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Das questões seculares

Não tem problema você ter fé. Você tem seus amigos imaginários, conversa com eles, que te confortam em momentos difíceis, isso é lindo, parabéns. Eu também tenho vozes na minha cabeça, mas acho que é um princípio de esquizofrenia. Atribuo essas coisas que ouço a um desequilíbrio químico ou psicológico qualquer. É mais caro comprar remédios do que ir à igreja, mas ao menos não corro o risco de alguém me currar. A emoção é parte da vida, de todo modo, não estou aqui para enfiar goela abaixo meus imperativos categóricos. Ou talvez esteja, vejamos.

De todo modo, isso não vem ao caso, porque a questão aqui não é fé, a questão é religião. Religião é um desvio moral da fé, como o ciúme é um desvio moral do amor. É uma manifestação pequena – não me refiro a tamanho, o termo aqui vem como sinônimo de mesquinhez, mas num sentido mais amplo – relacionada a uma coisa grandiosa. É algo que converte todo o poder de uma solução em um grande e insolucionável problema. Trazendo isso pra um campo teológico, de modo que os senhores entendam bem, se a fé vem de deus, a religião é, por definição, uma coisa do diabo.

Vai daí o fato de que todo representante religioso – pastor, rabino, padre/freira e variáveis, reverendo, pai-de-santo, médium, não interessa o nome, qualquer um que tenha na religião seu meio de vida exclusivo – é apenas e tão-somente um vagabundo. É um inútil, um sanguessuga, um biltre. É um entrevero ao progresso. É quase um mendigo, mas sem querer ofender o mendigo, que ao menos é sincero em sua baixeza. E não é danoso, porque, ao contrário desses seres nojentos que infestam os templos, igrejas, sinagogas, mesquitas, centros espíritas, terreiros de candomblé/umbanda, etc, as pessoas não se reúnem de boa fé e bom grado para ouvir o mendigo, acreditando que suas palavras vêm de um “poder maior”. O único “poder maior” que guia um mendigo é o da miséria humana, dos vícios, dos maus hábitos, da desgraça inexorável, e disso ninguém quer ouvir falar, a essas coisas fechamos os ouvidos e principalmente os olhos.

Mas não ao “representante de/dos deus/deuses”. Ele é um ser humano que vive na nossa sociedade e não só não contribui com absolutamente nada como ainda gera um processo de retrocesso mental absurdo. E a eles damos todo o crédito e prestamos as maiores honrarias.

E são, todos, acima de tudo, charlatões. TODOS. Porque se o Papa acreditasse mesmo nessa merda de “seja feita a vossa vontade” não andaria num carro à prova de balas.

Dos embates sociais – parte 1

Se você já leu Armas, Germes e Aço, ou se tem ao menos um vago conhecimento das teorias sobre o desenvolvimento da espécie humana, deve saber que nós, os bípedes implumes, antes de resolver que queríamos fixar residência, montar choupanas, abrir crediários e nos preocupar com coisas como “que horas passa o caminhão de lixo?” ou a altura do som do vizinho, éramos caçadores-coletores. Ainda não tínhamos descoberto que as vacas são domesticáveis e as cenouras também, portanto caminhávamos a esmo procurando plantas e animais que fossem suficientemente estúpidos – tanto as plantas quanto os animais – a ponto de anunciar que estavam disponíveis para o almoço (o exemplo de uma planta inteligente, que nunca se anunciou como um petisco fácil – e sou definitivamente incapaz de conceber em que nível de desespero se encontrava o primeiro antepassado do homem moderno que resolveu comê-la – é o abacaxi).

