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Das comidas bizarras e bizarrices comestíveis

Então.

Vamos começar isso aqui falando do que é importante, do que importa e do que, acima de tudo, tem importância: um dos mais proeminentes irmãos caminhoneiros deste (suposto) terceiro pedaço de rocha a orbitar nossa carismática estrela anã, Guto Senra, junto com 3 amigos que também são da turma da boléia, heroicamente deu a garfada inicial em uma série de “webisódios” (odeio esse termo, mas existe alternativa? Aceito indicações!) sugestivamente intitulada Ogrostronomia. Pra você que quer aprender a fazer comida simples, palatável e pra homem - vai que seu namorado curte, mano? -, dá um like na página dos caras no facebook e/ou assina o canal deles no youtube. A primeira aula da autêntica culinária dos filhos, netos e bisnetos de camponeses foi sobre como fazer churrasco. E os filhos da puta não só não me chamaram pra provar o resultado, como o Jimmy ainda linkou a página do Utopia em uma foto constrangedora no facebook.

(Quando abrir a garrafa de Blue Label não vou chamar ninguém pra beber, em retaliação!)

Ainda falando de comida, e sem dúvida descendo vários degraus em direção ao anárquico reino da bizarrice (é anarquia ou monarquia, cazzo?), se você não foi bombardeado com links e referências, há algumas semanas, do vídeo nada eufemisticamente intitulado “Sanduíche de Buceta”, então parabéns. Não sei em que recôndito esquecido deste plano de realidade o senhor foi se enfurnar, mas sugiro que, agora que está de volta à convivência com os bons, não vá atrás da pérola. Acredite: não vale a pena nem por seu caráter nonsense.

Trata-se de um vídeo amador de uma moça - que nem maior de idade me pareceu, a bem da verdade - que besunta suas já mencionadas partes com condimentos (a saber: maionese, MUITA maionese), esfrega em outros ingredientes, tais como pães, presunto e queijo, e, imagino eu, come tudo ao fim do processo. Digo “imagino eu” porque não tive disposição para assistir a peça até o final. Espera-se, de um vídeo com tal mistura de absurdo, culinária e putaria, que seja excitante, desperte a fome ou faça rir. E não obtive nenhuma das três reações. Mas, ao contrário da maioria das pessoas que assistiram ao vídeo e cujas reações tive o (des)prazer de presenciar, também não fui tomado por horror ou nojo, seja pela “falta de higiene” da menina, seja por sua exposição voluntária.

Em primeiro lugar, não vejo problemas de higiene na questão. Não existe NADA naquele vídeo que as pessoas não coloquem na boca com regularidade: pães, maionese, presunto, queijo ou órgãos genitais de moças libidinosas. Ok, admito que a mistura de tudo isso é inesperada. Nem por isso vejo por que causar asco, se não por algum tipo de moralismo cristão que sobrevive em nossa mente e associa sexo a sujeira. O que nos leva ao segundo ponto: minha surpresa em ver o despudor da moça sendo tratado de forma tão furiosa. Sério, ainda há quem se surpreenda diante do fato de que mulheres - sejam elas moças, mulheres, coroas ou velhas - também curtem uma sacanagem? Quantas mulheres mais precisarão dar entrevistas “bombásticas” informando que, sim, aceitam a idéia de sentir “prazer anal” (Sandy, não estou falando de você, estou falando de outra mulher que deu uma entrevista afirmando a mesma coisa, claro), quantas mulheres precisarão ser “flagradas” em atitudes lascivas, quantas mulheres terão que aderir à indústria pornográfica ou mostrar satisfação com práticas sexuais “pouco ortodoxas”, até que aceitemos o fato de que, vejam só, essas criaturas também sentem prazer e desejo sexual?

Isso não tem nada a ver com a criação, com o caráter, com algum tipo de carência afetiva ou coisa que o valha. Pensamentos dessa natureza são fruto desse nosso ranço machista. “Mas o que o pai dela vai pensar?”, ou “E se fosse sua irmã?” são questões que só passam pela cabeça de quem ainda vê mulheres como propriedade, ainda que de forma bastante vaga. Esse raciocínio nos leva a concluir que não interessa se ELA está à vontade com isso, mas se o pai, o irmão ou o marido dela sabem tolerar esse comportamento. Logo, ela é uma demente, incapaz de pensar por si mesma, e precisa que um homem - essa criatura inteligente e racional - use seu teleencéfalo altamente desenvolvido para guiar a ensandecida criatura pelo caminho da moral e dos bons costumes!

