroso e repetitivo, que sou incapaz de escrever qualquer coisa nova, que tudo o que publicar será apenas mais do mesmo, redundâncias dispensáveis, sem inovação alguma, seja no assunto, na abordagem, no formato, no linguajar… Tenho a sensação de que não sou capaz de fazer nada que não seja totalmente dispensável. Exatamente por isso, não faço nada. Amasso e jogo fora as idéias antes que elas cheguem a tocar o papel. Me convenço de que escrever não é pra mim, não é para o que sou talhado, e vou fazer outras coisas. Todas as vezes em que isso acontece, acredito que será a última e que largarei essa atividade ingrata para o resto da vida. Em todas as vezes anteriores, justamente quando a indignação quanto à minha inaptidão arrefecia e dava lugar à placidez de quem aceita seu lugar e suas funções e desiste de morder mais do que pode mastigar, surgia a inspiração, aquela vagabunda, e, me pegando de sopetão pelo colarinho, me jogava aqui, de onde saía um texto com a sofreguidão de um grito abafado. Daí o blog ressurgia de suas cinzas e retomávamos o ritmo de antes - veloz, em sua era inicial, sazonal, após o segundo ou terceiro ano de vida. Fazia as pazes com minhas linhas porcas e voltava a garatujá-las com a mesma desfaçatez e falta de vergonha na cara de antes.

Estou num desses momentos iniciais, entretanto. Em que tudo o que penso em escrever já foi escrito por alguém melhor, com maior conhecimento de causa, com maior controle do vernáculo, com mais animação, com mais criatividade, com mais o que quer que seja. Daí o silêncio prolongado, que pode durar até amanhã ou daqui até o fim do universo - o que vier primeiro.

Tenham paciência e aguardem, ou abandonem este recinto. Para mim, como de costume, tanto faz como tanto fez. Um forte abraço.

Dos rompantes de genialidade I

Batman do futuro é um desenho que se passa no futuro (dã!), muitos anos depois de… bom, de agora, mas não o suficiente pro Bruce Wayne ter morrido. Ele só é bem velho e tem a cara do Clint Eastwood.

Daí tem esse episódio no qual o Terry McGinnis, que é o sujeito sob a roupa do Batman, tá investigando uma série de crimes que envolvem ataques de esquizofrenia. A pessoa começa a ouvir, dentro da cabeça, uma voz que dá ordens do tipo “Roube isso”, “Mate fulano”, etc. Acaba obedecendo, achando que é a voz da consciência ou coisa parecida, quando na verdade é um chip implantado pelo vilão, que permite que ele se comunique com a pessoa pelo ouvido interno.

(Eu sei que é um argumento raso, mas estamos falando aqui das histórias de um homem que anda pela cidade com colante e um morcego no peito, e os criminosos têm medo dessa pessoa. Medo, não pena. Medo. Argumento raso por argumento raso, fique com este.)

A situação toda dá merda quando o criminoso tenta usar esse truque com o Bruce Wayne, por qualquer razão. Wayne desvenda a situação, manda um “Pega, McGinnis”, o pau come, Batman prende o vilão, essas coisas. E aí, no final, lá estão Bruce Wayne e Terry Mcginnis conversando a respeito do caso, e o guri pergunta ao velho como ele soube que era um truque, não era a voz da cabeça dele.

Bruce Wayne sorri e diz “A voz ficava me chamando de Bruce. Não é assim que eu me chamo dentro da minha cabeça.”.

Essa fala do Bruce Wayne em Batman Beyond, SÓ essa, define o Batman melhor do que qualquer filme do morcego, melhor do que Ano Um e Cavaleiro das Trevas. Melhor do que qualquer coisa do Batman que você tenha lido.

Chupa, Frank Miller.

(Não vou tirar conclusão nenhuma sobre isso, só queria comentar e era grande demais pra falar no twitter. Tá aqui, então.)

Dos miseráveis travestidos

O pior elogio que alguém pode fazer ao meu blog ou ao que eu escrevo é sugerir que eu deveria trabalhar com isso, ou dar um jeito de ganhar dinheiro com essas coisas. Felizmente não é uma sugestão que ouço muito, por razões óbvias, mas ainda assim me surge, eventualmente. E embora compreenda que quem me diz isso tem em mente a melhor das intenções e o mais alto dos elogios, é difícil responder com qualquer outra coisa além de um menear de cabeça e um olhar de reprovação. Pode ser uma forma de elogio, pode ser de coração, respeito isso tudo. Mesmo assim é uma lisonja muito mal-pensada.

