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Das doenças como política e da política quanto às doenças

Sai notícia de que o Lula está com câncer na laringe e vai fazer tratamento em São Paulo. Não demora muito tempo, começam os banners no facebook, em tom de “brincadeirinha”, sugerindo ao ex-presidente que vá fazer tratamento no SUS. Pouco depois - como já era de se esperar -, a galera do politicamente correto responde raivosamente, dizendo que com câncer não se brinca, que doença é coisa séria, e todos aqueles lugares-comuns da mentalidade moralmente certinha e pão-com-ovo que infesta a sociedade moderna.

Resta a dúvida: quem, nessa questão, está errado?
Ambos, eu respondo.

Os primeiros, os humoristas que se valem da enfermidade de uma figura pública para partir para uma crítica de teor político-social espertinho, lançam mão não de um senso de humor afiado, mas de uma falta de humanidade (falha menor, explico logo adiante) e de uma falta de coerência que - esta, sim - considero muito séria!

Falta de humanidade não pelo Lula em si, já que desejar que alguém se trate - seja no SUS ou no Sírio-Libanês - é, de certa forma, um desejo de melhora. A falha que menciono vem da constatação de que indicar o SUS como a alternativa que o ex-presidente deve utilizar em seu tratamento deixa implícita uma total descrença no sistema de saúde pública do país.

Longe de mim achar que devemos nos ufanar e arrotar uma superioridade que não temos, mas alguém, antes de publicar uma crítica dessa natureza, perdeu trinta segundos considerando o impacto que algo assim pode ter na crença de cura de um paciente que esteja, de fato, se tratando pelo SUS? Ao bradar “Ei, Lula, trate-se no SUS”, querendo dizer “…para ver a ineficiência do sistema público de saúde brasileiro, antes de sofrer e morrer, que será seu destino inevitável se depender dos cuidados do governo” - como se isso não fosse suficientemente baixo -, vocês estão dizendo a mesma coisa para todas as pessoas que estão prestes a utilizar o SUS por uma questão de necessidade. É um belo golpe na autoconfiança de quem já tem problemas suficientes sem sua ajuda.

A falha mais grave, entretanto, sequer é essa. É a falta de coerência. Outras personalidades públicas passaram e passam por tumores, e com relação a esses não são feitos comentários depreciativos, sequer engraçadinhos. Gianecchini dá uma entrevista no Fantástico que pode conduzir centenas de doentes a adotar métodos “alternativos” de cura, colocando em xeque a vida de outras pessoas, mas sobre isso não se comenta.

- Mas, Pedrones, o Gianecchini não é político, não podemos acusá-lo pelas falhas do governo!

Ok. Aceito o argumento. Mas ninguém fez comentários semelhantes quando o então vice-presidente José Alencar estava hospitalizado (no Sírio-Libanês, só para lembrar). Ninguém gracejou quando Antônio Carlos Magalhães estava hospitalizado. Ninguém ousou tecer piadinhas quando a mulher do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso estava hospitalizada. Nem com o tratamento da Dilma fizeram chacota! É apenas com o Lula que fazemos brincadeiras? Vamos demonizar UM homem por falhas de um sistema de saúde anterior a ele?

Vocês deveriam se envergonhar é por isso: por se deixarem pegar pela mão, por uma mídia revanchista, a um ponto tal que se mostrem capazes de canalizar em apenas um homem toda a frustração política de um grupo social em nome desse mesmo grupo social, que não toma a responsabilidade por nada. Não é que vocês tenham péssimo senso de humor e um timing terrível, a falha é outra: vocês são burros e manipuláveis!

Quanto ao pessoal do “com câncer não se brinca”, calem a boca também! A vida, por si, já pressupõe a inevitabilidade da tristeza. Todos nós vamos, em algum momento futuro, contrair ou desenvolver algum mal que dará cabo de nossa existência após um período de sofrimento, que pode ser breve ou prolongado - em termos absolutos, porque, para quem está sofrendo, só existe longo e infinito.

Se não for assim, será o acesso súbito de algum mal repentino que nos levará imediatamente do convívio de nossos pares, qual a foice da indesejável. Isso para não mencionar a possibilidade de algum acidente ou ato de violência urbana que nos transformem em mártires do barbarismo social.

Qualquer que seja o formato, a verdade é que há um mal definitivo agendado para cada pessoa. E contra isso temos apenas duas alternativas: a primeira é o suicídio, nada além de uma tentativa de tirar do acaso o mérito por nossa morte, tomando-a nas próprias mãos. A outra é o humor. É rir dos males do próximo, sabendo que o próximo próximo pode ser você. E, quando sua hora chegar, saber rir dela também. O humor é nossa única opção para tornar esta existência menos miserável, então abandonemos o suposto ar de seriedade. Tal gravidade fingida apenas depõe contra a inteligência de vocês.

