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Das infrações espontâneas

É curioso que exista quem diga por aí que as pessoas têm o direito à felicidade. Que merecem ser felizes como acharem melhor. Direito à felicidade todo mundo tem, de fato. O que não se tem direito é à infelicidade.

Ninguém pode ser infeliz. Ser infeliz é uma afronta. Falar pouco, não querer conversar, permanecer cabisbaixo, se sentir miserável… isso não pode. É acintoso, é contra as regras, é imoral. Há de ser ilegal, qualquer dia. Se estiver disposto a adotar tal comportamento, prepare-se para as críticas.

Ninguém gosta de tristonhos. Ficar assim é repreensível, ser triste é inaceitável. Não é que você POSSA ser feliz: você DEVE.

E eu sei, existem alguns infelizes intoleráveis por aí. Gente que adora derramar suas lamúrias em cima dos outros, que vai atrás de conhecidos e desconhecidos para se queixar de suas desventuras na vida, que usa a infelicidade como desculpa para todas as cagadas que faz, todas as imprudências que comete. Que esses sejam considerados inconvenientes é perfeitamente compreensível. Mas há os que não se manifestam, que se isolam, permanecem calados, embora mantenham-se cumpridores de suas responsabilidades. Não demonstram ânimo ao fazer nada e tudo é executado a duras penas, mas o que importa é que os resultados são obtidos! Não se desfazem em queixumes nem quando são questionados. Se reclamam é lá, no canto deles. Quem fica pra ouvir é porque foi atrás.

E desses ainda é cobrada alegria e jovialidade. Ao que me parece, todos temos que correr sorridentes pela rua, cantando canções da noviça rebelde e agindo como coadjuvantes do filme da Mary Poppins. Devemos ser Pollyanas e manter uma postura otimista e uma visão esperançosa. Não se pode baixar a cabeça. Daqui a uns dias o governo vai começar a colocar antidepressivos na nossa água. Ser infeliz é traição.

E quem dera a traição fosse punida com a morte. Antes isso a toda essa encheção de saco que sofre quem não procura nada além de ficar sozinho e ser deixado em paz…

Das raízes súbitas

Despropositou-se meu propósito. Porque se antes eu dizia não saber a que se destinava aquele rolete de dinheiro, se mostrava certa hesitação quanto ao que fazer com aquilo, ainda havia aquela voz que me dizia exatamente o que fazer, e eu obedecia. Era só questão de tempo, de juntar maior soma, de aumentar a reserva e partir. Não havia destino nenhum, era só partir e pronto. A estrada não te pergunta pra onde você vai, quem se pergunta isso é você. E se, saindo um pouco desse ensimesmamento, dessa postura umbiguista de só ouvir a voz na sua cabeça, você se permitir ouvir a estrada, o que ela faz não é uma pergunta. Não indaga “Para onde você vai?”. O que ela diz, o que afirma, a ordem que dá, direta, sem rodeios, é “Venha!”.

Essa ordem ribombava na minha cabeça novamente no último ano e meio, e pretendia acatá-la, mas acovardei-me. Porque se antes minha intenção era sumir e perder meus lastros, soltar as amarras e viver à deriva por alguns dias, ou semanas, ou meses, ou talvez pro resto da vida, agora não tenho mais coragem. Porque se tivesse levado a idéia a cabo quando surgiu, se tivesse feito a mochila e partido, e se o desenrolar dos acontecimentos fosse o que foi, se um dia retornasse, não sei qual seria minha reação ao saber tardiamente de tudo, mas tenho aqui uma idéia do quanto pesaria minha consciência e de qual seria a profundidade do meu arrependimento. Seria imensa e intolerável.

E se eu for, agora, e as coisas tornarem a caminhar assim? E se não houver quem me avise da situação? E se eu não voltar a tempo? Se souber tarde demais? Fica claro que meu princípio estava errado. Devia ser adeus desde o começo, e não era. Era só um até logo. Adeus foi agora. Adeus aconteceu um mês atrás. Adeus é muito mais pesado do que consigo suportar, e só o tolero porque, oras, qual minha outra opção?

