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Das desculpas

Nossa postura diante da morte é ignorá-la. O máximo possível. Até o limite do aceitável. Agimos diante da indesejável como se a própria menção da verdade de que podemos morrer a qualquer momento transformasse a inevitabilidade distante em uma possibilidade palpável. Mencioná-la é atraí-la. A morte é o Besouro Suco.

Venho notando isso de dois anos pra cá. Sempre que menciono que minha irmã morreu, geralmente respondendo a alguma pergunta relacionada a ela, recebo, como resposta, um pedido de desculpas.

Interpreto esse “Ah, desculpe” como um “Ah, desculpe-me por te fazer lembrar desse assunto desagradável”. Porque na verdade eu nunca penso nisso, no fato de que minha irmã está morta. Não é como se eu me lembrasse, todos os dias, assim que acordo, do fato de que não, não posso ligar pra Janaína. Não é como se, depois de sonhar com ela, e logo ao acordar, eu passasse alguns milésimos de segundo pensando “Ei, a Jana ia gostar de saber desse sonho, vou ligar pra ela e…OHWAIT”. Não, eu nunca me peguei tentando lembrar do dia em que a Janaína e a Fernanda se conheceram, por um breve instante, só pra me lembrar que na verdade elas não se conheceram, e não vão se conhecer nunca, porque quando uma chegou a outra já tinha ido. Não pense você que eu sinto falta dos e-mails que ela mandava, dos recados que deixava no orkut e que fico triste ao perceber que o facebook tem um campo SISTER, que é o lugar dela, mas que ela nunca vai ocupar. Não, amigo, eu quase nunca lembro da Janaína, e nunca, nunca me peguei pensando - de forma surpreendentemente mórbida - em como será que está o cadáver dela naquela sepultura, próximo aos restos do meu avô, se já é apenas um esqueletinho de peruca, e como deve estar hilário, e em como ela iria rir se eu comentasse isso com ela. E eu não sinto, todo maldito dia, uma saudade que não tem fim da risada dela, que eu QUASE consigo ouvir, mas não consigo, ao mesmo tempo, e minha vida agora nem é essa sucessão de retornos bruscos à realidade, e eu não vejo, todos os dias, alguma guria que me lembra ela, e as irmãs da Fernanda também não me trazem a Janaína à memória, e eu não vivo me perguntando o que ela acharia da minha vida agora, da minha presença no Rio, e se ela já teria vindo me ver, e como a gente se divertiria quando eu contasse pra ela dos ratos e tudo mais, e quantas coisas constrangedoras da minha infância ela ia contar pra Fernanda, e eu não me lembro, com pesar, que nós um dia marcamos de ficar bêbados juntos, mas nunca ficamos, porque eu praticamente não bebia naquela época.

Não, eu não me lembro da Janaína quase nunca, tem razão, foi apenas você surgir, com o gancho para esse assunto funesto, que ela me veio à mente. Que vergonha, meu amigo, que vergonha. Mas deixe pra lá, está perdoado, que essas coisas acontecem. Só não faça de novo, por favor, e vamos mudar de assunto e falar de coisas mais felizes. Que importância tem uma irmã morta, afinal?

