Archive for the 'literatura' Category

Das raízes súbitas

Despropositou-se meu propósito. Porque se antes eu dizia não saber a que se destinava aquele rolete de dinheiro, se mostrava certa hesitação quanto ao que fazer com aquilo, ainda havia aquela voz que me dizia exatamente o que fazer, e eu obedecia. Era só questão de tempo, de juntar maior soma, de aumentar a reserva e partir. Não havia destino nenhum, era só partir e pronto. A estrada não te pergunta pra onde você vai, quem se pergunta isso é você. E se, saindo um pouco desse ensimesmamento, dessa postura umbiguista de só ouvir a voz na sua cabeça, você se permitir ouvir a estrada, o que ela faz não é uma pergunta. Não indaga “Para onde você vai?”. O que ela diz, o que afirma, a ordem que dá, direta, sem rodeios, é “Venha!”.

Essa ordem ribombava na minha cabeça novamente no último ano e meio, e pretendia acatá-la, mas acovardei-me. Porque se antes minha intenção era sumir e perder meus lastros, soltar as amarras e viver à deriva por alguns dias, ou semanas, ou meses, ou talvez pro resto da vida, agora não tenho mais coragem. Porque se tivesse levado a idéia a cabo quando surgiu, se tivesse feito a mochila e partido, e se o desenrolar dos acontecimentos fosse o que foi, se um dia retornasse, não sei qual seria minha reação ao saber tardiamente de tudo, mas tenho aqui uma idéia do quanto pesaria minha consciência e de qual seria a profundidade do meu arrependimento. Seria imensa e intolerável.

E se eu for, agora, e as coisas tornarem a caminhar assim? E se não houver quem me avise da situação? E se eu não voltar a tempo? Se souber tarde demais? Fica claro que meu princípio estava errado. Devia ser adeus desde o começo, e não era. Era só um até logo. Adeus foi agora. Adeus aconteceu um mês atrás. Adeus é muito mais pesado do que consigo suportar, e só o tolero porque, oras, qual minha outra opção?

Então agora é isso. Queria ficar desvinculado. Agora fiquei e tento me prender às coisas mais do que nunca. Tinha tudo e queria ver como era não ter nada. Foi-se um pedaço, e me acovardo diante da perspectiva de perder o resto. Porque quem sabe o que diz é o velho Saramago, quando afirma, em O ano da morte de Ricardo Reis, que “o pior mal é não poder o homem estar no horizonte que vê, embora, se lá estivesse, desejasse estar no horizonte que é!”.

E sim, este blog agora é monotemático, porque minha cabeça é monotemática. Mudarei deste assunto funesto quando o assunto funesto se mudar de mim.

Das ignorâncias preferíveis

Eu tinha uns 15 anos e esse livro enorme do colégio, que era do ano passado, daqueles consumíveis, ou seja: escrevíamos no próprio livro. Então não havia chance dele passar pra um aluno que viesse atrás de mim. Sendo assim, seria jogado no lixo pela minha mãe tão logo a velha tivesse outro surto de desapego material.

O problema é que o livro, de português/literatura, tinha um conteúdo excepcionalmente bom. Por ele tive contato pela primeira vez com Calvin & Haroldo, o viés político da Mafalda, Fernando Pessoa e heterônimos, o discurso final d’O Grande Ditador, etc, etc.

Diante da possibilidade de ver tudo aquilo sumir no lixo qualquer manhã daquelas, graças à minha mãe e seus periódicos ímpetos de arrumação, recortei várias folhas do livro para manter o que me interessasse. Era uma tarde quente em Maceió e eu me sentei no chão do meu quarto com uma tesoura, o livro, música e tempo livre. Ainda vestia a calça jeans que usara no colégio, pela manhã, um par de meias e só. A camisa do uniforme estava amarfanhada sobre minha cama, com ela meu prato sujo do almoço e um copo vazio. Tinha às minhas costas minha poltrona-cama - onde a Jana dormiu quando foi passar o carnaval com a gente - em cuja base me recostava, porque a parte onde deveria colocar minha bunda estava tomada por tralhas. Havia levado a Bárbara ao colégio um pouco antes e minha mãe não ia chegar antes das 18. A empregada estava ocupada com assuntos dela e não iria me interromper, também (a Madá nunca incomodava). Eu tinha uma bicicleta chamada Clementina, um aparelho de som e uma coleção modesta de quadrinhos, outra de chaveiros. A vida era simples e boa. Eu fazia teatro e gostava, tinha pouquíssimos mas fiéis amigos, nadava pelo menos meia hora, diariamente, na piscina do condomínio, sem que ninguém me importunasse e morava a 30 metros da orla, onde saía para pedalar ao cair da tarde. Meus irmãos estavam todos soltos e vivos. E longe, em sua maioria, mas isso nem me incomodava.

Enfim. Recortei diversos pedaços do livro e tinha uma pilha respeitável de textos e imagens e tirinhas ao fim dessa atividade. Catei um caderno velho e, para preservar tudo, fui colando em suas páginas todos aqueles pedaços de idéias que de certa forma me transmitiam qualquer coisa.

