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Náufragos

Conheceram-se aleatoriamente, em circunstâncias difíceis de explicar, mas a atração mútua foi imediata. Deram-se as mãos e caminharam por um cenário um tanto bucólico, até chegarem à beira de um lago. Encontraram ali um pequeno barco com dois remos. Resolveram dar um passeio entre os cisnes, passar sob aquela pontezinha em arco, quem sabe parar lá no meio e assistir ao pôr-do-sol.

Ele tomou os remos, ela insistiu para remar também. Remaram juntos, pois. A partir de um certo ponto, entretanto, ele se distraiu. Não fez por mal, era apenas de sua natureza voltar a atenção para outras coisas, eventualmente. E do mesmo jeito que seu foco mudava para uma ave que passava, ou um vulto de peixe movendo-se sob as águas, também retornava para ela e o que ela dizia.

Não foi o bastante. Aquelas doses de atenção não eram o que ela queria. Ela queria atenção total, queria vê-lo imerso em seu mundo. Ele não era de imergir em nada, simplesmente porque não era. Aos olhos dela, entretanto, era descaso, e vai explicar que focinho de porco não é tomada!

Ela começou a demonstrar certo aborrecimento, tristeza. Ele sorria e tentava tranqüilizá-la, mas aquele olhar fugidio que não permanecia fixo no dela era irritante demais. Percebeu então que remava sozinha. Ele estava absorto olhando para o céu, para nuvens, para pássaros.

Ela deu um chilique brusco e virou o barco.

Fodeu tudo de uma vez e pronto.

Historieta Curtita XV

Eles esperaram ansiosamente até que o dia enfim chegasse. E agora estavam todos lá reunidos. Tantos rostos, tantos nomes conhecidos. Cumprimentavam-se, elogiavam-se, comentavam causos, trocavam idéias, arquitetavam projetos, riam.

Comida de graça, e da boa. Mas a bebida, o mais aguardado de toda a festa, não chegava nunca.

Após alguns minutos, um representante dos anfitriões subiu ao palco. Entre piadas e boas-vindas, anunciou, finalmente, revelar o que havia no copo de cor vivaz sobre o qual tanto se comentara. Pediu aos convidados que se aproximassem para ver.

Quando todos estavam agrupados em torno do pequeno recipiente, em um golpe rápido o anfitrião sacou uma faca e cortou a carótida do mais próximo. Diante dos olhares horrorizados dos convivas, ergueu o copo vermelho, cheio de sangue e levou aos lábios, onde vislumbrava-se um sorriso malévolo.

Bebeu.

Historieta (nem tão) Curtita XIV

Tinha sete cavalos. Castrou um por um. Mais do que apenas cortar determinados vasos condutores de gametas dentro do saco dos bichos ou a totalidade da bolsa escrotal, decepou logo o membro todo, com as bolas e tudo mais.

Depois foi a vez dos touros. Eram três. Não se fez de rogado. Despirocou os bichos. Os bois podiam ser estéreis, mas ainda tinham pênis. Pois foi lá e reclamou para si cada um deles. Cada um dos onze.

Os porcos foram fáceis. Mais treze pintos. Fácil como tirar doce de criança. Já os bodes, não. Foram os mais difíceis de capar. Os bichos simplesmente não paravam quietos. Pensava consigo “Não é à toa que esses miseráveis simbolizam o capeta! Mas que diabos!”. Apesar da resistência, os pobres fedorentos acabaram saindo derrotados. Humilhados. Desmasculinizados.

E ele tinha mais seis pirocas. Pronto. Era do que precisava.

Não, ainda faltava uma.

Cortou seu próprio camarada. Sem dó nem piedade. E sem anestesia. Cauterizou com um ferro em brasa e tratou de impedir infecções com boas doses de antibióticos e mudança freqüente de curativos. Quando estava bom, pôs em prática seu plano.

Montou um barracão em frente à sede da fazenda. Ali dentro pendurou, em círculo, todas as manjubas que arrancara de todos os mamíferos machos da fazenda. Todas as quarenta.