Quando conseguimos colocar as vacas em cercadinhos e descobrimos que era possível desenvolver plantas a partir da seleção de mudas das árvores e sementes dos frutos mais bem desenvolvidos, paramos com as andanças, na medida do possível, e partimos para uma nova etapa da existência humana, a pedra fundamental da civilização: o acúmulo de bens. Ter abacates suficientes para distribuir para os vizinhos, conforme acontece com meu pai e seu abacateiro mutante, por exemplo, deu a esses mesmos vizinhos (não os do meu pai, claro, os vizinhos do primeiro antepassado humano a distribuir abacates, carne, ou qualquer outro tipo de comida que ele tivesse de sobra, sem precisar caminhar trocentas verstas por dia para acumulá-la) certa sensação de segurança, e eles começaram a pensar que, oras, se o vizinho tinha vacas, abacates, faisões ou cacauetes em quantidade tal que fosse possível sobreviver apenas com aquilo, sem a necessidade de caçar, por que não nos ocupamos de outras funções, tais como o desenvolvimento da engenharia, a abertura do primeiro puteiro ou a invenção das maiores cagadas que a humanidade já cometeu: a burocracia e a religião?

Foi em algum momento após isso que talvez alguns dentre esses vizinhos que não produziam nada de crucial, ou dos senhores dos meios de produção de alimentos (os donos dos rebanhos, ou os donos das plantações, que descobriram que era possível colocar outras pessoas para gerenciar essas coisas para eles, em troca de uma parcela menor dos resultados produzidos), munidos de muito tempo livre e pensando um monte de asneiras, resolveram que estava na hora de determinar como, quando, onde e por que diabos as pessoas poderiam fornicar. E aí começamos a nos preocupar com os orifícios alheios, já que encher nossos estômagos já não era mais tão difícil ao ponto desta idéia ocupar todo o nosso tempo. De lá para cá, temos aí os que permanecem difundindo o conceito de que o sexo deve ser praticado desta forma, e não daquela, entre pessoas deste tipo, nunca de outro, com um número X de participantes – mais ou menos do que isso, jamais.

É importante frisar que muitas dessas pessoas fazem isso de forma impensada, sem jamais refletir sobre em que momento da história da humanidade e por que tipo de interesse particular a propagação desse tipo de idéia passou a ser importante. Isso não significa, sob nenhum aspecto, que devemos ignorar o fato de que tentar definir protocolos sobre como, quando, em que circunstâncias, com quem e por que deve ser feita a fricção genital alheia é uma atitude invasiva e inaceitável. É apenas um lembrete que, com essas pessoas, precisamos falar devagar. Explicar pausadamente. Evitar o uso de polissílabos. Porque essas pessoas são claramente incapazes de pensar por si mesmas. Têm a cabeça muito, muito limitadinha. E as razões pelas quais acreditam nesse tipo de baboseira hipócrita, que lhes foi enfiada garganta abaixo durante toda a vida – e que elas NUNCA obedeceram inteiramente, é válido mencionar -, nem elas sabem quais são. Elas conhecem todas as falácias utilizadas para mascarar a verdadeira intenção de quem pretendeu padronizar os hábitos particulares alheios, claro: “deus não gosta”, “isso é errado”, “pessoas decentes não fazem isso”, “isto é uma falta de decoro”, “minha filha, o que é isso?”, etc.

Pergunte a elas “Por quê?” 3 vezes, uma das melhores técnicas argumentativas já utilizadas (agradeçamos às crianças por essa contribuição genial), e veja o cérebro desses pobres infelizes dar um nó. Observe a resistência que empreendem para impedir que suas idéias sejam retiradas dos caixotes onde eles fazem questão de mantê-las. Você está tentando reprogramar a base de critérios, princípios e conceitos de um ser humano. E não vai conseguir, na esmagadora maioria das vezes. Mas, quando conseguir… bom, podemos ter aí outro problema.

Imagine o cérebro de alguém como um elástico. Estique-o até o limite de sua capacidade. Esta é a mente da pessoa que você está tentando convencer a parar de criticar uma moça por ter copulado com um certo número de outras pessoas, ou a desistir de dizer em voz alta e/ou em público que “discorda” da homossexualidade. A tensão sobre o elástico são suas palavras subitamente forçando a luz em um ambiente onde, até então, havia apenas, como no princípio de tudo, o verbo, simples e puro, com o espírito de deus (na verdade com a voz da religião, esta maravilhosa ferramenta de estagnação do pensamento humano) pairando sobre as águas. Suponhamos que seus argumentos, então, evoquem um repentino “Fiat lux” sobre o abismo que é o ideário da criatura em questão. Simbolize este acontecimento cortando o elástico com uma tesoura. Viu como ele voa longe? Então.

