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Cenas do livro que não escreverei nunca:

(Capítulo 2, página 59.)

Ele arrumava a mala, assoviando qualquer coisa que parecia ser do Chico Buarque. O amigo observava, após largar em um canto a revista que folheava.

- Então você vai mesmo?
- É claro. Você acha que eu estou fazendo as malas por esporte?
- Mas será que vale a pena? E não me venha com Fernando Pessoa!
- Eu não vou, embora ele bem coubesse como resposta a essa sua pergunta. Mas a verdade é que…

Parou para procurar algo, andou em silêncio pelo quarto durante alguns minutos. Revirou o que estava sobre a cama até encontrar alguns papéis, que rapidamente introduziu em um bolso da valise. Só então retomou o raciocínio.

- …o que eu dizia mesmo? Ah, sim. A verdade é que é justamente para saber se vale a pena que eu vou até lá.
- Diga sinceramente. Ela é bonita?
- Beleza não tem nada a ver com isso.
- Então ela é feia?
- Não foi o que eu disse.
- Te conheço há tempo suficiente para saber que, se você não usou um palavrão, a mulher, ao menos fisicamente, não vale muita coisa.
- Você é simplista.
- Sou?
- É! Simplista e superficial. - ele fechou a mala e virou-se para o amigo com ar enfastiado, sentando-se na cama - Certo, ela talvez não seja bonita, num sentido estrito do termo. Mas isso, sinceramente, não faz diferença alguma. Quer saber se eu olharia para ela duas vezes, se nos cruzássemos na rua e fôssemos completos desconhecidos? Provavelmente não. Mas talvez olhasse, porque há nela alguma coisa, qualquer coisa indefinível, que me chama a atenção de tal maneira que conduziu a situação a esse ponto. - apontou a mala pronta e as passagens no bolso.
- Não sei se entendo isso.
- Eu não espero que entenda. Eu acho que você precisa aprender a ver outras coisas nas mulheres além da beleza física. É lógico que há algo de recompensador em levar para a cama uma mulher que fica ainda melhor sem roupas do que vestida com seu sutiã de levantar peitos, calça de empinar bunda e calcinha de ajustar cintura. Nada melhor do que ter à disposição um exemplar de fêmea digna de posar para fotografias de parede de oficina mecânica. Mas mulheres assim te impedem de ver além, porque, ao andar pelo quarto só de calcinha e camiseta, elas simplesmente obliteram a possibilidade de análise de qualquer outra coisa.
- Você sabe que isso não faz sentido?
- Faz, sim. Talvez não faça para você e seu superficialismo ferrenho. Mas faz. Essa mulher que eu vou ver, por exemplo: não foi capaz de nublar minha mente com os oferecimentos mais simples - peitos fartos, barriguinha travada com piercing no umbigo, boca carnuda lambuzada de gloss… -, mas, justamente por isso, teve que fazer um esforço extra. E deu certo. Essas mulheres assim, sem atrativos visíveis logo de cara, essas que não parecem ser interessantes são, geralmente, as melhores. E costumam ter seu charme. Um jeito diferente de gesticular quando falam, uma risada mais melíflua, uma maneira de olhar mais intensa, um cheiro mais gostoso nos cabelos, uma técnica especial ao ficar por cima, um gemido mais gostoso ao ficar por baixo.
- E o que é que essa que você vai ver tem?
- Além da ótima conversa e de uma voz capaz de enlouquecer o padre mais empedernido durante uma confissão? É o que vou conferir.
- Então você vai viajar tanto por uma mulher feia?
- Defina assim, se preferir. Vou viajar tudo isso por uma mulher que mexe comigo, independentemente de sua aparência física. Eu conheço aquela tua frase sobre beleza não pôr mesa…
- …mas abre o apetite.
- Essa mesma. Abre o apetite, é verdade, mas o fato é que ela abre meu apetite, mesmo sem nunca ter estimulado quaisquer dos meus órgãos sensoriais, além dos ouvidos. Ela é inteligente e a conheço há tempo bastante para saber quando gostou ou não de algo apenas pelo tom de voz. Sabe o que, quando e como dizer as coisas. Você precisa abandonar esses seus critérios baseados só em estética, de verdade. Largar essa idéia adolescente de pegar mulher pra contar pros amigos e começar a considerar a possibilidade de ir atrás do que te atrai de verdade.
- Eu realmente não te entendo.

Ele sorriu. Calçou os sapatos, alcançou a carteira e as chaves, jogando-as nos bolsos da jaqueta.

