Archive for the 'nerdice' Category

Livreiragens

Você sabe o que é um troll o skoob?

O skoob é mais um desses sites de relacionamento, tipo o orkut ou o facebook, onde você pode forçar amizade com desconhecidos como se fossem seus amigos, deixar mensagens inconvenientes, receber mensagens impertinentes, entrar em comunidades inúteis e escrever inutilidades em tópicos sem utilidade alguma, ao mesmo tempo em que coloca uma foto que te faz parecer algo que você não é - COFCOFBONITCOFCOF -, de modo a atrair as gatas (só gatas) e assim conseguir finalmente comer alguém.

“Ou seja”, você me interrompe, sendo falastrão e inoportuno, “é mais um sucedâneo para as duas redes já citadas”. Se fosse, amigo, eu não perderia meu tempo vindo aqui falar desta porra. Senta que lá vem a história e escuta e espera eu terminar.

Então, como dizia, o Skoob pode parecer mais um sucedâneo de orkuts e facebooks da vida, mas tem um diferencial: assim como o last.fm segue o mesmo princípio - mas é voltado pra música -, o livemocha mostra funções semelhantes - com foco em aprendizado de idiomas - e algum outro que eu não conheço tem todas essas funções - mas liga as pessoas falando de cinema ou qualquer outro hobbie de aplicações práticas inexistentes -, o skoob serve para tudo o que já foi mencionado, mas sua idéia principal é literatura.

É mais ou menos assim, ó: você entra em www.skoob.com.br, se cadastra (nem precisa de convite, chupa, orkut de 2004) e passa a buscar, na enorme lista de livros já cadastrados, os títulos que já leu, vai ler ou está lendo. Aqueles que estiverem ausentes você mesmo pode cadastrar tendo à mão algumas informações simples, como ISBN, número de páginas, título, autor e editora.

Na criação da sua estante, você também pode classificar os livros com estrelinhas que vão de 1 (ruim) a 5 (ótimo), escrever resenhas, acompanhar o histórico de leitura dos livros marcados como LENDO - com direito a comentários opcionais. Tem a possibilidade de marcar os livros que tem, os que quer ter, os que emprestou e os que está querendo trocar. Pode criar uma lista como meta de leitura para o ano corrente e marcar seus livros favoritos.

Muita gente cadastra por lá outras coisas que, na minha pouco humilde e muito válida opinião, escapam completamente à esfera da literatura, como quadrinhos, mangás e até periódicos, então eventualmente você vai esbarrar com usuários que afirmam ter lido 200 títulos. Sou meio purista com essas coisas e não menciono nada além de livros, e mesmo assim só falo dos que li nos últimos 5 ou 6 anos. Qual o objetivo de cadastrar lá as coisa que li do Monteiro Lobato, Pedro Bandeira, Coleção Vagalume e assemelhados, sendo que não faço muita questão de travar contato com pessoas dispostas a discutir esses livros/autores? Prefiro escrever resenhas falando dos livros que li e não gostei (como Lobo da Estepe e O Apanhador no Campo de Centeio, por exemplo), ou buscar, entre meus amigos adicionados, quais leram meus livros preferidos, de modo a prestar a esses, ainda que apenas mentalmente, o respeito que merecem.

No fim das contas, o skoob pode servir tanto como ferramenta de controle - sempre quis poder manter à mão as datas em que comecei/terminei de ler meus livros, e costumava escrever essa informação na orelha da contracapa - quanto como rede social, onde você pode buscar e puxar conversa com pessoas com gosto literário semelhante ao seu (ou brigar com aqueles que criticam as coisas que você gosta, esporte muito mais apreciado por essa corja ignara que circula pelas infernetes). Também pode ser usado para controlar os empréstimos de livros que você fizer - prática que abandonei, por não confiar na devolução.

Nem tudo são flores, claro. Existem alguns bugs desagradáveis no sistema (pode levar um tempo pra que um livro concluído conste como lido na sua meta de leitura, por exemplo), e é comum receber mensagens de “autores” divulgando “livros” que não passam de versões tão mal-escritas quanto e ainda mais pobres (se é que é possível) das “histórias” do Dan Brown, J. K. Rowling e Stephenie Meyer. Mas esses arautos da subliteratura podem ser denunciados como spammers, enquanto a equipe de desenvolvimento responde com presteza quando algum problema é notificado.

