Archive for the 'saudade' Category

Jana, um ano depois

Hoje completa-se um ano que a Jana morreu e vinha pensando, há alguns dias, numa história que ilustrasse quem era minha irmã, alguma lembrança que de certa maneira a definisse, porque as definições que dei dela aqui foram todas referentes às circunstâncias da doença e àquela cama de hospital, quando ela era muito maior do que aquilo. Infelizmente não consegui.

É difícil pensar em uma só história que ilustre, com justiça, quem é uma pessoa. Sua índole, seus valores, seu comportamento. Há pouco, entretanto, tive um sonho que lhe fez muita justiça, e estou aqui, às 3h30m da madrugada, desperto, escrevendo, porque duvido que conseguiria, conscientemente, pensar em algo tão parecido com a minha irmãzinha quanto isso.

Jana deixou duas filhas, Isabela e Isadora. Uma com 13 anos a serem completados em setembro, outra com 6, comemorados em março. A mais velha é, como compete ser aos filhos mais velhos – e como, entre os filhos da minha mãe, a Janaína também era – mais safa (e se você estiver lendo isso, seu inseto, safa significa livre, solto – não é nenhuma abreviação de “safada” ou coisa parecida, teu tio não diria algo assim de você, oras) e se vira com maior desenvoltura diante das coisas. A Isadora, por questões tanto de idade quanto de natureza, precisa de um pouco mais de atenção e ajuda, de modo a não permitir que toda aquela inteligência e argúcia se transformem, de alguma maneira, em empecilhos para seu desenvolvimento ou acabem por fazê-la andar rápido demais, deixando etapas importantes passarem despercebidas.

Eu vinha, enfim, caminhando com a Isadora por algum lugar meio estranho. Parecia uma floresta ou pântano, mas com sinais claros de intervenção humana. Era meio que uma pista de obstáculos para ela, com lugares para subir, coisas para pegar, etc e tal. Andávamos por ali, ela fazia o que tinha de fazer, conversávamos, ríamos. E chegamos diante dessa portinhola que, aberta, revelava um fluxo de água deslizando por um tobogã, cujo fim sumia de vista devido às curvas que fazia. Isadora claramente tinha que descer por ali, e eu a incentivava, por ter certeza de que o fim do passeio seria tranqüilo. Ela foi, com certa relutância inicial, pois é um bichinho do mato, mas não pelo lugar certo. Em vez de deitar-se na corrente e escorregar para onde quer que fosse – local no qual minha mãe a esperava, segundo meu sonho –, foi descendo devagarinho por um corrimão localizado ao lado. Eu ri e disse que ela devia ir pela água, seria mais rápido e mais divertido. Nisso ela tirou a roupinha que usava, ficando de maiô, e acatou minha sugestão, logo sumindo da minha vista. A roupa que tirara, entretanto, jogou para fora do escorregador, e ali estava eu com a missão de recolher.

Sob a estrutura que formava o toboágua havia esse riacho lamacento, sujo e malcheiroso onde eu evitava pisar, portanto me esticava como podia, em volta da pequena torre que protegia o brinquedo. Consegui pescar o top, mas tinha dificuldades para alcançar a saia. E foi nessa hora que a Janaína apareceu, caminhando com desenvoltura pelo rio que eu não tinha coragem de pisar, e, sem dizer palavra, recolheu a saia da filha dela, me estendendo em seguida com um sorriso aberto, sincero. Sorri de volta, meio sem-jeito, diante tanto da minha irmã morta (pois eu sabia que ela estava morta) quanto do meu despreparo como tio. Jana sumiu e o sonho mudou pra qualquer outra coisa não relacionada e irrelevante.

