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Shades of revolution*

Quando você é um sujeito de pavio-curto, com propensão a não se esquivar de conflitos - tendo por hábito abraçá-los, algumas vezes - e minimamente eloqüente nos seus momentos de ira, provavelmente terá, em boa parte dos seus amigos e conhecidos, admiradores dessa inflexibilidade, da sua capacidade de dizer o que pensa, indo direto ao ponto, evitando eufemismos. Desse seu jeito escroto, enfim.

Gente escrota é muito legal. Gente escrota é engraçada, porque diz às pessoas inconvenientes o que todo mundo tem vontade de dizer. Pessoas escrotas têm a coragem que nós não temos, ignoram as amarras sociais que nos impedem de falar com franqueza. E pessoas escrotas e eloqüentes não só fazem tudo isso, como ainda falam bonito no processo. Por isso tipos como o House fazem tanto sucesso. Porque essas pessoas são legais de se ver.

De se ver.

No momento em que é você a criatura voando na linha do radar daquele seu amigo escroto que todo mundo acha tão divertido - você inclusive -, na hora em que é você que ele fustiga com aqueles olhos raivosos, dardejando insultos antes mesmo de abrir a boca… ah, aí não é mais tão legal. Aí não é divertido. Aí ele deixa de ser aquele escroto eloqüente e é só um escroto. Não é mais seu amigo legal que tem histórias divertidas das vezes em que foi escroto. Não. Ele é só mais um escroto nesse mundo escroto cheio de gente escrota.

No cu dos outros é sempre tão refrescante…

Mas o negócio, meu camarada, é o seguinte: quem refresca cu de pato é lagoa. E um dia é o teu que tá na reta. É você que vai dizer algo, fazer algo, pensar algo, ou respirar de tal maneira que aquele escroto não vai gostar. E não é que ele tenha se aborrecido, ficado puto, tido um ataque ou qualquer coisa assim. Ele vai te dar um esporro mesmo estando perfeitamente calmo e passar a tocar um foda-se pra você simplesmente porque é um escroto. Ele é um escroto, porra! O que você esperava?

Gente escrota é escrota por uma razão bem simples: porque não dá aos outros muito valor. E algumas pessoas vão ficando mais e mais escrotas porque vão dando aos outros cada vez menos valor. É provável que isso tenha um limite. Deve haver um ponto a partir do qual não dê mais pra simplesmente desprezar as pessoas e seja necessário sentir por elas alguma outra coisa, qualquer coisa que faça com que elas valham algo. Ainda não enxergo esse ponto, tenho muita corda pra deixar correr até lá.

Nunca fui um cara muito bacana, mas ao menos tinha alguma noção das coisas. Eu dava às pessoas um certo valor, tinha algumas em alta conta, até. Considerava meus amigos importantes. E atualmente, o que eu faço? Não faço! Me desfaço! E pelos motivos mais estúpidos, mais rasteiros, mais superficiais. Antes alguém precisava me irritar excessivamente para que eu resolvesse que não havia mais condições de conviver com aquele ser humano. Atualmente, qualquer fagulha de irritação me faz ligar o foda-se em potência máxima. Ninguém mais parece suficientemente digno de receber indulgências.

Mas a voz, aquela voz na minha cabeça que me admoestava com severidade por esse tipo de coisa, parece ter entrado de férias. Ou resolveu cantar em outra freguesia, numa que não dê tanto trabalho. Nem me arrepender eu consigo. Nos momentos em que me ocorre que eu poderia telefonar pr’aquele amigo com quem fui escroto há algum tempo, ou mandar um e-mail àquela amiga que nunca entendeu o que fez de errado para tomar de mim patada tão repentina, tem sempre uma outra voz que diz “Ah, que se foda.”

Aí eu relembro as últimas conversas que tive com essas pessoas, que só não partiram para a troca de insultos porque elas tiveram o bom-senso de se retirar com a elegância que me falta, e uso isso pra alimentar essa gigantesca fornalha que sopra grossas nuvens negras de raiva dentro do meu sistema, mantendo-o alimentado e ativo.

