Baixei as 86 primeiras edições de Ultimate Spider-man, mais a primeira anual, mais a primeira especial.
Pense num nerd feliz!
Senta que lá vem a história.
Baixei as 86 primeiras edições de Ultimate Spider-man, mais a primeira anual, mais a primeira especial.
Pense num nerd feliz!
Em 1998 a Abril lançou uma mini-série sensacional chamada Batman Preto e Branco. Quatro edições, cada uma contendo quatro histórias curtas do morcego desenhadas/ilustradas por grandes nomes dos quadrinhos, como Neil Gaiman, Joe Kubert, Matt Wagner, Chuck Dixon, Archie Goodwin, Richard Corben, Bruce Timm, Klaus Janson, Dennis O’Neil e Katsuhiro Otomo.
Dentre as 16 histórias brilhantes que tive o imenso prazer de conhecer, uma em particular merece menção. Chama-se “crimes triviais” e trata exatamente sobre isso: um cidadão de Gotham que se autodenomina “O Civil Virtuoso”, sai pela cidade - armado de uma pistola e uma forte noção de regras de conduta - assassinando pessoas que não seguem os princÃpios mais básicos da vida em sociedade, como um sujeito que não limpa a sujeira de seu cachorro da calçada ou dois moleques inconvenientes que insistem em conversar dentro do cinema.
Por mais que essa opção seja extremamente sedutora - deus (se é que ele existe) sabe como eu acordo querendo uma metralhadora só pra ter o prazer de passar fogo nos miseráveis que entram na minha quadra à s 3 da manhã cantando pneu - é claramente errada. A partir do momento em que aceitamos viver em sociedade, cercados por outros seres humanos, admitimos a possibilidade de alguns (muitos, na verdade) deles sofrerem da gravÃssima doença que é a total falta de bom-senso, e é necessário tolerar isso - claro que guardadas as devidas proporções.
Baseado nesse princÃpio do respeito mútuo para com as falhas alheias - e sabendo que falar é muito bonito, mas fazer é que são elas, e que determinados indivÃduos jamais colocariam isso em prática sem uma “leve” prensa da maioria - um dia alguém teve a idéia de criar um sistema de leis (o que é uma boa coisa, por um lado, mas acabou gerando os advogados, por outro, e isso definitivamente é uma desgraça das grandes), e acredito que uma das mais básicas sempre foi a máxima do “não matarás”. Não só é uma lei, prevista no código penal de - acredito eu, e corrijam-me se estiver errado - todos os paÃses do mundo, mas também um preceito moral - e cristão, diga-se de passagem - muito forte. Matar alguém é, moralmente falando, uma falha gravÃssima, principalmente de acordo com o cristianismo.
Todo o princÃpio das religiões cristãs é contra a mera contemplação da possibilidade de tirar a vida de alguém. E sendo o cristianismo a religião vigente nessa nossa sociedadezinha muquiça, nossa sociedadezinha muquiça deveria ser contra assassinato, certo? DeverÃamos todos nutrir sentimentos altruÃstas de amor ao próximo, de tolerância e respeito com as falhas alheias, de boa-vontade para com os necessitados e todas essas coisas muito bacanas que o tio hippie das extremidades furadas fazia tanta questão de passar adiante que até mandou os lac… ehr… apóstolos dele escreverem num livro, de modo que aquelas mensagens legais estivessem disponÃveis para a humanidade até o fim dos tempos.
Sabia o que tava fazendo, o Jotacê!
Nós não sabemos.
A maior prova disso poderia ser a absolvição dada ao coronel Ubiratan Guimarães pelo massacre dos 111 presos do Carandiru. Poderia, mas não é.
A maior prova disso é o coro de uma grande parcela da população que apóia tal decisão. Como assim “o cara não fez nada errado”? Como assim “bandido bom é bandido morto”? Por que é que eu, um maldito herege que acha o cristianismo uma piada de péssimo gosto e tem uma visão muito mais frÃvola sobre o valor da vida humana, acho isso um barbarismo sem tamanho e os pretensos cristãos, aqueles que dão a outra face e amam seu próximo, apóiam tal comportamento?
Talvez porque eu concorde com o bordão do Civil Virtuoso: o colapso da civilidade é o colapso da civilização. E por civilidade compreenda-se, dentre muitas outras coisas, tratar de forma humanitária até o mais depravado dentre os párias. E por civilidade compreenda-se também ser justo e dar à s vÃtimas, se não o direito à vida, pelo menos chance de defesa.
Invadir uma casa de detenção cheia de presidiários desarmados com um batalhão de operações especiais carregando armas de fogo pesado e com ordens para matar foi, além de desumano, covardia.
E se pra ser cristão é preciso compactuar com isso, acho que vou fundar uma seita satânica.
Comprei hoje na Siciliano. Ainda não li, mas um dos textos é do Mark Waid, então recomendo.
Esse foi um ano estranho para minha coleção de quadrinhos, embora na verdade tenha sido apenas a confirmação de uma tendência que principiou - muito sutilmente - ano passado, quando me dei de aniversário alguns quadrinhos de autores que desconhecia, como a quadrinização de Estrada Para Perdição, do Allan Collins e do Richard Rainer.
Até então minha relação com as comics era bem simples: todo mês comprava uma edição do Homem-Aranha (tanto do universo Marvel ‘normal’ quanto sua contraparte ‘ultimate’), uma do Demolidor e qualquer coisa especial que saÃsse e me interessasse. Mas a mesmice começou a me incomodar. Em especial porque, depois de ser agraciado com os roteiros de Brian Bendis e a arte de Bryan Hitch na série dos Supremos, eu era freqüentemente tomado por curiosidade relacionada a todas as grandes coisas sendo escritas/desenhadas por aà que eu estava perdendo.
Some-se a isso os conselhos do Lima, nas minhas visitas à Kingdon Comics, e fechamos o caso. Deixei de ser um leitor “convencional” de quadrinhos. Apenas as publicações das bancas normais não eram mais suficientes para suprir minha necessidade. Em linguagem de toxicômano, “precisava de algo mais forte pra satisfazer meu vÃcio” (com a vantagem de não sofrer crises de deliriuns tremens em caso de uma abstinência forçada).
Passei então a comprar tÃtulos aleatórios, baseando minhas escolhas apenas nas opiniões de amigos ou nem isso: levando em conta só o autor ou o desenhista. Até agora ainda não me arrependi, o que me deixa intrigado. Não sei se os quadrinhos que fogem do padrão Marvel/DC são realmente excepcionais ou se, por serem um universo novo pra mim, ainda observo a tudo atônito, com aquela estupefação maravilhada dos recém-iniciados.
De todo modo, os últimos três tÃtulos que adquiri fizeram valer cada centavo de seu (elevado) valor.

