Ano passado, graças a um professor bastante obtuso - em matéria de leitura - da faculdade, tive que ler O Monge e o Executivo. Foi das experiências “literárias” mais desagradáveis que tive. E começou antes que eu começasse a ler.
Os libertários das letras, esses que acham que tudo vale a pena ser lido, quando a alma não é pequena, pois em tudo há algo a ser aprendido, começam agora, timidamente, a entoar seu coro de “Preconceituoso!”, “Elitista!”, “Fedorento!”, “Cretino!”, “Perneta!” e etc. Ignoremo-los enquanto é tempo e vamos adiante. Pois bem, a tortura começou antes da leitura. Se você nunca ouviu falar d’O Monge e o Executivo (e eu o saúdo de volta do seu coma de uma década), é um desses livros que os gerentes de RH da tua empresa adoram e são ditos “motivacionais”, que é outro termo pra “literatura rasteira de auto-ajuda pra gente sem critérios ou sinapses suficientes pra compreender/superar os próprios problemas sem mantras e moralismos fáceis sugeridos por espertalhões que descobriram um jeito de encher o rabo de grana explorando a fraqueza intelectual alheia”… ok, é bem mais curto chamar de motivacional mesmo. Não fosse o fato de ser auto-ajuda da braba - embora haja quem negue este viés fervorosamente -, ainda é daqueles livros que ficam meses a fio na lista dos mais vendidos do New York Times (por conseguinte, da Veja, que acha que é a versão semanal e brasileira do NY Times).
Sinceramente, nenhum dos livros que perduram nessas listas de “mais vendidos” vale muita coisa. Seja O Monge e o Executivo, O Caçador de Pipas, A Menina que Roubava Livros, Onze Minutos, Harry Potter, Crepúsculo… é tudo lixo. É, eu disse isso mesmo: é lixo, é subliteratura. É tipo esse blog aqui: vale porra nenhuma em matéria de conteúdo. Até um macaco pode “entender” todos os livros já citados na lista dos mais vendidos da veja, por uma razão simples: não há o que ser apreendido em nada daquilo. Todas as mensagens - quando há alguma - já vêm mastigadinhas, prontas para absorção e repetição. Não há a proposição de um pensamento que leve a alguma conclusão, apenas conclusões já prontas e embaladas pra consumo imediato. É o fast food dos livros. É o mais baixo da escala literária.
(O coro dos libertários das letras engrossa agora. Diante de tal platéia, até o fim do texto eu seria linchado)
O Monge e o Executivo não foge dessa linha. Trata de um sujeito que recebe um telegrama da consciência cósmica universal mandando que ele se enfie num mosteiro e passe uma semana assistindo aula de motivação ou coisa semelhante de um ex-grande-executivo, agora monge, que se enfiou lá permanentemente há alguns anos.
…
Tá, não é BEM assim que as coisas acontecem. Existe todo um papo “místico” que “explica” uma série de “coincidências” que conduzem a essa situação, mas é balela, como tudo mais que há no livro. Porque, veja, o autor do livro não teve a moral de escrever um tratado a respeito de normas da administração e gestão de equipes. É preciso ter bagos pra fazer isso e se meter a contrariar ou complementar idéias de caras que são referenciais quando se fala de gestão de empresas. Como você, ilustre desconhecido, chega e diz que pode melhorar as idéias de Henry Ford, Frederick Taylor ou Peter Drucker, por exemplo? Ou, pior, derrubá-las? Quem te daria crédito? Sua mãe, talvez um dos seus irmãos. E só.