E em qualquer canto desse complexo, afogado nesse torrencial de sentimentos desagradáveis que virou a minha vida - porque antes eu tinha momentos de raiva, agora eu tenho raiva, pura e simples -, tem aquele cara que grita “Ô, Pedrão, esse aí não é você”. Mas ele está mais e mais enganado a meu respeito a cada dia que passa.

* Era o que tava tocando enquanto eu escrevia.

Rotas paralelas

Tenho essa idéia a respeito de certas pessoas que eu não conheço e que fazem coisas que, de acordo com meu entendimento, não deveriam estar fazendo. Fico olhando pra essas pessoas, pensando nelas por horas a fio (de verdade, faço mesmo isso!) e imaginando que talvez o que faltou na vida delas foi um amigo de verdade, pra olhar nos olhos e dizer, com toda a sinceridade: essa não é a sua praia, você não tem esse talento.

Porque só um bom amigo faz algo assim. Diz que você foi um escroto quando agiu escrotamente, que você foi injusto ao agir injustamente, que foi prepotente, intolerante, ignorante, estúpido ou que está fazendo uma coisa para a qual não foi talhado. É lógico que inimigos dizem isso com muito mais freqüência, mas eles dirão sempre, não importa o que você faça. De um amigo, deduz-se que uma informação dessas seja a voz da verdade. Teoricamente, o último desejo de um amigo é ferir seus sentimentos, ainda mais de forma deliberada. Te criticar pelo prazer de criticar não é o que ele pretende, mas te ajudar a ver seus erros e a corrigi-los.

Teoricamente.

Eu imaginava que essa era uma tarefa fácil, também. Crítico que sou, pensava que, conhecendo aquelas pessoas que cantavam sem saber cantar, escreviam sem saber escrever, desenhavam sem saber desenhar, seria só torcer o nariz e dizer “Cara, isso aqui tá muito ruim, sequer tem potencial pra melhorar. Larga esse lance, não é pra você, vá fazer outra coisa!”. Faço isso comigo mesmo o tempo todo, me recriminando pelas escolhas que faço, me esculhambando pelas pisadas na bola que cometo, por me meter a dizer sem saber o que digo, a fazer sem saber o que faço. O que me impediria de fazer com os outros?

Pois é difícil. Muito, muito difícil. Não consigo, não sei como fazer, como indicar o caminho que alguém está seguindo e gritar “EI! VOCÊ PEGOU O RUMO ERRADO! FICOU IDIOTA DE REPENTE?”. Vejo amigos enveredando mais e mais para a idiotia final, para aquele ponto sem retorno em que você pode apontar e dizer “Eis aí um belo exemplar de beócio!”, como um assistente de zoológico mostrando os animais enjaulados numa visita guiada. E vejo impassível, sem nada fazer para evitar.

Imagino se sou eu que espero demais das pessoas, que presumo que pelo fato de considerar alguém inteligente, essa pessoa há de tocar a própria vida de forma inteligente, sem cagar tudo pelo caminho de maneira tal que pareça irremediável. Talvez seja. Ou talvez haja alguma outra explicação que me faça entender por que razão tantos dos meus conhecidos vêm se mostrando cretinos contumazes, ultimamente. Eles pioraram? Eu melhorei? Eu piorei e eles melhoraram? Pioramos ambos? Melhoramos ambos, um para cada lado? Não sei dizer.

O que eu sei é que aí estão alguns dos meus amigos, correndo em direção ao prêmio de maior idiota do mundo, e eu não faço nada. Apenas sento e observo, impotente. Me faz lembrar uma tirinha em quadrinhos que vi um tempo atrás, em que um sujeito dizia a outro: “Se você não fosse tão idiota, eu poderia te dizer quão idiota você é!”.

Uma pessoa dessas, que deixa de ouvir a voz do próprio bom-senso, vai ouvir a minha? Duvido.