Se você diz que não namoraria ou contrataria uma mulher dessas para a sua empresa, a falha não é dela, tampouco é dela a postura repreensível: ambas são suas. Só não vou dizer a você para assumir sua hipocrisia porque isso seria um contrasenso. A hipocrisia, tal e qual a humildade, é daquelas características que pressupõem uma atitude pouco reflexiva, portanto só duram até o momento em que são percebidas.

A verdade é que mulheres criadas em famílias equilibradas (existe isso?), em ambientes “normais” (defina “normal”), com papai e mamãe e colégio particular e telefone celular e roupinhas da moda e irmãozinhos e avós e Temperatura Máxima aos domingos com a família ao redor de uma bela macarronada TAMBÉM vão querer trepar - e vão curtir, e vão querer mais - em algum momento da vida. Algumas vão se satisfazer com um papai-e-mamãe bem comportado à meia luz. Outras vão querer ser besuntadas em azeite e lambidas por cinco homens, ou passar condimentos nas partes, ou tentar orifícios ditos “pecaminosos” em suas práticas sexuais. Deixemos todas elas em paz e vamos nos preocupar com coisas mais importantes: quando será que o Discovery Channel vai descobrir a genialidade dos caras do cracked.com e dar a eles uma série no canal?

Das desculpas

Nossa postura diante da morte é ignorá-la. O máximo possível. Até o limite do aceitável. Agimos diante da indesejável como se a própria menção da verdade de que podemos morrer a qualquer momento transformasse a inevitabilidade distante em uma possibilidade palpável. Mencioná-la é atraí-la. A morte é o Besouro Suco.

Venho notando isso de dois anos pra cá. Sempre que menciono que minha irmã morreu, geralmente respondendo a alguma pergunta relacionada a ela, recebo, como resposta, um pedido de desculpas.

Interpreto esse “Ah, desculpe” como um “Ah, desculpe-me por te fazer lembrar desse assunto desagradável”. Porque na verdade eu nunca penso nisso, no fato de que minha irmã está morta. Não é como se eu me lembrasse, todos os dias, assim que acordo, do fato de que não, não posso ligar pra Janaína. Não é como se, depois de sonhar com ela, e logo ao acordar, eu passasse alguns milésimos de segundo pensando “Ei, a Jana ia gostar de saber desse sonho, vou ligar pra ela e…OHWAIT”. Não, eu nunca me peguei tentando lembrar do dia em que a Janaína e a Fernanda se conheceram, por um breve instante, só pra me lembrar que na verdade elas não se conheceram, e não vão se conhecer nunca, porque quando uma chegou a outra já tinha ido. Não pense você que eu sinto falta dos e-mails que ela mandava, dos recados que deixava no orkut e que fico triste ao perceber que o facebook tem um campo SISTER, que é o lugar dela, mas que ela nunca vai ocupar. Não, amigo, eu quase nunca lembro da Janaína, e nunca, nunca me peguei pensando - de forma surpreendentemente mórbida - em como será que está o cadáver dela naquela sepultura, próximo aos restos do meu avô, se já é apenas um esqueletinho de peruca, e como deve estar hilário, e em como ela iria rir se eu comentasse isso com ela. E eu não sinto, todo maldito dia, uma saudade que não tem fim da risada dela, que eu QUASE consigo ouvir, mas não consigo, ao mesmo tempo, e minha vida agora nem é essa sucessão de retornos bruscos à realidade, e eu não vejo, todos os dias, alguma guria que me lembra ela, e as irmãs da Fernanda também não me trazem a Janaína à memória, e eu não vivo me perguntando o que ela acharia da minha vida agora, da minha presença no Rio, e se ela já teria vindo me ver, e como a gente se divertiria quando eu contasse pra ela dos ratos e tudo mais, e quantas coisas constrangedoras da minha infância ela ia contar pra Fernanda, e eu não me lembro, com pesar, que nós um dia marcamos de ficar bêbados juntos, mas nunca ficamos, porque eu praticamente não bebia naquela época.