Dos informes

Em certas épocas, tudo o que escrevo, o que escrevi e mesmo a idéia de escrever se mostra, para mim, terrivelmente enfadonha. Não é bloqueio de escritor, pois escritor eu não sou. É mais um surto de autocrítica exasperada. É como um abrir de olhos abrupto, um cair em si repentino. Subitamente começo a achar que tudo o que já rabisquei neste blog - publicado ou não - é horroroso e repetitivo, que sou incapaz de escrever qualquer coisa nova, que tudo o que publicar será apenas mais do mesmo, redundâncias dispensáveis, sem inovação alguma, seja no assunto, na abordagem, no formato, no linguajar… Tenho a sensação de que não sou capaz de fazer nada que não seja totalmente dispensável. Exatamente por isso, não faço nada. Amasso e jogo fora as idéias antes que elas cheguem a tocar o papel. Me convenço de que escrever não é pra mim, não é para o que sou talhado, e vou fazer outras coisas. Todas as vezes em que isso acontece, acredito que será a última e que largarei essa atividade ingrata para o resto da vida. Em todas as vezes anteriores, justamente quando a indignação quanto à minha inaptidão arrefecia e dava lugar à placidez de quem aceita seu lugar e suas funções e desiste de morder mais do que pode mastigar, surgia a inspiração, aquela vagabunda, e, me pegando de sopetão pelo colarinho, me jogava aqui, de onde saía um texto com a sofreguidão de um grito abafado. Daí o blog ressurgia de suas cinzas e retomávamos o ritmo de antes - veloz, em sua era inicial, sazonal, após o segundo ou terceiro ano de vida. Fazia as pazes com minhas linhas porcas e voltava a garatujá-las com a mesma desfaçatez e falta de vergonha na cara de antes.

Estou num desses momentos iniciais, entretanto. Em que tudo o que penso em escrever já foi escrito por alguém melhor, com maior conhecimento de causa, com maior controle do vernáculo, com mais animação, com mais criatividade, com mais o que quer que seja. Daí o silêncio prolongado, que pode durar até amanhã ou daqui até o fim do universo - o que vier primeiro.

Tenham paciência e aguardem, ou abandonem este recinto. Para mim, como de costume, tanto faz como tanto fez. Um forte abraço.

Das crônicas

Coisa de duas semanas atrás fui ao centro e me deparei com uma série de sebos armados no meio da rua. Bisbilhotando, Fernanda encontrou um exemplar maltratado de uma quarta edição d’A Cidade Vazia, do Fernando Sabino, pelo valor nababesco de R$ 2,00. Comprou, sem pestanejar. Gostaria de tomar o mérito do ato, mas não me permito. Foi ela quem fez o grande negócio.

A Cidade Vazia é um apanhado de crônicas da época em que o autor vivia nos Estados Unidos, e não tem muito daquele humor sutil de mineiro que caracteriza livros como O homem nu ou A falta que ela me faz. Deixa transparecer até uma boa dose de melancolia, resultado da solidão decorrente da vida no exterior. De todas que já li, considerei uma, em particular, digna de menção. Vou transcrevê-la aqui, ainda que sob pena de quebrar algum tipo de lei de direito autoral ou coisa que o valha, então deixo claro que o texto que segue não foi escrito por mim, dele não tiro quaisquer proventos e sobre o mesmo não tenho nenhum direito. A publicação é mera homenagem, e me prontifico a retirá-lo do ar se sua transcrição neste blog porco lesar, de qualquer maneira, os responsáveis pela obra.

Estendendo um pouco mais este preâmbulo, adianto que redigitei o texto na íntegra, ipsis literis, com todas as quebras de linha, vírgulas e acentos em palavras não mais acentuadas. Tanto por respeito ao formato original quanto em protesto contra a tal nova ortografia.

O Juramento

Melvin C. Roberts, canadense e secretário do conhecido milionário americano Cornelius Vanderbilt Junior, suicidou-se aos 27 anos de idade.
O comitê de investigações encarregado de esclarecer as circunstâncias do suicídio concluiu, depois de ouvir Vanderbilt, que o rapaz teve aquêle fim “como resultado de sua tormentosa experiência”.
Que experiência foi essa? O próprio Vanderbilt, no seu esclarecimento, nos dá a resposta. E de repente Melvin C. Roberts deixa de ser mero nome perdido na seção obituária dos jornais, lembrança a apagar-se com o tempo entre parentes e amigos, acontecimento cotidiano no registro policial. Já não se trata de simples tragédia doméstica que deixará atrás de si uma pobre mãe desconsolada e uma noiva desiludida. Nem ficará sendo apenas um momentâneo aborrecimento para o milionário Vanderbilt, que terá de procurar nôvo secretário.