Quarenta e uma, contando a sua.

E toda vez que sua mulher lhe aporrinhava, trancava-a lá dentro. Já estava cansado de mandá-la, sem sucesso, para a casa do caralho.

Talvez isso resolvesse.

Há dois anos…

Historieta Curtita IX

Adorava casais. Adorava, independentemente da idade, classe social, orientação sexual, aparência. Venerava a manifestação do amor mútuo. Alguns dias, saía às ruas munido de uma câmera, flagrando momentos de afeto. Um toque no rosto, um afago nos cabelos, um deixar estar de olhos fechados, rostos próximos, mãos unidas, olhares embevecidos, sorrisos bobos.

Colava as imagens na parede do quarto e olhava para elas por horas e horas. Não deixava que ninguém mais visse aquilo. Todos os amantes eram seus, todos os amores eram seus, todas as lágrimas vertidas por olhos apaixonados eram suas. Era tudo seu. Tudo. Deitava-se sozinho e perdia as horas fitando as imagens, reparando em detalhes, decorando nuances, mentalizando rostos.

Sentindo-se solitário, arranjou uma namorada. Mas o amor com ela não era o mesmo. O toque das mãos não era tão aconchegante, o brilho nos olhos não era tão intenso, a doçura no sorriso não era tão sincera. Nada parecia ser como nas fotos. Qual era o problema? Qual?

O movimento, descobriu dias depois. O movimento era o problema. O instante vinha e passava, muito rápido. Evanescia nas brumas da memória, obliterava-se no esquecimento.

Agora ela está empalhada na sala de sua casa. Os olhos eternamente meigos. O sorriso infinitamente amável. A expressão imutavelmente carinhosa.
Assim como nas fotos.

Historieta Curtita XIII

Moveu-se rápido como um raio. Não, essa não é a melhor comparação. Moveu-se MAIS rápido que um raio, e sem deixar cair sequer um dos 8 civis inocentes que carregava nos braços. Suas asas batiam com força enquanto fazia um rasante pela avenida mais movimentada da cidade. Atrás dele, seu arquiinimigo disparava temíveis rajadas laser, enquanto, entre risadas maléficas, expunha seu complexo plano para contaminar o reservatório de água da cidade.

Mas os ataques não eram suficientes para atingi-lo, assim como o falatório não bastou para livrar o vilão da justiça.

Mais uma vez, ganhara do prefeito a chave da cidade. Voltava voando para o trabalho, pronto a reassumir sua identidade secreta, quando uma sirene soou.

Acordou chorando pela terceira vez na semana, num misto de tristeza e fúria com aquele rádio relógio que insistia em trazer-lhe ao mundo real. Chegando em casa depois do trabalho, queimou toda a coleção de quadrinhos.
Fez uma assinatura do jornal local.

Esses sonhos de super-heróis estavam tornando frustrante sua vida.

Historieta Curtita XII

Depois de três horas de bate-papo ininterrupto pela internet, incluindo aí mais de meia-hora de sacanagens, a curiosidade falou mais alto e marcaram de se encontrar. Ele ia com uma jaqueta preta com o símbolo da Cyclone nas costas, ela com uma calça jeans azul clara e uma blusa rosa de alcinhas com a hello kitty no peito. Eram feitos um para o outro.

Ele tomava uma soda com gelo e limão na praça de alimentação do shopping quando ela chegou. O coitado acabou engasgando com o refrigerante, seus olhos esbugalharam, a boca se abriu de espanto. O coração disparou e a respiração mudou de ritmo.

Por alguns momentos que pareceram horas, ficou estático, pensando em alguma coisa bacana pra dizer. Por fim, sem conseguir se conter, acabou expressando seus sentimentos da maneira mais sincera possível, tal e qual iam pelo seu coração, sem medir as conseqüências:

- CACETE! VOCÊ É FEIA COMO O DIABO!

Não foi lá um relacionamento muito longo, mas foi intenso.