Archive for the 'saudade' Category

Do que não aprendemos nos livros (de auto-ajuda)

Outro dia me disseram que eu “ainda não superei”, e não foi a primeira vez. E todas as vezes em que ouço isso, fico sem entender o que querem dizer. O que é esse “superar”? Não que eu não saiba o que “superar” significa, não me subestimem! Conheço a definição do termo. Os três fonemas, navegando ondas sonoras na atmosfera que nos cerca após serem pronunciadas com um breve fôlego que passou por quaisquer cordas vocais, fazem vibrar meu ouvido interno e são imediatamente reconhecidos e processados em meu teleencéfalo altamente desenvolvido. Assim como também consigo juntar as letras para formar a palavra e identificá-la como aquilo que ela é, foneticamente, e como o que representa, ideologicamente. O verbete traz em si um sentido. Conheço este sentido. Conheço quando é usado como verbo (superar) e quando é usado como substantivo (superação). E ainda assim não entendo o que alguém poderia sugerir ao dizer que eu deveria “ter superado”.

Se dois amigos brigam por qualquer razão, passam um período sem se falar – que pode ser breve ou prolongado, é indiferente -, e então um dia se encontram, conversam, entendem-se e fazem as pazes, ambos superaram a desavença. Se você, apesar de qualquer deficiência física que deveria impedi-lo de realizar alguma tarefa, de acordo com o senso comum, ainda assim a realiza, e o faz com habilidade acima do comum, ou se é diagnosticado com uma doença teoricamente incurável ou cuja cura é bastante improvável, mas mesmo assim sobrevive às piores previsões da medicina, temos histórias de superação. Superação é isso, e é um termo que vem sendo levianamente usado nesta nossa sociedade sedenta por histórias “edificantes”, “lições de vida”, enfim, coisas que você pode colocar num arquivo powerpoint com uma música cretina da Celine Dion (olha o pleonasmo) e enviar por e-mail para aqueles seus conhecidos que se emocionam com qualquer porcaria.

Superar é passar por cima de um problema, deixando de identificá-lo como tal. Seja porque, com o tempo e a perspectiva que ele traz, o problema perde importância, seja porque você é capaz de contorná-lo com uma alternativa viável. Não existe isso de “superar” em determinados casos. E o caso ao qual me refiro aqui, especificamente, é a morte da minha irmã. Não existe “superação” em relação à morte. Não existe olhar para trás, para um acontecimento dessa natureza, incontornável, absoluto, definitivo, e dizer que eu “superei”. É para eu parar de me importar? É para deixar de ficar triste? É para não sentir falta? Isso não seria “superar”, isso seria desrespeitar a memória da Janaína. Isso seria ignorar a importância da minha irmãzinha.

Não acho válido e sinceramente não levo a sério pessoas que sofrem profundamente durante anos pela perda dos pais ou dos avós que faleceram em idade avançada. Por mais doído que seja, vamos enterrar pai e mãe, vamos enterrar nossos tios e nossos avós. É um fardo com o qual precisamos viver. Terrível é quando são eles os responsáveis por colocar uma pedra na nossa sepultura. Injusto é ver descer o caixão da sua irmã de 30 anos em companhia dos seus pais e dos seus avós.

Não vou me afundar numa depressão irremediável, cair de cama e torcer para morrer junto. Isso seria um exagero, e seria levar o problema a uma magnitude que ele não precisa ter. Ao mesmo tempo, também não vou agir como se isso não me incomodasse, como se não pensasse nisso diariamente, como se fosse algo trivial e sem significado na minha vida. Não vou agir como se aquele 25 de julho de 2009 não tivesse se tornado um divisor de “antes” e “depois”. Se minha eventual tristeza é “repetitiva”, se minha postura diante do fato é, sob qualquer ponto de vista, “incômoda”, se tocar nesse assunto é um “aborrecimento”… nossa, que chato pra você! Desculpe por isso, hein?

Não me conformo com o fato de pessoas gostarem de comer peixe cru. Não me conformo com o fato de haver quem ache que colocar piercing é bonito! Não é com a idéia de que minha irmã está morta que vou me esforçar para conviver harmoniosamente. Não existe o que possa ser feito em relação a isso, então permitam-me ao menos ficar triste quando me der na veneta.

Agradeço desde já!

Das desculpas

Nossa postura diante da morte é ignorá-la. O máximo possível. Até o limite do aceitável. Agimos diante da indesejável como se a própria menção da verdade de que podemos morrer a qualquer momento transformasse a inevitabilidade distante em uma possibilidade palpável. Mencioná-la é atraí-la. A morte é o Besouro Suco.

Venho notando isso de dois anos pra cá. Sempre que menciono que minha irmã morreu, geralmente respondendo a alguma pergunta relacionada a ela, recebo, como resposta, um pedido de desculpas.