Dos mecenas

O twitter é um lugar curioso. Poderíamos considerar que uma “ferramenta” de microblog, onde você recebe informações constantemente, vindas de outros membros da mesma rede social, fosse ajudar as pessoas a aprender algo novo, a receber novas informações, a sair dali falando menos merda, pra ser bem objetivo.

Logicamente, é o contrário que ocorre. É muito mais fácil propagar uma asneira do que desmenti-la. A ignorância corre pelo twitter feito fogo de palha. Chega a ser impressionante como as pessoas, preocupadas em falar, falar e falar - via de regra, sobre o que não conhecem - esquecem completamente que, se tu não domina o assunto, às vezes é interessante OUVIR o que alguém que domina tem a dizer. Nem que seja só pra gerar, na sua cabeça, uma nova série de argumentos contra aquele conhecimento que te foi apresentado, ouvir pode ser um exercício interessante.

A enxurrada de estultices da vez ocorreu hoje. O assunto era o fato de um projeto da Maria Bethânia ter recebido, do Ministério da Cultura, o aval para captar R$ 1,3 milhão.

Eu não costumo abordar assuntos “sérios” por aqui e sempre deixo claro que este não é um blog “informativo” ou coisa que o valha. Que tudo o que será encontrado nesta página é rabugice e divagação da minha parte, geralmente sem base alguma além do meu julgamento. São opiniões e - é um pleonasmo, mas direi assim mesmo - são pessoais. Este texto não se enquadra nessa categoria. Não são opiniões, são fatos. Não é algo retirado da minha cabeça, são dados de como funciona a lei do Mecenato, a grosso modo. Trabalhei com isso durante algum tempo, ajudando meu pai, que é um profundo conhecedor do assunto. Quando a Lei foi implementada, o Ministério da Cultura distribuiu uma cartilha elaborada pelo velho que explicava seu funcionamento. Então eu não sou o dono do assunto, mas digamos que sou filho do dono.

Pois bem. Antes que você comece a espumar e esbravejar contra o governo, saiba: o fato do MinC ter aprovado o projeto da Maria Bethânia não significa que entregaram para ela um cheque ao portador, no valor de um milhão e trezentos mil reais, com um tapinha na cabeça e um “Vê se não gasta tudo em bala!”. Ao aprovar um projeto, tudo o que o Ministério da Cultura faz é declarar que qualquer pessoa física ou jurídica que patrocinar o projeto terá renúncia fiscal no valor concedido.

Veja: o Ministério não entrega UM MÍSERO REAL para o proponente! Ele apenas diz que quem INVESTIR no projeto terá uma redução no IR.

Supunhetamos que, de repentelho, eu receba uma bolada da megasena e me torne um homem bonito, rico e joiado, a exemplo do nobre Falcão. Se eu pegasse um milhão e trezentos mil reais desse meu dinheiro e entregasse para o proponente do projeto da Maria Bethânia, poderia deduzir o valor do meu imposto de renda. Como trata-se de um projeto de audiovisual, a renúncia fiscal é de 100%. Cada centavo repassado será um centavo que eu não pagarei ao Leão. Esse patrocínio pode vir de apenas uma empresa, de apenas uma pessoa física, ou de várias empresas e várias pessoas físicas. Isso quer dizer que se a Maria Bethânia tiver 1.300.000,00 na conta dela, de bobeira, pode usar esse dinheiro para financiar um projeto cultural, em vez de entregá-lo pro governo.

- Logo, ela está pegando dinheiro do governo!

Calma lá. Esse é um salto lógico pouco inteligente. Em primeiro lugar, isto NÃO equivale a dizer que ela, ou qualquer outro patrocinador, pode investir em projetos culturais TODO o valor devido ao IR. Apenas uma porcentagem do quanto terá que pagar de Imposto de Renda pode ser investida, e é uma quantidade mínima, coisa de 5%, se tanto. Em segundo lugar, ela não está “pegando” o dinheiro. Está deixando de entregar de forma direta para o governo.

- Mas como assim, de forma direta?

Bom, ela não vai QUEIMAR esse dinheiro. Ela não vai fazer uma enorme fogueira com um milhão e trezentos mil reais, atear fogo, beber rum e cantar “COME ON BABY, LIGHT MY FIRE”. Ela vai usar esse dinheiro para comprar os itens e contratar os profissionais necessários para o projeto. E, ao fim, terá que fazer uma prestação de contas para o MinC, informando onde foi gasto CADA MÍSERO CENTAVO dessa grana. Logo, o governo vai saber de onde o dinheiro SAIU e para onde ele FOI. E poderá cobrar imposto de renda dos que tiverem recebido os pedaços desse caraminguá.

