Das blasfêmias - Parte 2

(Se você acompanha quadrinhos, mas não o suficiente para saber do desenrolar de Guerra Civil, cuidado: este post contém spoilers!)

Em junho de 2002 (aqui no Brasil), terminando um árduo ciclo de absurdos, finalmente Howard Mackie se despediu das revistas do Homem-Aranha. No lugar dele entrou J. Michael Straczynski. E as primeiras histórias escritas por ele foram sensacionais. Provavelmente, se parar para relê-las agora, não me parecerão tão boas, mas compreenda: depois de cinco ou seis anos tendo em mãos porcarias que seriam capazes de afundar qualquer título - não fosse o Homem-Aranha tão popular -, qualquer história de nível médio para bom seria um colírio em olhos cansados.

Nessa época, graças a uma série de fatores, estava voltando a me empolgar com os quadrinhos. O primeiro, mais importante, eram as histórias do ultiverso. Por aqui estávamos, talvez, na oitava ou nona edição da Panini, mas eu já tinha lido até a décima, ou décima quinta, disponível gratuitamente no site da Marvel (essa mamata terminou, infelizmente). O trabalho de Brian Michael Bendis era novidade para mim (mas não o traço de Mark Bagley) e lembrou-me de uma sensação, à época, já esquecida: a ansiedade pela próxima edição. Também foi quando começou a sair Vagabond por aqui. O mangá de Takehiko Inoue, embora seja cada vez mais infreqüente - para dizer o mínimo -, ainda figura entre minhas revistas favoritas.

Também passei a comprar a revista do Demolidor, graças ao nome de Bendis, no começo de 2003. Mais ou menos pela época em que Straczynski começou a cagar no pau. Surgiu um tal Ezekiel, que tinha os mesmo poderes do Peter. Em seguida, começaram a ser cada vez mais comuns as insinuações de que os poderes aracnídeos seriam, na verdade, dons enviados por um tal tótem da aranha. Papo místico vem, papo místico vai, passei a me perguntar se o que tinha em mãos era uma revista do Homem-Aranha ou do Dr. Estranho. Então apareceu um tal Morlun, Peter foi brutalmente espancado, conseguiu derrotá-lo (de maneira mal explicada, mas conseguiu) e tia May descobriu sobre a identidade secreta de seu sobrinho. Peter, algum tempo depois, virou uma aranha gigante. Quando voltou ao normal, passou a produzir teia organicamente - como nos filmes - e seus lançadores foram aposentados.

Então Straczynski deu o golpe final. Criou uma história maluca na qual Gwen Stacy e Norman Osborn tiveram um casal de gêmeos em Paris. Por qualquer péssima e inverossímil - mesmo para uma história em quadrinhos de super-heróis - razão, dentro de cinco ou seis anos eles já tinham atingido tamanho adulto e, logicamente, foram para Nova York matar Parker. Achei essa uma idéia tão boa que deveria ter sido publicada na época da saga do Clone. Fez com que me perguntasse se Howard Mackie REALMENTE havia deixado de participar da revista do Aranha.

Enquanto isso, no Ultiverso, Brian Bendis começou a pisar fora da linha. Em suas mãos, o pobre Peter Parker de 15 anos sofria mais e mais para manter a identidade em segredo. Nick Fury mostrou saber exatamente quem estava por trás da máscara vermelha e cheia de teias do amigão da vizinhança abordando o garoto em seu colégio. Mary Jane já sabia. O Rei do Crime já o havia desmascarado, embora não soubesse quem era o rapaz sob a máscara. A idéia de que o Homem-Aranha era incapaz de ocultar sua identidade civil tornou-se lugar-comum.

E isso tomou parte também no universo 616 (a versão “padrão” da Marvel). De repente, todos os outros heróis sabiam exatamente quem era o sujeito sob a máscara. Antigamente, apenas Wolverine, o Demolidor e a Gata Negra tinham essa informação. Sem explicação alguma, Nick Fury também passou a tê-la. E o Capitão América. E os Vingadores. Parece que apenas J. Jonah Jameson não sabe que Parker e o Aranha são a mesma viscosa pessoa.

Estamos chegando onde quero, mas calma lá! Os disparates não param por aí. Na última saga publicada pela revista, chamada O Outro, Morlun voltou. Peter morreu. Retornou. E agora tem novos poderes. Como atualmente faz parte dos vingadores, o Homem de Ferro desenhou para ele um uniforme novinho.

Esse:

“Novo” Aranha

Certo. Lembrem-se que eu não sou um fã xiita e coisa e tal, mas, puta que pariu, se é pra avacalhar, porque não fizeram logo um uniforme rosa, sem estrelas e sem listras pro Capitão América? Quem sabe se trocassem a roupa do Homem de Ferro por um penico na cabeça e um cinturão de garrafas de água com gás para a propulsão do vôo?

Até a roupa do Ben Reilly era melhor, e olha que os lançadores de teia eram externos!

