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Vanguardismo ou vandalismo?

Recebi um e-mail muito breve ontem, de um tal Quijote Cabalero de la triste Figura, intitulado “Direito de resposta”. Transcrevo:

Caros rebeldes,

A resposta que publicamos no blog também é pra vocês…

Saudações,
Don Quijote

E fiquei, por alguns minutos, me perguntando do que se tratava. Cheguei a enviar um e-mail para o remetente dizendo que eu sequer sabia quem ele era e aconselhando-o a parar com as drogas. Foi só clicar no botão de “enviar” pra me lembrar que eu sabia, sim, quem é a figura.

Dia 20 desse mês, no meio da madrugada, eu conversava com o renmero quando ele me veio com este link. Trata-se do blog de um grupo de “artistas”, ou, nas palavras deles, de “poetas visuais, militantes líricos, defensores do olhar múltiplo e humano, embebidos pela visceralidade poética de Don Quijote - o cavaleiro andante” - seja lá o que isso signifique - cuja “arte” consiste em sair pela cidade de São Paulo colando adesivos nas placas de trânsito.

Vi as primeiras imagens e achei muito divertido, até ler algumas reportagens a respeito e me dar conta de um fato: a CET - Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo - gasta R$ 60,00 por cada placa que esses “vanguardistas” adulteram. Veja só que bonito. Considerando que os caras já “estilizaram” mais de 100 placas da cidade, então são mais de R$ 6.000,00 gastos com a brincadeirinha dos “militantes líricos”.

Deixei um comentário (assinado, aliás, porque se quero falar alguma coisa dou a minha cara a tapa) que transcrevo:

Quando conseguirem pensar numa maneira de fazer o que fazem sem gerar ônus pra ninguém, sem que ninguém tenha que botar a mão no bolso graças à sua brincadeirinha, aí, sim, serão artistas.

Até lá, são só vândalos. Não são melhores do que quem destrói um orelhão ou faz uma pichação num muro da cidade.

Daí o tal direito de resposta aos “rebeldes”. Um post enorme, extremamente nebuloso, repleto de argumentos circulares de difícil compreensão e com uma linguagem que acusa “pensamento acadêmico”. Aposto o meu dedo mínimo da mão direita que esses caras aprenderam a falar de forma tão bonita (porém vazia) numa faculdade. O pensamento “acadêmico” é volúvel, volátil, aparentemente inteligente mas inerentemente imbecil. Professores universitários - em especial de cursos de arte e comunicação social - costumam ser umas bestas do mais grosso calibre que se acham gênios, formadores de opinião e indicadores das novas tendências de pensamento da sociedade (em especial da elite). Compram qualquer gato mal travestido de lebre e saem apregoando novas idéias fadadas ao sumiço - por diversos motivos, que variam sempre de acordo com o pensamento em questão - como sendo fagulhas de uma revolução iminente, que virá para alterar todo o tecido social e acabar com as relações como as conhecemos.

Foi assim com os flash mobs. Me descascaram porque eu ri de um professor universitário que, num caderno proto-intelectual do Correio Braziliense, falava dessa “nova tendência” como sendo o início de um tsunami comportamental que iria varrer as convenções sociais.

Só pra constar: alguém aí se lembra dos flash mobs? Não?

Pois é.

Vejam só que gracinha o texto que os “poetas visuais” gostam de colar no blog deles:

É uma interferência parecida como o grafite, mas tem outra linguagem. Ao invés de depredação, é uma discussão sobre a retomada do espaço público. Aparentemente é depredatória, mas não é. Essas imagens grudadas servem para discutir o espaço público.

Silvio Miele, professor de comunicação social e arte multimídia da PUC de São Paulo.

Comunicação social E arte multimídia.

Não foi o que eu disse?

Em um curto trecho de sua resposta, os Quijotes deixam entrever uma fagulha de pensamento questionador realmente válido, mas logo isso afunda no revolto e incompreensível mar de filosofias neo-artísticas e desaparece por entre as pseudo-idéias - nebulosas e sem fundamento. Segue abaixo:

Por que a publicidade se alastra de uma maneira tão opressora e violenta e não é questionada ou não é criminosa? (…) Porque choca tanto quando o patrimônio público é interagido? E por que não choca quando o patrimônio privado usurpa o patrimônio público? Porque isso não é questionado e é tratado com tanto respeito pelos meios de comunicação que deveriam fomentar esse tipo de discussão?

