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Fatos da vida

Mulher é igual caneta bic: você passa um tempão adquirindo essas porcarias só pra se decepcionar e passar raiva. Elas não valem nada, falham justo quando são mais necessárias, estouram sem explicação aparente, parece que só trabalham bem na mão alheia.

Daí um dia você encontra uma que funciona com você, em qualquer situação.
É quando vem um filho da puta e te rouba essa merda na maior cara dura.

(sinta-se livre para trocar “mulher” por “homem”, se é com isso que você se relaciona e se a analogia te parece adequada)

Dos princípios quânticos aplicados

- Oi.
- Oi.
- Poxa, tava lembrando agora daquela nossa conversa de ontem.
- Lembrando do quê?
- Da conversa. Foi ótima.
- Ué, foi igual às que tivemos nos outros dias.
- É, foi, mas foi… sei lá, foi diferente.
- Não pode ter sido igual e diferente.
- Ah, ontem foi tão legal!
- Então nos outros dias foi um saco?
- Não, é que ontem… ontem foi diferente, pô.
- Desenvolva.
- Eu não sei explicar.
- Você sabe. Não quer. Mas sabe. Eu desenvolvo, então.
- Então desenvolve.
- Você achou que ontem foi tão legal porque está irresistivelmente atraída por mim.
- …
- Não é?
- Quem disse isso?
- Eu disse, agorinha mesmo. Acabei de dizer.
- E de onde você tirou essa idéia?
- Não era uma idéia.
- Não?
- Não.
- O que era?
- Uma sugestão.
- Não tô entendendo.
- É o princípio da incerteza.
- Entendi menos ainda.
- Você conhece o princípio da incerteza?
- Hm… não.
- É uma teoria da física quântica que diz – e essa é uma explicação a grosso modo – que, ao determinar a posição de um elétron, por exemplo, o instrumento de medida usado para definir essa posição irá alterar a posição ou velocidade do elétron.
- Você… você tem idéia do quanto isso não faz sentido aqui?
- Faz, sim. É que você não tá pensando de forma análoga.
- Eu ainda nem entendi o que você quer dizer!
- O que eu quero dizer é que quanto mais precisa for a medida de um fato, maior a chance de você obter não um resultado exato e atual, mas um resultado exato de como as coisas eram ANTES da sua intervenção para descobrir como as coisas eram. A partir do momento em que você intervém, você sabe como elas eram, mas não como elas são. E você precisa se lembrar que somos constituídos de partículas subatômicas, o que significa que, em algum grau, o princípio da incerteza também se aplica a nós.
- E onde entra sua sugestão, nisso tudo?
- Bom, isso já foi algum trabalho de dedução da minha parte. Você nunca disse que NÃO queria ficar comigo ou que NÃO estava atraída, e eu presumi, ao te ver me tratando dessa forma tão desembaraçada, que: 1) você nunca parou pra considerar a idéia de me ver interpretando o que você sente por mim como atração e reagindo positivamente a respeito, ou 2) você já considerou e era exatamente sua intenção. Como não te acho uma criatura dissimulada, do contrário nem perderia meu tempo falando com você, vou descartar a segunda hipótese. Tá acompanhando?
- Tô. E isso até que faz sentido.
- Então, se você nunca parou pra pensar em como reagiria caso eu achasse que você está dando em cima de mim, você ainda não tinha estabelecido, dentro da sua cabeça, que a idéia de ficar comigo é repulsiva. Do contrário, agiria de maneira mais contida, de forma a não nos conduzir a uma situação desagradável. A menos, claro, que você seja totalmente inconseqüente, o que significa ser bastante estúpida, coisa que eu sei que você não é. Matamos aí essa possibilidade, portanto.
- Sei.
- Ou seja: você pode nunca ter pensado “É, eu quero ficar com ele”, mas também nunca pensou “Eu NÃO QUERO ficar com ele”. É aí que entra o princípio da incerteza.
- Como assim?
- Ao sugerir que você estava atraída por mim, tudo o que eu fiz foi sondar com absoluta precisão a sua posição em relação a esse assunto. Tinha uma idéia de onde você estava, mas nada cientificamente comprovado. Agora confirmei. Entretanto, graças a isso você está fatalmente se movendo pra outra posição, porque meu instrumento de análise interferiu significativamente com a situação.
- Nossa, agora até que faz sentido todo esse monte de absurdos científicos que você disse.
- E, como você ainda não disse que NÃO, se não estava atraída por mim ANTES, está ficando AGORA.
- Você é descomunalmente nerd!
- E você não resiste a isso.