Então agora é isso. Queria ficar desvinculado. Agora fiquei e tento me prender às coisas mais do que nunca. Tinha tudo e queria ver como era não ter nada. Foi-se um pedaço, e me acovardo diante da perspectiva de perder o resto. Porque quem sabe o que diz é o velho Saramago, quando afirma, em O ano da morte de Ricardo Reis, que “o pior mal é não poder o homem estar no horizonte que vê, embora, se lá estivesse, desejasse estar no horizonte que é!”.

E sim, este blog agora é monotemático, porque minha cabeça é monotemática. Mudarei deste assunto funesto quando o assunto funesto se mudar de mim.

Da civilidade

Nêgo insiste em querer “conversar civilizadamente” comigo. “Vamos conversar civilizadamente”, dizem. O que eu sou, cacete? Um merovíngio? Um nortista bárbaro e cabeludo, seminu, brandindo uma espada, cercado por espólios de batalha e vítimas desmembradas?

Nunca levei jeito pra esses lances schwarzeneggerianos. Essa vida de Conan não é pra mim.

Mas admito que civilidade não é meu forte, pelo contrário: me saio muito melhor em situações nas quais a educação já virou as costas e, colocando na cabeça seu belo chapéu social de feltro, abandonou o recinto, despedindo-se discretamente na saída. Tão discretamente a ponto de ninguém notar. Comigo, a educação funciona assim: quando você se dá conta, ela já não está mais presente. No lugar daquela figura agradável, simpática e dócil há um hooligan grosseiro, meio bêbado, entoando gritos de torcida e babando um palavreado capaz de fazer um irmão caminhoneiro se sentir desconfortável.

De todo modo, o que eu imagino que as pessoas querem dizer quando me pedem pra “conversar civilizadamente” é “pega leve, ok?”. E por “pega leve”, concluo que estão querendo estabelecer cinco regras básicas. Mais ou menos assim:

1. Favor não escarnecer
2. Utilize palavrões o mínimo possível
3. Evite suas analogias irônicas
4. Não seja cruel
5. Sinceridade em doses homeopáticas, por gentileza

Ou seja, “Não seja tão você”.

Não escarnecer, não usar palavrões, não fazer analogias irônicas, não ser cruel e não ser brutalmente sincero. Porra. Querem conversar a respeito DO QUÊ? Do tempo lá fora? Porque é impossível discutir um problema de relacionamento sem uma boa dose de análise, e eu não sei ser analista se não for incisivo. Sofro dessa deficiência.

Notas:

Gabi e Leonardo, nos comentários do post abaixo, parecem acreditar que é possível agir de forma amotinada impunemente nesta baiúca (notem o acento - chupa, reforma ortográfica!). Num dia normal eu consideraria com prazer a idéia (impraticável, principalmente pela distância) de deslocar quatro ou cinco juntas desses vermes e deixá-los curtindo a sensação de ter vidro moído entre as articulações. Hoje é um dia normal. Mas a idéia, já disse, é impraticável. Portanto vou me resignar a rebater as baboseiras ditas, só por esporte: os feeds não eram regulados para que alguém viesse até aqui ver o layout do blog, até porque uma pessoa que adiciona esta porcaria em seu agregador (nota mental: usar isso como analogia para mandar alguém introduzir algo em algum orifício) precisa, antes, passar aqui e ver a aparência. E a aparência nunca foi o forte desta página - em um claro reflexo de quem escreve -, o que interessa aqui é o… o… hm. Então. O que interessa aqui é a… aquele… o… essa…

Bom, nada, eu acho.

Continuando. A limitação dos feeds era, além de uma forma divertida de incomodar os leitores e mostrar quem manda nesta porra - hábito que alimento desde meu primeiro blog, o bom (figura de linguagem, apenas) e velho (interneticamente falando, claro) Butequim -, também um jeito de mantê-los coerentes.

