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O Corvo (The Raven)

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais.”

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P’ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo:
“É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais.”

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
“Senhor”, eu disse, “ou senhora, de certo me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo
Tão levemente, batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi…” E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse os meus ais,
Isto só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
“Por certo”, disse eu, “aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.
Meu coração se distraia pesquisando estes sinais.
É o vento, e nada mais.”

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um Corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nenhum momento,
Mas com ar sereno e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
“Tens o aspecto tosquiado”, disse eu, “mas de nobre e ousado,
Ó velho Corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome “Nunca mais”.

Mas o Corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento,
Perdido murmurei lento. “Amigos, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais.”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
“Por certo”, disse eu, “são estas suas vozes usuais.
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entorno da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp’rança de seu canto cheio de ais
Era este “Nunca mais”.

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu’ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele “Nunca mais”.

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
“Maldito”, a mim disse, “deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!”
Disse o Corvo, “nunca mais”.

“Profeta”, disse eu, “profeta - ou demônio ou ave preta! -
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, e esta noite e este segredo
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

“Profeta”, disse eu, “profeta - ou demônio ou ave preta! -
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,
Dize a esta alma entristecida, se no Éden de outra vida,
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

“Que esse grito nos aparte, ave ou diabo”, eu disse. “Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

E o Corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda,
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha dor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais.
E a minh’alma dessa sombra que no chão há de mais e mais,
Libertar-se-á… nunca mais!

De Edgar Allan Poe
Tradução de Fernando Pessoa (1924)

E - de lambuja - o texto original, narrado por ninguém menos que Christopher Walken:


Palavras de R

- […] Só existe uma realidade: beber! […] Vocês me perguntaram do bulevar, do cortejo, et coetera. Então, quer dizer que ainda vai haver uma revolução? Essa indigência de meios por parte do bom deus me espanta. A todo instante ele precisa tornar a untar o encaixe dos acontecimentos. Tudo emperra, a coisa não vai para frente. Rápido, uma revolução! O bom deus está o tempo todo com as mãos pretas desse sebo horrível. No lugar dele, eu simplificaria; não tornaria, cada vez, a montar minha mecânica, trocaria o gênero humano sem hesitação, tricotaria os fatos malha por malha, sem romper os fios, não teria nenhum expediente para imprevistos, nem repertórios extraordinários. O que vocês chamam de progresso funciona com dois motores, os homens e os acontecimentos. Mas, coisa triste, de tempos em tempos, o excepcional se faz necessário. Tanto para os homens como para os acontecimentos, a trupe comum não basta; entre os homens, é preciso haver gênios, e entre os acontecimentos, revoluções. Os grandes acidentes são a lei; a ordem das coisas não pode prescindir deles; e, em vista da aparição de cometas, seríamos tentados a crer que até mesmo o céu precisa de atores para suas representações. Quando menos se espera, deus prega um meteoro na muralha do firmamento. Uma estrela esquisita surge, sublinhada por uma cauda enorme. Isso faz César morrer. Brutos o ataca com um punhal, e deus com um cometa. Zás! Eis uma aurora boreal, eis uma revolução, eis um grande homem; 1793 em grandes letras, Napoleão em destaque, o cometa de 1811 no topo do cartaz. Ah! O belo cartaz azul, todo cravejado de fulgores inesperados! Bum! Bum! Espetáculo extraordinário. Levantem os olhos, palermas. Tudo está desgrenhado, tanto o astro como o drama. Bom deus, é demais, e não é o bastante. Esses recursos, tirados da exceção, parecem magnificência, mas são pobreza. Meus amigos, a Providência está reduzida aos expedientes. Uma revolução prova o quê? Que deus está na penúria. Dá um golpe de Estado porque há solução de continuidade entre o presente e o futuro, e porque ele, deus, não conseguiu equilibrar o orçamento. Na verdade, isso confirma minhas conjecturas sobre a situação da fortuna de Jeová; e, em vista de tanto apuro, lá em cima e cá embaixo, de tanta mesquinharia e avareza e sovinice e miséria, no céu como na terra, desde a ave, que não tem um grão de quirera, até mim, que não tenho cem mil libras de renda; em vista do destino humano, bastante deteriorado, e até do destino real, em situação embaraçosa, como testemunha o Príncipe de Condé enforcado; em vista do inverno, que nada mais é do que um rasgo no zênite por onde o vento sopra; em vista de tantos farrapos, mesmo na púrpura novinha em folha da manhã, no alto das colinas; em vista das gotas de orvalho, essas pérolas falsas; em vista da geada, esse diamante fingido; em vista da humanidade esfarrapada e dos acontecimentos remendados; e de tantas manchas no sol, e de tantos buracos na lua; e em vista de tanta miséria por toda parte, suspeito que deus não seja rico. Aparenta ser, é verdade, mas percebo suas dificuldades. Dá então uma revolução, do mesmo modo que um negociante, cujo caixa está vazio, esbraveja. Não se deve julgar os deuses pela aparência. Sob o dourado do céu, entrevejo um universo pobre. Até na criação há bancarrota. Por isso estou descontente. Vejam vocês, hoje é cinco de junho, já é quase noite; desde esta manhã espero que o dia chegue, e ele não chega, e aposto que não vai chegar. É uma falta de pontualidade de caixeiro mal pago. Sim, está tudo mal organizado, nada se ajusta a nada, esse velho mundo está completamente empenado, vou me encaixar na oposição. Tudo anda torto; o universo está implicante. É como os filhos: os que os desejam, não os têm, os que não os desejam, os terão. Em suma: isso me irrita. Além do mais, me dá aflição ver Laigle de Meaux, esse careca. Fico humilhado de pensar que sou da mesma idade que esse “joelho”. De resto, eu critico, mas não insulto. O universo é aquilo que é. Falo aqui sem más intenções e para desencargo da minha consciência. Recebei, padre eterno, os protestos de minhas sinceras considerações. […]

