Arquivos da categoria 'mulheres'

Das comidas bizarras e bizarrices comestíveis

Então.

Vamos começar isso aqui falando do que é importante, do que importa e do que, acima de tudo, tem importância: um dos mais proeminentes irmãos caminhoneiros deste (suposto) terceiro pedaço de rocha a orbitar nossa carismática estrela anã, Guto Senra, junto com 3 amigos que também são da turma da boléia, heroicamente deu a garfada inicial em uma série de “webisódios” (odeio esse termo, mas existe alternativa? Aceito indicações!) sugestivamente intitulada Ogrostronomia. Pra você que quer aprender a fazer comida simples, palatável e pra homem - vai que seu namorado curte, mano? -, dá um like na página dos caras no facebook e/ou assina o canal deles no youtube. A primeira aula da autêntica culinária dos filhos, netos e bisnetos de camponeses foi sobre como fazer churrasco. E os filhos da puta não só não me chamaram pra provar o resultado, como o Jimmy ainda linkou a página do Utopia em uma foto constrangedora no facebook.

(Quando abrir a garrafa de Blue Label não vou chamar ninguém pra beber, em retaliação!)

Ainda falando de comida, e sem dúvida descendo vários degraus em direção ao anárquico reino da bizarrice (é anarquia ou monarquia, cazzo?), se você não foi bombardeado com links e referências, há algumas semanas, do vídeo nada eufemisticamente intitulado “Sanduíche de Buceta”, então parabéns. Não sei em que recôndito esquecido deste plano de realidade o senhor foi se enfurnar, mas sugiro que, agora que está de volta à convivência com os bons, não vá atrás da pérola. Acredite: não vale a pena nem por seu caráter nonsense.

Trata-se de um vídeo amador de uma moça - que nem maior de idade me pareceu, a bem da verdade - que besunta suas já mencionadas partes com condimentos (a saber: maionese, MUITA maionese), esfrega em outros ingredientes, tais como pães, presunto e queijo, e, imagino eu, come tudo ao fim do processo. Digo “imagino eu” porque não tive disposição para assistir a peça até o final. Espera-se, de um vídeo com tal mistura de absurdo, culinária e putaria, que seja excitante, desperte a fome ou faça rir. E não obtive nenhuma das três reações. Mas, ao contrário da maioria das pessoas que assistiram ao vídeo e cujas reações tive o (des)prazer de presenciar, também não fui tomado por horror ou nojo, seja pela “falta de higiene” da menina, seja por sua exposição voluntária.

Em primeiro lugar, não vejo problemas de higiene na questão. Não existe NADA naquele vídeo que as pessoas não coloquem na boca com regularidade: pães, maionese, presunto, queijo ou órgãos genitais de moças libidinosas. Ok, admito que a mistura de tudo isso é inesperada. Nem por isso vejo por que causar asco, se não por algum tipo de moralismo cristão que sobrevive em nossa mente e associa sexo a sujeira. O que nos leva ao segundo ponto: minha surpresa em ver o despudor da moça sendo tratado de forma tão furiosa. Sério, ainda há quem se surpreenda diante do fato de que mulheres - sejam elas moças, mulheres, coroas ou velhas - também curtem uma sacanagem? Quantas mulheres mais precisarão dar entrevistas “bombásticas” informando que, sim, aceitam a idéia de sentir “prazer anal” (Sandy, não estou falando de você, estou falando de outra mulher que deu uma entrevista afirmando a mesma coisa, claro), quantas mulheres precisarão ser “flagradas” em atitudes lascivas, quantas mulheres terão que aderir à indústria pornográfica ou mostrar satisfação com práticas sexuais “pouco ortodoxas”, até que aceitemos o fato de que, vejam só, essas criaturas também sentem prazer e desejo sexual?

