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Historieta Curtita XVII

Entraram na casa dela e foram tropeçando em todos os móveis que havia no caminho para o quarto. Arrancavam a roupa desajeitadamente, com pressa, enquanto se engalfinhavam como dois gatos de rua.

Depois de derrubar um abajur, duma canelada, dele, em uma mesinha de cabeceira e dela quase mandar ao chão um espelho de parede, finalmente conseguiram chegar à cama. Ele lhe mordia o pescoço quando ela sussurrou em seu ouvido:

- Seus carinhos me enchem de desejo!

Ele parou. Olhou-a nos olhos.

- Como?
- Suas carícias me alucinam!
- Sério?

Ela, sentindo-se incentivada pelo clima, pela meia luz, pelo olhar que ele lhe lançava, continuou:

- Vem! Me faz ser sua!

Ele ainda a olhava quando redarguiu:

- Minha?
- Sua! Toda sua! Vem, vem ser meu homem!
- Seu homem?
- Anda! Me possui! Quero te sentir em mim, nossos corpos feitos um!

Ele se levantou. Subiu as calças, meio arriadas, e já estava fechando a camisa quando ela quis saber o que houve.

- Tua breguice cortou meu barato.
- Quê?
- É isso aí. Mas não se sinta mal. Você tem futuro como letrista de forró. Adeus.

Ele foi pra casa, dormiu o sono dos justos.
Ela se masturbou ao som de Calcinha Preta.

[Reprise] Quem vê cara…

Este texto foi escrito e publicado em 2006. Como estamos em época de eleição novamente, nada como um pouco de putaria para combinar com o espírito político brasileiro. Editei algumas coisas e acho que dei uma melhorada no negócio. Ou piorada, sei lá. Se quiser comparar versões, procure o original, mas é muita falta do que fazer, hein?

No mais, essa é uma obra de ficção. Semelhanças com fatos ou pessoas reais são sempre meras coincidências.

Não era nova o bastante para ser considerada adolescente, nem tinha idade suficiente para ser uma balzaquiana. Era uma jovem de vinte e poucos anos, muito bonita e com inteligência pouco acima da média. Seria um exagero dizer que atraía homens aos borbotões, como seria afirmar que os repelia. Da mesma forma, seria incorreto afirmar que era intocada, uma virgem e seria igualmente injusto chamá-la por adjetivos impróprios. Tivera sua dose de relacionamentos infrutíferos. Alguns duradouros, outros breves. Tinha a bagagem que alguém de sua idade deveria ter nos assuntos do amor, do sexo e da convivência. Nem mais, nem menos, para a moça mediana que era.

Conheceu-o por acaso, em um jantar na casa de amigos, e foi arrebatada pelos modos alheios, o olhar longínquo, o ar sempre distante e a moderação com tudo. Tudo, menos comer. O homem comia como um tigre faminto. O correto seria compará-lo a um abutre, pois não fazia restrições quando se tratava de culinária, mas tal paralelo soaria grosseiro, então fica como está.

Trocaram telefones e começaram a sair.

Ele levou algum tempo até perceber suas reais intenções, mas percebeu. Ela levou algum tempo até notar que seria necessário abandonar as indiretas para trazê-lo ao encontro de seus anseios, mas notou. Depois de breve período de romance, ele revelou que também tinha reparado nela no dia do jantar, que ficara encantado com sua presença de espírito, seus olhos vivos e comentários perspicazes.

Ela sabia, graças aos romances passados, que namoros se resumiam a duas coisas: fazer sexo e comer. E sabia que seu namorado era um legítimo bom-garfo e, também por isso, apreciava sua companhia nas refeições. Mas seu grande apetite lembrou-a de certas teorias que diziam que homens muito vorazes à mesa também o eram na cama. Sentiu-se curiosa para tirar a dúvida.

Certo dia em que seu pai viajou - a mãe vivia alhures -, convidou-o para jantar em casa. Ele aceitou inocentemente, como um bezerro que caminha ingenuamente para o matadouro, ignorando que está prestes a se tornar um pedaço de vitela.

Chegou pontualmente e, com os trejeitos tímidos de sempre, sentou-se empertigado no sofá da sala. Recusou copos d’água, cafezinhos, refrigerantes. Por fim, aceitou um tira-gosto e uma taça de um merlot que melhorava na adega havia algum tempo. Assistiram à programação da TV a cabo entre carícias leves, que se intensificaram, até que o controle remoto foi ao chão com estrépito quando ele se levantou e, demonstrando surpreendente força física, ergueu-a pela cintura com um braço, enquanto, ávido, mordia-lhe o pescoço e abria o fecho do sutiã habilmente utilizando apenas três dedos.