***

Nos meus sonhos é sempre assim. Ela aparece silenciosa e sempre tenho consciência de sua morte. Não sei o que isso significa e sinceramente acredito que não tenha significado nenhum – creio em interpretação de sonhos tanto quanto em deus, na idoneidade da igreja ou em florais de Bach –, mas é quanto basta para me deixar dessa maneira, insone e taciturno em plena madrugada. Ao menos consigo vê-la um pouco, sorrindo e em movimento. Tira da minha cabeça, por alguns instantes, aqueles dias de hospital, o caixão e todo esse universo lúgubre que recai sobre os mortos.

Ano passado ficava me perguntando como e onde eu estaria hoje, nesse um ano aprendendo a lidar com as inevitabilidades da vida. E, de todas as coisas que sou, de tudo o que me forma, tentava entender que peso teria uma irmã morta na equação que determina meu comportamento. Em que sentido isso me faria pender? Me aconselharam diversas vezes a não deixar que me endurecesse. Hoje vejo que é impossível. Mas, partindo de um princípio um tanto cheguevaresco, minha dificuldade é para impedir que esse endurecimento, de alguma maneira, me torne pior.

Não importa, para mim, a interpretação que você faz do sonho narrado aqui, os sinais que pensa enxergar, a lógica que acredita ver no fundo disso tudo. Farei questão de desconsiderar quaisquer tentativas nesse sentido. Não perca seu tempo, não quero perder o meu.

Black Burning Heart

Forgotten my way home
Forgotten everything that I know
Everyday a false start, and it burns my heart
I know

Everything you said was right, and I suppose
Everything is here forever, ’till it goes

Do que não cicatriza

Janaína

Hoje vão seis meses desde a última vez em que vi a Jana com vida. Era uma quinta-feira e eu tava atrasado pra faculdade, mas passei no hospital pra ficar um pouquinho com ela. Como fiz todos os dias anteriores. Como não fiz no dia seguinte.

Ela tinha sido internada novamente depois de 9 dias em casa, porque a quimioterapia rendeu-lhe uma bela duma hepatite medicamentosa. E tava num desconforto sem tamanho! Toda inchada, com dores, uma agulha enfiada no braço 24/7, hematomas em várias partes dos braços, graças às agulhadas para transfusões e injeções e soro e quimios, a pele amarelada, graças à doença… tava mau estado, a minha irmãzinha.

Foi a primeira vez em que eu a vi chorar mesmo, desde o diagnóstico. Todas aquelas agulhadas e remédios e privação de sono e paladar alterado e internações e altas e novas internações finalmente derrubaram o ânimo dela. E, apesar de me lembrar dela como era, com seu sorriso lindo e sua risada deliciosa, nesse dia me a visão que tenho é da Jana sentada na beira da cama, com dor, sono e fome, chorando e dizendo que preferia morrer a passar por aquilo. E eu de pé, próximo, meio abraçado a ela, lhe fazendo um carinho nas costas e dizendo pra calar a boca e parar de falar besteira.

Fiz o inferno com aquela maldita cama, logo em seguida. Subi e desci os lados daquela merda até minha irmã me dizer que tinha encontrado uma boa posição. E quando se cansou dessa, tornei a girar as manivelas como se fossem curar a leucemia dela, até deixá-la novamente confortável. Fiz isso três ou quatro vezes até a hora de ir embora. E quando a deixei foi com um beijo na testa, um cafuné e dizendo eu te amo. “Eu te amo, não desanima, não”, pra ser exato. E foi a última coisa que disse pra Jana. E é uma boa maneira de se despedir de alguém.

Se me dissessem que era minha despedida definitiva dela, talvez não tivesse tido metade dessa eloqüência.

Wish You Were Here

So,
So you think you can tell
Heaven from Hell,
Blue skies from pain
Can you tell a green field
From a cold steel rail?
A smile from a veil?
Do you think you can tell?

Did they get you to trade
Your heroes for ghosts?
Hot ashes for trees?
Hot air for a cool breeze?
Cold comfort for change?
Did you exchange
A walk on part in the war
For a lead role in a cage?

How I wish, how I wish you were here
We’re just two lost souls
Swimming in a fish bowl,
Year after year
Running over the same old ground.
What have we found?
The same old fears
Wish you were here

Dos aniversários

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos
Eu era feliz e ninguém estava morto.