No dia 9 de agôsto de 1945, um campo de concentração no Japão foi libertado pelas fôrças americanas. Entre outros, oito homens maltratados e famintos tinham escapado à morte lenta das torturas diárias, depois de quatro anos de cativeiro. Eram dos mais antigos, e milhares que com êles entraram naquele inferno jamais chegaram a sair. Tinham todos pouco mais de vinte anos, mas o sofrimento vivido em comum lhes deu outros vinte. Juntos suportaram a fome, o excesso de trabalho, a humilhação, o mêdo e a desesperança. Foram finalmente selecionados como cobaias humanas para inoculação de doenças e experimentações de cirurgia. Conheceram, uma por uma, tôdas essas formas de sadismo que os jornais e o cinema já divulgaram, para o erguer de ombros dos céticos e a meia hora de mal-estar dos temperamentais. Já não temiam a própria morte: temiam que o mundo não soubesse colhêr dela ensinamento algum, que o mundo não merecesse aquêle sacrifício. Então fizeram um juramento: se por milagre saíssem de tudo aquilo com vida, se recusariam a viver, caso não fôsse possível um mundo pacificado e feliz.

Nunca mais se encontraram. Dispersaram-se pelos quatro cantos do mundo, experimentando recomeçar a vida. Com o fim da guerra as nações se reuniram, tentando consolidar a paz. No mundo haveria agora oportunidade igual para todos, sólida esperança ligaria todos os homens, o mêdo e o ódio não resistiriam às novas formas de viver que se ofereciam. Assim era o mundo no ano que se seguiu, quando, exatamente no dia 9 de agôsto de 1946, a crônica policial de uma cidade qualquer dos Estados Unidos registrou sem maiores detalhes, entre notícias de pequenos furtos, atropelamentos e agressões, o suicídio de um veterano de guerra.

Os homens às vezes se suicidam, veteranos ou não. Dizem que isso é natural. São os desiludidos da vida, os fracassados, e perfazem com seu “tresloucado gesto” um acontecimento normal de seleção na luta dos interesses, que o próprio desengano da vida se encarrega de explicar. É natural também que os veteranos tenham, como os outros homens, seus problemas íntimos para os quais vão buscar na morte a solução. Pouco tempo mais tarde, ainda em 1946, numa cidade da Inglaterra, outro veterano da guerra do Pacífico se matou.

E assim, sucessivamente, êles foram desistindo de viver. O suicídio de um rapaz no Estado de Nebraska coincidia com o de outro na Califórnia. Ninguém ficou sabendo por que num bar de Chicago um homem tomou veneno, ou no seu quarto de Filadélfia um homem deu um tiro na cabeça, ou numa colina do Maine um morto foi encontrado, ou nas águas do Rio Hudson um corpo se afogou. É possível mesmo que ninguém chegue a saber jamais como foi que êles morreram, nem quando, nem onde, nem por quê.

Na cidade do Reno, Estado de Nevada, Melvin C. Roberts, um rapaz de 27 anos, abandona o jornal sobre a perna, olha a noite pela janela de seu quarto e espera. Em que estará pensando? São dez horas da noite e lá fora a cidade parece calma, tranqüila, feliz. Homens e mulheres se encontram, se despedem, trabalham e descansam, vivem e morrem. Melvin C. Roberts pensa neles, pensa no tempo que passou. Pensa nos destinos do mundo, Melvin C. Roberts.
Levanta-se e caminha até a janela, como se tão vasto pensamento o obrigasse a receber de pé a brutalidade de suas conseqüências. O jornal deslizou para o chão, aberto na terceira página, e o nome familiar na pequena notícia se perde num emaranhado de letras. Êle ergue os olhos para o escuro do céu onde estrêlas esparsas mal se vêem, neutralizadas pelas luzes da rua. Parece tentar colhêr da noite um conselho, uma advertência. Mas a noite não lhe diz nada. Os pensamentos de nôvo se avolumam, recompõem as mesmas imagens de horror. O tormento de lembranças lhe vem mais uma vez em sucessão monótona: são os mesmos rostos de olhos repuxados, a mesma voz dissonante dos guardas, o mesmo cheiro de sangue. Pensa no sacrifício inútil que cinco de seus companheiros já completaram. Melvin C. Roberts está pensando na morte. São onze horas a noite de 9 de agôsto.

