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O Civil Virtuoso

Em 1998 a Abril lançou uma mini-série sensacional chamada Batman Preto e Branco. Quatro edições, cada uma contendo quatro histórias curtas do morcego desenhadas/ilustradas por grandes nomes dos quadrinhos, como Neil Gaiman, Joe Kubert, Matt Wagner, Chuck Dixon, Archie Goodwin, Richard Corben, Bruce Timm, Klaus Janson, Dennis O’Neil e Katsuhiro Otomo.

Dentre as 16 histórias brilhantes que tive o imenso prazer de conhecer, uma em particular merece menção. Chama-se “crimes triviais” e trata exatamente sobre isso: um cidadão de Gotham que se autodenomina “O Civil Virtuoso”, sai pela cidade - armado de uma pistola e uma forte noção de regras de conduta - assassinando pessoas que não seguem os princípios mais básicos da vida em sociedade, como um sujeito que não limpa a sujeira de seu cachorro da calçada ou dois moleques inconvenientes que insistem em conversar dentro do cinema.

Por mais que essa opção seja extremamente sedutora - deus (se é que ele existe) sabe como eu acordo querendo uma metralhadora só pra ter o prazer de passar fogo nos miseráveis que entram na minha quadra às 3 da manhã cantando pneu - é claramente errada. A partir do momento em que aceitamos viver em sociedade, cercados por outros seres humanos, admitimos a possibilidade de alguns (muitos, na verdade) deles sofrerem da gravíssima doença que é a total falta de bom-senso, e é necessário tolerar isso - claro que guardadas as devidas proporções.

Baseado nesse princípio do respeito mútuo para com as falhas alheias - e sabendo que falar é muito bonito, mas fazer é que são elas, e que determinados indivíduos jamais colocariam isso em prática sem uma “leve” prensa da maioria - um dia alguém teve a idéia de criar um sistema de leis (o que é uma boa coisa, por um lado, mas acabou gerando os advogados, por outro, e isso definitivamente é uma desgraça das grandes), e acredito que uma das mais básicas sempre foi a máxima do “não matarás”. Não só é uma lei, prevista no código penal de - acredito eu, e corrijam-me se estiver errado - todos os países do mundo, mas também um preceito moral - e cristão, diga-se de passagem - muito forte. Matar alguém é, moralmente falando, uma falha gravíssima, principalmente de acordo com o cristianismo.

Todo o princípio das religiões cristãs é contra a mera contemplação da possibilidade de tirar a vida de alguém. E sendo o cristianismo a religião vigente nessa nossa sociedadezinha muquiça, nossa sociedadezinha muquiça deveria ser contra assassinato, certo? Deveríamos todos nutrir sentimentos altruístas de amor ao próximo, de tolerância e respeito com as falhas alheias, de boa-vontade para com os necessitados e todas essas coisas muito bacanas que o tio hippie das extremidades furadas fazia tanta questão de passar adiante que até mandou os lac… ehr… apóstolos dele escreverem num livro, de modo que aquelas mensagens legais estivessem disponíveis para a humanidade até o fim dos tempos.

Sabia o que tava fazendo, o Jotacê!

Nós não sabemos.

A maior prova disso poderia ser a absolvição dada ao coronel Ubiratan Guimarães pelo massacre dos 111 presos do Carandiru. Poderia, mas não é.

A maior prova disso é o coro de uma grande parcela da população que apóia tal decisão. Como assim “o cara não fez nada errado”? Como assim “bandido bom é bandido morto”? Por que é que eu, um maldito herege que acha o cristianismo uma piada de péssimo gosto e tem uma visão muito mais frívola sobre o valor da vida humana, acho isso um barbarismo sem tamanho e os pretensos cristãos, aqueles que dão a outra face e amam seu próximo, apóiam tal comportamento?

Talvez porque eu concorde com o bordão do Civil Virtuoso: o colapso da civilidade é o colapso da civilização. E por civilidade compreenda-se, dentre muitas outras coisas, tratar de forma humanitária até o mais depravado dentre os párias. E por civilidade compreenda-se também ser justo e dar às vítimas, se não o direito à vida, pelo menos chance de defesa.

Invadir uma casa de detenção cheia de presidiários desarmados com um batalhão de operações especiais carregando armas de fogo pesado e com ordens para matar foi, além de desumano, covardia.

E se pra ser cristão é preciso compactuar com isso, acho que vou fundar uma seita satânica.

Notas

1. Há quase 2 anos, fiz um post enorme no qual, dentre diversos outros assuntos, analisava a possibilidade da criação de um blog só sobre videogames. Algumas pessoas se ofereceram pra dar uma mão com a bagaça, mas o lance nunca saiu do papel.