No fim das contas, o skoob pode ser bem divertido.

(Se resolver experimentar, entre em contato.)

De tigres e ciborgues

É curioso como a gente mantém uns hábitos desde a infância, sem se dar conta. Quando comecei a jogar videogames, em… sei lá… 1987, acho, ao ganhar meu primeiro Atari (na verdade um sucedâneo do Atari, uma plataforma 8bits de uma tal APPLE, mas que rodava os mesmos cartuchos), meu conhecimento de inglês inexistia. Logo, os jogos que não tinham títulos traduzidos eram lidos de forma literal, tipo RIVERRAIDE (depois, com uma correção de um dos meus primos, virou Riverreide, como falo até hoje). Frostbite não era “frostbáite”, mas “frostibite” mesmo, e por aí vai.

Com o tempo é claro que algumas coisas se resolveram. The Lucky Dime Keeper, por exemplo, um dos - poucos - jogos que tive pro Game Gear, eu chamava de “Deluqui dimiquépe”. Não perguntem de onde saiu isso. E, como muitos outros guris da minha idade na época, chamava os golpes de Street Fighter por nomes bizarros, tipo TÁIGUER-ROBOCOP, RALEQUIFUL e TRATRATRUGUEN, no lugar de Tiger Uppercut, Sonic Boom (se bem que eu não consigo ouvir o Guile falando Sonic Boom até hoje) e… bom, e tratratrugen. Os nomes dos personagens dos jogos também levavam seus petardos. Street Fighter, pra permanecer no exemplo, está cheio deles: Guile (em vez de “Gáiou”), Zanguiéfe (em vez de “Zanguif”), “Mister Bison”, e por aí vai.

O negócio é que mantenho alguns desses hábitos. Não existe o que me faça chamar usar a pronúncia correta com Mortal Kombat, R-Type ou Phantasy Star. Earthworm Jim, Resident Evil, Fallout e outros jogos que conheci depois de mais velho, com um nível de inglês significativamente mais avançado, chamo pelo nome correto, com a pronúncia adequada, mas Pitfall nunca vai ser chamado com um inglês remotamente parecido com o nativo, tampouco consigo pensar em Donkey Kong ou Sonic ou nos personagens de MK usando a pronúncia correta. Já foi difícil me acostumar a chamar Altered Beast corretamente! E fico imaginando se acontece só comigo, até ver meus amigos se referindo a California Games como “Jogos de Verão” ainda hoje. Tenho quase certeza, aliás, que a maioria dos jogadores que vêm dessa época pescotapearia amigos que chamassem F-Zero de “F-Zírou” ou acertassem a pronúncia do Fury de Fatal Fury.

É uma questão de hombridade, até. Podemos admitir que Tiger Uppercut mude de nome, mas Keystone Keapers será, eternamente, “Polícia e Ladrão do Atari”, e chamar o Guile pela pronúncia certa será sempre viadagem.

De cinema, futuros alterados, respeito tecnológico e outras viagens…

Em 1990, eu era um guri de 9 anos, sobrinho de uma moça que trabalhava na cabine de projeção de um cinema. Na época - que nem vai tão longe assim, convenhamos, são “só” 20 anos -, existiam cinemas na rua: salas que não ficavam dentro de shoppings, mas “soltas” no meio da cidade, entre outros comércios. As pessoas saíam pra ir ao cinema, não pra ir ao shopping ver um filme. Não que fosse melhor ou pior, só era uma experiência diferente, que não se tem mais (ao menos em Brasília), porque igrejas evangélicas - a Universal, em particular -, como se arrancassem jerusalém das mãos dos sarracenos, empreenderam uma cruzada pra comprar todas essas salas e transformá-las em centros de gritaria.

(O que esses crentes não entendem é que não adianta berrar, chorar, arrancar os cabelos, dar chilique e fazer escândalo: se deus existe, é suficientemente sábio para nos ignorar e parece levar tal política bem a sério. Não posso culpá-lo. Eu também não ia querer conversa com a galera que trucidou meu filho.)