Não, eu não me lembro da Janaína quase nunca, tem razão, foi apenas você surgir, com o gancho para esse assunto funesto, que ela me veio à mente. Que vergonha, meu amigo, que vergonha. Mas deixe pra lá, está perdoado, que essas coisas acontecem. Só não faça de novo, por favor, e vamos mudar de assunto e falar de coisas mais felizes. Que importância tem uma irmã morta, afinal?

Dos meandros insondáveis

É o seguinte: se você estiver lendo este post, só há uma conclusão a tirar. A saber: você não é analfabeto.

Não, espera. Não era isso que eu ia dizer. Claro que “você não é analfabeto” é uma conclusão lógica, pois, se fosse, não estaria lendo este post. Mas aí entramos no campo das minúcias, daqueles detalhes aparentemente irrelevantes, mas que são cruciais para levar você, leitor, a ler este blog, este post, estas palavras, esta pessoa que escreve agora. São muitos detalhes, e se você resolver parar pra pensar em todos, pode ir à loucura. De verdade. As coisas acontecem sempre de forma tão encadeada, e a gente ignora de tal maneira esta seqüência (com trema, olha que simpático!) de acontecimentos, que, quando enumerados, quando dispostos em fila, quando mencionados, quando damos por eles, enfim, são tantos e tantos que chega a ser curioso que possamos ignorá-los com tamanha displicência.

Eu disse, por exemplo, que você só está lendo este post porque não é analfabeto. Ok, essa é fácil. Mas existe um segundo fator: você só está lendo ESTE post porque EU não sou analfabeto. E você também só o lê porque, além de ser alfabetizado, o foi em português, este tão vilipendiado e pouco falado idioma, a última flor do lácio, inculta e bela e agora cheia de idéias sem acentos. Camões remoer-se-ia no túmulo. Fica esta mesóclise em sua homenagem, meu (em breve) compatriota.

Mas voltando ao raciocínio anterior - se é que havia algum -, fomos ambos alfabetizados na língua portuguesa, cada um a seu tempo (o momento em que fomos alfabetizados, e isso lá é verdade, não faz diferença alguma, não é um daqueles detalhes cruciais mencionados nos parágrafos anteriores), e falarmos o mesmo idioma é o que permite que eu, munido da habilidade, do desejo e da falta de bom-senso que me move a fazer solilóquios dessa natureza, me comunique, ainda que de maneira capenga, com o senhor, ou a senhora, ou a senhorita, ou tu mesmo, sua bicha, que homem jovem a gente trata é assim, sem pompa nem circunstância.

Da mesma maneira, o que leva este texto a chegar até você vai ainda mais longe. Em primeiro lugar, você tem uma conexão com a internet. O que, se pararmos pra pensar, é uma coisa muito bacana. A gente trata a internet como algo garantido, como se sempre fosse estar aqui, ou como se sempre estivesse estado (estivesse estado é escroto, eu tentei pensar em outra estrutura pra essa sentença, mas admito, derrotado, que me escapou, oh, a incompetência redativa!). E, na realidade, todo esse universo peculiar feito de computadores interligados, que, por sua vez, interligam e separam pessoas com muito mais facilidade do que seria imaginável, é coisa até bem recente. De quinze anos pra cá, e olhe lá. O google tem apenas dez anos, e já nos perguntamos como diabo a vida era possível sem essa porcaria, antes.

Mas agora todo mundo tem internet. Todo mundo acessa o google, pesquisa a vida dos outros, entra no orkut, joga colheita feliz, faz perfil no facebook, dá like quando um desafeto toma um pé na bunda, entra na wikipedia, descobre que a capital da Austrália na verdade é Camberra, entra no IMDB, paga de cinéfilo conhecedor da carreira de todos os atores, enfim… hoje em dia tudo é muito mole, a vida é jogada no easy. E tudo isso por causa de 13 servidores principais que mantêm a internet rodando. Sim, você leu direitinho: existem 13 computadores principais, os responsáveis por manter esta conexão que permite que você, desocupado, perca seu tempo com esses 6 enormes parágrafos de baboseiras irrelevantes.