Ao ser arrancada de seu estado de dormência, a mentalidade de uma criatura dessas pode subitamente entrar em um surto de movimento que irá conduzi-la para o extremo oposto de onde antes se encontrava. E, como deveria ser do conhecimento geral, extremos não são bons. Não é agradável que alguém caminhe a passos largos e de peito aberto para o neonazismo, tampouco para o panfletarismo, seja em relação aos homossexuais, ao feminismo, à liberdade sexual… Não, não estou preparando três ou quatro longos parágrafos para arremeter à furada argumentação de que “Eu respeito o direito das classes menos favorecidas, desde que elas calem a boca“. A manifestação das classes menos favorecidas, o incômodo que isso causa, é uma necessidade para o equilíbrio gradativo dos pesos e contrapesos da sociedade. É lógico que os bispos da CCBB e as velhinhas da TFP não irão, nunca, reconsiderar suas idéias a respeito de dois homens que se amam e têm sua união civil reconhecida pelo estado apenas porque quinze mil, trinta mil, duzentos mil gays, que seja, fizeram uma passeata na avenida paulista. Tudo o que a atitude dos gays causa nessas pessoas é revolta, e é exatamente o que elas merecem sentir. Empurrar goela abaixo dos reacionários, através de uma passeata com mais de cem mil participantes, que existem aqueles que não agem conforme sua cartilha, não deixa de ser uma forma pacífica de revolução. E, palavras de Grantaire, meu amigo: “de tempos em tempos, o excepcional se faz necessário (…) entre os homens, é preciso haver gênios, e entre os acontecimentos, revoluções“. O problema é o rumo que essas revoluções tomam, como elas se manifestam e como, antes de finalmente encontrarem seu lugar dentro da ideologia social vigente, tornando-se algo que “todo mundo sabe que”, em vez de ser algo que “tem gente que acha que”, serão expostas e impulsionadas por seus integrantes.

Chegamos, então, à minha preocupação atual com o feminismo, conforme se apresenta hoje em dia.

(continua em outro post, senão fica muito grande e prefiro não abusar {tanto} da paciência de vocês)

Um prólogo de prólogos

Apresentação: eu sou o novo colunista desta honrosa birosca. Meu contrato – não que seja do interesse de ninguém – prevê 20 toalhas brancas novas, sete concubinas de etnias diversas, uma caixa de canudinhos, um roadie que saiba afinar corretamente minha cítara, uma remuneração polpuda todo dia 05 e carta branca para atormentar a sociedade.

Embora saiba que para começar bem seria necessário enfocar um tema de relevo na agenda política – qualquer coisa envolvendo cachorros e aplicativos de adolescentes ricos -, tomarei algo de menor quilate.

Manual de sobrevivência, lição 1: ABORTO.

Primeiro, esqueça esse engodo pseudo-teológico que a galera finge discutir só pra animar os almoços de família. Essa discussão foi encerrada há décadas, quando a sociedade acertadamente legitimou a doação de órgãos de sujeitos com morte cerebral diagnosticada. Isso significa que, em última análise, vida é mais do que um corpo. Ponto. Ressaltar os direitos do embrião é manobra diversionista.

Segundo, descarte também o discursinho moralista sobre as supostas irresponsabilidades dos sujeitos na hora do sexo e da penalização do bebê-por-vir. Aborto não é um remédio milagroso e inócuo. É algo complicado e doloroso por si próprio; agregar a isso o dedo acusador me parece um pequeno exercício de sadismo travestido, nada mais.

Terceiro, aí vão uns dados:

a) existem clínicas de aborto em toda metrópole.

b) elas cobram caro.

