Não sou um fã xiita de quadrinhos. Por fã xiita, compreenda-se aqueles caras que não aceitam, de maneira alguma, qualquer mudança no personagem, que reagem intempestivamente à menor menção de alteração, seja qual for o aspecto. Não sou desses.
Fãs xiitas se manifestaram duramente contra a modificação do uniforme do Homem-Aranha, em meados da década de 80, durante as famigeradas Guerras Secretas. A decisão da Marvel de alterar o clássico uniforme do herói, a princípio repudiada pelos adoradores do escalador de paredes, desencadeou um arco de histórias tão vasto que só foi terminar, em 1988, com o surgimento de Venom, pelas talentosas mãos de Todd McFarlane e David Micheline. Com o tempo, vários daqueles que reagiram mal à simples idéia do Aranha passar de vermelho e azul para preto e branco perceberam que, no fim das contas, os resultados foram muito bons. Muitas daquelas histórias são, atualmente, lembradas com carinho como grandes clássicos. Histórias que definem quem o personagem é, qual o seu caráter e, portanto, devem ser lidas por qualquer um disposto a entrar no vasto clube de fãs de Peter Parker.
Depois disso, ainda fazendo uso de sua postura reaça, fãs xiitas reclamaram do casamento de Peter e Mary Jane. Era inconcebível, para eles, que o personagem, antes um solteirão convicto, preso a problemas pessoais que, em geral, diziam respeito apenas a ele - eventualmente também à sua tia -, passasse a ter alguém com quem dividir a vida. Novamente a sensação de desconforto e desaprovação foi embora de vez quando a dupla Micheline e McFarlane adotou o título.
Sem causar nenhuma mudança significativa no personagem, os dois conseguiram catapultar as vendas da revista. Apenas fizeram uso dos grandes recursos que o Homem-Aranha sempre teve à sua disposição. Poucos, depois de Stan Lee e Steve Ditko, souberam compreender e, por conseqüência, desenvolver de forma tão admirável o personagem. Michelin e MacFarlane são alguns desses.
Nenhuma das alterações acima me aborreceu. Embora tudo isso já tivesse acontecido à época em que comecei a ler os quadrinhos do Aranha, só fui tomar conhecimento dessa “nova” vida do personagem quase dois anos depois de comprar minha primeira edição. Eu lia apenas A Teia do Aranha, que publicava histórias antigas, geralmente do meio para o fim da década de 70 e começo dos anos 80, com roteiros de Gerry Conway, Jim Shooter, Bill Mantlo, Tom DeFalco. Às vezes encontrava até uma ou outra história do próprio Stan Lee e foi também onde tive os primeiros contatos com roteiros de Peter David e Frank Miller.
Quando passei a comprar, além da A Teia do Aranha, também as edições de Homem-Aranha, foi depois da saída do MacFarlane. As histórias ainda eram escritas pelo Micheline e os desenhos ficavam, em sua maioria, a cargo de Erik Larsen ou Sal Buscema. Venom já existia. Peter e Mary Jane já eram casados. Um ou outro vilão escapava ao meu (pouco) conhecimento. Fora isso, ainda era o mesmo herói piadista que bancava o fotógrafo freelancer enquanto, nas horas vagas, tentava cuidar da tia velha.
O Homem-Aranha, enfim.
Então a Abril resolveu sincronizar os dois títulos. Homem-Aranha e Teia do Aranha teriam histórias recentes. David Micheline cedeu o posto de principal roteirista a J. M. DeMatteis, que era (e ainda é!) muito bom. A abordagem deste era sensivelmente diferente daquela usada por seu predecessor. Enquanto Micheline valorizava a ação, DeMatteis impregnava as histórias com uma carga emocional mais intensa. Foi mais ou menos nessa época que o aranha se tornou um vingador reserva. Foi por aí, também, que Venom ressurgiu, apareceu o Carnificina e os dois se tornaram presença constante. As histórias ainda eram boas, porém, e eu não era um fã xiita, como já disse.
Daí DeMatteis e Micheline trouxeram de volta os pais de Peter Parker. E, apesar do meu pouco conhecimento, notei que alguma coisa ali fedia. Não me pareceu uma boa idéia, como não parece até hoje. Ressuscitar os pais de Peter Parker seria como trazer de volta seu tio morto. Essas decepções construíram a personalidade do Homem-Aranha, são traumas que fizeram dele o que é. Não se pode simplesmente contornar coisas assim, sob o risco de estragar completamente as bases que fundamentam todos os acontecimentos subseqüentes na vida dele. Mas eu não mandava em nada, como ainda não mando. Era apenas um leitor, o que que ainda sou.
A partir daí tudo degringolou. DeMatteis e Micheline, com sua cagada imperdoável, deram espaço para que Howard Mackie fizesse todos os estragos que queria. Mas não sozinho. Os dois ainda participavam, embora menos ativamente, das histórias do Aranha e esse trio matou os pais ressuscitados, colocou May Parker em coma e transformou o Aranha, de um herói bem-humorado e prestativo, em um sujeito tão violento, sombrio e pouco sociável que faria o Batman sentir inveja. Para fechar com chave de ouro tantos acontecimentos desastrosos, eles terminaram por trazer de volta, do limbo do esquecimento, de uma história escrita quase 20 anos antes por Gerry Conway (se não me engano), um clone do escalador de paredes. Até mesmo Conway mostrou surpresa com a decisão da Marvel e tenho certeza que, em seu íntimo, deve ter pensado “Mas que ideiazinha de merda!”.
