Arquivos da categoria 'mulheres'Page 4 of 8

Náufragos

Conheceram-se aleatoriamente, em circunstâncias difíceis de explicar, mas a atração mútua foi imediata. Deram-se as mãos e caminharam por um cenário um tanto bucólico, até chegarem à beira de um lago. Encontraram ali um pequeno barco com dois remos. Resolveram dar um passeio entre os cisnes, passar sob aquela pontezinha em arco, quem sabe parar lá no meio e assistir ao pôr-do-sol.

Ele tomou os remos, ela insistiu para remar também. Remaram juntos, pois. A partir de um certo ponto, entretanto, ele se distraiu. Não fez por mal, era apenas de sua natureza voltar a atenção para outras coisas, eventualmente. E do mesmo jeito que seu foco mudava para uma ave que passava, ou um vulto de peixe movendo-se sob as águas, também retornava para ela e o que ela dizia.

Não foi o bastante. Aquelas doses de atenção não eram o que ela queria. Ela queria atenção total, queria vê-lo imerso em seu mundo. Ele não era de imergir em nada, simplesmente porque não era. Aos olhos dela, entretanto, era descaso, e vai explicar que focinho de porco não é tomada!

Ela começou a demonstrar certo aborrecimento, tristeza. Ele sorria e tentava tranqüilizá-la, mas aquele olhar fugidio que não permanecia fixo no dela era irritante demais. Percebeu então que remava sozinha. Ele estava absorto olhando para o céu, para nuvens, para pássaros.

Ela deu um chilique brusco e virou o barco.

Fodeu tudo de uma vez e pronto.

Cenas do livro que não escreverei nunca:

(Capítulo 2, página 59.)

Ele arrumava a mala, assoviando qualquer coisa que parecia ser do Chico Buarque. O amigo observava, após largar em um canto a revista que folheava.

- Então você vai mesmo?
- É claro. Você acha que eu estou fazendo as malas por esporte?
- Mas será que vale a pena? E não me venha com Fernando Pessoa!
- Eu não vou, embora ele bem coubesse como resposta a essa sua pergunta. Mas a verdade é que…

Parou para procurar algo, andou em silêncio pelo quarto durante alguns minutos. Revirou o que estava sobre a cama até encontrar alguns papéis, que rapidamente introduziu em um bolso da valise. Só então retomou o raciocínio.

- …o que eu dizia mesmo? Ah, sim. A verdade é que é justamente para saber se vale a pena que eu vou até lá.
- Diga sinceramente. Ela é bonita?
- Beleza não tem nada a ver com isso.
- Então ela é feia?
- Não foi o que eu disse.
- Te conheço há tempo suficiente para saber que, se você não usou um palavrão, a mulher, ao menos fisicamente, não vale muita coisa.
- Você é simplista.
- Sou?
- É! Simplista e superficial. - ele fechou a mala e virou-se para o amigo com ar enfastiado, sentando-se na cama - Certo, ela talvez não seja bonita, num sentido estrito do termo. Mas isso, sinceramente, não faz diferença alguma. Quer saber se eu olharia para ela duas vezes, se nos cruzássemos na rua e fôssemos completos desconhecidos? Provavelmente não. Mas talvez olhasse, porque há nela alguma coisa, qualquer coisa indefinível, que me chama a atenção de tal maneira que conduziu a situação a esse ponto. - apontou a mala pronta e as passagens no bolso.
- Não sei se entendo isso.
- Eu não espero que entenda. Eu acho que você precisa aprender a ver outras coisas nas mulheres além da beleza física. É lógico que há algo de recompensador em levar para a cama uma mulher que fica ainda melhor sem roupas do que vestida com seu sutiã de levantar peitos, calça de empinar bunda e calcinha de ajustar cintura. Nada melhor do que ter à disposição um exemplar de fêmea digna de posar para fotografias de parede de oficina mecânica. Mas mulheres assim te impedem de ver além, porque, ao andar pelo quarto só de calcinha e camiseta, elas simplesmente obliteram a possibilidade de análise de qualquer outra coisa.
- Você sabe que isso não faz sentido?
- Faz, sim. Talvez não faça para você e seu superficialismo ferrenho. Mas faz. Essa mulher que eu vou ver, por exemplo: não foi capaz de nublar minha mente com os oferecimentos mais simples - peitos fartos, barriguinha travada com piercing no umbigo, boca carnuda lambuzada de gloss… -, mas, justamente por isso, teve que fazer um esforço extra. E deu certo. Essas mulheres assim, sem atrativos visíveis logo de cara, essas que não parecem ser interessantes são, geralmente, as melhores. E costumam ter seu charme. Um jeito diferente de gesticular quando falam, uma risada mais melíflua, uma maneira de olhar mais intensa, um cheiro mais gostoso nos cabelos, uma técnica especial ao ficar por cima, um gemido mais gostoso ao ficar por baixo.
- E o que é que essa que você vai ver tem?
- Além da ótima conversa e de uma voz capaz de enlouquecer o padre mais empedernido durante uma confissão? É o que vou conferir.
- Então você vai viajar tanto por uma mulher feia?
- Defina assim, se preferir. Vou viajar tudo isso por uma mulher que mexe comigo, independentemente de sua aparência física. Eu conheço aquela tua frase sobre beleza não pôr mesa…
- …mas abre o apetite.
- Essa mesma. Abre o apetite, é verdade, mas o fato é que ela abre meu apetite, mesmo sem nunca ter estimulado quaisquer dos meus órgãos sensoriais, além dos ouvidos. Ela é inteligente e a conheço há tempo bastante para saber quando gostou ou não de algo apenas pelo tom de voz. Sabe o que, quando e como dizer as coisas. Você precisa abandonar esses seus critérios baseados só em estética, de verdade. Largar essa idéia adolescente de pegar mulher pra contar pros amigos e começar a considerar a possibilidade de ir atrás do que te atrai de verdade.
- Eu realmente não te entendo.