Além do mais, ao fim do projeto, é previsto na lei que parte do material produzido deve ser distribuído para escolas e bibliotecas públicas. Então você, que tá aí batendo no peito e falando da “educação”, que esse dinheiro deveria ir para a “educação”, saiba: O PRODUTO DO DINHEIRO VAI PARA A EDUCAÇÃO!

- Mas UM MILHÃO E TREZENTOS PARA UM BLOG? Tem mutreta aí!

Eu não sei se tem mutreta. O que eu sei é o seguinte: existem formulários de preenchimento obrigatório, caso você queira dar entrada num projeto no MinC. Um deles tem um trecho chamado Estratégias de Ação, onde você deve descrever etapa por etapa do que será executado. Então você diz quantos webdesigners serão contratados, e a que custo; que aparelhos serão utilizados para as filmagens dos vídeos, se serão comprados ou alugados, e por quanto vai sair cada um; qual o cachê dos participantes; qual o salário do gerente do projeto; quanto será gasto com publicidade; quanto dinheiro o captador vai levar, etc. Então, se o valor TOTAL do projeto é de R$ 1.300.000,00, é porque a somatória de TODOS os itens, incluindo impostos relativos a transações bancárias, pagamento de INSS de funcionários contratados, contas de telefone, etc, deu R$ 1.300.000,00. Não significa que ela vai pagar tudo isso num puta servidor e fim de conversa.

E você não leu errado: é permitido incluir, no seu projeto cultural, a parcela do captador. Ele é o sujeito que permite que sua ação cultural - seja ela uma exposição, um livro, um cd, uma revista, etc - vá adiante. É ele que vai negociar com empresas e pessoas físicas a respeito do seu patrocínio. Ele não é nada além de um vendedor: precisa convencer alguém que colocar dinheiro na sua idéia é uma boa idéia!

- E por que seria uma boa idéia?

Por uma razão muito simples: se a coca-cola, por exemplo, retira cinco milhões de reais do imposto de renda e investe isso em projetos do MinC, são 5.000.000,00 que invariavelmente seriam gastos, indo para PUBLICIDADE, em vez de serem “desperdiçados” com o governo. Ou seja, ela apóia algum evento - muitas vezes gratuito -, tem seu nome atrelado àquilo e isso gera publicidade positiva para a marca.

Querendo ou não, o fato é que os impostos que nós pagamos no Brasil raramente têm retorno visível. Se você pudesse optar entre dar o dinheiro do seu imposto de renda para um projeto cultural, e ao fim receber uma prestação de contas informando o que foi feito com sua grana, ou entregar para um governo que faz o dinheiro desaparecer misteriosamente e reaparecer em malas, cuecas e bolsas de governantes réprobos, o que você escolheria?

Pois é. Eu também.

Então você pode contratar alguém para captar os recursos, e esse sujeito vai receber 10% do valor do projeto, ou R$100.000,00, o que for mais baixo.

Não vou entrar no mérito do projeto e alegar aqui se é ou não é bacana que o Andrucha Waddington dirija os vídeos da Bethânia declamando poesias online, se isso é cultura ou se isso vale R$ 1,3 milhão. Não estou em posição de determinar o que é e o que não é cultura. Nem você. Nem os pareceristas do MinC estão. A Lei inclusive PROÍBE esse tipo de especulação. Se você quiser fazer um show da Pitty de graça, ou um do Fábio Jr., ou do Restart ou dos Móveis Coloniais de Acaju, pode fazer. Para a lei, TODOS eles são manifestantes da cultura, não interessa o que você pense.

O grande argumento “contra” o projeto da Bethânia é que ela, sendo consagrada, não precisa desse dinheiro. E eu repito: ela não vai EMBOLSAR a grana. É lógico que o cachê dela está previsto no custo, assim como está o pagamento de todos os profissionais envolvidos. E a Lei Rouanet está disponível para TODOS os brasileiros. Desde que você atenda as solicitações previstas, pode dar entrada nos seus projetos culturais, também. E, se tiver contatos que te permitam isso, pode captar recursos, também. A Bethânia tem muito mais facilidade para conseguir patrocínio pelo simples fato de ser uma figura pública. Por causa disso devemos impedi-la de manifestar o que é direito dela, como cidadã? Que espécie de recalque é esse?

