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Categoria (ou a falta dela)

Existem diversas formas de dividir a sociedade:

Destros e canhotos.
Bolcheviques e mencheviques.
Capazes e incapazes.
Those with loaded guns, and those who dig.

Mas, para mim, não há divisão melhor que essa:

Brasileiros que falam Wikipédia e brasileiros que falam “Wikipídia”.

E o segundo grupo merece empalamento.

Nerdice, TV e cinema (por alto)

Àqueles de vocês que não lêem quadrinhos, existem duas grandes empresas nessa indústria, a Marvel e a DC. Não existem SÓ essas duas, mas elas são as maiores, ou ao menos as que detêm os direitos dos super-heróis mais conhecidos. A DC é dona dos mais icônicos, como Super-Homem, Batman, Mulher-Maravilha, Lanterna Verde, toda a Liga da Justiça, enfim. A Marvel é responsável pelos mais “modernos” (surgidos de 1960 pra cá, em sua maioria), mas já conhecidos, como o Homem-Aranha, Homem de Ferro, Capitão América, X-Men, Hulk, Thor, Demolidor, etc, etc.

Não sou lá muito fã da DC. Salvo um ou outro personagem (no momento só consigo me lembrar do Batman, mas estou certo que existem outros), eles nunca conseguiram atrair muito minha atenção. Meu problema com essa editora é que ela não tem heróis, mas franquias. É possível criar pelo menos uns 15 (e estou chutando baixo) títulos mensais só com personagens que carregam aquele S poligonal do Super-Homem no peito. Junte a isso a horda de Batmans e Mulheres Maravilha e dá pra fazer uma editora só com eles. São incontáveis Flashs, toda uma família de Capitães Marvel e INFINITOS Lanternas Verde. Não tenho saco pra essas coisas.

A Marvel é um pouco mais contida nesse sentido. Embora tenha aprendido alguns truques detestáveis com a Distinta Concorrência, como desrespeitar a morte de personagens - substituindo os falecidos por versões mais jovens com os mesmos poderes - ou matá-los só pra levantar grana - despertando-os inexplicavelmente (ou de forma mal explicada, não sei o que é pior) alguns números adiante -, ainda a acho mais “consistente” que sua rival. Além do mais, os personagens da DC são espalhados e über-poderosos demais pra minha cabeça. Na Marvel todo mundo está ali em Nova Iorque e, à exceção das tentativas frustradas da editora de criar sua própria versão do Azulão, o limite de poder dentre os heróis (ao menos entre os da terra) é muito restrito.

É claro que as duas editoras têm sua série de pisadas na bola. A DC, como já disse, gosta de matar os heróis - ou aleijar, como fez com o Batman -, ressuscitá-los com novo uniforme e novos poderes, se arrepende e dá uma remendada medonha para retorná-los ao estado original. A Marvel prefere ampliar ou reduzir os poderes, de acordo com a vontade dos editores, fazer histórias paralelas do mesmo personagem sem explicar por que os acontecimentos de uma não influenciam os da outra, causar catástrofes no título de um herói que passam despercebidas na revista de outro personagem, ainda que os dois morem na mesma cidade - uma cidade que é uma ILHA, ou seja, não tem muito como ignorar os acontecimentos da vizinhança - e apelar para soluções absurdas para suas cagadas editoriais, do tipo “ele fará um trato com o diabo e todo mundo no planeta, inclusive ele, esquecerá que um dia tal e tal coisa aconteceu”. O problema é que os leitores não esquecem, não existe pacto com o demônio que resolva ESSE problema.

Da mesma forma que cada uma tem seus pontos fracos, também tem seus pontos fortes. A Marvel parece ser mais atenta ao que o público gosta de ver no cinema e procura fazer bons filmes - o que geralmente acontece, se você esquecer Elektra, Demolidor, Motoqueiro Fantasma e baboseiras semelhantes -, enquanto a DC, que é uma tristeza na tela grande, sabe muito bem o que o público gosta de ver na TV, lançando animações competentes, como Batman Volume 2, Liga da Justiça e Liga da Justiça Sem Limites. A Marvel falha miseravelmente com seus desenhos animados. Tome como exemplo os dois longas dos Vingadores lançados em 2006 (você não ouviu falar porque quase ninguém ouviu), que, não obstante tenham sido feitos como longa-metragens, parecem ter orçamento menor que o de UM episódio de Liga da Justiça Sem Limites.