Então, cara, a coisa funciona mais ou menos assim: se a filha adolescente de classe média engravida sem querer, papai raspa a poupança e a história vai para o armário de segredos da família, junto com o alcoolismo do mano e o pequeno affair da mamãe com o pastor. Mas com a garota da favela é diferente: na impossibilidade de arcar com os altos custos do procedimento, ela receberá uma lição superficial sobre métodos contraceptivos e uma boca a mais para alimentar. Ou o final alternativo: não tem aborto pelo SUS, mas uma tia conhece um chá infalível.

A essa altura, jovem gafanhoto, você deve ter vislumbrado o tamanho da encrenca. Presumo que também percebeu que o debate sobre a legalidade do aborto não tem porra nenhuma a ver com ideologia, crença religiosa, evidência biológica, posição ético-existencial, nada disso. É um problema de saúde pública – oferecer ou não à população um serviço ao qual os ricos sempre tiveram acesso – e apenas nessa dimensão a discussão tem sentido. O resto é moralismo de cueca e fiscalização de pica.

Até.

Das coisas que se ensaia dizer…

…mas não se diz.

Fico sem saber o que é pior: ter sobre o que escrever, sem ter ânimo, ou sentir uma arrebatadora vontade de escrever sem ter assunto para tanto. Considero que, neste momento, estou exatamente na união destes dois casos: não tenho sobre o que escrever e não tenho ânimo. Escrevo assim mesmo, entretanto, porque, como já disse aqui antes (disse? Não tenho certeza, mas devo ter dito, digo sempre as mesmas coisas, e geralmente do mesmo jeito, sou terrivelmente repetitivo e até, vou além, bastante pleonástico. Mas não quero falar disso, este parêntese está ficando gigantesco, vou fechá-lo agora e acabar com esta putaria, repare) enfim, como dizia que disse aqui antes, digo: eu me odeio e gosto de me contrariar.

Acho que tem bem uns cinco dois pontos no parágrafo acima, mas quem está contando?

Mudei-me, e desta vez foi de com força: saí de Brasília. Vivo agora no Rio de Janeiro, uma cidade habitada por um povo que, fosse comprado por quanto vale e vendido pelo valor que pensa ter, renderia lucro inenarrável. Gostaria de afirmar, sem quaisquer dúvidas, que são as pessoas mais ufanisticamente bairristas da nação, mas, oras, não vamos desprezar o ufanismo e o bairrismo dos gaúchos, pernambucanos, mineiros e paulistas, dos paranaenses, brasilienses, goianos e baianos, dentre outros. Ofender-se-iam, certamente, ao não serem devidamente ofendidos com a ofensa que lhes cabe com justiça.

Enfiei uma mesóclise e uma frase sem sentido (acredito que a primeira de muitas) neste texto. Onde é que vamos parar?

Senti falta de digitar neste notebook. Na verdade, senti falta de digitar em outra coisa que não fosse um netbook. Netbooks são muito práticos e muito bonitinhos, mas uma hora você se cansa das teclas todas juntinhas e de configurações 1024×768 em telas que não vão além de uma dezena de polegadas. De todo modo, apesar de seu teclado farto e de suas dezena e meia de polegares, não consigo confiar nesta máquina em que escrevo, porque técnicos de informática são as criaturas menos confiáveis do mundo (afirmo isso fazendo parte da categoria, de modo que tenho perfeito conhecimento de causa e, como de costume, não estou errado) e, assim sendo, informei o miserável do que ocorria e avisei que a mera formatação não era solução. O pústula formatou e considerou o serviço feito. Logo, tenho sobre meu colo um computador prestes a sofrer novo ataque de apoplexia.

Lancei mão de “apoplexia” num texto, ainda que de forma meio prosopopéica: dou-me +20 pontos.

Curioso o que o twitter faz com a cabeça das pessoas. Se bem que são tantos os distúrbios, tamanhas as afetações, tão violentas as mudanças – embora perfeitamente previsíveis, e apenas reflexos de fatos anteriores, já confirmados por outras ferramentas de “mídias sociais” – que é melhor ser mais específico, então especificarei: freqüentemente escrevo algo por lá, naqueles míseros 140 caracteres, e considero que a idéia é mais densa e pode ser mais bem explorada do que aquilo, que é possível ramificar, explicar melhor, argumentar de forma mais embasada. Que aquele arroto redativo, restrito àquele número ridículo de toques, pode vir para cá e ser estendido em um local de letras, acentos, pontuação e espaços infinitos.