- Já disse que não espero que você entenda. Te chamei aqui pra me levar ao aeroporto.

(Livro chato do caralho…)

Tendências suicidas (2)

Foi encontrado desacordado em seu quarto, espumando uma coisa amarelada com traços de vermelho que bem poderia ser bile e sangue. Ninguém da família era médico, não tiveram como saber. Levaram-no às pressas para um hospital. Entre soluços, a irmã segurava uma caixinha vazia de remédios. Médicos e enfermeiros cercaram o corpo - o que eles presumiam ser um corpo, pois pensavam-no morto, embora o irmão afirmasse ter detectado uma fraca pulsação - e levaram o ente querido para uma daquelas saletas escondidas onde desenrolam-se os momentos cruciais. Estava vivo, mas não parecia.

Apreensivo, o médico veio informar ao pai que fora possível salvá-lo. Fizeram uma lavagem estomacal, injetaram reagentes, essas coisas que fazem com suicidas. O principal era que o trouxeram de volta. A família pediu para vê-lo, uma enfermeira avisou que ele ainda dormia e levaria algum tempo até despertar. Estava vivo, era o que importava.

Quando enfim acordou, foram encontrá-lo. Recebeu a todos com o mais duro olhar de desaprovação que foi capaz de estampar em seu rosto combalido de quase-morto. O pai mantinha-se sério e limitava-se a perguntar por quê. Mãe e irmã choravam copiosamente. O irmão ficava a um canto, espiando pela janela e fazendo, de quando em vez, comentários irônicos, talvez para esconder o medo que a morte próxima do irmão lhe causara, talvez para quebrar um pouco aquele clima de funeral. Estava vivo, afinal de contas.

Ele nada dizia. Mantinha-se taciturno. Olhava ao redor com um misto de raiva, desprezo e descrença. Quando resolveu se manifestar, a voz saiu roufenha, rasgada. Demonstrou dor ao falar, graças aos tubos que lhe enfiaram pela garganta. Queria morrer, disse, porque era a única certeza que tinha na vida, a única coisa garantida. Não sabia até quando viveria, qual seria sua carreira profissional ou, ao escolhê-la, se seria bem-sucedido. Não sabia se iria casar-se ou com quem, se teria filhos ou filhas ou quantos, se sobreviveria a seus pais, se seus filhos, caso os tivesse, sobreviveriam a ele. Não sabia de nada. Concluíra que tudo que se esperava do futuro era mera especulação. Odiava a incerteza. Definir quando, onde e como iria morrer - e ainda assim tais decisões eram limitadas - era a única coisa que podia fazer. Tentou e foi interrompido. Estava vivo, mas que diabos!

Mandaram psicólogos para conversar com o rapaz e tentar entender melhor seu intento, explicar que a graça da vida era justamente a incerteza, as possibilidades, o não saber, as surpresas do amanhã. Não via graça em nada disso e não queria mais participar desse joguinho estúpido. Não pedira para nascer; agora pedia para morrer. Além do mais, considerava profundamente desrespeitoso por parte da família interromper seu sono eterno. Achou um tremendo egoísmo daquelas pessoas impedi-lo de morrer simplesmente porque queriam-no vivo. E a opinião dele, não contava? Não tinha sido tomada em meio a um surto depressivo. Fora pensada de forma totalmente consciente. Estava vivo, era verdade, mas deixou claro que se mataria assim que a oportunidade surgisse.

Consideraram-no psicologicamente incapaz, perigoso para si mesmo. Foi internado num hospital psiquiátrico. Ou “casa de doidos”, como costumava chamar, enquanto insistia que não era doido, pelo contrário: demonstrava perfeita sanidade. Querer morrer não era loucura. Se fosse, não haveria livros de Byron na biblioteca do lugar. Havia-os. Ele mesmo separara uns três para ler, mas seu médico - que não era um completo ignorante, embora parecesse - tomou-os, dizendo que não era o momento mais indicado para ler poemas de adoração à morte. Estava vivo e entediado.

A família ia visitá-lo com freqüência. A mãe ficava feliz em vê-lo saudável. A irmã tratava-o com carinho. O irmão fazia planos, contava coisas animadamente, fazia os costumeiros comentários irônicos. O pai sempre perguntava por quê. Recebia a mesma resposta. No fim das contas, ficavam felizes ao vê-lo com saúde. Ele se sentia aborrecido com aquelas pessoas ao redor, lembrava-se que fora a postura carola cristã deles, ao lhe negar o direito de dar cabo da própria vida, que impediu o êxito de sua tentativa definitiva de partir. Estava vivo e o rancor o corroía por dentro.