Só resta me afastar, caminhar em direção a outras convivências. Com a esperança de que essas tenham mais visão e noção das coisas do que as outras, com as quais perdi tanto tempo. Ou então - opção que venho seguindo atualmente - simplesmente abraçar a solidão e seguir com ela, como num daqueles filmes bregas, rumo ao pôr do sol. A solidão é o que é, não é inteligente ou burra, boa ou ruim. Como ela se parece, como se pinta, como se apresenta… tudo isso fica nos olhos de quem vê.

A idiotia também, alguns podem dizer, argumentando que há, da minha parte, certo grau de intolerância. Sim, há da minha parte um BELO grau de intolerância, um grau e tanto, impressionante até para mim. Mas a idiotice grita sua presença aos meus ouvidos com tal força que me desconcerta. A solidão é silenciosa.

Então fico com ela.

Gestão de guerra

Em plena aula de gestão de projetos - veja só, GESTÃO DE PROJETOS, ok? - meu professor de GESTÃO DE PROJETOS!, formado no ITA, milico da aerunáutica, começa a discorrer sobre como os militares estão sendo sucateados, e como isso é uma grande sacanagem. Palavras dele, juro: “Vejam a diferença entre o que os militares ganhavam há 30 anos e o que eles ganham hoje, entre os benefícios que tinham então e os que têm agora”. Aparentemente, alguém esqueceu de avisar esse camarada que há 30 anos os militares, graças a um golpe aplicado em 1964, mandavam e desmandavam nesse país, matando gente à revelia e expulsando compatriotas. Inclusive, vejam só que notável, aliando-se a OUTROS governos ditatoriais, de modo a trocar informações sobre esses mesmos foragidos. “Mate os meus que eu mato os seus”. Nada mais bonito, nada mais cristão.

De acordo com ele, a única forma de se impor, crescer e ganhar respeito é pela força - e não apenas militar, se considerarmos determinados exemplos citados e que me recuso a transcrever, pois não quero que imaginem que podem ser palavras ou idéias minhas. Ou seja, também não avisaram o cidadão que já criaram uma ferramenta chamada diplomacia, baseada em conceitos meio esquisitos, conhecidos como diálogo e acordo, e que pressupõe que é possível chegar a um consenso entre partes com objetivos dissonantes através do bom-senso, da educação e da boa-vontade. E que é nisso que se baseia um outro conceito - esse muito amplo, que figura entre outros de sentido igualmente indefinível, mas reconhecidos como princípios notáveis e calcados em sabedoria - conhecido como “civilidade”.

A partir desta premissa extremamente improvável iniciada pelo professor, alguns alunos sentiram-se livres para externar opiniões tão - ou mais - absurdas quanto. Surge, daí, uma grande discussão, embora discussão não seja o termo, visto que todos concordavam com todas as estultices expostas. Opiniões inesperadamente cretinas pipocam de todos os cantos, sobre a importância do poderio militar e a necessidade que um país grande como o Brasil tem de poder fazer guerra com outras nações da América Latina, caso venham a cometer a imprudência de desrespeitar nossos interesses.

O que eu deveria fazer, diante de um quadro desses, é intervir dizendo como tudo aquilo sendo dito é estúpido. Como a guerra é uma opção inaceitável, como a violência é injustificável, sob qualquer ponto de vista, e como um país bem-organizado troca conhecimento, tecnologia e soluções sociais, e não chumbo grosso e explosivos. Ou, sendo um tanto mais sarcástico, seria possível ironizar, falando sobre como a guerra é uma coisa bonita de se ver e como eu esperava que, nos próximos anos, o governo caísse em si, reforçando as forças armadas e retornando para elas o poder absoluto, as rédeas do país. Mais: eu também iria torcer, com todas as minhas forças, para que os filhos de todos aqueles que demonstravam tantos brios nacionalistas e tanto apreço pelo poderio bélico fossem à guerra, fuzilar uns gringos, estuprar umas mulheres estrangeiras, saquear espólios de guerra, dominar outros territórios e até trazer alguns escravos, por que não?

Poderia ter dito tudo isso, mas não disse. Levantei e saí de sala.
Com a estupidocracia não se discute.