Mas não bastava só isso. Não bastava apenas você e eu sermos alfabetizados em português, você e eu termos conexão com a internet. Eu e você temos computadores, apetrechos de engenharia intrincada, cheios de circuitos miniaturizados, com processadores capazes de pensar mais rápido do que qualquer pessoa, que conseguem até mesmo ganhar de um russo no xadrez, que transformam zeros e uns em pornografia à sua disposição, a qualquer hora.

E ainda assim isso não é o mais importante! Existem milhões de pessoas, no mundo, que têm computadores. Bilhões, talvez. Destas, milhões - novamente: bilhões? - acessam a internet. Dentro desses milhões, alguns outros milhões são de pessoas alfabetizadas - praticantes ou não - em português. E ainda assim não são esses milhões que estão aqui. Não são milhares de pessoas lendo este blog. São, quando muito, cinqüenta pessoas (não acredito nos números fornecidos pelo facebook e pelo google reader). Estas cinqüenta pessoas chegaram aqui de alguma maneira. E esse é um grande mistério. Porque eu sei, e elas sabem, que elas têm um computador. Também compartilhamos o conhecimento de como entrar na internet e digitar a url desta página no navegador. Também lemos e escrevemos em português, isto é ponto pacífico.

Mas a verdade é que essas pessoas, essas cinqüenta pessoas, chegaram até aqui pelo google - e se não houvesse o google? -, pela indicação de um amigo - e se o amigo nunca tivesse nascido? -, via twitter - e se eu não tivesse mudado minha postura em relação àquilo? - ou sabe-se lá como. E, se bobear, nem se lembram como me alcançaram aqui, eu e meus resmungos inúteis, todas as minhas palavras irrelevantes, neste recôndito obscuro da internet.

Mas me alcançaram. E aqui estamos nós: eu escrevendo e você lendo. O que me leva a uma simples pergunta:

Tu não tem nada melhor pra fazer, não?

Dos rompantes de genialidade I

Batman do futuro é um desenho que se passa no futuro (dã!), muitos anos depois de… bom, de agora, mas não o suficiente pro Bruce Wayne ter morrido. Ele só é bem velho e tem a cara do Clint Eastwood.

Daí tem esse episódio no qual o Terry McGinnis, que é o sujeito sob a roupa do Batman, tá investigando uma série de crimes que envolvem ataques de esquizofrenia. A pessoa começa a ouvir, dentro da cabeça, uma voz que dá ordens do tipo “Roube isso”, “Mate fulano”, etc. Acaba obedecendo, achando que é a voz da consciência ou coisa parecida, quando na verdade é um chip implantado pelo vilão, que permite que ele se comunique com a pessoa pelo ouvido interno.

(Eu sei que é um argumento raso, mas estamos falando aqui das histórias de um homem que anda pela cidade com colante e um morcego no peito, e os criminosos têm medo dessa pessoa. Medo, não pena. Medo. Argumento raso por argumento raso, fique com este.)

A situação toda dá merda quando o criminoso tenta usar esse truque com o Bruce Wayne, por qualquer razão. Wayne desvenda a situação, manda um “Pega, McGinnis”, o pau come, Batman prende o vilão, essas coisas. E aí, no final, lá estão Bruce Wayne e Terry Mcginnis conversando a respeito do caso, e o guri pergunta ao velho como ele soube que era um truque, não era a voz da cabeça dele.

Bruce Wayne sorri e diz “A voz ficava me chamando de Bruce. Não é assim que eu me chamo dentro da minha cabeça.”.

Essa fala do Bruce Wayne em Batman Beyond, SÓ essa, define o Batman melhor do que qualquer filme do morcego, melhor do que Ano Um e Cavaleiro das Trevas. Melhor do que qualquer coisa do Batman que você tenha lido.

Chupa, Frank Miller.

(Não vou tirar conclusão nenhuma sobre isso, só queria comentar e era grande demais pra falar no twitter. Tá aqui, então.)

