Eu caio num blog. O último texto publicado, figurando no topo da página, é sobre “Into The Wild”, com aquela foto sensacional do Emile Hirsch sobre o ônibus abandonado.
E é um show de baboseiras, uma atrás da outra. Chego ao fim, perplexo, e vou, por curiosidade, ler o perfil do dono do blog. Que começa, vejam só, com o signo do cidadão.
Com o signo.
A pessoa se define assim.
Pelo signo.
…
Essa carência protéica na primeira infância definitivamente fode as sinapses das pessoas até o fim da vida…
(e isso só me lembra Big Bang Theory:
Penny: Eu sou de sagitário, o que provavelmente diz a vocês muito mais do que precisam saber… Sheldon: Sim. Nos diz que você participa da cultura de ilusão em massa que acha que a posição aparente do sol na hora do seu nascimento em relação a constelações definidas arbitrariamente de alguma maneira afeta sua personalidade.
Sério, que porra é essa última música do Coldplay? O que vem a ser aquilo? Qual o cabimento de uma narrativa sobre a tomada de Jerusalém por um exército de romanos feita por um suposto ex-líder mundial?
Chris Martin sempre beirou a esquizofrenia, mas acredito que ficar ali, na linha do absurdo, cansou o cidadão. Ele resolveu mergulhar de cabeça no profundo abismo dos devaneios com encarnações de personalidades históricas. Qual será o próximo passo? Escrever uma música narrando, sob o ponto de vista de Napoleão, sua infeliz derrocada diante dos ingleses em Waterloo?
A grande discussão a respeito dessa música gira em torno dela ser ou não o plágio de uma canção tão fraquinha - porém grudenta - quanto, composta por uma versão bigoduda do Chris Crocker, ou de uma outra música com a qual, na minha humilde opinião, guarda semelhanças muito maiores, do guitarrista Joe Satriani. Considero falho esse ponto, entretanto. A luz está sendo jogada em aspectos muito pouco importantes. O que deveria de fato ser mencionado, não o é: que tipo de produtor estúpido não só aprova como distrubui, como música de trabalho, uma letra cujo refrão fala de cavalarias romanas, espadas e escudos em cerco a uma cidade medieval?
É como gravar e distribuir, como se fossem coisa séria, as hoedowns e irish drinking songs de Whose Line Is It, Anyway?: fica engraçado em um programa de comédia, mas, fora daquele contexto, é só mais uma porcaria qualquer empurrada goela abaixo da população à base de repetições ad nauseam.
The Killers e Tim Burton. O que mais eu poderia pedir?
Pro volume do video estar um pouco mais alto, talvez…
Mas que isso fique pra lá. Cantemos juntos, crianças:
Come with me!
We took a back road,
We’re gonna look at the stars
We took a back road in my car
Down to the ocean,
It’s only water and sand
And in the ocean, we’ll hold hands
But I don’t really like you
Apologetic and dressed in the best
But on a heartbeat glide
Without an answer, the thunder speaks from the sky
And on the cold, wet dirt I cry
And on the cold, wet dirt I cry
Don’t you wanna come with me?
Don’t you wanna feel my bones on your bones?
It’s only natural
A cinematic vision ensued like the holiest dream
It’s someone’s calling?
An angel whispers my name
but the message relayed is the same:
“Wait till tomorrow, you’ll be fine.”
But it’s gone to the dogs in my mind
I always hear them when the dead of night comes calling
To save me from this fight
But they can never wrong this right
Don’t you wanna come with me?
Don’t you wanna feel my bones on your bones?
It’s only natural.
Don’t you wanna swim with me?
Don’t you wanna feel my skin on your skin?
It’s only natural.
Never had a lover,
Never had soul.
Never had a good time,
Never got gold.
Don’t you wanna come with me?
Don’t you wanna feel my bones on your bones?
It’s only natural.
Don’t you wanna swim with me?
Don’t you wanna feel my skin on your skin?
It’s only natural.
Don’t you wanna come with me?
Don’t you wanna feel my bones on your bones?
It’s only natural.
Come and take a swim with me.
Don’t you wanna feel my skin on your skin?
It’s only natural.
1. O teclado chiclete de Take On Me (A-Ha) 2. A guitarra de caixinha de música d’O Rock Acabou (Moptop) 3. O guitarrão motoqueiro de Legacy (The Gone Jackals) 4. O baixo muito doido de Crazy (Gnarls Barkley) 5. A guitarra arrependida de All These Things That I’ve Done (The Killers)
E no teu córtex, o que é que gruda?
(Pensei em colocar aqui nomes de pessoas pra quem eu gostaria de perguntar isso, mas algum idiota poderia chamar esta porra de “meme” e sair espalhando, então é melhor deixar que responda quem quiser, aí nos comentários ou onde achar melhor)
Sou um cético com tendência ao ateísmo, um agnóstico dado a heresias, um piadista que prefere irritar a fazer rir, um leitor que enriquece seu vocabulário a cada livro, mas prefere usar palavrões por acreditar que ser chulo é mais legal do que ser prolixo, um cínico que elogia pra não xingar e xinga elogiando, um grosseiro bem-educado que é ríspido por opção, um sujeito amigável que não quer fazer amigos, um cara cheio de amigos que raramente vê, porque gosta mais deles assim. Apesar de tantas contradições, há um aspecto em tudo isso que é bastante coerente: eu não faço o que se convencionou chamar de “engenharia social”. Não me relaciono com ninguém por qualquer outra razão que não seja o fato de querer ver a pessoa, ir com a cara dela, gostar de suas idéias ou da maneira como ela as desenvolve. É tudo muito simples, de verdade: se te elogio de forma direta, brutal, rude, é porque de fato gosto de você. Se te elogiar com um belo vocabulário, com afetação, me certificando de elevar à enésima potência todos os seus atributos - inclusive os que você não tem - estou sendo irônico.