Ainda argumentava com os psicólogos, psiquiatras, psicoterapeutas, enfermeiros e outros internos que não era louco e que só o mantinham ali por não se sujeitar às incertezas, por querer tomar as rédeas de sua existência de uma vez por todas. Não refutavam seus argumentos nem lhe davam razão, apenas mais remédios. Passou a guardá-los em um saquinho plástico que mantinha escondido. Quando julgou ter o suficiente, ingeriu todos. Estava vivo, mas não por muito tempo.

Quase morreu. Mas, mais uma vez, foi socorrido a tempo. A mãe e a irmã tornaram a chorar, o irmão abandonou as piadinhas. O pai ainda perguntava por quê. Ele já respondera inúmeras vezes, cansou de se repetir. Quedou-se no mais absoluto silêncio. Não falava com os psicólogos, com os psiquiatras, com os psicoterapeutas, com os enfermeiros ou com os doidos. Sentava-se em silêncio e ficava ali até que alguém o dissesse para ir a outro lugar fazer alguma coisa. Ia, mas não fazia. Não assistia TV, não lia, não participava de dinâmicas ou das sessões de pintura. Sentia-se profundamente deprimido. Estava vivo e de saco cheio.

Certo dia tentou fugir. A oportunidade surgiu quando o guardinha que cuidava do portão virou-se para buscar uma prancheta, deixando a saída escancarada. Alguns enfermeiros saíram em seu encalço e conseguiram pegá-lo. Espantaram-se ao ver o paciente, até então catatônico, lutar como um bicho acuado. Por fim foi subjugado e ministraram-lhe um calmante. A partir de então, era mantido amarrado à sua cama. Estava vivo e era um prisioneiro.

Sempre que iam visitá-lo, sempre que um médico entrava no quarto, sempre que um enfermeiro ia alimentá-lo, sempre que um psicólogo, psicoterapeuta ou psiquiatra tentava falar com ele, sempre que a família o visitava, nada fazia além de se debater furiosamente, berrar a plenos pulmões as maiores obscenidades, tentar morder quem se aproximava e cuspir em quem estivesse perto o suficiente. Estava vivo e muito, muito puto com isso tudo.

Mantiveram-no cativo. Aos olhos de quem trabalhava no hospital, tornara-se, mais do que um louco, um louco furioso. Injetavam-lhe sedativos, era alimentado por um tubo, pois recusava-se a comer - apesar dos remédios para aumentar seu apetite - e, às vezes, sujeitavam-no a uma ou outra terapia de eletrochoque. Era um perigo para si mesmo e para os outros, agora, e os psicólogos, psicoterapeutas e psiquiatras se preocupavam sobremaneira com seu paciente. Queriam vê-lo curado, saudável, feliz e vivo. E estava vivo, mas cada vez menos consciente.

Depois de uns dois ou três anos sua fúria finalmente desapareceu. A família pôde, então, levá-lo para casa. Foi um dia de alegria, todos estavam exultantes. O pai esbanjava felicidade, a mãe sorria sem parar, a irmã mimava-o de todas as maneiras, o irmão apresentou-lhe a namorada e fez ainda mais piadinhas do que de costume. E ele ali, no sofá, com um copo de refrigerante em suas mãos um tanto trêmulas, cercado por todas aquelas pessoas e tentando se lembrar quem era quem, quem era ele antes de tudo começar. Sorria inconscientemente, seus olhos inexpressivos fitavam algum lugar no infinito. Por vezes um fio de saliva escapava pelo canto da boca, mas ele não se dava conta. A irmã limpava com todo o carinho, sem reclamar. Ele parecia feliz, parecia plácido, parecia inerte, parecia apático. Não parecia ser o mesmo. Mas, oras, que importância tinha isso?

Ele estava vivo.
O que deixava todos muito felizes.

