Arquivo da categoria 'youtube'

O Corvo (The Raven)

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais.”

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P’ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo:
“É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais.”

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
“Senhor”, eu disse, “ou senhora, de certo me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo
Tão levemente, batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi…” E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse os meus ais,
Isto só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
“Por certo”, disse eu, “aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.
Meu coração se distraia pesquisando estes sinais.
É o vento, e nada mais.”

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um Corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nenhum momento,
Mas com ar sereno e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
“Tens o aspecto tosquiado”, disse eu, “mas de nobre e ousado,
Ó velho Corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome “Nunca mais”.

Mas o Corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento,
Perdido murmurei lento. “Amigos, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais.”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
“Por certo”, disse eu, “são estas suas vozes usuais.
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entorno da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp’rança de seu canto cheio de ais
Era este “Nunca mais”.

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu’ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele “Nunca mais”.

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
“Maldito”, a mim disse, “deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!”
Disse o Corvo, “nunca mais”.

“Profeta”, disse eu, “profeta - ou demônio ou ave preta! -
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, e esta noite e este segredo
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

“Profeta”, disse eu, “profeta - ou demônio ou ave preta! -
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,
Dize a esta alma entristecida, se no Éden de outra vida,
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

“Que esse grito nos aparte, ave ou diabo”, eu disse. “Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

E o Corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda,
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha dor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais.
E a minh’alma dessa sombra que no chão há de mais e mais,
Libertar-se-á… nunca mais!

De Edgar Allan Poe
Tradução de Fernando Pessoa (1924)

E - de lambuja - o texto original, narrado por ninguém menos que Christopher Walken:


Astro(i)lógico

Eu caio num blog. O último texto publicado, figurando no topo da página, é sobre “Into The Wild”, com aquela foto sensacional do Emile Hirsch sobre o ônibus abandonado.

E é um show de baboseiras, uma atrás da outra. Chego ao fim, perplexo, e vou, por curiosidade, ler o perfil do dono do blog. Que começa, vejam só, com o signo do cidadão.

Com o signo.
A pessoa se define assim.

Pelo signo.

Essa carência protéica na primeira infância definitivamente fode as sinapses das pessoas até o fim da vida…

(e isso só me lembra Big Bang Theory:


Penny: Eu sou de sagitário, o que provavelmente diz a vocês muito mais do que precisam saber…
Sheldon: Sim. Nos diz que você participa da cultura de ilusão em massa que acha que a posição aparente do sol na hora do seu nascimento em relação a constelações definidas arbitrariamente de alguma maneira afeta sua personalidade.

Esquizofrenia musical

Sério, que porra é essa última música do Coldplay? O que vem a ser aquilo? Qual o cabimento de uma narrativa sobre a tomada de Jerusalém por um exército de romanos feita por um suposto ex-líder mundial?

Chris Martin sempre beirou a esquizofrenia, mas acredito que ficar ali, na linha do absurdo, cansou o cidadão. Ele resolveu mergulhar de cabeça no profundo abismo dos devaneios com encarnações de personalidades históricas. Qual será o próximo passo? Escrever uma música narrando, sob o ponto de vista de Napoleão, sua infeliz derrocada diante dos ingleses em Waterloo?

A grande discussão a respeito dessa música gira em torno dela ser ou não o plágio de uma canção tão fraquinha - porém grudenta - quanto, composta por uma versão bigoduda do Chris Crocker, ou de uma outra música com a qual, na minha humilde opinião, guarda semelhanças muito maiores, do guitarrista Joe Satriani. Considero falho esse ponto, entretanto. A luz está sendo jogada em aspectos muito pouco importantes. O que deveria de fato ser mencionado, não o é: que tipo de produtor estúpido não só aprova como distrubui, como música de trabalho, uma letra cujo refrão fala de cavalarias romanas, espadas e escudos em cerco a uma cidade medieval?

É como gravar e distribuir, como se fossem coisa séria, as hoedowns e irish drinking songs de Whose Line Is It, Anyway?: fica engraçado em um programa de comédia, mas, fora daquele contexto, é só mais uma porcaria qualquer empurrada goela abaixo da população à base de repetições ad nauseam.

Bones

The Killers e Tim Burton. O que mais eu poderia pedir?
Pro volume do video estar um pouco mais alto, talvez…

Mas que isso fique pra lá. Cantemos juntos, crianças:

Come with me!

We took a back road,
We’re gonna look at the stars
We took a back road in my car
Down to the ocean,
It’s only water and sand
And in the ocean, we’ll hold hands

But I don’t really like you
Apologetic and dressed in the best
But on a heartbeat glide
Without an answer, the thunder speaks from the sky
And on the cold, wet dirt I cry
And on the cold, wet dirt I cry

Don’t you wanna come with me?
Don’t you wanna feel my bones on your bones?
It’s only natural

A cinematic vision ensued like the holiest dream
It’s someone’s calling?
An angel whispers my name
but the message relayed is the same:
“Wait till tomorrow, you’ll be fine.”

But it’s gone to the dogs in my mind
I always hear them when the dead of night comes calling
To save me from this fight

But they can never wrong this right

Don’t you wanna come with me?
Don’t you wanna feel my bones on your bones?
It’s only natural.

Don’t you wanna swim with me?
Don’t you wanna feel my skin on your skin?
It’s only natural.

Never had a lover,
Never had soul.
Never had a good time,
Never got gold.

Don’t you wanna come with me?
Don’t you wanna feel my bones on your bones?
It’s only natural.

Don’t you wanna swim with me?
Don’t you wanna feel my skin on your skin?
It’s only natural.

Don’t you wanna come with me?
Don’t you wanna feel my bones on your bones?
It’s only natural.

Come and take a swim with me.
Don’t you wanna feel my skin on your skin?
It’s only natural.

Change your mind


We’re all the same
And love is blind
The sun is gone
Before it shines

And I said “if the answer is no
Can I change your mind?”

And if the answer is no…
Can I change your mind?

Top 5 Batidas Mais Grudentas

1. O teclado chiclete de Take On Me (A-Ha)
2. A guitarra de caixinha de música d’O Rock Acabou (Moptop)
3. O guitarrão motoqueiro de Legacy (The Gone Jackals)
4. O baixo muito doido de Crazy (Gnarls Barkley)
5. A guitarra arrependida de All These Things That I’ve Done (The Killers)

E no teu córtex, o que é que gruda?

(Pensei em colocar aqui nomes de pessoas pra quem eu gostaria de perguntar isso, mas algum idiota poderia chamar esta porra de “meme” e sair espalhando, então é melhor deixar que responda quem quiser, aí nos comentários ou onde achar melhor)