Archive for the 'linkagens' Category

Desvio

E lá vai o Enrique dizer o que eu deveria ter dito. O que eu queria ter dito, mas não tenho tanta capacidade, nem a elegância, nem a paciência. O começo do post, o título, parece comigo: traz um palavrão, começa mandando um foda-se. Até aí eu chegaria, mas iria além. Nos palavrões, digo. O Enrique só solta o palavrão para estabelecer a toada, a partir daí segue, como de costume, com bom-senso e tranquilidade. Sem sarcasmo, cara, sem cinismo. Que inveja tenho de gente sem cinismo! Sinto uma inveja orgulhosa desse filho da puta!

Vai ler o texto do Enrique, porque ele está certo.

Das resoluções de ano-novo

Olá, amiguinhos. Já na iminência do ano-novo, gostaria de sugerir aos senhores um pequeno exercício de autocrítica. Comecemos lendo os trechos de relatórios abaixo, todos retirados da página de relatório de transparência do google, onde são informados ao público os pedidos para remoção de resultados de pesquisas.

“Em resposta a um mandado, removemos oito resultados de pesquisa por direcionarem a sites que, supostamente, estavam difamando a esposa de um político.”

“Recebemos uma solicitação de uma agência governamental estadual para remover um vídeo do YouTube com declarações contra agentes da lei. Não removemos o vídeo.”

“Recebemos uma solicitação de uma agência local de aplicação da lei para remover sete postagens de blog por supostamente difamarem a honra de um prefeito, juiz e chefe de polícia. Não atendemos a essa solicitação.”

“O número de solicitações de remoção de conteúdo que recebemos cresceu 140% em comparação com o período de relatório anterior.”

“Recebemos cinco solicitações e um mandado para remover sete vídeos do YouTube por criticarem agências governamentais locais e estaduais, autoridades policiais ou funcionários públicos. Não atendemos a essas solicitações.”

“Recebemos uma solicitação do gabinete de um prefeito para remover cinco blogs por criticarem o prefeito. Não removemos o conteúdo em resposta a esse pedido.”

“Recebemos uma solicitação do representante legal de um ex-político para remover uma postagem de blog que, supostamente, difama-o ao explicar suas conexões com o lobby farmacêutico. Não removemos conteúdo em resposta a esse pedido.”

Após ler todos os trechos, tente identificar quantos e quais se referem ao Brasil, quantos são dos Estados Unidos, quantos são, sei lá… de Cuba. Pode chutar o país que achar melhor, ou atribuir todos eles a um país só. Vá em frente, é sua cabeça. Demonize os governos que preferir.

Por fim, entre neste link. Agora veja se só o Brasil sofre com o problema de ter representantes do governo solicitando que conteúdo seja removido das pesquisas do Google, ou se esta é uma questão global.

A partir daí, reflita: quanta merda você já falou sobre o assunto?

Façamos uma campanha sincera para que as pessoas falem menos merda em 2013. Comecemos por nós mesmos.

Feliz 2013.

Dos embates sociais – parte 1

Se você já leu Armas, Germes e Aço, ou se tem ao menos um vago conhecimento das teorias sobre o desenvolvimento da espécie humana, deve saber que nós, os bípedes implumes, antes de resolver que queríamos fixar residência, montar choupanas, abrir crediários e nos preocupar com coisas como “que horas passa o caminhão de lixo?” ou a altura do som do vizinho, éramos caçadores-coletores. Ainda não tínhamos descoberto que as vacas são domesticáveis e as cenouras também, portanto caminhávamos a esmo procurando plantas e animais que fossem suficientemente estúpidos – tanto as plantas quanto os animais – a ponto de anunciar que estavam disponíveis para o almoço (o exemplo de uma planta inteligente, que nunca se anunciou como um petisco fácil – e sou definitivamente incapaz de conceber em que nível de desespero se encontrava o primeiro antepassado do homem moderno que resolveu comê-la – é o abacaxi).

Quando conseguimos colocar as vacas em cercadinhos e descobrimos que era possível desenvolver plantas a partir da seleção de mudas das árvores e sementes dos frutos mais bem desenvolvidos, paramos com as andanças, na medida do possível, e partimos para uma nova etapa da existência humana, a pedra fundamental da civilização: o acúmulo de bens. Ter abacates suficientes para distribuir para os vizinhos, conforme acontece com meu pai e seu abacateiro mutante, por exemplo, deu a esses mesmos vizinhos (não os do meu pai, claro, os vizinhos do primeiro antepassado humano a distribuir abacates, carne, ou qualquer outro tipo de comida que ele tivesse de sobra, sem precisar caminhar trocentas verstas por dia para acumulá-la) certa sensação de segurança, e eles começaram a pensar que, oras, se o vizinho tinha vacas, abacates, faisões ou cacauetes em quantidade tal que fosse possível sobreviver apenas com aquilo, sem a necessidade de caçar, por que não nos ocupamos de outras funções, tais como o desenvolvimento da engenharia, a abertura do primeiro puteiro ou a invenção das maiores cagadas que a humanidade já cometeu: a burocracia e a religião?