A meu ver, a incoerência em relação a feeds é que as pessoas dizem usar esse recurso para “poupar tempo”. Dentro da minha percepção das coisas, você precisa administrar seu tempo de forma produtiva e agilizar suas atividades diárias quando - e apenas quando - tem uma agenda tão apertada que não pode perder 5 minutos da sua existência navegando a esmo por uma página, buscando o texto que quer ler. Uma pessoa ocupada a tal ponto, sinceramente, sequer deveria estar lendo blogs. Ainda mais ESTE blog, que não tem qualquer relevância na Meritocracia Informal da Internet®. Logo, nenhum dos meus leitores é TÃO ocupado, e tamanha resistência a clicar em um link pra ler o texto completo é apenas um sintoma do mal secular ao qual dá-se o nome de preguiça.

Meu uso de feeds é meramente para fins organizacionais. Não me preocupo com tempo, mas tenho memória de peixe e sei que esqueço de verificar páginas com regularidade. Então uso o Google Reader pela praticidade de chegar em casa à noite, depois do trabalho, e saber quem atualizou o quê. A partir daí, abro todos os links em abas e leio cada blog em sua respectiva página. Por isso o corte no rss do utops: para forçar todo mundo a agir da mesma forma que eu. É ditatorial, eu sei, mas se você não tem tempo para clicar em um link e ler com cuidado, não leia. Vá fazer outra coisa com seu preciosíssimo tempo e sua ocupadíssima vida. Juro que não vou chorar sua ausência.

Em suma: não dou a mínima pra contadores, pra aparência do blog, pra nada disso. Meu prazer é incomodar vocês.

Jaime avisa que atualizará essa joça. Jaime sabe o que faz, portanto não me meto, deixo as decisões a critério dele. O que faço aqui é escrever, apenas, portanto escrevo. O layout deste blog não é importante (tampouco os textos, mas não consideremos isto), já que vocês curtem um feedzinho babaca, bando de preguiçosos que são. Mas aviso apenas para os que se surpreenderem ao esbarrar com mudanças por aqui: não se surpreendam, pois. O K2 - esse layout (não a segunda maior montanha do mundo, no Himalaia, com 8.611 metros de altura) - é bacanudo em sua organização e tal, mas tem que sair, porque é totalmente psicótico e neurastênico (combinamos, eu sei) e surta com tudo.

Sério que alguém ainda acha essa coisa nojenta chamada de “tiopês” minimamente engraçada? Alguém ainda ri de “pegael”, “meldels” ou da batidíssima “comofas”? Alguém mais aí enxerga que isso é “humor” (perdoem pelo uso leviano do termo) de Praça É Nossa, que são chavões sem nenhuma graça repetidos ad nauseam por gente que não sabe ser espontânea, mas não se conforma? Vai ser preciso alguém criar um personagem no Zorra Total que fale “q”, “brinks” e assemelhados pra vocês se darem conta do quanto suas risadas espasmódicas são deploráveis e forçadas?

Mulheres, pelo amor de deus, PAREM de falar como os viados! Parem de usar gírias de viados, de usar expressões como “Mara!”, chamar umas às outras de “bee” ou se referir a homens como “bofe”! Ok, o time masculino vem diminuindo consideravelmente nos últimos anos, muitos dos nossos membros passaram a integrar o lado róseo da força recentemente, outros tantos estão encaminhados. Entendo esse esforço que vocês fazem, procurando parecer interessantes a quem já está com um pé do outro lado da linha, mas lembrem-se que muitos ainda estão aqui, honrando a camisa e mantendo um legítimo e intenso interesse no sexo OPOSTO. E quando o sexo oposto começa a falar e se portar como as criaturas do mesmo sexo, qual é a graça? Se querem imitar os gays em alguma coisa, comecem a dar a bunda com desenvoltura. O resto, por favor, é assunto deles.