Ele sorriu. Calçou os sapatos, alcançou a carteira e as chaves, jogando-as nos bolsos da jaqueta.

- Já disse que não espero que você entenda. Te chamei aqui pra me levar ao aeroporto.

(Livro chato do caralho…)

Bah…

Não sou um cara ciumento.

Se um sujeito se aproximar da minha namorada e lograr levá-la embora, parabéns para ele. Ou é muito melhor do que eu - em alguns ou vários aspectos - ou é muito bom em fingir excelência. Ou - ainda há essa possibilidade - ela ficou tão pouco criteriosa que é justo deixá-la trocar gato por lebre.

Qualquer que seja a teoria certa, a verdade é: se alguém consegue levar sua mulher embora, provavelmente merece ficar com ela. E se ela resolveu ir, merece o sujeito pelo qual te deixou.

Ao contrário do que muitos homens acham, mulheres são seres dotados de vontade própria. Não são vacas ou outras criaturas nas quais você pode marcar na bunda, a ferro quente, suas iniciais, reclamando, assim, direitos irrevogáveis.

Por isso não é minha obrigação “proteger” minha namorada de gaviões, bajuladores e etc. Ela deve aprender a recusar esse tipo de gente ou ficar com eles. Meu papel na história é o de… bom, não tenho papel nenhum nisso. Gosto dela e quero que fique. E se ela quiser ficar, ficará. Se quiser ir, irá. Simples.

Mas meus livros, cara… ah, meus livros.

Meus livros são meus. MEUS. E nesse ponto sou extremamente egoísta, ciumento, possessivo. Por uma razão simples: livros são objetos inanimados (isso não é novidade para ninguém) e, como objetos inanimados, podem ser carregados para longe, sem esboçar a menor resistência, por qualquer imbecil descerebrado que tenha acesso a eles e se disponha a levá-los.

Perder uma mulher pode ser sofrido e desagradável, mas outras virão. Não vale a pena esquentar a cabeça por essas coisas.
Um livro perdido é irrecuperável. É esse tipo de coisa que me deixa profundamente chateado.

Perdi um, hoje.

E, sendo esta uma pátria de analfabetos funcionais, de fãs do Paulo Coelho, de leitores ávidos de porcarias como as escritas pelo Dan Brown, de consumistas pouco (ou nada) críticos de livros de auto-ajuda, é nula minha esperança de que alguém vá dar o mesmo valor que eu ao que tem em mãos…