Foi em algum momento após isso que talvez alguns dentre esses vizinhos que não produziam nada de crucial, ou dos senhores dos meios de produção de alimentos (os donos dos rebanhos, ou os donos das plantações, que descobriram que era possível colocar outras pessoas para gerenciar essas coisas para eles, em troca de uma parcela menor dos resultados produzidos), munidos de muito tempo livre e pensando um monte de asneiras, resolveram que estava na hora de determinar como, quando, onde e por que diabos as pessoas poderiam fornicar. E aí começamos a nos preocupar com os orifícios alheios, já que encher nossos estômagos já não era mais tão difícil ao ponto desta idéia ocupar todo o nosso tempo. De lá para cá, temos aí os que permanecem difundindo o conceito de que o sexo deve ser praticado desta forma, e não daquela, entre pessoas deste tipo, nunca de outro, com um número X de participantes – mais ou menos do que isso, jamais.

É importante frisar que muitas dessas pessoas fazem isso de forma impensada, sem jamais refletir sobre em que momento da história da humanidade e por que tipo de interesse particular a propagação desse tipo de idéia passou a ser importante. Isso não significa, sob nenhum aspecto, que devemos ignorar o fato de que tentar definir protocolos sobre como, quando, em que circunstâncias, com quem e por que deve ser feita a fricção genital alheia é uma atitude invasiva e inaceitável. É apenas um lembrete que, com essas pessoas, precisamos falar devagar. Explicar pausadamente. Evitar o uso de polissílabos. Porque essas pessoas são claramente incapazes de pensar por si mesmas. Têm a cabeça muito, muito limitadinha. E as razões pelas quais acreditam nesse tipo de baboseira hipócrita, que lhes foi enfiada garganta abaixo durante toda a vida – e que elas NUNCA obedeceram inteiramente, é válido mencionar -, nem elas sabem quais são. Elas conhecem todas as falácias utilizadas para mascarar a verdadeira intenção de quem pretendeu padronizar os hábitos particulares alheios, claro: “deus não gosta”, “isso é errado”, “pessoas decentes não fazem isso”, “isto é uma falta de decoro”, “minha filha, o que é isso?”, etc.

Pergunte a elas “Por quê?” 3 vezes, uma das melhores técnicas argumentativas já utilizadas (agradeçamos às crianças por essa contribuição genial), e veja o cérebro desses pobres infelizes dar um nó. Observe a resistência que empreendem para impedir que suas idéias sejam retiradas dos caixotes onde eles fazem questão de mantê-las. Você está tentando reprogramar a base de critérios, princípios e conceitos de um ser humano. E não vai conseguir, na esmagadora maioria das vezes. Mas, quando conseguir… bom, podemos ter aí outro problema.

Imagine o cérebro de alguém como um elástico. Estique-o até o limite de sua capacidade. Esta é a mente da pessoa que você está tentando convencer a parar de criticar uma moça por ter copulado com um certo número de outras pessoas, ou a desistir de dizer em voz alta e/ou em público que “discorda” da homossexualidade. A tensão sobre o elástico são suas palavras subitamente forçando a luz em um ambiente onde, até então, havia apenas, como no princípio de tudo, o verbo, simples e puro, com o espírito de deus (na verdade com a voz da religião, esta maravilhosa ferramenta de estagnação do pensamento humano) pairando sobre as águas. Suponhamos que seus argumentos, então, evoquem um repentino “Fiat lux” sobre o abismo que é o ideário da criatura em questão. Simbolize este acontecimento cortando o elástico com uma tesoura. Viu como ele voa longe? Então.

