Archive for the 'ficticios' Category

Dos aborrecimentos ininterruptos

- Tô de saco cheio, não agüento mais isso!
- Isso o quê?
- Isso tudo.
- Você podia tentar ser mais específico.
- Eu especifiquei. “Isso tudo” quer dizer “tudo isso”. Tudo! Você está familiarizado com o conceito de “tudo”?
- Então por “tudo” você se refere, parafraseando Douglas Adams, à vida, ao universo e a tudo mais?
- Com ênfase no “tudo mais”.
- O que é que há?
- O que há é que eu tô de saco cheio.
- Sim, isso você já disse. Mas isso é um resultado. Eu estou perguntando pela causa que te conduziu a tal resultado.
- Se eu disse que tô de saco cheio de tudo, pode-se imediatamente inferir que TUDO me conduziu a isso. Logo, tudo é a causa.
- Escuta, eu tô tentando sondar o que aconteceu pra você chegar nesse estado de supremo emputecimento, de modo a te ajudar a buscar uma solução, mas você precisa parar de rodeios e ser mais específico. Diga de uma vez por todas o que foi que houve, cacete!
- Não é algo em particular, algo pontual. Um acontecimento apenas não leva alguém a esse estágio de desânimo e cansaço no qual me encontro agora. É tudo! É a vida transcorrendo numa seqüência ininterrupta de erros e problemas que vêm minando minha paciência e me levaram à conclusão que iniciou esse nosso diálogo.
- Não pode ser possível que tudo esteja dando errado.
- Ah, pode, sim.
- Muito mais coisas podem dar errado, você é que não está considerando todas as possibilidades.
- Ok, muitas coisas que AINDA não deram errado podem dar errado, isso é fato. E muitas das que deram errado poderiam ter dado errado de forma ainda mais severa, causando mais danos do que os que foram causados. Mas o fato das coisas terem como piorar não significa que estejam boas.
- Isso lá é verdade.
- Que bom que você concorda, seria uma merda ter que ouvir o argumento da conformação segundo a merda alheia.
- O quê?
- O argumento de conformação segundo a merda alheia é aquela idéia, da qual muitas pessoas fazem uso, de que, por pior que você esteja, ainda existe quem esteja pior do que você. Logo, você deveria se alegrar.
- Ah, compreendo.
- O que eu, diga-se de passagem, considero muito pouco cristão. Uma verdadeiro cristão deveria se sentir ainda mais miserável por saber que existem semelhantes em situação pior do que a dele. Eu não sou cristão, mas saber que tem gente por aí mais fodida do que eu não faz com que eu me sinta melhor.
- Eu ainda acho que você exagera. Talvez seu problema seja apenas o foco…
- Já me disseram isso. Que é um problema de foco. Que eu sou pessimista e, portanto, só dou atenção ao que dá errado, armazenando tais informações para depois utilizá-las como base para meus argumentos pessimistas.
- Era mais ou menos o que eu ia dizer.
- Pois saiba que não é verdade. Fiz um experimento a respeito: diante de cada situação com chance de dar certo ou errado, eu sacava do bolso um bloquinho e, com uma caneta preta, anotava a situação, qualquer que fosse. No fim do dia marcava com um X azul as que deram certo e com um X vermelho as que deram errado.
- E aí?
- E aí que foi a primeira vez que vi a tinta de uma caneta bic vermelha acabar.
- Então você está de saco cheio.
- Totalmente. O problema é que a única solução viável pra me livrar desse inferno que é a minha vida é a morte, mas não tenho coragem de me matar.
- Eu também não teria, me parece tão antinatural…
- Não é por isso que não tenho coragem. Se tudo dá errado o tempo todo, tentar algo assim é dar muita chance pro azar. Corro o risco de terminar pior do que antes!
- Sei. É o paradoxo do suicídio.
- Esse eu não conheço.
- O suicídio é a única situação de vida ou morte na qual, quando TUDO dá errado, você sai ileso.
- Interessante, nunca tinha pensado nisso.
- Viu? Você aprendeu algo novo. Isso é bom. Nem tudo dá errado o tempo todo.
- Tanto dá que essa pequena informação que você me passou agora só torna mais difícil pra mim tomar a única decisão que poderia acabar com essa encheção de saco de uma vez por todas. Parabéns!