E pensar que comecei esse trecho pensando “E lá vem Grantaire com outro discurso xarope e enfadonho”. Acabou me fazendo rir descontroladamente em público, herege miserável. É dos poderes de Victor Hugo fazer com que os leitores apreciem ainda mais as passagens com as quais concordam pouco (ou nada).

Diversificando

Se este texto está no corpo do blog é porque consegui cumprir meu intento, a saber: colocar, em um só texto, o máximo possível de idéias sobre o máximo possível de assuntos, todos eles sem importância - provavelmente. É o maior gesto de revolta da minha parte contra essa apatia redativa da qual me vejo acometido nos últimos dias. Ou semanas. Ou meses. Acho que meses é mais adequado, mas quem quiser dizer “quinzenas”, fique à vontade. Porque não sei nem se já completou dois meses que eu não penso em porra nenhuma pra dizer em lugar nenhum, além desse texto aí embaixo, mas sei que já tem mais de duas quinzenas, até porque tem mais de um mês, e considerando que um mês tem duas quinzenas, concluímos, portanto, que duas quinzenas já se foram.

Duas quinzenas são trinta dias, para aqueles que não aprenderam matemática, apenas português. Mas não muito português, claro. Só um pouco. O suficiente pra ler essa droga aqui e achar que tá lendo alguma coisa bacana, quando, na verdade, tudo o que você está fazendo é correndo os olhos sobre palavras digitadas por um desocupado entediadíssimo, cuja missão, ao escrever isso aqui, era apenas roubar seu tempo. Se você chegou a esse ponto, acho que já estou sendo bem-sucedido.

Não que eu vá ganhar qualquer coisa com isso, claro.

Cês conhecem a Alizee? A Alizee, pra quem não conhece, é uma cantora francesa. Calma, não vá pro google ainda. Deixe-me continuar. Então. É uma cantora francesa que canta umas músicas meio xaropes. Ah, sim: é uma cantora JOVEM francesa. Alguém mais chegado a anglicismos diria “teen”, mas eu me recuso. Leia “teen”, em vez de “jovem”, se quiser, mas isso só significa que você é um imbecil. Ou não, sei lá. Tô sendo gratuitamente agressivo, que coisa feia. Nem é do meu feitio, esse tipo de atitude.

Pensando melhor, é do meu feitio, sim.