Entre beijos, ela sugeriu que fossem para o quarto e ele a levou sem colocá-la no chão, acariciando seus seios com a mão que estava livre.

As teorias se provaram verdadeiras. O homem era, de fato, um incubus! Ele a deitou na cama com gentileza que não condizia com o modo fremente com o qual os lábios, língua e dentes percorriam seu pescoço, queixo, nuca, boca e orelhas. Retirou sua calça jeans com espantosa velocidade e apenas pedaços de sua calcinha foram encontrados no dia seguinte, espalhados por todo o aposento. A seguir, despiu-se com igual velocidade e juntou-se a ela sob os lençóis.

O rapaz alternava carinhos insolentes com carícias de desmedida ternura. A língua dele percorria cada milímetro de seu corpo, suas sensações tão transitórias que era difícil compreender o que acontecia. Mas ela compreendia e adorava. Gemia de agrado quando ele, virando-a de bruços e mordendo-a das nádegas até o pescoço, sussurrava elogios despudorados em seu ouvido. Gemia duas vezes mais quando, no instante seguinte, com um movimento brusco, ele a girava na cama, colocando-a em decúbito dorsal, e trafegava por seu corpo com mãos ágeis apertando, afagando, arranhando e massageando, e com a ansiosa boca beijando, lambendo, chupando e mordendo. Chegava até seu baixo ventre, até seus grandes, gotejantes lábios, e, entre volteios calculados e investidas competentes com a língua, que a faziam estremecer, dizia obscenidades inenarráveis que, somadas à sofreguidão de seus gestos, faziam-na pensar que estava prestes a perder o juízo.

Em um instante lambia-lhe os pés, chupava-lhe os dedos, abocanhava-lhe os calcanhares. No próximo segundo já estava manuseando seus mamilos, mordiscando-lhe o púbis. Não lhe pedia nada, não lhe dava ordens, nada lhe perguntava. Perscrutava seu corpo como se lho pertencesse, e a essa altura do campeonato já pertencia. Ela apenas mordia os lábios, voluptuosa, gemia, urrava, gritava, implorava por mais, arranhava-se, agatanhava-o, raspava as paredes, desalinhava os cabelos, descontrolava-se.

Ele murmurou em seu ouvido, em dado momento, que iria apresentá-la à sensação de descer na maior montanha-russa do mundo e riu o riso sem-vergonha dos devassos. Em seguida jogou as duas pernas dela para cima e, introduzindo-lhe dois dedos, apertou algum botão - até então desconhecido a ela - que causou efeitos imediatos. Após intermináveis segundos que chegaram ao fim mais rápido do que gostaria, seu corpo inteiro convulsionou-se como que tomado por um surto epilético. Sentiu os lençóis encharcados com a torrente de satisfação que escorria entre suas coxas lânguidas.

Depois de tão violento orgasmo, deixou-se desfalecer. Chegou a sentir a vista escurecer e o quarto girar, mas ele, veloz, apertou seu pescoço num gesto agressivo, como se tentasse sufocá-la. O afogamento súbito, em vez de apagá-la de vez, trouxe sua consciência novamente à tona. Resfolegando, olhou para ele.

Os olhos, antes aéreos, pacíficos, estavam completamente diferentes. Fitava-a como um gato que observa a presa encurralada. Não havia nada do ar distraído de outrora, apenas o olhar decidido do agressor sobre a vítima. Tremeu de espanto, mas, mais do que isso, tremeu de prazer. E ele, após assediá-la com nova série de preliminares, penetrou-a com toda a pujança de seu sexo furioso, subversivo e insaciável.

Foi uma longa noite. Fizeram amor, sexo, transaram, foderam, fornicaram… deixaram-se levar pela luxúria. Entre uma rodada e outra da mais pura, feliz e realizada safadeza, atacavam a geladeira. O mesmo apetite que ele manifestava com a comida, dirigia a ela, a seus fluidos, a seus orifícios, a toda sua anatomia. Ela descobriu no próprio corpo algo entre doze a dezessete zonas erógenas que antes desconhecia.

Passaram a dormir juntos quase todas as noites. O pai dela, um homem instruído, com boa cabeça, razoável, não interferia no direito da filha – maior de idade, responsável, inteligente – de dormir com o namorado. Inclusive lhe agradava a companhia do rapaz. Conversavam sobre esportes, música erudita, livros, notícias, assuntos gerais, enfim. Bebericavam dos bons vinhos da adega. Um semillon para acompanhar foie gras, um cabernet para melhorar a degustação de queijos e outros frios.

