Arquivo da categoria 'ficticios'

Amigo é pra essas coisas!

- Você parece bem.
- Obrigado. Eu estou.
- Sem aquele copo de bebida na mão, olha só… outra pessoa.
- Aquilo não me ajudava em nada.
- Não mesmo. A bebida, em certos casos, só atrapalha.
- Pois é.
- Fecha os olhos pro que a gente não quer ver.
- Exato.
- Nubla os pensamentos, nos faz esquecer os problemas por algumas horas.
- É por aí mesmo.
- E aí você não conseguia mais enxergar o que aquela miserável fez com você.
- E ela fez estrago!
- Põe estrago nisso, você ficou na merda.
- Até o pescoço!
- Até o queixo, e só não foi até a boca porque conseguiu levantar o nariz no último segundo!
- Não foi pra tanto!
- Ah, foi, sim. Você parecia um trapo.
- …
- Um farrapo humano.
- ……
- Um verme, um nada, um…
- Já entendi!
- Mas você está melhor agora!
- Ah, sim, bem melhor!
- Conseguiu um novo emprego!
- Uma maravilha, rapaz, meio período, ambiente desafiador…
- Lógico que não é nada como aquela gerência que você tinha naquela outra empresa…
- Mas depois de tanto tempo parado, também…
- Sim, tem isso. E, além do mais, contratar alguém com sabidos problemas de alcoolismo…
- Eu não sou alcóolatra, foi um momento de fraqueza!
- Eu sei, eu sei, mas eu sou teu amigo, afinal, te conheço há anos! Eles não sabem. Pra eles, você era só um bebum!
- Bom, de certa forma, sim, mas meu currículo…
- Ah, nem é lá isso tudo, vamos combinar.
- Não?
- Mas não ligue pra isso, rapaz. Voltou a receber seu salário, está quitando as dívidas, refazendo sua vida…
- Tô pensando até em remobiliar o meu apartamento!
- O que eu duvido é que alguma loja vá te abrir um crediário. Seu nome tá nos serviços de proteção ao crédito, né?
- É…
- É uma merda pra tirar, essas coisas não vencem mais dentro de cinco anos…
- Não?
- Não. Pra eles, você será eternamente inadimplente!
- Mas que merda!
- Tudo isso porque aquela vagabunda levou tudo o que você tinha!
- TUDO!
- Não te deixou nada!
- NADA!
- E você, que fazia tudo por ela!
- TUDO! Garçom, me traz um uísque!
- Tirou-a da miséria, deu do bom e do melhor…
- Apenas do melhor!
- E ela te largou por aquele moleque, todo saradão, marombado. Um zé-ninguém!
- Mulher não sabe de nada, mesmo.
- Tudo bem que ele tem aquela BMW e é concursado da câmara, mas isso não o torna melhor do que você!
- De jeito nenhum!
- Só porque, com metade da idade, tem o dobro do dinheiro e o triplo do patrimônio? Oras!
- É a vida…
- Sim, e é uma merda.
- Garçom, mais um! Duplo e sem gelo!
- Calma aí, rapaz. Teu trabalho amanhã…
- Ah, empreguinho…
- Não é tão ruim, vamos lá. Tá certo que você é praticamente um estafeta…
- Mas é melhor do que nada!
- …o dia inteiro levando e trazendo documentos praquele bando de moleques engomadinhos…
- Paga as contas!
- É, em duzentas parcelas com juros abusivos.
- Garçom! Caipiroska, por favor! Pouco açúcar, menos limão, muita vodka!
- E teu carro não tá valendo muita coisa.
- Tá andando, é o que importa.
- Sim, mas como patrimônio.. a pintura descascando, os pneus meio carecas…
- O motor tá bem.
- Por enquanto. Tem quantos anos. Seis? Sete? É quando começa a dar problema!
- Será?
- Vai dizer que de vez em quando ele não ensaia umas engasgadas? Naquelas manhãs mais frias?
- Hm… até que sim, ultimamente preciso girar a chave quatro ou cinco vezes na ignição pra dar a partida.
- Não dou três meses pro bicho arriar.
- Mas que desgraça! Ô campeão, desce uma cachacinha, por favor!
- Mas a vida é assim mesmo…
- E assim mesmo é a vida…
- E as mul… rapaz, essa cachaça é forte! Você virando desse jeito, vai com calma!
- Nada que eu não agüente, já tive piores.
- Mas como eu dizia, e as mulheres, nada?
- Nada!
- Tsc. Elas andam mais exigentes.
- Rá! Nem me fale!
- E você tá meio barrigudo, esses cabelos rareando…
- Será que é isso?
- Os dentes amarelados por causa do cigarro…
- Mas eu parei!
- Mas leva dez anos pros efeitos sumirem mesmo.
- Dez anos?
- Dez anos, foi o que eu li. Será que viveremos isso tudo?
- Nunca se sabe.
- Eu acho que ainda chego lá, mas você…
- Eu o quê?
- Anda meio pálido, né? Os olhos meio avermelhados…
- É a bebida!
- Ou pode ser alguma coisa. Um câncer…
- Deus me livre!
- Dizem que as pessoas da nossa idade têm maior chance de desenvolver diabetes.
- Diabetes é foda.
- Ô! Pense só: anos e anos vivendo com agulhadas.
- Um sofrimento, ainda mais com meu medo de agulhas.
- Sua mãe teve diabetes, não?
- Teve. (Ô distinto, outra dessa branquinha!)
- As chances aí são ainda maiores.
- É mesmo?
- Isso é tudo genético, rapaz. Eu iria ao médico, se fosse você.
- É… vou pensar nisso…
- Bom, eu tenho que ir pra casa.
- Ué, mas já? É cedo ainda, você não bebeu nada.
- Nah, eu só vim molhar o bico, ver como você tava.
- Ah…
- Mas o que é isso, bicho? Se anima! Quando eu cheguei você tava tão pra cima, feliz, empolgado. Que foi que te deu?
- Sei lá…
- Vamos que vamos, velhinho, que é pra frente que as malas batem!
- É…
- Bom, vou lá que a patroa e os moleques estão me esperando. Ó, vê se pára de beber tanto, que qualquer dia desses eu te chamo pra jantar lá em casa, hein. Dá cá um abraço!
- Tá, tá…
- E você, ô garçom! Vê se pega leve com ele, hein? O cara é meu amigão!
- Do peito!
- Do peito! Me preocupo com ele pra caralho!
- Como um irmão!
- Isso! Um irmão!
- Amigo mesmo é você, viu, cara?
- A gente faz o que pode.
- Você… e o garçom. Ô, chefia! Dá um daquele andarilho tarja preta aí!