Essa regra, entretanto, parece estar começando a mudar. Os últimos lançamentos cinematográficos da Marvel foram de dar pena (o já referido Motoqueiro Fantasma, X-Men 3 e Homem-Aranha 3) e definitivamente caíram MUITO em termos de qualidade, se comparados aos filmes que abriram as franquias. A DC acertou (dadas as devidas proporções, claro) duas vezes, com Batman Begins e Superman Returns (que dá suas derrapadas, mas é um filme válido, ao contrário de Mulher-Gato, por exemplo). E agora a qualidade dos desenhos da DC parece estar caindo. Aparentemente a empresa resolveu entrar numa onda de tentar fazer animes, mas sem a competência dos japoneses pra esse tipo de negócio. A Marvel, por outro lado, atraiu a atenção do público com Quarteto Fantástico (que, apesar de não ser grande coisa, está anos-luz à frente dos últimos desenhos estrelando heróis da editora) e agora aposta em The Spectacular Spider-Man, nova animação do amigão da vizinhança, recém-lançada nos EUA, dia 8 desse mês.

The Spectacular Spider-Man

O traço me pareceu muito clipe-do-Gorillaz, um lance meio Marvel Mangaverso - e isso é uma crítica, e não um elogio. Mas o roteiro me interessou, de todo modo, já que pretendem tratar do começo da carreira de super-herói de Peter Parker, então com meros 16 anos. Também me chamou a atenção o fato de um dos responsáveis pelo desenho ser Greg Weisman, que trabalhou em The Batman (série que naufragou, mas que eu gostei bastante). Infelizmente ainda não há data de exibição prevista para o Brasil, embora a Rede Globo já tenha comprado os direitos (mas os sites de Torrent estão aí pra isso, afinal de contas). Segue o trailer da parada, lançado pela Marvel na San Diego Comic Con:


A confirmação da mudança (ou não) de maré de qualidade entre as duas editoras virá com a disputa, esse ano, entre Iron Man e Batman: The Dark Knight. Pelos trailers, nenhum deles me parece propenso a falhar nas bilheterias, mas o Hulk de Ang Lee também se mostrava uma promessa e tanto, antes de ser lançado em 2003 e atrair o horror da maior parte dos fãs de filmes de quadrinhos. Aguardo ansiosamente pelos dois (e pelo novo Hulk, ainda que eu tenha certeza que o fato da calça do gigante esmeralda não rasgar quando ele mudar de Ed Norton pra animação computadorizada vai causar reclamações entre os espectadores, doidos pra verem uma enorme piroca verde surgindo na tela do cinema).

Até lá, vou assistindo os episódios de The Spectacular Spider-Man baixados na internet (ou verei no Cartoon Network, se a série aportar por lá). Pro caralho com a emissora dos Marinho.

[Atualização]: Vá atrás do desenho AGORA e assista. AGORA. E a música tema é FODÁSTICA (dá pra baixar nesse link).

Divagar

A vida não é justa e o mundo é cheio de gente burra. Hoje acordei com tendência a dizer o óbvio e estão aí as duas afirmativas mais verdadeiras que alguém pode fazer. Repito para os idealistas de plantão: justiça é conversa fiada pra boi dormir, gente inteligente é um negócio raro de encontrar. Nesse blog aqui, por exemplo, duvido que você ache uma. Começando pelo autor. Mas existem piores, então pode ficar, se o grau mediano de limitação intelectual emanado aqui não te aborrece.