Colonialismo

- Escuta, não é hoje o aniversário daquela mina lá, não?
- Existem muitas “minas”, meu ambíguo camarada. A qual te referes?
- Àquela que você disse que tava “namorando”.
- Falas da esfuziante Cristina, obscuro amigo?
- Essa aí!
- Deixe-me esclarecer que sua tentativa de implicar que minhas informações sobre o namoro eram meramente devaneios são grosseiras, para dizer o mínimo! Estamos namorando de fato!
- Não estamos nada!
- Dizia de mim e dela, caro galhofeiro!
- Tá, tanto faz. Não é hoje o aniversário da guria?
- Sua informação é verdadeira, ó, bem-informado colega.
- E você tá aqui, nesse boteco, comigo, fazendo o quê?
- Ora! Degustando esta deliciosa bebida produzida a partir da fermentação de cereais maltados, obtuso comparsa.
- Você entendeu! Aniversário da sua menina e você aqui, comigo, em vez de estar com ela?
- Não entendo sua estupefação, meu pasmo parceiro.
- Não entende? Você compreende que uma das diretrizes mais básicas do implícito contrato de mutualidade conhecido como “namoro” diz que os aniversários devem ser passados JUNTOS?
- Você me decepciona, meu tacanho amigo!
- Imagino o quanto.
- Permita-me ilustrar melhor a situação para seu simplório conhecimento, atônito rapaz. Estudaste história?
- É claro que sim.
- Pense, então, em termos de colonialismo europeu. Nós, homens, somos as pequenas metrópoles européias: desenvolvidas, civilizadas, refinadas, porém limitadas.
- Sei.
- As mulheres, por outro lado, são os continentes desconhecidos. Vastos, belos, de abundantes riquezas, as mais variadas e sedutoras possíveis. São, entretanto, incivilizadas, indômitas e, por vezes, assustadoras.
- Tô entendendo.
- Agora imagine nossas tentativas de aproximação como as antigas naus espanholas e portuguesas dos séculos XVI e XVII tentando cruzar o oceano infinito à procura de bens necessários. Nossa conversa sendo a embarcação. É preciso deixá-la ágil, embora bem suprida. Deixá-la forte, mas com alguma fragilidade. Assim ela parte, segura diante do olho destreinado, mas claramente instável para os entendidos do assunto. Lançamo-las ao mar na esperança de chegar em terra e, na maior parte das vezes, naufragamos. Temos sucesso de vez em quando, porquanto somos exaustivamente insistentes.
- “Porquanto” é foda, haja prolixidade!
- Deixe-me com meu belo vocabulário! Como dizia, conquistamos, então, a tão sonhada colônia. Nossa primeira atitude é livrá-la de seus habitantes incivilizados e de hábitos pouco cristãos, por isso proibimos nossas namoradas de usar roupas curtas, freqüentar eventos onde reina a devassidão e a promiscuidade, coisas assim.
- Certo.
- A partir daí, atraímos a confiança da população restante com badulaques e bugigangas de pouco valor, porém chamativas. Espelhinhos, colares e outras manufaturas de baixo custo. Distraímos sua atenção enquanto são evangelizados e submetidos à nossa vasta cultura.
- Verdade.
- Por fim, afastamos os possíveis invasores e declaramos nossa hegemonia sobre o território.
- Saquei.
- Até esse ponto, já sondamos todo o terreno, logicamente. Conhecemos suas reentrâncias, falhas geológicas e clima bem o suficiente para podermos trafegar por ali com relativa segurança.
- Fato.
- Começamos a explorar suas matérias-primas…
- Tá falando das filhas das tias delas?
- Não, meu confuso camarada. Falo de seus favores únicos, das coisas as quais, apesar de todo nosso avanço, não temos como nos auto-suprir, compreende?
- Ah, sim. Os chupiscos, as trepadas e tal.
- Sua falta de tato me constrange, caro troglodita, mas folgo em notar que entendes sutilezas.
- Certo. E depois?
- Depois apresentamos nosso novo território para as metrópoles aliadas. Damos aos dois a liberdade de estabelecer comércio apenas por nosso intermédio. O acesso irrestrito é nosso e somente nosso.
- Justo. E então?
- Bom, nesse ponto somos os senhores do castelo. Nossos soldados estão por ali, cuidando do território e prevenindo insurreições. Tudo o que temos a fazer é, como os monarcas que somos, deixar claro que, apesar da distância, estamos cientes de tudo o que se passa, ainda que não estejamos de fato.
- Só pra não fugir desse teu paralelo maluco, ficar com a sua namorada no aniversário dela não seria uma maneira de deixar claro que o imperador e as legiões estão bem, quero dizer, que a metrópole está atenta ao que se passa na colônia?
- Você se adianta, meu célere ouvinte. Quando nossa supremacia está finalmente estabelecida, temos que partir para novas terras. Ampliar o território. É possível tentar anexar áreas próximas, indo atrás de parentes e amigas delas, mas sabe-se que conflitos entre habitantes locais tornam quase impossível o sucesso em tal empreitada. O ideal é lançar ao mar as caravelas e aportar em novos costados.
- Ok. E em que ponto você está?
- Exatamente neste. No momento espero que minha nova colônia apareça. Meus navios já têm as velas enfunadas e as âncoras recolhidas. Só me falta estabelecer a rota.
- Hm.
- Estou considerando tomar posse dos territórios claudianos.
- Hein?
- Meu desmemoriado aprendiz, lembra-se da Claudinha, aquela mui simpática senhorita que trabalha na videolocadora perto da minha casa? Então. Soube que ela costuma freqüentar este pândego ambiente onde, agora, nos encontramos.
- Ah, sei. Mas acho que não é só ela, não.
- Como assim?
- Olha ali a Cristina chegando com um sujeito.
- Mas hein?!
- Pois é.
- Porra, o que esse cretino tá fazendo com a minha namorada?
- A mim faz parecer, estimado, atraiçoado, acornalhado camarada, que sua colônia encontrou um líder rebelde capaz de livrá-la do cruel jugo monárquico. Devo informá-lo que seus súditos, esta noite, estabelecerão comércio com outros mercados. Hurra! A Revolução triunfou! Bebamos a isso! Garçom, traz mais uma!
- Bah.
- E você fica muito chato quando bebe, diga-se de passagem.