Isso não tem nada a ver com a criação, com o caráter, com algum tipo de carência afetiva ou coisa que o valha. Pensamentos dessa natureza são fruto desse nosso ranço machista. “Mas o que o pai dela vai pensar?”, ou “E se fosse sua irmã?” são questões que só passam pela cabeça de quem ainda vê mulheres como propriedade, ainda que de forma bastante vaga. Esse raciocínio nos leva a concluir que não interessa se ELA está à vontade com isso, mas se o pai, o irmão ou o marido dela sabem tolerar esse comportamento. Logo, ela é uma demente, incapaz de pensar por si mesma, e precisa que um homem - essa criatura inteligente e racional - use seu teleencéfalo altamente desenvolvido para guiar a ensandecida criatura pelo caminho da moral e dos bons costumes!

Se você diz que não namoraria ou contrataria uma mulher dessas para a sua empresa, a falha não é dela, tampouco é dela a postura repreensível: ambas são suas. Só não vou dizer a você para assumir sua hipocrisia porque isso seria um contrasenso. A hipocrisia, tal e qual a humildade, é daquelas características que pressupõem uma atitude pouco reflexiva, portanto só duram até o momento em que são percebidas.

A verdade é que mulheres criadas em famílias equilibradas (existe isso?), em ambientes “normais” (defina “normal”), com papai e mamãe e colégio particular e telefone celular e roupinhas da moda e irmãozinhos e avós e Temperatura Máxima aos domingos com a família ao redor de uma bela macarronada TAMBÉM vão querer trepar - e vão curtir, e vão querer mais - em algum momento da vida. Algumas vão se satisfazer com um papai-e-mamãe bem comportado à meia luz. Outras vão querer ser besuntadas em azeite e lambidas por cinco homens, ou passar condimentos nas partes, ou tentar orifícios ditos “pecaminosos” em suas práticas sexuais. Deixemos todas elas em paz e vamos nos preocupar com coisas mais importantes: quando será que o Discovery Channel vai descobrir a genialidade dos caras do cracked.com e dar a eles uma série no canal?

Das desculpas

Nossa postura diante da morte é ignorá-la. O máximo possível. Até o limite do aceitável. Agimos diante da indesejável como se a própria menção da verdade de que podemos morrer a qualquer momento transformasse a inevitabilidade distante em uma possibilidade palpável. Mencioná-la é atraí-la. A morte é o Besouro Suco.

Venho notando isso de dois anos pra cá. Sempre que menciono que minha irmã morreu, geralmente respondendo a alguma pergunta relacionada a ela, recebo, como resposta, um pedido de desculpas.

Interpreto esse “Ah, desculpe” como um “Ah, desculpe-me por te fazer lembrar desse assunto desagradável”. Porque na verdade eu nunca penso nisso, no fato de que minha irmã está morta. Não é como se eu me lembrasse, todos os dias, assim que acordo, do fato de que não, não posso ligar pra Janaína. Não é como se, depois de sonhar com ela, e logo ao acordar, eu passasse alguns milésimos de segundo pensando “Ei, a Jana ia gostar de saber desse sonho, vou ligar pra ela e…OHWAIT”. Não, eu nunca me peguei tentando lembrar do dia em que a Janaína e a Fernanda se conheceram, por um breve instante, só pra me lembrar que na verdade elas não se conheceram, e não vão se conhecer nunca, porque quando uma chegou a outra já tinha ido. Não pense você que eu sinto falta dos e-mails que ela mandava, dos recados que deixava no orkut e que fico triste ao perceber que o facebook tem um campo SISTER, que é o lugar dela, mas que ela nunca vai ocupar. Não, amigo, eu quase nunca lembro da Janaína, e nunca, nunca me peguei pensando - de forma surpreendentemente mórbida - em como será que está o cadáver dela naquela sepultura, próximo aos restos do meu avô, se já é apenas um esqueletinho de peruca, e como deve estar hilário, e em como ela iria rir se eu comentasse isso com ela. E eu não sinto, todo maldito dia, uma saudade que não tem fim da risada dela, que eu QUASE consigo ouvir, mas não consigo, ao mesmo tempo, e minha vida agora nem é essa sucessão de retornos bruscos à realidade, e eu não vejo, todos os dias, alguma guria que me lembra ela, e as irmãs da Fernanda também não me trazem a Janaína à memória, e eu não vivo me perguntando o que ela acharia da minha vida agora, da minha presença no Rio, e se ela já teria vindo me ver, e como a gente se divertiria quando eu contasse pra ela dos ratos e tudo mais, e quantas coisas constrangedoras da minha infância ela ia contar pra Fernanda, e eu não me lembro, com pesar, que nós um dia marcamos de ficar bêbados juntos, mas nunca ficamos, porque eu praticamente não bebia naquela época.

