Uma criança morreu depois de ser arrastada por sete quilômetros. E todos nós ficamos tristes e revoltados, mas não pelos motivos certos. Já somos cínicos e endurecidos o suficiente para não dar a menor bola para a morte de uma criança, ainda que o fato se dê com crueldade suficiente para causar comoção mesmo entre os mais insensíveis agentes da Inquisição Espanhola.
Não ficamos tristes e revoltados porque um menino morreu, ou porque morreu de forma atroz. Ficamos tristes e revoltados porque o Jornal Nacional disse que deveríamos nos sentir assim. Porque William Bonner e Fátima Bernardes, com olhar sombrio e voz pesarosa, deram a notícia em tom de horror, indicando a postura a ser adotada diante desse fato nauseabundo.
E porque, por vários dias, fomos metralhados com todo tipo de narrativa a respeito do menino inocente. Como estava seguindo o inquérito policial. Como ele fora arrastado por 7 km preso no cinto de segurança. O que a mãe dissera aos assaltantes antes que eles arrancassem com o carro, arrastando um menino de 6 anos por 70 hectômetros de asfalto. O que os assaltantes responderam à senhora de classe média ao fugir com o veículo e um garoto pendurado, conduzindo-o contra o solo áspero por 700 decâmetros. Onde o corpo do menino mutilado foi encontrado, sete mil metros além do local do crime.
E demonstramos revolta. E demonstramos tristeza. Mas pelo fato? Ou pela Globo? Pela família? Ou por nosso nicho social? Por solidariedade? Ou porque não tivemos opção?
Na mesma época em que se comentava a morte bárbara do menino de classe média, quantas outras crianças na mesma faixa de idade, mas em diferentes faixas sociais, não foram assassinadas de maneira tão - ou mais, se é que é possível - feroz? E quantos índios de 5, 6 anos não morreram de fome em reservas do centro-oeste e norte do país? E quantos meninos de rua com um ano a mais ou um ano a menos não foram violados, espancados, explorados ou mal-tratados de qualquer maneira?
Nossa revolta não é pela morte de um garoto de 6 anos arrastado preso no cinto de segurança de um carro. Nosso espanto só acontece porque um garoto de classe média foi morto pela miséria que tanto gostaríamos de ignorar. Ninguém vê qualquer problema quando miseráveis matam miseráveis. Quando esfaimados, desnutridos, analfabetos e marginais dão cabo de outros esfaimados, desnutridos, analfabetos e marginais. Quando a polícia do Rio de Janeiro, após uma guerra de gangues, retira os corpos do local em carrinhos de mão, cadê as missas da igreja católica no local do incidente?
E quando menininhas de 6 anos da favela da rocinha são atingidas no estômago por balas perdidas e morrem sangrando a caminho do hospital, onde estão os condoídos que colocam vasinhos de flores simbólicos marcando o ponto culminante da tragédia?
E quando a polícia faz uma batida num bar e mata meninos de 13, 14 anos jogando bola na rua, por que ninguém cria comunidades no orkut?
A classe média não se une, vestida de branco, com cartazes inúteis exibindo nomes de mortos ilustres, nesse tipo de situação. E a classe média não clama por cessar fogo para os que são baleados longe de seus domínios. O que a classe média não aprendeu é que não existe mais domínio. É que não existe mais classe média. Temos os muito ricos, escondidos atrás de suas prisões particulares. E temos os miseráveis, considerando maneiras de chegar até eles. No meio, estamos nós. Pendurados no cheque especial. Imaginando maneiras de parcelar um IPod. Sonhando com um Meriva zero. E os malditos desgraçados que tentamos com tanto empenho murar fora de nossas propriedades insistem em invadi-las. E os pobres famintos e bem-armados que deveriam se restringir a matar outros pobres famintos e bem-armados insistem em atirar contra nós. Recusam-se a morrer em silêncio, como os índios. Recusam-se a dar sossego, a desaparecer, a sofrer seu destino inexorável de esfomeados miseráveis em suas favelas, periferias, guetos, pocilgas.
E eles estão descobrindo que a mesma tenacidade que demonstram para chamar nossa atenção, atazanar nossas vidas, subtrair nossos bens e tomar migalhas do nosso dinheiro, nós demonstramos na hora de ignorar suas mazelas.
Mas nem tudo está perdido. Pelo menos não enquanto ainda tivermos as dondocas de Copacabana para fazer passeatas pedindo paz. Enquanto tivermos florzinhas para colocar no MSN. Enquanto pudermos criar tópicos e comunidades no orkut. Enquanto pudermos discutir maneiras de dar cabo dos miseráveis com a mesma violência com que eles procuram nos aniquilar.
Porque quando percebermos que nada disso adianta, teremos que adotar uma solução que, tal qual a morte do menino João Hélio, será drástica, brutal, chocante e difícil de explicar para as gerações futuras: uma que funcione.