O que te faz gostar de uma determinada melodia? Já parou pra pensar nisso? Você sabe? Se souber, sorte sua, porque eu não faço a mais remota idéia, de verdade. Tem algumas que logo de cara me pegam pelo colarinho e tomam toda minha atenção de forma positiva. Pode ser por uma guitarra mais destemida, pode ser uma bateria raivosa, pode ser um baixo bem marcado, uma base de metais memorável, ou até feliz mesmo.
Existem as que, na surdina, escapam pra dentro do meu córtex e, dispostas a fixar residência, passam a se repetir uma vez após a outra, impedindo qualquer outro pensamento de tomar meu lobo frontal. Essas geralmente são aquelas músicas ruins. E meu cérebro gosta delas, gosta de verdade. De forma meio masoquista, mas gosta. EU odeio. ELE gosta. Somos duas entidades separadas, nesse quesito, e se o lado consciente da minha massa cinzenta curte Cake e The Killers, a parte involuntária, embora ceda espaço a essas duas bandas, dentre várias outras igualmente espetaculares, não perde a oportunidade de tocar um Braga Boys ou um Molejão cabuloso, dentre várias outras porcarias.
Mas, se as melodias são um mistério, as letras não são. Sei exatamente o que me prende numa letra: uma mão bem cheia de amargura. É isso mesmo, eu disse. Curto ver uma amargura bem destilada, não interessa o “estilo” no qual ela venha embrulhada. Pode ser em algo raivoso e rápido, como “Eu Não Gosto de Ninguém”, do Matanza, mas também pode ser em um sertanejão de seresta, tipo “Vá Pro Inferno Com Seu Amor”. Vai desde uma bandinha indie inglesa, tal qual Radiohead e sua “No Surprises”, até Johnny Cash com “Cry, Cry, Cry” ou “Folson Prison Blues”.
Não chega, entretanto, a descer ao (des)nível das bandas emo. Se tem uma coisa que aqueles moleques de franjinha com chapinha não sabem fazer é transcrever suas angústias da forma correta, salvo raríssimas exceções. E transcrever sentimentos negativos corretamente é o que diferencia uma bichinha choraminguenta de um sujeito que, movido pela raiva, pode arrancar sua cabeça com os dentes. É uma linha difícil de vislumbrar, muitos confundem as duas coisas, mas a diferença existe.
Você pegue, por exemplo, Roberto Carlos com “Do Fundo do Meu Coração” (”Mas basta agora o que você me fez/Acabe com essa droga de uma vez/Não volte nunca mais pra mim”). Avalie a letra. Você consegue imaginar o sujeito segurando a mulher pelo colarinho, ou, ao fim da música, batendo o telefone raivosamente, quiçá arremessando-o na parede, antes de ir afogar as mágoas com uma(s) dose(s) de uísque e aquela dor-de-cotovelo inevitável, pela qual até os mais destemidos dentre nós hão de passar? Eu consigo. ISSO é amargura, amigo.
Se, do contrário, tudo o que você consegue imaginar é um barbudo prostrado, se arrastando feito um saco de lixo atrás da mulher de quem ele gosta, implorando por migalhas de afeto, esperando qualquer tipo de atenção em retorno, colocando a própria dignidade em jogo… então isso não é amargura, é só viadagem.
(Tá incompleto, mas vai assim mesmo. Esses três meses de silêncio por aqui estão me deixando angustiado.)