E, aqui no Brasil, é nesse pé que as coisas estão. O Homem-Aranha agora é uma subdivisão do Homem de Ferro, com um uniforme que imita as cores e funções da armadura de seu “tutor”. Como Peter Parker, tornou-se um garoto de recados de Tony Stark, um pau-mandado, um lambe-botas.

Guerra Civil vem aí. Nessa saga, o governo americano vai sancionar uma lei exigindo que todo vigilante mascarado se apresente para o governo e se cadastre, sob pena de ser preso como fora-da-lei. Alguns heróis serão contra essa medida, liderados pelo Capitão América. Outros vão se mostrar a favor. Liderados pelo Homem de Ferro. Entre eles, o Capacho-Aranha.

Seguindo a sugestão de seu “chefe”, Peter Parker vai se desmascarar em rede nacional de TV. A identidade “secreta” do Homem-Aranha, cada vez menos respeitada, vai desaparecer.

E eu não sou um fã xiita, mas a Marvel FINALMENTE conseguiu cruzar uma linha que eu não tolero. Não admito super-heróis com identidade pública. Por isso nunca gostei muito do Quarteto Fantástico, por isso nunca gostei muito do Capitão América. Por isso sempre gostei do Batman, essa é toda a graça do Super-Homem. Vou continuar comprando Homem-Aranha até o final de guerra civil. Até o final de Back in Black.

A partir daí, novas edições só em sebos.

A partir de dezembro, 14 anos depois da minha primeira revista do amigão da vizinhança, chega de quadrinhos do aranha pra mim.

13 Responses to “Das blasfêmias - Parte 2”


  1. 1 Paulo

    Você bem que poderia estar escrevendo belos artigos ao inves de matar uma pessoa inocente. Será que voce já se perdoou? O brasileiro tem memória fraca, mas a dor da família e até mesmo a dor que o índio inocente sentiu são inesquecíveis. Você se arrepende? O que fez para se tornar uma pessoa melhor? Os erros sempre voltam meu caro, e consequencias de atos CRUEIS como esse são irreverciveis. é claro que um comentário babaca como este não surtirá efeito, mas infelizmente eu não controlei meu impulso de indignação.

  2. 2 Guto

    O Aranha não fica com essa armadura cretina até o final da Civil War, muito menos do lado de um cara como o Homem-de-Ferro. Depois da Civil War tem o Hulk voltando pra Terra, e aí sim o bicho pega…

  3. 3 guilherme

    será que em 1986 depois das secret wars, quando o aranha, depois de 20 anos, trocou o uniforme azul e vermelho pelo preto, algum leitor se indignou e parou de ler o aracnídeo? penso que não. é falta de argumento bom mesmo.
    ps. faz ele feliz… perdoa ai pedro…

  4. 4 Márcio Morais

    Hahaha…
    Comédia esse comentário acima (vamos queimar alguém amanha? De preferência perto do CEUB, rss)…

    Mas vim aqui para falar que o último gibi (revistinha ou coisa do tipo que li) foi TURMA DA MÔNICA.

    Hahahaha… cara, eu via meus amigos (assim como vejo vc falar hoje) de revistas, x, homem-aranha, o batima (que era malzão, não como no desenho) e eu nunca entendi esse amor pelos quadrinhos, cara, eu juro que tento compreender… acho que eu sou um anormal… porque começava a riscar demais os desenhos (tipo, tio patinhas) eu já parava de ler!

    Então, como eu não sou lá dos mais xiitas em nada de quadrinhos, pra mim, qualquer coisa que eu ler fara total sentido…

  5. 5 Branco Leone

    Eu não posso acreditar que tem gente que acha MESMO que você é um dos caras que botou fogo no Pataxó. Ou vai ver, o babaca sou eu, que acreditei que essa asneira foi escrita a sério.

  6. 6 Across

    Eu parei de comprar depois que o Ozzy Osbourn… digo, o Norman usou aquele “quebra-cabeça” ganhou super poderes, inventou um jeito de transformar as pessoas em DNA, colocou uma bomba com esse “transformador” na cabeça da Tia May, o Reed Richards ia fazer a cirurgia e, por fim, o Aranha segurou o PRÉDIO do Planeta Diá…Clarim Diário nas costas e o N.O. ficou louco (DE NOVO???) e foi raptado por aqueles caras de preto, cujo nome eu esqueci…
    Vc tem um puta estômago.

  7. 7 sandro

    Nunca fui um grande fã do amigo da vizinhança, mas desde o surgimento do ultiverso posso dizer que me afeiçoei basante de Mr. Parker. Acredito que muito disso deve-se ao que Bendis tem feito com ele. Por isso acabei encarando Vingadores - A Queda (tadução infeliz) e Dinastia M. Gostei de ver que ele estaria espalhando seus tentáculos (!) pelo universo 616, mas o aranha de ferro é de foder, e ele tem um numero impar de “patas”, o que é pior…
    Acompanharei Guerra Civil só pelo hype, mas acredito que depois voltarei a colecionar somente Max (ainda q se Esquadrão Supremo) e o ultiverso.

