Com essa assinatura do acordo da reforma ortográfica pelo presidente, pipocaram na internet críticas e piadinhas - de gosto extremamente questionável - a respeito do analfabetismo do Lula.
Um desperdício de talento, motivação e ímpeto. Tanta coisa pra se criticar a respeito do assunto, e o tópico abordado é a vida estudantil do presidente (ou a falta dela). A questão que não pára de me incomodar, diante desses argumentos e gracejos, é: qual a relevância da escolaridade na vida de uma pessoa, afinal de contas? No que ter ou não um diploma torna alguém mais ou menos apto a executar determinada tarefa? Quero dizer, se você é um médico ou um engenheiro, uma boa dose de estudo e alguma vocação para traça se faz necessária, mas para administrar, gerenciar, analisar e desenvolver? Pra essas coisas, o que você precisa é de algum raciocínio e certa inteligência. Relacionado a isso, tudo o que uma universidade vai te passar é ferramenta, método, logística. Coisas que facilitariam seu trabalho, mas que não são, necessariamente, cruciais para a execução do mesmo.
Tanta gente por aí que, sem diploma de segundo ou terceiro grau, vai alto na carreira que resolveu adotar. Tá aí Marília Gabriela, que não me deixa mentir (pois é, Gabi não tem diploma de ensino superior). Em contrapartida, existe tanta gente incapaz de pregar um prego numa barra de sabão que colou grau na faculdade e tudo mais. Prefiro um “analfabeto” competente a um universitário debilóide trabalhando comigo, a qualquer hora do dia, qualquer dia da semana. Fernando Henrique Cardoso é um sujeito estudado pra caralho: sociólogo formado, professor universitário, sabe-se lá quantos livros publicados, doutorados a dar com pau. Fez um governo de merda, fodeu o país em tudo quanto era posição possível e imaginável. Botou na nossa bunda com força, com vontade, com areia e pedrinhas. Deveria receber um diploma por isso, também.
É nesse ponto que os inflamados algozes do Lula e do PT vêm me dizer que eu defendo o barbudo ou coisa que o valha, e é precisamente quando digo para pararem de falar merda. Quem eu defendo, hoje em dia, é o Brizola, e só porque está morto. Político vivo só faz cagada. Não sou “defensor do Lula”, sou justo: existem dezenas de posturas detestáveis no presidente e em sua gestão. Em diversos campos. Parcerias políticas que me fazem torcer o nariz, projetos de lei aprovados ou sugeridos que são completamente detestáveis, detalhes enojantes em planos econômicos, discursos questionáveis (para dizer o mínimo), certas condescendências inaceitáveis… A própria assinatura dessa baboseira, desse engodo que é a reforma ortográfica, por exemplo. Tanto a se dizer a respeito disso, tanto malho a ser descido, e o máximo que conseguem por aí é dizer que o presidente assinou o acordo com a digital do polegar? Ah, faça-me o favor! Engatamos nisso uma outra gracinha, dizendo que se fosse necessário usar o mindinho ele tava na merda, e pronto: temos a piada pra fazer no jantar, com a família, vendo o Jornal Nacional.
Como se houvesse alguma graça no analfabetismo, como se alguém não saber ler fosse motivo de troça, e não de vergonha. Oras, é vergonhoso que nosso presidente não saiba falar o português corretamente, mas quem diabos sabe? Quantas pessoas você conhece que não derrapam com concordância, acentuação, conjugação de verbos, até mesmo com pronúncia? Atire a primeira pedra quem nunca usou “vim” no lugar de “vir”, ou conjugou verbo com “mim” no lugar de “eu”. E é vergonhoso que o Lula não saiba escrever direito, de acordo com o que dizem, mas ao menos ele pode dizer que não teve educação para tanto. O que aquele bando de analfabetos no orkut pode alegar em favor de sua incapacidade redativa? Carência protéica na primeira infância? Nesse sentido, tudo o que o Lula tem que todos os outros analfabetos funcionais desse país - e são MUITOS! - não têm é visibilidade. Vergonha MESMO é que um país desse tamanho, com essa quantidade de recursos, ainda tenha por aí gente que, por falta de oportunidade, não aprendeu a ler e escrever (porque por opção até dá pra entender!).
Mas mais vergonhoso é que todos nós, tão instruídos, tão inteligentes, tão estudados, tão sábios e tão preparados, ainda achemos graça nisso: em criticar uma pessoa de acordo com a quantidade de conhecimento que ela armazenou durante a vida, atrelando inteligência a escolaridade e atribuindo-lhe adjetivos complexos, pra mostrar quão rico é nosso vocabulário. Aposto a mãe de qualquer um aqui que todos os que usam o termo “apedeuta” pra se referir ao Lula já foram ao dicionário ver o que significava, ao travar contato com essa palavra pela primeira vez.