Além do mais, o proponente do projeto, ANTES de ter sua solicitação avaliada por um parecerista, precisa levantar uma série de documentos que comprovem que ele tem conhecimento do assunto sobre o qual planeja tratar e que tem o nome limpo, logo, age de boa-fé. Trocando em miúdos, o proponente prova que é HONESTO.

Se existe alguma injustiça mercadológica nessa questão - e existe, como acusa esta matéria no site de economia do IG -, não é privando a Maria Bethânia de dar entrada em um projeto e levá-lo a cabo, após ser aprovado pelos pareceristas do MinC, que vamos resolver a questão. Não se resolve uma injustiça com outra.

Existem muito mais coisas para se falar sobre o assunto, mas o texto já está muito extenso. Deixo aqui, para quem se interessar, um link para o site do Ministério da Cultura, para um texto no blog do Fábio Yabu, que trata da mesma questão, e para este “twit” da @letrapreta, que foi das poucas a demonstrar algum bom-senso quanto a este assunto.

[ATUALIZAÇÃO] A moça da @letrapreta, Renata Corrêa, fez um texto sobre o assunto que também merece ser lido.

[Reprise] Quem vê cara…

Este texto foi escrito e publicado em 2006. Como estamos em época de eleição novamente, nada como um pouco de putaria para combinar com o espírito político brasileiro. Editei algumas coisas e acho que dei uma melhorada no negócio. Ou piorada, sei lá. Se quiser comparar versões, procure o original, mas é muita falta do que fazer, hein?

No mais, essa é uma obra de ficção. Semelhanças com fatos ou pessoas reais são sempre meras coincidências.

Não era nova o bastante para ser considerada adolescente, nem tinha idade suficiente para ser uma balzaquiana. Era uma jovem de vinte e poucos anos, muito bonita e com inteligência pouco acima da média. Seria um exagero dizer que atraía homens aos borbotões, como seria afirmar que os repelia. Da mesma forma, seria incorreto afirmar que era intocada, uma virgem e seria igualmente injusto chamá-la por adjetivos impróprios. Tivera sua dose de relacionamentos infrutíferos. Alguns duradouros, outros breves. Tinha a bagagem que alguém de sua idade deveria ter nos assuntos do amor, do sexo e da convivência. Nem mais, nem menos, para a moça mediana que era.

Conheceu-o por acaso, em um jantar na casa de amigos, e foi arrebatada pelos modos alheios, o olhar longínquo, o ar sempre distante e a moderação com tudo. Tudo, menos comer. O homem comia como um tigre faminto. O correto seria compará-lo a um abutre, pois não fazia restrições quando se tratava de culinária, mas tal paralelo soaria grosseiro, então fica como está.

Trocaram telefones e começaram a sair.

Ele levou algum tempo até perceber suas reais intenções, mas percebeu. Ela levou algum tempo até notar que seria necessário abandonar as indiretas para trazê-lo ao encontro de seus anseios, mas notou. Depois de breve período de romance, ele revelou que também tinha reparado nela no dia do jantar, que ficara encantado com sua presença de espírito, seus olhos vivos e comentários perspicazes.

Ela sabia, graças aos romances passados, que namoros se resumiam a duas coisas: fazer sexo e comer. E sabia que seu namorado era um legítimo bom-garfo e, também por isso, apreciava sua companhia nas refeições. Mas seu grande apetite lembrou-a de certas teorias que diziam que homens muito vorazes à mesa também o eram na cama. Sentiu-se curiosa para tirar a dúvida.

Certo dia em que seu pai viajou - a mãe vivia alhures -, convidou-o para jantar em casa. Ele aceitou inocentemente, como um bezerro que caminha ingenuamente para o matadouro, ignorando que está prestes a se tornar um pedaço de vitela.

Chegou pontualmente e, com os trejeitos tímidos de sempre, sentou-se empertigado no sofá da sala. Recusou copos d’água, cafezinhos, refrigerantes. Por fim, aceitou um tira-gosto e uma taça de um merlot que melhorava na adega havia algum tempo. Assistiram à programação da TV a cabo entre carícias leves, que se intensificaram, até que o controle remoto foi ao chão com estrépito quando ele se levantou e, demonstrando surpreendente força física, ergueu-a pela cintura com um braço, enquanto, ávido, mordia-lhe o pescoço e abria o fecho do sutiã habilmente utilizando apenas três dedos.

Entre beijos, ela sugeriu que fossem para o quarto e ele a levou sem colocá-la no chão, acariciando seus seios com a mão que estava livre.