Interpreto esse “Ah, desculpe” como um “Ah, desculpe-me por te fazer lembrar desse assunto desagradável”. Porque na verdade eu nunca penso nisso, no fato de que minha irmã está morta. Não é como se eu me lembrasse, todos os dias, assim que acordo, do fato de que não, não posso ligar pra Janaína. Não é como se, depois de sonhar com ela, e logo ao acordar, eu passasse alguns milésimos de segundo pensando “Ei, a Jana ia gostar de saber desse sonho, vou ligar pra ela e…OHWAIT”. Não, eu nunca me peguei tentando lembrar do dia em que a Janaína e a Fernanda se conheceram, por um breve instante, só pra me lembrar que na verdade elas não se conheceram, e não vão se conhecer nunca, porque quando uma chegou a outra já tinha ido. Não pense você que eu sinto falta dos e-mails que ela mandava, dos recados que deixava no orkut e que fico triste ao perceber que o facebook tem um campo SISTER, que é o lugar dela, mas que ela nunca vai ocupar. Não, amigo, eu quase nunca lembro da Janaína, e nunca, nunca me peguei pensando – de forma surpreendentemente mórbida – em como será que está o cadáver dela naquela sepultura, próximo aos restos do meu avô, se já é apenas um esqueletinho de peruca, e como deve estar hilário, e em como ela iria rir se eu comentasse isso com ela. E eu não sinto, todo maldito dia, uma saudade que não tem fim da risada dela, que eu QUASE consigo ouvir, mas não consigo, ao mesmo tempo, e minha vida agora nem é essa sucessão de retornos bruscos à realidade, e eu não vejo, todos os dias, alguma guria que me lembra ela, e as irmãs da Fernanda também não me trazem a Janaína à memória, e eu não vivo me perguntando o que ela acharia da minha vida agora, da minha presença no Rio, e se ela já teria vindo me ver, e como a gente se divertiria quando eu contasse pra ela dos ratos e tudo mais, e quantas coisas constrangedoras da minha infância ela ia contar pra Fernanda, e eu não me lembro, com pesar, que nós um dia marcamos de ficar bêbados juntos, mas nunca ficamos, porque eu praticamente não bebia naquela época.

Não, eu não me lembro da Janaína quase nunca, tem razão, foi apenas você surgir, com o gancho para esse assunto funesto, que ela me veio à mente. Que vergonha, meu amigo, que vergonha. Mas deixe pra lá, está perdoado, que essas coisas acontecem. Só não faça de novo, por favor, e vamos mudar de assunto e falar de coisas mais felizes. Que importância tem uma irmã morta, afinal?

Jana, um ano depois

Hoje completa-se um ano que a Jana morreu e eu vinha pensando, há alguns dias, numa história que ilustrasse quem era minha irmã, alguma lembrança que de certa maneira a definisse, porque as definições que dei dela aqui foram todas referentes às circunstâncias da doença e àquela cama de hospital, quando ela era muito maior do que aquilo. Infelizmente não consegui.

É difícil pensar em uma só história que ilustre, com justiça, quem é uma pessoa. Sua índole, seus valores, seu comportamento. Há pouco, entretanto, tive um sonho que lhe fez muita justiça, e estou aqui, às 3h30m da madrugada, desperto, escrevendo, porque duvido que conseguiria, conscientemente, pensar em algo tão parecido com a minha irmãzinha quanto isso.

Jana deixou duas filhas, Isabela e Isadora. Uma com 13 anos a serem completados em setembro, outra com 6, comemorados em março. A mais velha é, como compete ser aos filhos mais velhos – e como, entre os filhos da minha mãe, a Janaína também era – mais safa (e se você estiver lendo isso, seu inseto, safa significa livre, solto – não é nenhuma abreviação de “safada” ou coisa parecida, teu tio não diria algo assim de você, oras) e se vira com maior desenvoltura diante das coisas. A Isadora, por questões tanto de idade quanto de natureza, precisa de um pouco mais de atenção e ajuda, de modo a não permitir que toda aquela inteligência e argúcia se transformem, de alguma maneira, em empecilhos para seu desenvolvimento ou acabem por fazê-la andar rápido demais, deixando etapas importantes passarem despercebidas.

Eu vinha, enfim, caminhando com a Isadora por algum lugar meio estranho. Parecia uma floresta ou pântano, mas com sinais claros de intervenção humana. Era meio que uma pista de obstáculos para ela, com lugares para subir, coisas para pegar, etc e tal. Andávamos por ali, ela fazia o que tinha de fazer, conversávamos, ríamos. E chegamos diante dessa portinhola que, aberta, revelava um fluxo de água deslizando por um tobogã, cujo fim sumia de vista devido às curvas que fazia. Isadora claramente tinha que descer por ali, e eu a incentivava, por ter certeza de que o fim do passeio seria tranqüilo. Ela foi, com certa relutância inicial, pois é um bichinho do mato, mas não pelo lugar certo. Em vez de deitar-se na corrente e escorregar para onde quer que fosse – local no qual minha mãe a esperava, segundo meu sonho –, foi descendo devagarinho por um corrimão localizado ao lado. Eu ri e disse que ela devia ir pela água, seria mais rápido e mais divertido. Nisso ela tirou a roupinha que usava, ficando de maiô, e acatou minha sugestão, logo sumindo da minha vista. A roupa que tirara, entretanto, jogou para fora do escorregador, e ali estava eu com a missão de recolher.