Existe uma diferença bem grande entre uma coisa e outra. Sim, realmente a publicidade força a barra, avança o sinal, invade sua cabeça até onde e quando não deveria fazê-lo. Mas existem leis pra conter esse tipo de coisa, as agências são reguladas, os responsáveis mostram a cara e dizem seus nomes. Além do mais, como bem disse um sujeito chamado Cyrano na mesma caixa de comentários que eu:

Se o problema é a mídia não questionar a invasão do patrimônio público pelo privado, como é que vocês colam esses adesivos justamente em cima de placas públicas, e não dos anúncios? A idéia tá bacana, o trabalho tá bacana. A prática tá vesga. Blz?

Beleza, mano. Disse tudo. Querem se revoltar? Querem questionar a ocupação do espaço visual? Por que não atacam outdoors? Por que não azucrinam empresas privadas?

Pensando melhor: por que não entram em contato com a Prefeitura e pedem um espaço para manifestação? Aqui em Brasília o governo cede as paredes das caixas de energia das quadras para que os grafiteiros façam sua arte. Embeleza a cidade sem pesar no bolso do cidadão e ainda existe a possibilidade das mensagens contidas nas figuras suscitarem reflexões. E em São Paulo tem um rapaz - cujo nome infelizmente não me recordo - que vai aos esgotos para grafitar. Lá mesmo, onde ninguém nunca vai ver o que ele fez. Importa muito mais a intenção do cara ao expor seu trabalho do que o alcance da exposição em si.

Existem diversas maneiras de “embelezar” a cidade e “interagir” com o espaço urbano. Dessas, é possível encontrar várias que não implicam em custo nenhum para os cidadãos e são bastante eficientes na hora de levar sua mensagem e transmitir suas idéias.

É possível ser inteligente sem ser inconveniente, mas claro que demanda doses bem maiores de esforço e dedicação. Vão praticar parkour, que é a mais visceral interação com nossas selvas de concreto e não incomoda ninguém.

Posicionamentos políticos

- “Ordeno”! Quem ele pensa que é?
- Sou o seu rei!
- Não votei em você.
- Os reis não são eleitos.
- Como você se tornou rei, então?
- A Dama do Lago, seu braço coberto com o mais puro Samito cintilante, ergueu Excalibur da superfície da água, anunciando, por Divina Providência, que eu, Arthur, deveria carregar Excalibur. Por isso, sou seu rei!
- Escute, mulheres estranhas em lagos, distribuindo espadas, não são alicerce para um sistema de governo. O poder executivo supremo provém de um comando das massas. Não de uma cerimônia aquática ridícula.
- Cale-se!
- Você não pode querer exercer o poder supremo só porque uma vadia jogou uma espada pra você.
- Cale a boca!
- Se eu saísse dizendo que sou um imperador porque uma sirigaita lançou uma cimitarra pra mim, me prenderiam!
[investindo contra o camponês]
- Vai calar a boca?
- Viram? A violência é inerente ao sistema!
- Cale a boca!
- Socorro, estão me reprimindo!
- Camponês desgraçado!
- Se entregou. Ouviram isso?

Existe muito mais sabedoria em Monty Python do que supõe nossa vã filosofia.

Fé demais não cheira bem

Depois do post sobre a crise política, ainda espero algum defensor da direita que seja capaz de, no mesmo comentário, assinar o nome/divulgar o e-mail e não cair no lugar-comum de me chamar de petista e fazer referências pouco honrosas à minha mãe, que não tem nada a ver com a história.

Mas acho que é pedir demais esperar que alguém disposto a defender o indefensável não seja covarde e/ou imbecil. Eu e minha crença infinita na capacidade das pessoas…

Caindo no erro

Não trato de política por um sem-número de motivos. O principal deles é por ser um assunto extremamente complexo, sujeito a uma quantidade tal de variáveis e que necessita um nível tão alto de conhecimento para ser discutido propriamente que simplesmente foge ao meu alcance.

Mas existe um certo fator nessa crise atual que me parece tão óbvio, é tão claro, está exposto de maneira tão evidente que não me conformo por não ser discutido de forma mais enfática.

Aliás, não me conformo exatamente porque ele não é discutido, em absoluto.

E, de tão inconformado, vou cair no erro de escrever algo a respeito aqui, mesmo sabendo quanta dor-de-cabeça isso pode me causar. Mas vou, de todo modo, e ciente das conseqüências.

