Das ironias da justiça

Durante um certo período da minha vida, fui um ateu fervoroso cuja grande diversão, ao conversar com teístas, era apontar erros em suas certezas (de preferência fazendo com que parecessem idiotas por ter fé naquilo e coisa e tal). Com o tempo e uma boa dose de sabedoria - que FELIZMENTE veio com o tempo, e é das únicas coisas boas que ele traz, junto com a velhice, as doenças, a degradação física e moral e um realismo cínico -, acabei percebendo que o ateísmo que eu praticava de forma tão religiosa era exatamente isso: uma religião. E envolvia muita fé na minha crença - tão carente de embasamento quanto a de qualquer teísta - de que deus não existe, e que não passamos de poeira galáctica com delírios de autoimportância.

Vem daí que atualmente sou um agnóstico. Não existe arcabouço lógico que permita a qualquer um negar OU afirmar a existência de um gerente nesta birosca. Sem dúvida é perfeitamente possível discutir com cristãos, por exemplo, e questionar suas afirmações disparatadas a respeito da “vontade divina”, dos meios adotados pelo criador para atingir seus objetivos. É possível inclusive questionar a idéia de que deus, se existe, tem qualquer objetivo. Você pode dizer que eles estão errados, por exemplo, ao afirmar peremptoriamente que o velho Javé não gosta de brincadeiras. Existe um forte argumento contra isso, chamado ORNITORRINCO. Também pode rir quando eles dizem que o todo-poderoso é um cara bacana. Existe outro forte argumento contra isso, e chama-se JAQUEIRA. Um cara sem senso de humor não cria um bicho escroto como o ornitorrinco, um cara legal não colocaria uma fruta de 5 kg no topo de uma árvore de 10 metros, enquanto morangos nascem ao rés-do-chão.

Ou seja, EXISTEM argumentos contra as afirmações dos teístas em relação aos desígnios divinos. Até mesmo em relação à natureza de deus. Porra, deus sabe (opa!) que existem argumentos até mesmo em relação ao modus operandi deles ao lidar com o criador.

Mas não existe um argumento consistente a respeito da inexistência divina. Ou da existência, também. É tudo uma grande interrogação. Uma pergunta daquelas para as quais nós não temos resposta. Nosso conhecimento não atingiu tal magnitude ainda, e cientistas que se aprofundam em suas áreas de conhecimento chegam a um beco sem saída. Alguns, nesse ponto, partem para o estudo e a criação de novas teorias. Outros, apesar de continuarem estudando, fazem referência a algo como “uma força maior”.

Um cientista sem muito talento para a ciência - que é, essencialmente, a curiosidade humana se manifestando com método - bate naquele ponto, resolve que não existe explicação lógica e vai cuidar de outro assunto.

Mas enfim. Voltando aqui aos ateus, é triste que não percebam, do alto de sua fúria “racional”, de seu apego raivoso a uma certeza que não podem provar - porque não se pode provar a inexistência de algo, como parece evidente -, o quanto são ridículos e fundamentalistas. Mais do que muitos dos cristãos proselitistas, que tanto os irritam. Mas em relação a um ponto, preciso dar razão a eles: não existe grupo mais desrespeitado do que o das pessoas que não acreditam em deus.

E não falo dos que NEGAM deus. Falo dos que negam e dos que, como eu, não perdem tempo tentando criar argumentos - fracos, via de regra - a respeito desse assunto.

Uma pesquisa recente mostrou que só os usuários de drogas recebem tanta repulsa/ódio da população em geral quanto os ateus. Acha que eu tô exagerando? Confere aí:

pesquisa
Clica aí pra ver maior, filho.

- Mas você não é um ateu, Pedrones, vem negando isso desde o começo do texto.

Tô ciente, gafanhoto. Mas pra maioria do populacho teísta, infelizmente profundamente ignorante sobre a natureza da fé e das religiões, só existem duas vertentes: ateus e GENTE BOA. Agnósticos definitivamente não estão no segundo grupo. O que significa que, em matéria de opróbrio, é necessário juntar um aidético, um traveco e um ex-presidiário pra competir comigo.

Esse desrespeito pelo não-teísmo, qualquer que seja a forma que tome, é muito claro e começa com aquela piadinha que associa ateu a à-toa, mas não pára aí. Sempre que alguém questiona seus valores morais, ou demonstra pena diante de sua descrença; sempre que dizem “um dia você vai enxergar deus” ou dão a entender que essa é apenas uma “fase de rebeldia”; sempre que sua postura religiosa é colocada em xeque, enfim, não com argumentos e tentativas de entender sua compreensão do maquinário que move esse plano de realidade, mas com demonstrações de superioridade e/ou troça: essa é uma forma de desrespeito. É você sendo tratado como o que é: um pária.