Dentre as várias vantagens de ter uma tia que trabalhava num cinema, a maior delas era que eu podia ver o filme quantas vezes quisesse. Se você acha que seu filho, sobrinho, irmão ou primo pode passar dias diante de um DVD, imagine se esse pivete tivesse à disposição uma sala de cinema inteira, com pipoca, doces e o diabo a quatro na bomboniere; com o som do projetor; com as poltronas confortáveis; com a tela que é maior do que o mundo; com o som que te faz mergulhar no filme; com tudo, tudo mesmo, até lanterninha, essa raça em extinção. Eu tinha. E, se deixassem, moraria lá dentro.

Aliás, a censura não era levada a sério na época. Não existia isso de vetarem a entrada de crianças por causa de uma besteira como “classificação indicativa”. Se ocorria, de algum modo sempre passei incólume pela regra, desde antes de ser sobrinho da moça da sala de projeção. Sendo o tal sobrinho, nem preciso mencionar.

Então, numa certa tarde de 1990, depois do colégio, minha mãe precisou comparecer a algum compromisso e me deixou com a tia Yone, que me recebeu na porta do cinema e me levou até a sala, já escura, recomendando que me comportasse. Quando relaxei no encosto da cadeira e olhei para a telona, a cena que se desenrolava prendeu minha atenção de imediato. O que começou com uma velha atravessando a rua tornou-se um assalto, seguido por um assalto ao assaltante, passando, daí, para a cena de um bando de sujeitos roubando uma loja de armas e metralhando impiedosamente um carro da polícia que se aproximou para impedir.

Era Robocop 2.

Devo ter assistido o filme de ponta a ponta umas três vezes. E diversas vezes mais nos dias seguintes. E, vendo Robocop 2 hoje, é curioso como tudo aquilo fazia sentido na época, mas fica fora de contexto atualmente. Todo o clima cyberpunk, com a cidade dividida entre os criminosos - querendo ver o oco -, a grande corporação - topando ver o oco, desde que possa lucrar com isso - e a população no meio, tendo que conviver com as putas, os motoqueiros, os bêbados, mendigos e baderneiros, procurando ajuda do governo, que se omite porque é corrupto, decadente e vendido a preço baixo para os executivos da OCP. Havia toda uma sinceridade nos filmes futuristas da década de oitenta que não existe mais hoje.

Entendam o que chamo de sinceridade como essa projeção pessimista do futuro, com a criminalidade atingindo níveis impensáveis e tornando um inferno a vida do cidadão comum, enquanto alguns poucos, abençoados com as graças da corporação, levam uma vida de luxo e tranqüilidade. Não se vê mais essa abordagem. O conceito futurista que temos, hoje, é das pessoas se tornando mais e mais inúteis em um mundo controlado por máquinas, e só.

“Matrix”, “Eu, Robô”, “Surrogates”… todos esses filmes retratam a mesma idéia, cada um a seu modo: as pessoas serão dominadas no futuro de maneira a não pensar por si mesmas, apenas reproduzir o que lhes é imposto, seguir sem questionar. Essa ameaça à liberdade individual é tão subjetiva que não há um levante criminoso, ou seja, não existe “o submundo”. Há - e sempre deve haver, ou não teríamos filme - algum(s) membro(s) da sociedade que se opõe(m) à ordem estabelecida. Mas é ridicularizado, via de regra, ainda que tenha (e sempre tem) razão. Assim, a divisão social torna-se clara, perde-se a área cinzenta. De um lado as pessoas normais, em seu comportamento de rebanho. De outro, excluído, uma pessoa ou grupo de pessoas. Some aquele grupo meio marginal, meio mainstream, aquele povo levando a vida no limite entre as contravenções e a ordem, sendo tolerado pela polícia apenas porque a situação é tão caótica que não vale a pena perder tempo com eles.

É curioso pensar que não é o estágio tecnológico que conduz as previsões desse tipo, mas o momento social e político. Por isso é difícil apontar outra possibilidade de futuro sem ser considerado pessimista ou utópico, da mesma maneira que, acredito, era complicado para os teóricos dos anos 80 desenvolver uma possibilidade que não envolvesse altos índices de criminalidade, ou para alguém da década de 50 pensar no futuro sem imaginar desastres atômicos e mutações causadas pela radiação decorrente.