As teorias se provaram verdadeiras. O homem era, de fato, um incubus! Ele a deitou na cama com gentileza que não condizia com o modo fremente com o qual os lábios, língua e dentes percorriam seu pescoço, queixo, nuca, boca e orelhas. Retirou sua calça jeans com espantosa velocidade e apenas pedaços de sua calcinha foram encontrados no dia seguinte, espalhados por todo o aposento. A seguir, despiu-se com igual velocidade e juntou-se a ela sob os lençóis.

O rapaz alternava carinhos insolentes com carícias de desmedida ternura. A língua dele percorria cada milímetro de seu corpo, suas sensações tão transitórias que era difícil compreender o que acontecia. Mas ela compreendia e adorava. Gemia de agrado quando ele, virando-a de bruços e mordendo-a das nádegas até o pescoço, sussurrava elogios despudorados em seu ouvido. Gemia duas vezes mais quando, no instante seguinte, com um movimento brusco, ele a girava na cama, colocando-a em decúbito dorsal, e trafegava por seu corpo com mãos ágeis apertando, afagando, arranhando e massageando, e com a ansiosa boca beijando, lambendo, chupando e mordendo. Chegava até seu baixo ventre, até seus grandes, gotejantes lábios, e, entre volteios calculados e investidas competentes com a língua, que a faziam estremecer, dizia obscenidades inenarráveis que, somadas à sofreguidão de seus gestos, faziam-na pensar que estava prestes a perder o juízo.

Em um instante lambia-lhe os pés, chupava-lhe os dedos, abocanhava-lhe os calcanhares. No próximo segundo já estava manuseando seus mamilos, mordiscando-lhe o púbis. Não lhe pedia nada, não lhe dava ordens, nada lhe perguntava. Perscrutava seu corpo como se lho pertencesse, e a essa altura do campeonato já pertencia. Ela apenas mordia os lábios, voluptuosa, gemia, urrava, gritava, implorava por mais, arranhava-se, agatanhava-o, raspava as paredes, desalinhava os cabelos, descontrolava-se.

Ele murmurou em seu ouvido, em dado momento, que iria apresentá-la à sensação de descer na maior montanha-russa do mundo e riu o riso sem-vergonha dos devassos. Em seguida jogou as duas pernas dela para cima e, introduzindo-lhe dois dedos, apertou algum botão - até então desconhecido a ela - que causou efeitos imediatos. Após intermináveis segundos que chegaram ao fim mais rápido do que gostaria, seu corpo inteiro convulsionou-se como que tomado por um surto epilético. Sentiu os lençóis encharcados com a torrente de satisfação que escorria entre suas coxas lânguidas.

Depois de tão violento orgasmo, deixou-se desfalecer. Chegou a sentir a vista escurecer e o quarto girar, mas ele, veloz, apertou seu pescoço num gesto agressivo, como se tentasse sufocá-la. O afogamento súbito, em vez de apagá-la de vez, trouxe sua consciência novamente à tona. Resfolegando, olhou para ele.

Os olhos, antes aéreos, pacíficos, estavam completamente diferentes. Fitava-a como um gato que observa a presa encurralada. Não havia nada do ar distraído de outrora, apenas o olhar decidido do agressor sobre a vítima. Tremeu de espanto, mas, mais do que isso, tremeu de prazer. E ele, após assediá-la com nova série de preliminares, penetrou-a com toda a pujança de seu sexo furioso, subversivo e insaciável.

Foi uma longa noite. Fizeram amor, sexo, transaram, foderam, fornicaram… deixaram-se levar pela luxúria. Entre uma rodada e outra da mais pura, feliz e realizada safadeza, atacavam a geladeira. O mesmo apetite que ele manifestava com a comida, dirigia a ela, a seus fluidos, a seus orifícios, a toda sua anatomia. Ela descobriu no próprio corpo algo entre doze a dezessete zonas erógenas que antes desconhecia.

Passaram a dormir juntos quase todas as noites. O pai dela, um homem instruído, com boa cabeça, razoável, não interferia no direito da filha – maior de idade, responsável, inteligente – de dormir com o namorado. Inclusive lhe agradava a companhia do rapaz. Conversavam sobre esportes, música erudita, livros, notícias, assuntos gerais, enfim. Bebericavam dos bons vinhos da adega. Um semillon para acompanhar foie gras, um cabernet para melhorar a degustação de queijos e outros frios.

A moça ficava feliz em ver o pai se dando tão bem com o namorado, em notar como as conversas rendiam horas e horas de assunto e em ver como o apetite sexual vigoroso de seu parceiro não arrefecia. Era impossível se conter durante as intermináveis maratonas de descaramento e, não tivesse o velho sono tão pesado a ponto de resistir aos próprios roncos, amargaria noites insones ao som das sessões de ode aos prazeres carnais da filha.