Mas então. A Alizée. O nome dela tem esse acento aí, que eu esqueci de colocar quando escrevi antes, sobre o primeiro e. Mas pronuncia-se Alizê, então eu bem poderia escrever Alizê e foda-se o caralho da grafia em francês. Mas a Alizée, como eu dizia, é uma cantora jovem francesa que canta musiquinhas pop em francês. Até aí, normal. Eu acho, sei lá. Nunca tinha ouvido falar em música francesa pop-jovem. Pra mim a última música feita na França tinha sido La Vie En Rose, e depois pronto, foda-se, temos aí um clássico, não precisamos compor mais nada, Edith Piaf vai gravar essa merda, depois Louis Armstrong - em inglês, porque é isso o que os americanos fazem, pegam as coisas dos outros e traduzem pro idioma deles, enquanto os outros, como idiotas que são, pegam as palavras deles e introduzem em seus idiomas -, e a música francesa será famosa por La Vie En Rose. E por Ne Me Quitte Pas, que vai tocar em Presença de Anita.

Mas eu falava da Alizée. A Alizée é gostosa pra caralho. PRA CARALHO, cê não tá entendendo. E tem esse vídeo dela, cantando “ao vivo” em um programa de TV (o “ao vivo” tá entre aspas porque ela tá fazendo playback - olha, uma palavra em inglês! Bastard! Asshole! -, o que será comentado daqui a pouco, seja paciente) uma musiquinha muito chicletenta, daquelas que grudam no córtex, chamada J’en Ai Marré. Sei lá se esse acento em Marré existe, mas o fato é que escrever Marré, que parece muito com Maré, sem acento me incomoda. Então o acento fica, os franceses que vão pro inferno comer queijo brie com o ACM.

E ela faz esse playback, como eu ia dizendo. E dança. E, PUTA QUE PARIU, vai ser gostosa assim na casa do caralho. De verdade, acho que nunca vi uma mulher TÃO gostosa. E o grande lance é que, dançando, ela uma hora vira de costas, daí dá pra ver que ela tem um peixinho vermelho na bunda. Não ENFIADO na bunda, é lógico, que o programa é um programa de família, o YouTube é um site de família, Alizée é uma moça de família e este é um blog de família. Algumas das famílias são meio problemáticas, mas isso não se comenta, que é de uma falta de discrição que beira a vulgaridade, e ser disfuncional, tudo bem, mas vulgar, não, peraí, aí é quase chamar a mãe de advogada, o pai de eleitor do PFL e o irmão de fã do jackass, e esse tipo de coisa não se faz.

Mas o peixe tá lá, vermelho, pendurado na roupa dela, um peixinho de um tecido qualquer que eu não sei o nome porque não sou viado. E é aí que você entende por que a guria tá fazendo playback. Porque tem dois sujeitos “tocando” violão atrás dela, assim, como se fossem eles tocando a música pra ela cantar. E é humanamente impossível se concentrar em qualquer coisa que não seja aquela maravilha de mulher dançando na sua frente com aquele peixe na bunda. Por isso o playback. Os caras iam tocar tudo errado, seria uma merda federal. Melhor botar um CD pra tocar, a gostosa pra dançar, e os caras ficam ali, com aquela visão privilegiada do peixe glúteo da moça.

Eu poderia colocar o link pro vídeo da Alizee aqui, mas nem vou. Vá pro YouTube e procure, depois diga se eu não tenho razão!

As mulheres não precisam se manifestar sobre a moça. Mulher não entende porra nenhuma de mulher. Todas as que eu conheço e que viram a menina botaram algum defeito. E todos os caras que eu conheço que a viram tiveram a mesma reação que eu: uma expressão boquiaberta, assim, de quem não acredita que aquilo existe de verdade, seguida por um sussurro caminhoneiro de estupefação, algo como “Caralho…” ou “Putaqueopariu…”.

A dança da guria é tão característica que foi colocada em World of Warcraft. Porque, quando você tá jogando World of Warcraft - que eu tenho jogado ultimamente, mas que, a despeito do que disse o Fredegoso, não tem nada a ver com o meu sumiço daqui - se digitar /dance, o seu personagem dança. Cada um faz uma dança diferente, a Night Elf faz a dança da Alizée. As danças são divertidas. Eu, particularmente, gosto da dança do Napoleon Dynamite, feita pelo Blood Elf, e da do Mc Hammer, feita pelo Orc. Esse vídeo aqui mostra algumas danças e suas fontes. Outras foram deixadas de lado, não sei por que razão (talvez porque o cara que fez não conseguiu encontrar um vídeo que desse pra sincronizar com as sprites retiradas do jogo?).