Me refiro a essa conversa que circula muito em mesas de discussão - principalmente naquela palhaçada que o Jô Soares arma às quartas-feiras - sobre “como o PT desencadeou a maior crise política que o Brasil já teve”. De repente parece que o governo atual é o grande responsável por todas as vergonhas já documentadas na história desse país. Do mensalão ao golpe de 64, do impeachment ao tráfico de escravos, dos porões da ditadura aos anões do orçamento.

Não quero eximir o governo de sua culpa, minha intenção não é tapar o sol com a peneira, apenas me pergunto para onde foram todos os arquivos de todos os jornais, revistas e demais periódicos sobre as inúmeras, infindáveis, inegáveis e insondáveis canalhices já realizadas pelos antigos administradores desta grande sacanagem que, por pura persistência e falta de bom-senso, chamamos de país (quando “pocilga” seria um termo muito mais propício).

Como assim “o governo do PT instituiu o mensalão”? Por que não citam o fato DOCUMENTADO, que, pasmem!, chegou até a rodar nos jornais (mas sem muita ênfase, claro), do presidente anterior, aquele lá, da sigla, ter comprado votos de outros políticos para conseguir engatar determinados processos?

Como assim “a maior crise política dos últimos tempos”, sendo que aquelas perpetradas pelo PSDB e pelo PFL de 1994 a 2002 foram convenientemente ABAFADAS pela imprensa em prol de assuntos que mal mereciam uma nota de rodapé num tablóide de terceira categoria, mas que se transformaram em verdadeiras febres, como o tal “bug do millenium”, por exemplo? Não dá pra dizer que essa é a maior dos últimos tempos, já que os jornalistas fizeram o grande favor de não trazer várias outras à tona (sendo que poderiam), nos privando de outras referências para comparação.

Como assim “é uma vergonha o que o PT fez com esse mandato, a situação em que deixou o país”? Quero dizer, sim, é uma vergonha o péssimo aproveitamento que esses caras fizeram com a maior chance que tivemos de mudar alguma coisa, de fato. É uma vergonha que tenham virado a casaca de repente e partido para as políticas econômicas, quando o que realmente precisamos é de políticas sociais decentes e encaradas com seriedade. É uma vergonha que tenham esquecido um dos carros-chefes de seus projetos de governo, que é a reforma agrária e a solução, esperada há 500 anos, pra uma das maiores injustiças que já se viu na história. Isso tudo é uma vergonha, mas calma lá!

Desde quando essa balbúrdia que batizamos de Brasil é um poço de seriedade, comprometimento e decência governamental? Desde quando o PT foi o responsável pela quebra da máquina pública? Desde quanto o PT é o culpado pela venda das estatais? Fica parecendo até que éramos uma potência antes disso tudo que está aí. Falam desse esquema de pilantragem atual como se fosse o primeiro em muitos, muitos anos, como se há dois séculos não tivéssemos conhecimento de qualquer tipo de baixeza arquitetada pelos nossos representantes eleitos.

QUAL É?

Tudo bem que os jornalistas são todos uns vendidos, que a mídia brasileira só não fica mais marrom porque não tem jeito e que os meios de comunicação desse país são claramente reacionários, corruptos e favoráveis ao retorno das coisas como eram antes, já que tudo estava muito mais confortável sem o risco de, repentinamente, alguém minimamente decente chegar ao poder e dar um basta em todas as prevaricações cometidas com a grana pública.

Mas daí a chamar a população INTEIRA de imbecil da forma como vêm fazendo?

Mas daí à população INTEIRA embarcar na onda e colar, com o próprio cuspe, o adesivo de IMBECIL no meio da testa?

Isso supera até as piores previsões do maior dos pessimistas!

Por que ninguém avisa a população que, na verdade, não é que o ACM Neto seja um grande defensor do interesse popular, tampouco são, todos aqueles deputados do PMDB, PSDB e PFL, paladinos que lutam pela justiça a qualquer preço? Por que ninguém avisa a população que o que acontece é que eles não admitem ficar sem sua parcela das maracutaias, que estão denunciando e botando a boca no trombone não por escrúpulos e integridade (coisa que eles nem sabem o que significa, aliás), mas porque se roem de inveja sempre que sabem de alguém do PT tirando um por fora, quando poderiam ser eles?

Antes que os azulões surjam, leiam o texto e venham com discursos inflamados utilizando frases de Olavo de Carvalho, citando colunas do Diogo Mainardi e reportagens da Veja, acho bom deixar algo bem claro: eu não sou petista, tampouco revolucionário, socialista, marxista, qualquer coisa assim. Sou apolítico, assim como sou agnóstico. Não me prendo a partidos e não pretendo defender o PT como o grande salvador da pátria, nem enaltecer o Lula como um profeta ou um encarregado divino de varrer da terra tupiniquim a desvergonha e a canalhice. Nada disso.