Hora do café

- Um café, por favor.

E corrigiu:

- Um expresso!

Escolheu uma das mesinhas vazias, sentou-se mal e mal na banqueta. Sentia-se incomodado sobre aquela torre balançante, a base fina simplesmente não lhe inspirava confiança. Mantinha o pé esquerdo no chão, por via das dúvidas.
Tirou da pasta que trazia a tiracolo um jornal muito dobrado e pôs-se a ler, cotovelo apoiado na mesa, queixo apoiado na mão, resmungando qualquer coisa de tempos em tempos. O café chegou. Ele agradeceu a moça que trouxe e voltou a atenção para o jornal. Sem tirar os olhos da folha, sacou do bolso da camisa um maço de cigarros, tirou um com a boca e, enquanto tateava as calças em busca do isqueiro, cruzou olhares com uma garçonete mais velha, que parecia ser responsável pelo lugar. Com o cigarro pendendo no canto da boca, fez cara de criança surpreendida no meio de qualquer arte. Perguntou, sem-jeito:

- Não pode, né?

Ela meneou a cabeça, ainda mais sem-jeito, talvez por ter que negar a um cliente um prazer que não incomodaria ninguém – o lugar estava praticamente vazio, havia apenas um casal numa mesa suficientemente afastada, que sequer parecia notar a presença do homem, e uma moça, também distante, que o observava com certa ansiedade.

- Não pode, moço, tem aquela lei que proíbe. Eu também fico doida por um cigarrinho entre um café e outro, mas fazer o quê? Se aparecer um fiscal aqui, é multa na hora.

Sorriram um para o outro com ar tristonho, como quem identifica um cúmplice que cumpre pena na cela ao lado. Ela voltou ao que quer que estivesse fazendo, ele deixou de procurar o isqueiro. O cigarro permaneceu na boca, como estava, apagado, meio caído, ameaçando jogar-se no café. Qual suicida que, diante da impossibilidade de cumprir seu destino, preferisse morrer.
A moça, aquela que o analisava ansiosamente à distância, veio até ele. Chegando por trás, disse com uma voz que destilava o venenoso desprezo da mulher traída:

- Olha só quem resolveu aparecer!