Bom, agora vai sair. Já criei o blog (escolhi endereço, nome), já comecei a dar umas modificadas no layout (nada drástico, só quero adeqüa-lo melhor a sua finalidade) e, mais importante, já comecei a redigir um detonado. Que tá ficando enorme, porque eu sou incapaz de escrever algo pequeno quando o assunto me interessa muito.

Assim que estrear o esquema vou pensar se vale a pena convidar colaboradores ou não.

2. Vi alguns dos filmes que estão no cinema e, embora não tenha mais paciência para escrever enormes críticas a respeito de películas (cada vez mais me convenço que isso é apenas uma maneira exercitar seu ego exibindo sua opinião, como se ela fosse muito interessante), acho bom ressaltar alguns aspectos:

- Joaquin Phoenix, Reese Witherspoon e os outros membros do elenco de Walk The Line (me recuso a usar aquele título ridículo que deram ao filme em português) estão cantando bem PRA CARALHO. Ouso dizer que uma ou outra canção na voz do Phoenix chegou a ficar ligeiramente melhor que sua versão original, na voz do bom e velho Johnny Cash. E embora o filme pise um pouco na bola dando maior atenção à vida pessoal do sujeito do que a sua capacidade artística, ainda acho que vale o ingresso.

- Considerando que Munique é um filme de um diretor judeu sobre o problema entre judeus e palestinos, é muito mais imparcial do que eu esperava. Como era de se esperar, tem uma visão meio distorcida dos fatos, mas, guardadas as devidas proporções, se mantém quase “neutro”.

E o Eric Bana precisa mesmo dar um jeito naquelas orelhas.

3. Fãs de Friends são, numa definição grosseira, pessoas que não têm inteligência o suficiente pra entender o humor de Seinfeld. Fãs de Seinfeld que gostam de Friends são pessoas inteligentes que riem de qualquer coisa (o que não é um defeito). Fãs de Friends que acham a Phoebe a melhor personagem da série são o que há de mais rasteiro em matéria de inteligência (biologicamente falando, equivalem a algo como líquem). Nada pessoal.

4. O personagem daquela porcaria do Dan Brown, O Código da Vinci, é tão IMBECIL (embora o autor insista em dizer que ele é um professor de Harvard extremamente inteligente, o que só demonstra que o autor TAMBÉM é um imbecil) que fico imaginando a grande porcaria que será o filme baseado no… cof, cof… livro. Mas já identifiquei uma maneira de fazer o ingresso pro filme valer a pena: antes de ver O Código da Vinci, veja A Pantera Cor-de-Rosa e imagine que o sujeito interpretado pelo Tom Hanks é apenas um disfarce do inspetor Clouseau. Aposto que você vai se divertir um bocado.

5. Estou me esforçando pra manter uma atualização semanal nesta página. Vamos ver se pelo menos isso eu consigo fazer.

6. Isso aqui é só pra encher lingüiça. Tenho trabalhado num texto bem besta (provavelmente será uma historieta curtita) que me veio à mente depois de uma conversa com uma amiga. Deve sair ainda essa semana.

7. Preciso arranjar uns marcadores melhores pra quando fizer textos divididos em tópicos. Idéias?

8. Ainda não tem item oito. Mas se eu pensar em algo, escrevo aqui.

Play/Pause

Nunca fui muito maníaco por controle. Acho que, de tanto jogar videogame, acabei me acostumando às aleatoriedades da vida (e ainda existe quem diga que não dá pra tirar boas lições de qualquer besteira, heim?). Certos aspectos simplesmente não estão sob nosso comando, ao contrário do que dizem aqueles pobres seres humanos - lobotomizados por natureza - que crêem que são “magos” e têm pleno arbítrio sobre toda e qualquer faceta da realidade que lhes seja conveniente mudar.

Mas não é minha intenção irritar os “wiccans”, até porque não existe sentido em comprar briga com quem não sabe discutir. O assunto aqui é outro.

Quisera eu poder torcer o tecido da realidade, costurá-lo, recortá-lo e então moldá-lo de acordo com meus desígnios. Seria uma capacidade e tanto, principalmente diante de certos problemas que parecem não ter solução alguma.

Fico impassível perante de certos fatos não por egoísmo, mas simplesmente por não ver como ou onde interferir de forma construtiva. Meus modos de Irmão Caminhoneiro Shell trazem certas vantagens e capacidades úteis, mas lidar de forma moderada com situações frágeis definitivamente não é uma delas.

