As grandes tragédias se aproximam sem aviso prévio. É impossível vê-las chegando. Vão se acercando de você silenciosamente, como feras atrás de uma presa distraída. Quando a pobre vítima dá por si, o bote já está em curso e não existe mais pra onde correr. O negócio é agüentar a bordoada no peito e torcer para que os danos sejam mínimos (ou ao menos por uma morte rápida e indolor).
Infelizmente não recebi clemência. Tive que passar por doses homéricas de sofrimento, náusea, torpor mental, convulsões e espasmos de riso nervoso intercalados com mergulhos profundos em abismos de vergonha alheia.
Assisti Crepúsculo.

- Caralho, foderam minha lenda!
- É trágico, Vlad, é trágico!
Sim, foi uma decisão consciente. Estúpida, porém consciente. Gostaria de poder dizer que não estava em posse de minhas faculdades mentais ao tomar tal decisão, mas seria mentira. Não tinha idéia, entretanto, do erro que cometia ao levar tal plano a cabo. A história me fará justiça! Acompanhe a cadeia de acontecimentos e note como fui atraído para uma armadilha que deixou severas cicatrizes no meu córtex:
Há cerca de duas semanas, ouvi uma música de uma banda desconhecida numa rádio qualquer. Gostei. Anotei mentalmente um pedaço da letra e fui atrás assim que pude botar as mãos em um computador com acesso ao google. Descobri que a canção se chamava Decode e que o nome da banda era Paramore. Baixei a mp3, coloquei no celular. Como a voz da cantora muito me agradou, fui atrás do clipe (precisava conferir se a aparência da moça fazia jus ao que eu imaginava). O clipe tinha lampejos de um filme no qual um cara parava uma van desgovernada com as mãos.
Pois é. Me deixei levar por tão pouco. Imaginei que pudesse ver ao menos boas cenas de ação vindas de um filme desses. Ah, a ingenuidade…
Não existe NADA em Crepúsculo que justifique o filme. Nem o roteiro, os diálogos ou os efeitos especiais. A presença da Kristen Stewart, apesar de tudo, é incapaz de tornar a experiência menos desagradável. E para as fãs do Robert Pattinson, ele TAMBÉM não colabora, ok? Em 90% do filme você fica se perguntando por que caralhos o sujeito usa tanta maquiagem a ponto de parecer que contrataram um pedreiro pra aplicar uma demão de argamassa na cara dele. Nos raros momentos em que as sete toneladas de pó-de-arroz do cidadão não gritam “ALGUÉM NOS TIRE DESSE ROTEIRO HORROROSO!”, a atuação dele é tão deplorável que faz qualquer um com ganas de trabalhar em Hollywood pensar “Véio, eu preciso contratar o agente DESSE cara!” Essa pessoa faz milagres! Quem consegue encaixar alguém tão despreparado como protagonista num filme*, caro shakespeariano wannabe, arranja um papel pra qualquer um! (qualquer um que se disponha a fazer a sobrancelha e passar batom, claro)