Mas aí já falei por lá, então deixo morrer como está.

Todo esse não-desenvolvimento dos meus textos, sejam eles os que “rascunho” na página do passarinho ou os que mantenho fermentando dentro da minha cabeça, deve-se a uma coisa, e a uma coisa apenas: procrastinação. Diversas vezes afirmo ser por preguiça ou falta de tempo, mas esses são apenas os motivadores do defeito, tão grave. Ou as desculpas que uso a fim de mascará-lo, talvez. Enfim, sou tão procrastinador que comecei o texto pensando em falar disso, seria o primeiro assunto, mas fui deixando para depois e só mencionei agora. E tenho mais coisas a dizer a respeito…

…mas ficarão para outra hora.

Porque agora, pensando aqui com meus botões – na verdade pensando sozinho, porque não tem botão algum nas roupas que estou vestindo durante esta narrativa sem nexo, coerência, embasamento ou razão aparente -, me ocorreu que a total ignorância (voluntária ou inerente) de ateus e cristãos (e talvez muçulmanos, judeus, espíritas, macumbeiros, maometanos, xintoístas, cientologistas, hindus e macfags) em relação aos agnósticos, que os faz argumentar contra estes de forma sempre muito pouco inteligente e nada fundamentada, renderia um post bem interessante, que talvez até rendesse uns comentários inteligentes, que poderiam vir a gerar uma discussão interessante, que em algum momento descambaria para a troca gratuita de ofensas e então me motivaria a fazer outro texto, dessa vez bem raivoso.

E é nos textos raivosos que me saio melhor.

Estive considerando o porquê disso, recentemente. Disso, no caso, é a razão dos meus textos raivosos fazerem mais “sucesso”, se é que o termo se aplica, do que os que escrevo tranqüilo. Acho que é porque raiva é o sentimento que mais tenho facilidade para acessar, de todos. Me lembrar de momentos felizes não me deixa feliz (freqüentemente me torna melancólico, inclusive), trazer à tona lembranças tristes não necessariamente me deixaria triste, mas rememorar coisas que me aborreceram certamente vai tornar a me irritar. E irritado eu faço o que qualquer escritor minimamente competente sabe fazer de cabeça fria: não penso antes de escrever e, ao fim do texto, não dou a mínima se ele fez algum sentido. Apenas boto aquela porcaria pra fora e enfio na cara dos outros.

Duplo sentido: trabalhamos.

Agora, por que diabos VOCÊS gostam disso, o que os motiva a encher um texto como esse aí embaixo, sobre minha irritação com o Itaú, de likes no Google Reader, de RTs no Twitter, de sei lá mais que diabos vocês usam pra favoritar essas merdas… ah, isso me escapa completamente. Pelo que vejo, existem algumas várias razões para isso. Uma delas é que, de alguma maneira, há quem sinta prazer em me ver nervoso. O que é uma atitude bem escrota e cretina, se você parar pra pensar, porque é como se torcessem para que eu tivesse uma úlcera. Outra, ainda – e essa eu considero menos provável – é que vocês apenas lêem um desses rompantes de fúria e ficam felizes por alguém ter tido tamanha falta de bom-senso, amor-próprio e sentimento de auto-preservação a ponto de dizer todos os disparates, os absurdos e as estultices que os senhores já pensaram, mas foram muito bem-educados e pouco corajosos o suficiente para ignorar.

No fim das contas, não tenho opinião formada sobre isso.