Debut

No cada dia mais distante ano de 1993, naquela era pré-internet já esquecida pelo tempo, eu cursava então a quinta série no colégio Marista. Porque eu estudei em colégio católico, e nada melhor do que esse fato para explicar minha falta de fé e aversão à religião. O assunto, entretanto, não é esse. Sigamos, pois.

Estudei quatro anos no marista, de 1990 a 1993, da segunda à quinta série. A existência era mais simples. Após uma vida de estudos vespertinos, tive que mudar para o horário matutino, e estava aí minha única preocupação: como fazer para conseguir acordar cedo? Tal aborrecimento ainda me persegue, sendo eu um homem de madrugadas, e não de manhãs, mas quem dera fosse o único.

Ia todo dia para o colégio em uma condução, junto com minha irmã mais velha, que fazia a oitava série, e foi um ano de dificuldades com o sexo oposto. Começavam os primeiros contatos mais complexos com essas criaturas de dois cromossomos X e tudo o que elas diziam ou faziam estava cheio de significados a serem decifrados. Dos moleques da minha idade, alguns começavam a demonstrar maior facilidade para trafegar nesse torrencial de informações cifradas, outros mostravam pouquíssima aptidão. Alguns ainda não davam a menor bola - e desconfio que, desses, há os não ligam para isso até hoje.

Marista, Quinta Série, 1993
O jovem Pedro Nunes e seus colegas de 5ª Série, esperando o bonde da puberdade.

Eu era dos que mantinham um pé atrás. Interesse havia, mas coragem? Aí já seria querer demais! Da minha turma, posso dizer que 75% dos alunos estavam na minha sala desde a segunda série. Apesar disso, com a maioria das gurias eu nunca tinha trocado palavra. Timidez crônica tem dessas coisas. Além do mais, eu morava com uma adolescente, oras, sabia exatamente que tipo de crueldade poderia brotar daquelas viperidae. Me contentava em observar de longe, e acreditava que meus objetos de apreciação não dedicavam, a mim, sequer um segundo de seus pensamentos pré púberes. Isso não me aborrecia. Que fosse platônico, e já era perfeitamente aceitável. Até porque o colégio não admitia pegação entre a pirralhada da quinta série (os da sexta já eram tratados com maior tolerância).

Então um dia alguém me mandou um bilhetinho.

Era uma dobradura bem arrumadinha e bastante complexa. Tive dificuldades para desfazer aquilo tudo sem rasgar. Cheguei da educação física e estava ali, dentro do meu caderno, aquela carta misteriosa. A princípio pensei que fosse algum moleque me sacaneando, mas menino nenhum, ainda mais com aquela idade, seria capaz de escrever com uma letrinha tão arrumada e fazer tão caprichosa dobradura. Ainda que algum dos outros pivetes fosse capaz daquilo, duvido que qualquer deles ousasse carregar consigo, mesmo que para sacanear um colega, uma folha de papel de carta com florzinhas e ursinhos. Era suicídio, caso alguém da sala descobrisse.

Por fim abri o bilhete e li - admito que com certo enfado, pois tinha certeza que havia alguma coisa errada. Mas não havia. Meu nome estava ali, escrito claramente naquela caligrafia impecável, com caneta lilás, e a mensagem era breve. “Quero conversar com você”, seguida de intimação de comparecimento à porta traseira do ginásio. Conversar comigo? Por que diabos alguem quereria conversar comigo? Nunca ninguém quisera conversar comigo. Só meu pai e minha mãe e minha vó, mas esses três não contavam. O que eles queriam era me dar um esporro, quando diziam que queriam conversar comigo. “Quero conversar com você”, quando se tem 11 pra 12 anos, nunca é um bom presságio…

Passei a aula seguinte, que me separava do momento de revelação, cabreiro pra cacete, observando disfarçadamente cada uma das pessoas na sala, esperando que alguém se denunciasse. Um olhar matreiro, uma risada fora de hora, qualquer coisa seria suficiente para deixar claro que me pregavam uma peça. Não notei nada fora do comum e tomei uma bronca da professora de história por não dar atenção ao que ela dizia. Minha observação disfarçada não era tão disfarçada, afinal.