Agora vem o X da questão, que me conduziu a todo esse raciocínio: ateus nessa situação encontram-se numa sinuca de bico. Porque, veja só, amigo ateu que se sente desrespeitado em sua descrença: a lei lhe ampara! Você pode processar aquele que te constranger, baseado no art. 208 do Código Penal.

MAS - e aqui está o pulo do gato - para isso é preciso alegar que sua CRENÇA RELIGIOSA foi menosprezada. Que aquilo em que você ACREDITA, aquilo no que CRÊ, a idéia na qual deposita sua FÉ foi vilipendiada.

Basicamente, precisará alegar que, sendo ateu, tem uma crença. Que não acreditar em deus é sua religião. Vai ser preciso admitir que o escárnio foi direcionado não aos seus argumentos, mas à sua fé.

Em suma, ateuzinho raivoso, a lei te ajuda, mas você precisa se contradizer. Diz aí: cê tem bagos pra tanto?

Duvido.

25 Responses to “Das ironias da justiça”


  1. 1 João Pedro

    Eu não tenho bago nem pra assumir um agnosticismo ainda.

    Dois casos recentes: fui desejar ano novo pra uma guria, cheio das gracinhas, “muito álcool, dinheiro, paixões nesse novo ano, blablabla” e ela “faltou o principal: Jesus!”. Eu só pude dizer “é!”. Outra resposta e eu teria 42% de chances (vide gráfico) de ganhar a antipatia dela.

    Outro dia estava com um conhecido - cachaceiro e metido a brigador. No carro dele um adesivo do tipo “só Jesus salva”. Olhei para aquilo e disse “chegou o cara religoso”. E ele respondeu, bravo: “O que que tem?! Tu não acredita?!”

    Nem me arrisco a tentar argumentar :\

  2. 2 Cátia

    Pedro, devo admitir que detesto ficar elogiando teus textos, mas neste caso, é impossível.
    Eu não sou à toa, não sou agnóstica [sei lá que razões me tornam tão contraditória], mas eu concordo com cada linha de cada argumento daqui, especialmente no que se refere à burrice “religiosa” na defesa espumante de qualquer crença ou falta dela.
    Parabéns!
    =)

  3. 3 Hugo

    Concordo, ateísmo é tão babaca quanto aquele padre vendedor de CDs. Mas confesso que ainda vou mais com a cara do ateu, já que pelo menos nos outros assuntos ele não tenta te convencer com argumentos como “mas somos todos criaturas de Deus”, “estão subvertendo a criação do Senhor” ou “tu vai pro inferno por isso, mané”.

    E é por isso que acho que devia existir um jeito mais fácl de defender o ateus e nós, agnósticos, desses caras que ficam espalhando a religião deles por todos os lugares que podem.

  4. 4 marcus

    Há um ano, mais ou menos, cheguei à mesma conclusão que tu colocou nos dois primeiros parágrafos. Desde lá, me considero agnóstico com forte propensão a crer na não-existência divina.

  5. 5 Cynthia

    Eu ainda não sei onde me encaixo, só concordo com um adesivo de pára-choques que diz “Não tenho nada contra deus, o fã-clube dele é que me enoja”. Mas - sem querer caçar briga, juro, só por curiosidade e amor pela argumentação mesmo - eu te pergunto : não é preciso ter mais bagos ainda pra se assumir ateu contra todo esse ódio cristão (hehehe) quando nem mesmo a lei, que acomoda e protege caras como o bispo Macedo e cientologistas em geral pode ajudar de verdade a quem é discriminado por não acreditar em algo, ou melhor, em “Alguém” ?


    É um bom argumento, Cynthia, e já o ouvi mais de uma vez. Se não me engano, o Idelber Avelar, d’O Biscoito Fino E A Massa, escreveu sobre isso em meados do ano passado. Mas não é preciso ter muito bago pra se declarar ateu, não, se quer saber. Pra ser sincero, esses caras são até bem frouxos. Esse desprezo todo deles, até onde eu já vi, se manifesta de forma não-violenta. Uma ou duas vezes apenas eu quase tive que partir pras vias de fato com um mais exaltado. Mas no geral eles só te diminuem moralmente. O que, pra ser sincero, me incomoda mais do que um pescotapa.