Seu corpo foi encontrado no dia seguinte sobre a cama – um vidro de pílulas sedativas a seu lado, completamente vazio. Escapou a todas as formas de morte violenta nas mãos dos japonêses e procurou a maneira mais tranqüila e confortável de morrer. Segundo afirmou no seu depoimento o milionário Vanderbilt, o rapaz vivia ultimamente num constante estado de depressão e se queixava de horríveis sonhos com seu internamento, as torturas que sofreu.
Encerrando os trabalhos, o comité de investigação no Reno resolveu considerar a sua morte como sendo “mais uma honrosa perda de guerra”. Com isso autorizam o esquecimento em tôrno de seu nome.

Mas Melvin C. Roberts não será esquecido, como os outros cinco. E não será, simplesmente porque sabemos agora que ainda restam dois.

Que terá sido dêsses dois? É possível que um já tenha esquecido o juramento feito, esquecido seus sete companheiros, e num bangalô em Miami Beach ou numa pequena fazenda do Texas, já casado e com filhos, procure esquecer também o mundo e seus problemas: esta foi a maneira que escolheu de suicidar-se.
Mas, e o outro? Neste último é que está, sem que o saibamos, o nosso mêdo e a nossa esperança. Vejo-o lendo àvidamente os jornais de hoje em Nova Orleãs, São Francisco, Detroit ou em Bunn, na Carolina do Norte. Vejo-o passando ao meu lado nas ruas de Nova Iorque e o desconheço. Ninguém sabe quem ele é. Ninguém sabe que o destino do mundo se subordinou ao destino dêste homem. Poucos conhecem esse veterano distraído, com o olhar vazio dos prisioneiros. No seu andar um tanto incerto não há nada revelando que êle caminha a passos firmes para a morte. Indiferentes a êle, os políticos continuam se reunindo em assembléia, para decidir a sorte do mundo. E a sorte do mundo está hoje dependendo apenas da vida dêsse homem. Mas quem será êle? Ninguém sabe ou se preocupa em saber. Êle vai andando em meio à multidão como um autômato, anônimo e despercebido. Seus dedos deslizam pelo bôlso do paletó, acariciam lentamente o revólver, lembrança ainda da guerra, e esperam.
Numa esquina qualquer de uma cidade qualquer, um homem espia passivamente o movimento ao seu redor e espera o instante de condenar o mundo com a sua morte. Seus dedos apertam a arma, o braço se ergue, e ela se volta em direção ao peito magro onde o coração se maltrata. Tenho ainda uma violenta esperança de que alguma coisa aconteça, algum milagre impeça a morte dêsse homem.

Fernando Sabino.

Das coisas que se ensaia dizer…

…mas não se diz.

Fico sem saber o que é pior: ter sobre o que escrever, sem ter ânimo, ou sentir uma arrebatadora vontade de escrever sem ter assunto para tanto. Considero que, neste momento, estou exatamente na união destes dois casos: não tenho sobre o que escrever e não tenho ânimo. Escrevo assim mesmo, entretanto, porque, como já disse aqui antes (disse? Não tenho certeza, mas devo ter dito, digo sempre as mesmas coisas, e geralmente do mesmo jeito, sou terrivelmente repetitivo e até, vou além, bastante pleonástico. Mas não quero falar disso, este parêntese está ficando gigantesco, vou fechá-lo agora e acabar com esta putaria, repare) enfim, como dizia que disse aqui antes, digo: eu me odeio e gosto de me contrariar.

Acho que tem bem uns cinco dois pontos no parágrafo acima, mas quem está contando?

