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Palavras de Werther

Se ao menos disséssemos a nós mesmos todos os dias: o que devemos fazer por nossos amigos é respeitar seus prazeres e aumentar-lhes a felicidade, compartilhando-a com eles. Quando a alma de alguém é atormentada por uma paixão inquieta, torturada pelo sofrimento, você será capaz de proporcionar algum alívio a esse ser alquebrado pela dor? E quando a última, a mais dolorosa doença surpreender a pessoa a quem você atormentara na flor de seus dias, quando ela estiver prostrada na mais deplorável debilidade, quando seu olhar quase extinto se voltar para o céu, o suor da morte umedecendo-lhe a lívida fronte, e você ali, de pé ao lado do leito, vir-se a si próprio como um desgraçado, certo de que seu poder é agora inútil, a angústia penetrará até o fundo de sua alma, e o conduzirá ao desejo de renunciar a tudo para fornecer à criatura agonizante um pouco de serenidade, uma centelha de coragem.

Esse é o velho Goethe, me aplicando uma severa bordoada no cognitivo.

Dos mercados

Cristo, mas via-lhe as ruas?/
Também apenas as ruas, havia milhares delas, como fazem para escolher uma/
Para escolher uma mulher/
Uma casa, uma terra que seja sua, uma paisagem para olhar, um modo de morrer?

Se você lê esse blog há algum tempo, já deve estar familiarizado com o trecho acima, do livro Novecentos - Um Monólogo, porque já foi publicado aqui antes. Publiquei antes, e publico de novo, porque considero ser a verdade. A “minha” verdade, como está na moda dizer agora. O que a torna, para mim, a verdade absoluta. Se a “sua” verdade é diferente, para mim não é verdade. Logo, não sendo verdade, é mentira. Logo, foda-se, não me importo com ela.

Larguei meu emprego. Um emprego que odiava e no qual passei 2 anos. Dois anos da minha vida fazendo algo que detestava, dois anos que não voltam mais e que infelizmente não passaram rápido o suficiente. Dois anos fazendo algo intolerável, mas que tolerei por dois anos. E agora faço apenas a faculdade. E também odeio, e ainda falta PELO MENOS um ano para terminar. Mais um ano empenhado em algo que desprezo. Essa é minha vida.

Faço uma faculdade que odeio, como trabalhei em um emprego que odiava, pela razão mais cretina do mundo: porque “preciso fazer alguma coisa”. Todo mundo “precisa fazer alguma coisa”, porque é o que você faz que te define. Não QUEM você é, mas O QUE você é. E O QUE você é é imediatamente definido como sendo “O que você faz?”. Quem você é é subjetivo, intangível, indeterminado. Varia de acordo com o julgamento de quem observa, as circunstâncias, o momento. Isso não serve para quem precisa dizer quanto você vale. De acordo com esse critério, um estivador pode valer mais do que um engenheiro. Daí utilizamos o outro critério: O que você é? O que você faz? Isso é determinável, imediato, documentado. Existe comprovação, daí render méritos.

Tome como exemplo o seriado House. Quem você é - um homem escroto, intratável, sarcástico e mal-resolvido - empalidece, em termos de valor, em vista do que você é - um médico competente, com conhecimentos impressionantes dentro da sua área de atuação. Não interessa se a pessoa que você é destrata gente que precisa de atenção e cuidado porque está com dor, com medo e diante da possibilidade real de morrer a qualquer instante. Desde que o que você faz seja o suficiente para mantê-las vivas, qualquer mau-trato é relevado. Essa é a mensagem que House passa: sendo bom no que você FAZ, é aceitável ser ruim em quem você É.

O que eu faço é informática. É o que estudo, é com o que trabalho. E é a área mais cretina e inútil de todas as áreas de trabalho. Em termos de ilha deserta - dia desses explico o conceito aqui -, tenho menos utilidade que uma galinha. Mas não tenho outro refúgio. Faço o que tenho que fazer porque tenho que fazer algo. Estou próximo ao fim dos meus 20 anos, é a hora (passou da hora, na verdade) de decidir O QUE eu quero ser, já que QUEM você quer ser infelizmente não é uma questão voluntária.

