Em outubro do ano passado, certo dia fui abordado no MSN por um imbecil filho da puta. Ele veio perguntar se eu não tava a fim de rabiscar uma porcaria qualquer pra tirar o cu dele da reta. Não sou escritor e não pretendo ser escritor, então não admito a possibilidade de ganhar dinheiro escrevendo. O imbecil tratou de me tranqüilizar, ressaltando que eu não iria receber um puto furado pela colaboração. Sendo assim, não vi mal algum e topei.
A coluna trata de “vida virtual”, seja lá o que isso signifique. Justamente por não ter muita idéia do que “vida virtual” quer dizer, o anormal me mandou, a título de exemplo, colunas dos meses anteriores falando sobre o assunto. Imediatamente percebi que aquela função estava muito além das minhas capacidades. Meus antecessores todos eram sujeitos que escrevem blogs descaradamente competentes: Paulo Vivan e Nelson Moraes já tiveram textos publicados ali.
Me vi acometido por um leve ataque da Síndrome de McFly. Como o fechamento da edição seria dali a dois dias e eu não ia me negar a prestar um favor depois de ter aceitado, comecei mentalmente a rabiscar alguma coisa referente ao assunto. Como é da minha natureza ir contra a corrente, achei que seria muito mais interessante, em vez de apontar aspectos bacanas da infernet e vantagens que ela traz para a vida dos viciados, doentes e psicóticos em geral “internautas”, citar algumas das dores de cabeça e aborrecimentos que ela pode causar aos desavisados. Foi o que fiz.
E fiz mal. Escrevi sob pressão (minha, mas pressão, de qualquer maneira). Me lembrei por que eu não sirvo pra trabalhar escrevendo: toda vez que alguém me pede pra redigir um texto sobre um tema específico, sai uma porcaria. Não soa natural, não tem fluência. É artificial, claramente artificial, visivelmente falso. Como um arremedo de alguma coisa que, sob condições normais, até poderia ser notável. Sob pressão, entretanto, sai disforme, sem-graça, insossa, desprezível.
Não sou um escritor, não quero ser escritor, nunca serei escritor. Por várias razões. Uma delas é essa: sob pressão, meu nível de qualidade, que é medíocre - outra das razões -, torna-se negativo.
Fiquem com essa coisa ruim, patética, sem-graça e fraca que acabou sendo publicada, de todo modo. Porque a revista não tinha nada pra colocar no lugar, porque o imbecil, como o mau-caráter falso que sempre foi, preferiu não descartar o fruto podre do esforço que fiz para ajudá-lo.
Muita gente costuma mencionar como a Internet “aproxima” as pessoas. Para sustentar essa afirmação, falam de amizades, paixões, amores e casamentos que surgem graças à rede mundial de computadores. Porque, veja só, hoje em dia você e um chinês de nome impronunciável – do qual você nunca teria ouvido falar se não tivesse um computador com alguns periféricos e uma linha telefônica – podem ser os melhores amigos do mundo. É possível? É possível.
É provável?
Não, não é.
Do meu ponto de vista, a Internet é, além de um enorme e frívolo repositório de inutilidades, a azeitona sobre a empada passada que há de desencadear a guerra capaz de aniquilar a sociedade como a conhecemos. É possível, sim, fazer amigos pelo mundo todo navegando em sites, fóruns, blogs e outras ferramentas que compõem a assim chamada “web 2.0”, mas é mais provável que você faça inimigos.
Pense bem: a Internet baseia-se, majoritariamente, em informações escritas. Você escreve algo e deixa lá, esperando que alguém chegue até ali - provavelmente por intermédio do google - e leia. Por mais que você se esforce em parecer dócil, afável e compreensivo ao expor suas idéias, existe uma série de fatores – que variam desde seu controle da linguagem escrita até a vida sexual do leitor – que podem tornar suas idéias horrivelmente acintosas e dignas de uma resposta repleta de adjetivos pouco construtivos, que não vou reproduzir aqui mas que, tenho certeza, os leitores conhecem muito bem.
Ataques de fúria podem (e vão) surgir dos assuntos mais inesperados. Inimigos vão aparecer imprevisivelmente. Antes que você se dê conta, estará unido a alguém que vive do outro lado do globo, que trabalha enquanto você dorme e dorme enquanto você trabalha, que se sujeita a um conjunto de leis totalmente diferente do seu e que pensa em um idioma do qual você provavelmente não conhece uma palavra. Alguém que existe em outro universo, enfim, nutrirá por você uma raiva só igualada pela fúria que você sente quando aquele vizinho que gosta de ouvir música alta liga o som às 9 horas da manhã de sábado.
É essa a lição que a internet está nos ensinando: que as pessoas são irritantes em qualquer lugar do mundo, que não há refúgio seguro contra os inconvenientes. A vida virtual está nos tornando mais cultos, talvez, mas também mais cínicos, mais desconfiados e mais descrentes quanto ao bom-senso da humanidade. A Internet veio para semear a discórdia (e a pornografia, mas isso já é outro assunto).
