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Historieta Curtita XVII

Entraram na casa dela e foram tropeçando em todos os móveis que havia no caminho para o quarto. Arrancavam a roupa desajeitadamente, com pressa, enquanto se engalfinhavam como dois gatos de rua.

Depois de derrubar um abajur, duma canelada, dele, em uma mesinha de cabeceira e dela quase mandar ao chão um espelho de parede, finalmente conseguiram chegar à cama. Ele lhe mordia o pescoço quando ela sussurrou em seu ouvido:

- Seus carinhos me enchem de desejo!

Ele parou. Olhou-a nos olhos.

- Como?
- Suas carícias me alucinam!
- Sério?

Ela, sentindo-se incentivada pelo clima, pela meia luz, pelo olhar que ele lhe lançava, continuou:

- Vem! Me faz ser sua!

Ele ainda a olhava quando redarguiu:

- Minha?
- Sua! Toda sua! Vem, vem ser meu homem!
- Seu homem?
- Anda! Me possui! Quero te sentir em mim, nossos corpos feitos um!

Ele se levantou. Subiu as calças, meio arriadas, e já estava fechando a camisa quando ela quis saber o que houve.

- Tua breguice cortou meu barato.
- Quê?
- É isso aí. Mas não se sinta mal. Você tem futuro como letrista de forró. Adeus.

Ele foi pra casa, dormiu o sono dos justos.
Ela se masturbou ao som de Calcinha Preta.

Contos Triviais II

Caminha há três dias, sem parar nem para dormir. A pouca água que tem, sorve em doses homeopáticas, uma a cada três ou quatro horas, nunca com a intenção de aliviar a boca seca, a garganta áspera, a língua que, dentro da boca, parece repousar sobre uma caixa de areia. Ingere as doses mínimas do líquido precioso apenas para permanecer vivo. Ignora o suor pelo corpo que ensopa a roupa, a cabeça em chamas, o calor opressivo sob o sol inclemente, assim como, à noite, não dá atenção aos membros rígidos, à sensação cortante dos gélidos ventos fustigando a pele, às mensagens de seu corpo acusando a hipotermia que se aproxima. E não sorri de alívio ou estremece em antecipação às próximas 12 horas de calor quando nota que o enregelante frio da madrugada vai gradativamente sumindo, à medida em que os primeiros raios da esfera incandescente surgem na linha do horizonte.

Apenas segue, alheio a tantos estímulos externos desagradáveis, as pernas movendo-se de forma ritmada, passo após passo. Não há sinal de civilização até onde a vista alcança. Não há sinal de qualquer coisa, aliás, além do enorme espinheiro que singra como quem passa a vau por um rio caudaloso. Suas pernas são toras vermelhas de carne gotejante, dilaceradas, desfeitas pelos espetos afiadas que se projetam da vegetação hostil ao redor. Calças não existem mais a partir de um palmo da coxa, aproximadamente, e mesmo as coxas já estão arruinadas o suficiente para não serem reconhecíveis. É impressionante que uma estrutura tão castigada não só seja capaz de manter esse homem de pé, como ainda consiga impulsioná-lo adiante.

Apoiado sabe-se lá em que cajado filosófico, tomado por algum espírito de justiça – ou provavelmente vingança -, ele apenas caminha. Nacos de carne ficam para trás. Ele caminha. Seu cantil dá sinais de estar vazio. Ele caminha. Bolhas surgem em seus ombros, incentivadas pelo sol. Ele caminha. À noite, perde a sensação nas extremidades. E caminha.

Por fim atinge uma clareira. Em um raio de cinqüenta metros, o espinheiro cede. Dá lugar a uma relva verdejante, que cerca uma fonte tímida. Arbustos folhosos fornecem sombra suficiente para fazer qualquer homem naquela situação levantar as mãos para os céus e convencer-se da existência divina. Ele finalmente sorri. Resolve descansar.

Exausto, sem notar o que faz, deixa-se cair sobre um cacto.

Náufragos

Conheceram-se aleatoriamente, em circunstâncias difíceis de explicar, mas a atração mútua foi imediata. Deram-se as mãos e caminharam por um cenário um tanto bucólico, até chegarem à beira de um lago. Encontraram ali um pequeno barco com dois remos. Resolveram dar um passeio entre os cisnes, passar sob aquela pontezinha em arco, quem sabe parar lá no meio e assistir ao pôr-do-sol.

Ele tomou os remos, ela insistiu para remar também. Remaram juntos, pois. A partir de um certo ponto, entretanto, ele se distraiu. Não fez por mal, era apenas de sua natureza voltar a atenção para outras coisas, eventualmente. E do mesmo jeito que seu foco mudava para uma ave que passava, ou um vulto de peixe movendo-se sob as águas, também retornava para ela e o que ela dizia.

