Nossa postura diante da morte é ignorá-la. O máximo possível. Até o limite do aceitável. Agimos diante da indesejável como se a própria menção da verdade de que podemos morrer a qualquer momento transformasse a inevitabilidade distante em uma possibilidade palpável. Mencioná-la é atraí-la. A morte é o Besouro Suco.
Venho notando isso de dois anos pra cá. Sempre que menciono que minha irmã morreu, geralmente respondendo a alguma pergunta relacionada a ela, recebo, como resposta, um pedido de desculpas.
Interpreto esse “Ah, desculpe” como um “Ah, desculpe-me por te fazer lembrar desse assunto desagradável”. Porque na verdade eu nunca penso nisso, no fato de que minha irmã está morta. Não é como se eu me lembrasse, todos os dias, assim que acordo, do fato de que não, não posso ligar pra Janaína. Não é como se, depois de sonhar com ela, e logo ao acordar, eu passasse alguns milésimos de segundo pensando “Ei, a Jana ia gostar de saber desse sonho, vou ligar pra ela e…OHWAIT”. Não, eu nunca me peguei tentando lembrar do dia em que a Janaína e a Fernanda se conheceram, por um breve instante, só pra me lembrar que na verdade elas não se conheceram, e não vão se conhecer nunca, porque quando uma chegou a outra já tinha ido. Não pense você que eu sinto falta dos e-mails que ela mandava, dos recados que deixava no orkut e que fico triste ao perceber que o facebook tem um campo SISTER, que é o lugar dela, mas que ela nunca vai ocupar. Não, amigo, eu quase nunca lembro da Janaína, e nunca, nunca me peguei pensando - de forma surpreendentemente mórbida - em como será que está o cadáver dela naquela sepultura, próximo aos restos do meu avô, se já é apenas um esqueletinho de peruca, e como deve estar hilário, e em como ela iria rir se eu comentasse isso com ela. E eu não sinto, todo maldito dia, uma saudade que não tem fim da risada dela, que eu QUASE consigo ouvir, mas não consigo, ao mesmo tempo, e minha vida agora nem é essa sucessão de retornos bruscos à realidade, e eu não vejo, todos os dias, alguma guria que me lembra ela, e as irmãs da Fernanda também não me trazem a Janaína à memória, e eu não vivo me perguntando o que ela acharia da minha vida agora, da minha presença no Rio, e se ela já teria vindo me ver, e como a gente se divertiria quando eu contasse pra ela dos ratos e tudo mais, e quantas coisas constrangedoras da minha infância ela ia contar pra Fernanda, e eu não me lembro, com pesar, que nós um dia marcamos de ficar bêbados juntos, mas nunca ficamos, porque eu praticamente não bebia naquela época.
Não, eu não me lembro da Janaína quase nunca, tem razão, foi apenas você surgir, com o gancho para esse assunto funesto, que ela me veio à mente. Que vergonha, meu amigo, que vergonha. Mas deixe pra lá, está perdoado, que essas coisas acontecem. Só não faça de novo, por favor, e vamos mudar de assunto e falar de coisas mais felizes. Que importância tem uma irmã morta, afinal?

Falam por educação tb
Peraí, eu não entendi direito. Você pensa constantemente na sua irmã? Ou não?
É meio irônico e ao mesmo tempo sério. Eu fiquei confuso. hahaha
Eu passo exatamente por isso quando mencionam minha mãe. Só que, ao contrário da tua irmã, ela já morreu há quase 20 anos, então fica uma situação meio cômica, às vezes. Porque além de tudo, eu ainda invento de fazer uma piadinha de humor negro, e o povo se ofende por mim, acha que eu tô maluco ou coisa assim.
Não sei se já te aconteceu, mas às vezes me perguntam se sinto saudades. Mas são tantos anos, a rotina é tão outra, que não sobra espaço pra saudade. Há lembranças, muito de vez em quando, mas vão tão rápido quanto vêm. E na negativa à resposta feita, eu recebo um “ai, credo!”, como se não sentir saudade fosse algum pecado.
Não julgo quem pergunta, porquê como já disseram, é por educação, creio eu. Meio lugar-comum, mas acho que só passando por isso pra entender.
Abraço!
Atualiza essa porra, mermão!
É triste não poder lembrar das coisas boas que não existiram justamente porque ela seguiu por outro caminho. A vida é cheio dessas surpresas tórpes. E injusta, porque consegue sacanear qualquer um que apenas exista.
Por algum motivo tu me bloqueou no twitter, mas o teu blog continua na aba “blogs” dos meus favoritos e eu continuo achando bom #prontofalei :)
Que coisa… Linda?
Durante e agora, após a conclusão, me percebo emocionada, arrepiada. Nunca pensei muito nessa coisa de perder alguém importante, deve ser pelo fato de não haver perdido; parei pra pensar sobre isso um instante, e quase sinto um pouco da sua dor.
Ao ler As Intermitências da Morte, Saramago, me achei tão mais preparada a perdas (pensei: ah, depois de ter lido esse livro, sinto-me bem mais apta a perder alguém, visto que a morte é algo necessário à vida). Mas analisando o que você escreveu, vejo bem que não. Nunca estamos prontos para algo tão certo, porém tão doloroso.
Meus sentimentos, pela ausência de alguém tão querida.
Oi, estrupício…
Lembra ainda dessa vaga caminhoneira?
Finalmente botou alguma coisa boa aqui…
É bem assim que às vezes eu me sinto também…
Um abraço forte.