Pedagogia paterna

Meu telefone toca por volta das 11 horas. De domingo.
Eu não acordo feliz.

Olho pro display, na esperança de ver um número que minimize minha irritação. Não há número, chamada confidencial. A irritação é elevada à segunda potência. Atendo, ainda assim. Não há razão para perder a oportunidade de ser grosseiro com quem me incomoda, afinal de contas.

Chamada a cobrar. A irritação, agora mais corretamente classificada como fúria, eleva-se à enésima potência, mas me controlo como dá. Espero a musiquinha terminar. Uma voz desconhecida, que bem poderia ser de mulher, mas também poderia ser de criança, diz alô. Eu respondo, com a sutileza de um Cruzado atacando um soldado de Saladino diante das muralhas de Jerusalém:

- Quem é?
- Pai…

Diante do fato de que não tenho filhos, noto que isso há de ser um engano ou um golpe, com maior probabilidade para a segunda hipótese. Qualquer pessoa sensata desligaria o telefone imediatamente.

Não é o que faço. Dou corda, mudando a entonação, deixando a voz o mais melíflua possível:

- Ô, filhote! É você?
- Me ajuda, pai!
- Não, não! Se fode aí, guri. É bom pra você, vai construir seu caráter!

Desligo e volto a dormir, agora mais tranqüilo.

Em púbico

(Ah, nada como trocadilhar no título… e se “trocadilhar” não existia enquanto a nível de verbo, passa a existir agora. Ficam revogadas todas as disposições em contrário.)

Qual o grande medo das pessoas? Qual o MAIOR medo das pessoas? Não é morrer. Estatisticamente, o que as pesosas mais temem é falar em público.

Sério, é provado. Sabe aquelas pesquisas ridículas que os ingleses adoram fazer? Tipo “os dentes dos donos de cachorros têm 0,85% mais cáries do que os dentes das pessoas que criam gatos” e tal? Então. Provaram que as pessoas têm mais medo de falar em público do que de morrer. Pelo menos as pessoas que eles entrevistaram, mas vamos acreditar que esse grupo selecionado para amostragem represente de fato o padrão.

Mas por que as pessoas têm medo de falar em público? Por quê? Porque não querem ser mal-recebidas. Têm medo dos outros rirem delas, ou de não rirem, caso a intenção seja essa. Têm medo de ser ridicularizadas. Até aí eu entendo, parcialmente, claro. O que eu não entendo é quem diz que tem medo das vaias.

O que tem de errado na vaia? Qual o problema com uma renca de gente fazendo “UUUUUUUUUUU” pra você? O que tem de errado com “UUUUUUUUUUU”? Não há nada de errado com “UUUUUUUUUUUUU”. Se você pensar bem, palma é um troço bem mais agressivo. Ninguém vai te machucar fazendo “UUUUUUUUUUUUUUUU”, mas tem umas pessoas que batem palmas com tanta vontade que se uma mãozada daquelas pega na sua cara, já era.

Daí você vai pra estatística que diz que quem fala em publico leva porrada sete vezes e meia mais forte do que quem fica quieto no seu canto.

Mas enfim. Como é que você faz pra se proteger desse lance de ser mal-recebido pelo público, de chegar numa boa e, apesar de todas as suas boas intenções, ser destratado? Simples.

Você NÃO chega numa boa.
Já sobe no púlpito, palanque, palco ou seja o que for assim, ó:

- Vão tomar no cu. Cambada de filhos da puta.

Qualquer merda que o público fizer com você depois disso vai ser plenamente justificável e compreensível. Você vai saber exatamente do que eles não gostaram. Depois é só não fazer de novo.

Você percebe que é hora de dormir quando…

…está tão puto com tantas coisas diferentes, tão inacessíveis no momento, que a única forma de conseguir externar parte disso é apontar a metralhadora verbal pro teu blog e pra todos os seus amigos, que, como os macacos retardados de imitação que são, ficam “twittando” imbecilidades uns com os outros.

Messenger e SMS servem pra isso, seus retardados do caralho.

Tománocu, já tive mais respeito por vocês.

Boa noite.