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Dos rompantes de genialidade I

Batman do futuro é um desenho que se passa no futuro (dã!), muitos anos depois de… bom, de agora, mas não o suficiente pro Bruce Wayne ter morrido. Ele só é bem velho e tem a cara do Clint Eastwood.

Daí tem esse episódio no qual o Terry McGinnis, que é o sujeito sob a roupa do Batman, tá investigando uma série de crimes que envolvem ataques de esquizofrenia. A pessoa começa a ouvir, dentro da cabeça, uma voz que dá ordens do tipo “Roube isso”, “Mate fulano”, etc. Acaba obedecendo, achando que é a voz da consciência ou coisa parecida, quando na verdade é um chip implantado pelo vilão, que permite que ele se comunique com a pessoa pelo ouvido interno.

(Eu sei que é um argumento raso, mas estamos falando aqui das histórias de um homem que anda pela cidade com colante e um morcego no peito, e os criminosos têm medo dessa pessoa. Medo, não pena. Medo. Argumento raso por argumento raso, fique com este.)

A situação toda dá merda quando o criminoso tenta usar esse truque com o Bruce Wayne, por qualquer razão. Wayne desvenda a situação, manda um “Pega, McGinnis”, o pau come, Batman prende o vilão, essas coisas. E aí, no final, lá estão Bruce Wayne e Terry Mcginnis conversando a respeito do caso, e o guri pergunta ao velho como ele soube que era um truque, não era a voz da cabeça dele.

Bruce Wayne sorri e diz “A voz ficava me chamando de Bruce. Não é assim que eu me chamo dentro da minha cabeça.”.

Essa fala do Bruce Wayne em Batman Beyond, SÓ essa, define o Batman melhor do que qualquer filme do morcego, melhor do que Ano Um e Cavaleiro das Trevas. Melhor do que qualquer coisa do Batman que você tenha lido.

Chupa, Frank Miller.

(Não vou tirar conclusão nenhuma sobre isso, só queria comentar e era grande demais pra falar no twitter. Tá aqui, então.)

Dos miseráveis travestidos

O pior elogio que alguém pode fazer ao meu blog ou ao que eu escrevo é sugerir que eu deveria trabalhar com isso, ou dar um jeito de ganhar dinheiro com essas coisas. Felizmente não é uma sugestão que ouço muito, por razões óbvias, mas ainda assim me surge, eventualmente. E embora compreenda que quem me diz isso tem em mente a melhor das intenções e o mais alto dos elogios, é difícil responder com qualquer outra coisa além de um menear de cabeça e um olhar de reprovação. Pode ser uma forma de elogio, pode ser de coração, respeito isso tudo. Mesmo assim é uma lisonja muito mal-pensada.

Eu tenho um sério problema com dinheiro: não dou a isso a menor importância. É claro que gosto de comprar coisas caras, como videogames, computadores, um bom par de tênis, um mp3 player de qualidade, um presente pra mulher, uma passagem pra qualquer lugar que me dê vontade de ver. Pra me suprir dessas necessidades existe a informática. Existem meus bicos de tradução. Existe qualquer outra coisa que eu faça, fora escrever. Escrever não serve pra isso. Escrever é algo que levo a sério, diferentemente da informática, das traduções, de qualquer outra merda que me renda uns caraminguás pra ter o que jogar no corpo, um teto sobre a cabeça e um lugar pra cair quando estiver cansado.

Escrever vai além do dinheiro, escrever é minha maneira de buscar a verdade - estou sendo bastante piegas, mas porra, reservo-me o direito. Vender a caneta, jamais. Não tenho a pretensão de estar fazendo literatura, mas talvez esteja. E talvez não esteja, que se foda isso. Dizer se é literatura ou não é só outra maneira de mensurar economicamente, o que é uma forma de diminuir tudo para caber num padrão, numa linha de pensamento que é simplista, utilitária, que não é onde eu trabalho. Mas que diabos que numa era em que todo mundo tenta enfiar uma ideologia em tudo, ainda tentam arrancar o cunho ideológico de qualquer coisa e trocar por cifras, puta que pariu três vezes de cócoras!