Não, eu não me lembro da Janaína quase nunca, tem razão, foi apenas você surgir, com o gancho para esse assunto funesto, que ela me veio à mente. Que vergonha, meu amigo, que vergonha. Mas deixe pra lá, está perdoado, que essas coisas acontecem. Só não faça de novo, por favor, e vamos mudar de assunto e falar de coisas mais felizes. Que importância tem uma irmã morta, afinal?

Top 5 Celebridades que deveriam pagar peitinho de uma vez:

(antes de entrar no assunto, uma curiosidade: TODO post que começa com TOP 5 no título, tem a fonte zoada no corpo do texto. Por que será?)

Peitos são como materiais radioativos, amigo: atraem atenção, podem salvar sua família ou destruí-la - se utilizados de forma irresponsável - e, mais importante, têm meia-vida. Os maiores, mais desenvoltos, mais imponentes são justamente os primeiros a cair, a murchar, a perder o vigor. Isso implica dizer que aqueles peitos fantásticos daquela guria de 18 anos, ainda que permaneçam notáveis 5 anos depois, terão apenas um mero resíduo de seu potencial original. Assim sendo, precisamos encostar na parede todas essas celebridades femininas que, ignorando o clamor das massas, escondem seus peitos de nós, enquanto eles perdem o viço. Vamos a elas:

5) Jennifer Love-Hewitt

Jennifer Love-Hewitt

Jennifer Love-Hewitt está longe de ser uma estrela de primeiro escalão de Hollywood. Famosa pela série de filmes Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado, Eu Ainda Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado, Eu Não Esqueci O Que Vocês Fizeram No Verão Passado, Tô Ligado Da Parada Lá Do Verão Passado e Foda-se O Verão Passado, Saporra Já Tem Uns Dez Anos, Bora Sentar No Boteco E Relembrar Os Velhos Tempos Tomando Uma Gelada?, a atriz caiu no esquecimento depois dessas porcarias. Ok, ela faz Ghost Whisperer, mas você conhece alguém que assista essa série? Nem eu. O que falta à moça pra subir na vida e conseguir um bom papel num filme de grande orçamento e com promessa de sucesso? Pagar peitão, oras.

Bora, Jennifer. Libera aí essas potestades!

4) Yvonne Strahovski

Yvonne Strahovski

Yvonne Strahovski (apelidada StraHOTski, por motivos óbvios) é uma loira que certamente ficaria gostosa até virada do avesso e faz par com o protagonista da série Chuck. Outra que eu não conheço ninguém que assista, mas gostaria de assistir, admito, e só não o faço porque sou muito enrolado e procrastinador. Enfim. Yvonne, essa maravilha de ascendência polonesa, tem toda essa pujança que, por pudor ou coisa que o valha, continua a esconder dos homens de bem. Falha que considero terrivelmente contraproducente.

3) Kaley Cuoco

Kaley Cuoco

Kaley Cuoco (que não é parente do Chico Cuoco, eu presumo) é a loira burra de The Big Bang Theory - aquela série que é bem legal, mas não chega aos pés de How I Met Your Mother. Ok, ela está no topo agora e aparentemente chegou lá sem precisar tirar o sutiã. Mas a verdade é que os peitos dessa moça, ainda com 25 anos, já mostram, em várias fotos, severos sinais de estar cedendo à gravidade. Apresse-se, mulher, e mostre-nos essas belezas, antes que a natureza cumpra seu papel e ninguém mais queira ver essas muchibas.