A moça ficava feliz em ver o pai se dando tão bem com o namorado, em notar como as conversas rendiam horas e horas de assunto e em ver como o apetite sexual vigoroso de seu parceiro não arrefecia. Era impossível se conter durante as intermináveis maratonas de descaramento e, não tivesse o velho sono tão pesado a ponto de resistir aos próprios roncos, amargaria noites insones ao som das sessões de ode aos prazeres carnais da filha.

Um dia marcaram de se encontrar na rua. Ele iria buscá-la na saída do estágio.

Chegou um pouco atrasado, alegando que perdera a noção do tempo durante uma reunião de membros de seu partido. Trajava uma camiseta do DEM. No vidro do carro, os inconfundíveis adesivos de apoio aos candidatos do Democratas.

Incapaz de tolerar tamanha sem-vergonhice, ela terminou o namoro dois dias depois.

Dos aborrecimentos ininterruptos

- Tô de saco cheio, não agüento mais isso!
- Isso o quê?
- Isso tudo.
- Você podia tentar ser mais específico.
- Eu especifiquei. “Isso tudo” quer dizer “tudo isso”. Tudo! Você está familiarizado com o conceito de “tudo”?
- Então por “tudo” você se refere, parafraseando Douglas Adams, à vida, ao universo e a tudo mais?
- Com ênfase no “tudo mais”.
- O que é que há?
- O que há é que eu tô de saco cheio.
- Sim, isso você já disse. Mas isso é um resultado. Eu estou perguntando pela causa que te conduziu a tal resultado.
- Se eu disse que tô de saco cheio de tudo, pode-se imediatamente inferir que TUDO me conduziu a isso. Logo, tudo é a causa.
- Escuta, eu tô tentando sondar o que aconteceu pra você chegar nesse estado de supremo emputecimento, de modo a te ajudar a buscar uma solução, mas você precisa parar de rodeios e ser mais específico. Diga de uma vez por todas o que foi que houve, cacete!
- Não é algo em particular, algo pontual. Um acontecimento apenas não leva alguém a esse estágio de desânimo e cansaço no qual me encontro agora. É tudo! É a vida transcorrendo numa seqüência ininterrupta de erros e problemas que vêm minando minha paciência e me levaram à conclusão que iniciou esse nosso diálogo.
- Não pode ser possível que tudo esteja dando errado.
- Ah, pode, sim.
- Muito mais coisas podem dar errado, você é que não está considerando todas as possibilidades.
- Ok, muitas coisas que AINDA não deram errado podem dar errado, isso é fato. E muitas das que deram errado poderiam ter dado errado de forma ainda mais severa, causando mais danos do que os que foram causados. Mas o fato das coisas terem como piorar não significa que estejam boas.
- Isso lá é verdade.
- Que bom que você concorda, seria uma merda ter que ouvir o argumento da conformação segundo a merda alheia.
- O quê?
- O argumento de conformação segundo a merda alheia é aquela idéia, da qual muitas pessoas fazem uso, de que, por pior que você esteja, ainda existe quem esteja pior do que você. Logo, você deveria se alegrar.
- Ah, compreendo.
- O que eu, diga-se de passagem, considero muito pouco cristão. Uma verdadeiro cristão deveria se sentir ainda mais miserável por saber que existem semelhantes em situação pior do que a dele. Eu não sou cristão, mas saber que tem gente por aí mais fodida do que eu não faz com que eu me sinta melhor.
- Eu ainda acho que você exagera. Talvez seu problema seja apenas o foco…
- Já me disseram isso. Que é um problema de foco. Que eu sou pessimista e, portanto, só dou atenção ao que dá errado, armazenando tais informações para depois utilizá-las como base para meus argumentos pessimistas.
- Era mais ou menos o que eu ia dizer.
- Pois saiba que não é verdade. Fiz um experimento a respeito: diante de cada situação com chance de dar certo ou errado, eu sacava do bolso um bloquinho e, com uma caneta preta, anotava a situação, qualquer que fosse. No fim do dia marcava com um X azul as que deram certo e com um X vermelho as que deram errado.
- E aí?
- E aí que foi a primeira vez que vi a tinta de uma caneta bic vermelha acabar.
- Então você está de saco cheio.
- Totalmente. O problema é que a única solução viável pra me livrar desse inferno que é a minha vida é a morte, mas não tenho coragem de me matar.
- Eu também não teria, me parece tão antinatural…
- Não é por isso que não tenho coragem. Se tudo dá errado o tempo todo, tentar algo assim é dar muita chance pro azar. Corro o risco de terminar pior do que antes!
- Sei. É o paradoxo do suicídio.
- Esse eu não conheço.
- O suicídio é a única situação de vida ou morte na qual, quando TUDO dá errado, você sai ileso.
- Interessante, nunca tinha pensado nisso.
- Viu? Você aprendeu algo novo. Isso é bom. Nem tudo dá errado o tempo todo.
- Tanto dá que essa pequena informação que você me passou agora só torna mais difícil pra mim tomar a única decisão que poderia acabar com essa encheção de saco de uma vez por todas. Parabéns!

