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Das coisas importantes:

- Os paulistas elegeram Paulo Maluf pra câmara dos deputados. Paulo Maluf! Um notório, convicto, irreparável ladrão. Não digo “corrupto”, porque é abrandar o inabrandável: digo ladrão mesmo, safado, criminoso, mafioso, picareta, pústula, canalha, crápula, facínora, etc, etc, etc.

- Os alagoanos, por sua vez, não querendo ficar atrás da imbecilidade política paulistóide, fizeram questão de alçar Fernando Collor ao senado federal. Fernando Collor! Imagino o que não fariam se Paulo César Farias ainda fosse vivo…

- Mas os paulistas não gostam de ficar pra trás. Em sua infinita arrogância, em seu incontrolável desejo de se afirmar como a população mais QUALQUER COISA que você disser, também deram um cargo a Enéas. E um ao Clodovil. Porque esse povinho bunda, cretino, ridículo, patético e muito digno de ser triturado por PCCs da vida, acha que política é brincadeira. Paulista leva futebol a sério e política na brincadeira. Eles têm mais é que se foder mesmo. E de verde e amarelo, porque são o melhor retrato do Brasil.

- Do Brasil que elegeu QUATRO governadores do PFL. QUATRO. Do Brasil que, levando essa porra toda na sacanagem, como sempre, achando que política é igual samba que é igual a bunda que é igual a uma grande cagada, elegeu José Sarney e sua filha. Elegeu Paulo e Jaqueline Roriz. E elegeu Joaquim Roriz senador.

- Eu queria muito ter moral suficiente pra dizer que vivo no meio de um povo que sabe votar. Não precisava ser num PAÍS que sabe votar: só dizer que minha cidade sabe eleger seus representantes me deixaria feliz. Mas quem será o governador nos próximos 4 anos? Arruda. E seu vice? Paulo Octávio. E quem ficou em segundo lugar? Abadia. E quem foram os deputados federais vencedores? Fraga, Bispo Rodovalho e Tadeu Filippelli.

Vocês merecem se foder um monte.
O governo só reflete a ausência de bom-senso do povo desse país.

Aviso aos navegantes:

O teor do texto abaixo pode chocar os de caráter mais sensível. A esses, não recomendo a leitura.

Mas fica aqui a minha promessa, desde já, de não mais mencionar tais imoralidades. A saber: Paulo Octávio, José Roberto Arruda e PFL.

Grato.

O Gerente.

Quem vê cara…

Não era nova o bastante para ser considerada adolescente, nem tinha idade suficiente para ser uma balzaquiana. Era uma jovem de seus vinte e poucos anos, muito bonita e com inteligência pouco acima da média. Seria desmedido dizer que atraía homens como o mel às formigas, mas também não os afastava.

Assim como seria incorreto afirmar que era intocada, uma virgem, seria igualmente injusto chamá-la por adjetivos impróprios. Tivera sua dose de relacionamentos infrutíferos. Alguns mais duradouros, outros efêmeros. Era bem vivida, na verdade. Tinha a bagagem que alguém de sua idade deveria ter nos assuntos do amor, do sexo e da convivência. Nem mais, nem menos.

Conheceu-o por acaso, em um jantar na casa de amigos, e foi arrebatada por aquele jeito alheio, o olhar longínquo, o ar sempre distante e o comedimento com tudo. Tudo, menos comer. O homem comia como um tigre faminto. O correto seria compará-lo a um abutre, pois não fazia restrições quando se tratava de culinária, mas tal paralelo soaria grosseiro, então fica como está.

Trocaram telefones e começaram a sair.

Ele levou algum tempo até perceber suas reais intenções, mas percebeu. Ela levou algum tempo até notar que seria necessário dar indiretas que de indiretas não tinham nada para trazê-lo ao encontro de seus anseios, mas notou. Depois de breve período de romance, ele revelou que também a havia notado no dia do jantar, que ficara encantado com sua presença, seus olhos vivos e seus comentários perspicazes.

Ela sabia, graças aos romances passados, que namoros se resumiam a duas coisas: fazer sexo e comer. E sabia que seu namorado era um legítimo bom-garfo e, também por isso, apreciava sua companhia nas refeições. Mas seu grande apetite lembrou-a de certas teorias que diziam que homens muito vorazes à mesa também o eram na cama, e não via a hora de tirar a dúvida.

Certo dia em que seu pai viajou - a mãe vivia alhures -, convidou-o para jantar em casa. Ele aceitou inocentemente, como um bezerro que caminha ingenuamente para o matadouro, sem saber que nas próximas horas tornar-se-á um suculento pedaço de vitela.