Não foi o bastante. Aquelas doses de atenção não eram o que ela queria. Ela queria atenção total, queria vê-lo imerso em seu mundo. Ele não era de imergir em nada, simplesmente porque não era. Aos olhos dela, entretanto, era descaso, e vai explicar que focinho de porco não é tomada!

Ela começou a demonstrar certo aborrecimento, tristeza. Ele sorria e tentava tranqüilizá-la, mas aquele olhar fugidio que não permanecia fixo no dela era irritante demais. Percebeu então que remava sozinha. Ele estava absorto olhando para o céu, para nuvens, para pássaros.

Ela deu um chilique brusco e virou o barco.

Fodeu tudo de uma vez e pronto.

Historieta Curtita XV

Eles esperaram ansiosamente até que o dia enfim chegasse. E agora estavam todos lá reunidos. Tantos rostos, tantos nomes conhecidos. Cumprimentavam-se, elogiavam-se, comentavam causos, trocavam idéias, arquitetavam projetos, riam.

Comida de graça, e da boa. Mas a bebida, o mais aguardado de toda a festa, não chegava nunca.

Após alguns minutos, um representante dos anfitriões subiu ao palco. Entre piadas e boas-vindas, anunciou, finalmente, revelar o que havia no copo de cor vivaz sobre o qual tanto se comentara. Pediu aos convidados que se aproximassem para ver.

Quando todos estavam agrupados em torno do pequeno recipiente, em um golpe rápido o anfitrião sacou uma faca e cortou a carótida do mais próximo. Diante dos olhares horrorizados dos convivas, ergueu o copo vermelho, cheio de sangue e levou aos lábios, onde vislumbrava-se um sorriso malévolo.

Bebeu.

Historieta (nem tão) Curtita XIV

Tinha sete cavalos. Castrou um por um. Mais do que apenas cortar determinados vasos condutores de gametas dentro do saco dos bichos ou a totalidade da bolsa escrotal, decepou logo o membro todo, com as bolas e tudo mais.

Depois foi a vez dos touros. Eram três. Não se fez de rogado. Despirocou os bichos. Os bois podiam ser estéreis, mas ainda tinham pênis. Pois foi lá e reclamou para si cada um deles. Cada um dos onze.

Os porcos foram fáceis. Mais treze pintos. Fácil como tirar doce de criança. Já os bodes, não. Foram os mais difíceis de capar. Os bichos simplesmente não paravam quietos. Pensava consigo “Não é à toa que esses miseráveis simbolizam o capeta! Mas que diabos!”. Apesar da resistência, os pobres fedorentos acabaram saindo derrotados. Humilhados. Desmasculinizados.

E ele tinha mais seis pirocas. Pronto. Era do que precisava.

Não, ainda faltava uma.

Cortou seu próprio camarada. Sem dó nem piedade. E sem anestesia. Cauterizou com um ferro em brasa e tratou de impedir infecções com boas doses de antibióticos e mudança freqüente de curativos. Quando estava bom, pôs em prática seu plano.

Montou um barracão em frente à sede da fazenda. Ali dentro pendurou, em círculo, todas as manjubas que arrancara de todos os mamíferos machos da fazenda. Todas as quarenta.

Quarenta e uma, contando a sua.

E toda vez que sua mulher lhe aporrinhava, trancava-a lá dentro. Já estava cansado de mandá-la, sem sucesso, para a casa do caralho.

Talvez isso resolvesse.

Há dois anos…

Historieta Curtita IX

Adorava casais. Adorava, independentemente da idade, classe social, orientação sexual, aparência. Venerava a manifestação do amor mútuo. Alguns dias, saía às ruas munido de uma câmera, flagrando momentos de afeto. Um toque no rosto, um afago nos cabelos, um deixar estar de olhos fechados, rostos próximos, mãos unidas, olhares embevecidos, sorrisos bobos.

Colava as imagens na parede do quarto e olhava para elas por horas e horas. Não deixava que ninguém mais visse aquilo. Todos os amantes eram seus, todos os amores eram seus, todas as lágrimas vertidas por olhos apaixonados eram suas. Era tudo seu. Tudo. Deitava-se sozinho e perdia as horas fitando as imagens, reparando em detalhes, decorando nuances, mentalizando rostos.

Sentindo-se solitário, arranjou uma namorada. Mas o amor com ela não era o mesmo. O toque das mãos não era tão aconchegante, o brilho nos olhos não era tão intenso, a doçura no sorriso não era tão sincera. Nada parecia ser como nas fotos. Qual era o problema? Qual?

O movimento, descobriu dias depois. O movimento era o problema. O instante vinha e passava, muito rápido. Evanescia nas brumas da memória, obliterava-se no esquecimento.

Agora ela está empalhada na sala de sua casa. Os olhos eternamente meigos. O sorriso infinitamente amável. A expressão imutavelmente carinhosa.
Assim como nas fotos.