Contos Triviais II

Caminha há três dias, sem parar nem para dormir. A pouca água que tem, sorve em doses homeopáticas, uma a cada três ou quatro horas, nunca com a intenção de aliviar a boca seca, a garganta áspera, a língua que, dentro da boca, parece repousar sobre uma caixa de areia. Ingere as doses mínimas do líquido precioso apenas para permanecer vivo. Ignora o suor pelo corpo que ensopa a roupa, a cabeça em chamas, o calor opressivo sob o sol inclemente, assim como, à noite, não dá atenção aos membros rígidos, à sensação cortante dos gélidos ventos fustigando a pele, às mensagens de seu corpo acusando a hipotermia que se aproxima. E não sorri de alívio ou estremece em antecipação às próximas 12 horas de calor quando nota que o enregelante frio da madrugada vai gradativamente sumindo, à medida em que os primeiros raios da esfera incandescente surgem na linha do horizonte.

Apenas segue, alheio a tantos estímulos externos desagradáveis, as pernas movendo-se de forma ritmada, passo após passo. Não há sinal de civilização até onde a vista alcança. Não há sinal de qualquer coisa, aliás, além do enorme espinheiro que singra como quem passa a vau por um rio caudaloso. Suas pernas são toras vermelhas de carne gotejante, dilaceradas, desfeitas pelos espetos afiadas que se projetam da vegetação hostil ao redor. Calças não existem mais a partir de um palmo da coxa, aproximadamente, e mesmo as coxas já estão arruinadas o suficiente para não serem reconhecíveis. É impressionante que uma estrutura tão castigada não só seja capaz de manter esse homem de pé, como ainda consiga impulsioná-lo adiante.

Apoiado sabe-se lá em que cajado filosófico, tomado por algum espírito de justiça - ou provavelmente vingança -, ele apenas caminha. Nacos de carne ficam para trás. Ele caminha. Seu cantil dá sinais de estar vazio. Ele caminha. Bolhas surgem em seus ombros, incentivadas pelo sol. Ele caminha. À noite, perde a sensação nas extremidades. E caminha.

Por fim atinge uma clareira. Em um raio de cinqüenta metros, o espinheiro cede. Dá lugar a uma relva verdejante, que cerca uma fonte tímida. Arbustos folhosos fornecem sombra suficiente para fazer qualquer homem naquela situação levantar as mãos para os céus e convencer-se da existência divina. Ele finalmente sorri. Resolve descansar.

Exausto, sem notar o que faz, deixa-se cair sobre um cacto.

Dos princípios quânticos aplicados

- Oi.
- Oi.
- Poxa, tava lembrando agora daquela nossa conversa de ontem.
- Lembrando do quê?
- Da conversa. Foi ótima.
- Ué, foi igual às que tivemos nos outros dias.
- É, foi, mas foi… sei lá, foi diferente.
- Não pode ter sido igual e diferente.
- Ah, ontem foi tão legal!
- Então nos outros dias foi um saco?
- Não, é que ontem… ontem foi diferente, pô.
- Desenvolva.
- Eu não sei explicar.
- Você sabe. Não quer. Mas sabe. Eu desenvolvo, então.
- Então desenvolve.
- Você achou que ontem foi tão legal porque está irresistivelmente atraída por mim.
- …
- Não é?
- Quem disse isso?
- Eu disse, agorinha mesmo. Acabei de dizer.
- E de onde você tirou essa idéia?
- Não era uma idéia.
- Não?
- Não.
- O que era?
- Uma sugestão.
- Não tô entendendo.
- É o princípio da incerteza.
- Entendi menos ainda.
- Você conhece o princípio da incerteza?
- Hm… não.
- É uma teoria da física quântica que diz - e essa é uma explicação a grosso modo - que, ao determinar a posição de um elétron, por exemplo, o instrumento de medida usado para definir essa posição irá alterar a posição ou velocidade do elétron.
- Você… você tem idéia do quanto isso não faz sentido aqui?
- Faz, sim. É que você não tá pensando de forma análoga.
- Eu ainda nem entendi o que você quer dizer!
- O que eu quero dizer é que quanto mais precisa for a medida de um fato, maior a chance de você obter não um resultado exato e atual, mas um resultado exato de como as coisas eram ANTES da sua intervenção para descobrir como as coisas eram. A partir do momento em que você intervém, você sabe como elas eram, mas não como elas são. E você precisa se lembrar que somos constituídos de partículas subatômicas, o que significa que, em algum grau, o princípio da incerteza também se aplica a nós.
- E onde entra sua sugestão, nisso tudo?
- Bom, isso já foi algum trabalho de dedução da minha parte. Você nunca disse que NÃO queria ficar comigo ou que NÃO estava atraída, e eu presumi, ao te ver me tratando dessa forma tão desembaraçada, que: 1) você nunca parou pra considerar a idéia de me ver interpretando o que você sente por mim como atração e reagindo positivamente a respeito, ou 2) você já considerou e era exatamente sua intenção. Como não te acho uma criatura dissimulada, do contrário nem perderia meu tempo falando com você, vou descartar a segunda hipótese. Tá acompanhando?
- Tô. E isso até que faz sentido.
- Então, se você nunca parou pra pensar em como reagiria caso eu achasse que você está dando em cima de mim, você ainda não tinha estabelecido, dentro da sua cabeça, que a idéia de ficar comigo é repulsiva. Do contrário, agiria de maneira mais contida, de forma a não nos conduzir a uma situação desagradável. A menos, claro, que você seja totalmente inconseqüente, o que significa ser bastante estúpida, coisa que eu sei que você não é. Matamos aí essa possibilidade, portanto.
- Sei.
- Ou seja: você pode nunca ter pensado “É, eu quero ficar com ele”, mas também nunca pensou “Eu NÃO QUERO ficar com ele”. É aí que entra o princípio da incerteza.
- Como assim?
- Ao sugerir que você estava atraída por mim, tudo o que eu fiz foi sondar com absoluta precisão a sua posição em relação a esse assunto. Tinha uma idéia de onde você estava, mas nada cientificamente comprovado. Agora confirmei. Entretanto, graças a isso você está fatalmente se movendo pra outra posição, porque meu instrumento de análise interferiu significativamente com a situação.
- Nossa, agora até que faz sentido todo esse monte de absurdos científicos que você disse.
- E, como você ainda não disse que NÃO, se não estava atraída por mim ANTES, está ficando AGORA.
- Você é descomunalmente nerd!
- E você não resiste a isso.