Sob a estrutura que formava o toboágua havia esse riacho lamacento, sujo e malcheiroso onde eu evitava pisar, portanto me esticava como podia, em volta da pequena torre que protegia o brinquedo. Consegui pescar o top, mas tinha dificuldades para alcançar a saia. E foi nessa hora que a Janaína apareceu, caminhando com desenvoltura pelo rio que eu não tinha coragem de pisar, e, sem dizer palavra, recolheu a saia da filha dela, me estendendo em seguida com um sorriso aberto, sincero. Sorri de volta, meio sem-jeito, diante tanto da minha irmã morta (pois eu sabia que ela estava morta) quanto do meu despreparo como tio. Jana sumiu e o sonho mudou pra qualquer outra coisa não relacionada e irrelevante.

***

Nos meus sonhos é sempre assim. Ela aparece silenciosa e sempre tenho consciência de sua morte. Não sei o que isso significa e sinceramente acredito que não tenha significado nenhum – creio em interpretação de sonhos tanto quanto em deus, na idoneidade da igreja ou em florais de Bach –, mas é quanto basta para me deixar dessa maneira, insone e taciturno em plena madrugada. Ao menos consigo vê-la um pouco, sorrindo e em movimento. Tira da minha cabeça, por alguns instantes, aqueles dias de hospital, o caixão e todo esse universo lúgubre que recai sobre os mortos.

Ano passado ficava me perguntando como e onde eu estaria hoje, nesse um ano aprendendo a lidar com as inevitabilidades da vida. E, de todas as coisas que sou, de tudo o que me forma, tentava entender que peso teria uma irmã morta na equação que determina meu comportamento. Em que sentido isso me faria pender? Me aconselharam diversas vezes a não deixar que me endurecesse. Hoje vejo que é impossível. Mas, partindo de um princípio um tanto cheguevaresco, minha dificuldade é para impedir que esse endurecimento, de alguma maneira, me torne pior.

Não importa, para mim, a interpretação que você faz do sonho narrado aqui, os sinais que pensa enxergar, a lógica que acredita ver no fundo disso tudo. Farei questão de desconsiderar quaisquer tentativas nesse sentido. Não perca seu tempo, não quero perder o meu.

Black Burning Heart

Forgotten my way home
Forgotten everything that I know
Everyday a false start, and it burns my heart
I know

Everything you said was right, and I suppose
Everything is here forever, ’till it goes

Do que não cicatriza

Janaína

Hoje vão seis meses desde a última vez em que vi a Jana com vida. Era uma quinta-feira e eu tava atrasado pra faculdade, mas passei no hospital pra ficar um pouquinho com ela. Como fiz todos os dias anteriores. Como não fiz no dia seguinte.

Ela tinha sido internada novamente depois de 9 dias em casa, porque a quimioterapia rendeu-lhe uma bela duma hepatite medicamentosa. E tava num desconforto sem tamanho! Toda inchada, com dores, uma agulha enfiada no braço 24/7, hematomas em várias partes dos braços, graças às agulhadas para transfusões e injeções e soro e quimios, a pele amarelada, graças à doença… tava mau estado, a minha irmãzinha.

Foi a primeira vez em que eu a vi chorar mesmo, desde o diagnóstico. Todas aquelas agulhadas e remédios e privação de sono e paladar alterado e internações e altas e novas internações finalmente derrubaram o ânimo dela. E, apesar de me lembrar dela como era, com seu sorriso lindo e sua risada deliciosa, nesse dia me a visão que tenho é da Jana sentada na beira da cama, com dor, sono e fome, chorando e dizendo que preferia morrer a passar por aquilo. E eu de pé, próximo, meio abraçado a ela, lhe fazendo um carinho nas costas e dizendo pra calar a boca e parar de falar besteira.

Fiz o inferno com aquela maldita cama, logo em seguida. Subi e desci os lados daquela merda até minha irmã me dizer que tinha encontrado uma boa posição. E quando se cansou dessa, tornei a girar as manivelas como se fossem curar a leucemia dela, até deixá-la novamente confortável. Fiz isso três ou quatro vezes até a hora de ir embora. E quando a deixei foi com um beijo na testa, um cafuné e dizendo eu te amo. “Eu te amo, não desanima, não”, pra ser exato. E foi a última coisa que disse pra Jana. E é uma boa maneira de se despedir de alguém.

Se me dissessem que era minha despedida definitiva dela, talvez não tivesse tido metade dessa eloqüência.

Wish You Were Here

So,
So you think you can tell
Heaven from Hell,
Blue skies from pain
Can you tell a green field
From a cold steel rail?
A smile from a veil?
Do you think you can tell?

Did they get you to trade
Your heroes for ghosts?
Hot ashes for trees?
Hot air for a cool breeze?
Cold comfort for change?
Did you exchange
A walk on part in the war
For a lead role in a cage?

How I wish, how I wish you were here
We’re just two lost souls
Swimming in a fish bowl,
Year after year
Running over the same old ground.
What have we found?
The same old fears
Wish you were here