Ainda assim, a tecnologia tem sua parcela de “culpa” nessas idéias. Se não estivéssemos tão sujeitos às máquinas como estamos agora, seria mais fácil conceber uma realidade na qual travássemos uma guerra furiosa com elas - como em Exterminador do Futuro - do que uma na qual elas nos dominam sem dificuldade, como em Matrix. O fato é que cientistas já identificaram positivamente que, à medida em que nos acostumamos às novas tecnologias, nossas capacidades vão diminuindo. Uma pessoa que tem todos os telefones que precisa anotados em seu aparelho celular tem menor capacidade de memorização do que alguém que não dispunha de tal recurso, há 20 ou 30 anos atrás. À medida em que as novas gerações têm maior facilidade para operar e entender novos equipamentos, terão maior dificuldade para operar e entender maquinário obsoleto.

O que quero dizer é que aquele teu primo molecote pode ser capaz de compreender e utilizar o telefone celular mais avançado da atualidade com uma mão nas costas, mas bota esse pequeno pústula pra operar o tracking de um vídeo-cassete e vamos ver se ele se sai tão bem.

Mexer em um sistema operacional com interface gráfica é mole. Quantas linhas esse inseto consegue avançar em um MS-DOS, se precisar operar um prompt de comando?

Até meu pai consegue jogar Wii. Pede pro seu irmão de 12 anos descobrir qual é o objetivo no ET ou Superman do Atari.

(note que essa previsão de um futuro limpinho e organizado funciona se considerarmos que os roteiros dos filmes são escritos e pensados em países limpinhos e organizados, ok? um roteiro futurista que se passasse no Brasil, por exemplo, escrito por um brasileiro, seria completamente cyberpunk oitentista, dada a situação que vivemos por aqui)

Dos protocolos

Existem certos protocolos a serem seguidos, se você espera fazer parte de determinado grupo (ou ser CONSIDERADO parte do grupo, o que parece ser mais importante, afinal). Descumpra muitos deles e veja sua inestimável reputação escoar pelo ralo.

Um dos eternos grupos dos quais as pessoas querem participar - e se esforçam para isso - é o das pessoas legais. As pessoas legais não são exatamente aquelas que te tratam bem, seguram a porta do elevador para que você possa entrar/sair, dão passagem quando você quer atravessar a rua ou cedem o lugar no ônibus lotado. Essas pessoas são legais, claro. Mas não são AS pessoas legais.

Há alguns anos, quando comecei nessa vida de blogueiragem, logo ficou claro pra mim que as pessoas legais liam Bukowski, curtiam O Apanhador no Campo de Centeio, usavam termos como hype e indie e manjavam de bandas semi-desconhecidas, tipo Franz Ferdinand, Muse, Strokes e tal. Iam ao cinema ver filmes de arte, comentavam a respeito da última do David Lynch e eram grandes fãs de Amélie Poulain. Invariavelmente, usavam all star.

Hoje em dia você pode até não usar um all star, mas tem que gostar de óculos Wayfarer. Strokes e Franz é caído e curtir essas bandas pode até te tornar uma pessoa chata, em vez de alguém legal. Legal é se divertir com Lady Gaga, por ser tosqueira, e se amarrar em She & Him. Tem que ter lido os livros e visto os filmes do Harry Potter, tem que se lembrar com saudade de Pokémon, porque quem determina o que é legal agora é a geração que cresceu curtindo esse tipo de porcaria. Achar que Amélie Poulain é foda dá +REP e pode te tornar benquisto, mas não é crucial. Crucial MESMO é gostar da Zooey Deschanel e se vestir como os adolescentes de Juno.