- Bee, você usa maquiagem demais e esse batom não valoriza seus olhos!
Mas vamos por partes, porque se é pra convencer vocês a não verem o filme* (ou ao menos a não verem aquilo levando a sério), precisamos ir um pouco mais fundo nos aspectos falhos. Ah, deus, tanta coisa pra tratar e tão pouco tempo…
Comecemos do começo. Pegue seu saco de vômito, pois estamos prestes a analisar a obra* de Stephenie Meyer.
O roteiro*
A jovem Bella Swan (Kristen Stewart <3) vai morar com o pai em uma cidadezinha do interior dos Estados Unidos. No colégio conhece o jovem Edward Cullen. Estabelece-se um romance e ela descobre que ele é um vampiro.
...
Não, espera. Colocando dessa forma, fica parecendo que a história tem alguma linearidade, quando isso definitivamente não é verdade. Faltam alguns detalhes aí. Vamos de novo:
A jovem Bella Swan vai morar com o pai porque a mãe e o atual marido viajam demais e não têm tempo pra ficar pajeando uma guria de 17 anos. O pai é policial em uma cidadezinha do interior dos EUA que mais parece estar localizada no interior da Inglaterra, pois é tomada por uma névoa profunda o ano inteiro. Chegando lá conhece os amigos índios do pai, que não têm NENHUMA relevância na história, mas deixam um desagradável gancho para um segundo filme, o que soa muito mais como ameaça do que como esperança. No primeiro dia de aula a moça, carne nova e civilizada no pedaço caipira, vira a tauba de tiro ao Álvaro de qualquer um no colégio que aprecie um par de peitos, causando ciúme nas outras gurias (algumas delas bem mais gostosas, é preciso admitir), mas não é hostilizada como se esperaria. A única pessoa que a trata mal - e digo TERRIVELMENTE mal, do tipo "Saia de perto de mim, mulher, você faz meu café da manhã de ontem tentar escalar meu esôfago como sir Edmund Hillary ao Monte Everest!" - é um rapaz que usa quilos de maquiagem e tem um cabelo tremendamente escroto: Edward Cullen.
Vinte minutos depois eles já estão profundamente apaixonados, e não existe razão nenhuma pra isso, sinceramente.
Com o tempo, o comportamento, a aparência e certos fatos escrotos sobre o sr Cullen - como a habilidade de parar vans desgovernadas com as mãos, percorrer distâncias assombrosas em um piscar de olhos e ler os pensamentos de todo mundo ao redor - deixam a menina desconfiada. É quando o filme tenta criar um clima de suspense. E não consegue, mas cria um clima soporífero que é muito agradável. Insones, assistam! É melhor que aqueles leilões de jóias que passam na TV a cabo!
Pesquisando no Google, ela descobre que ele na verdade é um vampiro. Que a família toda dele é formada por vampiros. Enquanto isso, pessoas na cidade começam a ser atacadas por vampiros. E eu repeti o termo vampiros vezes demais em um parágrafo só. Ficou até cacofônico, tantos vampiros juntos. Parece a convenção dos vampiros. Não agüento mais escrever vampiros. Porra, vamos em frente!
Vocês percebam que nossa heróica Stephenie Meyer é uma pessoa muito criativa e não precisa se prender a arquétipos e padrões criados por escritores* menores, como Bram Stoker. Seguindo a linha iniciada por Anne Rice, piorada pelos jogos recentes de Castlevania, mas levando o conceito* muito, muito além, essa moça conseguiu a proeza de transformar uma das lendas mais interessantes do século XIX em uma das coisas mais intoleráveis e abicholadas dos tempos modernos: emos. Os vampemos, diferentemente de suas versões transilvanescas, BRILHAM sob o sol. Não morrem: BRILHAM. Imagine alguém coberto por purpurina. Essa é a aparência que eles têm quando ficam expostos ao astro-rei. Considerando o grau de viadagem e aquela regra que diz que bicha não morre, vira purpurina, alguém até poderia dizer de um deles: "Ele está morrendo!". Mas se é verdade, então o processo é bem demorado, o suficiente pra não causar o alívio imediato de ver aquelas bichas de cabelo escroto desintegrando-se sob raios UV.
A partir do momento em que a verdade sobre Edward Cullen vem à tona - porque até então era um GRANDE mistério! -, o suposto suspense ganha ares de comédia romântica adolescente. Daí temos direito a cenas dos dois indo à casa dele para que ela possa conhecer a simpática família vampira que, em uma obra decente, tentaria transformá-la em jantar; dos dois saltitando por árvores na floresta; de ambos deitados sobre a relva, olhando-se embevecidamente. Até mesmo um jogo de beisebol entre a vampirada acontece - e é o único momento em que o nababesco orçamento de 37 milhões de dólares se justifica.
Esse tempo todo e tudo o que o jovem Cullen faz com a curvilínea Bella é observá-la com indecisão, sem saber se deve comê-la num sentido literal ou lúdico. É feio brincar com a comida, vocês sabem.
Mas aí, pra não deixar tudo muito mamão-com-açúcar (como se fosse possível reverter tal efeito a essa altura do campeonato), surgem os outros vampemos, os que andaram matando pessoas pela cidade nos últimos dias. Daí temos sanguessugas saindo na porrada e o filme, até nisso, mostra uma total incapacidade de ter alguma graça.
Os efeitos especiais*:
“Isso” - você pensa - “deve ser legal. Com os recursos que os estúdios têm à mão hoje em dia e com TRINTA E SETE MALDITOS MILHÕES DE DÓLARES os efeitos devem ser respeitáveis!”. Porra nenhuma. Só faltou deixarem as cordinhas expostas nas cenas dos saltos. E os momentos em que os vampiros usam sua “supervelocidade” são tão bons quanto aqueles cortes de câmera usados em Chaves & Chapolin para fazer algo aparecer/desaparecer.
A maquiagem, como eu não canso de falar, é horrível. Todos os desmortos lembram fãs do Teatro Mágico. Em certos momentos a barba do Robert Pattinson surge sob a grossa camada de pó-de-arroz e ele mais parece um travesti relapso do que um vampiro. Na cena em que Bella diz a Ed que já sabe o que ele é, inclusive, esse teria sido o diálogo capaz de tornar o filme interessante:
Bella: Eu sei o que você é.
Edward: Diga.
Bella: …
Edward: Em voz alta.
Bella: …
Edward: Diga.
Bella: Um traveco!
A visionária Stephenye Meyer infelizmente não é tão visionária assim.

Miss Meyers, entre dois fags espadaúdos, os vampiros de seu próximo livro.
Enfim. Se você é dessa geração de mente podre, que cresceu achando que Harry Potter é literatura, Senhor dos Anéis é um clássico, Power Rangers é tokusatsu e Naruto é um bom anime, Crepúsculo foi feito pra você. Leia os livros, veja os filmes, seja feliz. Se qualquer merda te agrada, isso não vai ser diferente. Mas se você é dessas aberrações que gostam de roteiros bem-amarrados, curtem boas justificativa pra existência dos personagens, apreciam diálogos minimamente lógicos e acham que o vilão merece aparecer no filme por mais de 15 minutos, em vez de surgir no fim da história com o único objetivo de ser desmembrado e morto, não veja Crepúsculo.
Se realmente fizer questão de acompanhar uma trama adolescente à lá Malhação, com mocinhas de olhar assustado e protagonistas machões superpoderosos, atormentados por sua natureza super-humana, ignore Crepúsculo e veja Smallville. Super-Homem é bem mais legal que vampiros emos, até porque não usa tanta maquiagem.
Trinta e seis milhões de dólares que poderiam ter sido usados pra alimentar trocentas criancinhas na África durante um porrilhão de anos jogados fora, que tragédia. Eu sei que poderia ser pior e o dinheiro poderia ter caído nas mãos de Uwe Boll. Sou grato por não ter sido esse o destino da verba. Mas todo o celulóide usado pra filmar esta bomba seria melhor aproveitado se fosse dado aos meus desafetos para ser usado como papel higiênico. Seriam eles a sofrer e eu a me divertir, e não o contrário.
O fato é que até duas semanas atrás eu não sabia que esse filme existia ou quem era Stephenye Meyer. Eu era mais feliz há duas semanas.
*Os termos marcados com um asterisco estão sendo usados com bastante liberdade poética, embora o texto esteja em prosa, e só foram empregados na falta de nome melhor.