Ao ser arrancada de seu estado de dormência, a mentalidade de uma criatura dessas pode subitamente entrar em um surto de movimento que irá conduzi-la para o extremo oposto de onde antes se encontrava. E, como deveria ser do conhecimento geral, extremos não são bons. Não é agradável que alguém caminhe a passos largos e de peito aberto para o neonazismo, tampouco para o panfletarismo, seja em relação aos homossexuais, ao feminismo, à liberdade sexual… Não, não estou preparando três ou quatro longos parágrafos para arremeter à furada argumentação de que “Eu respeito o direito das classes menos favorecidas, desde que elas calem a boca“. A manifestação das classes menos favorecidas, o incômodo que isso causa, é uma necessidade para o equilíbrio gradativo dos pesos e contrapesos da sociedade. É lógico que os bispos da CCBB e as velhinhas da TFP não irão, nunca, reconsiderar suas idéias a respeito de dois homens que se amam e têm sua união civil reconhecida pelo estado apenas porque quinze mil, trinta mil, duzentos mil gays, que seja, fizeram uma passeata na avenida paulista. Tudo o que a atitude dos gays causa nessas pessoas é revolta, e é exatamente o que elas merecem sentir. Empurrar goela abaixo dos reacionários, através de uma passeata com mais de cem mil participantes, que existem aqueles que não agem conforme sua cartilha, não deixa de ser uma forma pacífica de revolução. E, palavras de Grantaire, meu amigo: “de tempos em tempos, o excepcional se faz necessário (…) entre os homens, é preciso haver gênios, e entre os acontecimentos, revoluções“. O problema é o rumo que essas revoluções tomam, como elas se manifestam e como, antes de finalmente encontrarem seu lugar dentro da ideologia social vigente, tornando-se algo que “todo mundo sabe que”, em vez de ser algo que “tem gente que acha que”, serão expostas e impulsionadas por seus integrantes.

Chegamos, então, à minha preocupação atual com o feminismo, conforme se apresenta hoje em dia.

(continua em outro post, senão fica muito grande e prefiro não abusar {tanto} da paciência de vocês)

Precisamos falar sobre esse livro

Passei o natal do ano passado aqui no Rio de Janeiro, com meu tio João Carlos, irmão mais novo do meu pai. Eu e meu tio não tivemos muito contato durante minha infância e adolescência – acho que nos vimos umas quatro vezes, se tanto -, mas, depois de adulto, nas poucas vezes em que nos encontramos, sempre tivemos muito assunto para conversar, sendo meu tio um leitor ávido, que sempre tem um livro a recomendar e vários para oferecer, como empréstimo ou presente. Foi ele quem me deu, em 2002, o que considero meu livro preferido, dentre todos os que já li.

De presente de natal ele me deu Precisamos Falar Sobre o Kevin, da Lionel Shriver, com o simpático comentário “um livro sobre um maluco, pra você se identificar”.

Bom, não me identifiquei com o livro, mas terminei de lê-lo hoje e ele merece ser comentado. A princípio, torci o nariz ligeiramente para o volume, e não foi por causa da foto inquietante do garoto usando uma máscara de lobo, lânguido, presente na capa. A orelha do livro (sim, sempre a orelha) descrevia a personagem central como uma “executiva bem-sucedida”, e considero que “executivo bem-sucedido” é um termo muito “novela da globo” para uma história que se pretende bem-embasada. Me aventurei pelas primeiras páginas, de todo modo.

O livro é feito em missivas. São longas e longas cartas que a personagem principal, Eva, escreve para seu marido ausente, Franklin, sobre o filho adolescente, cujo grande feito na vida foi entrar no colégio armado e fazer uma sessão Columbine com alguns colegas. No começo, acredito que durante uns 3 ou 4 capítulos – o que pode bem levar umas 40 ou 50 páginas, mais ou menos – Lionel Shriver tem pouco sucesso para andar com a história. Num esforço para desenvolver bem o relacionamento entre Eva e Franklin antes do nascimento do pequeno profeta do apocalipse que os dois haviam de gerar, assim como apresentar a situação atual de Eva, ostracizada após a descoberta do hobby socialmente mal-visto do filho, a autora dá diversas voltas sobre o mesmo ponto, por vezes transformando Eva numa mulherzinha particularmente detalhista e pretensiosa. Ela, em certo momento, descreve um jantar que preparou, e é uma informação que não têm, para o leitor, a menor relevância além do fato de dizer de forma meio insistente o que o resto do livro deixa claro de maneira menos antipática: estamos lidando com uma mulher muito fresca. Mas dou o braço a torcer: a faceta de “executiva bem-sucedida” de Eva fica mais palatável, saindo do campo da “vaguidão específica” e transformando-se em algo mais concreto e realista.

A partir do momento em que o garoto nasce, porém, a história começa a caminhar a passos mais e mais acelerados, e da metade para o final o livro passa sem que se perceba. Os momentos em que Eva e Kevin dialogam, já na prisão juvenil em que o garoto se encontra, são especialmente interessantes. Há uma tensão entre os dois – narrada sob a ótica da mãe, é claro, mas sem demonizar ou vitimizar qualquer um dos lados do embate – que requer bastante competência para ser construída e pode fazer muita gente que acha que tem “problema com os pais” se remexer na cadeira, inquieto.