Chegou pontualmente e, com os trejeitos tímidos de sempre, sentou-se empertigado no sofá da sala, como um desempregado prestes a enfrentar seu futuro chefe. Recusou copos d’água, cafezinhos, refrigerantes. Por fim, aceitou um tira-gosto e uma taça de um merlot que melhorava na adega havia alguns anos. Assistiram à programação da TV a cabo entre carícias leves, que foram se intensificando até que o controle remoto foi ao chão com estrépito quando ele se levantou e, demonstrando surpreendente força física, ergueu-a pela cintura com um braço, enquanto, ávido, mordia-lhe o pescoço e abria o fecho do sutiã habilmente utilizando apenas três dedos.

Entre beijos, ela sugeriu que fossem para o quarto e ele a levou sem colocá-la no chão, acariciando seus seios com uma das mãos.

As teorias se provaram verdadeiras. O homem era, de fato, um incubus! Ele a deitou na cama com gentileza que não condizia com o modo fremente com o qual os lábios, língua e dentes percorriam seu pescoço, queixo, nuca, boca e orelhas. Retirou sua calça jeans com espantosa velocidade e apenas pedaços de sua calcinha foram encontrados no dia seguinte, espalhados por todo o aposento. A seguir despiu-se com igual velocidade e juntou-se a ela sob os lençóis.

O rapaz alternava carinhos insolentes com carícias de desmedida ternura. A língua dele percorria cada milímetro de seu corpo, suas sensações tão transitórias que era difícil compreender o que acontecia. Mas ela compreendia e adorava. Gemia de agrado quando ele, virando-a de bruços e mordendo-a das nádegas até o pescoço, sussurrava elogios despudorados em seu ouvido. Gemia duas vezes mais quando, no instante seguinte, com um movimento brusco, ele a girava na cama, colocando-a em decúbito dorsal, e trafegava por seu corpo com mãos ágeis apertando, afagando, arranhando e massageando, e com a ansiosa boca beijando, lambendo, chupando e mordendo. Chegava até seu baixo ventre, até seus grandes, gotejantes lábios, e, entre volteios calculados e investidas competentes com a língua, que a faziam estremecer, dizia obscenidades inenarráveis que, somadas à sofreguidão de seus gestos, faziam-na pensar que estava prestes a perder o juízo.

Em um instante lambia-lhe os pés, chupava-lhe os dedos, abocanhava-lhe os calcanhares. No próximo segundo já estava manuseando seus mamilos, mordiscando-lhe o púbis. Não lhe pedia nada, não lhe dava ordens, nada lhe perguntava. Perscrutava seu corpo como se lho pertencesse, e a essa altura do campeonato já pertencia. Ela apenas mordia os lábios, voluptuosa, gemia, urrava, gritava, implorava por mais, arranhava-se, agatanhava-o, raspava as paredes, desalinhava os cabelos, descontrolava-se.

Ele murmurou em seu ouvido, em dado momento, que iria apresentá-la à sensação de descer na maior montanha-russa do mundo e riu o riso sem-vergonha dos devassos. Em seguida jogou as duas pernas dela para cima e, introduzindo-lhe dois dedos, apertou algum botão - até então desconhecido a ela - que causou efeitos imediatos. Após intermináveis segundos que chegaram ao fim mais rápido do que gostaria, seu corpo inteiro convulsionou-se como que tomado por um surto epilético. Sentiu os lençóis encharcados com a torrente de satisfação que escorria entre suas coxas lânguidas.

Depois de tão violento orgasmo, deixou-se desfalecer. Chegou a sentir a vista escurecer e o quarto girar, mas ele, veloz, apertou seu pescoço num gesto agressivo de quem tenta sufocar outrem. O afogamento súbito, em vez de apagá-la de vez, trouxe sua consciência novamente à tona. Resfolegando, olhou para ele.

Os olhos, antes aéreos, pacíficos, estavam completamente diferentes. Fitava-a como um gato que observa a presa encurralada. Não havia nada do ar distraído de outrora, apenas o olhar decidido do agressor sobre a vítima. Tremeu de espanto, mas, mais do que isso, tremeu de prazer. E ele, após assediá-la com nova série de preliminares, penetrou-a com toda a pujança de seu sexo furioso, subversivo e insaciável.

