Numa daquelas promessas de fim/começo de ano (depende da perspectiva de cada um, como quase tudo na vida), resolvi que iria ler mais em 2007. Já expliquei diversas vezes o processo de afastamento que tive dos livros, por volta dos 18, 19 anos, e é realmente difícil lutar contra uma decisão tão drástica, mas contra a qual ainda não encontro argumentos bons o suficiente.
Mas se as brigas difíceis não fossem as mais divertidas, eu nunca teria gostado de Mega Man X, em primeiro lugar.
Então esse ano reli o segundo volume de Musashi e, em seguida, engatei com Espinosa Sem Saída. Ao terminar esse último, parti para O Retrato de Dorian Gray, do Oscar Wilde.
A princípio achei que terminar o volume seria uma daquelas tarefas penosas, sofridas mesmo, e que talvez fosse melhor desistir. Sondei a possibilidade de saltar direto para Memórias de Adriano, mas contive esse impulso e resolvi dar cabo da empreitada à qual me propus. “O Wilde é ruim, mas não é pior do que eu”, pensei.
Grave erro. Gravíssimo. Começando pelo fato do Retrato de Dorian Gray não ser ruim. Só é um tanto arrastado no começo. Por conta de sua experiência como escritor de peças de teatro - acho eu -, Oscar Wilde prepara demais o terreno para o ponto principal da trama - o quadro que envelhece. Apenas por volta do quinto ou sexto capítulo comecei a pescar frases e diálogos realmente interessantes no livro. Apenas no sétimo se dá a primeira mudança na pintura. A partir daí, salvo um trecho demasiadamente longo - porém divertido, em certas partes - no qual a história pára apenas para descrever em minúcias alguns apetrechos colecionados pelo protagonista, o autor deve ter percebido que terminar o livro talvez fosse uma boa idéia e engatou a segunda.
A tradução que tenho em mãos merece menção. Foi feita em 1919, por um tal João do Rio, autor que desconheço, se me perdoam a franqueza (e a ignorância). A edição, entretanto, não é antiga: foi impressa em agosto do ano passado e é da Editora Hedra. A decisão de fazer uso de uma versão tão antiga do texto traduzido é longamente explicada na introdução do livro, que tem bem umas 15 páginas (e que eu não tive saco pra ler até o fim), e passa longe de ser uma má escolha. Em comparação com alguns trechos que li em inglês, o estilo de escrita, dadas as devidas diferenças entre os idiomas, se mantém praticamente inalterado.
O que quero dizer é o seguinte: acredito ser muito difícil não deixar certos aspectos da sua personalidade transparecerem naquilo que você escreve. Sou, por exemplo, incapaz de redigir qualquer coisa que não soe sarcástica ou rabugenta. Esse sou eu, afinal de contas, e, por mais que seja capaz de filtrar tais defeitos ao conversar com alguém pessoalmente, não vejo como dirimi-las nos meus textos.
Oscar Wilde, por sua vez, devia ser um sujeito extremamente afetado, e não sei se era assim por ser inglês ou por ser viado. E João do Rio, que não sei se também era viado, mas sei que não era inglês, foi capaz de manter toda a afetação presente em sua tradução.
Lógico que isso não é um defeito, tampouco uma qualidade, a menos que você seja homofóbico ou goste muito de uma bichice. É apenas uma peculiaridade (facilmente) perceptível.
Algumas passagens do texto são tão interessantes que, sempre munido da minha lapiseira, chego a grifar os trechos que mais gosto. Transcrevê-los-ei abaixo:
“O único processo pelo qual uma mulher chega a reformar um homem é o da importunação a ponto de perder ele todo o interesse possível na existência”
“Quando nos censuramos, supomos que nenhum outro tem o direito de fazer o mesmo.”
“Há sempre qualquer coisa de ridículo nas emoções das pessoas que já deixamos de amar.”
“A experiência não tem valor ético. É somente o nome que os homens dão a seus erros.”
“Os únicos artistas que conheci pessoalmente deliciosos eram maus artistas. Os verdadeiros artistas só existem no que produzem e, conseguintemente, as suas pessoas não oferecem interesse algum. (…) Os poetas inferiores são os homens mais sedutores. O simples fato de haver publicado um livro de sonetos de segunda ordem torna um homem perfeitamente irresistível. Este vive o poema que não consegue escrever; os outros escrevem o poema que não ousam realizar.”
“Os verdadeiros fúteis são os que amam só uma vez na vida. O que eles chamam a sua lealdade ou fidelidade eu classifico o sono do hábito ou a sua falta de imaginação. A fidelidade é para a vida sentimental o mesmo que a estabilidade é para a vida intelectual - simplesmente uma confissão de impotência. A fidelidade! (…) Há nela a paixão da propriedade. Abandonaríamos muitas coisas, se não tivéssemos o receio de que outros as recolhessem.”
O livro todo já mereceria atenção só pela primeira frase.
Leia. Wilde é um sujeito que sabe o que diz.