Sou um anacrônico em relação a isso, tenho total consciência. A internet é feita de gente que “escreve” - uso o termo com bastante liberdade aqui - alucinadamente com um objetivo muito simples: transformar isso num ganha-pão. Não é uma busca por qualquer outra coisa que não seja viver diante do computador, escrevendo sob demanda. E esta demanda pode ir desde a produção de um post até a veiculação de idéias (todas sem acento). Pagando bem, que mal tem?

É o mal do século. Um dos, sei lá quantos outros já enumerei aqui. Não existem princípios ou coesão, só existe o “quem paga mais?”. Consigo listar, de cabeça, pelo menos dez blogs de gente assim, que bate no peito para falar que tem credibilidade, quando na verdade tem apenas uma caneta de aluguel, pronta a distribuir pelo papel os mais profundos elogios, se estiver sendo bem-paga. Pesquisando internet afora, certamente conseguiria bem mais de cem. E iria por terra o que resta da minha crença na humanidade, então não cairei nesse erro. A verdade é: desses dez blogs que eu apontaria, pelo menos CINCO você costuma ler, seu idiota. Isso se não fizer parte de algum, o que é ainda pior.

Não bato no peito pra apregoar credibilidade, não garanto serem verdades as coisas que publico aqui, não peço nem quero confiança alguma de ninguém. Escrevo por compulsão, quando ela bate - e bate cada vez menos - e por prazer, que também anda muito sumido por estas paragens, então seria mais justo dizer que é por mera teimosia. Mas escrevo com sinceridade, e ainda que minta, não minto em benefício de ninguém. No máximo, pelo meu entretenimento, mas alguém tem que se divertir nesta merda. Ninguém perguntou - e ninguém perguntará jamais, porque sinceridade é contraproducente -, mas eu não estou à venda, tampouco estão minhas palavras. Se dinheiro é tudo o que você tem a oferecer nesse mundo, como elogio às coisas que gosta, se é assim que avalia sucesso, se essa é sua idéia de reconhecimento… então tenho muita, muita pena de você.

Você é pobre pra caralho.

Das crônicas

Coisa de duas semanas atrás fui ao centro e me deparei com uma série de sebos armados no meio da rua. Bisbilhotando, Fernanda encontrou um exemplar maltratado de uma quarta edição d’A Cidade Vazia, do Fernando Sabino, pelo valor nababesco de R$ 2,00. Comprou, sem pestanejar. Gostaria de tomar o mérito do ato, mas não me permito. Foi ela quem fez o grande negócio.

A Cidade Vazia é um apanhado de crônicas da época em que o autor vivia nos Estados Unidos, e não tem muito daquele humor sutil de mineiro que caracteriza livros como O homem nu ou A falta que ela me faz. Deixa transparecer até uma boa dose de melancolia, resultado da solidão decorrente da vida no exterior. De todas que já li, considerei uma, em particular, digna de menção. Vou transcrevê-la aqui, ainda que sob pena de quebrar algum tipo de lei de direito autoral ou coisa que o valha, então deixo claro que o texto que segue não foi escrito por mim, dele não tiro quaisquer proventos e sobre o mesmo não tenho nenhum direito. A publicação é mera homenagem, e me prontifico a retirá-lo do ar se sua transcrição neste blog porco lesar, de qualquer maneira, os responsáveis pela obra.

Estendendo um pouco mais este preâmbulo, adianto que redigitei o texto na íntegra, ipsis literis, com todas as quebras de linha, vírgulas e acentos em palavras não mais acentuadas. Tanto por respeito ao formato original quanto em protesto contra a tal nova ortografia.