Ele a olhou com surpresa. O cigarro efetivamente caiu, errou o café por pouco. Nenhum dos dois se deu conta do fato.

- Nossa, você por aqui! Quanto tempo! - e imediatamente repreendeu-se, pensando “Será que não tinha nada pior para dizer?”. Um segundo depois, entretanto, pareceu lembrar-se de todo o relacionamento que tiveram – das discussões, em particular. Seu rosto tomou um certo ar de segurança e enfado. O dela permaneceu fuzilando-o.
- Ai, que lindo! Ele é irônico! Quanto tempo, como vai você?

Falou como quem encontra um grande amigo, perdido há eras. Ele achou por bem ignorar o tom sarcástico da voz dela, na tentativa de conduzir o papo para outra situação além da que se avizinhava, potencialmente catastrófica:

- Eu vou bem, obrigado. E você?

Não deu certo. Ela permaneceu séria, falando gravemente, salivando fel:

- É mesmo muita cara-de-pau da sua parte falar comigo como se não tivesse acontecido nada!

Olhou em volta, buscando ajuda. Não havia ninguém, teria que se defender sozinho. Ela continuou.

- Você não teve a decência de me ligar!
- E por que eu teria que te ligar?
- Não me surpreende que você não saiba.

Esse ataque ferino aos seus conhecimentos das normas de interação com membros do sexo oposto – cartilha que já deveria ter sido escrita há eras, embora seja pouco provável que alguém a seguisse, visto que as variáveis são elevadas à enésima potência – tornou-o subitamente ofendido, acabando com seu ar simpático e jogando-o numa posição de contra-ataque:

- Foi você que terminou comigo!
- Por isso mesmo!

Coçou a testa, reprimiu um palavrão que chegou a sair pela metade: …taqueopariu! Para ele, aquilo não tinha muita lógica. Considerava que o dispensado não deveria tornar a ligar, essa era uma obrigação do dispensante, quer por caridade, quer por vaidade (a fim de verificar o estrago causado por sua decisão). Ela, entretanto, seguia outro tipo de regra:

- E você não foi homem suficiente pra aceitar.
- Como assim, não aceitei? Aceitei perfeitamente bem. Você disse “fim”, eu pensei “certo, então é o fim”. Toquei a vida.
- Você entrou em ne-ga-ção! - falou sílaba por sílaba em tom de voz elevado, como se ele fosse surdo. Ou idiota. Ou um idiota surdo. Ele finalmente largou o jornal sobre o mármore frio da mesinha, aborrecido. O café esfriava. O cigarro da boca fora para a mesa, daí rolara para o colo dele, donde fora para o chão, pela perna esquerda estendida.
- Não foi ne-ga-ção, foi a-cei-ta-ção.
- E meus e-mails? Você recebeu?
- Lógico que recebi.

Os olhos dela encheram-se de lágrimas. Disse com voz irritada e chorosa:

- E por que nunca respondeu?
- Você disse claramente em todos eles que não queria que eu respondesse!
- Mas você não entende nada? É incapaz de captar uma mensagem? Isso não era motivo para você ficar em silêncio!

Ele baixou a cabeça, correu as mãos pelos cabelos. Depois de seis meses de término, de paz, de distância e tranqüilidade, ali estavam os dois, em plena sessão de descarrego. Ele odiava sessões de descarrego, ela parecia adorar. Perguntou, como quem pede piedade:

- O que você quer de mim, afinal?
- Minhas cartas.
- Quer que eu devolva suas cartas?
- Não seja idiota! Quero saber se você recebeu!
- Ah! Também recebi.
- E leu?
- Li.
- Leu todas?
- Sim, li todas as suas cartas. Todas, todas.
- Do começ…
- Do começo ao fim!
- E não vai dizer nada sobre o que eu escrevi pra você, as coisas que eu disse, minhas razões pra desistir da gente? Não vai me deixar saber o que você achou?
- Parafraseando Roberto Carlos:
- O cantor?
- O cantor.