Não, você não está enganado(a), esse parágrafo é um dos que começa textos que não têm qualquer assunto em particular, que caminham por tópicos completamente diferentes de forma totalmente aleatória. Bem-vindo(a) ao meu processo ilógico de pensamentos, no geral reclamações. Sua estada aqui será curta e prometo limitar os palavrões o máximo possível, mas quando leio que a Alizée é casada e tem um filho, o que é que me ocorre? CARALHO! É isso que me ocorre. Que tipo de imbecil faz um filho numa mulher daquelas? Um imbecil de sorte, foi o que Eduardo Stigger me disse, e o problema é que o miserável tem razão.

A moça é nova, a moça é linda, a moça é gostosa pra caralho. Por que não comê-la desesperadamente até que a gravidade, os shows, os vícios e o tempo, esse inoxidável (?), façam seu trabalho? Quando começar a rolar a época da decadência, dá-lhe um bucho em pé de guerra, um fedorentinho, e pronto, ela sai de uma função cultural (ser gostosa) pra outra (ser procriadora). Por que as pessoas procriam? Não faço idéia. Não sei nem porque é que se CASAM, pra começo de conversa. Que idéia mais idiota, trocarem anéis e morarem juntos.

Ok, morar junto às vezes nem é uma idéia tão besta assim. Às vezes pode se tornar inviável duas contas de luz, duas contas de água, duas contas de telefone, duas de internet, duas de tv a cabo, dois aluguéis/boletos de cobrança de parcelamento de pagamento de imóvel, enfim. Às vezes é mais barato mesmo juntar os panos de bunda, alugar um apê maior e irem pra essa vida conjunta, que promete torná-los inimigos pro resto da vida. As pessoas têm o direito de se apaixonar umas pelas outras e de odiar umas às outras, também, não se deve impedi-las de levar a vida como acharem melhor.

Mas deve ser aquele troço de desejo mútuo. O pior que pode acontecer é alguém de fora começar a pressionar, um dos dois entrar na onda e o outro resolver aceitar, indo pra essa época complicada da vida só pra alegrar familiares (geralmente os do outro). Porque as pessoas não têm a menor noção e se metem no que não deveriam se meter, fazendo comentários teoricamente engraçadinhos, quando o ideal seria que calassem a boca e cuidassem da própria vida. Eu namoro há quase cinco anos - sim, com a mesma guria - e tô sempre ouvindo idiotices como “E aí, vão se casar?” ou “Tá enrolando a menina?” e coisas assim. Daí, se eu mando tomar no cu, quem é o mal-educado? Eu, logicamente.

Porque se meter na vida dos outros é desagradável, mas não é falta de educação. Sugerir a alguém que inverta o vetor do duto de saída fecal, ah, isso é de uma falta de elegância que beira a barbárie.

O foda é que existe quem se deixe levar por essa pressão. Os pais dela, ou os pais dele, resolvem que estão juntos há tempos demais e que deveriam juntar logo esses trapos, arranjar um buraco qualquer, entrar com a papelada, essas coisas. Devo dizer que geralmente é a mulher que vem com essa conversa mole, principalmente quando a mulher tem um monte de irmãs. Porque mulher em grupo só fala dessas merdas. Quando não conversam sobre as próprias roupas, cabelos, unhas, métodos depilatórios e ph do corrimento vaginal, entram nesse tópico desagradabilíssimo que é a vida conjugal. Pra uma mulher, conseguir colocar uma argola dourada no dedo de um idiota e convencê-lo a morar com ela (ou a deixá-la morar com ele) é como, para um homem, conseguir comer uma gostosa de propaganda de cerveja, com direito a fotos pra mostrar pros amigos. Ou como tirar um Ford Fusion da concessionária sem ajuda dos pais: um sinal de status, uma demonstração de superioridade, uma prova que você é capaz de ser bem-sucedido nessa vida.

Lógico que nem todas as mulheres são assim, nem todos os homens também. Mas que a maioria é, ah, isso é.