Da culpabilidade dos atos

Pacientemente, o homem observa o banco. Analisa esquemas de segurança. Anota horários de entrada e saída de funcionários, datas de envio e recebimento de malotes. As empresas procuram alternar, mas ele identifica o padrão. Mais alguns meses de observação e suas teorias se comprovam. Seus cálculos estão certos. É possível prever quando o dinheiro estará no cofre.

O tempo passa. Sondando bibliotecas públicas, surgem as plantas baixas do edifício, publicadas em livros de arquitetura graças a seu tombamento histórico. Mais observação e é possível descobrir a empresa responsável pela segurança eletrônica. Pesquisas na internet resolvem o resto. O sistema é bom, mas, como qualquer outro, não é infalível. Ele tem o método. Ele tem os meios. Ele tem o plano.

Fazendo uso de todos os recursos possíveis, ele entra no prédio. É noite, apenas um segurança está no local. Ele se esconde nas sombras e aguarda. Aguarda. Aguarda. Aguarda por horas por algo que não vem. Então toma a iniciativa e vai atrás do que queria. Presume não haver segurança. Imagina que o homem dorme, cansado graças a sua rotina de muito trabalho para pouco pagamento.

Ele chega ao cofre. Desmantela alarmes, câmeras e sensores pelo caminho. Suas noções de eletrônica e sua pesquisa sobre o sistema de segurança tornam aquela invasão - para muitos, impossível - um passeio no parque. Ele desarma o cofre… encontra um ferrolho. Um ferrolho simples, com um cadeado. Que ele não sabe como abrir, não tem ferramentas para arrombar. Irrita-se, sente-se frustrado. Vai embora, deixando tudo como estava. A invasão é detectada, assim como também é possível notar que nada sumiu.

Mesmo assim, o homem é preso.

A acusação alega que tentar roubar já te torna um ladrão. Sair com o produto do seu roubo em mãos só te confere, como diferencial, a competência.

A incompetência não te inocenta.
Te faz duas vezes culpado.

Amigo é pra essas coisas!

