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Barrow-on-Furness

Sou vil, sou reles, como toda a gente
Não tenho ideais, mas não os tem ninguém.
Quem diz que os tem é como eu, mas mente.
Quem diz que busca é porque não os tem.
É com a imaginação que eu amo o bem.
Meu baixo ser porém não mo consente.
Passo, fantasma do meu ser presente,
Ébrio, por intervalos, de um Além.
Como todos não creio no que creio.
Talvez possa morrer por esse ideal.
Mas, enquanto não morro, falo e leio.
Justificar-me? Sou quem todos são…
Modificar-me? Para meu igual?…
— Acaba lá com isso, ó coração!

(Fernando Pessoa)

Encontrei aqui.

Bah…

Não sou um cara ciumento.

Se um sujeito se aproximar da minha namorada e lograr levá-la embora, parabéns para ele. Ou é muito melhor do que eu - em alguns ou vários aspectos - ou é muito bom em fingir excelência. Ou - ainda há essa possibilidade - ela ficou tão pouco criteriosa que é justo deixá-la trocar gato por lebre.

Qualquer que seja a teoria certa, a verdade é: se alguém consegue levar sua mulher embora, provavelmente merece ficar com ela. E se ela resolveu ir, merece o sujeito pelo qual te deixou.

Ao contrário do que muitos homens acham, mulheres são seres dotados de vontade própria. Não são vacas ou outras criaturas nas quais você pode marcar na bunda, a ferro quente, suas iniciais, reclamando, assim, direitos irrevogáveis.

Por isso não é minha obrigação “proteger” minha namorada de gaviões, bajuladores e etc. Ela deve aprender a recusar esse tipo de gente ou ficar com eles. Meu papel na história é o de… bom, não tenho papel nenhum nisso. Gosto dela e quero que fique. E se ela quiser ficar, ficará. Se quiser ir, irá. Simples.

Mas meus livros, cara… ah, meus livros.

Meus livros são meus. MEUS. E nesse ponto sou extremamente egoísta, ciumento, possessivo. Por uma razão simples: livros são objetos inanimados (isso não é novidade para ninguém) e, como objetos inanimados, podem ser carregados para longe, sem esboçar a menor resistência, por qualquer imbecil descerebrado que tenha acesso a eles e se disponha a levá-los.

Perder uma mulher pode ser sofrido e desagradável, mas outras virão. Não vale a pena esquentar a cabeça por essas coisas.
Um livro perdido é irrecuperável. É esse tipo de coisa que me deixa profundamente chateado.

Perdi um, hoje.

E, sendo esta uma pátria de analfabetos funcionais, de fãs do Paulo Coelho, de leitores ávidos de porcarias como as escritas pelo Dan Brown, de consumistas pouco (ou nada) críticos de livros de auto-ajuda, é nula minha esperança de que alguém vá dar o mesmo valor que eu ao que tem em mãos…

Esforço recompensado

Atendia pessoalmente aos telefonemas, se estivesse por perto, porque cada chamada dava-lhe a possibilidade de ser grosseiro com um estranho por ter ousado invadir sua vida particular sem motivo. ‘Motivo’ no modo de entender de Harshaw.

Se deus existisse (assunto a respeito do qual Jubal mantinha-se neutro) e se ele queria ser adorado (coisa que Jubal considerava improvável, mas, apesar de tudo, possível, considerando sua própria ignorância no assunto), então parecia improvável que um deus capaz de moldar galáxias pudesse se satisfazer com a algazarra maluca que os Fosteritas chamavam de ‘adoração’.

Por isso que, apesar de toda a minha indisposição para ler livros, ainda me forço a manter esse hábito: é possível encontrar passagens notáveis e capazes de traduzir suas idéias de forma surpreendentemente fiel mesmo quando a história leva quase 100 páginas para começar a te interessar.

(Trechos retirados de Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert Heinlein.)

Propaganda (mais que merecida) para um amigo.

Garanto que ele não tá me pagando um centavo pela publicidade.
E eu também não ganho comissão por exemplar vendido.

Mas pense comigo: se a propaganda do livro é tão foda e foi escrita pelo próprio autor, é um investimento que vale ser feito.
Pelo menos vai ser fácil de rasgar, convenhamos.

Associações multimídia

Falando em livros, uma das minhas grandes diversões ao ler é dar rosto aos personagens. Geralmente escolho atores, modelos ou conhecidos que acredito serem parecidos com determinados personagens (ou pelo menos aptos a encarnar o papel). No caso do Retrato de Dorian Gray, em particular, abri uma exceção ao não escolher atores ou conhecidos para “interpretar” os personagens dentro da minha cabeça. Porque um ponto no qual o autor toca insistentemente é a aparência do protagonista (o que é inevitável, sendo que trata-se de um livro sobre um quadro). De acordo com a descrição feita do rapaz, ele teria longos cabelos loiros e lábios vermelhos e finos. Isso corresponde a dizer que ele tinha cara de mulherzinha.

Como não conheço nenhum ator com cara de menininha - e não tava a fim de ficar imaginando a K.D. Lang vestida com roupas do século passado retrasado, tive que chutar o balde. Então o escolhido para interpretar Dorian Gray na minha mente foi Hector, de Castlevania: Curse of Darkness:

Dorian Hector Gray

Já a descrição do quadro diz que a figura de Dorian estaria com os lábios semi-abertos e o olhar distante, meio com cara de embasbacado, então acho que o quadro possa ser representado por essa imagem:

O retrato de Hector Gray.