No intervalo, agi o mais tranqüilamente quanto pude. Não planejava me atrasar pra fazer charme, nem foi para bancar o difícil que demorei tanto a comparecer ao local do encontro às escuras. Estava amedrontado mesmo, dividido entre ignorar a mensagem, para não fazer papel de bobo, ou ir até lá e descobrir quem tinha me mandado o tal bilhete. Acabei indo, depois de considerar seriamente - tão seriamente quanto pode considerar um guri de 11 anos - o que fazer.

Cheguei lá e levei um susto. A um canto, reuniam-se quase todas as meninas da minha sala. Olhavam fixamente para mim enquanto chegava. Entre elas via um ou outro dos moleques de procedência duvidosa que sempre andavam com as meninas. Eram alcoviteiros, era isso que eram, mas não foi o que pensei na hora, até porque não conhecia esse termo. O que pensei na hora foi em sair correndo, mas tinha um nome a zelar. Segui em frente. Parei diante do grupelho. Olhei ao redor com jeito de quem desafia alguém a sair dali, cruzar a linha, pisar no cuspe e sair no braço.

Adiantou-se a Aline.

Aline era uma menininha pequenininha desde sempre, daquelas que sentam na primeira carteira da coluna de mesas, colada na mesa do professor; que ficam sempre na ponta da fila organizada pelos professores no pátio; das que ajudam a hastear a bandeira no mastro central da escola nos eventos cívicos; daquelas, enfim, protegidas pelos professores e adoradas pela direção, papel oposto ao que eu representava, sendo o pária desorganizado e boca-suja que era, sempre recriminado por ser respondão e topetudo. Tirava notas boas - falo de mim, a Aline não sei, nunca fui de me preocupar com o boletim alheio -, mas era incapaz de parar quieto, e imagino que professores e coordenadores de ensino fundamental e médio preferem um aluno vegetativo repetente a um amotinado com boas notas.

A Aline, como eu disse, se adiantou. Olhei para ela de cima - coisa rara para mim, na época (e agora, também, mas deixemos isso de lado) - e perguntei, muito sério, se era ela que queria falar comigo. Aline olhou para trás, para aquela horda de meninas, que começavam com suas risadinhas insuportáveis de meninas, aquele tipo de risadinha que faz qualquer menino se sentir ridículo e insignificante, então virou-se para mim e respondeu afirmativamente. Arrematou, olhando nos meus olhos:

- Eu te amo!

Quinze segundos de silêncio que pareceram dez anos. As risadinhas explodiam lá atrás, Aline enrubescia diante dos meus olhos. De repente silêncio, todos esperavam pela minha resposta, querendo ver minha reação. Eu, na crença inabalável que estava sendo sacaneado, segurei uma das mãos da menina na minha frente e respondi com toda a verve que tinha aos 11 anos - e aos 11 anos eu já era muito vivaz:

- Ah, vá se foder!

Virei as costas e retornei para a sala. Tocava o alarme.

Tenho, desde então, meu nome escrito em letras garrafais no mural dos escrotos (e pena da Aline, acho que ela falava sério…).

Shades of revolution*

Quando você é um sujeito de pavio-curto, com propensão a não se esquivar de conflitos - tendo por hábito abraçá-los, algumas vezes - e minimamente eloqüente nos seus momentos de ira, provavelmente terá, em boa parte dos seus amigos e conhecidos, admiradores dessa inflexibilidade, da sua capacidade de dizer o que pensa, indo direto ao ponto, evitando eufemismos. Desse seu jeito escroto, enfim.