E se você acha que isso não acontece, pergunte à Gal Costa se alguém ainda se interessa em vê-la pelada.

2) Katy Perry

Katy Perry

Katy Perry, a irmã gata da Zooey Deschanel, é uma daquelas cantoras gostosonas que vale a pena você assistir um clipe, nunca ouvir o CD. Se puder ver o clipe no mute, com um Motley Crue tocando ao fundo, pode até imaginar que a moça está te servindo uma boa lap dance e ser mais feliz, porque essas atrocidades musicais que ela insiste em cometer grudam no cérebro com a competências das boas músicas ruins.

Ela anda muito em alta nos últimos tempos - em parte, acredito, por se recusar a mostrar o que todo mundo quer ver, embora viva insinuando. Sendo bem sincero, de todas as mulheres desse top 5, ela e a Yvonne são as únicas que eu acredito ainda terem peitos firmes. Ela vem à frente porque os dela são maiores e porque ela é morena (e morenas são melhores do que loiras). Isso a torna mais gostosa que a Strahotski. Desculpe, polonesa, mas é verdade.

Bora, Katy, liberte seu(s) potencial(is)!

A próxima você JÁ SABE quem é, amigo, não se faça de rogado:

1) Scarlett Johansson

Scarlett Johansson

A (agora) eterna Viúva Negra e atual queridinha de Woody Allen, Scarlett Johansson vem mantendo a expectativa de nos apresentar sua PUJANÇA há anos. Metida a intelectual, curte trabalhar em uns “filmes de arte”, onde TODO MUNDO aparece pelado, menos ela. Posição meio reacionária pra alguém que se mostra tão dedicada ao trabalho de atriz. Desde que Brittany Murphy partiu pro mundo das trevas, ando preocupado com a recusa dessa moça em nos deixar conhecê-la melhor. Seria uma pena se algo acontecesse e nos privasse desses peitos pro resto da vida. Vamos lá, Scarlett, deixe-nos algo que possamos mostrar às próximas gerações! Nos dê algo que faça valer sua conversa pretensiosa e a atrocidade que você fez com as músicas do Pete Yorn!

Não queremos que você bote pra fora o que te vai na alma. O que está no seu sutiã é suficiente.

HORS CONCOURS:

Esqueci (mea maxima culpa) de incluir a Christina Hendricks nesse Top 5. Mas oras, seria maldade com as outras competidoras. Ela tem méritos tão grandes que ganharia com folga.

Christina Hendricks

Da surdez seletiva

Os homens têm essa habilidade - que, até onde posso perceber, escapa às mulheres - de abstrair completamente o universo a seu redor, de focar em apenas uma atividade e, uma vez imerso naquilo, ignorar a maior parte dos estímulos externos. Mulheres fazem piadinhas dizendo que somos “monotarefa”, que somos incapazes de executar mais de uma função ao mesmo tempo, como se isso significasse algum tipo de limitação mental. Eu não apenas defendo que tal argumento é falso - homens conseguem fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo, sim - como também acredito que elas só escarnecem dessa nossa habilidade porque não a têm.

E há uma razão simples para isso, para as mulheres não serem capazes de entrar na própria cabeça, trancar a porta à chave e ouvir apenas os próprios pensamentos (ou, no caso de muitos homens e mulheres, somente o silêncio completo que domina seu cérebro): a razão é que nós desenvolvemos esse dom graças a elas. Daí o nirvana ser um recurso unicamente masculino.