  6. 6 Amanda Ourofino

    Esse ficou foda mesmo… ainda vou publicar uma coletanea dos seus posts… RS

  7. 7 Dois Espressos

    Ia deixar um comentário gigantesco, aí ache melhor escrever um post.

    Um homem sem religião é como um peixe fora do aquário…

    http://doisespressos.wordpress.com/2010/01/16/um-sujeito-sem-religiao-e-como-um-peixe-fora-do-aquario/

  8. 8 Lucas Couto

    Cara, acho que seu texto faz sentido, e realmente muitos ateus defendem as próprias ideias com uma raiva que apenas depõe contra quem não tem religião.

    Mas há um detalhe que escapou. É lógico que é impossível provar a inexistência de deus, assim como é impossível provar a inexistência de qualquer coisa (filosoficamente falando). Por sinal, no instante que vc lê esse comentário, pode haver um unicórnio sentado a seu lado. Ou um saci. Ou um fantasma. Ou deus. E vc nunca vai conseguir provar que não está lá…

    O ponto não é provar ou não a existência ou inexistência de algo, mas como você pauta suas ações.

    É por isso que eu costumo dizer que não existem agnósticos. Porque, ainda que no campo da argumentação você possa defender que se abstém da conversa sobre a existência ou não de um ou vários deuses, em algum ponto você terá que viver. E eu acredito que é o modo como você vive que determina suas crenças.

    Resumindo, você vive como se existisse um deus ou não? Diante de um problema você reza, pensa, chora, desiste ou o que mais?

    Eu mesmo digo às pessoas que sou ateu, mas que admiro muitas filosofias, como a budista, e até mesmo a cristã, principalmente no que diz respeito à valorização da bondade e do equilíbrio pessoal.

    Mas, no final das contas, eu vivo meu dia-a-dia ignorando a potencial existência de um ou mais deuses, o que, na minha opinião, faz de mim um ateu.

    No fundo, acho q a discussão sobre o título que damos pras nossas crenças é bem menos relevante do que o que fazemos a cada 24horas que temos… =)

    Abraços!

  9. 9 Gustavo C.

    Deus seja louvado - dizem as cédulas na minha carteira. Ironia é o que não falta. E ironia chega a ser um eufemismo.

    Muito interessante o texto. Tenho gostado cada vez mais de ler este blog. Pois agnóstico é a palavra que melhor me define nessa área, mas tbm sou “ateu simpatizante”, por ter desenvolvido uma profunda antipatia por religiões dogmáticas, manipuladoras e preconceituosas. Minha impressão é a seguinte: o ateísmo pode ser uma religião com fé e tudo, mas com uma diferença importante: não tem a encheção de saco das religiões (e encheção de saco tbm é só um eufemismo).

    Li Um Estranho Numa Terra Estranha (que tomei conhecimento aqui) e entre outros trechos, guardei este: “A única opinião religiosa da qual me sinto seguro é a seguinte: a consciência não é só o entrechocar de um punhado de aminoácidos!” - Explica bem o meu agnosticismo. Tento encontrar o que faz sentido pra mim, e uma coisa que não faz sentido é passarmos por toda essa vida conscientes da nossa existência, cheia de acontecimentos bons e ruins, para depois morrermos e desaparecermos, apagando eternamente como se nada tivesse acontecido. Por isso penso que deva existir um “além”, mas como é esse além eu não sei, é só um pensamento amplo e vago na minha cabeça, impossibilitado de me dar certezas.

  10. 10 Chico

    Não é questão de ter bagos, é questão de lógica: não há religião na descrença. Não há religião só de crer em algo. E também não há religião só na fé de algo.

    Você pode ter fé em algo sem que isso seja uma religião. Não importa se a sua fé a mais arrebatadora e maior fé que o infinito já viu: isso não te torna religioso. Religião é outra coisa. Você pode tê-la sem ter fé em algo também. São coisas absolutamente diferentes.

    Vocês diz ter evoluído tanto do seu ateísmo para o seu agnosticismo, mas não parece.

    Ainda por cima, reforça o estereótipo de preconceito: para enfrentar o preconceito, acha graça do fato de que ateus devem dizer que são o que não são. Ainda deixa implícito que só se importa com a situação porque é o seu que está na reta também (o que não tem nada a ver com o assunto, mas dá uma dica do seu caráter).