Eu tenho um sério problema com dinheiro: não dou a isso a menor importância. É claro que gosto de comprar coisas caras, como videogames, computadores, um bom par de tênis, um mp3 player de qualidade, um presente pra mulher, uma passagem pra qualquer lugar que me dê vontade de ver. Pra me suprir dessas necessidades existe a informática. Existem meus bicos de tradução. Existe qualquer outra coisa que eu faça, fora escrever. Escrever não serve pra isso. Escrever é algo que levo a sério, diferentemente da informática, das traduções, de qualquer outra merda que me renda uns caraminguás pra ter o que jogar no corpo, um teto sobre a cabeça e um lugar pra cair quando estiver cansado.

Escrever vai além do dinheiro, escrever é minha maneira de buscar a verdade - estou sendo bastante piegas, mas porra, reservo-me o direito. Vender a caneta, jamais. Não tenho a pretensão de estar fazendo literatura, mas talvez esteja. E talvez não esteja, que se foda isso. Dizer se é literatura ou não é só outra maneira de mensurar economicamente, o que é uma forma de diminuir tudo para caber num padrão, numa linha de pensamento que é simplista, utilitária, que não é onde eu trabalho. Mas que diabos que numa era em que todo mundo tenta enfiar uma ideologia em tudo, ainda tentam arrancar o cunho ideológico de qualquer coisa e trocar por cifras, puta que pariu três vezes de cócoras!

Sou um anacrônico em relação a isso, tenho total consciência. A internet é feita de gente que “escreve” - uso o termo com bastante liberdade aqui - alucinadamente com um objetivo muito simples: transformar isso num ganha-pão. Não é uma busca por qualquer outra coisa que não seja viver diante do computador, escrevendo sob demanda. E esta demanda pode ir desde a produção de um post até a veiculação de idéias (todas sem acento). Pagando bem, que mal tem?

É o mal do século. Um dos, sei lá quantos outros já enumerei aqui. Não existem princípios ou coesão, só existe o “quem paga mais?”. Consigo listar, de cabeça, pelo menos dez blogs de gente assim, que bate no peito para falar que tem credibilidade, quando na verdade tem apenas uma caneta de aluguel, pronta a distribuir pelo papel os mais profundos elogios, se estiver sendo bem-paga. Pesquisando internet afora, certamente conseguiria bem mais de cem. E iria por terra o que resta da minha crença na humanidade, então não cairei nesse erro. A verdade é: desses dez blogs que eu apontaria, pelo menos CINCO você costuma ler, seu idiota. Isso se não fizer parte de algum, o que é ainda pior.

Não bato no peito pra apregoar credibilidade, não garanto serem verdades as coisas que publico aqui, não peço nem quero confiança alguma de ninguém. Escrevo por compulsão, quando ela bate - e bate cada vez menos - e por prazer, que também anda muito sumido por estas paragens, então seria mais justo dizer que é por mera teimosia. Mas escrevo com sinceridade, e ainda que minta, não minto em benefício de ninguém. No máximo, pelo meu entretenimento, mas alguém tem que se divertir nesta merda. Ninguém perguntou - e ninguém perguntará jamais, porque sinceridade é contraproducente -, mas eu não estou à venda, tampouco estão minhas palavras. Se dinheiro é tudo o que você tem a oferecer nesse mundo, como elogio às coisas que gosta, se é assim que avalia sucesso, se essa é sua idéia de reconhecimento… então tenho muita, muita pena de você.

Você é pobre pra caralho.

Das crônicas

Coisa de duas semanas atrás fui ao centro e me deparei com uma série de sebos armados no meio da rua. Bisbilhotando, Fernanda encontrou um exemplar maltratado de uma quarta edição d’A Cidade Vazia, do Fernando Sabino, pelo valor nababesco de R$ 2,00. Comprou, sem pestanejar. Gostaria de tomar o mérito do ato, mas não me permito. Foi ela quem fez o grande negócio.