Colhões mesmo tem aquele marido da Jennifer Garner em Juno, que resolve mandar pro caralho o surto familiar-psicótico da mulher que cismou que “nasceu pra ser mãe” e vai viver sozinho num loft, com seus quadrinhos, sua guitarra fodona, seus filmes sangrentos de horror e sua tara por adolescentes barrigudinhas. Tá aí um cara que eu respeito. Logicamente, ele é colocado de forma muito depreciativa no filme, porque o roteiro, oras, foi escrito por uma mulher. Fosse um filme do Nick Hornby e a história giraria em torno dele, e ele seria um cara legal pra caralho, tipo o Hugh Grant em Um Grande Garoto. É tudo uma questão de ponto de vista.

Falando em retomar as nerdices, voltei a jogar RPG e, alguns dias depois, morre o Gary Gygax. Veja só se não é o universo dando um berro e dizendo que eu fazia muito melhor ficando afastado desse hobby maldito, dessa coisa demoníaca, desse criadouro de assassinos satanistas que é o RPG. RPG é coisa do diabo, todo mundo sabe. Sempre rolam uns rituais macabros envolvendo sangue de bode, cabeças de galinhas pretas, farofa de macumba e pedaços de cérebros de eleitores do PSDB (esse último item é mais difícil de achar). Tudo isso pra tirar um 20 em um D20, numa jogada com dificuldade 27, onde seu modificador é JUSTAMENTE +7 e que pode definir o curso da missão.

Devo admitir que o mestre come nosso rabo, mas dá beijinho na nuca depois, então fica tudo bem.

Utilizando essa última frase pra sair da nerdice e partir pra viadagem, resolvi deixar o cabelo crescer. Resolvi há seis meses e tá crescendo há seis meses. Atualmente estamos nos dando bem, mas há algum tempo ele teve um período de adolescência que foi realmente difícil de tolerar. Era um tamanho maior do que o costumeiro, mas menor do que o de um cabelo “grande”. Eu não podia mais tratá-lo como se fosse pequeno, também não podia tratá-lo como se fosse grande. Ele se revoltava por pouca coisa e convencê-lo a obedecer, a ser minimamente lógico, era bastante difícil. Foi uma época complicada, mas estamos nos dando bem melhor agora. Acho que nunca mais volto a cortá-lo tão curto. Do tamanho que está, ele não cria esculturas medonhas sempre que tiro um cochilo. É só penteá-lo pra trás e pronto, chega de dor-de-cabeça.

Melhor que isso, só raspando com gilete.

Mas não tenho coragem pra tanto. Já basta fazer isso na minha cara e descobrir (mesmo já conhecendo, mas relembrar é sempre difícil) o que há por baixo. Não quero descobrir que tenho calombos esquisitos no crânio ou marcas medonhas espalhadas pelo couro cabeludo.

Felizmente o gene da carequice não caminha por essas bandas…

Das últimas idas ao cinema

Época de Oscar é uma maravilha, vai dizer? Tu olha praquela lista de filmes no jornal e tem vontade de ver uma porrada. Muito filme bacana, coisas de diretores consagrados, os melhores atores em cartaz, a crítica se desfazendo em elogios rasgados a uma caralhada de gente. Daí tu tem que ir ao cinema umas três vezes por semana pra assistir tudo, antes que o que te interessa dê lugar a uma porcaria pré-adolescente qualquer.

Da mesma maneira que sai muita coisa bacana, sai muita podreira. Sai também muita podreira travestida de coisa bacana, o que é o pior que pode acontecer: ler uma crítica positivaça a respeito de alguma coisa, chegar no cinema e ter uma puta decepção com o filme. Muito mais legal é ver uma crítica que esculacha a parada, chegar lá e curtir pra caramba. Melhor se surpreender pra melhor do que pra pior, como parece evidente.

Mas enfim. Fui ver, nos últimos dias, alguns filmes que me interessavam há tempos, mas que eu não tinha ido ver porque sou um procrastinador compulsivo. Segue a lista e minhas considerações a respeito:

Onde Os Fracos Não Têm Vez, dos irmãos Coen, foi o primeiro deles. Os Coen são uma dupla que eu respeito pra caralho. Gostei bastante de todos os trabalhos deles que eu vi: Arizona Nunca Mais, E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?, Fargo, O Grande Lebowsky. Os caras simplesmente têm um péssimo senso de humor, uma satisfação mórbida em azucrinar, torturar, maltratar, esculhambar os personagens. Ao mesmo tempo, são muito justos: todo mundo, em algum ponto da trama, se fode - em maior ou menor grau -. Sem discriminações com os infortúnios. Traço narrativo que eu aprecio, principalmente quando o sofrimento dos personagens beira o Hitchcockianismo (e se o termo não existe, está cunhado a partir de agora).