Tive o que fazer no 12 de dezembro durante 28 anos.

Quando não ocorria um evento no dia, acontecia alguns dias depois ou antes. A princípio eram festas com balões, brigadeiro, mirinda, bolo, primos, tios, avós e balão mágico ou trem da alegria tocando ao fundo. Com o tempo o teor foi mudando e passou, dessa farra infantil, para a típica comemoração adolescente, com música alta varando a madrugada e casaizinhos transbordando hormônios se pegando pelos cantos. Nos últimos anos os acontecimentos eram mais calmos, geralmente almoços ou jantares em família. Ano passado foi uma festa grande num sábado à tarde, com minha vó preparando uma tremenda feijoada para trocentos convidados que comeram até não poder mais. Foi divertido.

Esse ano terei o que fazer no 12 de dezembro, mas sem música e sem farra. Meu evento do dia 12 será diante de uma sepultura, com a inevitabilidade das coisas me pesando nos ombros e atos falhos me cutucando a consciência. O primeiro 12 de dezembro em 28 anos sem ouvir a voz da minha irmã.

Sei lá se isso vai soar como eu gostaria que soasse, mas sinceramente espero que seja o primeiro de poucos.

Das raízes súbitas

Despropositou-se meu propósito. Porque se antes eu dizia não saber a que se destinava aquele rolete de dinheiro, se mostrava certa hesitação quanto ao que fazer com aquilo, ainda havia aquela voz que me dizia exatamente o que fazer, e eu obedecia. Era só questão de tempo, de juntar maior soma, de aumentar a reserva e partir. Não havia destino nenhum, era só partir e pronto. A estrada não te pergunta pra onde você vai, quem se pergunta isso é você. E se, saindo um pouco desse ensimesmamento, dessa postura umbiguista de só ouvir a voz na sua cabeça, você se permitir ouvir a estrada, o que ela faz não é uma pergunta. Não indaga “Para onde você vai?”. O que ela diz, o que afirma, a ordem que dá, direta, sem rodeios, é “Venha!”.

Essa ordem ribombava na minha cabeça novamente no último ano e meio, e pretendia acatá-la, mas acovardei-me. Porque se antes minha intenção era sumir e perder meus lastros, soltar as amarras e viver à deriva por alguns dias, ou semanas, ou meses, ou talvez pro resto da vida, agora não tenho mais coragem. Porque se tivesse levado a idéia a cabo quando surgiu, se tivesse feito a mochila e partido, e se o desenrolar dos acontecimentos fosse o que foi, se um dia retornasse, não sei qual seria minha reação ao saber tardiamente de tudo, mas tenho aqui uma idéia do quanto pesaria minha consciência e de qual seria a profundidade do meu arrependimento. Seria imensa e intolerável.

E se eu for, agora, e as coisas tornarem a caminhar assim? E se não houver quem me avise da situação? E se eu não voltar a tempo? Se souber tarde demais? Fica claro que meu princípio estava errado. Devia ser adeus desde o começo, e não era. Era só um até logo. Adeus foi agora. Adeus aconteceu um mês atrás. Adeus é muito mais pesado do que consigo suportar, e só o tolero porque, oras, qual minha outra opção?

Então agora é isso. Queria ficar desvinculado. Agora fiquei e tento me prender às coisas mais do que nunca. Tinha tudo e queria ver como era não ter nada. Foi-se um pedaço, e me acovardo diante da perspectiva de perder o resto. Porque quem sabe o que diz é o velho Saramago, quando afirma, em O ano da morte de Ricardo Reis, que “o pior mal é não poder o homem estar no horizonte que vê, embora, se lá estivesse, desejasse estar no horizonte que é!”.

E sim, este blog agora é monotemático, porque minha cabeça é monotemática. Mudarei deste assunto funesto quando o assunto funesto se mudar de mim.




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