Não tenho nada contra a imprensa escarafunchar as desonestidades cometidas pelo governo, mas tenho muita coisa contra esses panos quentes que colocam nas crises passadas, essa propaganda armada pra convencer o povo que é a primeira e última vez (desde que o PT não seja reeleito) que algo assim acontece e que tudo vai ficar muito bem se um crápula como o Alckmin ou um pulha como o Garotinho subirem ao poder. Que vamos viver numa terra de sonhos, onde brota cerveja e cachaça, já que leite e mel é pouco e não dá barato.

De todo modo, prefiro ser taxado de comunista e proto-revolucionário a ser reacionário, e não sei que destino terá um país cuja juventude tem coragem de assumir, sem um pingo de vergonha, sem medo de represálias, de cara limpa, pra quem quiser ouvir, que é, sim, conservadora, “de direita”, que acha que a situação do país estava muito boa do jeito que estava e que não vê nada de errado em apoiar a tucanada que vem exaurindo tudo o que pode há tantos anos. Hoje vi um sujeito citando uma frase do Figueiredo, como se fosse uma grande verdade dita por um grande homem digno de louvor.

O FIGUEIREDO! UM EX-PRESIDENTE DA DITADURA!

Esse barco não vai afundar. Já afundou! E todo mundo tá boiando em alto-mar, à deriva, tomando sol na cabeça e engolindo água salgada há tempo demais. Só pode ser essa a explicação pra tanta alucinação e inconsciência coletiva.

Caça às bruxas

A situação toda começou de modo tão sutil que seria impossível prever que terminaria daquela maneira. Senhoras caminhando preferiam atravessar a rua a cruzar com ele, mães acompanhadas dos filhos cobriam os olhos das crianças para que não pudessem vê-lo, o porteiro do prédio deixou de cumprimentá-lo, a empregada não mais arrumava seu quarto, alguns rapazes, geralmente em grupo, faziam provocações e riam. Os solitários se limitavam a lançar olhares de desaprovação.

Ele a tudo ignorava, convicto, ciente de seus direitos de cidadão.

Mas a coisa foi ficando mais séria. Na segunda semana seu chefe, alegando uma suposta falta de comprometimento, acabou por despedi-lo. Sua namorada deixou de ligar e atender suas ligações. Seu (agora ex) sogro não o deixava entrar em casa para falar com ela. Seus amigos fingiam não conhecê-lo, alguns até o hostilizavam quando forçava contato. Padres faziam o pelo sinal ao vê-lo e pastores erguiam suas bíblias, enquanto conclamavam fiéis a se juntarem numa oração fervorosa em prol daquele rapaz tomado pelo Inimigo.

Certo dia, voltando cabisbaixo da padaria (onde o padeiro se recusara veementemente a atendê-lo), notou um movimento atrás de si e, antes que se virasse, tomou um golpe nas costas que o jogou no chão com violência. Três garotos de 15 ou 16 anos riam, enquanto um quarto desferia chutes e proferia impropérios contra ele. Levantou-se e correu. Ao virar a esquina pensou estar a salvo, mas um grupo de velhinhos que jogava dominó chegou à conclusão que alvejá-lo com as pedras seria passatempo muito mais interessante, e assim o fez. Atravessou a rua esbaforido, e quase foi atropelado por um motoqueiro que cruzara o sinal vermelho com a intenção de passar por cima dele. Um menino colocou a cabeça para fora da janela de um carro e cuspiu em seu rosto. Enquanto limpava a saliva grossa dos olhos com as costas da mão, uma senhora o atacou com um guarda-chuva.

Disparou novamente em desabalada carreira e no caminho cruzou um parquinho. Ao vê-lo, as crianças principiaram a chorar praticamente em uníssono. Mães indignadas partiram para cima dele armadas de bolsas, tamancos, paus e pedras. Um garoto mais intrépido, ao notar a chegada iminente do auxílio materno, jogou terra em seus olhos e correu. Sem enxergar, assustado com a gritaria das mães cada vez mais próxima, seguiu seu caminho como pôde, tropeçando aqui e ali, parando a cada cinco passos, sem saber se fugia ou limpava os olhos.