    A propósito: sou agnóstico. Mas eu pelo menos procuro me informar sobre as coisas. Uma coisa é não saber a realidade última das coisas que, realmente, não sabemos. Mas isso não significa que todos os deuses são igualmente possíveis. E, como eu já disse: achar que ter fé em algo é seguir uma religião é a prova que denuncia sua ignorância sobre o assunto.

    1) Eu JAMAIS disse que crer em algo é necessariamente adotar uma religião. Eu deixei IMPLÍCITO que fé e religião são coisa que, na nossa sociedade, freqüentemente são compreendidas como aspectos que caminham juntos, não disse que são A MESMA COISA. Pra chegar a essa conclusão você deve ter feito alguma gambiarra escrota das idéias do texto dentro da sua cabeça, o que mostra, da sua parte, certa falha de concentração ou de capacidade de interpretação. O que quer que seja, eu sugeriria a você ler as coisas duas vezes. Assim, quem sabe, não diz bobagens como essa. É pro seu bem, amiguinho.

    2) Quanto ao estereótipo que você afirma que eu reforço, na verdade eu tava MESMO sacaneando os ateus. Sabe, eu gosto de ver esses caras se fodendo, como gosto de ver os teístas se fodendo. Ver essas pessoas caindo em contradição é minha grande diversão na vida. E não, eu não me importo com esses dados aí, mesmo com “o meu estando na reta”. Sou bastante alheio à idéia que a população em geral tem do que eu penso ou faço, até porque a população em geral é bastante idiota. Quanto ao meu caráter… medir isso por um texto desse? Sério? Pra um cara tão inteligente e iluminado… Eu esperava mais de você, Chicão!

    Sobre ser agnóstico: bacana. Bom pra você! Parece que existe esperança pra todo mundo. E, por gentileza, mostre-me onde eu disse que TODOS os deuses são igualmente possíveis, sendo que eu disse claramente que é perfeitamente possível questionar a compreensão que certos teístas fazem de deus.

    No mais, tenho certa ignorância em relação a religião, mas você não foi capaz de identificá-la ou apontá-la corretamente em momento algum. Só mostrou uma boa dose de ignorância no que tange discutir civilizadamente, vindo com essa truculência desnecessária. Na próxima eu desço pro seu nível, dessa vez preferi editar seu comentário pra um nível mais educado. Assim você não paga de babaca na frente de todo mundo, isso fica só entre nós. Abração!

  11. 11 dotzero

    na minha humilde opinião: acreditar ou não acreditar é como estar apaixonado. Ninguém pode te dizer o que vc sente, da mesma forma que não se pode questionar o que não se sente.
    Acho muito mais válido discutir um assunto (civilizadamente) buscando entender os pontos de vista do outro e sem impor os meus.
    No mais seu texto está impecável. Me sinto feliz por estar lendo conteúdo tão bom as 4 da matina. (:

  12. 12 Marivone

    Concordo com dotzero, texto impecável.

    Agora, analise isso e entende o ‘poder’ da religião:

    Sou estagiária de uma Vara de Execuções Penais. Lá, todo preso foragido que vai se entregar, além de um milhão de razões para ter fugido, leva o que nas mãos?

    Uma bíblia.

    O que isso lhe confere? A imagem de que, embora foragido da Justiça, embora assassino, estuprador, ou seja lá o que ele tenha feito, se redimiu e está SE MOSTRANDO (A Bíblia) uma pessoa melhor…

    Pode?

    ;)

    No mais, já sofri zilhões de retaliações por ser uma pessoa não crente e, pasmem, as pessoas que gostam muito de mim e são minhas amigas, mesmo respeitando o fato de eu não acreditar, são… Evangélicas. hauhauah É complicado, mas praticamente todas as pessoas que me rodeiam (até minha cabeleireira), que eu adoro e que me adoram de volta são fervorosamente evangélicas - daquelas que não saem no sábado, não comem coisas que ciscam ou andam pra trás e coisa e tal. Muitas dessas pessoas, inclusive, insistem em dizer que rezam por mim e blá blá blá… Quando conquisto algo, elas insistem que foi Deus que ouviu suas preces (queria ver se aconteceria o mesmo se eu não estudasse…).

    Anyway, hoje, aos 26 anos, aprendi a relevar e ouvir, sabe? Assim como elas me respeitam por eu acreditar, aprendi a respeitá-las por acreditar e ponto final.

    No fim das contas, a vida é feita disso: respeito.