Ignorância orgulhosa

- Aí a gente fomos…
- Nós fomos.
- Não, você não tava junto.
- Tománoseucu! Quero dizer que o certo é NÓS FOMOS, e não “a gente fomos”. Retardado.
- Sifudê. Então nós foi lá e cheguemo…
- CHEGAMOS!
- …e cheguemo tarde. Ela não quis ir com nós…
- CONOSCO!
- Pára de interromper, viado! Ela não quis ir com nós porque tava meia cansada…
- Da cintura pra cima ou da cintura pra baixo? Lado esquerdo ou lado direito?
- Que merda, não dá pra te contar nada.
- Dá, se você não falar feito um imbecil analfabeto. Sério, cara, você estudou nos mesmos colégios que eu. Seus pais pagaram uma nota pra sua educação e você me usa um “nós cheguemo”? “Ir com nós”? “Meia cansada”? Porra, é de cair o cu da bunda!
- Você e suas regrinhas de português.
- Não é questão de “regrinhas de português”, é questão de fazer valer o investimento dos seus velhos.
- Não ligo pra isso, eles pagaram porque quiseram. E, seje como for…
- SEJA!
- …seje como for, nunca fui bom em português, tão pouco…
- TAMPOUCO, CARALHO!
- …tão pouco tô ligando pra estética das minhas mensagens.
- Olha só. “Estética”. Daqui a pouco vai até saber o que é um polissílabo.
- Cara, eu não sou burro. Só não sou chegado nesse teu purismo lingüistico.
- Não sou purista.
- É, sim.
- Não sou.
- É, sim.
- Não sou.
- É, sim. E se você tivesse menas preocupaç…

[Sangue e vísceras]

Contos Triviais I

Organizava sua salada com a dedicação e o esmero de um amante cuidadoso durante as preliminares de uma foda solene.

Sua técnica para montar o antepasto era, na pior das hipóteses, impecável. Uma sólida base de folhas de sabores, cores e texturas diferentes alternadas com maestria; rodelas rigorosamente selecionadas de tomate, pepino e cebola; pedaços desfiados de palmito e champignons picados com primor; espalhava com cuidado um pouco de cenoura e beterraba raladas e coroava a obra com uma ou outra azeitona, pedaços de tomate seco, tiras finas de frios leves e então, só então, partia para os temperos.

Conhecedor que era de azeites, sabia a dose exata necessária para, de acordo com a constituição de seu prato, realçar o sabor de cada alimento ali presente. A maneira como os dispunha tornava possível que até mesmo a menor quantidade do líquido derramado escorresse igualmente entre as camadas. Salpicava uma estudada porção de orégano e, com aparente displicência, algumas pitadas de sal. Umas gotas de aceto balsâmico e voilá: estava pronta sua obra de engenharia gastronômica.

O resultado de sua imersão - pois seria impossível classificar de outra maneira - nos bufês de verduras e legumes era desejosamente observado mesmo por quem não nutria especial predileção por saladas. Lembrava-se, divertido, do episódio no qual a gerente de um restaurante eximiu-o de pagar a conta caso cedesse seu prato para um fotógrafo de alimentos que se encontrava no local: queria aquela imagem na capa do novo menu. Diante de tão interessante proposta, não pensou duas vezes antes de aceitar e, estimulado pela possibilidade de comer de graça, preparou nova obra, magnífica, que superava com folga a anterior.

Certo dia, em casa, sentado diante do alimento e prestes a consumi-lo, ouviu, na tevê, reportagem sobre como portar-se à mesa. A especialista em etiqueta dizia que folhas de alface não deveriam ser cortadas, mas, com o auxílio de garfo e faca, enroladas como uma trouxinha e, só então, levadas à boca. Tal convenção social lhe pareceu disparatada.

Picotou tudo o que havia em seu prato e devorou às garfadas.

