É o seguinte: se você estiver lendo este post, só há uma conclusão a tirar. A saber: você não é analfabeto.
Não, espera. Não era isso que eu ia dizer. Claro que “você não é analfabeto” é uma conclusão lógica, pois, se fosse, não estaria lendo este post. Mas aí entramos no campo das minúcias, daqueles detalhes aparentemente irrelevantes, mas que são cruciais para levar você, leitor, a ler este blog, este post, estas palavras, esta pessoa que escreve agora. São muitos detalhes, e se você resolver parar pra pensar em todos, pode ir à loucura. De verdade. As coisas acontecem sempre de forma tão encadeada, e a gente ignora de tal maneira esta seqüência (com trema, olha que simpático!) de acontecimentos, que, quando enumerados, quando dispostos em fila, quando mencionados, quando damos por eles, enfim, são tantos e tantos que chega a ser curioso que possamos ignorá-los com tamanha displicência.
Eu disse, por exemplo, que você só está lendo este post porque não é analfabeto. Ok, essa é fácil. Mas existe um segundo fator: você só está lendo ESTE post porque EU não sou analfabeto. E você também só o lê porque, além de ser alfabetizado, o foi em português, este tão vilipendiado e pouco falado idioma, a última flor do lácio, inculta e bela e agora cheia de idéias sem acentos. Camões remoer-se-ia no túmulo. Fica esta mesóclise em sua homenagem, meu (em breve) compatriota.
Mas voltando ao raciocínio anterior - se é que havia algum -, fomos ambos alfabetizados na língua portuguesa, cada um a seu tempo (o momento em que fomos alfabetizados, e isso lá é verdade, não faz diferença alguma, não é um daqueles detalhes cruciais mencionados nos parágrafos anteriores), e falarmos o mesmo idioma é o que permite que eu, munido da habilidade, do desejo e da falta de bom-senso que me move a fazer solilóquios dessa natureza, me comunique, ainda que de maneira capenga, com o senhor, ou a senhora, ou a senhorita, ou tu mesmo, sua bicha, que homem jovem a gente trata é assim, sem pompa nem circunstância.
Da mesma maneira, o que leva este texto a chegar até você vai ainda mais longe. Em primeiro lugar, você tem uma conexão com a internet. O que, se pararmos pra pensar, é uma coisa muito bacana. A gente trata a internet como algo garantido, como se sempre fosse estar aqui, ou como se sempre estivesse estado (estivesse estado é escroto, eu tentei pensar em outra estrutura pra essa sentença, mas admito, derrotado, que me escapou, oh, a incompetência redativa!). E, na realidade, todo esse universo peculiar feito de computadores interligados, que, por sua vez, interligam e separam pessoas com muito mais facilidade do que seria imaginável, é coisa até bem recente. De quinze anos pra cá, e olhe lá. O google tem apenas dez anos, e já nos perguntamos como diabo a vida era possível sem essa porcaria, antes.
Mas agora todo mundo tem internet. Todo mundo acessa o google, pesquisa a vida dos outros, entra no orkut, joga colheita feliz, faz perfil no facebook, dá like quando um desafeto toma um pé na bunda, entra na wikipedia, descobre que a capital da Austrália na verdade é Camberra, entra no IMDB, paga de cinéfilo conhecedor da carreira de todos os atores, enfim… hoje em dia tudo é muito mole, a vida é jogada no easy. E tudo isso por causa de 13 servidores principais que mantêm a internet rodando. Sim, você leu direitinho: existem 13 computadores principais, os responsáveis por manter esta conexão que permite que você, desocupado, perca seu tempo com esses 6 enormes parágrafos de baboseiras irrelevantes.
Mas não bastava só isso. Não bastava apenas você e eu sermos alfabetizados em português, você e eu termos conexão com a internet. Eu e você temos computadores, apetrechos de engenharia intrincada, cheios de circuitos miniaturizados, com processadores capazes de pensar mais rápido do que qualquer pessoa, que conseguem até mesmo ganhar de um russo no xadrez, que transformam zeros e uns em pornografia à sua disposição, a qualquer hora.
E ainda assim isso não é o mais importante! Existem milhões de pessoas, no mundo, que têm computadores. Bilhões, talvez. Destas, milhões - novamente: bilhões? - acessam a internet. Dentro desses milhões, alguns outros milhões são de pessoas alfabetizadas - praticantes ou não - em português. E ainda assim não são esses milhões que estão aqui. Não são milhares de pessoas lendo este blog. São, quando muito, cinqüenta pessoas (não acredito nos números fornecidos pelo facebook e pelo google reader). Estas cinqüenta pessoas chegaram aqui de alguma maneira. E esse é um grande mistério. Porque eu sei, e elas sabem, que elas têm um computador. Também compartilhamos o conhecimento de como entrar na internet e digitar a url desta página no navegador. Também lemos e escrevemos em português, isto é ponto pacífico.
Mas a verdade é que essas pessoas, essas cinqüenta pessoas, chegaram até aqui pelo google - e se não houvesse o google? -, pela indicação de um amigo - e se o amigo nunca tivesse nascido? -, via twitter - e se eu não tivesse mudado minha postura em relação àquilo? - ou sabe-se lá como. E, se bobear, nem se lembram como me alcançaram aqui, eu e meus resmungos inúteis, todas as minhas palavras irrelevantes, neste recôndito obscuro da internet.
Mas me alcançaram. E aqui estamos nós: eu escrevendo e você lendo. O que me leva a uma simples pergunta:
Tu não tem nada melhor pra fazer, não?