A Zooey Deschanel é a famosa mais superestimada do momento, sucedendo Audrey Tatou, Angelina Jolie e Scarlett Johansson no posto. Ao menos a Jolie e a Johansson são gostosas, a Deschanel e a Tatou nem isso têm de mérito. O que as torna tão interessantes é que não ter graça nenhuma tá em voga. Quanto mais sem-graça você for, mais longe você vai. Estão aí os caras do CQC, que não me deixam mentir. Pokémon passa na TV até hoje e Freakazoid só teve uma temporada. Cada vez mais a tv dá espaço a Naruto e assemelhados, e onde foi parar o [adult swim]? Ser nerd tá na moda, amigo. Ser nerd é ser legal, ok? Se existe sinal maior de que ser derrotado e irrelevante é bonito, por gentileza, apontem, pois me escapa.

A meu ver, a única diferença entre a Zooey Deschanel e a Hilary Duff é que apenas uma delas vive de acordo com sua época e aceita sua postura de liferuleira, enquanto a outra adota ares de quem acaba de chegar dos anos 50, vestindo-se e usando o cabelo de uma fã dos beatles recém-desperta de sua câmara criogênica, direto do início dos anos 60. De resto, ambas alternam demonstrações de falta de talento quando atuam e quando cantam, e fazem questão - deve estar em todo contrato que assinam - de cantar em todos os filmes nos quais trabalham. Azar o nosso, que temos que aturar atuações canhestras alternadas com capacidade musical nula.

Mas da Hilary Duff você pode falar mal, ok? Pode criticar os cabelos, as roupas, os filmes. Pode ridicularizar, pode dizer que é atriz pra adolescentezinha acerebrada… da Deschanel, não. A Deschanel se veste como sua avó, oras. E se vestir como sua avó é a moda agora. Como você ousa dizer que os sapatos que ela usa são ridículos? Que aquela franja é medonha? Que aquelas roupas são cafonas e que aquela aparência não caiu em desuso por acaso?

Dizer isso é quebrar o protocolo das pessoas legais. Pessoas legais acham a Deschanel legal e ouvem She & Him. Se tu acha a Deschanel passável e acha que o M. Ward é foda sozinho e ridículo em dupla; se tu ri de quem curte wayfarer, porque te dá a sensação de que os anos 70 estão prestes a ligar e pedir os óculos de volta; se tu acha que ukelele é só um cavaquinho metido a besta… você não é uma pessoa legal. Vai ser acusado de troll!

Vai ser comparado comigo.

Diga: sua reputação pode agüentar um baque desses? Não é para os fracos, gafanhoto!

Brigas de rua

No começo dos anos 90, pipocavam joguinhos estilo Beat’em Up. Esses em que você tem que ir caminhando e metendo porrada numa horda interminável de inimigos. Em diversos deles, o cenário era uma cidade infestada de membros de gangues, punks, prostitutas chicoteadoras e outras figuras bizarras (como ex-lutadores de telecatch, agora no mundo do crime) sob o comando de algum mafioso. Streets of Rage, Final Fight, Double Dragon, só pra citar os mais famosos.

Guardadas as devidas proporções, essa era a realidade dos Estados Unidos então. Os índices de criminalidade subiram vertiginosamente durante os anos 80 e só pelo meio da década de 90 novas políticas implementadas alguns anos antes começaram de fato a fazer efeito. Os jogos, a grosso modo, só tentavam reproduzir as experiências da época.

A questão que me ocorre é a seguinte: caso um beat’em up fosse desenvolvido atualmente, seguindo aquela linha de sentar o braço em figuras que infestam as ruas, quem teríamos que arrebentar? Emos? Neo-Nerds? Indies?

Eu satisfatoriamente desceria o sarrafo em pessoas usando óculos Wayfarer. Imagino não estar sozinho nessa. Então, Sony, tá esperando o quê?

Das mudanças (e assuntos menos - ou nada - relacionados)

Pois então, mudei-me. Não falei disso por aqui ainda porque, como parece evidente, isto não é um diarinho. Menciono pouco da minha vida neste recôndito imundo e me sinto mais confortável assim. Mas, para fins de explicação do assunto a seguir, tal informação pessoal vem a calhar. Pois retornemos, então: mudei-me. Morava antes em um confortável apartamento de primeiro andar no meio da civilização. Caminhava 50 metros, estava na Subway. Se andasse 100, chegaria a um Carrefour Bairro. Ao lado dele havia uma Domino’s e um Bob’s, próximos a um Itaú, um Banco do Brasil e um Santander. A parada de ônibus mais próxima ficava a 3 minutos a pé e havia um posto policial ao alcance da vista. Todas as instituições sociais - mesmo as mais desagradáveis - ficavam ali, ao imediato alcance das minhas pernas. Nunca senti necessidade de ter um carro ou qualquer vontade de ter carteira. O negócio é que me mudei…