Ambos têm cara de mulherzinha. A diferença é que o Hector desce o sarrafo bonitamente em qualquer um que cruzar seu caminho (com exceção do Trevor Belmont, mas a culpa não é dele, já que os Belmont são provavelmente a família mais apelona e barraqueira da história da humanidade, seguida de perto pelos Gracie), enquanto o Dorian faz jus a sua cara de modelo de propaganda da Pampers.Para ficar mais fácil imaginar os personagens dialogando, mantenho as referências a Castlevania e acredito que o Henry Wotton poderia ser bem parecido com o Saint Germain:

Henry Saint Germain

Basil Hallward, por sua vez, se parece com esse cara cujo nome eu esqueci completamente:

Basil… ehr… quem?

Eu até criaria um blog só pra fazer associações entre personagens de livros e atores, mas não tenho a menor vontade de perder meu tempo com isso.
Porque não.

O Retrato de Dorian Gray

Numa daquelas promessas de fim/começo de ano (depende da perspectiva de cada um, como quase tudo na vida), resolvi que iria ler mais em 2007. Já expliquei diversas vezes o processo de afastamento que tive dos livros, por volta dos 18, 19 anos, e é realmente difícil lutar contra uma decisão tão drástica, mas contra a qual ainda não encontro argumentos bons o suficiente.

Mas se as brigas difíceis não fossem as mais divertidas, eu nunca teria gostado de Mega Man X, em primeiro lugar.

Então esse ano reli o segundo volume de Musashi e, em seguida, engatei com Espinosa Sem Saída. Ao terminar esse último, parti para O Retrato de Dorian Gray, do Oscar Wilde.

A princípio achei que terminar o volume seria uma daquelas tarefas penosas, sofridas mesmo, e que talvez fosse melhor desistir. Sondei a possibilidade de saltar direto para Memórias de Adriano, mas contive esse impulso e resolvi dar cabo da empreitada à qual me propus. “O Wilde é ruim, mas não é pior do que eu”, pensei.

Grave erro. Gravíssimo. Começando pelo fato do Retrato de Dorian Gray não ser ruim. Só é um tanto arrastado no começo. Por conta de sua experiência como escritor de peças de teatro - acho eu -, Oscar Wilde prepara demais o terreno para o ponto principal da trama - o quadro que envelhece. Apenas por volta do quinto ou sexto capítulo comecei a pescar frases e diálogos realmente interessantes no livro. Apenas no sétimo se dá a primeira mudança na pintura. A partir daí, salvo um trecho demasiadamente longo - porém divertido, em certas partes - no qual a história pára apenas para descrever em minúcias alguns apetrechos colecionados pelo protagonista, o autor deve ter percebido que terminar o livro talvez fosse uma boa idéia e engatou a segunda.

A tradução que tenho em mãos merece menção. Foi feita em 1919, por um tal João do Rio, autor que desconheço, se me perdoam a franqueza (e a ignorância). A edição, entretanto, não é antiga: foi impressa em agosto do ano passado e é da Editora Hedra. A decisão de fazer uso de uma versão tão antiga do texto traduzido é longamente explicada na introdução do livro, que tem bem umas 15 páginas (e que eu não tive saco pra ler até o fim), e passa longe de ser uma má escolha. Em comparação com alguns trechos que li em inglês, o estilo de escrita, dadas as devidas diferenças entre os idiomas, se mantém praticamente inalterado.

O que quero dizer é o seguinte: acredito ser muito difícil não deixar certos aspectos da sua personalidade transparecerem naquilo que você escreve. Sou, por exemplo, incapaz de redigir qualquer coisa que não soe sarcástica ou rabugenta. Esse sou eu, afinal de contas, e, por mais que seja capaz de filtrar tais defeitos ao conversar com alguém pessoalmente, não vejo como dirimi-las nos meus textos.

Oscar Wilde, por sua vez, devia ser um sujeito extremamente afetado, e não sei se era assim por ser inglês ou por ser viado. E João do Rio, que não sei se também era viado, mas sei que não era inglês, foi capaz de manter toda a afetação presente em sua tradução.

Lógico que isso não é um defeito, tampouco uma qualidade, a menos que você seja homofóbico ou goste muito de uma bichice. É apenas uma peculiaridade (facilmente) perceptível.

Algumas passagens do texto são tão interessantes que, sempre munido da minha lapiseira, chego a grifar os trechos que mais gosto. Transcrevê-los-ei abaixo:

“O único processo pelo qual uma mulher chega a reformar um homem é o da importunação a ponto de perder ele todo o interesse possível na existência”

“Quando nos censuramos, supomos que nenhum outro tem o direito de fazer o mesmo.”

“Há sempre qualquer coisa de ridículo nas emoções das pessoas que já deixamos de amar.”

“A experiência não tem valor ético. É somente o nome que os homens dão a seus erros.”

“Os únicos artistas que conheci pessoalmente deliciosos eram maus artistas. Os verdadeiros artistas só existem no que produzem e, conseguintemente, as suas pessoas não oferecem interesse algum. (…) Os poetas inferiores são os homens mais sedutores. O simples fato de haver publicado um livro de sonetos de segunda ordem torna um homem perfeitamente irresistível. Este vive o poema que não consegue escrever; os outros escrevem o poema que não ousam realizar.”

“Os verdadeiros fúteis são os que amam só uma vez na vida. O que eles chamam a sua lealdade ou fidelidade eu classifico o sono do hábito ou a sua falta de imaginação. A fidelidade é para a vida sentimental o mesmo que a estabilidade é para a vida intelectual - simplesmente uma confissão de impotência. A fidelidade! (…) Há nela a paixão da propriedade. Abandonaríamos muitas coisas, se não tivéssemos o receio de que outros as recolhessem.”

O livro todo já mereceria atenção só pela primeira frase.

Leia. Wilde é um sujeito que sabe o que diz.