Esse foi um ano estranho para minha coleção de quadrinhos, embora na verdade tenha sido apenas a confirmação de uma tendência que principiou - muito sutilmente - ano passado, quando me dei de aniversário alguns quadrinhos de autores que desconhecia, como a quadrinização de Estrada Para Perdição, do Allan Collins e do Richard Rainer.
Até então minha relação com as comics era bem simples: todo mês comprava uma edição do Homem-Aranha (tanto do universo Marvel ‘normal’ quanto sua contraparte ‘ultimate’), uma do Demolidor e qualquer coisa especial que saísse e me interessasse. Mas a mesmice começou a me incomodar. Em especial porque, depois de ser agraciado com os roteiros de Brian Bendis e a arte de Bryan Hitch na série dos Supremos, eu era freqüentemente tomado por curiosidade relacionada a todas as grandes coisas sendo escritas/desenhadas por aí que eu estava perdendo.
Some-se a isso os conselhos do Lima, nas minhas visitas à Kingdon Comics, e fechamos o caso. Deixei de ser um leitor “convencional” de quadrinhos. Apenas as publicações das bancas normais não eram mais suficientes para suprir minha necessidade. Em linguagem de toxicômano, “precisava de algo mais forte pra satisfazer meu vício” (com a vantagem de não sofrer crises de deliriuns tremens em caso de uma abstinência forçada).
Passei então a comprar títulos aleatórios, baseando minhas escolhas apenas nas opiniões de amigos ou nem isso: levando em conta só o autor ou o desenhista. Até agora ainda não me arrependi, o que me deixa intrigado. Não sei se os quadrinhos que fogem do padrão Marvel/DC são realmente excepcionais ou se, por serem um universo novo pra mim, ainda observo a tudo atônito, com aquela estupefação maravilhada dos recém-iniciados.
De todo modo, os últimos três títulos que adquiri fizeram valer cada centavo de seu (elevado) valor.

O primeiro foi As Aventuras da Liga Extraordinária, da dupla Alan Moore e Kevin O’Neil. Muito já foi dito a respeito desta série quando do lançamento do filme que, aliás, foi duramente criticado. Na época não entendi muito bem as razões da celeuma, já que me diverti assistindo à produção, por vários motivos que não vou enumerar aqui (escrevi um texto a respeito logo depois de sair do cinema, mas isso foi no Laboratório Secreto, não tenho como linkar). Hoje entendo o porque de toda aquela severidade no julgamento da película: comparada com a versão em quadrinhos, é realmente muito superficial, infantil e desrespeitosa com o público.
O que é uma pena. Alan Moore é particularmente competente e merecia ser transposto para as telonas de uma maneira que lhe fizesse justiça. Espero que acertem a mão caso Watchmen realmente venha a ser produzido.

O segundo foi Ex Machina, de Brian K. Vaughan e Tony Harris. Parece haver uma propensão muito forte no mercado de quadrinhos atual de levar boas doses de realismo às revistas, tanto no visual quanto no argumento, e Ex Machina é fruto disso. Com um tema político simples (um super-herói que acredita ser muito mais útil entrando para a política do que empreendendo uma luta solitária contra o crime), diálogos que poderiam muito bem ter sido retirados de um filme de David Lynch e uma arte que, sozinha, vale o preço da revista, fica fácil entender porque esse título ganhou o Prêmio Eisner, o oscar… melhor, o Globo de Ouro dos quadrinhos (já que a reputação da academia é tudo, menos ilibada).

E por último, mas não menos importante, comprei Authority, de Warren Ellis e Bryan Hitch. A arte eu me recuso a comentar. Quem nunca teve o prazer de conhecer o trabalho do Bryan Hitch não tem como entender porque, apesar de relativamente novato no mundo dos quadrinhos, esse sujeito já angariou tantos fãs pelo mundo todo. Na minha mui humilde opinião, o único artista à frente dele é o Alex Ross, e apenas porque este faz pinturas, não desenhos. Se comparado àqueles que utilizam a mesma técnica que ele, Hitch supera qualquer outro com folga.A arte, entretanto, fica em segundo plano se comparada ao roteiro. Nunca havia lido nada do Ellis antes dessa série, e já sou um ferrenho admirador da habilidade narrativa do sujeito. Seus heróis são dúbios, imperfeitos, violentos e irônicos. Seus diálogos são extremamente realistas e o roteiro, embora se baseie em premissas totalmente inverossímeis, deixa no ar aquela sensação de “se fosse de verdade, é assim que seria!”.
Incapaz de falar melhor, faço minhas as palavras de Grant Morrison, que escreveu um pequeno prefácio para a edição encadernada:
“Bem vindo ao primeiro volume das aventuras desta série que é um marco, seu sortudo…
Digam aos seus filhos invejosos: a tempestade começou aqui.”
Isso resume tudo.