Eu tinha uns 15 anos e esse livro enorme do colégio, que era do ano passado, daqueles consumíveis, ou seja: escrevíamos no próprio livro. Então não havia chance dele passar pra um aluno que viesse atrás de mim. Sendo assim, seria jogado no lixo pela minha mãe tão logo a velha tivesse outro surto de desapego material.
O problema é que o livro, de português/literatura, tinha um conteúdo excepcionalmente bom. Por ele tive contato pela primeira vez com Calvin & Haroldo, o viés político da Mafalda, Fernando Pessoa e heterônimos, o discurso final d’O Grande Ditador, etc, etc.
Diante da possibilidade de ver tudo aquilo sumir no lixo qualquer manhã daquelas, graças à minha mãe e seus periódicos ímpetos de arrumação, recortei várias folhas do livro para manter o que me interessasse. Era uma tarde quente em Maceió e eu me sentei no chão do meu quarto com uma tesoura, o livro, música e tempo livre. Ainda vestia a calça jeans que usara no colégio, pela manhã, um par de meias e só. A camisa do uniforme estava amarfanhada sobre minha cama, com ela meu prato sujo do almoço e um copo vazio. Tinha às minhas costas minha poltrona-cama - onde a Jana dormiu quando foi passar o carnaval com a gente - em cuja base me recostava, porque a parte onde deveria colocar minha bunda estava tomada por tralhas. Havia levado a Bárbara ao colégio um pouco antes e minha mãe não ia chegar antes das 18. A empregada estava ocupada com assuntos dela e não iria me interromper, também (a Madá nunca incomodava). Eu tinha uma bicicleta chamada Clementina, um aparelho de som e uma coleção modesta de quadrinhos, outra de chaveiros. A vida era simples e boa. Eu fazia teatro e gostava, tinha pouquíssimos mas fiéis amigos, nadava pelo menos meia hora, diariamente, na piscina do condomínio, sem que ninguém me importunasse e morava a 30 metros da orla, onde saía para pedalar ao cair da tarde. Meus irmãos estavam todos soltos e vivos. E longe, em sua maioria, mas isso nem me incomodava.
Enfim. Recortei diversos pedaços do livro e tinha uma pilha respeitável de textos e imagens e tirinhas ao fim dessa atividade. Catei um caderno velho e, para preservar tudo, fui colando em suas páginas todos aqueles pedaços de idéias que de certa forma me transmitiam qualquer coisa.
Muitos dos meus poetas e poesias preferidos até hoje me foram apresentados naquele livro. Do Bilac eu nem gosto muito, mas havia esse poema dele que acabei guardando, Nel Mezzo Del Camin… . Segue abaixo:
Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha…E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.Hoje, segues de novo… Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.
Na época tinha a impressão de que a poesia tratava de separação. E é óbvio que trata, mas achava que era essa separação romântica, entre dois amantes que seguem caminhos distintos em determinado momento da vida, qualquer que seja a razão. E era triste, e só.
O negócio é que esbarrei com esse caderno hoje, mexendo em algumas coisas no meu quarto. E Nel Mezzo Del Camin… estava lá, e reli. E agora é sobre separação, ainda, mas isso da minha irmã ter morrido contextualiza de forma completamente diferente. Depois disso, não é mais sobre perder uma mulher, é sobre perder um pedaço, raízes, um trecho da sua história, da sua vida. É sobre olhar pra trás e ver, lá longe, lá atrás, na extrema curva do caminho extremo, alguém que largou sua mão e ficou, enquanto você segue (porque não existe outra opção).
Era um bom poema.
Agora é um dos melhores.
Contexto é tudo.

De fato, contexto é tudo. :)
Sabe Pedro, eu também guardo o meu livro de Literatura de quando tinha 15 anos e não consigo me desfazer dele, a minha mãe que tem os mesmos periodicos ímpetos que a sua já deu um fim a todos os outros daquela epóca, mas eu nunca deixei que ela fizesse o mesmo com este, pois como vc foi através dele que tive contato pela primeira vez com muitas autores e trechos de obras. E mesmo tendo o mesmo conteúdo sempre, toda vez que eu vou ler algo nele vejo sempre com outro olhar. Depende do Contexto mesmo.
Triste que isso esteja acontecendo diante desta situação pra vc.
Mas continue seguindo mesmo, sei que vc é forte o suficiente pra isso.
Ah, mas me diga vc lembra de quem era o livro?
Cuide-se.
Beijos.
:)
Queridão, adorei essa postagem! Também sou dessas que têm caderno com poemas e letras de música - os meus são escritos com a minha letra mesmo, sem colagem.
Engraçado que ao ler o poema tive a mesma impressão que vc, primeiro pensei numa separação, depois, na separação derradeira.
Vamo que vamo.
beijos
Tem uma música da Fleetwood Mack chamada Landslide e que costuma enganar pessoas mais jovens também. Quando ouvimos a música parece triste (muito pela voz da intérprete) e parece tratar-se de uma mulher que foi abandonada. Mas na verdade a música foi escrita para o pai da cantora quando ela era mais jovem, um sentido que é quase impossível de se perceber a menos que se tenha filhos.
Eu nunca parei para ler Bilac.
Esse poema é forte, e os “significados” dele são ditados pelas despedidas, em suas diferentes nuances.
Força? Coragem? Não sei…
Um beijo