A Cidade Vazia é um apanhado de crônicas da época em que o autor vivia nos Estados Unidos, e não tem muito daquele humor sutil de mineiro que caracteriza livros como O homem nu ou A falta que ela me faz. Deixa transparecer até uma boa dose de melancolia, resultado da solidão decorrente da vida no exterior. De todas que já li, considerei uma, em particular, digna de menção. Vou transcrevê-la aqui, ainda que sob pena de quebrar algum tipo de lei de direito autoral ou coisa que o valha, então deixo claro que o texto que segue não foi escrito por mim, dele não tiro quaisquer proventos e sobre o mesmo não tenho nenhum direito. A publicação é mera homenagem, e me prontifico a retirá-lo do ar se sua transcrição neste blog porco lesar, de qualquer maneira, os responsáveis pela obra.

Estendendo um pouco mais este preâmbulo, adianto que redigitei o texto na íntegra, ipsis literis, com todas as quebras de linha, vírgulas e acentos em palavras não mais acentuadas. Tanto por respeito ao formato original quanto em protesto contra a tal nova ortografia.

O Juramento

Melvin C. Roberts, canadense e secretário do conhecido milionário americano Cornelius Vanderbilt Junior, suicidou-se aos 27 anos de idade.
O comitê de investigações encarregado de esclarecer as circunstâncias do suicídio concluiu, depois de ouvir Vanderbilt, que o rapaz teve aquêle fim “como resultado de sua tormentosa experiência”.
Que experiência foi essa? O próprio Vanderbilt, no seu esclarecimento, nos dá a resposta. E de repente Melvin C. Roberts deixa de ser mero nome perdido na seção obituária dos jornais, lembrança a apagar-se com o tempo entre parentes e amigos, acontecimento cotidiano no registro policial. Já não se trata de simples tragédia doméstica que deixará atrás de si uma pobre mãe desconsolada e uma noiva desiludida. Nem ficará sendo apenas um momentâneo aborrecimento para o milionário Vanderbilt, que terá de procurar nôvo secretário.

No dia 9 de agôsto de 1945, um campo de concentração no Japão foi libertado pelas fôrças americanas. Entre outros, oito homens maltratados e famintos tinham escapado à morte lenta das torturas diárias, depois de quatro anos de cativeiro. Eram dos mais antigos, e milhares que com êles entraram naquele inferno jamais chegaram a sair. Tinham todos pouco mais de vinte anos, mas o sofrimento vivido em comum lhes deu outros vinte. Juntos suportaram a fome, o excesso de trabalho, a humilhação, o mêdo e a desesperança. Foram finalmente selecionados como cobaias humanas para inoculação de doenças e experimentações de cirurgia. Conheceram, uma por uma, tôdas essas formas de sadismo que os jornais e o cinema já divulgaram, para o erguer de ombros dos céticos e a meia hora de mal-estar dos temperamentais. Já não temiam a própria morte: temiam que o mundo não soubesse colhêr dela ensinamento algum, que o mundo não merecesse aquêle sacrifício. Então fizeram um juramento: se por milagre saíssem de tudo aquilo com vida, se recusariam a viver, caso não fôsse possível um mundo pacificado e feliz.

Nunca mais se encontraram. Dispersaram-se pelos quatro cantos do mundo, experimentando recomeçar a vida. Com o fim da guerra as nações se reuniram, tentando consolidar a paz. No mundo haveria agora oportunidade igual para todos, sólida esperança ligaria todos os homens, o mêdo e o ódio não resistiriam às novas formas de viver que se ofereciam. Assim era o mundo no ano que se seguiu, quando, exatamente no dia 9 de agôsto de 1946, a crônica policial de uma cidade qualquer dos Estados Unidos registrou sem maiores detalhes, entre notícias de pequenos furtos, atropelamentos e agressões, o suicídio de um veterano de guerra.

Os homens às vezes se suicidam, veteranos ou não. Dizem que isso é natural. São os desiludidos da vida, os fracassados, e perfazem com seu “tresloucado gesto” um acontecimento normal de seleção na luta dos interesses, que o próprio desengano da vida se encarrega de explicar. É natural também que os veteranos tenham, como os outros homens, seus problemas íntimos para os quais vão buscar na morte a solução. Pouco tempo mais tarde, ainda em 1946, numa cidade da Inglaterra, outro veterano da guerra do Pacífico se matou.