Mudei-me, e desta vez foi de com força: saí de Brasília. Vivo agora no Rio de Janeiro, uma cidade habitada por um povo que, fosse comprado por quanto vale e vendido pelo valor que pensa ter, renderia lucro inenarrável. Gostaria de afirmar, sem quaisquer dúvidas, que são as pessoas mais ufanisticamente bairristas da nação, mas, oras, não vamos desprezar o ufanismo e o bairrismo dos gaúchos, pernambucanos, mineiros e paulistas, dos paranaenses, brasilienses, goianos e baianos, dentre outros. Ofender-se-iam, certamente, ao não serem devidamente ofendidos com a ofensa que lhes cabe com justiça.

Enfiei uma mesóclise e uma frase sem sentido (acredito que a primeira de muitas) neste texto. Onde é que vamos parar?

Senti falta de digitar neste notebook. Na verdade, senti falta de digitar em outra coisa que não fosse um netbook. Netbooks são muito práticos e muito bonitinhos, mas uma hora você se cansa das teclas todas juntinhas e de configurações 1024×768 em telas que não vão além de uma dezena de polegadas. De todo modo, apesar de seu teclado farto e de suas dezena e meia de polegares, não consigo confiar nesta máquina em que escrevo, porque técnicos de informática são as criaturas menos confiáveis do mundo (afirmo isso fazendo parte da categoria, de modo que tenho perfeito conhecimento de causa e, como de costume, não estou errado) e, assim sendo, informei o miserável do que ocorria e avisei que a mera formatação não era solução. O pústula formatou e considerou o serviço feito. Logo, tenho sobre meu colo um computador prestes a sofrer novo ataque de apoplexia.

Lancei mão de “apoplexia” num texto, ainda que de forma meio prosopopéica: dou-me +20 pontos.

Curioso o que o twitter faz com a cabeça das pessoas. Se bem que são tantos os distúrbios, tamanhas as afetações, tão violentas as mudanças - embora perfeitamente previsíveis, e apenas reflexos de fatos anteriores, já confirmados por outras ferramentas de “mídias sociais” - que é melhor ser mais específico, então especificarei: freqüentemente escrevo algo por lá, naqueles míseros 140 caracteres, e considero que a idéia é mais densa e pode ser mais bem explorada do que aquilo, que é possível ramificar, explicar melhor, argumentar de forma mais embasada. Que aquele arroto redativo, restrito àquele número ridículo de toques, pode vir para cá e ser estendido em um local de letras, acentos, pontuação e espaços infinitos.

Mas aí já falei por lá, então deixo morrer como está.

Todo esse não-desenvolvimento dos meus textos, sejam eles os que “rascunho” na página do passarinho ou os que mantenho fermentando dentro da minha cabeça, deve-se a uma coisa, e a uma coisa apenas: procrastinação. Diversas vezes afirmo ser por preguiça ou falta de tempo, mas esses são apenas os motivadores do defeito, tão grave. Ou as desculpas que uso a fim de mascará-lo, talvez. Enfim, sou tão procrastinador que comecei o texto pensando em falar disso, seria o primeiro assunto, mas fui deixando para depois e só mencionei agora. E tenho mais coisas a dizer a respeito…

…mas ficarão para outra hora.

Porque agora, pensando aqui com meus botões - na verdade pensando sozinho, porque não tem botão algum nas roupas que estou vestindo durante esta narrativa sem nexo, coerência, embasamento ou razão aparente -, me ocorreu que a total ignorância (voluntária ou inerente) de ateus e cristãos (e talvez muçulmanos, judeus, espíritas, macumbeiros, maometanos, xintoístas, cientologistas, hindus e macfags) em relação aos agnósticos, que os faz argumentar contra estes de forma sempre muito pouco inteligente e nada fundamentada, renderia um post bem interessante, que talvez até rendesse uns comentários inteligentes, que poderiam vir a gerar uma discussão interessante, que em algum momento descambaria para a troca gratuita de ofensas e então me motivaria a fazer outro texto, dessa vez bem raivoso.