Contos Triviais II

Caminha há três dias, sem parar nem para dormir. A pouca água que tem, sorve em doses homeopáticas, uma a cada três ou quatro horas, nunca com a intenção de aliviar a boca seca, a garganta áspera, a língua que, dentro da boca, parece repousar sobre uma caixa de areia. Ingere as doses mínimas do líquido precioso apenas para permanecer vivo. Ignora o suor pelo corpo que ensopa a roupa, a cabeça em chamas, o calor opressivo sob o sol inclemente, assim como, à noite, não dá atenção aos membros rígidos, à sensação cortante dos gélidos ventos fustigando a pele, às mensagens de seu corpo acusando a hipotermia que se aproxima. E não sorri de alívio ou estremece em antecipação às próximas 12 horas de calor quando nota que o enregelante frio da madrugada vai gradativamente sumindo, à medida em que os primeiros raios da esfera incandescente surgem na linha do horizonte.

Apenas segue, alheio a tantos estímulos externos desagradáveis, as pernas movendo-se de forma ritmada, passo após passo. Não há sinal de civilização até onde a vista alcança. Não há sinal de qualquer coisa, aliás, além do enorme espinheiro que singra como quem passa a vau por um rio caudaloso. Suas pernas são toras vermelhas de carne gotejante, dilaceradas, desfeitas pelos espetos afiadas que se projetam da vegetação hostil ao redor. Calças não existem mais a partir de um palmo da coxa, aproximadamente, e mesmo as coxas já estão arruinadas o suficiente para não serem reconhecíveis. É impressionante que uma estrutura tão castigada não só seja capaz de manter esse homem de pé, como ainda consiga impulsioná-lo adiante.

Apoiado sabe-se lá em que cajado filosófico, tomado por algum espírito de justiça - ou provavelmente vingança -, ele apenas caminha. Nacos de carne ficam para trás. Ele caminha. Seu cantil dá sinais de estar vazio. Ele caminha. Bolhas surgem em seus ombros, incentivadas pelo sol. Ele caminha. À noite, perde a sensação nas extremidades. E caminha.

Por fim atinge uma clareira. Em um raio de cinqüenta metros, o espinheiro cede. Dá lugar a uma relva verdejante, que cerca uma fonte tímida. Arbustos folhosos fornecem sombra suficiente para fazer qualquer homem naquela situação levantar as mãos para os céus e convencer-se da existência divina. Ele finalmente sorri. Resolve descansar.

Exausto, sem notar o que faz, deixa-se cair sobre um cacto.