Das coisas que se ensaia dizer…

…mas não se diz.

Fico sem saber o que é pior: ter sobre o que escrever, sem ter ânimo, ou sentir uma arrebatadora vontade de escrever sem ter assunto para tanto. Considero que, neste momento, estou exatamente na união destes dois casos: não tenho sobre o que escrever e não tenho ânimo. Escrevo assim mesmo, entretanto, porque, como já disse aqui antes (disse? Não tenho certeza, mas devo ter dito, digo sempre as mesmas coisas, e geralmente do mesmo jeito, sou terrivelmente repetitivo e até, vou além, bastante pleonástico. Mas não quero falar disso, este parêntese está ficando gigantesco, vou fechá-lo agora e acabar com esta putaria, repare) enfim, como dizia que disse aqui antes, digo: eu me odeio e gosto de me contrariar.

Acho que tem bem uns cinco dois pontos no parágrafo acima, mas quem está contando?

Mudei-me, e desta vez foi de com força: saí de Brasília. Vivo agora no Rio de Janeiro, uma cidade habitada por um povo que, fosse comprado por quanto vale e vendido pelo valor que pensa ter, renderia lucro inenarrável. Gostaria de afirmar, sem quaisquer dúvidas, que são as pessoas mais ufanisticamente bairristas da nação, mas, oras, não vamos desprezar o ufanismo e o bairrismo dos gaúchos, pernambucanos, mineiros e paulistas, dos paranaenses, brasilienses, goianos e baianos, dentre outros. Ofender-se-iam, certamente, ao não serem devidamente ofendidos com a ofensa que lhes cabe com justiça.

Enfiei uma mesóclise e uma frase sem sentido (acredito que a primeira de muitas) neste texto. Onde é que vamos parar?

Senti falta de digitar neste notebook. Na verdade, senti falta de digitar em outra coisa que não fosse um netbook. Netbooks são muito práticos e muito bonitinhos, mas uma hora você se cansa das teclas todas juntinhas e de configurações 1024×768 em telas que não vão além de uma dezena de polegadas. De todo modo, apesar de seu teclado farto e de suas dezena e meia de polegares, não consigo confiar nesta máquina em que escrevo, porque técnicos de informática são as criaturas menos confiáveis do mundo (afirmo isso fazendo parte da categoria, de modo que tenho perfeito conhecimento de causa e, como de costume, não estou errado) e, assim sendo, informei o miserável do que ocorria e avisei que a mera formatação não era solução. O pústula formatou e considerou o serviço feito. Logo, tenho sobre meu colo um computador prestes a sofrer novo ataque de apoplexia.

Lancei mão de “apoplexia” num texto, ainda que de forma meio prosopopéica: dou-me +20 pontos.

Curioso o que o twitter faz com a cabeça das pessoas. Se bem que são tantos os distúrbios, tamanhas as afetações, tão violentas as mudanças - embora perfeitamente previsíveis, e apenas reflexos de fatos anteriores, já confirmados por outras ferramentas de “mídias sociais” - que é melhor ser mais específico, então especificarei: freqüentemente escrevo algo por lá, naqueles míseros 140 caracteres, e considero que a idéia é mais densa e pode ser mais bem explorada do que aquilo, que é possível ramificar, explicar melhor, argumentar de forma mais embasada. Que aquele arroto redativo, restrito àquele número ridículo de toques, pode vir para cá e ser estendido em um local de letras, acentos, pontuação e espaços infinitos.

Mas aí já falei por lá, então deixo morrer como está.

Todo esse não-desenvolvimento dos meus textos, sejam eles os que “rascunho” na página do passarinho ou os que mantenho fermentando dentro da minha cabeça, deve-se a uma coisa, e a uma coisa apenas: procrastinação. Diversas vezes afirmo ser por preguiça ou falta de tempo, mas esses são apenas os motivadores do defeito, tão grave. Ou as desculpas que uso a fim de mascará-lo, talvez. Enfim, sou tão procrastinador que comecei o texto pensando em falar disso, seria o primeiro assunto, mas fui deixando para depois e só mencionei agora. E tenho mais coisas a dizer a respeito…

…mas ficarão para outra hora.