O Juramento

Melvin C. Roberts, canadense e secretário do conhecido milionário americano Cornelius Vanderbilt Junior, suicidou-se aos 27 anos de idade.
O comitê de investigações encarregado de esclarecer as circunstâncias do suicídio concluiu, depois de ouvir Vanderbilt, que o rapaz teve aquêle fim “como resultado de sua tormentosa experiência”.
Que experiência foi essa? O próprio Vanderbilt, no seu esclarecimento, nos dá a resposta. E de repente Melvin C. Roberts deixa de ser mero nome perdido na seção obituária dos jornais, lembrança a apagar-se com o tempo entre parentes e amigos, acontecimento cotidiano no registro policial. Já não se trata de simples tragédia doméstica que deixará atrás de si uma pobre mãe desconsolada e uma noiva desiludida. Nem ficará sendo apenas um momentâneo aborrecimento para o milionário Vanderbilt, que terá de procurar nôvo secretário.

No dia 9 de agôsto de 1945, um campo de concentração no Japão foi libertado pelas fôrças americanas. Entre outros, oito homens maltratados e famintos tinham escapado à morte lenta das torturas diárias, depois de quatro anos de cativeiro. Eram dos mais antigos, e milhares que com êles entraram naquele inferno jamais chegaram a sair. Tinham todos pouco mais de vinte anos, mas o sofrimento vivido em comum lhes deu outros vinte. Juntos suportaram a fome, o excesso de trabalho, a humilhação, o mêdo e a desesperança. Foram finalmente selecionados como cobaias humanas para inoculação de doenças e experimentações de cirurgia. Conheceram, uma por uma, tôdas essas formas de sadismo que os jornais e o cinema já divulgaram, para o erguer de ombros dos céticos e a meia hora de mal-estar dos temperamentais. Já não temiam a própria morte: temiam que o mundo não soubesse colhêr dela ensinamento algum, que o mundo não merecesse aquêle sacrifício. Então fizeram um juramento: se por milagre saíssem de tudo aquilo com vida, se recusariam a viver, caso não fôsse possível um mundo pacificado e feliz.

Nunca mais se encontraram. Dispersaram-se pelos quatro cantos do mundo, experimentando recomeçar a vida. Com o fim da guerra as nações se reuniram, tentando consolidar a paz. No mundo haveria agora oportunidade igual para todos, sólida esperança ligaria todos os homens, o mêdo e o ódio não resistiriam às novas formas de viver que se ofereciam. Assim era o mundo no ano que se seguiu, quando, exatamente no dia 9 de agôsto de 1946, a crônica policial de uma cidade qualquer dos Estados Unidos registrou sem maiores detalhes, entre notícias de pequenos furtos, atropelamentos e agressões, o suicídio de um veterano de guerra.

Os homens às vezes se suicidam, veteranos ou não. Dizem que isso é natural. São os desiludidos da vida, os fracassados, e perfazem com seu “tresloucado gesto” um acontecimento normal de seleção na luta dos interesses, que o próprio desengano da vida se encarrega de explicar. É natural também que os veteranos tenham, como os outros homens, seus problemas íntimos para os quais vão buscar na morte a solução. Pouco tempo mais tarde, ainda em 1946, numa cidade da Inglaterra, outro veterano da guerra do Pacífico se matou.

E assim, sucessivamente, êles foram desistindo de viver. O suicídio de um rapaz no Estado de Nebraska coincidia com o de outro na Califórnia. Ninguém ficou sabendo por que num bar de Chicago um homem tomou veneno, ou no seu quarto de Filadélfia um homem deu um tiro na cabeça, ou numa colina do Maine um morto foi encontrado, ou nas águas do Rio Hudson um corpo se afogou. É possível mesmo que ninguém chegue a saber jamais como foi que êles morreram, nem quando, nem onde, nem por quê.