Um dia marcaram de se encontrar na rua. Ele iria buscá-la na saída do estágio.

Chegou um pouco atrasado, alegando que perdera a noção do tempo durante uma reunião de membros de seu partido. Trajava uma camiseta do DEM. No vidro do carro, os inconfundíveis adesivos de apoio aos candidatos do Democratas.

Incapaz de tolerar tamanha sem-vergonhice, ela terminou o namoro dois dias depois.

Resvalando no assunto…

Com essa assinatura do acordo da reforma ortográfica pelo presidente, pipocaram na internet críticas e piadinhas - de gosto extremamente questionável - a respeito do analfabetismo do Lula.

Um desperdício de talento, motivação e ímpeto. Tanta coisa pra se criticar a respeito do assunto, e o tópico abordado é a vida estudantil do presidente (ou a falta dela). A questão que não pára de me incomodar, diante desses argumentos e gracejos, é: qual a relevância da escolaridade na vida de uma pessoa, afinal de contas? No que ter ou não um diploma torna alguém mais ou menos apto a executar determinada tarefa? Quero dizer, se você é um médico ou um engenheiro, uma boa dose de estudo e alguma vocação para traça se faz necessária, mas para administrar, gerenciar, analisar e desenvolver? Pra essas coisas, o que você precisa é de algum raciocínio e certa inteligência. Relacionado a isso, tudo o que uma universidade vai te passar é ferramenta, método, logística. Coisas que facilitariam seu trabalho, mas que não são, necessariamente, cruciais para a execução do mesmo.

Tanta gente por aí que, sem diploma de segundo ou terceiro grau, vai alto na carreira que resolveu adotar. Tá aí Marília Gabriela, que não me deixa mentir (pois é, Gabi não tem diploma de ensino superior). Em contrapartida, existe tanta gente incapaz de pregar um prego numa barra de sabão que colou grau na faculdade e tudo mais. Prefiro um “analfabeto” competente a um universitário debilóide trabalhando comigo, a qualquer hora do dia, qualquer dia da semana. Fernando Henrique Cardoso é um sujeito estudado pra caralho: sociólogo formado, professor universitário, sabe-se lá quantos livros publicados, doutorados a dar com pau. Fez um governo de merda, fodeu o país em tudo quanto era posição possível e imaginável. Botou na nossa bunda com força, com vontade, com areia e pedrinhas. Deveria receber um diploma por isso, também.

É nesse ponto que os inflamados algozes do Lula e do PT vêm me dizer que eu defendo o barbudo ou coisa que o valha, e é precisamente quando digo para pararem de falar merda. Quem eu defendo, hoje em dia, é o Brizola, e só porque está morto. Político vivo só faz cagada. Não sou “defensor do Lula”, sou justo: existem dezenas de posturas detestáveis no presidente e em sua gestão. Em diversos campos. Parcerias políticas que me fazem torcer o nariz, projetos de lei aprovados ou sugeridos que são completamente detestáveis, detalhes enojantes em planos econômicos, discursos questionáveis (para dizer o mínimo), certas condescendências inaceitáveis… A própria assinatura dessa baboseira, desse engodo que é a reforma ortográfica, por exemplo. Tanto a se dizer a respeito disso, tanto malho a ser descido, e o máximo que conseguem por aí é dizer que o presidente assinou o acordo com a digital do polegar? Ah, faça-me o favor! Engatamos nisso uma outra gracinha, dizendo que se fosse necessário usar o mindinho ele tava na merda, e pronto: temos a piada pra fazer no jantar, com a família, vendo o Jornal Nacional.

Como se houvesse alguma graça no analfabetismo, como se alguém não saber ler fosse motivo de troça, e não de vergonha. Oras, é vergonhoso que nosso presidente não saiba falar o português corretamente, mas quem diabos sabe? Quantas pessoas você conhece que não derrapam com concordância, acentuação, conjugação de verbos, até mesmo com pronúncia? Atire a primeira pedra quem nunca usou “vim” no lugar de “vir”, ou conjugou verbo com “mim” no lugar de “eu”. E é vergonhoso que o Lula não saiba escrever direito, de acordo com o que dizem, mas ao menos ele pode dizer que não teve educação para tanto. O que aquele bando de analfabetos no orkut pode alegar em favor de sua incapacidade redativa? Carência protéica na primeira infância? Nesse sentido, tudo o que o Lula tem que todos os outros analfabetos funcionais desse país - e são MUITOS! - não têm é visibilidade. Vergonha MESMO é que um país desse tamanho, com essa quantidade de recursos, ainda tenha por aí gente que, por falta de oportunidade, não aprendeu a ler e escrever (porque por opção até dá pra entender!).