E é nos textos raivosos que me saio melhor.

Estive considerando o porquê disso, recentemente. Disso, no caso, é a razão dos meus textos raivosos fazerem mais “sucesso”, se é que o termo se aplica, do que os que escrevo tranqüilo. Acho que é porque raiva é o sentimento que mais tenho facilidade para acessar, de todos. Me lembrar de momentos felizes não me deixa feliz (freqüentemente me torna melancólico, inclusive), trazer à tona lembranças tristes não necessariamente me deixaria triste, mas rememorar coisas que me aborreceram certamente vai tornar a me irritar. E irritado eu faço o que qualquer escritor minimamente competente sabe fazer de cabeça fria: não penso antes de escrever e, ao fim do texto, não dou a mínima se ele fez algum sentido. Apenas boto aquela porcaria pra fora e enfio na cara dos outros.

Duplo sentido: trabalhamos.

Agora, por que diabos VOCÊS gostam disso, o que os motiva a encher um texto como esse aí embaixo, sobre minha irritação com o Itaú, de likes no Google Reader, de RTs no Twitter, de sei lá mais que diabos vocês usam pra favoritar essas merdas… ah, isso me escapa completamente. Pelo que vejo, existem algumas várias razões para isso. Uma delas é que, de alguma maneira, há quem sinta prazer em me ver nervoso. O que é uma atitude bem escrota e cretina, se você parar pra pensar, porque é como se torcessem para que eu tivesse uma úlcera. Outra, ainda - e essa eu considero menos provável - é que vocês apenas lêem um desses rompantes de fúria e ficam felizes por alguém ter tido tamanha falta de bom-senso, amor-próprio e sentimento de auto-preservação a ponto de dizer todos os disparates, os absurdos e as estultices que os senhores já pensaram, mas foram muito bem-educados e pouco corajosos o suficiente para ignorar.

No fim das contas, não tenho opinião formada sobre isso.

E o texto não terminou ainda, mas acho que termina agora com um anúncio que não vos interessa, mas interessa a mim, e talvez, sei lá, interesse a vocês também (este sou eu me contradizendo numa mesma sentença. Não é para os fracos!): farei uns cursos de esgrima escrita. Eu sei, eu sei, é inútil e jogarei dinheiro fora. É um fato que quem não tem o jeito para a coisa, não importa o empenho ou o esforço, nunca vai chegar perto de quem, por qualquer tipo conjunção cósmica desconhecida, tem este ou aquele traquejo nato. Mas, oras, às vezes dá algum resultado. O que me interessa não é superar gente do naipe do Antônio Prata, por exemplo (o pai dele, nem menciono), apenas sair da minha linha de mediocridade já me deixaria satisfeito. Além do mais, sou um maníaco por controle, gosto de métodos. A idéia de que escrever pode se tornar um processo metódico (e, assim, mais organizado e mais “fácil”) me interessa.

Sei que prometo isso há oito anos, mas vai que dessa vez, finalmente, consigo escrever algo que preste? De todo modo, não apostem muitas fichas. Eu não apostaria.

Da inspiração e outros demônios

O cursor pisca. Surge. Some. Surge. Some. Surge. Some. Surge. Some.

Esse cursor é, pra quem escreve nessa época de impulsos elétricos, o que era o capataz para quem apertava parafusos na revolução industrial. O leão-de-chácara que vigiava os escravos. O gerente que curte um assédio moral, a fim de construir o caráter. O cursor é um crápula.

As idéias enxergam a verdadeira face do cursor, por isso desaparecem quando ele surge, não há outra explicação. Quando não existe a menor possibilidade dele dar as caras, elas organizam uma verdadeira orgia no cérebro. Vão e voltam, complexas ou simples, com início, meio e fim, encadeadas de forma perfeita. É transcrever e ali está a obra prima. A capela sistina. O Davi. O homem vitruviano.