Deveria ter decidido isso aos 18, 19 anos, como tanta gente faz, todos os dias. E eu acharia incrível que essas pessoas tenham essa capacidade, mas atribuo tamanha impulsividade à falta de maturidade e visão de futuro que são peculiares aos adolescentes. É tanta coisa para se fazer, mas TANTA. COMO alguém consegue decidir isso? Como alguém acorda e pensa “É isso que quero fazer, daqui pro resto da minha vida”? “É aqui que eu quero viver”? “É com ela/ele que quero ficar”? Existem TANTAS opções, putaquepariu. O que é preciso pra tomar uma decisão dessas? Determinação ou pequenez de espírito? O que quer que seja, me falta.

O problema é essa raiva que sinto em saber que faço algo que não gosto. Em TER QUE FAZER algo que não gosto, porque PRECISO fazer alguma coisa. Não interessa se serei infeliz, desde que tenha o rabo cheio de dinheiro. Se me sinto inseguro e sem qualquer aptidão para a coisa, já que dizem que nasci pra isso. Quem diz que nasci pra isso não sabe do que isso trata, o que isso requer e certamente não faz idéia para o que eu nasci. Mas quanto à última parte não posso criticar, pois também não sei. Sei para o que NÃO nasci, e é só. Não nasci pra ser jornalista ou publicitário, músico, engenheiro ou arquiteto, médico ou advogado, professor ou pesquisador. Entendo e concordo que citar Legião Urbana é caído, mas farei uso desta vez, e desta vez apenas: não há verdade maior sobre mim do que a frase “Acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto”. Infelizmente não vou faturar um centavo enumerando as coisas das quais não gosto, ou ficaria milionário, certamente. É triste, mas o “mercado”, essa entidade superior e intocável, nos força a isso. A fazer coisas que não queremos para conseguir dinheiro e comprar coisas de que não precisamos.

Tyler Durden, nessa tamos juntos, amigo.

Das pseudoliteraturas

Ano passado, graças a um professor bastante obtuso - em matéria de leitura - da faculdade, tive que ler O Monge e o Executivo. Foi das experiências “literárias” mais desagradáveis que tive. E começou antes que eu começasse a ler.

Os libertários das letras, esses que acham que tudo vale a pena ser lido, quando a alma não é pequena, pois em tudo há algo a ser aprendido, começam agora, timidamente, a entoar seu coro de “Preconceituoso!”, “Elitista!”, “Fedorento!”, “Cretino!”, “Perneta!” e etc. Ignoremo-los enquanto é tempo e vamos adiante. Pois bem, a tortura começou antes da leitura. Se você nunca ouviu falar d’O Monge e o Executivo (e eu o saúdo de volta do seu coma de uma década), é um desses livros que os gerentes de RH da tua empresa adoram e são ditos “motivacionais”, que é outro termo pra “literatura rasteira de auto-ajuda pra gente sem critérios ou sinapses suficientes pra compreender/superar os próprios problemas sem mantras e moralismos fáceis sugeridos por espertalhões que descobriram um jeito de encher o rabo de grana explorando a fraqueza intelectual alheia”… ok, é bem mais curto chamar de motivacional mesmo. Não fosse o fato de ser auto-ajuda da braba - embora haja quem negue este viés fervorosamente -, ainda é daqueles livros que ficam meses a fio na lista dos mais vendidos do New York Times (por conseguinte, da Veja, que acha que é a versão semanal e brasileira do NY Times).

Sinceramente, nenhum dos livros que perduram nessas listas de “mais vendidos” vale muita coisa. Seja O Monge e o Executivo, O Caçador de Pipas, A Menina que Roubava Livros, Onze Minutos, Harry Potter, Crepúsculo… é tudo lixo. É, eu disse isso mesmo: é lixo, é subliteratura. É tipo esse blog aqui: vale porra nenhuma em matéria de conteúdo. Até um macaco pode “entender” todos os livros já citados na lista dos mais vendidos da veja, por uma razão simples: não há o que ser apreendido em nada daquilo. Todas as mensagens - quando há alguma - já vêm mastigadinhas, prontas para absorção e repetição. Não há a proposição de um pensamento que leve a alguma conclusão, apenas conclusões já prontas e embaladas pra consumo imediato. É o fast food dos livros. É o mais baixo da escala literária.

