(Capítulo 2, página 59.)
Ele arrumava a mala, assoviando qualquer coisa que parecia ser do Chico Buarque. O amigo observava, após largar em um canto a revista que folheava.
- Então você vai mesmo?
- É claro. Você acha que eu estou fazendo as malas por esporte?
- Mas será que vale a pena? E não me venha com Fernando Pessoa!
- Eu não vou, embora ele bem coubesse como resposta a essa sua pergunta. Mas a verdade é que…
Parou para procurar algo, andou em silêncio pelo quarto durante alguns minutos. Revirou o que estava sobre a cama até encontrar alguns papéis, que rapidamente introduziu em um bolso da valise. Só então retomou o raciocínio.
- …o que eu dizia mesmo? Ah, sim. A verdade é que é justamente para saber se vale a pena que eu vou até lá.
- Diga sinceramente. Ela é bonita?
- Beleza não tem nada a ver com isso.
- Então ela é feia?
- Não foi o que eu disse.
- Te conheço há tempo suficiente para saber que, se você não usou um palavrão, a mulher, ao menos fisicamente, não vale muita coisa.
- Você é simplista.
- Sou?
- É! Simplista e superficial. - ele fechou a mala e virou-se para o amigo com ar enfastiado, sentando-se na cama - Certo, ela talvez não seja bonita, num sentido estrito do termo. Mas isso, sinceramente, não faz diferença alguma. Quer saber se eu olharia para ela duas vezes, se nos cruzássemos na rua e fôssemos completos desconhecidos? Provavelmente não. Mas talvez olhasse, porque há nela alguma coisa, qualquer coisa indefinível, que me chama a atenção de tal maneira que conduziu a situação a esse ponto. - apontou a mala pronta e as passagens no bolso.
- Não sei se entendo isso.
- Eu não espero que entenda. Eu acho que você precisa aprender a ver outras coisas nas mulheres além da beleza física. É lógico que há algo de recompensador em levar para a cama uma mulher que fica ainda melhor sem roupas do que vestida com seu sutiã de levantar peitos, calça de empinar bunda e calcinha de ajustar cintura. Nada melhor do que ter à disposição um exemplar de fêmea digna de posar para fotografias de parede de oficina mecânica. Mas mulheres assim te impedem de ver além, porque, ao andar pelo quarto só de calcinha e camiseta, elas simplesmente obliteram a possibilidade de análise de qualquer outra coisa.
- Você sabe que isso não faz sentido?
- Faz, sim. Talvez não faça para você e seu superficialismo ferrenho. Mas faz. Essa mulher que eu vou ver, por exemplo: não foi capaz de nublar minha mente com os oferecimentos mais simples - peitos fartos, barriguinha travada com piercing no umbigo, boca carnuda lambuzada de gloss… -, mas, justamente por isso, teve que fazer um esforço extra. E deu certo. Essas mulheres assim, sem atrativos visíveis logo de cara, essas que não parecem ser interessantes são, geralmente, as melhores. E costumam ter seu charme. Um jeito diferente de gesticular quando falam, uma risada mais melíflua, uma maneira de olhar mais intensa, um cheiro mais gostoso nos cabelos, uma técnica especial ao ficar por cima, um gemido mais gostoso ao ficar por baixo.
- E o que é que essa que você vai ver tem?
- Além da ótima conversa e de uma voz capaz de enlouquecer o padre mais empedernido durante uma confissão? É o que vou conferir.
- Então você vai viajar tanto por uma mulher feia?
- Defina assim, se preferir. Vou viajar tudo isso por uma mulher que mexe comigo, independentemente de sua aparência física. Eu conheço aquela tua frase sobre beleza não pôr mesa…
- …mas abre o apetite.
- Essa mesma. Abre o apetite, é verdade, mas o fato é que ela abre meu apetite, mesmo sem nunca ter estimulado quaisquer dos meus órgãos sensoriais, além dos ouvidos. Ela é inteligente e a conheço há tempo bastante para saber quando gostou ou não de algo apenas pelo tom de voz. Sabe o que, quando e como dizer as coisas. Você precisa abandonar esses seus critérios baseados só em estética, de verdade. Largar essa idéia adolescente de pegar mulher pra contar pros amigos e começar a considerar a possibilidade de ir atrás do que te atrai de verdade.
- Eu realmente não te entendo.
Ele sorriu. Calçou os sapatos, alcançou a carteira e as chaves, jogando-as nos bolsos da jaqueta.
- Já disse que não espero que você entenda. Te chamei aqui pra me levar ao aeroporto.
(Livro chato do caralho…)