O problema é o papel. Vou além: o problema é o cursor. Porque para levá-las deste meio disforme e mutável - onde a perfeição não só existe como, mais do que isso, é uma constante -, o mundo das idéias, para este outro lugar, firme e inflexível, repleto de julgamentos outros que não o primordial, e onde, no caso de quem escreve, existe o maldito cursor, é preciso desviar a atenção da idéia - objeto a ser transcrito - e voltá-la para o “papel” - superfície de transcrição. Surge daí a contenda: estes dois objetos não permitem descuido. Perca a idéia de vista por um instante e ela desaparece, como se nunca por ali tivesse passado. Faça uma transcrição distraída e o resultado final estará muito aquém do conceito original. Ambos exigem de você nada menos do que 100% de foco.

E não percamos tempo atestando o óbvio, concluindo que dedicar 100% de foco a duas coisas, ao mesmo tempo, é tarefa impossível. Vamos à questão prática: o que fazer? A única solução é prestar atenção total em ambos, o máximo de tempo possível, de forma alternada. Um afago em sua idéia, enquanto vira as costas pro papel. Depois, de volta ao papel, é hora de escrever enlouquecidamente, até sua idéia aparentar enfado e dar a entender que pretende abandonar o recinto. Nessa hora você larga seu trabalho e retorna à contemplação. Idéias precisam disso, é do que elas se alimentam, é como ficam fortes, fornidas e fagueiras. Sem isso, são fugazes (ficando apenas na letra F).

É onde reside a maldição do cursor. Enquanto você, cuidadosamente, procura dar à sua idéia a atenção merecida, o cursor pisca. Surge. Some. Surge. Some. Surge. Some. “Ignore-o”, diz um principiante, mal sabendo que essa intermitência não é um aviso suave e gentil de “Estou aguardando”. Antes, é o estalar de um chicote, o engatilhar de uma espingarda. É o prazo, urgindo. E prazo, na língua de Shakespeare, não leva o nome de deadline à toa. O prazo não vem sozinho, o prazo traz a angústia, a ansiedade. O prazo traz palpitações, vem acompanhado de pressões que, se não forem externas, são internas. E quem saberá dizer qual das duas é pior? O prazo é a necessidade que não admite ser postergada. O prazo te faz perder a idéia de vista, focar no trabalho, submergir na produção que, subitamente, caminha a passos rápidos, toma vida própria e segue de forma independente. Você, dedilhando o teclado, é mero espectador de uma pintura que se faz sozinha.

Perdido na empolgação do texto que se desenrola, você abandona a idéia. E idéias são como crianças: cinco segundos de descuido e… para onde ela foi? Foi um lapso de desatenção, coisa rápida, quase imperceptível. Foi o que bastou para que o resultado final, em vez daquele conceito brilhante, inicialmente pretendido, descambasse para uma coisa qualquer, um amontoado de idéias sem muito nexo. Um texto estranho, sem sentido, sem propósito. Feio, pra dizer sem rodeios.

Um texto como este.

Dos mercados

Cristo, mas via-lhe as ruas?/
Também apenas as ruas, havia milhares delas, como fazem para escolher uma/
Para escolher uma mulher/
Uma casa, uma terra que seja sua, uma paisagem para olhar, um modo de morrer?

Se você lê esse blog há algum tempo, já deve estar familiarizado com o trecho acima, do livro Novecentos - Um Monólogo, porque já foi publicado aqui antes. Publiquei antes, e publico de novo, porque considero ser a verdade. A “minha” verdade, como está na moda dizer agora. O que a torna, para mim, a verdade absoluta. Se a “sua” verdade é diferente, para mim não é verdade. Logo, não sendo verdade, é mentira. Logo, foda-se, não me importo com ela.

Larguei meu emprego. Um emprego que odiava e no qual passei 2 anos. Dois anos da minha vida fazendo algo que detestava, dois anos que não voltam mais e que infelizmente não passaram rápido o suficiente. Dois anos fazendo algo intolerável, mas que tolerei por dois anos. E agora faço apenas a faculdade. E também odeio, e ainda falta PELO MENOS um ano para terminar. Mais um ano empenhado em algo que desprezo. Essa é minha vida.