- Você parece bem.
- Obrigado. Eu estou.
- Sem aquele copo de bebida na mão, olha só… outra pessoa.
- Aquilo não me ajudava em nada.
- Não mesmo. A bebida, em certos casos, só atrapalha.
- Pois é.
- Fecha os olhos pro que a gente não quer ver.
- Exato.
- Nubla os pensamentos, nos faz esquecer os problemas por algumas horas.
- É por aí mesmo.
- E aí você não conseguia mais enxergar o que aquela miserável fez com você.
- E ela fez estrago!
- Põe estrago nisso, você ficou na merda.
- Até o pescoço!
- Até o queixo, e só não foi até a boca porque conseguiu levantar o nariz no último segundo!
- Não foi pra tanto!
- Ah, foi, sim. Você parecia um trapo.
- …
- Um farrapo humano.
- ……
- Um verme, um nada, um…
- Já entendi!
- Mas você está melhor agora!
- Ah, sim, bem melhor!
- Conseguiu um novo emprego!
- Uma maravilha, rapaz, meio período, ambiente desafiador…
- Lógico que não é nada como aquela gerência que você tinha naquela outra empresa…
- Mas depois de tanto tempo parado, também…
- Sim, tem isso. E, além do mais, contratar alguém com sabidos problemas de alcoolismo…
- Eu não sou alcóolatra, foi um momento de fraqueza!
- Eu sei, eu sei, mas eu sou teu amigo, afinal, te conheço há anos! Eles não sabem. Pra eles, você era só um bebum!
- Bom, de certa forma, sim, mas meu currículo…
- Ah, nem é lá isso tudo, vamos combinar.
- Não?
- Mas não ligue pra isso, rapaz. Voltou a receber seu salário, está quitando as dívidas, refazendo sua vida…
- Tô pensando até em remobiliar o meu apartamento!
- O que eu duvido é que alguma loja vá te abrir um crediário. Seu nome tá nos serviços de proteção ao crédito, né?
- É…
- É uma merda pra tirar, essas coisas não vencem mais dentro de cinco anos…
- Não?
- Não. Pra eles, você será eternamente inadimplente!
- Mas que merda!
- Tudo isso porque aquela vagabunda levou tudo o que você tinha!
- TUDO!
- Não te deixou nada!
- NADA!
- E você, que fazia tudo por ela!
- TUDO! Garçom, me traz um uísque!
- Tirou-a da miséria, deu do bom e do melhor…
- Apenas do melhor!
- E ela te largou por aquele moleque, todo saradão, marombado. Um zé-ninguém!
- Mulher não sabe de nada, mesmo.
- Tudo bem que ele tem aquela BMW e é concursado da câmara, mas isso não o torna melhor do que você!
- De jeito nenhum!
- Só porque, com metade da idade, tem o dobro do dinheiro e o triplo do patrimônio? Oras!
- É a vida…
- Sim, e é uma merda.
- Garçom, mais um! Duplo e sem gelo!
- Calma aí, rapaz. Teu trabalho amanhã…
- Ah, empreguinho…
- Não é tão ruim, vamos lá. Tá certo que você é praticamente um estafeta…
- Mas é melhor do que nada!
- …o dia inteiro levando e trazendo documentos praquele bando de moleques engomadinhos…
- Paga as contas!
- É, em duzentas parcelas com juros abusivos.
- Garçom! Caipiroska, por favor! Pouco açúcar, menos limão, muita vodka!
- E teu carro não tá valendo muita coisa.
- Tá andando, é o que importa.
- Sim, mas como patrimônio.. a pintura descascando, os pneus meio carecas…
- O motor tá bem.
- Por enquanto. Tem quantos anos. Seis? Sete? É quando começa a dar problema!
- Será?
- Vai dizer que de vez em quando ele não ensaia umas engasgadas? Naquelas manhãs mais frias?
- Hm… até que sim, ultimamente preciso girar a chave quatro ou cinco vezes na ignição pra dar a partida.
- Não dou três meses pro bicho arriar.
- Mas que desgraça! Ô campeão, desce uma cachacinha, por favor!
- Mas a vida é assim mesmo…
- E assim mesmo é a vida…
- E as mul… rapaz, essa cachaça é forte! Você virando desse jeito, vai com calma!
- Nada que eu não agüente, já tive piores.
- Mas como eu dizia, e as mulheres, nada?
- Nada!
- Tsc. Elas andam mais exigentes.
- Rá! Nem me fale!
- E você tá meio barrigudo, esses cabelos rareando…
- Será que é isso?
- Os dentes amarelados por causa do cigarro…
- Mas eu parei!
- Mas leva dez anos pros efeitos sumirem mesmo.
- Dez anos?
- Dez anos, foi o que eu li. Será que viveremos isso tudo?
- Nunca se sabe.
- Eu acho que ainda chego lá, mas você…
- Eu o quê?
- Anda meio pálido, né? Os olhos meio avermelhados…
- É a bebida!
- Ou pode ser alguma coisa. Um câncer…
- Deus me livre!
- Dizem que as pessoas da nossa idade têm maior chance de desenvolver diabetes.
- Diabetes é foda.
- Ô! Pense só: anos e anos vivendo com agulhadas.
- Um sofrimento, ainda mais com meu medo de agulhas.
- Sua mãe teve diabetes, não?
- Teve. (Ô distinto, outra dessa branquinha!)
- As chances aí são ainda maiores.
- É mesmo?
- Isso é tudo genético, rapaz. Eu iria ao médico, se fosse você.
- É… vou pensar nisso…
- Bom, eu tenho que ir pra casa.
- Ué, mas já? É cedo ainda, você não bebeu nada.
- Nah, eu só vim molhar o bico, ver como você tava.
- Ah…
- Mas o que é isso, bicho? Se anima! Quando eu cheguei você tava tão pra cima, feliz, empolgado. Que foi que te deu?
- Sei lá…
- Vamos que vamos, velhinho, que é pra frente que as malas batem!
- É…
- Bom, vou lá que a patroa e os moleques estão me esperando. Ó, vê se pára de beber tanto, que qualquer dia desses eu te chamo pra jantar lá em casa, hein. Dá cá um abraço!
- Tá, tá…
- E você, ô garçom! Vê se pega leve com ele, hein? O cara é meu amigão!
- Do peito!
- Do peito! Me preocupo com ele pra caralho!
- Como um irmão!
- Isso! Um irmão!
- Amigo mesmo é você, viu, cara?
- A gente faz o que pode.
- Você… e o garçom. Ô, chefia! Dá um daquele andarilho tarja preta aí!