E o texto não terminou ainda, mas acho que termina agora com um anúncio que não vos interessa, mas interessa a mim, e talvez, sei lá, interesse a vocês também (este sou eu me contradizendo numa mesma sentença. Não é para os fracos!): farei uns cursos de esgrima escrita. Eu sei, eu sei, é inútil e jogarei dinheiro fora. É um fato que quem não tem o jeito para a coisa, não importa o empenho ou o esforço, nunca vai chegar perto de quem, por qualquer tipo conjunção cósmica desconhecida, tem este ou aquele traquejo nato. Mas, oras, às vezes dá algum resultado. O que me interessa não é superar gente do naipe do Antônio Prata, por exemplo (o pai dele, nem menciono), apenas sair da minha linha de mediocridade já me deixaria satisfeito. Além do mais, sou um maníaco por controle, gosto de métodos. A idéia de que escrever pode se tornar um processo metódico (e, assim, mais organizado e mais “fácil”) me interessa.

Sei que prometo isso há oito anos, mas vai que dessa vez, finalmente, consigo escrever algo que preste? De todo modo, não apostem muitas fichas. Eu não apostaria.

De cinema, futuros alterados, respeito tecnológico e outras viagens…

Em 1990, eu era um guri de 9 anos, sobrinho de uma moça que trabalhava na cabine de projeção de um cinema. Na época – que nem vai tão longe assim, convenhamos, são “só” 20 anos -, existiam cinemas na rua: salas que não ficavam dentro de shoppings, mas “soltas” no meio da cidade, entre outros comércios. As pessoas saíam pra ir ao cinema, não pra ir ao shopping ver um filme. Não que fosse melhor ou pior, só era uma experiência diferente, que não se tem mais (ao menos em Brasília), porque igrejas evangélicas – a Universal, em particular -, como se arrancassem jerusalém das mãos dos sarracenos, empreenderam uma cruzada pra comprar todas essas salas e transformá-las em centros de gritaria.

(O que esses crentes não entendem é que não adianta berrar, chorar, arrancar os cabelos, dar chilique e fazer escândalo: se deus existe, é suficientemente sábio para nos ignorar e parece levar tal política bem a sério. Não posso culpá-lo. Eu também não ia querer conversa com a galera que trucidou meu filho.)

Dentre as várias vantagens de ter uma tia que trabalhava num cinema, a maior delas era que eu podia ver o filme quantas vezes quisesse. Se você acha que seu filho, sobrinho, irmão ou primo pode passar dias diante de um DVD, imagine se esse pivete tivesse à disposição uma sala de cinema inteira, com pipoca, doces e o diabo a quatro na bomboniere; com o som do projetor; com as poltronas confortáveis; com a tela que é maior do que o mundo; com o som que te faz mergulhar no filme; com tudo, tudo mesmo, até lanterninha, essa raça em extinção. Eu tinha. E, se deixassem, moraria lá dentro.

Aliás, a censura não era levada a sério na época. Não existia isso de vetarem a entrada de crianças por causa de uma besteira como “classificação indicativa”. Se ocorria, de algum modo sempre passei incólume pela regra, desde antes de ser sobrinho da moça da sala de projeção. Sendo o tal sobrinho, nem preciso mencionar.

Então, numa certa tarde de 1990, depois do colégio, minha mãe precisou comparecer a algum compromisso e me deixou com a tia Yone, que me recebeu na porta do cinema e me levou até a sala, já escura, recomendando que me comportasse. Quando relaxei no encosto da cadeira e olhei para a telona, a cena que se desenrolava prendeu minha atenção de imediato. O que começou com uma velha atravessando a rua tornou-se um assalto, seguido por um assalto ao assaltante, passando, daí, para a cena de um bando de sujeitos roubando uma loja de armas e metralhando impiedosamente um carro da polícia que se aproximou para impedir.

Era Robocop 2.

Devo ter assistido o filme de ponta a ponta umas três vezes. E diversas vezes mais nos dias seguintes. E, vendo Robocop 2 hoje, é curioso como tudo aquilo fazia sentido na época, mas fica fora de contexto atualmente. Todo o clima cyberpunk, com a cidade dividida entre os criminosos – querendo ver o oco -, a grande corporação – topando ver o oco, desde que possa lucrar com isso – e a população no meio, tendo que conviver com as putas, os motoqueiros, os bêbados, mendigos e baderneiros, procurando ajuda do governo, que se omite porque é corrupto, decadente e vendido a preço baixo para os executivos da OCP. Havia toda uma sinceridade nos filmes futuristas da década de oitenta que não existe mais hoje.