Agora vivo em um condomínio que fica a 20 minutos - de carro - das fronteiras do mundo civilizado. De ônibus, coloque aí uns 30 ou 40. Até existe uma padaria próxima à minha casa, mas vai ver a qualidade! E tem um mercadinho também, e o INHO que sucede o termo não é meramente ilustrativo, em verdade, em verdade vos digo. Vivo em um lugar aprazível, cheio de pássaros, em uma adorável casa com piscina (logo, logo), próxima a um bosque (não tô zoando, tem um bosque MESMO) que oculta a nascente de um regato e até - vejam que belo! - algumas cachoeiras. Um lugar bucólico!

A sucursal do inferno para um homem urbano que curte caminhar de madrugada. Meu caso.

Então agora terei que tirar carteira, porque da porta do meu condomínio até minha casa são - subida acima - 13 minutos de caminhada. No meu passo de oficial da SS a caminho da execução de judeus, claro. No passo de uma pessoa normal - e pessoas normais caminham como judeus indo para a câmara de gás, para manter a analogia dentro do mesmo evento histórico - vão bem uns 20 minutos. A vantagem disso é que poderei ter um cachorro. A desvantagem é que terei que tirar carteira. E ter um carro.

Agora vem a parte curiosa, que funciona assim desde meus 18 anos: todo mundo que faz essa idade pensa “Legal, poderei tirar carteira e ter um carro” e fica feliz feito pinto no lixo. Essas pessoas pensam na idéia de ter uma CNH e possuir um veículo e vêem nisso um porrilhão de vantagens. Ok, eu até sei que existem as vantagens, mas tudo o que me ocorre são as desvantagens. Diga-me que terei um carro e tudo o que consigo pensar é em custo de seguro, preço de IPVA, anos de prestações para quitar o veículo, desembolsar grana pra gasolina, ter que me sujeitar à encheção de saco do Detran, aturar blitzes, encarar trânsito, procurar vagas em estacionamentos, ter aborrecimentos inenarráveis com batidas estúpidas, atropelar bêbados que surgem repentinamente vindos das sombras… Pessimista, eu?

E, dirigindo, quando é que me ocorreria a idéia que se abateu sobre mim ontem? Subia eu a rua que conduz à minha atual residência, acompanhem-me nessa. Logo antes da esquina em que viro pra chegar à minha casa, há esse terreno onde um sujeito construiu um caixote. É uma casa retangular, tipo 20m x 5m, de 2 andares. Arquitetonicamente falando, é uma caixa feita de concreto. Não tem uma varanda, um telhado que se projete da fachada, nada. Apenas as 4 paredes, um número padrão de janelas e uma porta.

A questão é: não existe UMA entrada/saída da casa além da porta que lhe adorna a frente. Isso quer dizer que no caso de um cataclisma de zumbis, é o lugar mais protegido para se estar naquele condomínio. Talvez na cidade toda. A porta é de metal, as janelas idem, e gradeadas. É uma fortaleza inexpugnável contra criaturas semi-inteligentes, incapazes de apelar para ferramentas. Com um bom estoque de alimentos não-perecíveis dentro daquela caixa de concreto, amigo, é possível viver por ANOS. Não sei o que o arquiteto que desenhou aquele lugar tinha em mente, mas se era a sobrevivência a um holocausto de desmortos, temos aí um gênio ao qual devemos certo respeito. Pergunte-me para onde correrei no dia em que os mortos caminharem sobre a terra e direi, sem pestanejar: “Para o próximo quarteirão, levando comigo um saco de mantimentos e algo para esmigalhar crânios pelo caminho.”

O negócio é chegar lá sem ser mordido, mas qualquer coisa eu sacrifico o cachorro, se a situação ficar crítica. Funcionou com o Will Smith, funcionará comigo.




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