Gata e rato

- Você sabe que eu gosto de você.

Ela o fitava com olhos lascivos, ouvindo tudo com a atenção desmedida que as mulheres dedicam aos homens quando estão interessadas em mais do que conversa.

- Gosta? - e por “gosta?” ela queria dizer “Mostre o quanto”.
- Claro que gosto. Eu já disse que gosto. Não disse?
- Não sei. Disse?
- e com isso ela queria dizer “Quero te ouvir repetir”.
- Disse. Disse, sim.
- Se você diz…
- e por “se você diz…” ela queria dizer “Seja mais enfático”.
- Digo: disse.
- Então você diz que disse.
- com isso ela queria dizer que ele poderia fazer bem melhor.
- Digo. E, se não disse, acabei de dizer. E digo de novo: eu gosto de você.
- Hm.

Esse “hm” não era um “hm” qualquer. Era um “hm” feminino. E “hm”’s femininos, como muitos outros grunhidos das mulheres, estão em uma categoria totalmente diferente de “hm”’s masculinos. Homens fazem “hm” simplesmente por preguiça de dizer “prossiga” ou para sinalizar que entenderam. Mulheres fazem “hm” por milhares de outras razões. Poder-se-ia escrever toda uma tese sobre o que esse “hm” queria dizer, mas seria dupla perda de tempo. Primeiro porque jamais chegaríamos a qualquer conclusão. Segundo porque perderíamos a seqüência do diálogo. Diremos apenas que o “hm” foi sugestivo e, por “sugestivo”, depreenda o leitor o que quiser.

- Você é inteligente.
- Sou?
- e com isso, mais uma vez, ela pedia a ele para se empenhar mais no que dizia.
- É. Inteligente. Muito, muito inteligente.
- Hmmm…
- esse foi mais longo, quase um ronronar. Com isso ela demonstrou clara satisfação.
- E nós nos damos bem.
- Eu também acho.
- leia-se: “Mas podemos nos dar melhor”.
- Nos damos muito bem.
- Concordo.
- e por “concordo” entenda-se “Estamos chegando onde eu quero”.
- Não tem como a gente se dar melhor que isso.
- Aí eu já discordo.
- e com isso ela quer dizer “Cale a boca e eu te mostro”.

Ela fechava o cerco.