O olhar dela se acendeu com esperança. Ele, sempre tão insensível, estava na iminência de dizer algo realmente romântico, talvez até melodioso. Ele respirou fundo, soltou o ar lentamente, olhou-a nos olhos e, munido de toda sinceridade, soltou:

- Ri muito, bicho.

Ela ficou em silêncio por dez segundos. Dez segundos que duraram meia-hora. Uma hora. Quarenta dias e quarenta noites. Ficaram assim, olhos fixos um no outro. Ela, com toda a delicadeza de sua natureza feminina, esticou a mão, pegou a xícara de café e derramou no colo dele, que, temendo uma queimadura, assustou-se, quase caindo da banqueta (salvou-o a perna esquerda, firme no chão). À toa, porém: o líquido esfriara.
Entre os dentes, querendo chorar, querendo gritar, querendo arrancar os cabelos - dela e dele -, ela sussurrou:

- E não volte a me procurar!

Ele ficou ali, enquanto ela se afastava pisando com força. Finalmente deu-se conta da ausência do cigarro na boca. Pegou outro, sequer pensou em procurar o primeiro. Olhou de novo para a garçonete.
Ela se aproximou, sacou um isqueiro e acendeu o cigarro dele, usando-o em seguida para acender o seu. Soprou ruidosamente a fumaça do primeiro trago, olhou para a moça que sumia à distância, depois novamente para ele:

- Mulher é tudo louca, né?

Das coisas que começo (e não termino nunca) - I

Simone tinha olhos castanhos, de um castanho claro amarelado, uma cor que lembrava âmbar e parecia refletir a luz de forma ímpar, diferente de qualquer outra coisa que você já tivesse visto. Sentava-se meio de lado, cruzava as pernas e jogava por sobre os ombros, para seus interlocutores, aquele olhar capaz de corar até mesmo o mais desavergonhado cafajeste. Não fazia toda essa pose ritahayworthiana por querer, era algo involuntário. Tinha um charme que entornava em cada gesto. Não conseguiria contê-lo nem se quisesse.

Simone me fazia entender como era possível um homem se apaixonar por uma mulher de burka.

(Pra onde caralhos vai um texto que começa assim? Se não virar um romance - no sentido amoroso da coisa, não editorial -, torna-se uma tragédia. No meu caso, sempre tende para o segundo tipo de história.)

O texto é velho, a música é nova. O sentido se mantém.

[Cena: Uma cobertura de um prédio de classe média-alta. Alta madrugada. Um rapaz recolhe copos e garrafas de Smirnoff Ice (pausa para o Merchandising). Seu passo um tanto trôpego acusa que já bebeu um tanto além da conta. De súbito, uma luz intensa o ilumina. Em seguida, um ser de baixa estatura, crânio avantajado, membros esguios e compridos, pele muito branca, trajando uma roupa esquisita que nenhum ser humano em seu juízo perfeito seria capaz de usar se aproxima, enquanto a luz diminui gradativamente]

- ƒÄ£æ! ×Þ
- Putz! Um… um emo!
- ¬¬ ěщö ĕ Ћзц þΛĩ, ΰίΔÐø!
- Caralho, mano. Sou eu que tô muito bêbado, ou tu não tá falando coisa com coisa mesmo?
- ©º®№… pronto. Desculpe, esqueci de ligar o tradutor universal.
- Ah, beleza. Mas e aí, o que te traz por essas bandas?
- Leve-me ao seu líder!®
- Nossa! Baita frase clichê, hein?
- É, eu sei. Mas tá no Manual de Primeiro Contato, sabe. Sou um novato, baixa patente, tô sendo monitorado pelos veteranos. Tenho que seguir o regulamento à risca.
- Ah, tu é um etê?
- Um etê aspira.
- Nossa. Pé-no-saco, hein?
- Total.
- Mas diga lá, o que cê quer por aqui?
- Eu e meu povo estamos singrando o espaço. Indo onde nenhum Inca Venusiano jamais esteve. Em busca de novos mundos. Novas civilizações…
- Argh. Cê tá batido, etê. Só falta me dizer que seu nome é Spock.
- Não, nem é.
- Ufa.
- É Kirk.
- Putz! Numa boa, cara, você tá precisando de uma reciclagem.
- Sério?
- Sério. Esse papo aí de “leve-me ao seu líder”, “buscar novos mundos”, “novas civilizações”, “incas venusianos”, etc. Isso tá tudo batido.
- Pô. Mas meu computador me informou que você reconheceria essa linguagem.
- Reconhecer, eu reconheço. Mas é obsoleta. Aposto que teu computador é um IBM.
- Como descobriu?
- Tinha que ser mesmo. Escuta, eu vou te inteirar das novidades…
- Legal.
- O lance por aqui deu uma melhorada desde que vocês colheram essas informações aí.
- Melhorada, é?
- Pois é. Tá muito mais sinistro.
- Hm… mas… sinistro não é ruim?
- Ah, não. Sinistro é bom.
- Na minha língua, sinistro é ruim.
- Mas aqui na nossa, sinistro é bom. Sinistro é… cabuloso.
- Ca… cabuloso?
- É. Cabuloso.
- Não existe esse termo no meu idioma.
- Pô. Não me admira você ser tão out, cara. Nem sabe o que é ser cabuloso. Nem sabe o que é ser sinistro. Vou te apresentar um lance sinistramente cabuloso, então.
- Hm. Manda brasa seja lá o que for isso.
- Se prepara.
- Tô preparado.
- Tu vai balançar até cair!
- Álcool eu já conheço e dispenso, obrigado. Tô a serviço.
- Não, cara, esse é um batidão!
- Pô, não precisa ser violento!
- Cacete, etê, cala a boca e ouve!
- Toca logo essa porra, então!