Foi uma longa noite. Fizeram amor, sexo, transaram, foderam, fornicaram… deixaram-se levar pela luxúria. Entre uma rodada e outra da mais pura, feliz e realizada safadeza, atacavam a geladeira. O mesmo apetite que ele manifestava com a comida, dirigia a ela, a seus fluidos, a seus orifícios, a toda sua anatomia. Ela descobriu no próprio corpo algo entre doze a dezessete zonas erógenas, antes desconhecidas.

Passaram a dormir juntos quase todas as noites. O pai dela, um homem instruído, com boa cabeça, razoável, não interferia no direito da filha - maior de idade, responsável, inteligente - de dormir com o namorado. Inclusive lhe agradava a companhia do rapaz. Conversavam sobre esportes, música erudita, livros, notícias, assuntos gerais, enfim. Bebericavam dos bons vinhos da adega. Um semillon para acompanhar foie gras, um cabernet para melhorar a degustação de queijos e outros frios.

A moça ficava feliz em ver o pai se dando tão bem com o namorado, em notar como as conversas rendiam horas e horas de assunto e em ver como o apetite sexual vigoroso de seu parceiro não arrefecia. Era impossível se conter durante as intermináveis maratonas de descaramento e, não tivesse o velho sono tão pesado a ponto de resistir aos próprios roncos, amargaria noites insones ao som das sessões de ode aos prazeres carnais da filha.

Um dia marcaram de se encontrar na rua. Ele iria buscá-la na saída do estágio.

Chegou um pouco atrasado, alegando que perdera a noção do tempo durante uma reunião de membros de seu partido. Trajava uma camiseta do PFL. No vidro do carro, os inconfundíveis adesivos de apoio aos candidatos do partido da frente liberal: Arruda e Paulo Octávio.

Incapaz de tolerar tamanha sem-vergonhice, ela terminou o namoro dois dias depois.

Não é um apoio. Tampouco uma crucificação.

Agora que já se passou algum tempo - embora não muito - da onda de atentados comandados pelo PCC em São Paulo, acredito que seja necessário fazer algumas considerações. Qualquer um que interprete este texto como um apoio - ainda que longínquo - aos crimes está vendo as coisas de forma muito passional para raciocinar direito.

Minha intenção não é demonstrar apoio a qualquer facção criminosa. Não que seja exatamente um entusiasta do sistema legal brasileiro, mas tampouco sou afeito a causas que se manifestam de forma tão distorcida a ponto de assassinar e aterrorizar cidadãos que não são diretamente responsáveis por essa baiúca em que moramos ser o que é.

Feitas as devidas ressalvas, devo dizer que não antipatizo completamente com os atos perpetrados pelos criminosos paulistas. Acho mesmo que é uma sacanagem das grandes tocar fogo em ônibus e matar bombeiros. Mas, por outro lado, é interessante ver que em um país que sofre até hoje com as seqüelas deixadas por mais de 30 anos de ditadura militar, justamente a polícia militar perdeu - mesmo que apenas por poucas horas - sua posição de impositora da força para se transformar em mais uma vítima desse redemoinho de insegurança e caos em que vive o povo brasileiro.

Quando a polícia se vê entrincheirada e assustada a ponto do governo do Estado mais rico do país ter que fazer acordos com líderes criminosos para que tudo volte à sua normalidade, fica claro que o governo perdeu irremediavelmente as rédeas da situação.

Quando a polícia, tão eficaz na hora de falar grosso com contribuintes honestos e sentar a porrada em populares reclamando direitos, baixa a cabeça e fala fino diante do crime organizado, cresce em mim a esperança de que um dia, talvez, uma parcela - ainda que pequena - do povo se reúna em prol de uma causa nobre, crie uma milícia organizada e torne a queimar delegacias, depredar agências bancárias, casas de políticos, juízes e outras “autoridades” - com as referidas “autoridades” dentro - para finalmente dar um basta nessa sensação que os “poderosos” têm de que podem nos pressionar contra a parede o quanto quiserem.

Reprimiram os repressores. E ainda que a manifestação do poder popular tenha se dado por um grupo que, preferíamos, não existisse e por razões pouco dignas, deixa entrever que não é tarefa das mais árduas.

Esse é o pequeno aspecto que me deixa feliz na história toda. Contraposto a todos os que me entristecem, é totalmente irrisório. Mas de todos esses, o pior é o tratamento dado pela mídia e, por conseqüência, o entendimento dos cidadãos dos acontecimentos. Sim, temos presídios superlotados e boa parte do nosso dinheiro de impostos é convertido em alimento e moradia aos membros rejeitados da sociedade. Sim, essa é uma verdade difícil de engolir.