Na cidade do Reno, Estado de Nevada, Melvin C. Roberts, um rapaz de 27 anos, abandona o jornal sobre a perna, olha a noite pela janela de seu quarto e espera. Em que estará pensando? São dez horas da noite e lá fora a cidade parece calma, tranqüila, feliz. Homens e mulheres se encontram, se despedem, trabalham e descansam, vivem e morrem. Melvin C. Roberts pensa neles, pensa no tempo que passou. Pensa nos destinos do mundo, Melvin C. Roberts.
Levanta-se e caminha até a janela, como se tão vasto pensamento o obrigasse a receber de pé a brutalidade de suas conseqüências. O jornal deslizou para o chão, aberto na terceira página, e o nome familiar na pequena notícia se perde num emaranhado de letras. Êle ergue os olhos para o escuro do céu onde estrêlas esparsas mal se vêem, neutralizadas pelas luzes da rua. Parece tentar colhêr da noite um conselho, uma advertência. Mas a noite não lhe diz nada. Os pensamentos de nôvo se avolumam, recompõem as mesmas imagens de horror. O tormento de lembranças lhe vem mais uma vez em sucessão monótona: são os mesmos rostos de olhos repuxados, a mesma voz dissonante dos guardas, o mesmo cheiro de sangue. Pensa no sacrifício inútil que cinco de seus companheiros já completaram. Melvin C. Roberts está pensando na morte. São onze horas a noite de 9 de agôsto.

Seu corpo foi encontrado no dia seguinte sobre a cama – um vidro de pílulas sedativas a seu lado, completamente vazio. Escapou a todas as formas de morte violenta nas mãos dos japonêses e procurou a maneira mais tranqüila e confortável de morrer. Segundo afirmou no seu depoimento o milionário Vanderbilt, o rapaz vivia ultimamente num constante estado de depressão e se queixava de horríveis sonhos com seu internamento, as torturas que sofreu.
Encerrando os trabalhos, o comité de investigação no Reno resolveu considerar a sua morte como sendo “mais uma honrosa perda de guerra”. Com isso autorizam o esquecimento em tôrno de seu nome.

Mas Melvin C. Roberts não será esquecido, como os outros cinco. E não será, simplesmente porque sabemos agora que ainda restam dois.

Que terá sido dêsses dois? É possível que um já tenha esquecido o juramento feito, esquecido seus sete companheiros, e num bangalô em Miami Beach ou numa pequena fazenda do Texas, já casado e com filhos, procure esquecer também o mundo e seus problemas: esta foi a maneira que escolheu de suicidar-se.
Mas, e o outro? Neste último é que está, sem que o saibamos, o nosso mêdo e a nossa esperança. Vejo-o lendo àvidamente os jornais de hoje em Nova Orleãs, São Francisco, Detroit ou em Bunn, na Carolina do Norte. Vejo-o passando ao meu lado nas ruas de Nova Iorque e o desconheço. Ninguém sabe quem ele é. Ninguém sabe que o destino do mundo se subordinou ao destino dêste homem. Poucos conhecem esse veterano distraído, com o olhar vazio dos prisioneiros. No seu andar um tanto incerto não há nada revelando que êle caminha a passos firmes para a morte. Indiferentes a êle, os políticos continuam se reunindo em assembléia, para decidir a sorte do mundo. E a sorte do mundo está hoje dependendo apenas da vida dêsse homem. Mas quem será êle? Ninguém sabe ou se preocupa em saber. Êle vai andando em meio à multidão como um autômato, anônimo e despercebido. Seus dedos deslizam pelo bôlso do paletó, acariciam lentamente o revólver, lembrança ainda da guerra, e esperam.
Numa esquina qualquer de uma cidade qualquer, um homem espia passivamente o movimento ao seu redor e espera o instante de condenar o mundo com a sua morte. Seus dedos apertam a arma, o braço se ergue, e ela se volta em direção ao peito magro onde o coração se maltrata. Tenho ainda uma violenta esperança de que alguma coisa aconteça, algum milagre impeça a morte dêsse homem.

Fernando Sabino.

Das coisas que se ensaia dizer…

…mas não se diz.

Fico sem saber o que é pior: ter sobre o que escrever, sem ter ânimo, ou sentir uma arrebatadora vontade de escrever sem ter assunto para tanto. Considero que, neste momento, estou exatamente na união destes dois casos: não tenho sobre o que escrever e não tenho ânimo. Escrevo assim mesmo, entretanto, porque, como já disse aqui antes (disse? Não tenho certeza, mas devo ter dito, digo sempre as mesmas coisas, e geralmente do mesmo jeito, sou terrivelmente repetitivo e até, vou além, bastante pleonástico. Mas não quero falar disso, este parêntese está ficando gigantesco, vou fechá-lo agora e acabar com esta putaria, repare) enfim, como dizia que disse aqui antes, digo: eu me odeio e gosto de me contrariar.