Gente escrota é muito legal. Gente escrota é engraçada, porque diz às pessoas inconvenientes o que todo mundo tem vontade de dizer. Pessoas escrotas têm a coragem que nós não temos, ignoram as amarras sociais que nos impedem de falar com franqueza. E pessoas escrotas e eloqüentes não só fazem tudo isso, como ainda falam bonito no processo. Por isso tipos como o House fazem tanto sucesso. Porque essas pessoas são legais de se ver.

De se ver.

No momento em que é você a criatura voando na linha do radar daquele seu amigo escroto que todo mundo acha tão divertido - você inclusive -, na hora em que é você que ele fustiga com aqueles olhos raivosos, dardejando insultos antes mesmo de abrir a boca… ah, aí não é mais tão legal. Aí não é divertido. Aí ele deixa de ser aquele escroto eloqüente e é só um escroto. Não é mais seu amigo legal que tem histórias divertidas das vezes em que foi escroto. Não. Ele é só mais um escroto nesse mundo escroto cheio de gente escrota.

No cu dos outros é sempre tão refrescante…

Mas o negócio, meu camarada, é o seguinte: quem refresca cu de pato é lagoa. E um dia é o teu que tá na reta. É você que vai dizer algo, fazer algo, pensar algo, ou respirar de tal maneira que aquele escroto não vai gostar. E não é que ele tenha se aborrecido, ficado puto, tido um ataque ou qualquer coisa assim. Ele vai te dar um esporro mesmo estando perfeitamente calmo e passar a tocar um foda-se pra você simplesmente porque é um escroto. Ele é um escroto, porra! O que você esperava?

Gente escrota é escrota por uma razão bem simples: porque não dá aos outros muito valor. E algumas pessoas vão ficando mais e mais escrotas porque vão dando aos outros cada vez menos valor. É provável que isso tenha um limite. Deve haver um ponto a partir do qual não dê mais pra simplesmente desprezar as pessoas e seja necessário sentir por elas alguma outra coisa, qualquer coisa que faça com que elas valham algo. Ainda não enxergo esse ponto, tenho muita corda pra deixar correr até lá.

Nunca fui um cara muito bacana, mas ao menos tinha alguma noção das coisas. Eu dava às pessoas um certo valor, tinha algumas em alta conta, até. Considerava meus amigos importantes. E atualmente, o que eu faço? Não faço! Me desfaço! E pelos motivos mais estúpidos, mais rasteiros, mais superficiais. Antes alguém precisava me irritar excessivamente para que eu resolvesse que não havia mais condições de conviver com aquele ser humano. Atualmente, qualquer fagulha de irritação me faz ligar o foda-se em potência máxima. Ninguém mais parece suficientemente digno de receber indulgências.

Mas a voz, aquela voz na minha cabeça que me admoestava com severidade por esse tipo de coisa, parece ter entrado de férias. Ou resolveu cantar em outra freguesia, numa que não dê tanto trabalho. Nem me arrepender eu consigo. Nos momentos em que me ocorre que eu poderia telefonar pr’aquele amigo com quem fui escroto há algum tempo, ou mandar um e-mail àquela amiga que nunca entendeu o que fez de errado para tomar de mim patada tão repentina, tem sempre uma outra voz que diz “Ah, que se foda.”

Aí eu relembro as últimas conversas que tive com essas pessoas, que só não partiram para a troca de insultos porque elas tiveram o bom-senso de se retirar com a elegância que me falta, e uso isso pra alimentar essa gigantesca fornalha que sopra grossas nuvens negras de raiva dentro do meu sistema, mantendo-o alimentado e ativo.

E em qualquer canto desse complexo, afogado nesse torrencial de sentimentos desagradáveis que virou a minha vida - porque antes eu tinha momentos de raiva, agora eu tenho raiva, pura e simples -, tem aquele cara que grita “Ô, Pedrão, esse aí não é você”. Mas ele está mais e mais enganado a meu respeito a cada dia que passa.

* Era o que tava tocando enquanto eu escrevia.




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