PÁ DANÇAR CRÉU TEM QUE TER DISPOSIÇÃO
PÁ DANÇAR CRÉU TEM QUE TER HABILIDADE
PORQUE ESSA DANÇA, ELA NÃO É MOLE NÃO
EU VENHO TE FALAR QUE SÃO CINCO VELOCIDADES

[Pausa para a guerra interplanetária que trará a aniquilação da humanidade como a conhecemos]

(eu editei o texto um bocado, mas tudo bem: 99% das pessoas que visitam isso aqui não conheciam esse blog quando ele foi publicado da primeira vez, em eras antediluvianas)

Ficaram ótimas!

Chegando ao trabalho, encontrou um pacote fechado sobre sua mesa. Um bilhete dizia “veja as fotos da festa!”. “Ué… que festa?”, pensou, enquanto abria o embrulho.

Um pigmeu surgiu de trás de sua cadeira, gritando “HAAAA! TE PEGUEI!”. Antes que ele pudesse esboçar qualquer reação, o nanico tomou seu celular e passou a ligar para cada um dos contatos. Dizia apenas “Veja as fotos da festa! Ficaram ótimas!” e desligava.

Sem saber o que fazer, o sujeito apenas observava, incrédulo. Depois desse surto, o pequenino devolveu o telefone e, puxando um banquinho, sentou-se ao seu lado. Retirou do bolso um bloquinho e uma caneta e ficou aguardando.

- O que você está fazendo?

O pigmeu rabiscou algo no bloquinho.

- Com licença?

Tornou a rabiscar.

- Oi! Tô falando com você!

Nova anotação.

Cansou de insistir e resolveu trabalhar. Sentou em sua cadeira, ligou o computador e foi pegar um café. O pigmeu seguiu cada um de seus passos, sempre tomando nota. Voltou para a mesa, sentou-se diante do monitor e estava abrindo o e-mail quando sentiu na nuca a respiração do nanico, que observava sobre seu ombro.

- Pô, você tá anotando minhas senhas?

O pigmeu permaneceu em silêncio. O homem ia se enfezando. Estava lendo os e-mails quando, de súbito, ouviu o barulho característico do botão de liga/desliga do computador sendo pressionado. Olhou para baixo e ali estava o pigmeu, resetando a máquina. Resolveu que, por mais que fosse bem bolada, aquela piada já tinha ido longe demais. Foi falar com o chefe.

- Com licença, chefe.
- Pois não?
- VEJA AS FOTOS DA FESTA! VEJA AS FOTOS DA FESTA!

O chefe, de costas para o funcionário, lendo com interesse um e-mail na tela do computador, virou-se assustado ao ouvir a voz esganiçada.

- O que é isso?
- Estou tendo um problema no meu escritório.
- O que há?