Mas mais vergonhoso é que todos nós, tão instruídos, tão inteligentes, tão estudados, tão sábios e tão preparados, ainda achemos graça nisso: em criticar uma pessoa de acordo com a quantidade de conhecimento que ela armazenou durante a vida, atrelando inteligência a escolaridade e atribuindo-lhe adjetivos complexos, pra mostrar quão rico é nosso vocabulário. Aposto a mãe de qualquer um aqui que todos os que usam o termo “apedeuta” pra se referir ao Lula já foram ao dicionário ver o que significava, ao travar contato com essa palavra pela primeira vez.

Olimpiadas

(A falta do acento no título cria um trocadilho muito besta. Repare.)

Desde que o socialismo deixou de ser um contrapeso decente, uma “ameaça” real ao capitalismo, a situação só degringolou. Você veja, por exemplo, o evento atual na China, que já não é socialista, mas também não parece ter deixado de ser: Os caras têm uma puta trabalheira durante anos e anos pra montar trocentas quadras de todos os esportes com e sem bola, cubo-d’água, pista de atletismo, pista pra hipismo, a puta que pariu. As olimpíadas estréiam e o que a Rússia e a Geórgia fazem?

Começam uma guerra.

Esses (ex)socialistas andam meio desunidos, é foda. Baita desrespeito com todo o trabalho que os amarelos tiveram pra organizar os jogos olímpicos e silenciar todos os manifestantes querendo erguer placas, cartazes e vozes em prol dos nepaleses. Nossa sorte é essa nossa imprensa, tão séria e competente, tão boa em priorizar o que é prioridade e deixar de lado o que não tem muita importância. Graças a ela não temos que ficar vendo imagens de civis desesperados ao terem seus lares e familiares espalhados por quilômetros a fio, tampouco temos que ouvir declarações desses humanistas idiotas - o que essas pessoas sabem, afinal? -, querendo fazer longos e tediosos discursos a respeito do pega-pra-capar na Europa, dizendo que a guerra é a forma mais inaceitável de se conseguir alguma coisa e que a violência, longe de ser um argumento, é justamente a resposta usada na falta deles.

Nah, não temos que ver nada disso, ouvir nada disso, pensar em qualquer baboseira dessas. Que se danem os milhares de refugiados, assassinados, esquartejados, aniquilados, bombardeados, ensangüentados, injustiçados e arrasados moradores da Geórgia. Vão bombardeando eles aí, Russos, que existem coisas mais importantes na televisão. Temos que ver se a seleção de vôlei vai ou não ser campeã, ou se o Michael Phelps vai - surpresa das surpresas - bater mais um dos inúmeros recordes mundiais que detêm, se um sujeito em um barquinho a vela vai conseguir pegar mais vento que outro sujeito em situação semelhante, se uma mulher magricela com ombros mais largos que as nadadoras com peitão musculoso de homem vai ser capaz de, munida de uma vara, saltar sobre uma outra vareta, lá em cima, bem na casa do caralho.

Isso, sim, é bacana. Isso, sim, é entretenimento.

Olimpíada é uma vez a cada quatro anos. Guerra tem todo dia, pô. Não temos aqui a preocupante situação do Rio de Janeiro pra preocupar nossas preocupadas cabeças nesse preocupador sentido? Então.

O importante primeiro, pois. Dois minutos de guerra nos telejornais, quinze de sétimo lugar na natação feminina. Duas notinhas sobre os mortos e feridos nos jornais, um caderno e meio sobre badminton.

Acabando as Olimpíadas, se a situação na Geórgia persistir, poderemos reclamar da falta de bom-senso dessas pessoas que preferem despedaçar umas às outras a ficar na frente da TV, vendo esportes dos quais nunca ouvimos falar e esportistas que são as celebridades de hoje, os filhos preferidos da nação, os símbolos vivos do que o país representa. E os zés-ninguém de amanhã.

Eu também cansei

Eu não penso em mim como um sujeito de esquerda ou de direita. O conceito que faço de mim mesmo não é tão limitado. Se for questionado a respeito das minhas convicções políticas, também não sei o que responder. Mas convenhamos, que tipo de pergunta é essa, afinal?