O primeiro foi As Aventuras da Liga Extraordinária, da dupla Alan Moore e Kevin O’Neil. Muito já foi dito a respeito desta série quando do lançamento do filme que, aliás, foi duramente criticado. Na época não entendi muito bem as razões da celeuma, já que me diverti assistindo à produção, por vários motivos que não vou enumerar aqui (escrevi um texto a respeito logo depois de sair do cinema, mas isso foi no Laboratório Secreto, não tenho como linkar). Hoje entendo o porque de toda aquela severidade no julgamento da pelÃcula: comparada com a versão em quadrinhos, é realmente muito superficial, infantil e desrespeitosa com o público.
O que é uma pena. Alan Moore é particularmente competente e merecia ser transposto para as telonas de uma maneira que lhe fizesse justiça. Espero que acertem a mão caso Watchmen realmente venha a ser produzido.

O segundo foi Ex Machina, de Brian K. Vaughan e Tony Harris. Parece haver uma propensão muito forte no mercado de quadrinhos atual de levar boas doses de realismo à s revistas, tanto no visual quanto no argumento, e Ex Machina é fruto disso. Com um tema polÃtico simples (um super-herói que acredita ser muito mais útil entrando para a polÃtica do que empreendendo uma luta solitária contra o crime), diálogos que poderiam muito bem ter sido retirados de um filme de David Lynch e uma arte que, sozinha, vale o preço da revista, fica fácil entender porque esse tÃtulo ganhou o Prêmio Eisner, o oscar… melhor, o Globo de Ouro dos quadrinhos (já que a reputação da academia é tudo, menos ilibada).

E por último, mas não menos importante, comprei Authority, de Warren Ellis e Bryan Hitch. A arte eu me recuso a comentar. Quem nunca teve o prazer de conhecer o trabalho do Bryan Hitch não tem como entender porque, apesar de relativamente novato no mundo dos quadrinhos, esse sujeito já angariou tantos fãs pelo mundo todo. Na minha mui humilde opinião, o único artista à frente dele é o Alex Ross, e apenas porque este faz pinturas, não desenhos. Se comparado à queles que utilizam a mesma técnica que ele, Hitch supera qualquer outro com folga.A arte, entretanto, fica em segundo plano se comparada ao roteiro. Nunca havia lido nada do Ellis antes dessa série, e já sou um ferrenho admirador da habilidade narrativa do sujeito. Seus heróis são dúbios, imperfeitos, violentos e irônicos. Seus diálogos são extremamente realistas e o roteiro, embora se baseie em premissas totalmente inverossÃmeis, deixa no ar aquela sensação de “se fosse de verdade, é assim que seria!”.
Incapaz de falar melhor, faço minhas as palavras de Grant Morrison, que escreveu um pequeno prefácio para a edição encadernada:
“Bem vindo ao primeiro volume das aventuras desta série que é um marco, seu sortudo…
Digam aos seus filhos invejosos: a tempestade começou aqui.”
Isso resume tudo.
Nessa época nasceu Utopia, o Dilucular, de layout tosco, posts ferozes, ofensas à mão, um blog, uma grande porcaria, uma página de debates incendiados, com gigantescas crises de melancolia e grande senso de humor, que veio para incomodar com mensagens raivosas os fracos de opinião.
Você vê os arquivos apenas da fase pós-exÃlio, por isso pode pensar que esse blog é recente, breve, com pouco mais de ano e meio de vida. Não é. Isso aqui já tem quase quatro anos, se contarmos os perÃodos de silêncio. E olhando os arquivos REAIS da página, do começo até hoje, fica difÃcil acreditar em quanto tempo eu passei escrevendo.
Se tivesse me dedicado a criar galinhas, atualmente teria uma granja das grandes! Veja só que desperdÃcio de potencial.