- Então. A gente se dá muito, muito bem.
- Um-hum.
- e com isso ela quer dizer “Se você não fizer nada agora, eu faço”.
- Temos assunto em comum.
- Temos.
- essa resposta seca significando “Se eu quisesse ver rodeios, ia pra Barretos.”
- Conversa pra horas a fio.
- É.
- ou seja, “Cala a boca e beija logo!”.
- E você… bom, você é muito legal. Você sabe que eu te acho muito legal, não sabe?
- Acha?
- e por “acha” ela quer dizer “Posso ser bem mais legal que isso”.
- Claro que acho. Eu acabei de dizer que acho.
- É.
- e ela quer dizer “Vou te mostrar o quanto eu sei ser legal…”
- Então.
- Então.
- ela se aproxima, querendo dizer “Finalmente”.
- Eu te disse tudo isso porque eu queria… bom… eu queria te dizer uma coisa importante.
- Diz.
- ela responde, num sussurro, e por “diz” ela quer dizer “Vai comer ou quer que embrulhe?”.
- Com tudo isso que a gente tem, que dá tão certo e tal…
- Hm.
- Esse foi um raro “hm” definível, um gemido de antecipação.
- Ainda acho importante frisar que acho que nossa relação deve ser não carnal.
- Não carnal?
- e com isso ela quer dizer “Mas… hein?”.
- Sim. E por “não carnal” eu quero dizer: TIRA A MÃO DA MINHA BUNDA, CARALHO!

Cromossomos X

A primeira foi minha professora da primeira série, acho. Tinha cabelos pretos compridos, era cheia de atenções e, deus!, como me parecia esperta, aquela mulher! Era muito mais velha que eu, lógico, mas no auge da maturidade permitida a uma criança de sete ou oito anos isso simplesmente não fazia diferença. O importante era que ela ria das minhas piadas, me tratava com muito carinho e entendia que meu distanciamento das outras crianças se devia ao fato de estar muitos passos à frente daquelas criaturas insuportavelmente barulhentas e desorganizadas.

A segunda foi uma menina do Marista, logo na segunda série. Seus longos cabelos castanhos chamaram minha atenção no primeiro dia de aula. Achava que era lindíssima (embora fotos das minhas turmas dessa época provam que meu padrão estético devia ser um tanto rasteiro). Seu sorriso era uma graça, sua voz era adorável e - o mais importante para tornar interessante uma garota de 8 anos aos olhos de um menino da mesma idade - me ignorava completamente.

No ano seguinte fomos para turmas diferentes, aí conheci aquela que seria minha musa nos próximos três anos. Emanuelle! Até o nome era lindo (assim achava na época, hoje me soa um tanto cafona). Sempre tão quieta, fazendo seus deveres, com aqueles cabelos presos em rabos-de-cavalo impecáveis. Também não me dedicava um mísero segundo de atenção por dia, o que a tornava irresistivelmente atraente aos meus olhos pueris. Na quarta série passamos a nos cumprimentar diariamente e na quinta já conversávamos. Um dia, para meu estupor, viu uma foto minha e fez um elogio. Senti vontade de sair correndo, mas ela se retirou antes, com a elegância que lhe era peculiar. Achei que meu mundo estava completo!

E foram cinco longos anos sem outras admirações platônicas, até que em 1998, no segundo ano do segundo grau, conheci aquela moça morena de olhos claros. Sem exagero algum: um arrepio me subiu pelo corpo e fiquei sem reação quando a menina, mirando meus olhos castanhos com suas duas esferas de azul brilhante, sorriu o sorriso mais bonito que eu vira até então. E devo ter feito uma expressão de espanto maravilhado, como quem acaba de descobrir o sentido da vida, pois ao sorriso seguiu-se uma risada deliciosa. Levei mais da metade do primeiro semestre até ter coragem de lhe dirigir a palavra. Ainda assim, sempre a abordava com ressalvas. De vez em quando ainda nos encontramos fortuitamente nesse ovo que é Brasília, e a mulher continua uma escultura, mas já não me causa estremecimentos.

Já aos 18, achando que o avanço da idade havia me tornado imune a esse tipo de sentimento, vi a professora de química pela primeira vez. Ainda me lembro tão claramente do momento em que lhe pousei os olhos pela primeira vez que fica fácil descrevê-lo. Ela caminhava em direção às janelas da sala. A luz do sol, filtrada pelas persianas, parecia estar ali com a finalidade específica de iluminá-la, como aquelas luzes que, no teatro, seguem os protagonistas de um lado a outro. O vento que soprava contra seus cabelos tornava cinematográfica a cena. De repente, não se ouvia mais as vozes masculinas que antes tomavam a sala. Tudo isso durou menos de cinco segundos, mas era uma imagem do tipo que fica marcada na sua mente de forma indelével.

Nenhuma delas foi minha, e talvez por isso sejam lembranças tão agradáveis…