E a Peanut Butter Jelly Time simplesmente não me sai mais da cabeça, tá foda. E por “não me sai mais da cabeça” eu quero dizer “já me flagrei cantando e dançando essa porra algumas vezes”.

Então. Falando em música, mas sem tornar a mencionar peixes na bunda, até porque eu não teria mais nada a falar sobre isso, saiu o novo CD do The Killers, chamado Sawdust. O link pro download desse eu coloco, porque sou bacanudo e quero que todo mundo ouça Leave The Bourbon On The Shelf, que chuta bundas (com ou sem peixinhos, a escolha é sua).

Engraçado que duas bandas que eu gosto lançaram um CD de B-Sides esse ano. Cake e, agora, Killers. E nos dois CDs têm uma versão de Ruby, Don’t Take Your Love To Town. Esse do Killers tá massa, mas eu não sei dizer se é melhor ou pior ou igual ao Sam’s Town e ao Hot Fuss. Até porque só ouvi umas duas vezes, até agora, e num fone de ouvido que sofreu derrame ou coisa que o valha (aí só funciona o lado esquerdo), não deu pra fazer ainda uma idéia da qualidade da parada. Sei que eu gostei muito de Leave The Bourbon On The Shelf, que fecha a trilogia do assassinato (falo mais sobre isso depois, se rolar um interesse daí e uma vontade do lado de cá), embora seja a primeira música da trilogia, na verdade, Under The Gun é sensacional, mostra um lampejo de Hot Fuss e a versão Abbey Road de Sam’s Town também é muito legal. Sei lá, eu fiquei ainda mais fã da banda depois do show no Rio, que foi sensacional, então talvez minha opinião seja por demais parcial para ser levada em consideração.

Mas que se lasque. Se a Veja pode ser parcial pra caralho e ainda se declarar “a melhor revista semanal do país”, eu também posso ser parcial pra caralho e me declarar… hm, deixa ver, um título imponente… o melhor blogueiro bimestral do meu prédio.

É, dizer que eu sou o Bonaparte dos Baixos Trópicos talvez botasse mais moral.

Falando em Napoleão, Alizée e gostosas francesas com peixes na bunda, comecei a ler Os Miseráveis, do Victor Hugo. Antes dele li Crime e Castigo, do Dolsta, mas tô preferindo esse. Dostoiévsky era inteligente pra caralho, dava umas porradas servidas em determinados aspectos da sociedade, mas com toda a sutileza de um mestre Shaolin bicentenário que arranca seu olho sem te deixar perceber. Victor Hugo é mais jiujiteiro, chega enfiando a bicuda no joelho e leva pro chão pra finalizar. Sem sutileza, a sutileza que se foda. Nem cheguei na metade do livro, ainda, e se começar a transcrever aqui todos os trechos que sublinhei, fodeu-se, a Martin Claret vai acabar me processando. Depois coloco aqui o que achar mais importante. Falando também em Veja - desculpem por baixar o nível, prometo ser breve -, fico me perguntando se os mentecaptos que trabalham naquela bosta já leram tio Vitão. Porque não dá pra ler aquele livro e continuar um reaça escroto e socialmente desumano, que é o que são os “jornalistas” da Veja. O livro é ótimo e é necessário até hoje, o que é muito triste e muito preocupante. Me leva a crer que em 140 anos não crescemos nada.

O melhor personagem é um bispo que aparece no começo, monsenhor Bienvenu. Fosse eu um cristão, seria um cristão igual a ele. Porque cristianismo é um troço foda, não dá pra ser cristão e continuar vivendo como vivemos. É preciso abdicar de uma série de coisas em prol de outras, muito mais importantes. E não tô falando de parar de trepar, xingar e tomar goró pra entrar no céu, não. Isso é peixe pequeno - na bunda de francesas dançantes - perto das coisas que se deve fazer pra ser um cristão de fato. Eu sou meio extremista, não sei se já deu pra notar - eu sei que já deu pra notar, mas é bom fingir que não - e não saberia ser um cristão mais-ou-menos, desses preguiçosos, folgados, canalhas e escrotos que infestam a sociedade. Sabe, esses que usam a religião só pra justificar/expiar seus atos esdrúxulos. A maioria das pessoas faz as mesmas merdas repetidamente, pede perdão (os que pedem) e aí tornam a fazer. Ninguém realmente pára pra refletir, tenta evoluir um pouco, ser mais tolerante, essas porras todas que o cristianismo prega. Só sabe ficar naquela merda babaca que a igreja prega, de apontar pros outros dizendo “Cê vai pro inferno, pecador nojento, amante de Satanás! Você vai queimar na casa do capeta, bruxo do caralho, onanista filho da puta! Pagão maldito, deus te ama e vai te foder na outra vida até afiar as beiradas da sua bunda porque você não reza o mesmo tanto que eu, no mesmo lugar que eu, da mesma maneira que eu, pro mesmo cara que eu!”.