Ciente disso, o autor do livro, James Hunter, parte pra essa ficçãozinha babaca a respeito de um curso motivacional de sete dias em um mosteiro. Enfia seis ou sete personagens, explica suas idéias de modo repetitivo na forma de diálogos pouco inteligentes e, o pior de tudo, não poupa o leitor de referências religiosas, que é a estratégia mais batida para se vender uma idéia, já que o homem ocidental comum, cristão, não questiona nada que tenha religião envolvida. A partir do momento que você menciona Jesus como justificativa ou exemplo de algo, se saca uma passagem da Bíblia para corroborar sua idéia, se mete algum nível de “misticismo” no negócio, cria um dogma. Para a maioria das pessoas, aquilo passa a ser indiscutível. Esperto, hein? E se você acha que estou inventando isso agora, que é uma viagem retirada da minha cabeça, repare na quantidade de livros de auto-ajuda que envolvem religião/misticismo. A Cabana (SIM, aquilo É auto-ajuda, ainda que neguem!); Comer, Rezar, Amar; Jesus - O Maior Psicólogo Que Já Existiu… vá à livraria mais próxima e confirme.
O negócio é que sou um herege maldito. E se um idiota me diz que Jesus Cristo foi um belo exemplo de líder, imediatamente ressalto o ponto do hippie-pai-de-si-mesmo ter liderado apenas 12 sujeitos. Dentre esses 12, um fazia questão de levantar dúvidas sobre tudo o que o JC falava; o segundo, teoricamente seu seguidor mais próximo e confiável, teve a pachorra de negá-lo não uma, não duas, mas TRÊS vezes, ao levar uma dura dos home; o terceiro foi ainda mais longe: vendeu o chefe por trinta dinheiros!
Uau, isso que é um líder bem-sucedido! Isso que é inspirar lealdade! Se o maior líder da história da humanidade teve VINTE E CINCO POR CENTO de rejeição de seus seguidores diretos, imagino quão triste foi a trajetória do pior deles. Acho que até o general romano Crasso, responsável por combater os escravos rebeldes liderados por Spartacus, foi mais feliz em sua carreira. Sinceramente, Hitler teria sido uma citação mais feliz.
Outra estratégia simplória usada pelo autor - e que funciona, caso você tenha se afogado durante a infância e perdido parte das funções cerebrais por prolongada falta de oxigenação - é enfiar um personagem contrário aos ensinamentos do tal monge. Então temos uma turma de cinco alunos (ou seis, agora não me lembro direito), sendo que quatro (ou cinco) concordam, repetem e exemplificam tudo o que é dito, enquanto o quinto (ou sexto) contradiz, contraria e escarnece o tempo inteiro. “Divertido!”, você pensa, “Eu vou gostar desse cara!”. Não vai, corrijo eu: esse cara consegue ser mais idiota do que os outros. Freqüentemente minha vontade era concordar com o tal “Simeão”, pois estar do mesmo “lado” que alguém tão imbecil abalava sinceramente meu amor-próprio.
Considere que alguém diz uma asneira qualquer, levanta uma falácia dessas bem ridículas e infantis, fáceis de derrubar sem qualquer esforço argumentativo. Imagine que, diante da tal besteira dita, existam 10 respostas diferentes, sendo nove delas capazes de desarmar o responsável pela baboseira e a décima sendo uma baboseira ainda maior, apesar de contrária. É esta a opção adotada pelo amigo contrário aos ensinamentos. E é compreensível, afinal. O autor não inseriria, em sua suposta “tese” a respeito da gestão de pessoas e administração de equipes, argumentos realmente consistentes contra seus ensinamentos. A menos, claro, que fosse capaz de elaborar boas respostas, capazes de superar as réplicas levantadas. Duvido que o cidadão tenha essa capacidade. Requer um puta embasamento e muita inteligência.
É disso que o livro se trata, afinal: de uma obra em formato de ficção - por falta de coragem -, cheia de argumentos vazios - por falta de competência - e que finge se contrariar, mas falha - por falta de inteligência. É um livro onde falta tudo, mas que está sempre nas listas de mais vendidos. Porque nas livrarias, atualmente, o que não falta é trouxa.
E eu deveria ter escrito ISSO no review que entreguei pro professor - até porque acabei trancando a faculdade semanas depois -, mas achei que seria mais prudente exercitar a política da boa vizinhança. Deixei passar uma grande oportunidade. Pena.
Mas outras virão. Gente ignorante sugerindo livros ruins tá sobrando…