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Historieta Curtita XI

Conversava com o estranho há apenas 20 minutos, e ele veio com aquela:

- Se você colocasse a mão no bolso esquerdo da minha calça, garanto que iria se espantar.

Ela fingiu alguma indignação, mas não muita. A abordagem direta pouco usual agradou. Durante a conversa, eventualmente descia os olhos para as calças do rapaz e constatava haver do lado esquerdo um volume maior do que o costumeiro. Sua ansiedade crescia. Queria sentir o espanto.

A conversa não demorou muito mais. Atracaram-se furiosamente. Ela escorregou as mãos para a cintura dele e de lá direto para a algibeira esquerda. Sentiu algo se mover. Segurou e puxou para fora um ratinho branco de olhos vermelhos redondos e curiosos.

Espantou-se.

Há um ano (e seis meses…) e com algumas modificações leves

Historieta Curtita VI

As mãos nos bolsos mostravam o ar despreocupado do sujeito caminhando às duas e meia da manhã. A cabeça baixa e o olhar singrando o concreto rachado da calçada deixavam claro que sua mente viajava por planos de realidade particulares, alheios àquele que o rodeava. No discman, oculto num bolso do casaco, um cd tocava algo cujo nome ele não conhecia. Nem era sua aquela coletânea. Tinha pêgo por engano na casa de um amigo. E agora ouvia. Conhecia aquela voz roufenha de algum lugar. Na verdade, estava viciado naquela música, mesmo sem saber o que era. Achava-a boa e a mantivera tocando no repeat nas últimas horas. Seus caminhar, no compasso tranqüilo da bateria, ecoava pela rua vazia. Dobrou uma esquina, desceu uma escadaria e passou por baixo de uma marquise, enquanto assobiava e, por vezes, cantarolava alto, parecendo ignorar o adiantado da hora e o fato da música só estar em seus ouvidos:

“Come on try a little
Nothing is forever
There’s got to be something better than
In the middle…”

Uma sombra se moveu rápida atrás dele, que virou imediatamente, por instinto. Deu com um cano escuro apontado para o rosto. Na outra extremidade, um sujeito de gorro e casaco disse algo que ele não ouviu, graças aos fones. Ergueu as mãos com cautela, avisando que iria tirar o aparelho do ouvido, e pôde escutar:

- Passa o walkman, mano. Dá esse tênis aí, passa o relógio, a carteira e o casaco. Anda, maluco, anda. Não olha pra mim, filha da puta. Anda logo.

Tentava baixar a cabeça mas não conseguia. Os olhos vermelhos e a língua enrolada do ladrão traíam seu estado. Definitivamente não estava em condições normais de temperatura e pressão. Um gato se moveu num beco ao lado, derrubando algumas latinhas de alumínio e fazendo um barulho não tão alto, mas que soou como as trombetas do apocalipse devido ao silêncio do horário e à tensão da situação.

Pensou que fosse morrer. Mas o marginal olhou pro lado, assustado. Com certeza seus sentidos afetados transformaram aquele som em alguma coisa muito maior do que era de fato. Ele aproveitou a deixa e colocou em prática todos os anos de treino em taekwondo. Puxou a mão que segurava a arma e chutou o rosto do assaltante com tanta força que sentiu alguma coisa ceder, provavelmente uma vértebra. O ladrão caiu com uma respiração chiada, arquejou alguma coisa e fechou os olhos. Parecia morto.

Ele recolocou os fones. Abaixou-se, revistou os bolsos. Encontrou dois relógios, um punhado de notas de dez e um cordão de ouro. Pegou a arma também. Guardou tudo consigo e continou andando. Pensou nos seus merecidos cem anos de perdão. Recolocou os fones para ouvir sua parte favorita da música. Assobiou e apertou o passo, enquanto cantava.

“I’m so alone, and I feel just like somebody else
Man, I ain’t changed, but I know I ain’t the same
But somewhere here in between the city walls of dyin’ dreams
I think your death, it must be killin’ me…”

Historieta Curtita XI

Manoel - apelidado Manézim - era um garoto normal. Bem normal mesmo, desses nos quais nem prestamos atenção, de tão comuns: vivia na rua, vendia chiclete nos semáforos, fazia quatro refeições por semana. Um garoto bem corriqueiro.

Um dia, por acaso, encontrou-se com Carlos Henrique. Esse, sim, uma criança muito esquisita: morava num apartamento de quatro quartos, não trabalhava, apenas ia ao colégio (sabia ler, veja só que fenômeno), fazia quatro refeições diárias, pelo menos! Um menino muito fora do comum, afinal.

Apesar de tudo isso, Manézim tratou Carlos Henrique como trataria qualquer outro guri, sem distinções. E fizeram um acordo de cavalheiros: o segundo tirava, calmamente, os belos tênis nike que calçava e entregava para o primeiro, que, por sua vez, mantinha quieta sua faquinha enferrujada, para não causar acidentes.

Saiu chorando, o esquisito.

Fugiu contente, o comunzinho.