Acho que tem bem uns cinco dois pontos no parágrafo acima, mas quem está contando?

Mudei-me, e desta vez foi de com força: saí de Brasília. Vivo agora no Rio de Janeiro, uma cidade habitada por um povo que, fosse comprado por quanto vale e vendido pelo valor que pensa ter, renderia lucro inenarrável. Gostaria de afirmar, sem quaisquer dúvidas, que são as pessoas mais ufanisticamente bairristas da nação, mas, oras, não vamos desprezar o ufanismo e o bairrismo dos gaúchos, pernambucanos, mineiros e paulistas, dos paranaenses, brasilienses, goianos e baianos, dentre outros. Ofender-se-iam, certamente, ao não serem devidamente ofendidos com a ofensa que lhes cabe com justiça.

Enfiei uma mesóclise e uma frase sem sentido (acredito que a primeira de muitas) neste texto. Onde é que vamos parar?

Senti falta de digitar neste notebook. Na verdade, senti falta de digitar em outra coisa que não fosse um netbook. Netbooks são muito práticos e muito bonitinhos, mas uma hora você se cansa das teclas todas juntinhas e de configurações 1024×768 em telas que não vão além de uma dezena de polegadas. De todo modo, apesar de seu teclado farto e de suas dezena e meia de polegares, não consigo confiar nesta máquina em que escrevo, porque técnicos de informática são as criaturas menos confiáveis do mundo (afirmo isso fazendo parte da categoria, de modo que tenho perfeito conhecimento de causa e, como de costume, não estou errado) e, assim sendo, informei o miserável do que ocorria e avisei que a mera formatação não era solução. O pústula formatou e considerou o serviço feito. Logo, tenho sobre meu colo um computador prestes a sofrer novo ataque de apoplexia.

Lancei mão de “apoplexia” num texto, ainda que de forma meio prosopopéica: dou-me +20 pontos.

Curioso o que o twitter faz com a cabeça das pessoas. Se bem que são tantos os distúrbios, tamanhas as afetações, tão violentas as mudanças - embora perfeitamente previsíveis, e apenas reflexos de fatos anteriores, já confirmados por outras ferramentas de “mídias sociais” - que é melhor ser mais específico, então especificarei: freqüentemente escrevo algo por lá, naqueles míseros 140 caracteres, e considero que a idéia é mais densa e pode ser mais bem explorada do que aquilo, que é possível ramificar, explicar melhor, argumentar de forma mais embasada. Que aquele arroto redativo, restrito àquele número ridículo de toques, pode vir para cá e ser estendido em um local de letras, acentos, pontuação e espaços infinitos.

Mas aí já falei por lá, então deixo morrer como está.

Todo esse não-desenvolvimento dos meus textos, sejam eles os que “rascunho” na página do passarinho ou os que mantenho fermentando dentro da minha cabeça, deve-se a uma coisa, e a uma coisa apenas: procrastinação. Diversas vezes afirmo ser por preguiça ou falta de tempo, mas esses são apenas os motivadores do defeito, tão grave. Ou as desculpas que uso a fim de mascará-lo, talvez. Enfim, sou tão procrastinador que comecei o texto pensando em falar disso, seria o primeiro assunto, mas fui deixando para depois e só mencionei agora. E tenho mais coisas a dizer a respeito…

…mas ficarão para outra hora.