O homem apenas apontou para baixo. O chefe olhou por cima da mesa e viu o pigmeu, anotando freneticamente em seu bloquinho. Fechou o cenho de imediato e adotou um tom de voz extremamente aborrecido:

- Não acredito que o senhor abriu um arquivo desconhecido!
- Ué, estava na minha mes…
- O senhor tem idéia de quanto gastamos POR ANO em segurança da informação nesta empresa?
- Segurança da informação? Mas era um pacote físico!
- Não me venha com desculpas. Ligue para esse número e fale com nosso suporte técnico.

Retornou para sua sala, sempre seguido pelo pigmeu. Pegou o telefone e começou a discar o número do suporte, mas o aparelho ficou repentinamente mudo. Seguiu o fio com os olhos e viu o pigmeu terminando de arrancá-lo da parede.

Xingou qualquer coisa que o pequenino anotou. Irritado, usou o celular para fazer a ligação. Uma voz gutural, raivosa, grave e agressiva atendeu do outro lado.

- Suporte.
- Com quem eu falo, por gentileza?
- Com o suporte.
- Hm… estou tendo um problema…
- Que tipo de problema?
- Um sujeitinho inconveniente que passou a manhã inteira me atrapalhando.
- Como assim?
- Anota tudo o que eu faço, desliga meu computador, pega meu celular e liga para todos os números, mandando mensagens bizarras…
- É um cavalo de tróia.
- Não se parece muito com um cavalo…
- Mas é. É um spyware.
- Não se parece muito com um vírus, também.
- Quem é o especialista aqui?

Tal pergunta, feita por aquela voz, causou-lhe um arrepio. Achou melhor não discutir mais.

- Você, é claro.
- Você tem um anti-vírus?
- Que tipo de anti-vírus?
- O tipo que resolve problemas com vírus, spywares e todo tipo de programa mal-intencionado.
- Hm… acho que não tenho um.
- Vou levar um até aí. Você é alérgico a gatos?
- A gatos?
- Sim.
- Até onde eu saiba, não.
- Ótimo.

Meia hora depois, um sujeito mal-encarado, com uma espingarda a tiracolo, entrou no escritório. Segurava a ponta de uma coleira que tinha, na outra extremidade, um enorme leão de juba preta, olhos injetados e caninos pontiagudos que pingavam saliva. O bicho olhava fixamente para o pigmeu. O pigmeu pareceu empalidecer. O homem mal-encarado soltou a fera, dizendo:

- Varredura completa.

O bicho correu pra cima do pigmeu. Chocado, o cidadão assistia a tudo enquanto o imenso felino, após perseguir o nanico pelo espaço restrito da sala, acabou por espedaçá-lo. Em seguida devorou os pedaços avidamente.

- Vê se não esquece de atualizar com regularidade.
- Atualizar?
- É. Ou seu sistema pode entrar em risco. Tenha um bom dia.
- Bom dia.

Voltou para seus afazeres. Não houve mais notícia de pigmeus zanzando pelo escritório.

Náufragos

Conheceram-se aleatoriamente, em circunstâncias difíceis de explicar, mas a atração mútua foi imediata. Deram-se as mãos e caminharam por um cenário um tanto bucólico, até chegarem à beira de um lago. Encontraram ali um pequeno barco com dois remos. Resolveram dar um passeio entre os cisnes, passar sob aquela pontezinha em arco, quem sabe parar lá no meio e assistir ao pôr-do-sol.

Ele tomou os remos, ela insistiu para remar também. Remaram juntos, pois. A partir de um certo ponto, entretanto, ele se distraiu. Não fez por mal, era apenas de sua natureza voltar a atenção para outras coisas, eventualmente. E do mesmo jeito que seu foco mudava para uma ave que passava, ou um vulto de peixe movendo-se sob as águas, também retornava para ela e o que ela dizia.

Não foi o bastante. Aquelas doses de atenção não eram o que ela queria. Ela queria atenção total, queria vê-lo imerso em seu mundo. Ele não era de imergir em nada, simplesmente porque não era. Aos olhos dela, entretanto, era descaso, e vai explicar que focinho de porco não é tomada!

Ela começou a demonstrar certo aborrecimento, tristeza. Ele sorria e tentava tranqüilizá-la, mas aquele olhar fugidio que não permanecia fixo no dela era irritante demais. Percebeu então que remava sozinha. Ele estava absorto olhando para o céu, para nuvens, para pássaros.

Ela deu um chilique brusco e virou o barco.

Fodeu tudo de uma vez e pronto.