(O coro dos libertários das letras engrossa agora. Diante de tal platéia, até o fim do texto eu seria linchado)

O Monge e o Executivo não foge dessa linha. Trata de um sujeito que recebe um telegrama da consciência cósmica universal mandando que ele se enfie num mosteiro e passe uma semana assistindo aula de motivação ou coisa semelhante de um ex-grande-executivo, agora monge, que se enfiou lá permanentemente há alguns anos.

Tá, não é BEM assim que as coisas acontecem. Existe todo um papo “místico” que “explica” uma série de “coincidências” que conduzem a essa situação, mas é balela, como tudo mais que há no livro. Porque, veja, o autor do livro não teve a moral de escrever um tratado a respeito de normas da administração e gestão de equipes. É preciso ter bagos pra fazer isso e se meter a contrariar ou complementar idéias de caras que são referenciais quando se fala de gestão de empresas. Como você, ilustre desconhecido, chega e diz que pode melhorar as idéias de Henry Ford, Frederick Taylor ou Peter Drucker, por exemplo? Ou, pior, derrubá-las? Quem te daria crédito? Sua mãe, talvez um dos seus irmãos. E só.

Ciente disso, o autor do livro, James Hunter, parte pra essa ficçãozinha babaca a respeito de um curso motivacional de sete dias em um mosteiro. Enfia seis ou sete personagens, explica suas idéias de modo repetitivo na forma de diálogos pouco inteligentes e, o pior de tudo, não poupa o leitor de referências religiosas, que é a estratégia mais batida para se vender uma idéia, já que o homem ocidental comum, cristão, não questiona nada que tenha religião envolvida. A partir do momento que você menciona Jesus como justificativa ou exemplo de algo, se saca uma passagem da Bíblia para corroborar sua idéia, se mete algum nível de “misticismo” no negócio, cria um dogma. Para a maioria das pessoas, aquilo passa a ser indiscutível. Esperto, hein? E se você acha que estou inventando isso agora, que é uma viagem retirada da minha cabeça, repare na quantidade de livros de auto-ajuda que envolvem religião/misticismo. A Cabana (SIM, aquilo É auto-ajuda, ainda que neguem!); Comer, Rezar, Amar; Jesus - O Maior Psicólogo Que Já Existiu… vá à livraria mais próxima e confirme.

O negócio é que sou um herege maldito. E se um idiota me diz que Jesus Cristo foi um belo exemplo de líder, imediatamente ressalto o ponto do hippie-pai-de-si-mesmo ter liderado apenas 12 sujeitos. Dentre esses 12, um fazia questão de levantar dúvidas sobre tudo o que o JC falava; o segundo, teoricamente seu seguidor mais próximo e confiável, teve a pachorra de negá-lo não uma, não duas, mas TRÊS vezes, ao levar uma dura dos home; o terceiro foi ainda mais longe: vendeu o chefe por trinta dinheiros!

Uau, isso que é um líder bem-sucedido! Isso que é inspirar lealdade! Se o maior líder da história da humanidade teve VINTE E CINCO POR CENTO de rejeição de seus seguidores diretos, imagino quão triste foi a trajetória do pior deles. Acho que até o general romano Crasso, responsável por combater os escravos rebeldes liderados por Spartacus, foi mais feliz em sua carreira. Sinceramente, Hitler teria sido uma citação mais feliz.

Outra estratégia simplória usada pelo autor - e que funciona, caso você tenha se afogado durante a infância e perdido parte das funções cerebrais por prolongada falta de oxigenação - é enfiar um personagem contrário aos ensinamentos do tal monge. Então temos uma turma de cinco alunos (ou seis, agora não me lembro direito), sendo que quatro (ou cinco) concordam, repetem e exemplificam tudo o que é dito, enquanto o quinto (ou sexto) contradiz, contraria e escarnece o tempo inteiro. “Divertido!”, você pensa, “Eu vou gostar desse cara!”. Não vai, corrijo eu: esse cara consegue ser mais idiota do que os outros. Freqüentemente minha vontade era concordar com o tal “Simeão”, pois estar do mesmo “lado” que alguém tão imbecil abalava sinceramente meu amor-próprio.