Colonialismo

- Escuta, não é hoje o aniversário daquela mina lá, não?
- Existem muitas “minas”, meu ambíguo camarada. A qual te referes?
- Àquela que você disse que tava “namorando”.
- Falas da esfuziante Cristina, obscuro amigo?
- Essa aí!
- Deixe-me esclarecer que sua tentativa de implicar que minhas informações sobre o namoro eram meramente devaneios são grosseiras, para dizer o mínimo! Estamos namorando de fato!
- Não estamos nada!
- Dizia de mim e dela, caro galhofeiro!
- Tá, tanto faz. Não é hoje o aniversário da guria?
- Sua informação é verdadeira, ó, bem-informado colega.
- E você tá aqui, nesse boteco, comigo, fazendo o quê?
- Ora! Degustando esta deliciosa bebida produzida a partir da fermentação de cereais maltados, obtuso comparsa.
- Você entendeu! Aniversário da sua menina e você aqui, comigo, em vez de estar com ela?
- Não entendo sua estupefação, meu pasmo parceiro.
- Não entende? Você compreende que uma das diretrizes mais básicas do implícito contrato de mutualidade conhecido como “namoro” diz que os aniversários devem ser passados JUNTOS?
- Você me decepciona, meu tacanho amigo!
- Imagino o quanto.
- Permita-me ilustrar melhor a situação para seu simplório conhecimento, atônito rapaz. Estudaste história?
- É claro que sim.
- Pense, então, em termos de colonialismo europeu. Nós, homens, somos as pequenas metrópoles européias: desenvolvidas, civilizadas, refinadas, porém limitadas.
- Sei.
- As mulheres, por outro lado, são os continentes desconhecidos. Vastos, belos, de abundantes riquezas, as mais variadas e sedutoras possíveis. São, entretanto, incivilizadas, indômitas e, por vezes, assustadoras.
- Tô entendendo.
- Agora imagine nossas tentativas de aproximação como as antigas naus espanholas e portuguesas dos séculos XVI e XVII tentando cruzar o oceano infinito à procura de bens necessários. Nossa conversa sendo a embarcação. É preciso deixá-la ágil, embora bem suprida. Deixá-la forte, mas com alguma fragilidade. Assim ela parte, segura diante do olho destreinado, mas claramente instável para os entendidos do assunto. Lançamo-las ao mar na esperança de chegar em terra e, na maior parte das vezes, naufragamos. Temos sucesso de vez em quando, porquanto somos exaustivamente insistentes.
- “Porquanto” é foda, haja prolixidade!
- Deixe-me com meu belo vocabulário! Como dizia, conquistamos, então, a tão sonhada colônia. Nossa primeira atitude é livrá-la de seus habitantes incivilizados e de hábitos pouco cristãos, por isso proibimos nossas namoradas de usar roupas curtas, freqüentar eventos onde reina a devassidão e a promiscuidade, coisas assim.
- Certo.
- A partir daí, atraímos a confiança da população restante com badulaques e bugigangas de pouco valor, porém chamativas. Espelhinhos, colares e outras manufaturas de baixo custo. Distraímos sua atenção enquanto são evangelizados e submetidos à nossa vasta cultura.
- Verdade.
- Por fim, afastamos os possíveis invasores e declaramos nossa hegemonia sobre o território.
- Saquei.
- Até esse ponto, já sondamos todo o terreno, logicamente. Conhecemos suas reentrâncias, falhas geológicas e clima bem o suficiente para podermos trafegar por ali com relativa segurança.
- Fato.
- Começamos a explorar suas matérias-primas…
- Tá falando das filhas das tias delas?
- Não, meu confuso camarada. Falo de seus favores únicos, das coisas as quais, apesar de todo nosso avanço, não temos como nos auto-suprir, compreende?
- Ah, sim. Os chupiscos, as trepadas e tal.
- Sua falta de tato me constrange, caro troglodita, mas folgo em notar que entendes sutilezas.
- Certo. E depois?
- Depois apresentamos nosso novo território para as metrópoles aliadas. Damos aos dois a liberdade de estabelecer comércio apenas por nosso intermédio. O acesso irrestrito é nosso e somente nosso.
- Justo. E então?
- Bom, nesse ponto somos os senhores do castelo. Nossos soldados estão por ali, cuidando do território e prevenindo insurreições. Tudo o que temos a fazer é, como os monarcas que somos, deixar claro que, apesar da distância, estamos cientes de tudo o que se passa, ainda que não estejamos de fato.
- Só pra não fugir desse teu paralelo maluco, ficar com a sua namorada no aniversário dela não seria uma maneira de deixar claro que o imperador e as legiões estão bem, quero dizer, que a metrópole está atenta ao que se passa na colônia?
- Você se adianta, meu célere ouvinte. Quando nossa supremacia está finalmente estabelecida, temos que partir para novas terras. Ampliar o território. É possível tentar anexar áreas próximas, indo atrás de parentes e amigas delas, mas sabe-se que conflitos entre habitantes locais tornam quase impossível o sucesso em tal empreitada. O ideal é lançar ao mar as caravelas e aportar em novos costados.
- Ok. E em que ponto você está?
- Exatamente neste. No momento espero que minha nova colônia apareça. Meus navios já têm as velas enfunadas e as âncoras recolhidas. Só me falta estabelecer a rota.
- Hm.
- Estou considerando tomar posse dos territórios claudianos.
- Hein?
- Meu desmemoriado aprendiz, lembra-se da Claudinha, aquela mui simpática senhorita que trabalha na videolocadora perto da minha casa? Então. Soube que ela costuma freqüentar este pândego ambiente onde, agora, nos encontramos.
- Ah, sei. Mas acho que não é só ela, não.
- Como assim?
- Olha ali a Cristina chegando com um sujeito.
- Mas hein?!
- Pois é.
- Porra, o que esse cretino tá fazendo com a minha namorada?
- A mim faz parecer, estimado, atraiçoado, acornalhado camarada, que sua colônia encontrou um líder rebelde capaz de livrá-la do cruel jugo monárquico. Devo informá-lo que seus súditos, esta noite, estabelecerão comércio com outros mercados. Hurra! A Revolução triunfou! Bebamos a isso! Garçom, traz mais uma!
- Bah.
- E você fica muito chato quando bebe, diga-se de passagem.