    ;)

  13. 13 Marivone

    ooppsss… Assim como elas me respeitam por NÃO acreditar, eu as respeito por acreditar, mas, sem nunca deixar de insistir que eu acho religião algo perigoso - vida a história universal.

    ;)

  14. 14 Débora Melo

    Atualmente não sei o que eu sou e sei que nomes não são tão importantes. já batizei (pasme) e hoje não sei dizer se acredito ou não. sei como é a realidade de crentes e sei o que pregam. E se Deus existe mesmo ele não é deus de guerra ou vingança e muito menos de convençoes sociais. pois igrejas pregam pelo medo e pela represália. Assim como quem acredita em deus e quem não acredita não há como provar, cada um dos lados terá seu argumentos para a defesa.

  15. 15 Daniel Bastos

    Eu ainda acho que a melhor forma de se evitar um embate filosófico-teísta é dar uma transada bacana.

    Fique à vontade pra comer a bunda do Chico, amigo.

  16. 16 oberdanorris

    Está aí uma coisa, muitos me consideram ateu, mas sempre disse que não fui, até então, não sabia como me definir, só não acredita na existência “daquele Deus” e da bíblia.
    Mas só em falar isso, causava revolta do tipo “tu é ateu, merece apanhar cara” amigos falando isso, pergunto-os se isso é ato “que deus aprovaria” bater em mim por ser “ateu”, então.
    Excelente post, sem mais.

  17. 17 Alf

    bem, eu gostei muito do texto. eu concordo com o a observação de que o ateísmo é uma espécie de religião.

    ocorre que o problema está justamente no ponto da discriminação. religião, qualquer que seja ela, demanda uma fé pessoal. qualquer um pode estar no meio de um grupo e se dizer qualquer coisa. mas a religação é individual. nas entrelinhas das crenças, apenas estar no local do culto ou qualquer que seja a prática, não quer dizer absolutamente nada.

    sabendo disso, pode-se e talvez deva-se discutir o assunto. mas religiosos e anti-religiosos não travam discussões para esclarecimentos ou aprofundamento do ponto de vista. travam discussões por adeptos.

    creio que isso não é mais religião. vira qualquer espécie de doutrinação ideológica.
    não?

  18. 18 Déia

    Como diria uma música apaixonante: “Mas a dúvida é o preço da pureza, e é inútil ter certeza”.

    Amor… Questões como essa mostram que você continua em cima do muro, mas que esta posição o incomoda muito.

    Beijos

  19. 19 yoko

    a melhor maneira de se identificar com algo é sendo algo. mas isso só se trata de mais um ditado mineiro sem intenção e justificativa de participar de um embate tão fervoroso quanto a fé, ou não fé. este país é muito religioso e as pessoas, mesmo não se prontificando a levantar uma bandeira, acabam concordando ou argumentando em pró de uma religiosidade inexistente. daí me pergunto, porque ‘diabos’ expulsaram o saramago mesmo?

    gosto muito de uma teoria de um nobre colega: está cansado de ser enganado? crie sua própria religião e viva de donativos alheios.

    dinheiro compra tudo.

    =)

  20. 20 Rodrigo Souza, a.k.a. Sargento

    Estou em processo de mudar de apartamento. E como é comum nessas horas, um monte de bagulho empilhado tem que passar pelo seu julgamento: o que vai pra minha nova casa e o que vai ficar na casa da mamãe? Nessa de passar os olhos no que é útil e no que não é útil, folheei um mangá que eu curti muito quando era mais novo mas ainda hoje me surpreende com alguma nota filosófica interessante: Vagabond, a história de Miyamoto Musashi.

    Em certo ponto da história Musashi quer enfrentar Yagyu Sekishusai, um grande mestre da esgrima, considerado invencível, para ele mesmo poder se sagrar invencível. Após duro embate, Sekishusai acaba revelando que a busca dele pela invencibilidade nunca vai estar completa pois seu espírito está aprisionado pela palavra invencível.

    Assim que li seu texto, que me foi passado pela Gizelli, lembrei imediatamente dessa história. Talvez ateísmo e agnosticismo acabem por ser palavras-estanque que delimitam nosso agir. Eu sou ateu pelo fato de não dar crédito as muitas histórias que fui escutando ao longo da vida das mais diferentes origens religiosas. E não dar crédito leia-se apenas que pesei os argumentos que me foram dados e baseado naquilo que é chamado de senso-comum, e concluí que não passa de mais uma das muitas possíveis histórias para explicar o então inexplicável. Poderia muito bem dizer que sou agnóstico, pois é bastante claro pra mim a nossa incapacidade de provar tanto a existência quanto a inexistência de alguma deidade.