Porque agora, pensando aqui com meus botões - na verdade pensando sozinho, porque não tem botão algum nas roupas que estou vestindo durante esta narrativa sem nexo, coerência, embasamento ou razão aparente -, me ocorreu que a total ignorância (voluntária ou inerente) de ateus e cristãos (e talvez muçulmanos, judeus, espíritas, macumbeiros, maometanos, xintoístas, cientologistas, hindus e macfags) em relação aos agnósticos, que os faz argumentar contra estes de forma sempre muito pouco inteligente e nada fundamentada, renderia um post bem interessante, que talvez até rendesse uns comentários inteligentes, que poderiam vir a gerar uma discussão interessante, que em algum momento descambaria para a troca gratuita de ofensas e então me motivaria a fazer outro texto, dessa vez bem raivoso.

E é nos textos raivosos que me saio melhor.

Estive considerando o porquê disso, recentemente. Disso, no caso, é a razão dos meus textos raivosos fazerem mais “sucesso”, se é que o termo se aplica, do que os que escrevo tranqüilo. Acho que é porque raiva é o sentimento que mais tenho facilidade para acessar, de todos. Me lembrar de momentos felizes não me deixa feliz (freqüentemente me torna melancólico, inclusive), trazer à tona lembranças tristes não necessariamente me deixaria triste, mas rememorar coisas que me aborreceram certamente vai tornar a me irritar. E irritado eu faço o que qualquer escritor minimamente competente sabe fazer de cabeça fria: não penso antes de escrever e, ao fim do texto, não dou a mínima se ele fez algum sentido. Apenas boto aquela porcaria pra fora e enfio na cara dos outros.

Duplo sentido: trabalhamos.

Agora, por que diabos VOCÊS gostam disso, o que os motiva a encher um texto como esse aí embaixo, sobre minha irritação com o Itaú, de likes no Google Reader, de RTs no Twitter, de sei lá mais que diabos vocês usam pra favoritar essas merdas… ah, isso me escapa completamente. Pelo que vejo, existem algumas várias razões para isso. Uma delas é que, de alguma maneira, há quem sinta prazer em me ver nervoso. O que é uma atitude bem escrota e cretina, se você parar pra pensar, porque é como se torcessem para que eu tivesse uma úlcera. Outra, ainda - e essa eu considero menos provável - é que vocês apenas lêem um desses rompantes de fúria e ficam felizes por alguém ter tido tamanha falta de bom-senso, amor-próprio e sentimento de auto-preservação a ponto de dizer todos os disparates, os absurdos e as estultices que os senhores já pensaram, mas foram muito bem-educados e pouco corajosos o suficiente para ignorar.

No fim das contas, não tenho opinião formada sobre isso.

E o texto não terminou ainda, mas acho que termina agora com um anúncio que não vos interessa, mas interessa a mim, e talvez, sei lá, interesse a vocês também (este sou eu me contradizendo numa mesma sentença. Não é para os fracos!): farei uns cursos de esgrima escrita. Eu sei, eu sei, é inútil e jogarei dinheiro fora. É um fato que quem não tem o jeito para a coisa, não importa o empenho ou o esforço, nunca vai chegar perto de quem, por qualquer tipo conjunção cósmica desconhecida, tem este ou aquele traquejo nato. Mas, oras, às vezes dá algum resultado. O que me interessa não é superar gente do naipe do Antônio Prata, por exemplo (o pai dele, nem menciono), apenas sair da minha linha de mediocridade já me deixaria satisfeito. Além do mais, sou um maníaco por controle, gosto de métodos. A idéia de que escrever pode se tornar um processo metódico (e, assim, mais organizado e mais “fácil”) me interessa.

Sei que prometo isso há oito anos, mas vai que dessa vez, finalmente, consigo escrever algo que preste? De todo modo, não apostem muitas fichas. Eu não apostaria.

Livreiragens

Você sabe o que é um troll o skoob?