Porque agora, pensando aqui com meus botões - na verdade pensando sozinho, porque não tem botão algum nas roupas que estou vestindo durante esta narrativa sem nexo, coerência, embasamento ou razão aparente -, me ocorreu que a total ignorância (voluntária ou inerente) de ateus e cristãos (e talvez muçulmanos, judeus, espíritas, macumbeiros, maometanos, xintoístas, cientologistas, hindus e macfags) em relação aos agnósticos, que os faz argumentar contra estes de forma sempre muito pouco inteligente e nada fundamentada, renderia um post bem interessante, que talvez até rendesse uns comentários inteligentes, que poderiam vir a gerar uma discussão interessante, que em algum momento descambaria para a troca gratuita de ofensas e então me motivaria a fazer outro texto, dessa vez bem raivoso.

E é nos textos raivosos que me saio melhor.

Estive considerando o porquê disso, recentemente. Disso, no caso, é a razão dos meus textos raivosos fazerem mais “sucesso”, se é que o termo se aplica, do que os que escrevo tranqüilo. Acho que é porque raiva é o sentimento que mais tenho facilidade para acessar, de todos. Me lembrar de momentos felizes não me deixa feliz (freqüentemente me torna melancólico, inclusive), trazer à tona lembranças tristes não necessariamente me deixaria triste, mas rememorar coisas que me aborreceram certamente vai tornar a me irritar. E irritado eu faço o que qualquer escritor minimamente competente sabe fazer de cabeça fria: não penso antes de escrever e, ao fim do texto, não dou a mínima se ele fez algum sentido. Apenas boto aquela porcaria pra fora e enfio na cara dos outros.

Duplo sentido: trabalhamos.

Agora, por que diabos VOCÊS gostam disso, o que os motiva a encher um texto como esse aí embaixo, sobre minha irritação com o Itaú, de likes no Google Reader, de RTs no Twitter, de sei lá mais que diabos vocês usam pra favoritar essas merdas… ah, isso me escapa completamente. Pelo que vejo, existem algumas várias razões para isso. Uma delas é que, de alguma maneira, há quem sinta prazer em me ver nervoso. O que é uma atitude bem escrota e cretina, se você parar pra pensar, porque é como se torcessem para que eu tivesse uma úlcera. Outra, ainda - e essa eu considero menos provável - é que vocês apenas lêem um desses rompantes de fúria e ficam felizes por alguém ter tido tamanha falta de bom-senso, amor-próprio e sentimento de auto-preservação a ponto de dizer todos os disparates, os absurdos e as estultices que os senhores já pensaram, mas foram muito bem-educados e pouco corajosos o suficiente para ignorar.

No fim das contas, não tenho opinião formada sobre isso.

E o texto não terminou ainda, mas acho que termina agora com um anúncio que não vos interessa, mas interessa a mim, e talvez, sei lá, interesse a vocês também (este sou eu me contradizendo numa mesma sentença. Não é para os fracos!): farei uns cursos de esgrima escrita. Eu sei, eu sei, é inútil e jogarei dinheiro fora. É um fato que quem não tem o jeito para a coisa, não importa o empenho ou o esforço, nunca vai chegar perto de quem, por qualquer tipo conjunção cósmica desconhecida, tem este ou aquele traquejo nato. Mas, oras, às vezes dá algum resultado. O que me interessa não é superar gente do naipe do Antônio Prata, por exemplo (o pai dele, nem menciono), apenas sair da minha linha de mediocridade já me deixaria satisfeito. Além do mais, sou um maníaco por controle, gosto de métodos. A idéia de que escrever pode se tornar um processo metódico (e, assim, mais organizado e mais “fácil”) me interessa.

Sei que prometo isso há oito anos, mas vai que dessa vez, finalmente, consigo escrever algo que preste? De todo modo, não apostem muitas fichas. Eu não apostaria.

Das coisas intangíveis

O grande problema da sociedade atual - é sempre bom apontar O grande problema da sociedade atual, como se fosse apenas um, como se não fossem vários - é a descentralização de tudo. Preste atenção ao seu redor e perceba que não existem mais responsáveis. Ninguém tem culpa de nada.