Considere que alguém diz uma asneira qualquer, levanta uma falácia dessas bem ridículas e infantis, fáceis de derrubar sem qualquer esforço argumentativo. Imagine que, diante da tal besteira dita, existam 10 respostas diferentes, sendo nove delas capazes de desarmar o responsável pela baboseira e a décima sendo uma baboseira ainda maior, apesar de contrária. É esta a opção adotada pelo amigo contrário aos ensinamentos. E é compreensível, afinal. O autor não inseriria, em sua suposta “tese” a respeito da gestão de pessoas e administração de equipes, argumentos realmente consistentes contra seus ensinamentos. A menos, claro, que fosse capaz de elaborar boas respostas, capazes de superar as réplicas levantadas. Duvido que o cidadão tenha essa capacidade. Requer um puta embasamento e muita inteligência.

É disso que o livro se trata, afinal: de uma obra em formato de ficção - por falta de coragem -, cheia de argumentos vazios - por falta de competência - e que finge se contrariar, mas falha - por falta de inteligência. É um livro onde falta tudo, mas que está sempre nas listas de mais vendidos. Porque nas livrarias, atualmente, o que não falta é trouxa.

E eu deveria ter escrito ISSO no review que entreguei pro professor - até porque acabei trancando a faculdade semanas depois -, mas achei que seria mais prudente exercitar a política da boa vizinhança. Deixei passar uma grande oportunidade. Pena.

Mas outras virão. Gente ignorante sugerindo livros ruins tá sobrando…

Das raízes súbitas

Despropositou-se meu propósito. Porque se antes eu dizia não saber a que se destinava aquele rolete de dinheiro, se mostrava certa hesitação quanto ao que fazer com aquilo, ainda havia aquela voz que me dizia exatamente o que fazer, e eu obedecia. Era só questão de tempo, de juntar maior soma, de aumentar a reserva e partir. Não havia destino nenhum, era só partir e pronto. A estrada não te pergunta pra onde você vai, quem se pergunta isso é você. E se, saindo um pouco desse ensimesmamento, dessa postura umbiguista de só ouvir a voz na sua cabeça, você se permitir ouvir a estrada, o que ela faz não é uma pergunta. Não indaga “Para onde você vai?”. O que ela diz, o que afirma, a ordem que dá, direta, sem rodeios, é “Venha!”.

Essa ordem ribombava na minha cabeça novamente no último ano e meio, e pretendia acatá-la, mas acovardei-me. Porque se antes minha intenção era sumir e perder meus lastros, soltar as amarras e viver à deriva por alguns dias, ou semanas, ou meses, ou talvez pro resto da vida, agora não tenho mais coragem. Porque se tivesse levado a idéia a cabo quando surgiu, se tivesse feito a mochila e partido, e se o desenrolar dos acontecimentos fosse o que foi, se um dia retornasse, não sei qual seria minha reação ao saber tardiamente de tudo, mas tenho aqui uma idéia do quanto pesaria minha consciência e de qual seria a profundidade do meu arrependimento. Seria imensa e intolerável.

E se eu for, agora, e as coisas tornarem a caminhar assim? E se não houver quem me avise da situação? E se eu não voltar a tempo? Se souber tarde demais? Fica claro que meu princípio estava errado. Devia ser adeus desde o começo, e não era. Era só um até logo. Adeus foi agora. Adeus aconteceu um mês atrás. Adeus é muito mais pesado do que consigo suportar, e só o tolero porque, oras, qual minha outra opção?

Então agora é isso. Queria ficar desvinculado. Agora fiquei e tento me prender às coisas mais do que nunca. Tinha tudo e queria ver como era não ter nada. Foi-se um pedaço, e me acovardo diante da perspectiva de perder o resto. Porque quem sabe o que diz é o velho Saramago, quando afirma, em O ano da morte de Ricardo Reis, que “o pior mal é não poder o homem estar no horizonte que vê, embora, se lá estivesse, desejasse estar no horizonte que é!”.