Gata e rato

- Você sabe que eu gosto de você.

Ela o fitava com olhos lascivos, ouvindo tudo com a atenção desmedida que as mulheres dedicam aos homens quando estão interessadas em mais do que conversa.

- Gosta? - e por “gosta?” ela queria dizer “Mostre o quanto”.
- Claro que gosto. Eu já disse que gosto. Não disse?
- Não sei. Disse?
- e com isso ela queria dizer “Quero te ouvir repetir”.
- Disse. Disse, sim.
- Se você diz…
- e por “se você diz…” ela queria dizer “Seja mais enfático”.
- Digo: disse.
- Então você diz que disse.
- com isso ela queria dizer que ele poderia fazer bem melhor.
- Digo. E, se não disse, acabei de dizer. E digo de novo: eu gosto de você.
- Hm.

Esse “hm” não era um “hm” qualquer. Era um “hm” feminino. E “hm”’s femininos, como muitos outros grunhidos das mulheres, estão em uma categoria totalmente diferente de “hm”’s masculinos. Homens fazem “hm” simplesmente por preguiça de dizer “prossiga” ou para sinalizar que entenderam. Mulheres fazem “hm” por milhares de outras razões. Poder-se-ia escrever toda uma tese sobre o que esse “hm” queria dizer, mas seria dupla perda de tempo. Primeiro porque jamais chegaríamos a qualquer conclusão. Segundo porque perderíamos a seqüência do diálogo. Diremos apenas que o “hm” foi sugestivo e, por “sugestivo”, depreenda o leitor o que quiser.

- Você é inteligente.
- Sou?
- e com isso, mais uma vez, ela pedia a ele para se empenhar mais no que dizia.
- É. Inteligente. Muito, muito inteligente.
- Hmmm…
- esse foi mais longo, quase um ronronar. Com isso ela demonstrou clara satisfação.
- E nós nos damos bem.
- Eu também acho.
- leia-se: “Mas podemos nos dar melhor”.
- Nos damos muito bem.
- Concordo.
- e por “concordo” entenda-se “Estamos chegando onde eu quero”.
- Não tem como a gente se dar melhor que isso.
- Aí eu já discordo.
- e com isso ela quer dizer “Cale a boca e eu te mostro”.

Ela fechava o cerco.

- Então. A gente se dá muito, muito bem.
- Um-hum.
- e com isso ela quer dizer “Se você não fizer nada agora, eu faço”.
- Temos assunto em comum.
- Temos.
- essa resposta seca significando “Se eu quisesse ver rodeios, ia pra Barretos.”
- Conversa pra horas a fio.
- É.
- ou seja, “Cala a boca e beija logo!”.
- E você… bom, você é muito legal. Você sabe que eu te acho muito legal, não sabe?
- Acha?
- e por “acha” ela quer dizer “Posso ser bem mais legal que isso”.
- Claro que acho. Eu acabei de dizer que acho.
- É.
- e ela quer dizer “Vou te mostrar o quando eu sei ser legal…”
- Então.
- Então.
- ela se aproxima, querendo dizer “Finalmente”.
- Eu te disse tudo isso porque eu queria… bom… eu queria te dizer uma coisa importante.
- Diz.
- ela responde, num sussurro, e por “diz” ela quer dizer “Vai comer ou quer que embrulhe?”.
- Com tudo isso que a gente tem, que dá tão certo e tal…
- Hm.
- Esse foi um raro “hm” definível, um gemido de antecipação.
- Ainda acho importante frisar que acho que nossa relação deve ser não carnal.
- Não carnal?
- e com isso ela quer dizer “Mas… hein?”.
- Sim. E por “não carnal” eu quero dizer: TIRA A MÃO DA MINHA BUNDA, CARALHO!