Seu banco te causa uma irritação. Quem é seu banco? Quem é o Itaú? Quem é o Banco do Brasil? Não é o gerente, ele não tem grande poder lá dentro. Não são os caixas, definitivamente, eles são só a linha de frente. Talvez, no topo da hierarquia, lá em cima, desconhecido, além das nuvens, exista alguém. Mas ninguém sabe quem é. Mais importante: você não sabe quem é. E quer saber mais? Esse sujeito tem tanta influência no que te incomodou quanto o seu gerente. Não foi ele, seu gerente ou o caixa. Não foi uma pessoa em cuja porta você possa bater, furioso, às quatro da manhã. Alguém que possa pegar pelo colarinho e cobrar uma resposta. Alguém de quem possa se vingar com uma surra justa e bem aplicada.

A sua operadora de telefonia comete um engano. Subitamente você se dá conta de que não existe culpado pelo erro que sujou seu nome, cortou sua linha, causou tamanha animosidade entre você e seu chefe que te deixou sem outra opção além de largar o emprego. Não foi nenhum dos quinze atendentes de telemarketing com quem você brigou, eles estão ali para receber sua raiva. São a personificação de alguma coisa que não existe, que é apenas um conceito. É isso que a TIM é: um conceito. O mesmo vale para qualquer grande empresa. Coca-cola. Globo. Itaú. Banco do Brasil. Ford. Sony. Qualquer uma. Mesmo aquelas cujo responsável é de conhecimento público, como SBT, Apple, Microsoft.

Essas empresas, com seus incontáveis funcionários, infinitos setores, políticas que ninguém conhece, sistemas que pensam de forma praticamente autônoma, têm a habilidade de infernizar a sua existência. E não são nada além de conceitos, de idéias. Aglomerados de pessoas trabalhando diariamente atrás de uma marca, simbolizada, em termos legais, por um número, uma licença, uma razão social, um nome fantasia. Não estão em lugar algum e estão em todos os lugares, ao mesmo tempo. Assassinar os funcionários só abrirá vagas para que outros funcionários sejam contratados. É uma luta perdida. É você, indivíduo, contra uma legião.

É claro que quando uma delas te causa constrangimentos - ou “danos morais”, de acordo com os legistas - você pode apelar para a justiça, de modo a reaver o prejuízo. Mas, no fim das contas, aí está você, criatura física, palpável, aborrecida e insone - graças à cagada de algo invisível, intangível e inacessível -, um adulto, supostamente capaz de cuidar de si mesmo, tendo que apelar para alguém, assinando um atestado de incapacidade, como uma criança que corre para a mãe ao apanhar na rua. E a justiça é, como a causa da sua desdita, apenas uma idéia, manifesta em um homem de vestido.

Este homem pode até interceder a seu favor e condenar o causador dos seus infortúnios a te ressarcir de alguma maneira. Ainda assim, que justiça é essa? Você acha que o responsável pela empresa - se é que ele existe - saberá deste pequeno entrevero? Acredita que aquele idiota engravatado com uma carteira da OAB tem qualquer influência no plano geral das coisas? Vai se sentir vingado se aquela pessoa, irrelevante como você, humildemente reconhecer o erro e pedir desculpas? É muita ingenuidade sequer considerar que ele pode ter acesso ao alto escalão desta fantasmagoria que você, amigo carniforme, supostamente “derrotou”. Como, então, crer que ele os representa?

Sua “vitória” não significa nada. Você desferiu um golpe invisível contra algo intangível. Não existem cacos a recolher, sangue para lavar da camisa, dor nos punhos, hematomas pelo corpo, dentes quebrados e um adversário ensangüentado caído à sua frente, subitamente ciente da atrocidade que cometeu. Não há triunfo algum. Só a sensação de que duas quimeras travaram qualquer tipo de peleja muito além do seu alcance e, por sorte, o resultado te foi favorável. Mas, ao relembrar o momento em que o representante do seu adversário tremeu ao ouvir o veredicto, sua memória trará à tona a verdade: não houve qualquer estremecimento, pois culpa alguma foi atribuída a ele. Você não teve a chance de uma acareação com seu algoz, ele sequer sabe seu nome. E qualquer dinheiro que porventura tenha chegado aos seus bolsos, por fim, foi apenas uma esmola, um cala-te, boca.