Uma mulher é incapaz de calar a boca. É uma questão cromossômica, acho. Em público, na companhia de diversas pessoas, ela talvez até consiga manter um silêncio regulamentar. Pode ser conhecida como uma pessoa calada entre amigos, até mesmo entre familiares. Mas quando estiver sozinha com o marido/namorado, já era. Como um sul-africano que sopra sua corneta até a beira da asfixia (e uso aqui o termo EM PORTUGUÊS para as cornetas, repare!), a miserável desanda a falar e falar, dissertando longamente sobre as coisas mais dispensáveis possíveis. Sua mulher vai te contar sobre um drama familiar ocorrendo com um primo de quinto grau com o qual ela não mantém qualquer contato, de quem não sabe nada além do nome, em duas mil e quinhentas palavras ou mais, transformando tudo numa grande novela com direito a pausas dramáticas e suspense narrativo. Tudo isso para te informar sobre uma desventura qualquer ocorrida com alguém com quem você não se importa.

Pergunte a um homem sobre um problema familiar e ele o resume em uma frase, com dez palavras, no máximo: “Meu pai está doente.”, “Meu tio faleceu”, “Meu primo precisa de um transplante de rim”. Uma mulher, não. Pergunte sobre uma ligação que ela recebeu e ouça uma explicação sobre todas as conexões sentimentais do caso - que, na cabeça dela, não terminam nunca - e um grande e incompreensível contexto familiar, antes de finalmente saber que a tia-avó por parte de mãe de uma prima dela por parte de pai descobriu um caroço no seio, mas felizmente não era nada, apenas um calo causado por um apoio do sutiã ou algo do gênero. Elas não podem dizer “Foi só um susto besta com uma parenta da Joana que achou que tinha câncer, mas não tem.”. No sindicato delas, isso é certamente um tipo de crime, vai contra alguns protocolos, constitui quebra de decoro ou coisa parecida.

A caminho do bar, onde pretendem encontrar um casal de amigos, ela há de fazer uma gigantesca preleção sobre os problemas de relacionamento da tal amiga, em vez de dizer “A Maria descobriu que o Cláudio tava comendo a Priscila, então não pergunte sobre a irmã dela”. E você, camarada, ignorando tudo o que for dito além da terceira frase da história, caminha a passos largos para uma gafe monumental.

Porque, veja só, diante de tamanha prolixidade, tamanha falta de objetividade, tornou-se uma questão de sobrevivência, um recurso masculino meramente darwinista, ser capaz de imergir em questões mais prementes, na esperança - vã - de que, em algum momento, ela se canse e cale a boca (não vai acontecer, acredite). Ela menciona a Maria e o Cláudio e você começa a pensar no quanto a Maria é xarope, em todas as boas piadas que tem pra contar ao Cláudio, lembra que a Maria devia levar a Priscila, a irmã recém-pós-adolescente dela, com aqueles peitos teen ousados e arrogantes, que desafiam a gravidade sem a ajuda de sutiãs, e assim, de repente, está ocupado em uma orgia mental envolvendo a Priscila, ela, a Scarlett Johansson, a Alizée e outras quinze mulheres, enquanto ela fala ininterruptamente, até chegarem ao bar.

Onde você, néscio, inevitavelmente pergunta pela Priscila.

[Reprise] Quem vê cara…

Este texto foi escrito e publicado em 2006. Como estamos em época de eleição novamente, nada como um pouco de putaria para combinar com o espírito político brasileiro. Editei algumas coisas e acho que dei uma melhorada no negócio. Ou piorada, sei lá. Se quiser comparar versões, procure o original, mas é muita falta do que fazer, hein?

No mais, essa é uma obra de ficção. Semelhanças com fatos ou pessoas reais são sempre meras coincidências.

Não era nova o bastante para ser considerada adolescente, nem tinha idade suficiente para ser uma balzaquiana. Era uma jovem de vinte e poucos anos, muito bonita e com inteligência pouco acima da média. Seria um exagero dizer que atraía homens aos borbotões, como seria afirmar que os repelia. Da mesma forma, seria incorreto afirmar que era intocada, uma virgem e seria igualmente injusto chamá-la por adjetivos impróprios. Tivera sua dose de relacionamentos infrutíferos. Alguns duradouros, outros breves. Tinha a bagagem que alguém de sua idade deveria ter nos assuntos do amor, do sexo e da convivência. Nem mais, nem menos, para a moça mediana que era.