Sou contra essa brincadeirinha atual, essa regra não declarada, de ser simpático, gentil, polido, educado e politicamente correto. Muito, muito contra. Não admito quem seja simpático com todos, quem é amigo de todos, quem convive bem com todos, simplesmente porque uma coisa dessas não é humanamente possível. Não admito quem dobra a verdade, a distorce ou fecha os olhos em face dela para manter a “boa convivência”. Não acredito que seja certo sair por aí com suas verdades, esfregando-as na cara dos outros, colando-as nas costas dos outros como se fossem etiquetas, também, mas daí a ignorá-las para evitar o atrito? Oras, é preciso ter critérios. Preconceitos são uma falha horrorosa, mas não ter conceito algum não é menos medonho.
Saber fazer ouvidos moucos às suas verdades, aos fatos desagradáveis sobre as pessoas que você conhece; saber ignorar o que te desagrada e demonstrar falsa simpatia; se aproximar sorrindo para conseguir simpatia; ser gentil e cordial, solícito e prestadio, porque assim te parece mais vantajoso. Isso não é “ser bom” e está longe de ser “ser justo”.
Isso é ser político.
Vai daí que uma das minhas aversões à política - nos dois sentidos - que se instaurou entre os blogs atuais seja justamente em relação a esse ponto. As “parcerias”, como gostam de chamar. Me aborrece saber que o autor de um blog que eu leio me recomenda, em sua lista de links, com direito a posto privilegiado para dar mais visibilidade, o site de alguém apenas porque o determinado site prometeu mais visitas, o que significa mais pageviews, o que significa mais dinheiro vindo do google adsense. Não há um critério que justifique aquela indicação além desse: quantas ovelhas você pode mandar para o meu rebanho, quantas posso mandar para o seu? É o toma-lá-dá-cá.
Muitos desses sites não têm um texto mais elaborado escrito pelo autor (perdão por usar o termo levianamente). As idéias do “autor” não estão ali. Provavelmente nem existem. São apenas amontoados de notícias, comentadas superficialmente. São a mesma coisa que você leria se entrasse em qualquer site de notícias, mas geralmente focadas em esquisitices ou curiosidades. Porque linkar notícias políticas e comentá-las com propriedade exige muito mais raciocínio e bom-senso do que falar de um novo tipo de camiseta, de cortes de cabelo ou de mortes, casamentos, gravidezes (??) de famosos. Porque ser racional (mas nem precisa ser muito), lógico (ainda que de forma esquisita) e articulado (sem ser prolixo) é muito difícil. Contar as coisas, em vez de comentá-las, analisar as coisas, no lugar de mostrá-las, examinar as coisas, e não apenas apontá-las, puxa, tudo isso dá um trabalho miserável.
É uma era maldita. Computadores eram essencialmente baseados em leitura. A web era essencialmente leitura! Não tinha muito a se fazer na internet além de ler e escrever. Páginas eram puro texto, só html e imagens. À medida que a tal “inclusão digital” foi se expandindo, o formato da mídia também foi. Por que ler, se você pode ver um vídeo? Por que ler, se você pode ver figuras? “Esse texto é muito longo. Cadê os vídeos engraçadinhos?”. “Esse blog tem muitas letras. Distribui umas imagens para fazê-lo mais didático”. “Você escreve demais. Coloca aí uma figura com uma piada”. Daí o sucesso indiscutível de kibe loco e assemelhados, daí o fato de todos - eu não digo alguns, digo TODOS - os blogs que se proclamam “veículos de informação” serem apenas montes de links para notícias com comentários superficiais. Nenhuma opinião que saia do padrão, nenhuma piada que aquele seu tio que pergunta se “É pavê ou pacomê?” não pudesse fazer melhor.
Por que ler um blog, afinal, se você pode apenas VER um blog?
Tudo isso vai lentamente me empurrando porta afora desse tipo de coisa. Porque, quando o assunto é blog, sou um reacionário. Eu gosto de pensar, eu gosto de ler coisas novas. Gosto de me deparar com textos de caras que sabem pra caralho, mas que não são prolixos e não arrotam conhecimento - como os jornalistas que escrevem por aí - e pensar “Mas veja você, eu nunca tinha visto as coisas por esse ângulo!”. Os - poucos - blogs que me conduzem a isso, que me fazem pensar “Não sei por que ainda escrevo, esse cara fala tudo com muito mais categoria do que eu” estão lentamente sendo sugados para a propaganda desesperada e a “busca por parcerias”, porque o autor resolveu que quer viver disso e está trabalhando em seu projeto de engenharia social.
Odeio ser um conservador, mas é como me sinto. Como um desses sujeitos que resistem ao que se conhece como “modernização”. Sou desapegado, “pouco profissional” com essa ferramenta, teimoso, pouco sociável. E por quê? Porque não quero ganhar dinheiro, porque quando alguém paga suas contas, restringe sua liberdade de opinião. Porque não quero me encher de leitores, porque não quero milhares de comentários e milhares de opiniões dispensáveis espalhadas aos pés dos meus textos, que, embora não sejam grande coisa, são bons demais para coisas do tipo “ahuehauehaueh mt rox”. É como se eu tivesse um filho: ainda que não quisesse superprotegê-lo, também não seria certo deixar que se tornasse um escravo, um submisso ou um retardado.
Resumindo, para quem tem preguiça de ler, Saramago diz mais ou menos o mesmo que eu, embora com outro foco (e com muito mais categoria):
(E se você teve preguiça de ler, não sei por que continua vindo aqui…)