Da culpabilidade dos atos

Pacientemente, o homem observa o banco. Analisa esquemas de segurança. Anota horários de entrada e saída de funcionários, datas de envio e recebimento de malotes. As empresas procuram alternar, mas ele identifica o padrão. Mais alguns meses de observação e suas teorias se comprovam. Seus cálculos estão certos. É possível prever quando o dinheiro estará no cofre.

O tempo passa. Sondando bibliotecas públicas, surgem as plantas baixas do edifício, publicadas em livros de arquitetura graças a seu tombamento histórico. Mais observação e é possível descobrir a empresa responsável pela segurança eletrônica. Pesquisas na internet resolvem o resto. O sistema é bom, mas, como qualquer outro, não é infalível. Ele tem o método. Ele tem os meios. Ele tem o plano.

Fazendo uso de todos os recursos possíveis, ele entra no prédio. É noite, apenas um segurança está no local. Ele se esconde nas sombras e aguarda. Aguarda. Aguarda. Aguarda por horas por algo que não vem. Então toma a iniciativa e vai atrás do que queria. Presume não haver segurança. Imagina que o homem dorme, cansado graças a sua rotina de muito trabalho para pouco pagamento.

Ele chega ao cofre. Desmantela alarmes, câmeras e sensores pelo caminho. Suas noções de eletrônica e sua pesquisa sobre o sistema de segurança tornam aquela invasão – para muitos, impossível – um passeio no parque. Ele desarma o cofre… encontra um ferrolho. Um ferrolho simples, com um cadeado. Que ele não sabe como abrir, não tem ferramentas para arrombar. Irrita-se, sente-se frustrado. Vai embora, deixando tudo como estava. A invasão é detectada, assim como também é possível notar que nada sumiu.

Mesmo assim, o homem é preso.

A acusação alega que tentar roubar já te torna um ladrão. Sair com o produto do seu roubo em mãos só te confere, como diferencial, a competência.

A incompetência não te inocenta.
Te faz duas vezes culpado.

Náufragos

Conheceram-se aleatoriamente, em circunstâncias difíceis de explicar, mas a atração mútua foi imediata. Deram-se as mãos e caminharam por um cenário um tanto bucólico, até chegarem à beira de um lago. Encontraram ali um pequeno barco com dois remos. Resolveram dar um passeio entre os cisnes, passar sob aquela pontezinha em arco, quem sabe parar lá no meio e assistir ao pôr-do-sol.

Ele tomou os remos, ela insistiu para remar também. Remaram juntos, pois. A partir de um certo ponto, entretanto, ele se distraiu. Não fez por mal, era apenas de sua natureza voltar a atenção para outras coisas, eventualmente. E do mesmo jeito que seu foco mudava para uma ave que passava, ou um vulto de peixe movendo-se sob as águas, também retornava para ela e o que ela dizia.

Não foi o bastante. Aquelas doses de atenção não eram o que ela queria. Ela queria atenção total, queria vê-lo imerso em seu mundo. Ele não era de imergir em nada, simplesmente porque não era. Aos olhos dela, entretanto, era descaso, e vai explicar que focinho de porco não é tomada!

Ela começou a demonstrar certo aborrecimento, tristeza. Ele sorria e tentava tranqüilizá-la, mas aquele olhar fugidio que não permanecia fixo no dela era irritante demais. Percebeu então que remava sozinha. Ele estava absorto olhando para o céu, para nuvens, para pássaros.

Ela deu um chilique brusco e virou o barco.

Fodeu tudo de uma vez e pronto.