Mas Gerry Conway, como eu, não apitava nada na Marvel. E foi lançada a saga do clone.
Surgiu Ben Reilly, vulgo “Aranha Escarlate”.Tia May morreu. Mary Jane ficou grávida. Com o “Aranha Escarlate” (deus do céu, que nome patético, impressionante como soa cada vez mais e mais ridículo com o passar dos anos!) veio uma nova leva de personagens e supervilões, todos com origens e poderes “indeterminados”. O tipo de absurdo que você sabe que o roteirista ainda não tem como explicar, mas, na cabeça dele, está bolando qualquer porcaria que julga ser “plausível”.
Parker foi preso. O Chacal voltou. Peter foi solto e então foi revelado que aquele Peter Parker que todo mundo conhecia, que todo mundo acompanhava há 20 anos era, na verdade, o clone. Ben Reilly era o verdadeiro. E Peter abriu mão do uniforme, mudou-se de NY com sua mulher grávida. Ben passou a ser o Homem-Aranha, com um novo uniforme e histórias cheias de personagens totalmente desconhecidos. Enquanto isso, Peter perdeu os poderes. Voltou para NY. Morreu. Voltou na história seguinte.
As lambanças sucediam-se de tal maneira que era difícil acompanhar. E eu continuava lá, todo mês, desembolsando alguns dos meus poucos reais para levar para casa as revistas do aranha e passar raiva. Não sou um leitor xiita, mas sabia que aquilo ali era lixo, do legítimo. Um especialista em lixo provaria e diria, com um aceno de cabeça, que ali estava uma safra campeã. Howard Mackie fazia todos os absurdos que queria. Então matou o clone, trouxe Norman Osborn de volta à vida, revelou que toda a história do Peter ser falso não passava de uma enorme conspiração de seu arquiinimigo (supostamente) morto, desapareceu com o bebê que Mary Jane esperava e, para finalizar a onda de morre-mas-volta, tia May retornou para o mundo dos vivos.
Um tempo depois os roteiristas mataram Mary Jane. Mas ela voltou.
E eu passei por tudo isso. Com raiva, sim. Mas passei. Até que, no começo da década, aparentemente alguém soprou novo ar nos pulmões combalidos da Marvel. E então veio uma leva de novos roteiristas, novos artistas e novas histórias. Brian Michael Bendis recriou genialmente o universo Marvel em sua versão Ultimate. Mark Bagley uniu-se a ele para escrever o novo começo do Aranha (que não apaga o começo original, é uma versão paralela). Surgiram os Ultimates (Supremos, aqui no Brasil), que é a melhor coisa que alguém pode encontrar em quadrinhos nos tempos atuais. Brian Bendis também resolveu que era hora de alguém, 20 anos depois de Frank Miller, fazer jus ao Demolidor.
Enquanto isso as histórias do Homem-Aranha deram a impressão que iam sair da poça de lama também, principalmente quando Howard Mackie foi, FINALMENTE, substituído por J. Michael Straczinsky. E as primeiras edições foram ótimas, se comparadas com o que havia antes. Bastante promissoras.
Mas as coisas não continuaram assim por muito tempo…

sei como e rapaz. tambem adoro hqs. li x-men por mais de 10 anos, as varias fases dos caras, claremont/byrne, claremont/cockrum, claremont/smith, claremont/romita jr, blablabla… ate o lee. depois q o claremont saiu a coisa fudeu e talibanizei, so leio as antigas. dizem q o claremont voltou mais prefiro nao arriscar mais.
Retcons, cara. Odeie-os sempre, assim como os roteiristas que usam esse tipo de coisa.
E devo ser um dos 5 caras no mundo que não acham o Venom execrável.
Quero ver as repercussões da Guerra Civil pro Aranha, cuja identidade agora é (de novo) pública.
eu até curti o uniforme do “novo aranha”, cara, aquela coisa da aranha única, tipo a do venom.
Eu não li os quadrinhos, mas eu ficava bastante intrigado, no auge dos meus dez anos, quando no desenho rolava aquela história de universo paralelo onde ele encontrava outros sete homens-aranha. Ou então quando a Mary Jane morria e ele descobria que ela já estava morta há muito, e aquilo era só um clone.
Aquilo me intrigava deveras.
worpress, dominio, conteudo, rss.
isso sim.
me dás orgulho.
agora sim essa parada vai deslanchar.
qnto ao post, homem aranha , só curti mesmo os filmes e o desenho, e no terceiro fique iputo pois o venom, que era um microorganismo vivo e quando o peter pensava ele se vestia, tranformaram numa roupa q o peter tira a hora q quiser… totalmente ridículo…
flw
Como “de novo”, Guto? Nunca foi pública antes.
Eu gosto do uniforme negro também. E sempre achei o Venom um vilão que merecia mais respeito do que recebia. Acabaram com ele apenas por incompetência. Na falta do Duende Verde, ele era o antípoda ideal pro Homem-Aranha.
Pedro, não vou dizer com total certeza, mas eu lembro vagamente dela ter vindo a público em função daquelas histórias com o Clone. Acho que tinha até um julgamento envolvido na parada, uma coisa assim.
Mas sempre que um evento dessa magnitude surge sem que os editores calculem direito as consequências ele é posteriormente anulado por meio de alguma arbitrariedade. Síndrome de Feiticeira Escarlate, manja?