Quando voltou a enxergar, olhou para trás imaginando estar livre de suas perseguidoras, mas as mulheres, num misto de indignação e nojo, continuavam a segui-lo. Não apenas elas, como também os adolescentes que encetaram a série de agressões e alguns idosos arremessadores de dominó. E a cada momento mais e mais transeuntes se juntavam a esses e partiam em seu encalço. Começou a nascer um coro pedindo linchamento. Cada vez mais amedrontado, percebeu que era hora de ir para casa. Tentou cortar caminho por um shopping, mas os seguranças impediram sua entrada e escorraçaram-no aos pescotapas. Um deles até chegou a dizer, dentes cerrados de ódio:

- Sorte sua a gente não andar armado!

Temeu por sua vida e partiu para casa correndo o mais rápido que podia. A turba que o perseguia, agora já uma pequena multidão, seguia atrás, implacável, os gritos de “lincha! lincha!” intercalados com ofensas do mais baixo calão. Conseguiu chegar ao seu prédio antes de ser alcançado, mas o porteiro divertiu-se ao velo em apuros e fingiu não ouvir seus apelos para abrir a portaria. Pulou o portão. Tentou pegar o elevador, mas duas garotas lá dentro desferiram tantos pontapés em sua direção que subiu os sete andares de escada mesmo.

Ao entrar em casa, mal conseguia respirar. O coração batia de forma tão precipitada que temeu enfartar, apesar dos vinte e poucos anos. Tentou recobrar a calma, mas sua família, à mesa de jantar, começou a arremessar talheres em sua direção. Trancou-se no quarto.

Ouviu o povo lá embaixo gritar furiosamente. Acabou se rendendo: tirou a camiseta que continha, em letras garrafais, a mensagem “EU ACREDITO NA VEJA!”, pegou seus buttons do PFL, as matérias e até mesmo o livro do Diogo Mainardi e jogou pela janela. Lá embaixo a multidão aplaudiu efusivamente, antes de seguir para a praça, disposta a queimar tais abominações.

E restabeleceu-se a paz na comunidade.

Eu e o véio Tolsta.

Tentei ler Guerra e Paz. Admito, envergonhado, que sem sucesso. A culpa foi minha, claro, mas apenas em parte.

Explico: pedi ao meu pai que trouxesse, ao comprar o livro, uma tradução respeitável, em dois volumes, fiel ao original. Nada dessas edições dos grandes clássicos lançadas atualmente, totalmente retalhadas, que estão mais para resenhas muito longas do que para versões muito curtas. E pedi assim porque sabia que este seria um livro extenso e era isso o que eu estava querendo. Mas me ferrei.

O velho trouxe uma versão de 1958. Tem até uma dedicatória, e tenho quase certeza que todas aquelas pessoas (a que ganhou o livro e o casal que presenteou) já estão mortas.

A tipografia dos volumes é tão pitoresca que dá pra sentir o relevo das (minúsculas) letras nas páginas. Além do mais, o português usado é relativamente arcaico, o que me força a reler alguns trechos uma vez e outra até entendê-los.

Mas minha culpa termina aí. A responsabilidade, a partir de então, é do véio Tolsta (só pros íntimos).

Como disse antes, eu sabia que o livro era extenso, mas presumi que fosse um daqueles volumes extensos-porém-fluidos, i.e. cuja história, apesar de longa, transcorre de forma dinâmica, mantendo a atenção do leitor. Mas não: é um livro extenso-porque-minucioso, ou seja, de cada três parágrafos, um é realmente útil para a história. O resto é apenas o autor discorrendo sobre a decoração do local, o clima, a roupa e a fisionomia de cada uma das pessoas - embora boa parte delas mal participe da ação.

Aliás, “ação” é um pouco forte da minha parte, já que o começo do livro não tem ação alguma. Nada que pareça ser REALMENTE relevante (e admito que essa é uma conclusão um tanto sem embasamento da minha parte, já que não passei da 50ª página e todas aquelas conversas enfadonhas podem acabar se apresentando como sendo pontos-chave para a história algumas páginas adiante). Apenas burgueses russos em reuniões da alta sociedade trocando gentilezas apenas por educação e falando de amenidades.

O problema é que, depois de ler o Germinal, ando tomado por um leve torpor socialista, o que me deixa sem paciência pra esse tipo de narrativa.

A soma de todos esses fatores me fez encostar o Guerra e Paz por algum tempo. Acho que ainda não estou pronto pra ele, que também não está pronto pra mim. Vou partir para outro (Memórias de Adriano, talvez) e depois tento de novo.