Os homens têm essa habilidade - que, até onde posso perceber, escapa às mulheres - de abstrair completamente o universo a seu redor, de focar em apenas uma atividade e, uma vez imerso naquilo, ignorar a maior parte dos estímulos externos. Mulheres fazem piadinhas dizendo que somos “monotarefa”, que somos incapazes de executar mais de uma função ao mesmo tempo, como se isso significasse algum tipo de limitação mental. Eu não apenas defendo que tal argumento é falso - homens conseguem fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo, sim - como também acredito que elas só escarnecem dessa nossa habilidade porque não a têm.
E há uma razão simples para isso, para as mulheres não serem capazes de entrar na própria cabeça, trancar a porta à chave e ouvir apenas os próprios pensamentos (ou, no caso de muitos homens e mulheres, somente o silêncio completo que domina seu cérebro): a razão é que nós desenvolvemos esse dom graças a elas. Daí o nirvana ser um recurso unicamente masculino.
Uma mulher é incapaz de calar a boca. É uma questão cromossômica, acho. Em público, na companhia de diversas pessoas, ela talvez até consiga manter um silêncio regulamentar. Pode ser conhecida como uma pessoa calada entre amigos, até mesmo entre familiares. Mas quando estiver sozinha com o marido/namorado, já era. Como um sul-africano que sopra sua corneta até a beira da asfixia (e uso aqui o termo EM PORTUGUÊS para as cornetas, repare!), a miserável desanda a falar e falar, dissertando longamente sobre as coisas mais dispensáveis possíveis. Sua mulher vai te contar sobre um drama familiar ocorrendo com um primo de quinto grau com o qual ela não mantém qualquer contato, de quem não sabe nada além do nome, em duas mil e quinhentas palavras ou mais, transformando tudo numa grande novela com direito a pausas dramáticas e suspense narrativo. Tudo isso para te informar sobre uma desventura qualquer ocorrida com alguém com quem você não se importa.
Pergunte a um homem sobre um problema familiar e ele o resume em uma frase, com dez palavras, no máximo: “Meu pai está doente.”, “Meu tio faleceu”, “Meu primo precisa de um transplante de rim”. Uma mulher, não. Pergunte sobre uma ligação que ela recebeu e ouça uma explicação sobre todas as conexões sentimentais do caso - que, na cabeça dela, não terminam nunca - e um grande e incompreensível contexto familiar, antes de finalmente saber que a tia-avó por parte de mãe de uma prima dela por parte de pai descobriu um caroço no seio, mas felizmente não era nada, apenas um calo causado por um apoio do sutiã ou algo do gênero. Elas não podem dizer “Foi só um susto besta com uma parenta da Joana que achou que tinha câncer, mas não tem.”. No sindicato delas, isso é certamente um tipo de crime, vai contra alguns protocolos, constitui quebra de decoro ou coisa parecida.
A caminho do bar, onde pretendem encontrar um casal de amigos, ela há de fazer uma gigantesca preleção sobre os problemas de relacionamento da tal amiga, em vez de dizer “A Maria descobriu que o Cláudio tava comendo a Priscila, então não pergunte sobre a irmã dela”. E você, camarada, ignorando tudo o que for dito além da terceira frase da história, caminha a passos largos para uma gafe monumental.
Porque, veja só, diante de tamanha prolixidade, tamanha falta de objetividade, tornou-se uma questão de sobrevivência, um recurso masculino meramente darwinista, ser capaz de imergir em questões mais prementes, na esperança - vã - de que, em algum momento, ela se canse e cale a boca (não vai acontecer, acredite). Ela menciona a Maria e o Cláudio e você começa a pensar no quanto a Maria é xarope, em todas as boas piadas que tem pra contar ao Cláudio, lembra que a Maria devia levar a Priscila, a irmã recém-pós-adolescente dela, com aqueles peitos teen ousados e arrogantes, que desafiam a gravidade sem a ajuda de sutiãs, e assim, de repente, está ocupado em uma orgia mental envolvendo a Priscila, ela, a Scarlett Johansson, a Alizée e outras quinze mulheres, enquanto ela fala ininterruptamente, até chegarem ao bar.
Onde você, néscio, inevitavelmente pergunta pela Priscila.
Gabi e 