Sai notícia de que o Lula está com câncer na laringe e vai fazer tratamento em São Paulo. Não demora muito tempo, começam os banners no facebook, em tom de “brincadeirinha”, sugerindo ao ex-presidente que vá fazer tratamento no SUS. Pouco depois - como já era de se esperar -, a galera do politicamente correto responde raivosamente, dizendo que com câncer não se brinca, que doença é coisa séria, e todos aqueles lugares-comuns da mentalidade moralmente certinha e pão-com-ovo que infesta a sociedade moderna.
Resta a dúvida: quem, nessa questão, está errado?
Ambos, eu respondo.
Os primeiros, os humoristas que se valem da enfermidade de uma figura pública para partir para uma crítica de teor político-social espertinho, lançam mão não de um senso de humor afiado, mas de uma falta de humanidade (falha menor, explico logo adiante) e de uma falta de coerência que - esta, sim - considero muito séria!
Falta de humanidade não pelo Lula em si, já que desejar que alguém se trate - seja no SUS ou no Sírio-Libanês - é, de certa forma, um desejo de melhora. A falha que menciono vem da constatação de que indicar o SUS como a alternativa que o ex-presidente deve utilizar em seu tratamento deixa implícita uma total descrença no sistema de saúde pública do país.
Longe de mim achar que devemos nos ufanar e arrotar uma superioridade que não temos, mas alguém, antes de publicar uma crítica dessa natureza, perdeu trinta segundos considerando o impacto que algo assim pode ter na crença de cura de um paciente que esteja, de fato, se tratando pelo SUS? Ao bradar “Ei, Lula, trate-se no SUS”, querendo dizer “…para ver a ineficiência do sistema público de saúde brasileiro, antes de sofrer e morrer, que será seu destino inevitável se depender dos cuidados do governo” - como se isso não fosse suficientemente baixo -, vocês estão dizendo a mesma coisa para todas as pessoas que estão prestes a utilizar o SUS por uma questão de necessidade. É um belo golpe na autoconfiança de quem já tem problemas suficientes sem sua ajuda.
A falha mais grave, entretanto, sequer é essa. É a falta de coerência. Outras personalidades públicas passaram e passam por tumores, e com relação a esses não são feitos comentários depreciativos, sequer engraçadinhos. Gianecchini dá uma entrevista no Fantástico que pode conduzir centenas de doentes a adotar métodos “alternativos” de cura, colocando em xeque a vida de outras pessoas, mas sobre isso não se comenta.
- Mas, Pedrones, o Gianecchini não é político, não podemos acusá-lo pelas falhas do governo!
Ok. Aceito o argumento. Mas ninguém fez comentários semelhantes quando o então vice-presidente José Alencar estava hospitalizado (no Sírio-Libanês, só para lembrar). Ninguém gracejou quando Antônio Carlos Magalhães estava hospitalizado. Ninguém ousou tecer piadinhas quando a mulher do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso estava hospitalizada. Nem com o tratamento da Dilma fizeram chacota! É apenas com o Lula que fazemos brincadeiras? Vamos demonizar UM homem por falhas de um sistema de saúde anterior a ele?
Vocês deveriam se envergonhar é por isso: por se deixarem pegar pela mão, por uma mídia revanchista, a um ponto tal que se mostrem capazes de canalizar em apenas um homem toda a frustração política de um grupo social em nome desse mesmo grupo social, que não toma a responsabilidade por nada. Não é que vocês tenham péssimo senso de humor e um timing terrível, a falha é outra: vocês são burros e manipuláveis!
Quanto ao pessoal do “com câncer não se brinca”, calem a boca também! A vida, por si, já pressupõe a inevitabilidade da tristeza. Todos nós vamos, em algum momento futuro, contrair ou desenvolver algum mal que dará cabo de nossa existência após um período de sofrimento, que pode ser breve ou prolongado - em termos absolutos, porque, para quem está sofrendo, só existe longo e infinito.
Se não for assim, será o acesso súbito de algum mal repentino que nos levará imediatamente do convívio de nossos pares, qual a foice da indesejável. Isso para não mencionar a possibilidade de algum acidente ou ato de violência urbana que nos transformem em mártires do barbarismo social.
Qualquer que seja o formato, a verdade é que há um mal definitivo agendado para cada pessoa. E contra isso temos apenas duas alternativas: a primeira é o suicídio, nada além de uma tentativa de tirar do acaso o mérito por nossa morte, tomando-a nas próprias mãos. A outra é o humor. É rir dos males do próximo, sabendo que o próximo próximo pode ser você. E, quando sua hora chegar, saber rir dela também. O humor é nossa única opção para tornar esta existência menos miserável, então abandonemos o suposto ar de seriedade. Tal gravidade fingida apenas depõe contra a inteligência de vocês.
