Caminha há três dias, sem parar nem para dormir. A pouca água que tem, sorve em doses homeopáticas, uma a cada três ou quatro horas, nunca com a intenção de aliviar a boca seca, a garganta áspera, a língua que, dentro da boca, parece repousar sobre uma caixa de areia. Ingere as doses mínimas do líquido precioso apenas para permanecer vivo. Ignora o suor pelo corpo que ensopa a roupa, a cabeça em chamas, o calor opressivo sob o sol inclemente, assim como, à noite, não dá atenção aos membros rígidos, à sensação cortante dos gélidos ventos fustigando a pele, às mensagens de seu corpo acusando a hipotermia que se aproxima. E não sorri de alívio ou estremece em antecipação às próximas 12 horas de calor quando nota que o enregelante frio da madrugada vai gradativamente sumindo, à medida em que os primeiros raios da esfera incandescente surgem na linha do horizonte.
Apenas segue, alheio a tantos estímulos externos desagradáveis, as pernas movendo-se de forma ritmada, passo após passo. Não há sinal de civilização até onde a vista alcança. Não há sinal de qualquer coisa, aliás, além do enorme espinheiro que singra como quem passa a vau por um rio caudaloso. Suas pernas são toras vermelhas de carne gotejante, dilaceradas, desfeitas pelos espetos afiadas que se projetam da vegetação hostil ao redor. Calças não existem mais a partir de um palmo da coxa, aproximadamente, e mesmo as coxas já estão arruinadas o suficiente para não serem reconhecíveis. É impressionante que uma estrutura tão castigada não só seja capaz de manter esse homem de pé, como ainda consiga impulsioná-lo adiante.
Apoiado sabe-se lá em que cajado filosófico, tomado por algum espírito de justiça – ou provavelmente vingança -, ele apenas caminha. Nacos de carne ficam para trás. Ele caminha. Seu cantil dá sinais de estar vazio. Ele caminha. Bolhas surgem em seus ombros, incentivadas pelo sol. Ele caminha. À noite, perde a sensação nas extremidades. E caminha.
Por fim atinge uma clareira. Em um raio de cinqüenta metros, o espinheiro cede. Dá lugar a uma relva verdejante, que cerca uma fonte tímida. Arbustos folhosos fornecem sombra suficiente para fazer qualquer homem naquela situação levantar as mãos para os céus e convencer-se da existência divina. Ele finalmente sorri. Resolve descansar.
Exausto, sem notar o que faz, deixa-se cair sobre um cacto.