Conheceu-o por acaso, em um jantar na casa de amigos, e foi arrebatada pelos modos alheios, o olhar longínquo, o ar sempre distante e a moderação com tudo. Tudo, menos comer. O homem comia como um tigre faminto. O correto seria compará-lo a um abutre, pois não fazia restrições quando se tratava de culinária, mas tal paralelo soaria grosseiro, então fica como está.

Trocaram telefones e começaram a sair.

Ele levou algum tempo até perceber suas reais intenções, mas percebeu. Ela levou algum tempo até notar que seria necessário abandonar as indiretas para trazê-lo ao encontro de seus anseios, mas notou. Depois de breve período de romance, ele revelou que também tinha reparado nela no dia do jantar, que ficara encantado com sua presença de espírito, seus olhos vivos e comentários perspicazes.

Ela sabia, graças aos romances passados, que namoros se resumiam a duas coisas: fazer sexo e comer. E sabia que seu namorado era um legítimo bom-garfo e, também por isso, apreciava sua companhia nas refeições. Mas seu grande apetite lembrou-a de certas teorias que diziam que homens muito vorazes à mesa também o eram na cama. Sentiu-se curiosa para tirar a dúvida.

Certo dia em que seu pai viajou - a mãe vivia alhures -, convidou-o para jantar em casa. Ele aceitou inocentemente, como um bezerro que caminha ingenuamente para o matadouro, ignorando que está prestes a se tornar um pedaço de vitela.

Chegou pontualmente e, com os trejeitos tímidos de sempre, sentou-se empertigado no sofá da sala. Recusou copos d’água, cafezinhos, refrigerantes. Por fim, aceitou um tira-gosto e uma taça de um merlot que melhorava na adega havia algum tempo. Assistiram à programação da TV a cabo entre carícias leves, que se intensificaram, até que o controle remoto foi ao chão com estrépito quando ele se levantou e, demonstrando surpreendente força física, ergueu-a pela cintura com um braço, enquanto, ávido, mordia-lhe o pescoço e abria o fecho do sutiã habilmente utilizando apenas três dedos.

Entre beijos, ela sugeriu que fossem para o quarto e ele a levou sem colocá-la no chão, acariciando seus seios com a mão que estava livre.

As teorias se provaram verdadeiras. O homem era, de fato, um incubus! Ele a deitou na cama com gentileza que não condizia com o modo fremente com o qual os lábios, língua e dentes percorriam seu pescoço, queixo, nuca, boca e orelhas. Retirou sua calça jeans com espantosa velocidade e apenas pedaços de sua calcinha foram encontrados no dia seguinte, espalhados por todo o aposento. A seguir, despiu-se com igual velocidade e juntou-se a ela sob os lençóis.

O rapaz alternava carinhos insolentes com carícias de desmedida ternura. A língua dele percorria cada milímetro de seu corpo, suas sensações tão transitórias que era difícil compreender o que acontecia. Mas ela compreendia e adorava. Gemia de agrado quando ele, virando-a de bruços e mordendo-a das nádegas até o pescoço, sussurrava elogios despudorados em seu ouvido. Gemia duas vezes mais quando, no instante seguinte, com um movimento brusco, ele a girava na cama, colocando-a em decúbito dorsal, e trafegava por seu corpo com mãos ágeis apertando, afagando, arranhando e massageando, e com a ansiosa boca beijando, lambendo, chupando e mordendo. Chegava até seu baixo ventre, até seus grandes, gotejantes lábios, e, entre volteios calculados e investidas competentes com a língua, que a faziam estremecer, dizia obscenidades inenarráveis que, somadas à sofreguidão de seus gestos, faziam-na pensar que estava prestes a perder o juízo.