  8. 8 Catavento

    Civil War é de foder…andei acompanhando-a pelo…hum…submundo, e achei muito interessante…
    Naum perca essa porra por nada.
    Pode ser que você ache um lixo…aliás, provavelmente você achará um lixo.
    Mas eu gostei pacas.
    E que estória é essa de índio Pataxó, caralho? Quem anda falando essas merdas por aí?

  9. 9 Paula Groff

    Medalha pra quem anda deixando frouxo essas porras de comentários engraçadinhos (?) de “oi, você queima-índio?”. Tô achando que essa história de truck driver life style é tudo falácia, hein.

  10. 10 Carolina Mendes

    Nossa, Vagabond é muito bom! Conhece Evangelion? E Blade?

  11. 11 Pedro

    Eu já vi o desenho de Eva, Carolina, e achei tão horroroso que não me interessei pelo mangá.

    Blade, por outro lado, nunca tinha ouvido falar, mas folheei o número um e achei o estilo do Samura tão FODA que comprei e venho colecionando (ou TENTANDO colecionar) desde então.

  12. 12 Carolina Mendes

    Blade é maravilhoso mesmo, o traço do Hiroaki Samura é lindíssimo, bem diferente da leva de mangás por aí.
    De Eva eu gosto muito mais pela maluquice da história. ninguém sabe ao certo de nada; é intrigante pensar num combate entre humanos, com sua tecnologia como arma, e ‘Anjos’. É uma luta contra Deus? isso não fica explícito. Fica esse enredo aberto pra se pensar.

  13. 13 Fabio Juan

    Estava eu procurando sites relacionados aos hq’s da Marvel e a Guerra Civil, e eis que achei este teu site, que gostei muito.
    Bem, há mais ou menos uns 10 anos atrás eu estava com 13 anos e comecei a colecionar os quadrinhos da DC, especificamente o Super-Homem, justamente naquela época da saga “A morte do SH”. Aliás, este título foi o que me chamou a atenção (a publicidade foi forte, toda banca havia aquela propaganda com a capa do Super rasgada e cravada num solo acidentado). Ela me despertou o interesse pelo mundo dos heróis em quadrinhos. Mesmo após o fim da saga da morte do SH, eu não conseguia mais parar de acompanhar a saga e os quadrinhos que seguiram, e os novos quadrinhos que surgiram ao fim da história. Eu até me arrisquei a colecionar alguns números do aranha, justamente na saga do clone rsrs… mas comprei umas 2 revistas só e parei.
    Aliás, esse lance de criarem novos quadrinhos por causa de uma saga, na qual a história de um se completa na revista do outro é o começo do fim, na minha opinião. Acho que é um absurdo, um abuso, e um golpe de marketing muito injusto para o leitor. E me dei conta disso ainda com 14 anos.
    Eu estava acompanhando “Super-Homem”, uns 10 números ou mais depois da morte, e fui obrigado a acompanhar a nova revista “Super-boy”. A cada número eu me decepcionava cada vez mais, com ambas as revistas. A idéia de surgirem clones do SH foi uma boa, convenhamos. Mas daí criar uma revista nova para um clone fajuto, que nem tradição tem e obrigar os leitores a comprarem revistas de conteúdo geral duvidoso é um tremendo desrespeito e um incentivo ao abandono das mesmas. Qual é o problema de desenvolver a história em uma revista só? Fico pensando que eles subestimam a inteligência do leitor.
    **Finalizando**: Agora 10 anos mais tarde, com esta saga da Marvel “Guerra Civil”, eis que o meu gosto (vício, compulsão) em colecionar revistas de super-heróis voltou. E está sendo prazeroso, visto que estou lendo junto com a minha namorada, simpatizante do Homem-Aranha. E após ler esta tua reflexão “Das Blasfemias 1 e 2″ parei pra pensar: será que vale a pena? Porque, pelo que vi, nada mudou nesse mundo das hq’s marvel/dc.
    É até bacana uma saga ser abordada por várias revistas, com essa sincronia dos tempos e tudo mais. To comprando todas as revistas que tem a ver com a guerra civil, até mesmo as de números anteriores.
    Mas não sei se vale a pena gastar dinheiro pra ver o capacho-aranha-de-ferro, a revista da “mulher-hulk” camuflada como “Avante Vingadores”, ver que o Wolverine ainda continua na mesma ladainha de sempre em saber suas origens (além de ver alguns traços horríveis de certos desenhistas, principalmente nessa edição 32), uma “mulher-aranha” que nem tem nada com peter parker, uma puta de uma história mediocre com “Cable e DeadPool” e “Bad Girls Ltda”.
    Acho que eu tava querendo me enganar, levado pelo impulso e saudade… mas novamente to caindo na real. Depois dessa saga, certeza que não vou mais acompanhar tais revistas, pq afinal, 700 reais em revistas pra acompanhar uma saga não é pra qualquer trabalhador. No máximo vou comprar as anuais, especiais com histórias clássicas e afins.
    Lamentável.
    Bom, desculpe pelo tamanho disso aqui cara… é que eu não tenho blog mas precisava expressar isso a vc, acho que me entende.
    Abraços

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