    Tampouco ache que um seja evolução do outro, embora já tenha lido nos dois sentidos: que agnosticismo é uma evolução do ateísmo e vice-versa. Perda de tempo, diria.

    Mas porque escolhi ateu e não agnóstico? Porque ambas são apenas palavras e o contrato social meio que diz que tenho que escolher uma. E mesmo a tendo escolhido, muitas vezes quando perguntado sobre se vou a uma igreja/templo/terreiro respondo apenas que não, não sou religioso. Dizer que não é religioso causa menos ojeriza do que se afirmar ateu! O problema do rótulo de novo.

    Gosto da forma como Asimov vê essa questão e se posiciona como um humanista, traço marcante de toda sua obra. Embora escrevesse basicamente sobre robótica, é na sua escala humana onde ele mais se apoiava. E é dessa forma que gosto de pensar. Que estudo o ser humano, de como ele inventou as religiões da mesma forma que ele inventou máquinas como o martelo, o machado, o arco e tantas outras. São próteses que expandem seus limites corporais, pegando uma carona em McLuhan, que de alguma forma ajudam a viver no mundo material onde ele surgiu. Algumas pessoas fazem uso da ferramenta da religião, outras prescindem de seu uso.

    Acho que me alonguei demais para um comentário.

    Ótimo blog. Volto aqui mais vezes.

  21. 21 Lontra

    Então. Eu estava divagando em minha cabeça sobre isso outro dia.
    Na ocasião pensei: “pô, então os ateus acreditam que Deus não existe, ou não acreditam que Ele existe? Sim, porque se é a primeira, eles são tão fervorosos quanto a maioria dos crentes (católicos, protestantes e todo o resto), mas, se é a segunda hipótese, então eles são, na verdade, agnósticos, pessoas que, a meu ver, não querem nem saber”.
    E foi com esse pensamento que perdi toda uma tarde conjecturando sobre qual a melhor opção. Eu, definitivamente, deveria voltar a escrever no meu blog, pois talvez debater o assunto com outras pessoas seja mais produtivo que racionalizar sozinho. Ou não, como diria Caetano…

  22. 22 Lucas Couto

    Ótimo o ponto do/a Lontra;

    “Os ateus acreditam que Deus não existe, ou não acreditam que Ele existe?”

    Eu sempre digo que não acredito na existência de um ser superior às leis da física (se acabar o combustível de um avião, ele vai cair, não importando o quanto quem está dentro dele reze).

    Acho que há uma diferença gigante entre os dois termos. Acreditar que ele não existe pressupõe que, no momento em que aparecerem provas de sua existência, você possa continuar acreditando que ele não existe.

    Ao contrário, eu não acredito na existência de um deus, mas estou aberto a mudar de opinião assim que eu veja provas concretas de sua existência (só não me falem de milagres, curas impossíveis, ou qq coisa do gênero).

    Só a discussão semântica já é divertida =)

    Abs!
    Lucas

  23. 23 Dauton

    ótimo texto!

    eu sou ateu no sentido de que não acredito em nenhuma religião criada a partir de principios que existe um serr superior no qual submete seus subordinados a regrinhas e que, caso estes não as obedeça, vão queimar em algum buraco por ae,simplismente porque isso é “humano” demais pra ser algo “divino”

    e sou agnóstico no que se refere a questão de um deus no geral, um que talvez tenha dado algum “empurrãozinho” para que a vida(seja e qualquer lugar) fosse criada. afinal, como vc disse, ninguem pode provar nada.

  24. 24 gabi froes

    eu acho que fiz o caminho contrário, de agnóstica a atéia. eu concordo com os seus argumentos, mas acho que essa coisa de “crença” é meio forte. me defino atéia por não crer em um deus, não por crer ferozmente na inexistência de um. não tenho certeza de nada, e um dia vi que de declarar agnóstica era uma coisa meio em cima do muro. concordo que hoje em dia ser ateu tá na moda, e vejo sim esse radicalismo crescente, uma idolatria ao não-ídolo. mas acredito ser impossível a existência de um deus como qualquer um dos moldados pelas religiões que conheço, e nego essa existência. portanto, sou atéia, por definição. daí a ser raivosa, foi uma generalização sua : )

  1. 1 Um sujeito sem religião é como um peixe fora do aquário… « Dois Espressos

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