Em um instante lambia-lhe os pés, chupava-lhe os dedos, abocanhava-lhe os calcanhares. No próximo segundo já estava manuseando seus mamilos, mordiscando-lhe o púbis. Não lhe pedia nada, não lhe dava ordens, nada lhe perguntava. Perscrutava seu corpo como se lho pertencesse, e a essa altura do campeonato já pertencia. Ela apenas mordia os lábios, voluptuosa, gemia, urrava, gritava, implorava por mais, arranhava-se, agatanhava-o, raspava as paredes, desalinhava os cabelos, descontrolava-se.

Ele murmurou em seu ouvido, em dado momento, que iria apresentá-la à sensação de descer na maior montanha-russa do mundo e riu o riso sem-vergonha dos devassos. Em seguida jogou as duas pernas dela para cima e, introduzindo-lhe dois dedos, apertou algum botão - até então desconhecido a ela - que causou efeitos imediatos. Após intermináveis segundos que chegaram ao fim mais rápido do que gostaria, seu corpo inteiro convulsionou-se como que tomado por um surto epilético. Sentiu os lençóis encharcados com a torrente de satisfação que escorria entre suas coxas lânguidas.

Depois de tão violento orgasmo, deixou-se desfalecer. Chegou a sentir a vista escurecer e o quarto girar, mas ele, veloz, apertou seu pescoço num gesto agressivo, como se tentasse sufocá-la. O afogamento súbito, em vez de apagá-la de vez, trouxe sua consciência novamente à tona. Resfolegando, olhou para ele.

Os olhos, antes aéreos, pacíficos, estavam completamente diferentes. Fitava-a como um gato que observa a presa encurralada. Não havia nada do ar distraído de outrora, apenas o olhar decidido do agressor sobre a vítima. Tremeu de espanto, mas, mais do que isso, tremeu de prazer. E ele, após assediá-la com nova série de preliminares, penetrou-a com toda a pujança de seu sexo furioso, subversivo e insaciável.

Foi uma longa noite. Fizeram amor, sexo, transaram, foderam, fornicaram… deixaram-se levar pela luxúria. Entre uma rodada e outra da mais pura, feliz e realizada safadeza, atacavam a geladeira. O mesmo apetite que ele manifestava com a comida, dirigia a ela, a seus fluidos, a seus orifícios, a toda sua anatomia. Ela descobriu no próprio corpo algo entre doze a dezessete zonas erógenas que antes desconhecia.

Passaram a dormir juntos quase todas as noites. O pai dela, um homem instruído, com boa cabeça, razoável, não interferia no direito da filha – maior de idade, responsável, inteligente – de dormir com o namorado. Inclusive lhe agradava a companhia do rapaz. Conversavam sobre esportes, música erudita, livros, notícias, assuntos gerais, enfim. Bebericavam dos bons vinhos da adega. Um semillon para acompanhar foie gras, um cabernet para melhorar a degustação de queijos e outros frios.

A moça ficava feliz em ver o pai se dando tão bem com o namorado, em notar como as conversas rendiam horas e horas de assunto e em ver como o apetite sexual vigoroso de seu parceiro não arrefecia. Era impossível se conter durante as intermináveis maratonas de descaramento e, não tivesse o velho sono tão pesado a ponto de resistir aos próprios roncos, amargaria noites insones ao som das sessões de ode aos prazeres carnais da filha.

Um dia marcaram de se encontrar na rua. Ele iria buscá-la na saída do estágio.

Chegou um pouco atrasado, alegando que perdera a noção do tempo durante uma reunião de membros de seu partido. Trajava uma camiseta do DEM. No vidro do carro, os inconfundíveis adesivos de apoio aos candidatos do Democratas.

Incapaz de tolerar tamanha sem-vergonhice, ela terminou o namoro dois dias depois.

Das respostas possíveis (e impraticáveis)

O problema de ser homem é que existe essa demanda para que você esteja com o pau na mão o tempo inteiro. Surgiu a oportunidade, a piroca deve entrar em ação. Não existe isso de “não quero”! Você não pode não querer! Abriram o chamado? Pau na máquina.