Depois nós não entendemos por que algumas pessoas, num ataque de cólera, armam-se até os dentes e alvejam transeuntes aleatórios, quando a razão, na verdade, é muito simples: em um mundo sem culpados, não existem inocentes.

Da inspiração e outros demônios

O cursor pisca. Surge. Some. Surge. Some. Surge. Some. Surge. Some.

Esse cursor é, pra quem escreve nessa época de impulsos elétricos, o que era o capataz para quem apertava parafusos na revolução industrial. O leão-de-chácara que vigiava os escravos. O gerente que curte um assédio moral, a fim de construir o caráter. O cursor é um crápula.

As idéias enxergam a verdadeira face do cursor, por isso desaparecem quando ele surge, não há outra explicação. Quando não existe a menor possibilidade dele dar as caras, elas organizam uma verdadeira orgia no cérebro. Vão e voltam, complexas ou simples, com início, meio e fim, encadeadas de forma perfeita. É transcrever e ali está a obra prima. A capela sistina. O Davi. O homem vitruviano.

O problema é o papel. Vou além: o problema é o cursor. Porque para levá-las deste meio disforme e mutável - onde a perfeição não só existe como, mais do que isso, é uma constante -, o mundo das idéias, para este outro lugar, firme e inflexível, repleto de julgamentos outros que não o primordial, e onde, no caso de quem escreve, existe o maldito cursor, é preciso desviar a atenção da idéia - objeto a ser transcrito - e voltá-la para o “papel” - superfície de transcrição. Surge daí a contenda: estes dois objetos não permitem descuido. Perca a idéia de vista por um instante e ela desaparece, como se nunca por ali tivesse passado. Faça uma transcrição distraída e o resultado final estará muito aquém do conceito original. Ambos exigem de você nada menos do que 100% de foco.

E não percamos tempo atestando o óbvio, concluindo que dedicar 100% de foco a duas coisas, ao mesmo tempo, é tarefa impossível. Vamos à questão prática: o que fazer? A única solução é prestar atenção total em ambos, o máximo de tempo possível, de forma alternada. Um afago em sua idéia, enquanto vira as costas pro papel. Depois, de volta ao papel, é hora de escrever enlouquecidamente, até sua idéia aparentar enfado e dar a entender que pretende abandonar o recinto. Nessa hora você larga seu trabalho e retorna à contemplação. Idéias precisam disso, é do que elas se alimentam, é como ficam fortes, fornidas e fagueiras. Sem isso, são fugazes (ficando apenas na letra F).

É onde reside a maldição do cursor. Enquanto você, cuidadosamente, procura dar à sua idéia a atenção merecida, o cursor pisca. Surge. Some. Surge. Some. Surge. Some. “Ignore-o”, diz um principiante, mal sabendo que essa intermitência não é um aviso suave e gentil de “Estou aguardando”. Antes, é o estalar de um chicote, o engatilhar de uma espingarda. É o prazo, urgindo. E prazo, na língua de Shakespeare, não leva o nome de deadline à toa. O prazo não vem sozinho, o prazo traz a angústia, a ansiedade. O prazo traz palpitações, vem acompanhado de pressões que, se não forem externas, são internas. E quem saberá dizer qual das duas é pior? O prazo é a necessidade que não admite ser postergada. O prazo te faz perder a idéia de vista, focar no trabalho, submergir na produção que, subitamente, caminha a passos rápidos, toma vida própria e segue de forma independente. Você, dedilhando o teclado, é mero espectador de uma pintura que se faz sozinha.

Perdido na empolgação do texto que se desenrola, você abandona a idéia. E idéias são como crianças: cinco segundos de descuido e… para onde ela foi? Foi um lapso de desatenção, coisa rápida, quase imperceptível. Foi o que bastou para que o resultado final, em vez daquele conceito brilhante, inicialmente pretendido, descambasse para uma coisa qualquer, um amontoado de idéias sem muito nexo. Um texto estranho, sem sentido, sem propósito. Feio, pra dizer sem rodeios.

Um texto como este.