Hora do café

- Um café, por favor.

E corrigiu:

- Um expresso!

Escolheu uma das mesinhas vazias, sentou-se mal e mal na banqueta. Sentia-se incomodado sobre aquela torre balançante, a base fina simplesmente não lhe inspirava confiança. Mantinha o pé esquerdo no chão, por via das dúvidas.
Tirou da pasta que trazia a tiracolo um jornal muito dobrado e pôs-se a ler, cotovelo apoiado na mesa, queixo apoiado na mão, resmungando qualquer coisa de tempos em tempos. O café chegou. Ele agradeceu a moça que trouxe e voltou a atenção para o jornal. Sem tirar os olhos da folha, sacou do bolso da camisa um maço de cigarros, tirou um com a boca e, enquanto tateava as calças em busca do isqueiro, cruzou olhares com uma garçonete mais velha, que parecia ser responsável pelo lugar. Com o cigarro pendendo no canto da boca, fez cara de criança surpreendida no meio de qualquer arte. Perguntou, sem-jeito:

- Não pode, né?

Ela meneou a cabeça, ainda mais sem-jeito, talvez por ter que negar a um cliente um prazer que não incomodaria ninguém – o lugar estava praticamente vazio, havia apenas um casal numa mesa suficientemente afastada, que sequer parecia notar a presença do homem, e uma moça, também distante, que o observava com certa ansiedade.

- Não pode, moço, tem aquela lei que proíbe. Eu também fico doida por um cigarrinho entre um café e outro, mas fazer o quê? Se aparecer um fiscal aqui, é multa na hora.

Sorriram um para o outro com ar tristonho, como quem identifica um cúmplice que cumpre pena na cela ao lado. Ela voltou ao que quer que estivesse fazendo, ele deixou de procurar o isqueiro. O cigarro permaneceu na boca, como estava, apagado, meio caído, ameaçando jogar-se no café. Qual suicida que, diante da impossibilidade de cumprir seu destino, preferisse morrer.
A moça, aquela que o analisava ansiosamente à distância, veio até ele. Chegando por trás, disse com uma voz que destilava o venenoso desprezo da mulher traída:

- Olha só quem resolveu aparecer!

Ele a olhou com surpresa. O cigarro efetivamente caiu, errou o café por pouco. Nenhum dos dois se deu conta do fato.

- Nossa, você por aqui! Quanto tempo! - e imediatamente repreendeu-se, pensando “Será que não tinha nada pior para dizer?”. Um segundo depois, entretanto, pareceu lembrar-se de todo o relacionamento que tiveram – das discussões, em particular. Seu rosto tomou um certo ar de segurança e enfado. O dela permaneceu fuzilando-o.
- Ai, que lindo! Ele é irônico! Quanto tempo, como vai você?

Falou como quem encontra um grande amigo, perdido há eras. Ele achou por bem ignorar o tom sarcástico da voz dela, na tentativa de conduzir o papo para outra situação além da que se avizinhava, potencialmente catastrófica:

- Eu vou bem, obrigado. E você?