Religião é um assunto escroto e é um assunto extenso, mas infelizmente necessário e pouco discutido de forma apropriada. Eu devia escrever aqui algo sério a respeito, qualquer dia desses, coisa que costumava fazer há alguns anos. Mas sempre que essa idéia me ocorre, vem com ela a pergunta crucial que derruba minha vontade de fazer qualquer texto:

Pra quê?

Mas vale dizer que continuo achando que uma instituição que excomunga Leonardo Boff não pode representar nada de bom.

Sim, católicos, o que estou dizendo é que vocês servem a uma das instituições mais desumanas, ambiciosas, cruéis e maléficas do mundo. Entraria fácil num Top 5, com sérias chances de ganhar. E olha que a competição é acirrada: McDonalds e Coca-Cola estão no páreo (nem tenho nada contra a coca-cola ou mcdonalds, mas citar essas duas marcas como coisas “do mal” ajuda a manter a aura de comunistão que alguns acham que eu exalo).

Eu ia falar sobre qualquer outra coisa que nem lembro mais o que era, mas se você leu até aqui, acho que já deu pra encher seu saco, certo? Seja feliz com esse amontoado de besteiras. Se não conseguir separar nenhuma idéia, a partir de agora, pra fazer um texto sobre ela, e apenas ela, vou transformar numa prática comum isso de falar de tudo superficialmente. Ficarei, portanto, só na superfície.

Feito um peixe de bunda (virou idéia fixa, essa porra, não é possível!).

Lisonja espertinha

Mas vejam só vocês, caros sete leitores desta budega bem-freqüentada: fui “convidado” por e-mail para o concurso de contos e poesias de uma editora totalmente desconhecida. Que bonito! Que lisonjeiro! Que… que… que belíssimo pega-trouxa esses caras armaram!!!

Analisem o caso comigo: qual é o princípio de qualquer golpe? Oras, até o mais incompetente estelionatário sabe que o grande lance para tirar dinheiro de um otário é fazê-lo crer que, na verdade, o esperto é ELE. Pegá-lo pelo ego, ou pela ganância, é sempre a melhor saída. Pegá-lo pelo ego E pela ganância, então, torna quase qualquer golpe infalível.

Pois bem. Então é assim que funciona: você tem uma editora pequena. Desconhecida. E tá precisando de grana. Como arranjar um dinheirinho sem fazer esforço? Oras, fácil! Siga um passo-a-passo simples:

Saia por aí navegando a esmo em blogs. Encontrando um ou outro cujo autor, em seus arroubos de escrevice, divulgue qualquer coisa parecida com um conto. Qualquer texto ficcional - ou mesmo histórias reais narradas de forma pseudo-literária - já é um bom indício. Se tiver poesias, então, tá no papo. Alguém suficientemente desprovido de bom-senso a ponto de publicar quaisquer rimas capengas que tenha conseguido “bolar”, ainda que sejam apenas frases aleatórias terminadas em gerúndio, provavelmente não está acostumado a fazer auto-avaliações e embarca em qualquer furada. Porque, sim, 99% dos “poetas” da internet são tão bons com poesias quanto eu sou jogando Counter Strike, e, cara, eu sou ruim PRA CARALHO no Counter Strike.

Aliás, uma comparação melhor: 99% dos “poetas” na internet são poetas tão bons quanto eu. Mas, oi?, eu sou um poeta de merda. Aliás, não sou um poeta, porque compreendo minha ausência de talento. Por duas vezes, e duas vezes apenas, publiquei qualquer coisa remotamente parecida com um “poema” por aqui. Ambas a título de troça e o texto era INTENCIONALMENTE ruim. Até porque não saberia fazê-lo de outro modo. Batizei-os, inclusive, de POEMAS ESCROTOS. E não estava sendo irônico.