Entendam o que chamo de sinceridade como essa projeção pessimista do futuro, com a criminalidade atingindo níveis impensáveis e tornando um inferno a vida do cidadão comum, enquanto alguns poucos, abençoados com as graças da corporação, levam uma vida de luxo e tranqüilidade. Não se vê mais essa abordagem. O conceito futurista que temos, hoje, é das pessoas se tornando mais e mais inúteis em um mundo controlado por máquinas, e só.

“Matrix”, “Eu, Robô”, “Surrogates”… todos esses filmes retratam a mesma idéia, cada um a seu modo: as pessoas serão dominadas no futuro de maneira a não pensar por si mesmas, apenas reproduzir o que lhes é imposto, seguir sem questionar. Essa ameaça à liberdade individual é tão subjetiva que não há um levante criminoso, ou seja, não existe “o submundo”. Há – e sempre deve haver, ou não teríamos filme – algum(s) membro(s) da sociedade que se opõe(m) à ordem estabelecida. Mas é ridicularizado, via de regra, ainda que tenha (e sempre tem) razão. Assim, a divisão social torna-se clara, perde-se a área cinzenta. De um lado as pessoas normais, em seu comportamento de rebanho. De outro, excluído, uma pessoa ou grupo de pessoas. Some aquele grupo meio marginal, meio mainstream, aquele povo levando a vida no limite entre as contravenções e a ordem, sendo tolerado pela polícia apenas porque a situação é tão caótica que não vale a pena perder tempo com eles.

É curioso pensar que não é o estágio tecnológico que conduz as previsões desse tipo, mas o momento social e político. Por isso é difícil apontar outra possibilidade de futuro sem ser considerado pessimista ou utópico, da mesma maneira que, acredito, era complicado para os teóricos dos anos 80 desenvolver uma possibilidade que não envolvesse altos índices de criminalidade, ou para alguém da década de 50 pensar no futuro sem imaginar desastres atômicos e mutações causadas pela radiação decorrente.

Ainda assim, a tecnologia tem sua parcela de “culpa” nessas idéias. Se não estivéssemos tão sujeitos às máquinas como estamos agora, seria mais fácil conceber uma realidade na qual travássemos uma guerra furiosa com elas – como em Exterminador do Futuro – do que uma na qual elas nos dominam sem dificuldade, como em Matrix. O fato é que cientistas já identificaram positivamente que, à medida em que nos acostumamos às novas tecnologias, nossas capacidades vão diminuindo. Uma pessoa que tem todos os telefones que precisa anotados em seu aparelho celular tem menor capacidade de memorização do que alguém que não dispunha de tal recurso, há 20 ou 30 anos atrás. À medida em que as novas gerações têm maior facilidade para operar e entender novos equipamentos, terão maior dificuldade para operar e entender maquinário obsoleto.

O que quero dizer é que aquele teu primo molecote pode ser capaz de compreender e utilizar o telefone celular mais avançado da atualidade com uma mão nas costas, mas bota esse pequeno pústula pra operar o tracking de um vídeo-cassete e vamos ver se ele se sai tão bem.

Mexer em um sistema operacional com interface gráfica é mole. Quantas linhas esse inseto consegue avançar em um MS-DOS, se precisar operar um prompt de comando?

Até meu pai consegue jogar Wii. Pede pro seu irmão de 12 anos descobrir qual é o objetivo no ET ou Superman do Atari.