Resta-me, então, ficar quieto, manter essa postura de aparente indiferença diante do que, na verdade, me incomoda sobremaneira. O que me entristece de verdade, mas acho melhor ser um mero espectador e deixar a ajuda ser provida por quem tem condições para tanto a interferir e acabar sendo o empurrão final para transformar um cenário de difícil compreensão em uma situação totalmente caótica.

É necessária uma boa dose de estoicismo para tanto. Não apenas para recusar intervir em algo cujos resultados finais são do seu interesse, mas também para agüentar os olhares enviesados e as pedradas daqueles que não compreendem que muito ajuda quem não atrapalha.

No meu mundo perfeito, eu seria capaz de estender a mão e auxiliar todos aqueles que viessem pedir ajuda. Em determinados casos, infelizmente, o melhor que posso fazer é ficar longe das rédeas e torcer pra que tudo dê certo.

IRA!

Vendo o jornal de hoje, soube que o Exército Republicano Irlandês não está de todo convencido a deixar a luta armada. Pra deixar isso bem claro, alguns representantes do movimento atacaram a polícia com fuzis e outros armamentos pesados (porque amar ao próximo é isso aí).

E eu que costumava reclamar dos católicos brasileiros, cujo único ato de violência é me acordar aos fins de semana pela manhã rezando e/ou cantando muito alto!

A vida é assim: com o tempo você aprende a colocar as coisas em perspectiva.

Vai de acordo com o gosto do freguês

Eu fico vendo essas pessoas que saem por aí dizendo que igreja é um treco lucrativo, que dá dinheiro pra caralho, que é o tipo de investimento com retorno certo. A única coisa que consigo pensar diante disso é que nêgo devia aprender a contextualizar as coisas.

Vai montar uma igreja em Cuba, pra ver quanto dinheiro cê vai ganhar.

Premonição

Eu tenho 23 anos e, sem sacanagem, em todo esse meu tempo de vida meu pai deve ter morado em outras quadras durante uns 5 anos, se tanto. Os outros 18 ciclos terrestres o velho passou aqui, na 304 norte.

Quando fui morar com ele, em meados de 1998, vivíamos num apartamento ligeiramente menor que esse, na 214 sul. Um amigo do meu irmão tinha sido preso por tráfico de drogas e esse imóvel aqui estava vago. Iria continuar assim por uns 4 anos depois disso (foi essa a pena que o cara recebeu). Meu pai aproveitou a chance, negociou com o pai do sujeito e pronto: voltamos pra 304.

Quando eu era moleque e ele ainda vivia com a Mércia (logo ali no bloco C), tinha um enorme terreno baldio entre a 303 e essa quadra aqui. Dentro dele havia um baita matagal e uma placa que dizia “Em breve será construída aqui a igreja de santo Expedito”.

Em breve, sei. Foi daí que eu percebi de onde saio a expressão “obra de igreja”. Devo ter freqüentado essa quadra por uns 16 anos, pelo menos. E nada de igreja. A placa continuava lá.

Juro que não é sacanagem: eu me mudei pra cá e, dois, três meses depois, se tanto, a obra começou. Se não é perseguição do vaticano, não sei o que é.

De todo modo, eu fico feliz que não seja uma igreja evangélica. Os católicos são bem mais silenciosos. Eles fazem merda a semana toda e vêm no domingo pedir perdão, de forma muito quieta. Na semana seguinte continuam a fazer as mesmas merdas de antes. Não querem evoluir, estão só procurando um placebo pra aplacar suas dores de consciência. Os evangélicos, não. Claro que eles também seguem o método da não-evolução, só que berram como uns desesperados, cantam alto pra caralho e ainda vão à igreja todo dia.

Se é pra ter um templo, então, menos mal se for católico.

Eventualmente - e o fim de semana passado foi um dia desses - eles fazem umas quermesses no terreno da igreja. Montam ali umas barraquinhas vendendo cachorro-quente, canjica, doces diversos, um pequeno bazar pra vender doações… tudo pra juntar dinheiro pra encher ainda mais o rico rabo do clero.

Geralmente eles também montam um palco e chamam uma bandinha pra tocar no evento. E era nesse ponto que eu queria chegar.

Eu queria ter filmado, pra ninguém dizer que eu sou mentiroso: isso aqui foi uma premonição. Sexta-feira eu saí de casa pra pegar um ônibus pra casa da patroa e a banda que estava no palco tocava uma versão animadaça de “Festa no Apê”.

E eu nunca vi uma quermesse tão cheia. Sabia que meu método seria eficiente.