Poesia é pra quem PODE, não é pra quem quer. Infelizmente muita gente quer e pouca gente pode. Daí temos esse festival de poemas medíocres escritos por cafonas incapazes, sem vocação e - o que é pior para um poeta - de vocabulário dolorosamente limitado. Seria triste, se não fosse patético. Pensando bem, é triste, além de patético. Mas dá pra rir muito, com alguma boa-vontade e certa dose de sarcasmo no sangue. Sério. Tente.

Mas continuando. Daí, depois de identificar os troux… as vít… os possíveis candidatos, dentre aquela corja ignara cujo blog é uma extensão de seus delírios literários, envie e-mails para eles começando com algo como “Parabéns, você foi selecionado para o concurso literário da EDITORA XxXxXx” etc, etc, etc. É importante frisar que você representa uma EDITORA. O termo EDITORA vai ao encontro de toda a pretensão literária do matut… ehr… do futuro escritor. Aumente o texto prometendo um prêmio em dinheiro - nada muuuito significativo, lógico -, além das costumeiras fama, fortuna, glória e mulheres, na forma da frase “o texto vencedor será publicado em livro”.

Depois de explicar minuciosamente como o seu grande concurso funciona, só então deixe claro que será necessário pagar uma taxa - não tão simbólica - por cada “conto” e outra por cada “poema ou poesia”. Não esqueça de ressaltar que quanto mais textos forem cadastrados, maior é a chance do “competidor” ganhar. Claro que isso pode ser interpretado como “quanto mais grana você nos mandar, melhor será nossa opinião a respeito do que você escreve”. Mas, creia, a essa altura do campeonato o mané já está crente que seu “concurso”, mesmo não tendo o menor renome, mesmo não significando NADA num mercado editorial tão superlotado de editoras quanto o nosso, é o destino sorrindo para seu “talento” literário.

Vai por mim: uma incontável leva de otários vai achar que essa é a grande chance que tem de subir na vida. Você vai levantar uma grana fácil, a troco de nada, nas costas de um monte de trouxas. Tudo o que terá de fazer será escolher uma porcaria qualquer, enviar para o campeão dentre os trouxas uma parcela - ínfima - do dinheiro que você conseguiu tão facilmente, enviar e-mails para os trouxas que perderam informando que, embora não tenham sido os campeões, eles ainda poderão concorrer nos anos seguintes e pronto.

No ano que vem é só fazer outro “concurso”.

Sério mesmo, eu conheço um ou outro blog cujo dono, um perfeito imbecil, entrou nessa e está empolgadíssimo porque “passou para a segunda fase”.

Diz aí. É ou não é a maneira mais fácil de ganhar dinheiro que você já viu? Ad-sense? Que ad-sense que nada! Isso é para os fracos!

Tu és deus! (2)

Como disse no post anterior, finalmente terminei o livro do Robert Heinlein, Um Estranho Numa Terra Estranha. Mas acho melhor explicar que utilizo o termo “finalmente” porque foi muito difícil terminá-lo, mas não pelos motivos que se espera - o livro ser chato ou a história ser ruim - que dificultem a leitura de alguma coisa. Minha dificuldade foi outra, bem mais complicada: cometi a proeza de perder o livro num shopping perto do trabalho.

No mesmo dia, porém, entrei no Mercado Livre atrás de um volume idêntico, da mesma edição, e encontrei. Mas só chegou na minha casa uns 15 dias depois. Um lapso e tanto pra uma leitura, mas o livro é tão, mas tão bom que nem me importei.

É difícil dizer o que o torna tão genial. Simplesmente acho que não poderia tê-lo lido em época mais propícia. Há alguns anos provavelmente me irritaria com o agnosticismo condescendente de Jubal Harshaw, ou não saberia compreender determinados aspectos de um relacionamento que levaram Robert Heinlein a fazer tamanha crítica à forma como as pessoas se “comprometem” umas com as outras. Talvez por isso todas as minhas tentativas anteriores de sair do primeiro capítulo tenham falhado: eu ainda era apenas um ovo não estava pronto.

