Comprei o DVD de Encontrando Forrester outro dia, nas Americanas, por módicos R$ 12,90. Uma pechincha, considerando o quanto gosto do filme e como estaria disposto a pagar bem mais por ele.
Admito que boa parte do meu apreço pela película vem da profunda inveja que sinto do personagem Jamal Wallace. E não é por ser um sujeito com uma mente aguda, inteligência afiada e extremamente talentoso na hora de escrever.
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Ok, na verdade isso também me causa inveja. Mas não é o fator principal. Minha inveja deriva do fato dele achar alguém que é reconhecidamente grandioso no trato com as letras e desse homem aceitar, de bom grado (na medida do possível), lapidar o potencial do rapaz. Aquela cena em que ele recupera os cadernos e encontra anotações do William Forrester é o melhor exemplo que posso citar aqui.
Antes de mais nada, devo explicar que considero “talento” uma palavra forte demais. Talento para a música tem um moleque que escreve uma sinfonia aos 8 anos. Talento tem um cara que ignora a esmagadora maioria das normas gramaticais - em especial quanto à pontuação - e lança um livro que, apesar de sua estrutura difícil de acompanhar, é indiscutivelmente genial. Enfim. Talento é uma daquelas palavras que deveriam ser aplicadas de forma parcimoniosa, mas acabam sendo vulgarizadas por quem não pesa bem o que diz. O que tenho com a escrita é, no máximo, certa facilidade - o que não pressupõe competência, ressalto.
Talvez eu fosse capaz de sair da linha do medíocre, não fosse tão indolente e indisciplinado. Indolente por jamais reescrever o que faço. Refazer, refazer, refazer e refazer, até sangrar os dedos no teclado, provavelmente me levaria a resultados melhores. Mas fico com medo de apagar o trabalho já pronto na tentativa de aprimorá-lo e acabar com um resultado pior do que o anterior.
Indisciplinado por não ser capaz de me forçar a escrever, por me sujeitar a arroubos de inspiração, essa força esquisita, volúvel e traiçoeira, que só se aproxima nos momentos em que você não tem como agarrá-la pelo pescoço e espremê-la até não sobrar nada, até secar a fonte. Se essa presença inconstante me leva a produzir rabiscos interessantes ao se aproximar, também me leva a redigir textos patéticos quando parte.
Nesse ponto, alguém como Willian Forrester seria capaz de me ajudar. Ao reler meus escritos e apontar os trechos incoerentes, as passagens interessantes, os argumentos falhos, os pontos regulares e as partes sofríveis, ele me forçaria a repensar minhas estruturas redativas. Além do mais, alguém com anos de escrita nas costas sempre poderia contribuir com algum cacoete que ajudasse a aumentar a fluidez das palavras.
Era disso que eu precisava. Alguém com conhecimento, moral e bagagem suficientes pra analisar o produto do meu esforço e dizer, de uma vez por todas, se sou um inapto lutando contra moinhos de vento ao tentar melhorar ou se realmente há, sob toda essa lenga-lenga, a probabilidade de um dia eu chegar ao ponto em que pense “Ok, eu sou bom nisso. Posso arranjar um trabalho nessa área e receber dinheiro pelos meus textos sem peso na consciência.”.
O problema é essa maldita síndrome de George McFly que não me permite sondar a opinião dos que sabem mais que eu.
O pacote de isoporitos tá custando R$ 0,99 no Extra. Minha vontade é ir até o lugar com uma nota de R$ 50,00 e comprar tudo dessa porcaria. Quem sabe eu não consigo completar minha coleção de montáveis dos X-Men? Taí uma coisa que me faria feliz…