(duplo sentido acidental)

Se você é homem e cai no erro de ser seletivo, se nem toda guria que te aponta o glorioso e úmido vale após o gramado da felicidade (ou, em alguns casos, a floresta da perdição) recebe de você o golpe vigoroso do vingador paudurescente, camarada… há algo errado contigo. Ou ao menos é o que dirão. E na verdade não há.

O que me levou a pensar nisso foi a responsável por um supermercado que eu atendia, até algum tempo atrás. Certo dia lá fui resolver algo simples. Compareci munido de todo o bom-humor que me é peculiar e da afabilidade que me faz notório, e a moça me aborda com uma chamada na xinxa suave, porém perceptível. E se eu, bundão declarado e convicto que sou, notei a forçada de barra, qualquer um notaria.

Fiquei na minha e sorri, ignorando e dando continuidade ao meu trabalho. Alguns minutos depois, fui pegar informações com ela, e a mulher retorna à carga com ímpeto redobrado. Ri, deixei passar batido. Na terceira ela foi de all-in, faltando só puxar meu colarinho e apertar minha bunda. Dessa vez gargalhei alto e respondi com evasivas.

Aparentemente, foi demais para o orgulho da pobre senhora. Você deduziria que uma mulher em seus 40 e - muitos - algos, cuja aparência já não é mais grande coisa (e pode até ter sido um dia, mas duvido bastante), teria algum fair play e saberia receber um [NÃO INTERESSADO] em letras garrafais com certa elegância. Infelizmente não é como funciona a vida, amigo. Talvez com a idade venha uma certa queda na auto-estima e, com isso, aproxime-se do nosso pescoço o bafo quente do desespero, nos impelindo a atitudes antes impensáveis. Talvez ela tenha achado que eu, tendo aparência que tenho, sendo a pessoa que sou, não cometeria o erro de recusar suas gracinhas. Quem mais daria pra mim, afinal? Qualquer que tenha sido a lógica interna que alimentou o aborrecimento subseqüente, a verdade é que a mulher - que até então imaginei estar brincando - tomou um ar sinceramente ofendido e me fez exatamente estas perguntas:

- Você não gosta de mulher, não? Você é viado?

Uma questão dessas, colocada dessa forma, nesse contexto, abre tantas possibilidades de resposta que algumas são até covardia. É como um bêbado que tenta trocar uns sopapos com um pugilista profissional no auge de sua forma: o pobre alcoolizado não tem a menor noção de como armar a guarda e se oferece para levar um direto no meio da cara. Para o adversário, esse golpe parece a melhor escolha, mas é moralmente questionável. A voz da consciência avisa que tal manobra, apesar de merecida, equivale a chutar cachorro caído; o bom-senso berra seu nome e te dá um tapão nas costas, mostrando que não admite ser ignorado nessa questão. E apesar de seu cérebro enfileirar duzentas e doze ótimas respostas que tornariam a história épica, a ser contada em todas as mesas de bares às quais você se sentasse, esses dois, consciência e bom-senso, berram “COMPORTE-SE, ANIMAL! VOCÊ VAI PERDER SEU EMPREGO!”. Cara, como eles gritam alto!

Então, diante daquela maravilhosa pergunta da gerente do mercado, praticamente um “Ei! Ei! Chute meu pâncreas, ele serve pra isso!”, fui contido e civilizado. Poderia ter dito “De mulher? Gosto muito, mas só das que têm 46 cromossomos”. Ou “Claro que gosto, mas é um nicho biológico do qual a senhora não faz parte”. Talvez pudesse responder “Olha, eu gosto bastante, mas sinto dizer que sua carteirinha de sócia dessa categoria foi revogada duas eras glaciais atrás”.

Em vez disso, o que eu disse? O quê? Com a cara mais séria, o olhar vítreo, sem demonstrar emoção, respondi apenas:

- Sim, eu sou viado.

E tive paz pelo resto do dia.