E um meio extremamente simplista de “acabar” com o problema é, obviamente, explodindo as penitenciárias com os internos dentro. Mas - e digo isso sabendo que leitores mais afoitos vão me chamar de “simpatizante” dos bandidos - essa solução, além de não ser nem um pouco humanitária, é burra.

Burra porque alimentar a ilusão que matar esses pobres-coitados vai resolver o problema é como tentar matar uma hidra cortando-se uma cabeça: para cada uma que vai, duas nascem no lugar.

Burra porque os presídios superlotados e o aumento da criminalidade não são causas dos ataques do PCC, só sintomas - como o PCC em si - da situação absurda em que vive a população de baixa renda desse país. É óbvio que existe gente safada, canalha, cruel, violenta e mau-caráter por natureza, mas é claro que comportamentos socialmente inaceitáveis são externados à medida em que cresce a crença na impunidade. E é óbvio que existe quem roube, seqüestre e mate porque são meios muito simples de se fazer dinheiro, mas é claro que boa parte das pessoas que se envolvem nessas atividades só o fazem por total falta de opção na vida.

Nossa carga tributária é maior do que a de países altamente desenvolvidos, onde o cidadão paga taxas absurdas mas vê todo o dinheiro retornar na forma de ótimas escolas, faculdades excepcionalmente boas, sistema de saúde eficiente, amparo aos desabrigados, diversas opções de lazer à disposição de todos e vários outros benefícios. Nós pagamos valores obscenos de impostos e não temos retorno NENHUM! Uma parcela ínfima da população pode enfiar seus filhinhos em colégios particulares, trancar-se atrás de muros de 4 metros com cercas eletrificadas e assistir o Jornal Nacional numa TV tela plana de trocentas polegadas comendo do bom e do melhor e exercitando a cumplicidade com tudo isso que acontece.

A esmagadora maioria vive um dia-a-dia de Brasil Urgente!, saindo de casa todos os dias à procura de um subemprego qualquer e voltando com uma mão na frente e a outra atrás, dando graças a deus por ainda vestir a roupa do corpo e ter onde dormir. Gente que só tem a atenção dos poderosos em época de eleições, que só recebe palavras de conforto dos asseclas do bispo Macedo.

E a molecada que nasce desses desinformados cresce descalça, doente e desnutrida na rua, vendo a garotada da Malhação - aos olhos deles um bando de alienígenas, com seus padrões de vida de classe média-alta - pagando uma rodada de suco pra galera e se inspirando em adolescentes que, entre uma cheirada e outra, caminham displicentemente portando armamento pesado soviético e vendendo papelotes de cocaína.

As causas da alta criminalidade, do PCC e dos ataques à população de São Paulo não são o PT, não é o Lula, não é o governo federal. Nem são, especificamente, o Geraldo Alckmin, o Cláudio Lembo e o PSDB - embora estes tenham muito mais culpa no cartório do que aqueles.

A causa da criminalidade no país inteiro é todo esse governo que aí está, somado a todos os que já tivemos antes, tudo isso multiplicado pela nossa incapacidade de demonstrar um mícron de compaixão e solidariedade com aqueles que afundam cada vez mais porque quem está por cima não se cansa de subir usando como apoio as costas de quem não tem como se defender.

A criminalidade, repito, é apenas um sintoma.
E a doença é nossa incapacidade de mudar.

E mais um adendo:

Ô, vem cá. X’eu falar contigo um instantinho. Coisa rápida. Sério. Ouve aqui.

Se eu fosse você, já teria baixado a mp3 de Halleluja cantada pelo Jeff Buckley. Da trilha sonora de Edukators.

Porque eu, sendo eu, já baixei.

Aliás, cê deveria assistir Edukators logo, se nunca viu. Porque o filme é bom pacaraleo. Mas não veja assim, logo depois de ler O Germinal, não, porque foi o que eu fiz e ando me sentindo muito socialista desde então, com linguajar panfletário e tudo. Tá foda.

Mas enfim. Edukators é tão fodão que um diretor americano resolveu cometer uma refilmagem da parada (quero ver como é que vão lidar com o discurso comunista do filme, aposto que vão ridicularizar). Então veja logo o original alemão antes que saia a nova versão.

Porque cê sabe, né? Depois que tiver a fita em inglês, vai ficar foda encontrar a original em alemão. Culpa desse nosso ranço de país subdesenvolvido subjugado pela potência capitalista que impõe sua pseudo-cultura baseada em princípios de acumulação de capital e controle dos meios de produção e… e…

Bah.
Preciso parar com isso.