Não imaginei que um dia fosse encontrar, em um livro, tantas idéias e princípios que fossem de tal forma ao encontro das minhas idéias e dos meus princípios, sinceramente. Excetuando-se o fato de ser advogado, médico e careca, Jubal Harshaw é, para mim, um modelo a ser seguido. Seu cinismo, ceticismo, individualismo e inteligência; seu desprezo por telefones e televisores, sua rebeldia contra todos esses “meios de comunicação” usados pelos canalhas, inconvenientes e intrometidos para monitorar e escravizar os outros; sua vastidão de conhecimentos, nunca usados para diminuir ninguém, a menos que seja estritamente necessário; está tudo na medida certa pra fazer dele um dos (se não o) personagens mais notáveis com quem já tive contato.

São dele as melhores falas do livro e a história toma fôlego e dispara, prendendo a atenção do leitor, apenas após seu surgimento. Suas idéias são sempre notáveis, sua percepção da sociedade, das instituições, das pessoas, do mundo em geral, é espantosamente ampla e todos os seus movimentos, com o perdão do “chapolinismo“, são friamente calculados. Ele não queima um cartucho à toa durante o livro todo.

Enfim. Jubal grokka. Eu sou apenas um ovo.

Se Heinlein era - ainda que vagamente - parecido com Jubal, devia ser um sujeito do caralho e não vejo a hora de ler seus outros livros. É uma pena que o autor e suas obras sejam praticamente desconhecidos por aqui. Com exceção do Jaime e do meu tio, que me deu o livro, não conheço quem o tenha lido, apesar da afirmação na capa, dizendo que trata-se da “mais famosa novela de fantasia de todos os tempos”. Esse foi outro motivo que me levou a postergar a leitura, aliás: presumi ser uma obra menor, um daqueles livrecos de pouca importância, mas cheios de si. O fato é que a história é realmente fantástica (em todos os sentidos), divertida e avassaladora.

Suas críticas à política, ao direito e aos poderosos são pungentes, mas a maneira como o autor destrói as religiões e os relacionamentos baseados em ciúme com categoria e argumentos incontestáveis me chamou a atenção o tempo todo. Tenho muito o que refletir a respeito do que esse livro me ensinou, muitos raciocínios para reler, diálogos a digerir e idéias para internalizar. Preciso louvá-lo, afagá-lo e grokká-lo em toda a plenitude.

E preciso ligar para meu tio e agradecer pelo livro, embora faça 5 anos que ele me foi presenteado.

*****

Publiquei aqui, há alguns meses, dois trechos de Um Estranho (…). Eram, até então, o ápice de semelhança que havia entre o livro e eu. Outros trechos surgiram, todavia, e transcrevo-os aqui embaixo:

O ciúme é uma doença e o amor é saudável. A mente imatura confunde, muitas vezes, um com o outro, ou pensa que quanto maior o amor, maior o ciúme. Na realidade, são incompatíveis. Uma dessas emoções não deixa lugar para a outra.

O desenho abstrato é bom… para papel de parede ou linóleo. Mas arte é o processo de evocar a piedade e o terror. O que os artistas modernos fazem é masturbação pseudo-intelectual. […] A pessoa tem de aprender a olhar uma obra de arte. Mas é o artista que tem de usar uma linguagem compreensível. A maioria destes palhaços não quer usar uma linguagem que você ou eu possamos aprender. Preferem zombar da gente porque não “conseguimos” ver o que eles querem dizer. […] A obscuridade é o refúgio da incompetência. […] Um artista subvencionado pelo governo é uma prostituta incompetente.

É possível que uma dessas mitologias seja a palavra de deus… que deus é, na realidade, uma espécie de paranóico, que estraçalha quarenta e duas crianças por estarem importunando seu sacerdote.

São tantos, tantos outros, que se eu resolver publicá-los vou acabar tendo que digitar metade do livro, ou talvez mais. Melhor deixar claro que recomendo muito a leitura. Se algum de vocês, num surto de boa-vontade, resolver ler, me avise ao terminar. Vai ser bom grokkar novos irmãos de água andando por aí.

Minha dúvida agora é qual o próximo livro a ler. Crime e Castigo, do véio Dolsta, ou Os Miseráveis, do Vitão Hugo?

Tu és deus

Finalmente terminei de ler Um Estranho Numa Terra Estranha. Escreverei aqui minhas impressões - considerando que interessam a vocês, embora isso não faça muita diferença, pra ser bem sincero -, mas não agora.

Antes, preciso grokkar a plenitude.

Mas o Jaime tinha razão.
O livro é sensacional.