(note que essa previsão de um futuro limpinho e organizado funciona se considerarmos que os roteiros dos filmes são escritos e pensados em países limpinhos e organizados, ok? um roteiro futurista que se passasse no Brasil, por exemplo, escrito por um brasileiro, seria completamente cyberpunk oitentista, dada a situação que vivemos por aqui)

Advogando pelo diabo

Podia até existir alguma tolerância, da parte do altíssimo, em relação à humanidade. Até podia, ok? Não acho que esse seja um argumento que eu possa refutar desde sua criação, em sabe-se lá quando antes do JC nascer, crescer, virar hippie, surfar sem prancha e empacotar. Acredito que, até um certo ponto da nossa evolução, se deus existe, e se ele presta alguma atenção ao que fazemos – duas afirmações questionáveis, cada uma a seu modo, e por razões diferentes, mas aceitemos a hipótese de serem reais -, ele podia ter um certo carinho pelos homens.

“Sabe, são uns filhos da puta do caralho, traiçoeiros como poucas criaturas, mas olhe só que bonitinhos eles são, navegando nos fiordes.”
Deus, uma mulherzinha jogando SimCity.

O problema é que nós, seres humanos – e você, aí, que despreza a humanidade, TAMBÉM está incluído -, não sabemos quando parar. Criar a igreja e associar o pobre criador àquela atrocidade não foi o suficiente. Inventamos o café descafeinado, o leite sem lactose. Ofendemos o todo-poderoso uma vez atrás da outra. E ignoramos o alerta, quando Krakatoa foi pro vinagre. O sujeito explodir uma ilha inteira, como retaliação por qualquer merda, não nos desmotivou. Claro que não.

Insistindo em nosso comportamento suicida, em afrontar Javé, tínhamos que fazer o impensável, tínhamos que criar o Ades de Manga com Laranja.

A Face da Besta

Ok, aí está você, meneando a cabeça e resmungando “Você está exagerando, Pedrones” (pra não mencionar todas as ofensas à minha mãe, alusões pouco educadas ao meu brioco e idéias semelhantes). Mas na verdade não estou. Pensa aqui comigo: cê sabe QUANTAS frutas existem? TROCENTAS! Você tem idéia da dificuldade que deve ter sido criar cada uma delas? Você acha que teria sido capaz de pensar na jaca? Na sirigüela? No kiwi? Na fruta do conde? No caqui? Pensa na trabalheira do caralho que foi o processo de criação.

Aí uma criatura um dia acorda e diz “Foda-se isso tudo”. E, cagando pro trabalho de deus, pega a soja – SOJA!-, mói e faz um caldo. Joga ali algum produto químico escroto pra simular um gosto que não seja o gosto da soja – que, se fosse boa MESMO, não era comida de VACA – e chama de suco.

(O demônio, que nesse momento ocupava-se de alguma maldade menor, como a fome na África ou a guerra no Oriente Médio, sentiu um abalo na força, ouviu o berro da indignação divina estraçalhando as vidraças nos limites do universo, observou atentamente a última criação da humanidade e pensou “Caralho, como eu sou n00b!”. Entre lágrimas, escreveu sua carta de demissão, botou o tridente numa sacola e o rabo entre as pernas e mudou-se pra uma comunidade de hippies isolados em algum lugar na califórnia, onde espera pelo juízo final. True story!)

O Ades, por si só, é, como a cirurgia de redução de peitos, um desavergonhado tapa na cara de deus. E uma entidade que tem “O Senhor dos Exércitos” entre suas alcunhas claramente não é grande fã do perdão.

Essa nojeira feita de soja foi a pá de cal nas relações entre nós, pobres seres derivados de carbono, e o gerente desta birosca. Pense aí em todas as misérias que poderiam ter sido evitadas, fôssemos menos cretinos e, para fazer SUCO, espremêssemos FRUTAS em vez de moer grãos, seguindo o plano divino.

Rebolation, terremoto no Haiti, morte da Dercy Gonçalves… deus está pegando mais e mais pesado a cada dia que passa. Como o Joselito Original que é, YHWH não sabe brincar. E agora que provocamos o cara, quem terá piedade de nossas almas? Estamos fodidos.

Espero que, ao beber essa coisa asquerosa da próxima vez, você consiga pensar “Esta merda vale o sacrifício deste plano de realidade!”.