E aí os caras me fazem um filme absurdamente promissor. Colocam o Javier Bardem fazendo o que eu chego ao ponto de dizer que foi o melhor papel que ele fez na vida, sacam o Josh Brolin de algum limbo de famosos-pero-no-mucho, apresentam um Woody Harrelson fazendo o papel que ele faz melhor, o mesmo com o Tommy Lee Jones. Não escrevem UM, nem mesmo UM diálogo que soe despropositado ou fora de lugar ou forçado ou qualquer coisa dessas. Fazem uma história simples e com poucas variáveis, com bons personagens e com bons diálogos, enfim, mas erram no foco. E errar justamente no foco pode transformar a experiência em um puta coito interrompido, que é o que Onde Os Fracos Não Têm Vez acaba sendo. Um filme sensacional, que tropeça justamente por um foco impensado, um desenvolvimento pouco trabalhado. É triste, mas é fato. Não dá pra detestar o filme ou dizer que ele é ruim. Seriam duas grandes injustiças. Mas afirmá-lo perfeito também é forçar muito a barra. Fico com a pergunta indignada que li em um fórum no qual uns caras discutiam cinema:

“Qual o problema em acabar o filme com um final? É burguês? Ou é plebeu demais? É muita farinha na ‘média cultura’?”

Eu Sou A Lenda, se não é um primor de roteiro, ao menos é bem-amarrado. Admito que tenho uma certa atração por filmes que apresentam a solidão na sua forma mais crua: toda a humanidade foi pro caralho, você é o último representante da sua espécie. Se a definição de paraíso é uma coisa particular, então essa é a minha. O bairro todo só pra mim. A cidade. O mundo. Ir onde quiser, quando quiser, como quiser, sem o risco de esbarrar com alguém no caminho, sem ter que tolerar outros seres humanos, sem mais ninguém além de mim e dos meus pensamentos. Entrar nos supermercados e comer o que der vontade. Ver os filmes que quiser. Ler os livros que quiser. Morrer sozinho, tendo, como companhia, no máximo um cachorro, talvez nem isso. Se existe felicidade mais completa, não me ocorre agora.

Com isso em mente, fui ver Eu Sou A Lenda, como fui ver Extermínio, como assisti Vanilla Sky - só por causa daquela cena com o Tom Cruise sozinho em Times Square. Mas só o filme do Will Smith conduz essa possibilidade de uma maneira que se aproxima do que eu gostaria de ver. Justamente por isso, é um roteiro bastante ousado. Se apóia apenas na capacidade do protagonista de conseguir simpatia do público. Um ator menos carismático ali e ninguém teria saco pra aguentar quase duas horas de um sujeito andando sozinho numa Nova Iorque deserta. Não sei se só eu tive essa impressão, mas aquelas criaturas com as quais ele briga parecem muito os robôs de Eu, Robô feitos de carne. Aliás, ato falho do filme: não havia razão para colocar as criaturas como CG’s. É lógico que certas cenas demandam efeitos especiais, mas por que fazer tudo em computação gráfica? Com exceção disso - e do destino do cachorro, que me incomodou profundamente -, é um filme que eu recomendaria. Não é UM FILMAÇO, CACETE, QUE FILME FODA, PUTAQUEOPARIU! e tal. Mas é um bom filme, que vale a pena ser visto no cinema, como acontece com os bons filmes de ação.