E assim, sucessivamente, êles foram desistindo de viver. O suicídio de um rapaz no Estado de Nebraska coincidia com o de outro na Califórnia. Ninguém ficou sabendo por que num bar de Chicago um homem tomou veneno, ou no seu quarto de Filadélfia um homem deu um tiro na cabeça, ou numa colina do Maine um morto foi encontrado, ou nas águas do Rio Hudson um corpo se afogou. É possível mesmo que ninguém chegue a saber jamais como foi que êles morreram, nem quando, nem onde, nem por quê.

Na cidade do Reno, Estado de Nevada, Melvin C. Roberts, um rapaz de 27 anos, abandona o jornal sobre a perna, olha a noite pela janela de seu quarto e espera. Em que estará pensando? São dez horas da noite e lá fora a cidade parece calma, tranqüila, feliz. Homens e mulheres se encontram, se despedem, trabalham e descansam, vivem e morrem. Melvin C. Roberts pensa neles, pensa no tempo que passou. Pensa nos destinos do mundo, Melvin C. Roberts.
Levanta-se e caminha até a janela, como se tão vasto pensamento o obrigasse a receber de pé a brutalidade de suas conseqüências. O jornal deslizou para o chão, aberto na terceira página, e o nome familiar na pequena notícia se perde num emaranhado de letras. Êle ergue os olhos para o escuro do céu onde estrêlas esparsas mal se vêem, neutralizadas pelas luzes da rua. Parece tentar colhêr da noite um conselho, uma advertência. Mas a noite não lhe diz nada. Os pensamentos de nôvo se avolumam, recompõem as mesmas imagens de horror. O tormento de lembranças lhe vem mais uma vez em sucessão monótona: são os mesmos rostos de olhos repuxados, a mesma voz dissonante dos guardas, o mesmo cheiro de sangue. Pensa no sacrifício inútil que cinco de seus companheiros já completaram. Melvin C. Roberts está pensando na morte. São onze horas a noite de 9 de agôsto.

Seu corpo foi encontrado no dia seguinte sobre a cama – um vidro de pílulas sedativas a seu lado, completamente vazio. Escapou a todas as formas de morte violenta nas mãos dos japonêses e procurou a maneira mais tranqüila e confortável de morrer. Segundo afirmou no seu depoimento o milionário Vanderbilt, o rapaz vivia ultimamente num constante estado de depressão e se queixava de horríveis sonhos com seu internamento, as torturas que sofreu.
Encerrando os trabalhos, o comité de investigação no Reno resolveu considerar a sua morte como sendo “mais uma honrosa perda de guerra”. Com isso autorizam o esquecimento em tôrno de seu nome.

Mas Melvin C. Roberts não será esquecido, como os outros cinco. E não será, simplesmente porque sabemos agora que ainda restam dois.

Que terá sido dêsses dois? É possível que um já tenha esquecido o juramento feito, esquecido seus sete companheiros, e num bangalô em Miami Beach ou numa pequena fazenda do Texas, já casado e com filhos, procure esquecer também o mundo e seus problemas: esta foi a maneira que escolheu de suicidar-se.
Mas, e o outro? Neste último é que está, sem que o saibamos, o nosso mêdo e a nossa esperança. Vejo-o lendo àvidamente os jornais de hoje em Nova Orleãs, São Francisco, Detroit ou em Bunn, na Carolina do Norte. Vejo-o passando ao meu lado nas ruas de Nova Iorque e o desconheço. Ninguém sabe quem ele é. Ninguém sabe que o destino do mundo se subordinou ao destino dêste homem. Poucos conhecem esse veterano distraído, com o olhar vazio dos prisioneiros. No seu andar um tanto incerto não há nada revelando que êle caminha a passos firmes para a morte. Indiferentes a êle, os políticos continuam se reunindo em assembléia, para decidir a sorte do mundo. E a sorte do mundo está hoje dependendo apenas da vida dêsse homem. Mas quem será êle? Ninguém sabe ou se preocupa em saber. Êle vai andando em meio à multidão como um autômato, anônimo e despercebido. Seus dedos deslizam pelo bôlso do paletó, acariciam lentamente o revólver, lembrança ainda da guerra, e esperam.
Numa esquina qualquer de uma cidade qualquer, um homem espia passivamente o movimento ao seu redor e espera o instante de condenar o mundo com a sua morte. Seus dedos apertam a arma, o braço se ergue, e ela se volta em direção ao peito magro onde o coração se maltrata. Tenho ainda uma violenta esperança de que alguma coisa aconteça, algum milagre impeça a morte dêsse homem.