E sim, este blog agora é monotemático, porque minha cabeça é monotemática. Mudarei deste assunto funesto quando o assunto funesto se mudar de mim.

Das ignorâncias preferíveis

Eu tinha uns 15 anos e esse livro enorme do colégio, que era do ano passado, daqueles consumíveis, ou seja: escrevíamos no próprio livro. Então não havia chance dele passar pra um aluno que viesse atrás de mim. Sendo assim, seria jogado no lixo pela minha mãe tão logo a velha tivesse outro surto de desapego material.

O problema é que o livro, de português/literatura, tinha um conteúdo excepcionalmente bom. Por ele tive contato pela primeira vez com Calvin & Haroldo, o viés político da Mafalda, Fernando Pessoa e heterônimos, o discurso final d’O Grande Ditador, etc, etc.

Diante da possibilidade de ver tudo aquilo sumir no lixo qualquer manhã daquelas, graças à minha mãe e seus periódicos ímpetos de arrumação, recortei várias folhas do livro para manter o que me interessasse. Era uma tarde quente em Maceió e eu me sentei no chão do meu quarto com uma tesoura, o livro, música e tempo livre. Ainda vestia a calça jeans que usara no colégio, pela manhã, um par de meias e só. A camisa do uniforme estava amarfanhada sobre minha cama, com ela meu prato sujo do almoço e um copo vazio. Tinha às minhas costas minha poltrona-cama - onde a Jana dormiu quando foi passar o carnaval com a gente - em cuja base me recostava, porque a parte onde deveria colocar minha bunda estava tomada por tralhas. Havia levado a Bárbara ao colégio um pouco antes e minha mãe não ia chegar antes das 18. A empregada estava ocupada com assuntos dela e não iria me interromper, também (a Madá nunca incomodava). Eu tinha uma bicicleta chamada Clementina, um aparelho de som e uma coleção modesta de quadrinhos, outra de chaveiros. A vida era simples e boa. Eu fazia teatro e gostava, tinha pouquíssimos mas fiéis amigos, nadava pelo menos meia hora, diariamente, na piscina do condomínio, sem que ninguém me importunasse e morava a 30 metros da orla, onde saía para pedalar ao cair da tarde. Meus irmãos estavam todos soltos e vivos. E longe, em sua maioria, mas isso nem me incomodava.

Enfim. Recortei diversos pedaços do livro e tinha uma pilha respeitável de textos e imagens e tirinhas ao fim dessa atividade. Catei um caderno velho e, para preservar tudo, fui colando em suas páginas todos aqueles pedaços de idéias que de certa forma me transmitiam qualquer coisa.

Muitos dos meus poetas e poesias preferidos até hoje me foram apresentados naquele livro. Do Bilac eu nem gosto muito, mas havia esse poema dele que acabei guardando, Nel Mezzo Del Camin… . Segue abaixo:

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha…

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo… Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

Na época tinha a impressão de que a poesia tratava de separação. E é óbvio que trata, mas achava que era essa separação romântica, entre dois amantes que seguem caminhos distintos em determinado momento da vida, qualquer que seja a razão. E era triste, e só.

O negócio é que esbarrei com esse caderno hoje, mexendo em algumas coisas no meu quarto. E Nel Mezzo Del Camin… estava lá, e reli. E agora é sobre separação, ainda, mas isso da minha irmã ter morrido contextualiza de forma completamente diferente. Depois disso, não é mais sobre perder uma mulher, é sobre perder um pedaço, raízes, um trecho da sua história, da sua vida. É sobre olhar pra trás e ver, lá longe, lá atrás, na extrema curva do caminho extremo, alguém que largou sua mão e ficou, enquanto você segue (porque não existe outra opção).

Era um bom poema.

Agora é um dos melhores.

Contexto é tudo.

Receita para fazer um Herói

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão,
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.

(Reinaldo Ferreira)