Já com Cloverfield eu sou mais cuidadoso na hora de recomendar. Em primeiro lugar, não achei um filme ruim, como acharam algumas pessoas que viram comigo no cinema e saíram indignadas, reclamando por terem dado dinheiro para aquela abominação cinematográfica. Pelo contrário, achei até bem divertido. Valeu a meia-entrada que paguei para ter um período curto de diversão. Como eu disse para alguns conhecidos no cinema, “se teu negócio é filme de arte, você não deveria ter visto isso”. É cinemão pipoca na sua forma mais pura. Nada de análises psicológicas profundas dos personagens, nada de grandes moralismos ou idealismos vazando por entre os diálogos, nada de grandes críticas ou odes à natureza humana. Se a premissa - um monstro gigante devastando Nova Iorque - te incomoda, então, sério, não vá ao cinema. Pra você vai ser um desperdício de tempo e dinheiro. Mas se a idéia te agrada, então vá. E tente desvendar como, anatomicamente, é a tal criatura. Eu infelizmente não posso dizer que consegui.

Também vi P.S.: Eu te amo e Gângster, ontem.

Mas sobre esses eu não tenho nada a dizer. Um é uma comédia romântica. Arranca algumas risadas, em certos pontos, e pode até comover os mais sensíveis, em outros. Não é divertidíssimo, mas também não é sem-graça, não é extremamente tocante, mas também não é meloso. Pra uma comédia romântica, ficar no meio-termo, assim, já é um avanço e tanto. E Gângster, porra. Denzel Washington chuta bundas, como é de seu feitio. Russel Crowe também, como de costume. Josh Brolin eu nem menciono. Por que esse cara ficou na surdina até agora? Puta perda pro cinema. Ridley Scott é um cara que parece caminhar entre diferentes extremos pros fãs de cinema. Há quem ame tudo o que ele fez, há quem odeie. Não amo nem odeio, mas foram poucos os filmes dirigidos por ele que me decepcionaram. No geral, saio com aquela sensação de ter gasto meu dinheiro corretamente, sensação que se repetiu ontem.

Não vou dar estrelas ou pontuar minhas opiniões de um a dez, um a trinta, noventa e sete a dois mil, setecentos e oitenta e três. Leve minhas considerações em conta na hora de escolher o que assistir ou não leve. Crítica cinematográfica é uma coisa imbecil mesmo, já que a experiência varia de pessoa pra pessoa, então tudo o que eu disse aí não vale de porra nenhuma. Da mesma forma, não vale nada o que dizem no jornal da sua cidade, da minha cidade ou de qualquer outra cidade.

Vá ver o que te atrair e crie sua própria opinião.

Cinematócitos

À Procura da Felicidade vai alimentar o sadismo de muita gente que diz que gosta de ver histórias de “superação”, quando na verdade curte mesmo é ver outros seres humanos se fodendo bonitamente sem, contudo, perder a cabeça e chutar o balde.

Babel não me pareceu um filme ruim, mas me abstenho de comentar. E não faço isso porque não gostei, seria simplificar o inexplicável. Mas - já disse e estou repetindo - não quero dizer que não caiu no meu gosto porque é ruim, até porque acho que seria bem virulento da minha parte fazer uma afirmativa tão descabida. Direi o que disse a todo mundo que me perguntou o que eu achei:

- Vá ver e tire suas próprias conclusões. As minhas são inconclusivas.

Mais Estranho Que A Ficção também não é ruim. Mas se não disse que Babel é ruim, esse não ouso dizer que é bom. Tem seus momentos. Até diverte, se você tiver boa vontade. Talvez valha o preço de uma meia entrada em meio de semana. Ou o custo da locação de um DVD, quando for lançado, quem sabe. Pelo menos Will Ferrel convence, o que já é muita coisa (ainda mais para mim, que não vou muito com a cara dele e acredito serem tremendamente questionáveis seus dotes “humorísticos”).