O Civil Virtuoso

Em 1998 a Abril lançou uma mini-série sensacional chamada Batman Preto e Branco. Quatro edições, cada uma contendo quatro histórias curtas do morcego desenhadas/ilustradas por grandes nomes dos quadrinhos, como Neil Gaiman, Joe Kubert, Matt Wagner, Chuck Dixon, Archie Goodwin, Richard Corben, Bruce Timm, Klaus Janson, Dennis O’Neil e Katsuhiro Otomo.

Dentre as 16 histórias brilhantes que tive o imenso prazer de conhecer, uma em particular merece menção. Chama-se “crimes triviais” e trata exatamente sobre isso: um cidadão de Gotham que se autodenomina “O Civil Virtuoso”, sai pela cidade - armado de uma pistola e uma forte noção de regras de conduta - assassinando pessoas que não seguem os princípios mais básicos da vida em sociedade, como um sujeito que não limpa a sujeira de seu cachorro da calçada ou dois moleques inconvenientes que insistem em conversar dentro do cinema.

Por mais que essa opção seja extremamente sedutora - deus (se é que ele existe) sabe como eu acordo querendo uma metralhadora só pra ter o prazer de passar fogo nos miseráveis que entram na minha quadra às 3 da manhã cantando pneu - é claramente errada. A partir do momento em que aceitamos viver em sociedade, cercados por outros seres humanos, admitimos a possibilidade de alguns (muitos, na verdade) deles sofrerem da gravíssima doença que é a total falta de bom-senso, e é necessário tolerar isso - claro que guardadas as devidas proporções.

Baseado nesse princípio do respeito mútuo para com as falhas alheias - e sabendo que falar é muito bonito, mas fazer é que são elas, e que determinados indivíduos jamais colocariam isso em prática sem uma “leve” prensa da maioria - um dia alguém teve a idéia de criar um sistema de leis (o que é uma boa coisa, por um lado, mas acabou gerando os advogados, por outro, e isso definitivamente é uma desgraça das grandes), e acredito que uma das mais básicas sempre foi a máxima do “não matarás”. Não só é uma lei, prevista no código penal de - acredito eu, e corrijam-me se estiver errado - todos os países do mundo, mas também um preceito moral - e cristão, diga-se de passagem - muito forte. Matar alguém é, moralmente falando, uma falha gravíssima, principalmente de acordo com o cristianismo.

Todo o princípio das religiões cristãs é contra a mera contemplação da possibilidade de tirar a vida de alguém. E sendo o cristianismo a religião vigente nessa nossa sociedadezinha muquiça, nossa sociedadezinha muquiça deveria ser contra assassinato, certo? Deveríamos todos nutrir sentimentos altruístas de amor ao próximo, de tolerância e respeito com as falhas alheias, de boa-vontade para com os necessitados e todas essas coisas muito bacanas que o tio hippie das extremidades furadas fazia tanta questão de passar adiante que até mandou os lac… ehr… apóstolos dele escreverem num livro, de modo que aquelas mensagens legais estivessem disponíveis para a humanidade até o fim dos tempos.

Sabia o que tava fazendo, o Jotacê!

Nós não sabemos.

A maior prova disso poderia ser a absolvição dada ao coronel Ubiratan Guimarães pelo massacre dos 111 presos do Carandiru. Poderia, mas não é.

A maior prova disso é o coro de uma grande parcela da população que apóia tal decisão. Como assim “o cara não fez nada errado”? Como assim “bandido bom é bandido morto”? Por que é que eu, um maldito herege que acha o cristianismo uma piada de péssimo gosto e tem uma visão muito mais frívola sobre o valor da vida humana, acho isso um barbarismo sem tamanho e os pretensos cristãos, aqueles que dão a outra face e amam seu próximo, apóiam tal comportamento?

Talvez porque eu concorde com o bordão do Civil Virtuoso: o colapso da civilidade é o colapso da civilização. E por civilidade compreenda-se, dentre muitas outras coisas, tratar de forma humanitária até o mais depravado dentre os párias. E por civilidade compreenda-se também ser justo e dar às vítimas, se não o direito à vida, pelo menos chance de defesa.

Invadir uma casa de detenção cheia de presidiários desarmados com um batalhão de operações especiais carregando armas de fogo pesado e com ordens para matar foi, além de desumano, covardia.

E se pra ser cristão é preciso compactuar com isso, acho que vou fundar uma seita satânica.