Faço uma faculdade que odeio, como trabalhei em um emprego que odiava, pela razão mais cretina do mundo: porque “preciso fazer alguma coisa”. Todo mundo “precisa fazer alguma coisa”, porque é o que você faz que te define. Não QUEM você é, mas O QUE você é. E O QUE você é é imediatamente definido como sendo “O que você faz?”. Quem você é é subjetivo, intangível, indeterminado. Varia de acordo com o julgamento de quem observa, as circunstâncias, o momento. Isso não serve para quem precisa dizer quanto você vale. De acordo com esse critério, um estivador pode valer mais do que um engenheiro. Daí utilizamos o outro critério: O que você é? O que você faz? Isso é determinável, imediato, documentado. Existe comprovação, daí render méritos.

Tome como exemplo o seriado House. Quem você é - um homem escroto, intratável, sarcástico e mal-resolvido - empalidece, em termos de valor, em vista do que você é - um médico competente, com conhecimentos impressionantes dentro da sua área de atuação. Não interessa se a pessoa que você é destrata gente que precisa de atenção e cuidado porque está com dor, com medo e diante da possibilidade real de morrer a qualquer instante. Desde que o que você faz seja o suficiente para mantê-las vivas, qualquer mau-trato é relevado. Essa é a mensagem que House passa: sendo bom no que você FAZ, é aceitável ser ruim em quem você É.

O que eu faço é informática. É o que estudo, é com o que trabalho. E é a área mais cretina e inútil de todas as áreas de trabalho. Em termos de ilha deserta - dia desses explico o conceito aqui -, tenho menos utilidade que uma galinha. Mas não tenho outro refúgio. Faço o que tenho que fazer porque tenho que fazer algo. Estou próximo ao fim dos meus 20 anos, é a hora (passou da hora, na verdade) de decidir O QUE eu quero ser, já que QUEM você quer ser infelizmente não é uma questão voluntária.

Deveria ter decidido isso aos 18, 19 anos, como tanta gente faz, todos os dias. E eu acharia incrível que essas pessoas tenham essa capacidade, mas atribuo tamanha impulsividade à falta de maturidade e visão de futuro que são peculiares aos adolescentes. É tanta coisa para se fazer, mas TANTA. COMO alguém consegue decidir isso? Como alguém acorda e pensa “É isso que quero fazer, daqui pro resto da minha vida”? “É aqui que eu quero viver”? “É com ela/ele que quero ficar”? Existem TANTAS opções, putaquepariu. O que é preciso pra tomar uma decisão dessas? Determinação ou pequenez de espírito? O que quer que seja, me falta.

O problema é essa raiva que sinto em saber que faço algo que não gosto. Em TER QUE FAZER algo que não gosto, porque PRECISO fazer alguma coisa. Não interessa se serei infeliz, desde que tenha o rabo cheio de dinheiro. Se me sinto inseguro e sem qualquer aptidão para a coisa, já que dizem que nasci pra isso. Quem diz que nasci pra isso não sabe do que isso trata, o que isso requer e certamente não faz idéia para o que eu nasci. Mas quanto à última parte não posso criticar, pois também não sei. Sei para o que NÃO nasci, e é só. Não nasci pra ser jornalista ou publicitário, músico, engenheiro ou arquiteto, médico ou advogado, professor ou pesquisador. Entendo e concordo que citar Legião Urbana é caído, mas farei uso desta vez, e desta vez apenas: não há verdade maior sobre mim do que a frase “Acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto”. Infelizmente não vou faturar um centavo enumerando as coisas das quais não gosto, ou ficaria milionário, certamente. É triste, mas o “mercado”, essa entidade superior e intocável, nos força a isso. A fazer coisas que não queremos para conseguir dinheiro e comprar coisas de que não precisamos.

Tyler Durden, nessa tamos juntos, amigo.