Sobre Casino Royale, preciso me controlar na hora de falar a respeito. Há tempos não me empolgava tanto numa cadeira de cinema. Finalmente o agente 007 conseguiu sair - de forma violenta, diga-se de passagem - da bolha de antipática letargia na qual eu o mantinha desde meu primeiro contato com outros atores que não o velho Sean Connery interpretando o papel. De todo modo, enquanto via Daniel Craig cobrir malfeitores de porrada com a brutalidade de um lutador de vale-tudo, um pensamento me veio à mente: é estranho que em tempos de metrosexualismo e posturas politicamente corretas, personagens assumidamente caminhoneiros façam tanto sucesso. E não digo apenas no cinema. Se nas telas grandes temos o agente James Bond agindo com inesperada incivilidade, nos videogames um dos jogos de maior sucesso atualmente traz como personagem principal um sujeito que ainda irei colocar como símbolo da comunidade Clube Irmão Caminhoneiro Shell: Kratos, de God of War, conseguiu expandir meus conceitos de grosseria a níveis inteiramente novos.

Conselho Tutelar

Comprei o DVD de Encontrando Forrester outro dia, nas Americanas, por módicos R$ 12,90. Uma pechincha, considerando o quanto gosto do filme e como estaria disposto a pagar bem mais por ele.

Admito que boa parte do meu apreço pela película vem da profunda inveja que sinto do personagem Jamal Wallace. E não é por ser um sujeito com uma mente aguda, inteligência afiada e extremamente talentoso na hora de escrever.

Ok, na verdade isso também me causa inveja. Mas não é o fator principal. Minha inveja deriva do fato dele achar alguém que é reconhecidamente grandioso no trato com as letras e desse homem aceitar, de bom grado (na medida do possível), lapidar o potencial do rapaz. Aquela cena em que ele recupera os cadernos e encontra anotações do William Forrester é o melhor exemplo que posso citar aqui.

Antes de mais nada, devo explicar que considero “talento” uma palavra forte demais. Talento para a música tem um moleque que escreve uma sinfonia aos 8 anos. Talento tem um cara que ignora a esmagadora maioria das normas gramaticais - em especial quanto à pontuação - e lança um livro que, apesar de sua estrutura difícil de acompanhar, é indiscutivelmente genial. Enfim. Talento é uma daquelas palavras que deveriam ser aplicadas de forma parcimoniosa, mas acabam sendo vulgarizadas por quem não pesa bem o que diz. O que tenho com a escrita é, no máximo, certa facilidade - o que não pressupõe competência, ressalto.

Talvez eu fosse capaz de sair da linha do medíocre, não fosse tão indolente e indisciplinado. Indolente por jamais reescrever o que faço. Refazer, refazer, refazer e refazer, até sangrar os dedos no teclado, provavelmente me levaria a resultados melhores. Mas fico com medo de apagar o trabalho já pronto na tentativa de aprimorá-lo e acabar com um resultado pior do que o anterior.

Indisciplinado por não ser capaz de me forçar a escrever, por me sujeitar a arroubos de inspiração, essa força esquisita, volúvel e traiçoeira, que só se aproxima nos momentos em que você não tem como agarrá-la pelo pescoço e espremê-la até não sobrar nada, até secar a fonte. Se essa presença inconstante me leva a produzir rabiscos interessantes ao se aproximar, também me leva a redigir textos patéticos quando parte.

Nesse ponto, alguém como Willian Forrester seria capaz de me ajudar. Ao reler meus escritos e apontar os trechos incoerentes, as passagens interessantes, os argumentos falhos, os pontos regulares e as partes sofríveis, ele me forçaria a repensar minhas estruturas redativas. Além do mais, alguém com anos de escrita nas costas sempre poderia contribuir com algum cacoete que ajudasse a aumentar a fluidez das palavras.

Era disso que eu precisava. Alguém com conhecimento, moral e bagagem suficientes pra analisar o produto do meu esforço e dizer, de uma vez por todas, se sou um inapto lutando contra moinhos de vento ao tentar melhorar ou se realmente há, sob toda essa lenga-lenga, a probabilidade de um dia eu chegar ao ponto em que pense “Ok, eu sou bom nisso. Posso arranjar um trabalho nessa área e receber dinheiro pelos meus textos sem peso na consciência.”.

O problema é essa maldita síndrome de George McFly que não me permite sondar a opinião dos que sabem mais que eu.