Não deu certo. Ela permaneceu séria, falando gravemente, salivando fel:

- É mesmo muita cara-de-pau da sua parte falar comigo como se não tivesse acontecido nada!

Olhou em volta, buscando ajuda. Não havia ninguém, teria que se defender sozinho. Ela continuou.

- Você não teve a decência de me ligar!
- E por que eu teria que te ligar?
- Não me surpreende que você não saiba.

Esse ataque ferino aos seus conhecimentos das normas de interação com membros do sexo oposto – cartilha que já deveria ter sido escrita há eras, embora seja pouco provável que alguém a seguisse, visto que as variáveis são elevadas à enésima potência – tornou-o subitamente ofendido, acabando com seu ar simpático e jogando-o numa posição de contra-ataque:

- Foi você que terminou comigo!
- Por isso mesmo!

Coçou a testa, reprimiu um palavrão que chegou a sair pela metade: …taqueopariu! Para ele, aquilo não tinha muita lógica. Considerava que o dispensado não deveria tornar a ligar, essa era uma obrigação do dispensante, quer por caridade, quer por vaidade (a fim de verificar o estrago causado por sua decisão). Ela, entretanto, seguia outro tipo de regra:

- E você não foi homem suficiente pra aceitar.
- Como assim, não aceitei? Aceitei perfeitamente bem. Você disse “fim”, eu pensei “certo, então é o fim”. Toquei a vida.
- Você entrou em ne-ga-ção! - falou sílaba por sílaba em tom de voz elevado, como se ele fosse surdo. Ou idiota. Ou um idiota surdo. Ele finalmente largou o jornal sobre o mármore frio da mesinha, aborrecido. O café esfriava. O cigarro da boca fora para a mesa, daí rolara para o colo dele, donde fora para o chão, pela perna esquerda estendida.
- Não foi ne-ga-ção, foi a-cei-ta-ção.
- E meus e-mails? Você recebeu?
- Lógico que recebi.

Os olhos dela encheram-se de lágrimas. Disse com voz irritada e chorosa:

- E por que nunca respondeu?
- Você disse claramente em todos eles que não queria que eu respondesse!
- Mas você não entende nada? É incapaz de captar uma mensagem? Isso não era motivo para você ficar em silêncio!

Ele baixou a cabeça, correu as mãos pelos cabelos. Depois de seis meses de término, de paz, de distância e tranqüilidade, ali estavam os dois, em plena sessão de descarrego. Ele odiava sessões de descarrego, ela parecia adorar. Perguntou, como quem pede piedade:

- O que você quer de mim, afinal?
- Minhas cartas.
- Quer que eu devolva suas cartas?
- Não seja idiota! Quero saber se você recebeu!
- Ah! Também recebi.
- E leu?
- Li.
- Leu todas?
- Sim, li todas as suas cartas. Todas, todas.
- Do começ…
- Do começo ao fim!
- E não vai dizer nada sobre o que eu escrevi pra você, as coisas que eu disse, minhas razões pra desistir da gente? Não vai me deixar saber o que você achou?
- Parafraseando Roberto Carlos:
- O cantor?
- O cantor.

O olhar dela se acendeu com esperança. Ele, sempre tão insensível, estava na iminência de dizer algo realmente romântico, talvez até melodioso. Ele respirou fundo, soltou o ar lentamente, olhou-a nos olhos e, munido de toda sinceridade, soltou:

- Ri muito, bicho.

Ela ficou em silêncio por dez segundos. Dez segundos que duraram meia-hora. Uma hora. Quarenta dias e quarenta noites. Ficaram assim, olhos fixos um no outro. Ela, com toda a delicadeza de sua natureza feminina, esticou a mão, pegou a xícara de café e derramou no colo dele, que, temendo uma queimadura, assustou-se, quase caindo da banqueta (salvou-o a perna esquerda, firme no chão). À toa, porém: o líquido esfriara.
Entre os dentes, querendo chorar, querendo gritar, querendo arrancar os cabelos - dela e dele -, ela sussurrou:

- E não volte a me procurar!

Ele ficou ali, enquanto ela se afastava pisando com força. Finalmente deu-se conta da ausência do cigarro na boca. Pegou outro, sequer pensou em procurar o primeiro. Olhou de novo para a garçonete.
Ela se aproximou, sacou um isqueiro e acendeu o cigarro dele, usando-o em seguida para acender o seu. Soprou ruidosamente a fumaça do primeiro trago, olhou para a moça que sumia à distância, depois novamente para ele:

- Mulher é tudo louca, né?




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