Se tiver que escolher um lado, entretanto, se não houver opção, se for preciso definir “o que” eu sou, acho que diria que sou de esquerda. O que eu não diria, nunca, é que sou de direita. Primeiro porque não vejo como seria possível ser de direita em um país de terceiro mundo. Acredito que quem se diz de direita, no Brasil, simplesmente não faz idéia do que está dizendo. Isso é como afirmar que acha que tudo por aqui está muito certo e caminhando muito bem; que devemos ter gente nas ruas pedindo dinheiro e cidadãos morrendo de fome; que é justo que nossa economia seja explorada e é certo nos sacrificarmos pra manter a riqueza dos outros. É o mesmo que dizer “Sim, eu gosto de ser feito de capacho!”.

Porque é isso que latino-americano de direita é: o peixe pequeno que aplaude o tubarão que o devora.

A direita gosta de sugerir que ser de esquerda é ser ditador, genocida, ter mau-hálito e coisa e tal. Eu não vou negar, dizendo que nunca houve um regime de esquerda ditatorial nesse planeta porque seria uma mentira deslavada, mas a verdade é que, por mais que regimes de esquerda tenham matado pessoas e mantido genocidas tirânicos no poder, o que dizer das ditaduras de direita? Some aí todas as mortes causadas por Hitler e pelas ditaduras militares na América Latina, em Portugal e na Espanha e volte a dizer que os governos de esquerda mataram mais pessoas. Volte a dizer que a esquerda é desumana e cruel, enquanto a direita é a manifestação política do desejo divino. Não que um erro maior torne um erro menor um acerto, é claro, mas usar os dedos sujos para apontar a sujeira dos outros é uma idéia pouco recomendável. Sem contar que Bush é um presidente de direita. Entre ele e sua política externa e Fidel e sua política interna, fico com o segundo de bom grado.

Além do mais, que publicação é o expoente maior da direita nacional, atualmente? A revista Veja. E a Veja é uma piada! Não digo isso por “ser de esquerda”. É, aliás, para não ser interpretado dessa forma que não digo que sou de esquerda: vestir um rótulo traz determinadas interpretações por parte dos que vestem rótulos diferentes que torna impossível uma discussão honesta, pacífica e com tendência ao consenso.

A Veja já era uma piada quando eu me dizia apolítico. A Veja manipula, mente, fabrica informações. E isso não é implicância, mas mera questão de raciocínio lógico! Apenas compare a quantidade de “denúncias” feitas por eles durante o governo FHC, por exemplo, e a quantidade feita durante o governo Lula. Note a enorme diferença na quantidade, na postura, nos argumentos. Não é questão de ser “Lulista” ou “PeTralha” - como eles gostam de definir, em sua fúria maniqueísta fascistóide de “comigo ou contra mim”, todos os que criticam a revista -, é questão de ser justo. Acho certo que se noticie a picaretagem, que se aponte os canalhas, que se execre publicamente os corruptos, que sejamos firmes e inabaláveis na pregação da moralidade, mas não podemos fazer isso apenas com aqueles que estão do lado oposto ao nosso.

É muito fácil dizer, com base em todas as denúncias atuais contra o governo Lula, o que a direita tanto gosta de bradar: “Nunca se roubou tanto na história desse país”. É fácil, mas não sei se é certo. Ninguém sabe se é certo, por uma simples razão: porque quando quem estava no poder eram aqueles apoiados pela maioria esmagadora dos veículos de comunicação, não havia denúncia. Não havia investigação. Não havia Mainardi e seus livros de títulos engraçadinhos. Onde estava todo esse faro jornalístico do Diogo Mainardi para as fraudes e os roubos quando da privatização das teles? Nessa época - e eu falo com propriedade a respeito, pois assinávamos a revista aqui em casa - esse grande Paladino da Moral, esse Cruzado da Ética, o Vingador da Boa-Fé e Campeão da Boa-Índole falava de quê? Discutia se devia ou não haver uma orquestra sinfônica em São Paulo, divagava a respeito de palavras que existem apenas na língua portuguesa, argumentava sobre o erro que é a existência das instituições de caridade.

Não sou “Lulista”, não sou “PeTralha” e não sou “de esquerda”. Se tenho que me dar um título, que seja este: sou justo. Se vamos apedrejar, apedrejaremos todos. Se vamos passar a mão na cabeça, passaremos na cabeça de todos. Nada de ladrar para adversários e balançar o rabo para os seus. Não existe moralidade relativa, não existe honestidade relativa, não existe justiça relativa.

É isso que me leva a não gostar da Veja e de seu séquito. Não é o fato de serem “de direita”, entreguistas, neoliberais, desumanos. São posturas detestáveis, é verdade, mas ser desagradável é um direito inalienável de cada ser humano. Tenho minha cota de posturas insuportáveis, não estou em posição de desmerecer ninguém por isso. O que eu não admito, não aceito, não permito e não tolero é canalhice.

Aí já é demais. Cansei, tô cansadinho.