Fernando Sabino.

Das coisas que se ensaia dizer…

…mas não se diz.

Fico sem saber o que é pior: ter sobre o que escrever, sem ter ânimo, ou sentir uma arrebatadora vontade de escrever sem ter assunto para tanto. Considero que, neste momento, estou exatamente na união destes dois casos: não tenho sobre o que escrever e não tenho ânimo. Escrevo assim mesmo, entretanto, porque, como já disse aqui antes (disse? Não tenho certeza, mas devo ter dito, digo sempre as mesmas coisas, e geralmente do mesmo jeito, sou terrivelmente repetitivo e até, vou além, bastante pleonástico. Mas não quero falar disso, este parêntese está ficando gigantesco, vou fechá-lo agora e acabar com esta putaria, repare) enfim, como dizia que disse aqui antes, digo: eu me odeio e gosto de me contrariar.

Acho que tem bem uns cinco dois pontos no parágrafo acima, mas quem está contando?

Mudei-me, e desta vez foi de com força: saí de Brasília. Vivo agora no Rio de Janeiro, uma cidade habitada por um povo que, fosse comprado por quanto vale e vendido pelo valor que pensa ter, renderia lucro inenarrável. Gostaria de afirmar, sem quaisquer dúvidas, que são as pessoas mais ufanisticamente bairristas da nação, mas, oras, não vamos desprezar o ufanismo e o bairrismo dos gaúchos, pernambucanos, mineiros e paulistas, dos paranaenses, brasilienses, goianos e baianos, dentre outros. Ofender-se-iam, certamente, ao não serem devidamente ofendidos com a ofensa que lhes cabe com justiça.

Enfiei uma mesóclise e uma frase sem sentido (acredito que a primeira de muitas) neste texto. Onde é que vamos parar?

Senti falta de digitar neste notebook. Na verdade, senti falta de digitar em outra coisa que não fosse um netbook. Netbooks são muito práticos e muito bonitinhos, mas uma hora você se cansa das teclas todas juntinhas e de configurações 1024×768 em telas que não vão além de uma dezena de polegadas. De todo modo, apesar de seu teclado farto e de suas dezena e meia de polegares, não consigo confiar nesta máquina em que escrevo, porque técnicos de informática são as criaturas menos confiáveis do mundo (afirmo isso fazendo parte da categoria, de modo que tenho perfeito conhecimento de causa e, como de costume, não estou errado) e, assim sendo, informei o miserável do que ocorria e avisei que a mera formatação não era solução. O pústula formatou e considerou o serviço feito. Logo, tenho sobre meu colo um computador prestes a sofrer novo ataque de apoplexia.

Lancei mão de “apoplexia” num texto, ainda que de forma meio prosopopéica: dou-me +20 pontos.

Curioso o que o twitter faz com a cabeça das pessoas. Se bem que são tantos os distúrbios, tamanhas as afetações, tão violentas as mudanças - embora perfeitamente previsíveis, e apenas reflexos de fatos anteriores, já confirmados por outras ferramentas de “mídias sociais” - que é melhor ser mais específico, então especificarei: freqüentemente escrevo algo por lá, naqueles míseros 140 caracteres, e considero que a idéia é mais densa e pode ser mais bem explorada do que aquilo, que é possível ramificar, explicar melhor, argumentar de forma mais embasada. Que aquele arroto redativo, restrito àquele número ridículo de toques, pode vir para cá e ser estendido em um local de letras, acentos, pontuação e espaços infinitos.

Mas aí já falei por lá, então deixo morrer como está.