Muitos dos meus poetas e poesias preferidos até hoje me foram apresentados naquele livro. Do Bilac eu nem gosto muito, mas havia esse poema dele que acabei guardando, Nel Mezzo Del Camin… . Segue abaixo:

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha…

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo… Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

Na época tinha a impressão de que a poesia tratava de separação. E é óbvio que trata, mas achava que era essa separação romântica, entre dois amantes que seguem caminhos distintos em determinado momento da vida, qualquer que seja a razão. E era triste, e só.

O negócio é que esbarrei com esse caderno hoje, mexendo em algumas coisas no meu quarto. E Nel Mezzo Del Camin… estava lá, e reli. E agora é sobre separação, ainda, mas isso da minha irmã ter morrido contextualiza de forma completamente diferente. Depois disso, não é mais sobre perder uma mulher, é sobre perder um pedaço, raízes, um trecho da sua história, da sua vida. É sobre olhar pra trás e ver, lá longe, lá atrás, na extrema curva do caminho extremo, alguém que largou sua mão e ficou, enquanto você segue (porque não existe outra opção).

Era um bom poema.

Agora é um dos melhores.

Contexto é tudo.

Receita para fazer um Herói

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão,
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.

(Reinaldo Ferreira)

Poema do Desmantelo Azul, 1979

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um azul
vertiginosamente azul. Azul.

(Carlos Penna Filho)

Novecentos

Não foi o que vi que me parou/
Foi o que não vi/
Pode entender, irmão? foi o que não vi… procurei-o mas não existia, em toda aquela destruída cidade existia tudo, exceto/
Havia tudo/
Mas não havia um fim. O que não vi é onde acabava tudo aquilo. O fim do mundo/
Agora você pensa: um piano. As teclas iniciam. As teclas terminam. Você sabe que são 88, sobre isso ninguém pode culpá-lo. Não são infinitas, elas. Você é infinito, e dentro daquelas teclas, infinita é a música que pode fazer. Elas são 88. Você é infinito. Isso me agrada. Isso se pode viver. Mas se você/
Mas se eu subo naquela escadinha e diante de mim/
Mas se eu subo naquela escadinha e diante de mim se desenrola um teclado de milhões de teclas, milhões e bilhões/
Milhões e bilhões de teclas, que não acabam nunca e esta é a verdade verdadeira, que não acabam nunca e aquele teclado é infinito/
Se aquele teclado é infinito, então/
Se aquele teclado não tem música que possa tocar. Você está sentado no banquinho errado: aquele é o piano em que Deus toca/
Cristo, mas via-lhe as ruas?/
Também apenas as ruas, havia milhares delas, como fazem para escolher uma/
Para escolher uma mulher/
Uma casa, uma terra que seja sua, uma paisagem para olhar, um modo de morrer/
Todo aquele mundo/
Aquele mundo em cima, que nem ao menos sabe onde acaba/
E quando está lá/
Não têm mais medo, vocês, de acabar em mil pedaços só em pensar nela, aquela enormidade, só em pensar nela? Em vivê-la…/
Eu nasci neste navio. E o mundo passava aqui, mas com duas mil pessoas de cada vez. E desejos os havia também aqui, mas não mais do que aqueles que podiam estar entre uma proa e uma popa. Você tocava a sua felicidade num teclado que não era infinito.
Eu aprendi assim. A terra, aquela é um navio muito grande para mim. É uma viagem muito longa. É uma mulher muito bonita. É um perfume muito forte. É uma música que não sei tocar. Perdoem-me. Mas não vou descer. Deixem-me voltar atrás.
Por favor/

(Você devia ler esse livro, sério.)

Das inevitabilidades da vida

Sempre me impressionei com esse negócio dos quadros. Estão lá em cima há anos, então, sem que aconteça nada, mas eu digo nada mesmo, fran, caem. Estão ali, amarrados ao prego, ninguém lhes faz nada, mas eles, a um certo ponto, fran, caem como pedras. No silêncio mais absoluto, com tudo imóvel em volta, nenhuma mosca voando e eles, fran. Não existe uma razão. Por que exatamente naquele instante? Não se sabe. Fran. O que acontece com um prego para decidir que não pode mais com ele? Tem uma alma, ele também, pobrezinho? Toma decisões? Discutiu o assunto longamente com o quadro, tinham dúvidas sobre o que fazer, falavam disso todas as noites, durante anos, então decidiram uma data, uma hora, um minuto, um instante, é aquele, fran. Ou já o sabiam desde o início, os dois, já estava tudo combinado, olha, eu largo tudo dentro de sete anos, para mim está bem, okay então, entendido, em 13 de maio, okay, lá pelas seis, digamos cinco e 45, de acordo, então boa noite, ‘noite. Sete anos depois, 13 de maio, cinco e 45: fran. Não dá para entender. É uma daquelas coisas em que é melhor nem pensar, ou se fica maluco. Quando cai um quadro. Quando você acorda, uma manhã, e não a ama mais. Quando abre o jornal e lê estourou a guerra. Quando vê um trem e pensa devo ir embora daqui. Quando você se olha no espelho e percebe que está velho.

Trecho de Novecentos: Um Monólogo, de Alessandro Baricco. Entra no meu Top 5 de livros preferidos na vida. E eu não ganho nada se você comprar o livro clicando nesse link do Submarino (recomendo muitíssimo). Assim como também não ganho nada se você quiser pagar metade do preço cobrado pelo Submarino comprando aqui, na Estante Virtual (recomendo ainda mais).




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