O skoob é mais um desses sites de relacionamento, tipo o orkut ou o facebook, onde você pode forçar amizade com desconhecidos como se fossem seus amigos, deixar mensagens inconvenientes, receber mensagens impertinentes, entrar em comunidades inúteis e escrever inutilidades em tópicos sem utilidade alguma, ao mesmo tempo em que coloca uma foto que te faz parecer algo que você não é - COFCOFBONITCOFCOF -, de modo a atrair as gatas (só gatas) e assim conseguir finalmente comer alguém.

“Ou seja”, você me interrompe, sendo falastrão e inoportuno, “é mais um sucedâneo para as duas redes já citadas”. Se fosse, amigo, eu não perderia meu tempo vindo aqui falar desta porra. Senta que lá vem a história e escuta e espera eu terminar.

Então, como dizia, o Skoob pode parecer mais um sucedâneo de orkuts e facebooks da vida, mas tem um diferencial: assim como o last.fm segue o mesmo princípio - mas é voltado pra música -, o livemocha mostra funções semelhantes - com foco em aprendizado de idiomas - e algum outro que eu não conheço tem todas essas funções - mas liga as pessoas falando de cinema ou qualquer outro hobbie de aplicações práticas inexistentes -, o skoob serve para tudo o que já foi mencionado, mas sua idéia principal é literatura.

É mais ou menos assim, ó: você entra em www.skoob.com.br, se cadastra (nem precisa de convite, chupa, orkut de 2004) e passa a buscar, na enorme lista de livros já cadastrados, os títulos que já leu, vai ler ou está lendo. Aqueles que estiverem ausentes você mesmo pode cadastrar tendo à mão algumas informações simples, como ISBN, número de páginas, título, autor e editora.

Na criação da sua estante, você também pode classificar os livros com estrelinhas que vão de 1 (ruim) a 5 (ótimo), escrever resenhas, acompanhar o histórico de leitura dos livros marcados como LENDO - com direito a comentários opcionais. Tem a possibilidade de marcar os livros que tem, os que quer ter, os que emprestou e os que está querendo trocar. Pode criar uma lista como meta de leitura para o ano corrente e marcar seus livros favoritos.

Muita gente cadastra por lá outras coisas que, na minha pouco humilde e muito válida opinião, escapam completamente à esfera da literatura, como quadrinhos, mangás e até periódicos, então eventualmente você vai esbarrar com usuários que afirmam ter lido 200 títulos. Sou meio purista com essas coisas e não menciono nada além de livros, e mesmo assim só falo dos que li nos últimos 5 ou 6 anos. Qual o objetivo de cadastrar lá as coisa que li do Monteiro Lobato, Pedro Bandeira, Coleção Vagalume e assemelhados, sendo que não faço muita questão de travar contato com pessoas dispostas a discutir esses livros/autores? Prefiro escrever resenhas falando dos livros que li e não gostei (como Lobo da Estepe e O Apanhador no Campo de Centeio, por exemplo), ou buscar, entre meus amigos adicionados, quais leram meus livros preferidos, de modo a prestar a esses, ainda que apenas mentalmente, o respeito que merecem.

No fim das contas, o skoob pode servir tanto como ferramenta de controle - sempre quis poder manter à mão as datas em que comecei/terminei de ler meus livros, e costumava escrever essa informação na orelha da contracapa - quanto como rede social, onde você pode buscar e puxar conversa com pessoas com gosto literário semelhante ao seu (ou brigar com aqueles que criticam as coisas que você gosta, esporte muito mais apreciado por essa corja ignara que circula pelas infernetes). Também pode ser usado para controlar os empréstimos de livros que você fizer - prática que abandonei, por não confiar na devolução.

Nem tudo são flores, claro. Existem alguns bugs desagradáveis no sistema (pode levar um tempo pra que um livro concluído conste como lido na sua meta de leitura, por exemplo), e é comum receber mensagens de “autores” divulgando “livros” que não passam de versões tão mal-escritas quanto e ainda mais pobres (se é que é possível) das “histórias” do Dan Brown, J. K. Rowling e Stephenie Meyer. Mas esses arautos da subliteratura podem ser denunciados como spammers, enquanto a equipe de desenvolvimento responde com presteza quando algum problema é notificado.

No fim das contas, o skoob pode ser bem divertido.

(Se resolver experimentar, entre em contato.)