Todo esse não-desenvolvimento dos meus textos, sejam eles os que “rascunho” na página do passarinho ou os que mantenho fermentando dentro da minha cabeça, deve-se a uma coisa, e a uma coisa apenas: procrastinação. Diversas vezes afirmo ser por preguiça ou falta de tempo, mas esses são apenas os motivadores do defeito, tão grave. Ou as desculpas que uso a fim de mascará-lo, talvez. Enfim, sou tão procrastinador que comecei o texto pensando em falar disso, seria o primeiro assunto, mas fui deixando para depois e só mencionei agora. E tenho mais coisas a dizer a respeito…

…mas ficarão para outra hora.

Porque agora, pensando aqui com meus botões - na verdade pensando sozinho, porque não tem botão algum nas roupas que estou vestindo durante esta narrativa sem nexo, coerência, embasamento ou razão aparente -, me ocorreu que a total ignorância (voluntária ou inerente) de ateus e cristãos (e talvez muçulmanos, judeus, espíritas, macumbeiros, maometanos, xintoístas, cientologistas, hindus e macfags) em relação aos agnósticos, que os faz argumentar contra estes de forma sempre muito pouco inteligente e nada fundamentada, renderia um post bem interessante, que talvez até rendesse uns comentários inteligentes, que poderiam vir a gerar uma discussão interessante, que em algum momento descambaria para a troca gratuita de ofensas e então me motivaria a fazer outro texto, dessa vez bem raivoso.

E é nos textos raivosos que me saio melhor.

Estive considerando o porquê disso, recentemente. Disso, no caso, é a razão dos meus textos raivosos fazerem mais “sucesso”, se é que o termo se aplica, do que os que escrevo tranqüilo. Acho que é porque raiva é o sentimento que mais tenho facilidade para acessar, de todos. Me lembrar de momentos felizes não me deixa feliz (freqüentemente me torna melancólico, inclusive), trazer à tona lembranças tristes não necessariamente me deixaria triste, mas rememorar coisas que me aborreceram certamente vai tornar a me irritar. E irritado eu faço o que qualquer escritor minimamente competente sabe fazer de cabeça fria: não penso antes de escrever e, ao fim do texto, não dou a mínima se ele fez algum sentido. Apenas boto aquela porcaria pra fora e enfio na cara dos outros.

Duplo sentido: trabalhamos.

Agora, por que diabos VOCÊS gostam disso, o que os motiva a encher um texto como esse aí embaixo, sobre minha irritação com o Itaú, de likes no Google Reader, de RTs no Twitter, de sei lá mais que diabos vocês usam pra favoritar essas merdas… ah, isso me escapa completamente. Pelo que vejo, existem algumas várias razões para isso. Uma delas é que, de alguma maneira, há quem sinta prazer em me ver nervoso. O que é uma atitude bem escrota e cretina, se você parar pra pensar, porque é como se torcessem para que eu tivesse uma úlcera. Outra, ainda - e essa eu considero menos provável - é que vocês apenas lêem um desses rompantes de fúria e ficam felizes por alguém ter tido tamanha falta de bom-senso, amor-próprio e sentimento de auto-preservação a ponto de dizer todos os disparates, os absurdos e as estultices que os senhores já pensaram, mas foram muito bem-educados e pouco corajosos o suficiente para ignorar.

No fim das contas, não tenho opinião formada sobre isso.

E o texto não terminou ainda, mas acho que termina agora com um anúncio que não vos interessa, mas interessa a mim, e talvez, sei lá, interesse a vocês também (este sou eu me contradizendo numa mesma sentença. Não é para os fracos!): farei uns cursos de esgrima escrita. Eu sei, eu sei, é inútil e jogarei dinheiro fora. É um fato que quem não tem o jeito para a coisa, não importa o empenho ou o esforço, nunca vai chegar perto de quem, por qualquer tipo conjunção cósmica desconhecida, tem este ou aquele traquejo nato. Mas, oras, às vezes dá algum resultado. O que me interessa não é superar gente do naipe do Antônio Prata, por exemplo (o pai dele, nem menciono), apenas sair da minha linha de mediocridade já me deixaria satisfeito. Além do mais, sou um maníaco por controle, gosto de métodos. A idéia de que escrever pode se tornar um processo metódico (e, assim, mais organizado e mais “fácil”) me interessa.

Sei que prometo isso há oito anos, mas vai que dessa vez, finalmente, consigo escrever algo que preste? De todo modo, não apostem muitas fichas. Eu não apostaria.