Dos princípios quânticos aplicados

- Oi.
- Oi.
- Poxa, tava lembrando agora daquela nossa conversa de ontem.
- Lembrando do quê?
- Da conversa. Foi ótima.
- Ué, foi igual às que tivemos nos outros dias.
- É, foi, mas foi… sei lá, foi diferente.
- Não pode ter sido igual e diferente.
- Ah, ontem foi tão legal!
- Então nos outros dias foi um saco?
- Não, é que ontem… ontem foi diferente, pô.
- Desenvolva.
- Eu não sei explicar.
- Você sabe. Não quer. Mas sabe. Eu desenvolvo, então.
- Então desenvolve.
- Você achou que ontem foi tão legal porque está irresistivelmente atraída por mim.
- …
- Não é?
- Quem disse isso?
- Eu disse, agorinha mesmo. Acabei de dizer.
- E de onde você tirou essa idéia?
- Não era uma idéia.
- Não?
- Não.
- O que era?
- Uma sugestão.
- Não tô entendendo.
- É o princípio da incerteza.
- Entendi menos ainda.
- Você conhece o princípio da incerteza?
- Hm… não.
- É uma teoria da física quântica que diz - e essa é uma explicação a grosso modo - que, ao determinar a posição de um elétron, por exemplo, o instrumento de medida usado para definir essa posição irá alterar a posição ou velocidade do elétron.
- Você… você tem idéia do quanto isso não faz sentido aqui?
- Faz, sim. É que você não tá pensando de forma análoga.
- Eu ainda nem entendi o que você quer dizer!
- O que eu quero dizer é que quanto mais precisa for a medida de um fato, maior a chance de você obter não um resultado exato e atual, mas um resultado exato de como as coisas eram ANTES da sua intervenção para descobrir como as coisas eram. A partir do momento em que você intervém, você sabe como elas eram, mas não como elas são. E você precisa se lembrar que somos constituídos de partículas subatômicas, o que significa que, em algum grau, o princípio da incerteza também se aplica a nós.
- E onde entra sua sugestão, nisso tudo?
- Bom, isso já foi algum trabalho de dedução da minha parte. Você nunca disse que NÃO queria ficar comigo ou que NÃO estava atraída, e eu presumi, ao te ver me tratando dessa forma tão desembaraçada, que: 1) você nunca parou pra considerar a idéia de me ver interpretando o que você sente por mim como atração e reagindo positivamente a respeito, ou 2) você já considerou e era exatamente sua intenção. Como não te acho uma criatura dissimulada, do contrário nem perderia meu tempo falando com você, vou descartar a segunda hipótese. Tá acompanhando?
- Tô. E isso até que faz sentido.
- Então, se você nunca parou pra pensar em como reagiria caso eu achasse que você está dando em cima de mim, você ainda não tinha estabelecido, dentro da sua cabeça, que a idéia de ficar comigo é repulsiva. Do contrário, agiria de maneira mais contida, de forma a não nos conduzir a uma situação desagradável. A menos, claro, que você seja totalmente inconseqüente, o que significa ser bastante estúpida, coisa que eu sei que você não é. Matamos aí essa possibilidade, portanto.
- Sei.
- Ou seja: você pode nunca ter pensado “É, eu quero ficar com ele”, mas também nunca pensou “Eu NÃO QUERO ficar com ele”. É aí que entra o princípio da incerteza.
- Como assim?
- Ao sugerir que você estava atraída por mim, tudo o que eu fiz foi sondar com absoluta precisão a sua posição em relação a esse assunto. Tinha uma idéia de onde você estava, mas nada cientificamente comprovado. Agora confirmei. Entretanto, graças a isso você está fatalmente se movendo pra outra posição, porque meu instrumento de análise interferiu significativamente com a situação.
- Nossa, agora até que faz sentido todo esse monte de absurdos científicos que você disse.
- E, como você ainda não disse que NÃO, se não estava atraída por mim ANTES, está ficando AGORA.
- Você é descomunalmente nerd!
- E você não resiste a isso.

Da culpabilidade dos atos

Pacientemente, o homem observa o banco. Analisa esquemas de segurança. Anota horários de entrada e saída de funcionários, datas de envio e recebimento de malotes. As empresas procuram alternar, mas ele identifica o padrão. Mais alguns meses de observação e suas teorias se comprovam. Seus cálculos estão certos. É possível prever quando o dinheiro estará no cofre.

O tempo passa. Sondando bibliotecas públicas, surgem as plantas baixas do edifício, publicadas em livros de arquitetura graças a seu tombamento histórico. Mais observação e é possível descobrir a empresa responsável pela segurança eletrônica. Pesquisas na internet resolvem o resto. O sistema é bom, mas, como qualquer outro, não é infalível. Ele tem o método. Ele tem os meios. Ele tem o plano.

Fazendo uso de todos os recursos possíveis, ele entra no prédio. É noite, apenas um segurança está no local. Ele se esconde nas sombras e aguarda. Aguarda. Aguarda. Aguarda por horas por algo que não vem. Então toma a iniciativa e vai atrás do que queria. Presume não haver segurança. Imagina que o homem dorme, cansado graças a sua rotina de muito trabalho para pouco pagamento.

Ele chega ao cofre. Desmantela alarmes, câmeras e sensores pelo caminho. Suas noções de eletrônica e sua pesquisa sobre o sistema de segurança tornam aquela invasão - para muitos, impossível - um passeio no parque. Ele desarma o cofre… encontra um ferrolho. Um ferrolho simples, com um cadeado. Que ele não sabe como abrir, não tem ferramentas para arrombar. Irrita-se, sente-se frustrado. Vai embora, deixando tudo como estava. A invasão é detectada, assim como também é possível notar que nada sumiu.

Mesmo assim, o homem é preso.

A acusação alega que tentar roubar já te torna um ladrão. Sair com o produto do seu roubo em mãos só te confere, como diferencial, a competência.

A incompetência não te inocenta.
Te faz duas vezes culpado.




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