Shriver foge do cliché de apontar um “abismo” entre a geração de Kevin e a de Eva e Franklin, deixando a grande discussão do livro a cargo da velha dúvida: o que molda o caráter de uma pessoa? O que transforma Kevin naquilo que ele é? Fugindo dos bodes expiatórios que o senso-comum tanto gosta de apontar (videogames, filmes violentos, rock, drogas, escolha o seu demônio), a autora levanta a possibilidade da maldade ser, como a facilidade para a música ou a aptidão para os esportes, um dom inato, sem, entretanto, eximir os pais de sua parcela de culpa em seja lá que tipo de sociopata eles geraram. E, apesar de sua crueza ao lidar com o tema, no capítulo final a autora tem para com a história uma indulgência que eu, sinceramente, considerei desnecessária.

A tradução (por conta de Beth Vieira e Vera Ribeiro) dá algumas derrapadas, como ao insistir no termo “bazófia” (tradução de mockery, acredito), ao falhar com algumas interrogações ou ao tentar trazer para o português certas expressões que, se não são inacessíveis em sentido, não podem ser usadas com o mesmo tom de voz e definitivamente não têm o mesmo impacto em uma conversa em pt-br como teriam num diálogo em inglês. São calombos insulúveis, no entanto, não se pode crucificá-las por eles.

E, apesar dessas pequenas falhas, o livro merece ser lido. Dei a ele 4 estrelas, de 5, no Skoob. Se não pelo estilo simples da autora, ao menos pela despretensão de trazer à baila uma questão importante, sem contudo tomar para si o árduo dever de respondê-la. Da mesma maneira que os videogames, os filmes violentos e a música pop não são os causadores da violência entre adolescentes, não é uma obra de ficção que tem a obrigação de solucioná-la. Se tentasse, a exemplo de Eva Katchadourian, acabaria soando pretensiosa.

E tem um filme sendo feito, com base no livro, previsto para sair em novembro deste ano. A mulher escalada para interpretar Eva e o guri que vai interpretar o Kevin parecem ter inspirado Lionel Shriver a detalhar a aparência física dos dois personagens, tamanha a semelhança. Mas o john C. Reilly como Franklin… aí não deu.

Das passagens rápidas

Sei que não escrevo aqui há algum tempo e também não vim escrever nada hoje. Faculdade e trabalho me exaurindo. Mas achei justo deixar aqui esse trecho de um post do Branco Leone, que é foda (o trecho, no caso, mas o Branco também é) e se adequa a muita gente imbecil que andou dizendo muita imbecilidade por aqui recentemente:

(…) os comentários dos Defensores de Alguma Coisa (*), animais que hoje, graças à Internet, proliferam-se como ratos e tem por principal característica a incapacidade de identificar uma piada. Não seria preciso que a entendessem; bastaria que pudessem identificá-la. Mas isso, como se sabe, é algo que só acontece na estratosfera do pensamento humano, isto é, em altitudes superiores a QI 30.

Das razões para se perdoar alguém

Jules: You read the Bible, Ringo?

Ringo: Not regularly, no.

Jules: Well, there’s this passage I got memorized, Ezekiel 25:17:

“The path of the righteous man is beset on all sides by the inequities of the selfish and the tyranny of evil men. Blessed is he who, in the name of charity and good will, shepherds the weak through the valley of darkness. For he is truly his brother’s keeper and the finder of lost children. And I will strike down upon thee with great vengeance and furious anger those who attempt to poison and destroy my brothers. And you will know I am the Lord when I lay my vengeance upon you.”

I’ve been sayin that shit for years. And if you heard it, that meant your ass. I never gave much thought to what it meant. I just thought it was some cold-blooded shit to say to a motherfucker before I popped a cap in his ass. But I saw some shit this morning that made me think twice. See, now I’m thinkin… maybe it means you’re the evil man, and I’m the righteous man. And Mr. 9mm here, he’s the shepherd protecting my righteous ass in the valley of darkness. Or it could mean, you’re the righteous man, and I’m the shepherd, and it’s the world that’s evil and selfish. I’d like that.

But that shit ain’t the truth. The truth is: you’re the weak. And I am the tyranny of evil men. But I’m trying, Ringo. I’m trying REAL HARD to be the shepherd.

Não interessa quantas merdas o Samuel L. Jackson faça na vida, quantos Swats, Triplos X’s, Snakes On A Plane ele cometa em sua carreira: esse filme, essa cena, esse diálogo sempre será razão mais do que suficiente para perdoá-lo e tornar a dizer que não existe Bad Motherfucker mais fodão do que ele no cinema atualmente.

E eu, que já publiquei a parte do monólogo aqui, em português, agora coloco em inglês e com direito a vídeo. Sem legendas. Assiste quem quiser (o trecho sensacional transcrito acima começa aos 7m15s).